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domingo, 26 de setembro de 2021

Ao Domingo com... Sónia Marcelo


Chamo-me Sónia Marcelo. Sou Nutricionista e Nutricoach há 14 anos e sou uma apaixonada por ajudar
pessoas a serem mais saudáveis e a ganharem mais saúde e bem-estar através da alimentação. Tenho 2 meninos de 5 e 3 anos e se antes já promovia uma alimentação saudável e uma aprendizagem para as crianças, agora sou ainda mais defensora de que são os mais pequenos os grandes responsáveis pelo futuro alimentar da nossa sociedade. A educação alimentar tem de começar nas escolas e em casa, nas escolhas que os pais lhes oferecem.

Sou autora do site e da marca "Dicas de uma Dietista" e do livro "Guerra ao Açúcar" (2017).

O livro "Ementa Planeada, Cozinha Organizada" nasceu da vontade de ajudar as pessoas interessadas numa alimentação saudável a saberem planear as suas ementas, a ganharem mais tempo, a pouparem dinheiro e a evitarem o desperdício alimentar. Comecei por desenvolver o kit Plan 2 behealthy (https://dicasdeumadietista.pt/produto/kit-plan-2behealthy/) e a aceitação foi tão boa, que pensei "tenho de levar estes conhecimentos a mais pessoas". Como sabia, da minha experiência profissional que este tema da organização e das ementas era uma grande dificuldade, para quem quer ser mais saudável, resolvi avançar com a ideia para livro.


Neste livro vão poder encontrar o passo-a-passo para elaborarem uma ementa de forma fácil e prática, quais os alimentos que devem escolher, como arrumá-los na despensa e frigorífico e ainda a porção alimentar que devem consumir.

Quis facilitar o processo e por isso, ofereço 4 ementas totalmente planeadas e as respetivas receitas, assim como alguns bónus.

Espero que este livro vos inspire a serem mais saudáveis, a simplificar a vossa alimentação e a torná-la mais saborosa e apelativa. Sem dietas, sacrifícios e com uma poupança de tempo.


Sónia Marcelo

domingo, 29 de agosto de 2021

Ao Domingo com... Filipa Pimenta e Ivone Patrão

Por Filipa Pimenta, 

Escrito em conjunto com Ivone Patrão. 

Autoras da coleção infantil Pactor Kids (4 livros publicados)





Num dia de sol, em 2019, eu e a Ivone Patrão, ambas psicólogas, investigadoras e docentes no ISPA, dirigimo-nos ao habitual local de almoço. Perto do ISPA e junto ao rio, sentámo-nos na esplanada com os nossos computadores – companhia habitual dos nossos almoços. O ritual era quase sempre o mesmo: pedíamos as nossas saladas de legumes assados e chévre, falávamos das investigações em curso, refletíamos sobre os estudos do ano seguinte, analisávamos os progressos dos alunos que orientávamos, trocávamos ideias sobre as aulas que dávamos. Mas nesse dia houve uma mudança no ritual. 

Debaixo do sol quente de verão e com o Tejo a brilhar à nossa frente, decidimos não abrir os computadores e ter um almoço sem trabalho no prato. Falámos então das praias que adoramos e cujos areais já estávamos a aproveitar naquela altura do ano, aos fins-de-semana (costumamos passá-los quase na mesma praia, entre o Carvalhal e Troia), falámos dos projetos para as férias e dos filhos (ambas temos filhos pequenos, com poucos anos de diferença). 

Perdemo-nos nas conversas sobre os miúdos, tal como faz a maior parte das mães! Há sempre mais uma história que nos faz as delícias partilhar. Na altura em que os coloridos pratos de legumes e queijo derretido aterraram na mesa, já tínhamos saltado das histórias sobre os nossos filhos para as histórias que contamos aos nossos filhos. Eram histórias sempre com um propósito particular, mediante o dia. Se o dia tinha sido difícil, depois de ouvirmos o que se tinha passado, como se sentiam, contava-se uma história de superação, de resiliência (por exemplo, um urso pequeno que quer subir a uma enorme montanha; acha inicialmente que não é capaz, mas depois há uma transformação, pela tentativa e através do apoio, e lá descobre em si recursos que o ajudam a superar o desafio). Se o dia tinha sido marcado por uma situação de grande birra, com visível dificuldade em gerir as emoções, lá se inventava uma história sobre gestão emocional, por exemplo, de uma estrelinha que certo dia numa fúria muito grande por não poder continuar a brincar, partiu um brinquedo; a seguir teve a oportunidade, com o apoio emocional da mãe, de aprender estratégias para melhor gerir as suas emoções.

“E se nós publicássemos isto num livro...?”

A pergunta não teve uma resposta óbvia ao início. Tanto eu como a Ivone estávamos habituadas a escrever artigos científicos com os dados da nossa investigação ou capítulos de livros para manuais técnicos, na área da psicologia clínica e da saúde. Um livro infantil nunca tínhamos escrito.

Mas entre uma garfada e outra as páginas imaginadas do livro começaram a ganhar forma. O livro seria composto por uma história infantil com um propósito claro: promover na criança uma competência que fosse importante para o desenvolvimento saudável. Depois vinham as estratégias, descritas de forma clara e com exemplos práticos, direcionadas aos pais (uma secção de Dicas Parentais). “E não nos podemos esquecer dos Professores e Educadores” – disse a Ivone, habituada a trabalhar com esta população. “Eles têm igualmente um papel muito importante na promoção de competências nas crianças”. E assim, juntámos às páginas deste livro, ali imaginado, uma secção para professores e educadores, com uma atividade para implementar na escola, em sala de aula. Como somos investigadoras, a ciência tinha de estar aqui de forma destacada e por isso decidimos que a última parte do livro apresentaria uma breve contextualização científica, uma pequena revisão da literatura, sobre a competência que estávamos a promover com o livro.

Por altura do café, o tema já era outro. “E por onde começamos?” As ideias sucediam-se como as ondas do Tejo, que se atiravam voluntariosas contra o passeio marítimo, uma atrás da outra. “Temos de falar da autoeficácia, da crença de ser capaz de atingir objetivos. Mas não podemos deixar de parte a autoestima (a baixa autoestima é hoje em dia uma questão clínica tão frequente, já em crianças)”. E a autoregulação emocional? É imperativa. Muitos são os pais que nos procuram no consultório com dificuldade na gestão das emoções em crianças, já a partir dos 3 anos.

Esta parecia ser a decisão mais difícil: que tema escolher...? Eram todos tão importantes, cruciais para o crescimento que nós, como mães, queremos para os nossos filhos: um crescimento extraordinário.

“E se em vez de um livro, escrevêssemos uma coleção de livros?”. Lembro-me do olhar da senhora que nos levou o multibanco para pagarmos o almoço, chegando-se a nós precisamente quando foi verbalizada em voz alta esta pergunta, com a certeza de se ter tido uma epifania. Lembro-me que sorriu, provavelmente por algo que pensou sobre o seu dia, e não necessariamente sobre o que tinha acabado de ouvir na nossa mesa.

Passadas poucas semanas pusemos mãos à obra. Outras poucas semanas decorridas recebemos um abraço confiante da Editora PACTOR, que acolheu este projeto. Assim que escrevemos a primeira história, a talentosa Mónica Catalá deu-lhe vida com magníficas ilustrações.

E assim nasceu a coleção Outstanding Growth e uma nova chancela dentro da editora – a PACTOR Kids.

Os três livros que já estão publicados pretendem o que nós desejamos para os nossos próprios filhos: promover competências que permitam aos mais pequenos um crescimento extraordinário, saber que são capazes (“O Urso Tobias que queria ver a lua de perto”), com uma boa capacidade para gerir aos emoções em momentos desafiantes (“A estrelinha que muda de cor”), com a capacidade para se divertirem com e sem o uso de ecrãs (“O pássaro Nimas dá asas à diversão”), com a capacidade de gostarem de si próprios, entre muitas outras competências e histórias, que em breve crescerão extraordinariamente nas prateleiras das livrarias. 

Olhando para trás, aquele almoço em que nos comprometemos a não trabalhar gerou um dos melhores compromissos que temos hoje em dia em mãos e que tanto gostamos. 

Sobre as autoras: 

Filipa Pimenta


Psicóloga Clínica e da Saúde, com mestrado e doutoramento em Psicologia da Saúde (ISPA). Terapeuta familiar e de casal (SPTF). Desenvolveu, durante 20 anos, intervenção clínica no Serviço Nacional de Saúde (SNS), com crianças, jovens e famílias. Docente e investigadora no ISPA e no Applied Psychology Research Center Capabilities and Inclusion (APPsyCI), com publicação de vários artigos científicos e livros. Coordenadora do Projeto #GeraçãoCordão – Comportamentos e dependências online. Coordenadora do livro Intervenção em Ciberpsicologia. Coautora do jogo Missão 2050 – Promoção do uso saudável das tecnologias.

Ivone Patrão



Reconhecida Psicóloga Clínica e da Saúde, com mestrado e doutoramento em Psicologia da Saúde (ISPA). Terapeuta familiar e de casal (SPTF), desenvolveu, durante 20 anos, intervenção clínica no Serviço Nacional de Saúde (SNS), com crianças, jovens e famílias. É também docente e investigadora no ISPA e no Applied Psychology Research Center Capabilities and Inclusion (APPsyCI), com publicação de vários artigos científicos e livros. Coordenadora do projeto #GeraçãoCordão – Comportamentos e dependências online, que deu origem a um livro de sucesso. Coautora do jogo Missão 2050 – Promoção do uso saudável das tecnologias.


Texto da autoria de Filipa Pimenta com o apoio de Ivone Patrão

domingo, 1 de agosto de 2021

Ao Domingo com... Lénia Rufino


Era uma vez uma miúda que, aos 10 anos, decidiu que queria ser escritora. Assim, sem mais nem menos: “quando crescer, quero contar histórias, quero ser escritora de livros a sério”. Há quem sonhe ser astronauta, certo? Ser escritora pareceu-me ligeiramente mais exequível… Mas estamos em Portugal e o sonho demorou 32 anos a ser concretizado.

Perdi a conta das histórias que escrevi ao longo destes anos. Passei pelas fases todas: a das fanfics, por onde comecei (o primeiro “conto” que escrevi foi uma versão de episódios da telenovela Cinzas, que passava na RTP à data do acontecimento), a da poesia (tenho dezenas de cadernos cheios de poemas - a última contagem já tinha passado dos 1000. Algum se aproveita? Duvido muito!), a dos textos com pensamentos e não propriamente com histórias, a dos micro contos, a dos contos e, finalmente, a do romance. 

Olho para trás e sinto que foram todas estas fases que me consolidaram. Aprendi imenso sobre persistência, motivação e… procrastinação. Tenho os medos todos dos escritores em início de carreira: “e se ninguém quiser ler isto?”; “e se ninguém gostar?”; “e se eu não for capaz de escrever uma história consistente, que faça sentido, que tenha sumo e que fique com as pessoas mesmo depois de acabarem de a ler?”. O pavor da página em branco é real. A Síndrome do Impostor também. Mas nada disso me demoveu de escrever o meu livro e de lutar por ele, para lhe dar vida e fazê-lo chegar ao mercado. 

Mais do que ter escrito uma história que está a tocar as pessoas, gostava muito que o meu caso servisse de exemplo para os autores que têm o mesmo sonho que eu: publicar e serem lidos por muita gente. É por isso que mantenho sempre a porta aberta a quem me procura para falar sobre isto: o processo criativo, de revisão e de edição. Sinto que há uma neblina que se mantém densa em torno deste assunto, como se publicar um livro fosse uma coisa reservada a um Olimpo demasiado estrito. Não é. Também não é “bar aberto e vale tudo”. 

Por isso, se fores um autor à procura de uma porta aberta, fala comigo. E se tiveres lido o meu livro, gostava muito de saber a tua opinião! Adoro conversar com os leitores, sinto que consigo ver o meu livro por prismas diferentes e isso é muito, muito enriquecedor!!

Um último pedido: leiam autores nacionais. Dêem oportunidade às novas vozes, a quem está agora a começar e já tem tanto para dizer. Exemplos? A Susana Piedade, a Márcia Balsas, a Ana Bárbara Pedrosa, e, já mais conceituados, os sempre incríveis João Tordo, Hugo Gonçalves, Nuno Amado e João Pinto Coelho, entre tantos, tantos outros. 

(Obrigada, Cristina, pelo convite e pela oportunidade de falar um bocadinho com os teus leitores!) 

Lénia Rufino

domingo, 4 de julho de 2021

Ao Domingo com... Patrícia Madeira

Seja o que for que façamos devemos fazê-lo com paixão e dedicação. Nem sempre é fácil, porque muitas das tarefas quotidianas são um bem necessário e não um gosto pessoal. No entanto, há que pelo menos nos esforçarmos para descobrir o valor e a importância da atividade que estejamos a executar. O simples esforço aumentará não só a nossa motivação como a tarefa será realizada com maior perfeição e ânimo. É assim que encaro a vida, exponenciando a prática do bem e desvalorizando o que é pejorativo. Se há algo que me entristece é sem dúvida a falta de respeito e a injustiça. Afinal, todos nós fazemos parte deste fenómeno que é o planeta Terra, pelo que o altruísmo, a humildade e o espírito de entreajuda deve ser enaltecido com louvor.  

Toda a minha infância foi vivida na margem sul do Tejo e, sempre que os anos letivos terminavam, passava o verão no Algarve, na companhia dos meus avós e de um grupo de amigos que foi aumentando de ano para ano. 

Se nos primeiros cinco anos de escolaridade não me considerava uma aluna aplicada e só queria brincadeira, isso mudou radicalmente assim que ingressei no 6º ano. A partir de então tornei-me uma aluna exemplar, daquelas que obtinha a nota máxima em todas as disciplinas. No entanto, não era considerada uma “marrona” que se isolava de tudo e de todos. Muito pelo contrário, sempre gostei de me socializar e vivia rodeada de amigos. 

É uma pena que nos dias de hoje a infância antiga tenha ficado para trás, na qual grande parte da minha geração passava o tempo de lazer na rua a brincar, e que, no meu caso, consistia a apanhar lagartixas com o caule da planta caniço-de-água, a jogar à “mata” ou em apanhar girinos nas poças de água formadas pela chuva. Infelizmente, hoje em dia respiramos redes sociais e afastamo-nos cada vez mais do social táctil.   

Na adolescência costumava escrever poesia, mas guardava-a para mim. Assim como decidi pintar, mas tirando um ou outro quadro que ainda guardo depressa apercebi-me de que não tinha a menor aptidão para tal. Lembro-me até hoje da sugestão de um professor de orientação escolar, o qual me aconselhou a seguir o mundo das artes. Sempre gostei de todo o tipo de arte (música, pintura, leitura, escultura). E, de certa forma, estas sempre me foram próximas. Já o meu falecido avô tocava bandolim e viola, e aos meus sete anos iniciei aulas de piano. Porém, ao fim de algum tempo, a professora de música sugeriu uma troca, aconselhando-me a tocar órgão, uma vez que eu passava as aulas deslumbrada ao ver outras alunas a tocar, apercebendo-me assim da imponência do som que aquele instrumento emanava e o qual se sobrepunha ao toque gentil do piano.  

Desde muito cedo que a história do nosso país, e algumas das lendas que o adornam, desperta a minha atenção, ainda que na escola a disciplina de História fosse aquela que eu menos apreciava.  

Pouco antes de iniciar a Licenciatura em Psicologia, área na qual me formei, cresceu em mim um desejo gigantesco por integrar-me num voluntariado além-fronteiras, podendo dessa forma ajudar causas humanitárias sem que fosse à distância. Até hoje mantenho esse sonho guardado. Ainda estive como voluntária no Hospital Garcia da Orta, e inclusive concorri a Medicina, mas acabei por ingressar em Psicologia, curso ao qual me dediquei com afinco. Como insaciável que sou no que toca a adquirir novos conhecimentos sobre áreas que gosto, decidi realizar 3 pós-graduações no âmbito da psicologia clínica, assim como realizei uma diversidade de cursos à noite enquanto trabalhava no setor de recursos humanos de dia. Aprendi linguagem gestual, realizei um curso de auxiliar de fisioterapia e massagens, outro de primeiros socorros e, até de auxiliar de veterinária. Na verdade, a minha paixão era a constante aprendizagem, cujos conhecimentos estavam sempre relacionados com o espírito de ajuda ao próximo.  

Outra das minhas paixões é viajar e conhecer novas culturas. Mas depois de ser mãe as prioridades mudaram. Hoje sou uma mulher mais reservada e até menos aventureira. Zelo muito as minhas amizades, atribuindo maior importância à qualidade do que à quantidade. 

Por ser uma leitora voraz, tento incutir nos meus filhos hábitos de leitura desde cedo. 

O meu primeiro livro, Prisioneira do Tempo, surgiu de uma característica que muito me identifica, o ser autodidata. Foi assim que iniciei uma busca contínua sobre parte da História de Portugal, mais concretamente do século XIX. Apesar de ser uma leitora assídua, estou ciente do quanto os hábitos de leitura têm vindo a diminuir, sendo estes inversamente proporcionais ao crescimento do uso de plataformas de streaming (como a Netflix, HBO). Como tal, após ter concorrido a um concurso para uma dessas plataformas, decidi reunir toda a pesquisa realizada e arriscar na publicação de um livro. A minha intenção foi explorar parte da história do nosso país, levando o leitor a conhecer acontecimentos que decorreram no Brasil e que tiveram por lá maior impacto do que aqui, o que justifica a razão pela qual muitos de nós os desconhecemos. E para que a leitura fosse mais leve e apelativa, fiz questão de que este livro não abordasse apenas factos históricos e personagens verídicas, mas também contivesse personagens ficcionais e um romance fictício. É primordial conhecermos melhor a história do nosso país, ainda para mais sendo esta tão vasta e rica, que tanto teve de conquistas como controvérsias. 

Patrícia Madeira, autora do livro Prisioneira do Tempo (Livro 1 – Recife) 




 




domingo, 23 de maio de 2021

Ao Domingo com... Marta Martins Silva


Desde que me lembro de mim, escrevo. Talvez tenha começado a escrever para me organizar melhor embora sem consciência de que o fazia – ao escrever exorcizava angústias, hierarquizava desejos, registava alegrias ou desalentos. O papel foi sempre uma espécie de confidente que nada pedia em troca pelo ombro amigo e talvez a minha forma de lhe agradecer tenha sido enchê-lo de palavras e nunca o deixar vazio. Não sei quando percebi que queria fazer da escrita a minha profissão porque na verdade nunca quis outra coisa que não fosse escrever. À medida que fui crescendo fui-me descentrando de mim para escrever sobre os outros e percebendo que nada me dava mais prazer do que contar histórias reais mesmo que parecessem ficção. Porque pô-las no papel é partilhá-las com o mundo – e o mundo anda tantas vezes de olhos fechados para as histórias, que precisa de as ler em notícia de jornal. Durante algum tempo, ainda na adolescência, sonhei ser repórter de guerra – mas cedo percebi que as histórias que eu queria contar não estavam à distância de uma viagem de avião. Estavam do outro lado do passeio, nos olhos daquela mãe cansada que carrega os filhos pela mão e que a meio do mês já não sabe o que lhes pôr na mesa para comer porque a renda subiu e o patrão não aumentou. Estavam no corpo
velho que se achou sem dono nem passado numa rua que podia ser a nossa, num prédio que podia ser o nosso, dez anos depois da vida se esvair sem ninguém dar conta, nem sequer o vizinho do lado a quem de quando a quando pedia um raminho de salsa. Estavam nos que se entregam a causas e se dedicam aos outros mais do que alguma vez o farão com eles próprios. E estavam - comecei a descobrir graças ao meu trabalho como jornalista da revista Domingo do Correio da Manhã - nas memórias dos ex-combatentes da Guerra Colonial, baús trancados a sete chaves com muita necessidade de alguém que lhes encontrasse a chave e se dispusesse a mergulhar neste(s) passado(s). As memórias destes homens às vezes surgem durante conversas bem-dispostas e outras vezes vertem lágrimas que ficaram muito tempo (demasiado tempo) por chorar. O país esteve em guerra durante 13 anos e não foi por vontade destes homens – que no início dos seus vinte anos aprenderam a disparar armas que nunca tinham visto num país distante do que eles conheciam, tendo o medo por companhia diária. Muitos destes homens viram morrer amigos ao seu lado. Viram ferido o rapaz com quem na noite anterior beberam cerveja e falaram sobre a pátria. Pisavam a medo o chão minado. E tentavam esquecer as agruras de uma guerra que rapidamente perceberam sem sentido nas cartas que trocavam com as suas madrinhas de guerra, jovens raparigas que levaram a sério a missão de entreter os soldados e por momentos – nem que fosse durante os minutos em que engoliam as suas palavras depois da avioneta poisar em terras do fim do mundo – fazê-los esquecer de que podiam nunca regressar. Foi sobre eles e sobre elas, afilhados e madrinhas, que escrevi o meu primeiro livro, editado pela Desassossego em outubro de 2020 e que se chama precisamente ‘Madrinhas de Guerra’. Nele estão muitas cartas trocadas entre estes homens e estas mulheres e nelas estão dores e medos, mas também, e sobretudo, promessas e futuro. Através das cartas é possível espreitar também o Portugal que fomos nos anos sessenta e setenta do século passado e perceber que mesmo no meio da guerra, no meio das sombras e dos escombros, há lugar para o amor. 

Marta Martins Silva

20-5-2021

domingo, 25 de abril de 2021

Ao Domingo com... Luís Corte Real

Fundei a Saída de Emergência em 2003 para publicar literatura fantástica, mas cedo percebi que o mercado era pequeno demais para viver apenas de ficção científica e fantasia. Então comecei a publicar outros géneros, como o romance histórico, o thriller ou a  literatura romântica e a editora foi crescendo. Mas a paixão pelo fantástico não esmoreceu e criei a Coleção Bang! (que lança em Portugal os melhores autores de fantástico da atualidade e muitos clássicos) e a Revista Bang! (uma publicação semestral e gratuita dedicada à fantasia, FC e horror). 

Se entrarem em minha casa vão descobrir paredes cobertas com todo o tipo de livros, muita banda desenhada, manuais de Dungeons & Dragons e Call of Cthulhu, jogos de tabuleiro, action figures e cidades feitas de LEGO — sou um nerd orgulhoso que em casa já tem quatro aprendizes de nerd.

Em Abril de 2021 publiquei O Deus das Moscas Tem Fome, o meu primeiro livro — uma espécie de X-Files na Lisboa de Eça de Queiroz, com influências que vão de H. P. Lovecraft e Arthur Conan Doyle a Mike Mignola. Nos tempos livres também gosto de ilustrar: Conan, o cimério, é o meu tema favorito, mas são capazes de encontrar algumas guerreiras com armaduras reduzidas. Podem descobrir mais sobre mim e o meu trabalho em luiscortereal.net

Luís Corte Real


domingo, 18 de abril de 2021

Ao Domingo com... Bruno Franco


Sou Radioterapeuta no IPO de Lisboa há sete anos e, embora tenha enveredado pela área da saúde, sempre tive uma paixão muito grande pelas letras. Comecei a escrever desde muito novo, como forma de ultrapassar uma fase muito negra da minha vida, e o gosto ficou para sempre. Para mim, escrever e ler é uma forma de me abstrair da realidade, de viver outras vidas. E isso é ótimo. Maravilhoso.

Lancei, no final de março, o livro "Segredo Mortal", um Policial/Thriller com muito mistério, ação, segredos por desvendar, como sugere o título, e que promete prender o leitor do início até ao desfecho surpreendente. É realmente um livro ambicioso que está a dar que falar. As opiniões têm sido maravilhosas, o que só aumenta o meu entusiasmo para continuar a escrever para todos vocês.

Entrei na comunidade do chamado Bookstagram há meio ano, e estou a adorar. É espectacular estar entre pessoas que, como eu, adoram ler, cheirar livros, falar sobre os livros e, no fundo, partilhar esta grande paixão que é a leitura. Para mim, é fantástico poder proporcionar óptimos momentos de leitura aos meus leitores e ver as suas reações que me deixam de coração cheio. Darei sempre o meu melhor para surpreender e entusiasmar todos os leitores. É a minha promessa.

Boas leituras a todos.

Bruno Franco


domingo, 11 de abril de 2021

Ao Domingo com… Rui Pinto Ferreira


Cheguei às redes sociais ligadas aos livros há pouco mais de um ano, posso dizer que sou um recém-nascido na comunidade. O objetivo inicial passava pela promoção do meu primeiro romance, mas não é disso que vou falar hoje. Ao fim de algumas interações, compreendi que tinha descoberto a minha tribo, no sentido em que aqui há muitos da minha espécie. Pessoas que gostam de folhear livros, de os arrumar, de os comprar, de os trocar, de os partilhar e de os ler. A tribo passou a ser um grande refúgio e um lugar para onde voltar depois dos afazeres profissionais e de outros quotidianos.

Comecei por escrever poesia na adolescência, escrevi bastante e de forma fervorosa. As vidas académica e profissional adormeceram um pouco esse meu lado mais criativo. Estou agora a reaproximar-me.

Na tribo percebo que ainda li muito pouco, mas acalma-me a ansiedade de querer ler mais, porque por mais urgência que se imprima na leitura, há sempre muito mais que fica por ler.

Gosto dos autores nacionais, clássicos e contemporâneos, os mais importantes e outros nem tanto. Prefiro distopias e ficção científica, desde que tenham romance.

Obrigado!

Rui Pinto Ferreira

domingo, 4 de abril de 2021

Ao Domingo com ... Rosa do Rio (Rosário Carneiro)

Chamo-me Rosário mas assino como Rosa do Rio – o meu nome dividido em dois.

Publiquei recentemente um primeiro livro – DIÁRIOS de 1992 – que é exatamente o que o nome indica, o que anotei durante esse ano numa agenda Redstone, que em 1992 teve como tema, Desenhos de Escritores.

Como para além de escrever também me dedico ao desenho – e à escultura, pintura e gravura – aquela agenda foi bastante inspiradora, acabando por se transformar num objeto muito bonito.

Escrevi com lápis e canetas de diferentes cores, colori os desenhos já existentes e fiz os meus próprios esboços.

O livro agora publicado contém oito imagens das páginas do diário original, sendo uma delas ailustração da capa.

Uma característica curiosa deste livro é quase não referir nomes de pessoas.

E não porque os tenha tirado no processo de edição. Já não existiam à partida.

Isto acontece porque não é um diário narrativo, embora se consiga perceber uma história, ou mesmo várias histórias ao longo do tempo.

São sobretudo fragmentos dispersos que exprimem impressões e emoções sendo muitos deles instantâneos de locais e de situações experienciadas ou observadas.

Apesar de o livro ser apresentado por ordem cronológica não me pareceu importante colocar constantemente datas, até porque, no original, nem sempre estava marcado um dia concreto.

Limitei-me a pontuar o tempo com os meses e um ou outro dia imbuído de especial simbolismo.

Já os locais onde as palavras foram registadas vêm sistematicamente referidos. Considerei ser um elemento relevante pois os diversos lugares com as suas cores e características específicas influenciaram diferentemente a linguagem.

Nessa altura trabalhava como intérprete em Bruxelas e viajava bastante, por razões profissionais e pessoais. A situação geográfica de Bruxelas, tão perto de tantos países proporcionava-o. Por isso o diário foi criado em diversos locais.

O ambiente cosmopolita do mundo da interpretação e de Bruxelas deixou os seus traços e, inesperadamente, aqui e acolá, irrompem pelo texto frases dispersas em línguas estrangeiras.

De resto, tinha já contribuído com alguns textos, em francês, para a revista belga Partis Pris, entretanto extinta.

Porquê então especificamente estes escritos para um primeiro livro?

Por acaso! Se bem que os acasos estejam frequentemente carregados de significâncias profundas.

Guardo os meus cadernos, na sua variedade de formas e feitios, numa belíssima mala antiga de cabedal, forrada a veludo vermelho cardeal.


Quando, no fim do Verão de 2017, mergulhei no conteúdo dessa mala acabei por ir parar a esta Redstone de 1992. Comecei a folheá-la e dei por mim a pensar que valeria a pena publicá-la.

Depois foi todo o trabalho de transpor o manuscrito para o computador e estudar todos os pormenores do livro, desde o tamanho à paginação, passando pela escolha das imagens e da capa. Foi uma tarefa minuciosa e morosa que me deu uma grande satisfação.

Questionam-me como é que, sendo eu uma pessoa habitualmente tão reservada, fui capaz de trazer a público algo tão intimista.

Não tenho resposta categórica mas, talvez por ser algo passado há tanto tempo, não tive qualquer problema em mostrar estas folhas onde o meu eu aparece totalmente escarrapachado.

Perguntam-me também o que significa para mim escrever.

Vejo a escrita como uma prática enriquecedora e multifacetada.

A minha é primordialmente diarística – o que sinto, penso, vejo – e traduz-se muitas vezes em pequenas histórias que a observação dos outros me suscita.

Escrever sobre o meu quotidiano permite-me escoar o que me vai na alma, aliviando-me do peso de problemas, preocupações ou tristezas. Como que um desabafo com o papel, assim transformado num ouvinte dileto.

É também uma forma de arrumar a cabeça e a estruturação de ideias a que a escrita me obriga conduz frequentemente a revelações profundamente esclarecedoras.

E claro há, acima de tudo, o gosto de escrever, o prazer que a atividade me proporciona. Curiosamente o ato da escrita parte, muitas vezes, de uma real necessidade. Daí pensar amiúde se escrevo por gosto ou por necessidade, para logo concluir que os dois aspetos estão intrinsecamente ligados.

Dantes escrevia só em papel e, nos últimos anos sempre com caneta de tinta permanente.

Mas ultimamente modernizei-me e redijo cada vez mais os meus apontamentos nos rascunhos do meu telefone. São as minhas Escritas Quotidianas num Samsung Galaxy.

Poderá ser menos bonito e poético mas tem muitas vantagens: não preciso de andar carregada com cadernos – o telemóvel é leve, cabe em qualquer lado e hoje em dia ando quase sempre com ele – posso escrever em qualquer posição, até deitada, não preciso de transcrever para o computador – se bem que seja um exercício que pelo ritmo vagaroso propicia muitas e boas correções – e, mais importante ainda, percebo sempre o que escrevi.

Contudo, volta e meia, por uma qualquer razão, surge em mim uma enorme vontade de sentir a corporeidade de escrever com uma caneta em papel.

Modernizei-me também noutra área – comecei a fazer um site para o meu trabalho no campo das artes plásticas.

Já está no ar, se bem que ainda não totalmente concluído.

www.rosadorio.com

Nota: Pode encontrar-se mais informação sobre o livro googlando Diários de 1992 de Rosa do Rio. Pode nomeadamente ler-se o prefácio e as primeiras páginas na edição Ebook na Amazon:

https://www.amazon.com/Di%C3%A1rios-1992-Portuguese-Rosa-Rio-ebook/dp/B08L8BYD8Q

Rosa do Rio (Rosário Carneiro)

domingo, 28 de março de 2021

Ao Domingo com... Norberto Morais

 



 


sou um próximo dos melancólicos esquivos
dos saudosos de um futuro que não vem
um semelhante dos realistas depressivos
dos homens bem medidos que se não consideram ninguém
vivo na casa periclitante 
da árvore inclinada sobre o abismo
não por uma tristeza edificante
ou qualquer casta de romantismo
sou de luto feito todo
sem qualquer outra razão
que a do lodo ser lodo
porque não pode ser chão

Norberto Morais

domingo, 7 de março de 2021

Ao Domingo com... Márcia Lima Soares


O meu nome é Márcia Lima Soares, tenho 37 anos, sou professora e vivo em Palmela. Após uma batalha de seis anos, fui mãe, em setembro de 2020, tendo aproveitado os últimos meses de gravidez para editar o livro 'Seis Ruas', com a ilustração da Joana Sesta.


O lançamento desta obra infantojuvenil foi anunciado no extinto programa "A Tarde é Sua", da Fátima Lopes, na TVI, e o evento teve lugar a 12 de dezembro, na Casa da Baía, em Setúbal, com a participação dos atores Miguel Assis e Patrícia Ribeiro, bem como a apresentação musical de Margarida Quítalo. A apresentação do livro foi recatada, devido às normas da DGS, contudo, foi um momento marcado por muitas emoções.
O livro 'Seis Ruas' trata temas delicados, que, por vezes, temos receio de abordar perante os mais novos. Narra a história de um rapaz que viveu uma vida como tantas outras, plena em aventuras e traquinices, no meio de diversos desafios que surgiram ao longo do seu percurso: o nascimento dos irmãos, o divórcio de pai e mãe e o simples facto de mudar de casa.
A ação acontece, maioritariamente, em Setúbal, por intermédio de uma narrativa que pretende cativar as crianças, os jovens, e as suas famílias, por ter sido baseada em factos verídicos. 
Trata-se de um livro breve, que procura atrair leitores/as jovens e pessoas que tenham pouco tempo para ler, numa leitura solta, mas intimista, que promete semear muitos risos. 
Nos tempos difíceis que enfrentamos, 'Seis Ruas' apresenta-nos a morte, para que o tema seja abordado e debatido com os mais novos, para que se façam as pazes com aquela que será a nossa última paragem, de modo a valorizarmos a viagem que fazemos enquanto estamos vivos, aproveitando o tempo que temos com quem mais amamos. 
Deixo-vos o meu coração, plantado nas páginas deste livro.

Mais informações na página:
Márcia Lima Soares, escritora
(Facebook e Instagram)

Márcia Lima Soares

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Ao Domingo com... Susana Piedade


Corredores de Saudades

Sabe, Doutor, o que me custa.

Poderá imaginar o que me custa.

Ouvi-lo dizer que está tudo bem, que o medicamento pegou como se fosse um enxerto, quando o meu marido se perdeu num sítio escuro onde não deixa ninguém entrar, porque a determinada altura somos todos estranhos a bater-lhe à porta. Para si é simples pronunciar o alívio, imaginar que o sente como nós, gente de quem daqui a uns tempos mal se lembrará. Quando muito, um registo sucinto no caderninho que traz na pasta; um cumprimento inseguro, se nos cruzarmos na caixa do supermercado e tiver a sensação de que nos conhece de algum lado; a publicação de um caso clínico numa revista da especialidade. Mas as pessoas têm nome, são pais, filhos, irmãos, amigos, conhecidos de alguém; têm gostos e interesses que as definem; sonhos que as motivam; vidas que as preenchem e as tornam invulgares, e isso não quer dizer boas nem más, apenas diferentes umas das outras. Os números dos milhares de cirurgias que vêm nos folhetos publicitários têm nomes por detrás. Talvez os confunda de vez em quando, são tantos que é impossível sabê‑los de cor, convenhamos, sobretudo agora, que os anos vão passando por si e a memória lhe prega rasteiras. Mas compreendo, há que manter o discurso impessoal, defender-se dos avanços da intimidade.

O Doutor, que é um reparador de memórias, deve achar que é fácil esquecer tudo o que sei sobre a doença, a modéstia de resultados, a prudência nas expectativas. E até gostaria de seguir os seus conselhos sábios – na sua armadura branca deve ser fácil dá-los – mas a memória não condescende, não se deixa arrumar como queremos.

Se pudesse, juntava-me aos outros que seguem uma normalidade displicente, com as suas vidas cheias de falhas vulgares e invisíveis. Suturava este buraco que se abriu em mim, não sei se o vê desse lado, a olho nu, por detrás das suas lentes quase impercetíveis. 

Aposto que escolheu neurocirurgia por ser uma área fascinante de que se sabe tão pouco, e o Doutor tem ar de quem aprecia os desafios do conhecimento. Décadas de estudo, de investigação, de prática. O calendário abarrotado de intervenções, implantes de elétrodos para reparar circuitos, tratar perturbações e doenças perversas que esvaziam as pessoas. Milhares de vezes em que entrou e saiu do bloco operatório, procurou os familiares ao fundo do corredor ou nas salas onde fingimos que nos distraímos com a televisão, antecipou as palavras certas sem pigarrear, porque ao fim de tantos anos é natural que as saiba de cor. As pessoas dão tudo por uma nesga de esperança, mas estas coisas mudam de um dia para o outro.

De um dia para o outro somos outros.

E talvez por isso se reserve. Em cima da mesa que nos separa há pouco de si. Uma moldura que resguarda da curiosidade alheia, junto ao computador, a única extravagância emocional a que se permite no trabalho. Um caderno no qual pousa uma esferográfica das mais baratas, a ponta da tampa partida de tanto cair ao chão ou, não sei, vamos supor, das vezes que atirou com ela à parede, nos picos de stresse, e daí os riscos na pintura. Um monte de processos reservados no canto, à espera de que a assistente os venha recolher. Mas não se trata apenas de um móvel, antes a distância de conveniência que se impõe, milhares de vezes em que se calhar a desejou transpor, deixar de lado o atendimento protocolar, despir-se da frieza que o forra da dureza da vida e dos ajustes da profissão, e olhar os seus pacientes nos olhos sem qualquer embaraço, porque vistas de perto as pessoas são únicas.

O Doutor, que é seguramente um especialista nestas coisas da mente, poderá compreender o que é temer pela vida de alguém que é parte de nós, uma espécie de órgão, se quiser transpor para linguagem médica. Viver com o pânico entranhado ao ponto de nos destruir. A dor cortante (calcule o golpe sem anestesia) que é começar por imaginar a perda, traçar‑lhe os contornos até que se afigure uma possibilidade e logo depois uma certeza aterradora. Percorrer corredores de saudades que não desembocam em sítio algum, não trazem nada de volta, e saber que nenhuma porta jamais se abre quando chegamos ao fim. Ficar sem alguém de quem nos apropriamos indevidamente, que olhamos de perto, todos os dias, na sua singularidade insubstituível, sem coragem de lhe dizermos que a sua falta será avassaladora.

Se souber, Doutor, e é natural que me possa ensinar

como se tratam as doenças que nos matam

antes de chegar a morte.

Susana Piedade

fevereiro 2021

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Ao Domingo com... Rosária Casquinha da Silva


Onde fica o meio do nada?

Se descobrir avise-me.

Hoje sei que estou no meio dos livros da Cristina Delgado e isso basta-me. Estou, também, na sua companhia e quero muito que me conheça. Bebemos um café enquanto falo de mim?

Nasci em Lisboa, mas sempre vivi em Cascais, uma vila charmosa a 20 minutos de carro da capital. Tenho 50 anos, mas sinto-me uma eterna miúda. Corro atrás dos meus sonhos, mesmo quando me dizem que nunca os vou agarrar. Não desisto facilmente. Se sinto que aquele é o caminho que devo seguir para concretizar o que me deixa realizada, encontro sempre forças para remar contra a maré. Aprendi a dizer ‘não’ há uns anos e isso mudou a minha vida para sempre. Aprendi a respeitar-me e a acreditar que sou digna de todas as minhas conquistas. Trago sempre um sorriso comigo (agora escondido por uma máscara… mas os olhos também riem, verdade?). Adoro surpreender quem está perto de mim. Licenciei-me em Relações Públicas e Publicidade, pelo Instituto Superior de Novas Profissões. Desde cedo que a energia das palavras é o meu alimento diário.

Escrevo quase todos os dias. Talvez seja por isso que tenho um blog o “Armazém de Ideias Ilimitada” em parceria com a minha mana de coração, a Susana Figueira. Escrever é ser e viver o que a imaginação me sussurra à alma. É eternizar memórias numa folha de papel. É partilhar com quem me lê aquilo que sou. É ser livre. É ser eu.

Desde muito cedo que o gosto pela escrita me acompanha. Em adolescente escrevia histórias policiais com as minhas amigas. Eram momentos de grande produção criativa. Também gostava de arriscar em grandes mistérios e histórias de amor. Quando me casei, escrevi o diário da minha lua de mel e depois houve uma pausa, talvez necessária, para amadurecer. Em 2019, frequentei um curso de Escrita Criativa e descobri que o meu registo literário é o conto, não mais parei de os escrever. Em Dezembro do mesmo ano, ganhei o Concurso Literário do Farol das Palavras com o texto ‘Estou em Casa’. Um ano depois participei na antologia Palavras Orientadas, Histórias Encontradas (Palavra Editora, coordenação de Laura Mateus Fonseca) com o conto ‘A fuga’. No final do ano passado publiquei o meu primeiro livro No meio do nada (Palavra Editora).

Leio muito, mas tenho sempre livros em fila de espera para serem lidos. Aposto que vocês também. Promovo e dinamizo o Clube de Leitura - Livros à Sexta em parceria com a mana de coração.

Adoro viajar, colecionar memórias, inspirar-me e aprender. Agora estou em modo ‘pausa’. Mas tenho pressa. Preciso de fazer as malas.

Tenho uma paixão incontrolável por escrever cartas e postais, sabendo que do outro lado da caixa de correio alguém vai ficar muito feliz. Lancei este mês o movimento ‘Cartas, atalhos que aproximam”.

Adoro desinquietar as pessoas. Sou casada com um homem fantástico que me ama incondicionalmente e que me apoia a 100% em todas as minhas loucuras. Este meu primeiro livro também é dele.

No meio do nada surgem estórias. Pequenas estórias. Verdadeiras, fictícias. Inspiradas em pessoas, lugares, objetos, sentimentos. Surpreendem, emocionam, soltam o riso, permitem uma lágrima. São o resultado de um ano de escrita, de transformação interior, num mundo estranho.

No meio do nada surgem desabafos, homenagens à natureza, mistérios, gentes, memórias e amores.

Cada short storie revela um pouco de mim. Se estiver atenta/o acabará por me descobrir, num aeroporto, numa noite de insónia, num apelo, numa igreja, junto a uma porta, numa brisa, abraçada a uma árvore, num sonho, numa fatia de bolo… no meio do nada.

Rosária Casquinha da Silva



domingo, 6 de dezembro de 2020

Ao Domingo com... António da Costa Neves (E. S. Tagino)

Ao domingo com…

Chamo-me António da Costa Neves, mas também respondo literariamente por E. S. Tagino. Porquê? Contos largos que ficarão para outra oportunidade. Sou um jovem escritor tardio que só começou a escrever e publicar aos 60 anos. Se tivesse começado aos 20, como tantos génios precoces, tinha agora 35 anos e uma vida literária ainda pela frente. Mas, provavelmente, não teria lido tanto nem gozado tanto com o que li…

Vivo, pois, lutando com a falta de tempo para cumprir o meu último compromisso com a vida: contar histórias. E este ano foram só (???) 35 (!!!) histórias que contei, em duas coletâneas de contos e um romance, todos premiados.

Para não maçar muito os improváveis leitores, aí vai uma das minhas histórias – a mais pequena de todas – que faz parte da coletânea Contos da Serra e da Planície, Prémio Literário Alves Redol 2019 e Prémio Literário Fialho de Almeida 2020, a ser publicada em 2021.

 

Vida de cão

Um cão uivou no pátio deserto das traseiras do meu quarto. É um cão velho, um podengo alentejano reformado, animal lazarento, cheio de chagas e a perder pelo, que passa o tempo a coçar-se debaixo dos automóveis estacionados nas ruas das redondezas e nos troncos ásperos das árvores que as bordejam. É um cão vadio, ou melhor, um cão sem amparo. Um cão que, há muito, com o pelo, foi perdendo progressivamente o dono até que, um dia, sem saber como, o perdeu irremediável e definitivamente.

Ora, este cão, vadio por vontade alheia e vagaroso por força da idade – por sua causa, todos os dias tenho de abrandar o passo para ele passar –, fez da relva sempre verde do pequeno canteiro que tenho de contornar, mal saio de casa, a sua morada permanente. Não se trata, pois, de um cão qualquer. Este cão-sem-abrigo é, de há muito, um cão meu vizinho; mais do que isso, é um cão meu conhecido: um cão camarada que me olha sempre com os mesmos olhos tristes, como são os olhos de todos os cães velhos que são abandonados quando começam a perder o pelo.

Há pouco, talvez por eu ter, igualmente, começado a envelhecer – se eu fosse um tipo com piada, afagava o ego e dizia que começamos a envelhecer quando nascemos –, a sorte deste cão deu-me uma profunda melancolia. Também a mim, o pelo já me começou a cair. No alto da cabeça, por exemplo, já tenho algumas peladas. E o que não caiu, encaneceu, como o pouco pelo que ainda resta do cão velho que uivou há pouco nas traseiras do meu quarto.

O seu uivo dorido, subitamente, deu-me para a nostalgia e pus-me a pensar-me tão cão quanto ele, vagueando, escorraçado e sem dono, à chuva e ao vento, nas imediações de qualquer sítio que me fosse familiar, que eu conseguisse reconhecer, ainda que vagamente, para que não me perdesse de todo, como aconteceu a este cão terminal que, um certo dia, sem saber como, perdeu, irreversivelmente, o dono. O dono com quem brincou  e caçou, e a quem dedicou, sem reservas – estou tão certo disso como se fosse eu –, os melhores anos da sua vida.


Agora, que o cão abandonado voltou a uivar, o mesmo uivo lancinante de animal ferido, a noite já não me parece tão bela, o uísque que bebericava perdeu o sabor e o filme que via, o pouco sentido que tinha. E o que desejo agora é apenas um osso: um osso que não seja muito duro porque os dentes, tal como o pelo, também já me começaram a cair. Um osso com que me possa entreter o resto da noite porque, cão velho que sou, já só as insónias povoPrémio Literário Alves Redol 2019am a minha mente, como o cão que uivou nas traseiras do meu quarto.

Oh, como eu compreendo, realmente, este descartável cão; este cão solitário, sem companhia nem afagos; este cão que já não ladra, que apenas uiva tristemente, num queixume que só os cães velhos – como ele e como eu – sabem, ainda, entender; este pobre cão, sem ninguém que lhe passe a mão pelo pouco pelo que lhe resta e lhe ponha umas gotas de bálsamo nas feridas purulentas; este pobre e triste cão condenado a morrer, numa noite destas – se eu partir primeiro – sem ninguém que lhe escute o seu último uivo. 


 António da Costa Neves (E. S. Tagino)


domingo, 22 de novembro de 2020

Ao Domingo com... Claudia Costa e Tiago Lucena


Somos um casal que desde 2010 procura viver de um modo mais ecológico e natural, tendo o nosso blog A Senhora do Monte nascido no processo da descoberta do mundo rural e de uma vida mais sustentável.

O nosso blog A Senhora do Monte representa e homenageia uma geração gloriosa de avós e avôs que continuam diariamente a carregar o peso das tradições nas suas costas. Uma última geração, perdida em Portugal, que muitas vezes não valoriza a sua própria sabedoria, mas que vai mantendo viva a tradição de um conhecimento profundo, sustentável e biológico.

Criámos este blog inspirados pelas soluções do passado, ensinadas pelas gentes do campo com que nos fomos cruzando ao longo destes anos e também para podermos partilhar todos estes conhecimentos com todas as pessoas que se interessam por estes temas.

Com o passar dos anos, o interesse do público cresceu imenso e daí acabou por surgir a oportunidade de lançarmos o nosso primeiro livro: A Senhora do Monte - O Regresso à Tradição e a uma vida mais natural (2019). Este livro é o reflexo de quase uma década de dedicação ao estudo da sustentabilidade, e

 


com ela a exploração do mundo rural tradicional português que nos trouxe à memória muitas histórias, muitos momentos e muitas pessoas que conhecemos ao longo destes anos.

Do Norte ao Sul, em muitas viagens, formações e actividades, deixámos um rasto de memórias que nos enchem a alma. Fizémos muitas amizades, mas também ganhámos muitos avôs e avós que nos servem de inspiração diariamente.

Como cada vez mais as questões ambientais estão na ordem do dia, sendo uma preocupação crescente para todos nós resolvemos lançar um segundo livro:  Saberes do Passado - Receitas de higiene, beleza e limpeza doméstica para toda a família.

Procurámos complementar o nosso primeiro livro com novas soluções surpreendentes, desta vez focando-nos em produtos específicos para homem ou mulher, com muitas surpresas. Também não nos esquecemos de incluir quer as crianças, quer os animais de estimação!

Aprender a fazer os próprios produtos de higiene, beleza e limpeza doméstica não se aprende de um dia para o outro e requer alguma paciência e algumas experiências até encontrarmos a receita que se encaixa no nosso perfil.

O que pretendemos com o nosso blog e os nossos livros é incentivar este processo para que todos possam diminuir a sua pegada ecológica e até poupar dinheiro.

O planeta é a nossa casa e o nosso corpo é o nosso templo. Por isso, o nosso objectivo é que cada vez mais pessoas adiram a este estilo de vida e, com isso, que possamos de facto ajudar a reduzir o consumismo e os impactos tanto no planeta como na saúde de todos!

Claudia Costa e Tiago Lucena (Autores do blog A Senhora do Monte)

domingo, 15 de novembro de 2020

Ao Domingo com... José Rodrigues


Ter o coração bem junto à boca, quando o motivo é a paixão, é um fenómeno tão bom quanto difícil de descrever. Sentir que, daqui a pouco, vamos encontrar alguém por quem estamos apaixonados, consegue fazer com que o coração saia do seu lugar e se encoste bem junto à garganta. Esta viagem imaginária que faz o órgão vital tem exatamente a mesma duração da paixão. Tem também, pelo menos, dois passageiros. É uma viagem fabulosa, com paisagens impossíveis de descrever, tal a beleza com que os olhos dos viajantes a veem. Queremos viajar a todas as horas, a todo o instante. O único meio de transporte são mesmo as nuvens, onde fazemos questão de poisar todo o corpo. Um meio de tal forma saboroso que nos faz esquecer que, a qualquer momento, um dos passageiros pode resolver não mais viajar. E dói voltar a colocar os pés no chão. Dói ainda mais sentir que fica um caminho deserto entre o peito e a garganta e sentimos que, de uma forma teimosamente duradoura, o coração se recusará a querer voltar a fazer esse percurso. E é neste momento que se paga o bilhete sobre a forma de insónias, piques de mau humor ou vontade de nada querer ou fazer.

Quando alguém mais velho ou experiente nos tenta confortar através de frases como "isso passa com o tempo", discordamos de todos os termos. Na verdade, passamos a achar que o tempo passou a ser medido por um relógio de corda que parou.

A paixão não exige madrugadas ou manhãs próprias para nascer e as rugas ou a ausência de força física são meras circunstâncias. As noites são pormenores incluídos nos dias que se desejam longos, prolongados pelo sol que brilha sempre aos olhos dos apaixonados, mesmo que o céu pareça carregado de nuvens que anunciem as mais severas tempestades. A paixão não tem hemisférios, movimentos de rotação e as flores mais belas podem nascer num pedaço de terra que nunca tenha conhecido água suja ou limpa. O vento até pode correr de forma violenta e a chuva ou granizo chegarem com um terrível temporal. No entanto, os corações apaixonados tudo conseguem, incluindo fazer com que os mais belos dias de verão nunca se afastem da paixão.

José Rodrigues

domingo, 25 de outubro de 2020

Ao Domingo com... Iris Bravo


Ser médica e trabalhar em Infertilidade é muito bom. Já o faço exclusivamente há dez anos e continuo a deleitar-me com a sensação maravilhosa de fazer uma ecografia, espreitar para dentro do útero da paciente que teve um teste de gravidez positivo e encontrar o tão desejado embrião. Um pequeno ser com um coração minúsculo a bater, que aparece como um ponto preto e branco a piscar no ecrã.
Durante alguns segundos, os estritamente necessários para confirmar que está tudo bem antes de o anunciar ao casal, estamos só os dois, eu e aquele embrião tão especial. Sou a única que sei que ele está ali, uma nova vida, a crescer e a prosperar. Uma vida para a qual eu também contribuí, ao longo de consultas e ecografias, ao retirar óvulos e quando o coloquei dentro daquele útero. Saber que aquele embrião também é um bocadinho meu, faz-me regozijar, sentir-me orgulhosa e muito grata pela minha profissão.

Como o casal está sempre ansioso por saber notícias boas e não os quero fazer sofrer, sou muito rápida a dar-lhes os parabéns e a virar o ecrã na sua direção, para que eles também apreciem toda a extraordinária beleza que existe na forma de feijãozinho de um embrião com dez milímetros.

É nesse momento que eles se libertam e se descompõem, um descompor bom, de alívio, abraços e felicidade, com risos e lágrimas que nos contagiam. É um momento muito emocionante e que calculo que nunca vá perder a magia.

Lembro-me perfeitamente da reação do meu primeiro diretor, na altura com mais de quarenta anos de carreira em procriação medicamente assistida, quando estava ao meu lado no momento em que se ouviam as batidas rápidas de um coração, de olhos brilhantes e um sorriso rasgado na direção dos futuros pais.

- Ena! Que espetáculo! Este vosso embrião quer apanhar o comboio!

Se o meu diretor se emocionava assim ao fim de quarenta anos, eu também tenho o direito de me sentir de coração cheio e ficar com os olhos húmidos ao fim de dez...

Trabalhar em Infertilidade também é mau. Porque apesar de conseguirmos ajudar muitas mulheres e muitos casais, não conseguimos ajudar todos, nem o iremos conseguir num futuro próximo. E isso é extremamente frustrante.

Custa muito acompanhar um casal, ao longo de vários anos e dos três tratamentos de fertilização in vitro a que têm direito no sistema nacional de saúde, e depois do último teste de gravidez negativo, dizer-lhes que a sua luta connosco chegou ao fim.

É injusto que as outras tenham engravidado e aquela mulher não, que também fez as mesmas inúmeras injeções, ecografias, anestesias, cirurgias, análises ao sangue e outros procedimentos que considerámos necessários, que lhe propusemos e ela aceitou, cheia de esperança e confiança em nós.

Chegámos ao fim da linha, mas ela continua ali à minha frente, a querer um bebé para dar colo exatamente como no dia da primeira consulta, só que eu não tenho mais nada para lhe oferecer.

Foi a pensar que gostaria de fazer algo mais por estas mulheres que comecei a escrever A Terceira Índia. Fiz do insucesso o ponto de partida e tentei que a Sofia fosse uma heroína que as representasse. Uma espécie de homenagem a todas as pacientes a quem dei alta, pela sua coragem numa batalha em que não conseguiram o tão desejada prémio, depois de uma luta que é dura, na maioria das vezes anónima e sobre a qual as pessoas não envolvidas pouco sabem.

“A Verdade é que me doía. ” A Terceira Índia começa com o sofrimento da Sofia e a sua luta por uma gravidez, algo natural e simples de alcançar para a maioria das mulheres, mas não para si. Como muitas das minhas doentes, ela deseja intensamente ter uma família e está disposta a tudo para a conseguir, mas a sua quinta Fertilização in Vitro é cancelada porque o seu ovário não respondeu, uma situação em que se deve assumir que o melhor é desistir.

Ela tinha um casamento de sonho, que se desgastou com a sua infertilidade, um aborto e múltiplos tratamentos que não resultaram. Estes revezes transformam-na numa mulher obcecada em engravidar, que acabou por se afastar do marido, não só pela sua atitude melancólica, mas também porque ele não aceita que façam tratamentos com óvulos de outra mulher e ela não o perdoa por isso.

Depois de descobrir que o marido a traiu, a história ganhou asas e vida própria. Talvez para redimir a “minha” Medicina que ainda não tem resposta para tudo, imaginei que todas essas tragédias precisavam de acontecer, porque de outra forma ela continuaria a sua vida quase perfeita e não alteraria a sua trajetória, e ela estava destinada a ir para outros lugares, conhecer outras pessoas e realizar ações que não aconteceriam se tivesse engravidado.

Rendi-me ao sincrodestino, essa ideia romântica de que os destinos dos seres humanos estão todos ligados e a acontecer ao mesmo tempo. Num determinado momento e com determinados personagens pode parecer que está tudo a correr mal, mas é apenas porque vemos um pedaço que faz parte de um plano maior, só visível à posteriori e quando todos os intervenientes se tiverem cruzado, para que um bem maior seja alcançado.

Se por um lado procurei chamar à atenção para o sofrimento das mulheres com infertilidade, uma causa muito querida para mim, por outro, de uma forma um pouco egoísta, também perdoei as limitações da Procriação Medicamente Assistida, que na minha história, acabaram por contribuir para que o mundo se tornasse num lugar um pouco melhor.

E como diz a Sofia e eu também acredito, “é nas pequenas coisas que se muda o mundo".

Iris Bravo