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quarta-feira, 23 de março de 2022

"Gente Feita deTerra" de Carla M. Soares

Este não foi o primeiro livro que li da autora mas até agora foi o que mais gostei. O tema que aborda é-me familiar e senti alguma empatia e proximidade com alguns aspectos focados. A capa possui os tons quentes de África, os tons que a terra pode adoptar e fiquei logo encantada tanto com ela, como com o título e a frase que o completa. Não era preciso mais nada para o ler!

A história prende. Auto ficção?, perguntei-me. Não é importante saber mas fiquei a pensar que sim. Esta obra conta-nos a história de duas mulheres, mãe e filha, que têm ou tiveram Africa no seu coração ou, pelo menos, nas suas raízes. Porque se muitos factos são ficção, alguns constituem o passa-a-palavra, tão habitual em quem sofreu grandes perdas.

A filha Filomena, de 42 anos, luta com o sentimento de perda do seu companheiro num acidente. Após cinco anos ela própria acha que já devia ter assimilado essa perda e, contudo, os sonhos perseguem-na não lhe dando noites tranquilas. Estamos em 2015. Entre trabalho e cuidar do filho pequeno, os dias passam monótonos. Os pais são a sua bengala. 

Ao mesmo tempo, o passado dos pais, Brígida e Alberto, desde 1961, é intercalado na narrativa. Filomena descreve o que sabe e o que não sabe, supõe. Filomena escreve.

Gostei muito desta história. Sem pontas soltas, com personagens credíveis e com aspectos muito jnteressantes da guerra em África que, se não verídicos, pelo menos plausíveis.

Aconselho!

Terminado em 7 de Março de 2022

Estrelas; 5*

Sinopse

ATÉ ONDE TERÁ DE IR UMA MULHER PARA SABER DE QUE É FEITA?

Gente Feita de Terra conta a história de duas mulheres, mãe e filha, dos anos 60 até ao início do século XXI.  

A mãe parte jovem de um Alentejo sem futuro, perseguindo um amor na Angola colonial portuguesa, que de princípio a recebe como lhe pertencesse, para depois a expulsar, como a todos, em desespero, mostrando-lhe que a pertença não passara de ilusão.

A filha é uma jovem viúva que habita a Lisboa suburbana do nosso século, rápida e desenraizada, e que na história da mãe tenta perceber a que lugar pertence. 

Gente Feita de Terra transforma, num estilo clássico e bem elaborado, as histórias recentes de Portugal e Angola, com as suas violentas atribulações, em sentimentos, sensações, sentidos de uma grande riqueza. 

Serão os lugares o que as pessoas deles fazem, ou serão as pessoas o resultado dos lugares?

Cris

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

"Limões na Madrugada" de Carla M. Soares

Comecei a ler as primeiras páginas e tive de voltar a relê-las porque a minha atenção estava "em Marte". Não sei porque tal me acontece mas é uma das razões que me afasta dos contos. O começo para mim não é fácil. Sou distraída e tenho sempre os pensamentos a mil...

Mas os capitulos curtos, a escrita bonita e cuidada sem ser rebuscada em excesso, o vai-vem constante entre momentos temporais diferentes intercalados entre Portugal e Argentina, transmitem ao leitor um ritmo de leitura muito próprio, que me fez sentir em "casa". Sem nada conhecer da história, porque às vezes nem a sinopse quero ler, nem tão pouco conseguir adivinhá-la, senti-a minha.

A protagonista da história é também, a narradora, o que aproxima o leitor quando lê o que ela conta, a sua história. É uma personagem bastante completa, com as suas contradicões e os seus medos mas com uma garra muito forte que a impele a vencer as suas próprias barreias. Uma personagem muito "humana", parecida, certamente, com alguém que conhecemos e que nos é próximo. Esta caracterização, que achei perfeita, confere a Adriana um papel central neste relato e é através dela e por ela que a história ganha vida e contornos muito verdadeiros e reais, verosímeis.

As passagens no tempo fazem-se com suavidade, não agredindo quem lê, mesmo que se mude do passado para o presente em menos de nada. O mesmo acontece com as mudanças de espaço (por sinal com descrições muito atentas) durante a narrativa: viajamos do Porto para Buenos Aires para ir descobrindo, aos poucos, a história de uma família, cuja última descendente deseja e, ao mesmo tempo, não deseja conhecer...

Uma família que me deu um gosto imenso conhecer, sobretudo ao espreitar os seus segredos, com histórias de uma época onde as pseudo-loucuras e as fragilidades humanas necessitavam de ser abafadas. Quem não gosta de "deitar um olho" para dentro de uma "casa"?

Tenho mais livros da Carla na estante por ler. Preciso de resolver isso...

Terminado em 7 de Janeiro de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Ansiosa por regressar à Argentina, mas presa a Portugal, distante do homem que ama e da mulher com quem vive, Adriana está perante um dilema universal e intemporal: manter-se comodamente na ignorância ou desvendar o passado da família, como se de um caso policial se tratasse, enfrentando assim aquilo de que andou a fugir toda a vida, por mais doloroso que seja. 

Num jogo magistralmente imaginado pela autora, entre a vida atual de Adriana e os ecos do Portugal antigo, machista e violento dos seus pais e avós, esta história, de uma família e dois continentes, é uma viagem entre o presente e o passado, uma ponte sobre o fosso cultural que separa as gerações, um tratado sobre tudo aquilo que a família pode fazer à vida de um só indivíduo.


Entre a sombra e a luz, deixando que por vezes os silêncios falem mais alto do que as palavras, Limões na Madrugada é um romance sobre o amor incomum, o poder da família e a necessidade da coragem.

Cris