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segunda-feira, 4 de maio de 2020

"Uma Outra Voz" de Gabriela Ruivo Trindade

Nada melhor quando um livro nos surpreende, nos intriga e nos arrebata!
Quando não estamos de todo à espera, melhor ainda.

Tinha este livro na estante, aguardando pacientemente a sua vez. Esquecido, confesso. Como muitos outros. Um desafio de leitura em que nos era solicitado um livro de um autor português que tivesse no seu nome (ou no título) a letra T, fez com que pegasse nele. No entanto, não leio à toa. Ele precisa de me agarrar nas primeiras páginas para que sinta vontade em lê-lo. Por isso vos digo que já era o quarto em que pegava... Nada me satisfez até ter pegado neste e ter sentido que este era o "tal"!

Uma árvore genealógica abre-nos as portas logo no início. Vamos voltar a ela muitas vezes para tentar descobrir quem é o narrador e que ligações tem ele com esta família e, mais propriamente, com o personagem referido na sinopse: João José Mariano Serrão. São cinco as vozes que dão peças a este puzzle mas, como é habitual em todos os puzzles, as peças finais é que nos dão a sensação de finitude. Essas peças são-nos oferecidas  pelo próprio João José numas folhas de um seu diário que resistiram ao tempo. Como em todos os puzzles depois de terminados, devemos afastarmos-nos para olhar para a obra final no seu todo...

E não poderia ter ficado mais agradada com esta. A construção de todo o enredo está primorosamente conseguida e estudada. Com um interesse crescendo, vamos entrando num Portugal que muitos só conhecem de ouvir falar, dos meados do séc XIX. Os pormenores históricos e culturais contados pelos diferentes narradores e que nos vamos dando conta quando avançamos na leitura e no aprofundamento do personagem em que se baseia esta estória, constituem uma delícia para o leitor.

Uma leitura que é um verdadeiro prazer e que recomendo sem reservas!

Terminado em 30 de Abril de 2020

Estrelas: 6*

Sinopse
João José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.
Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.

Cris

terça-feira, 1 de julho de 2014

A Convidada Escolhe: Uma Outra Voz

Partindo de relatos de família, de algumas fotografias e de um diário inventado pela autora, Gabriela Ruivo Trindade lançou-se na tarefa de tirar do esquecimento a figura de um tio-avô – João Carreço Simões (Ti Carreço) – criando a personagem de João José Mariano (Ti Mariano). A autora reconstruiu assim a memória de um familiar que teve um papel decisivo na modernização de Estremoz no início do século passado, através de uma ficção que é a construção de uma personagem e da história de uma família a partir de várias vozes, uma narrativa que é um puzzle de personagens e de vozes em diferentes tempos e em diferentes locais.

A primeira voz que surge aquando da morte do Ti Mariano em 1954, é a de um jovem de quinze anos cujo mundo gira em torno da mãe severa, de uma irmã mais velha que lhe ensina truques para que ele não seja castigado, das escapadelas à biblioteca do tio onde descobre através de livros de anatomia a vocação que o levará a enveredar pela medicina. Para além das referências ao despertar da sexualidade, através deste narrador logo se percebe que a rigidez da mãe esconde um segredo, aquilo que tantas vezes é silenciado nas famílias.

Não querendo desvendar as vozes que se seguem e que nos permitem montar o puzzle desta família, faço aqui apenas algumas referências a aspectos que achei muito interessantes protagonizados ou referidos pelos diversos narradores, nomeadamente a referência ao Poeta da Serra da Arrábida, aos vários momentos da história de Portugal, relevando o papel do Ti Mariano como militante da causa
republicana nomeadamente em Estremoz, a luta clandestina contra o fascismo nos campos do Alentejo e mais tarde quando já após o 25 de Abril os fascistas mais uma vez quiseram levantar a cabeça, as aflições vividas pelas famílias cujos filhos combatiam no tempo da guerra colonial, a deserção para fugir a uma guerra injusta, a luta estudantil e o viver os acontecimentos do 25 de Abril de 1974 no Largo do Carmo e em Caxias aquando da libertação dos presos políticos.

Todas estas vozes nos convocam para reflexões sobre a vida, o amor, o sexo, o corpo, os medos, a solidão, a hipocrisia das convenções sociais que se ampliam num meio pequeno, o papel da Igreja como garante do status quo e da ordem estabelecida, ou a rejeição social de quem não está dentro dos padrões porque se é prostituta ou porque se engravida fora do casamento.

No centro de toda a narrativa, o Ti Mariano. Um homem que, para além do reconhecimento dos seus conterrâneos pelo bem que fez à terra, surge como um republicano convicto, um ser humano intrépido que enfrenta as hipocrisias sem medo da crítica social, com uma perspectiva modernizadora da sociedade em que se insere, mas cuja vida afectiva está bem guardada numa das vozes e no diário
íntimo em que escreve sobre o seu grande amor impossível.

Uma narrativa perfeita, complexa na sua simplicidade e limpidez, abordando a nossa história colectiva e as histórias individuais, dando voz a pessoas tão diversas e com personalidades e percursos tão distintos.

São deveras comoventes os epílogos que fecham a narrativa e que nos dão a conhecer o trabalho laborioso da autora, a partir da escuridão, descobrindo pontos de luz, tecendo pontes e atalhos, como se de um bordado ou de um quadro se tratasse, para no final se completar esta história. Uma verdadeira declaração de amor.


Almerinda Bento