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terça-feira, 7 de março de 2017

"Iluminações de Uma Mulher Livre" de Samuel Pimenta

Conhecendo e simpatizando com o autor, sinto que esta opiniāo poderá nāo ser isenta de todo mas, como vos estou a avisar de antemāo, isso deixa-me mais descansada e, assim, posso continuar com os meus pensamentos e deambular livremente pelo que senti ao ler este livro. 

Isabel, a protagonista principal, é uma mulher culta e inteligente que se deixou enredar num casamento onde o abuso e a opressão vão tomando conta do seu dia a dia. O amor transforma-se rapidamente em medo. E rapidamente a ideia de liberdade se sobrepõe a tudo e Isabel deseja ver-se livre do marido, nem que para isso tenha de o matar. Às vezes pensamos que os estudos impedem qualquer pessoa de se meter em situações idênticas, onde a vontade própria deixa de existir... Porém, a realidade é outra. Bem perto de nós encontramos siruações semelhantes a esta, tão bem descrita pelo autor.

Assim, e infelizmente, a temática deste livro é mais actual que o desejado. Com uma sensibilidade enorme, o autor consegue escrever na primeira pessoa como se dela se tratasse, fazendo com que o leitor se sinta mais próximo da personagem e dos conflitos que atravessa. 

A meu ver, muito embora perceba que deverá ser uma paixão do autor, reduziria algumas referências a figuras históricas e mitológicas, porque achei que me desviou da história central, muito embora perceba a razão da sua existência. Um livro sobre as mulheres, que um homem dá voz, através da voz de uma mulher sofrida que se consegue libertar das prisões que a impedem de se sentir bem.

Uma vez mais, o autor tráz-nos um tema actual (devem também ler Os Números que Venceram os Nomes)  e com muita perspicácia denuncia um tipo de violência que, infelizmente, é bastante comum nos nossos dias.

Força Samuel! O caminho é por aqui mesmo!

Terminado em 28 de Fevereiro de 2017

Estrelas:4*+

Sinopse
Na aldeia onde é rejeitada e perseguida pela população, Isabel acorda com a única ideia capaz de a libertar do casamento opressor em que vive: matar o marido. Se, de início, a ideia lhe parece improvável, vai ganhando força à medida que recorda as histórias das mulheres do passado, de que a avó lhe falava quando, com outras mulheres, se reuniam em grupos femininos secretos para falarem de oráculos, curas e magia.
Isabel é moderna, sensível, curiosa e sempre quis a sua independência. Cresceu na capital, mas mudou-se para a aldeia por causa do casamento. E foi essa união que a aprisionou numa existência de medo e abuso. Só ela pode libertar-se desse homem castigador, e ao longo de vários dias Isabel confronta-se com todos os receios e dúvidas, imaginando planos e lembrando-se dos ensinamentos da avó, procurando argumentos que fortaleçam a sua decisão, enquanto cumpre com todos os rituais quotidianos da casa com beleza e empenho poético.
luminações de uma Mulher Livre revisita histórias por via da tradição oral, figuras históricas, mitos e referências da literatura universal.

Para mais informações sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

Cris


segunda-feira, 6 de junho de 2016

"Os Números Que Venceram os Nomes" de Samuel Pimenta

Para não variar, com a Feira do Livro deste ano chegaram a minha casa novos habitantes. Junto com a Feira vieram também os encontros com amigos livrólicos e com alguns escritores. Dia 2, a Marcador convidou os bloguers para um encontro com Samuel Pimenta. Aceitei, curiosa, mas como o livro ainda morava na prateleira dos "não lidos", peguei de imediato no Os Números Que Venceram os Nomes. A leitura fez-se rápida porque a ideia é, senão original, pelo menos muitíssimo interessante. Talvez até pudesse ser divertida se na realidade alguns aspectos não coincidissem com o que se passa hoje. Pequenos indícios monstram-nos o quanto precisamos de estar alertas e tomarmos consciência de como os múmeros começam a vencer os nomes... e não devem, claro!


Num mundo distópico, no futuro, o personagem principal vê-se fechado num hospício, acompanhado de cada vez maiores deses de medicamentos que o deixam mais adormecido e hipnotizado. Chama-se Um Nove Um Seis. Tudo, no mundo em que vive, deixou de ter nome. Tudo se reduz a números. Aliás ele nem se recorda da existência de um mundo diferente. Até a relação com Deus passa pelo "oferecer números a Deus", ou seja, é preciso pagar para que Deus se mostre satisfeito (o que é que isto me faz lembrar?!!!). Os livros eram objetos perigosos porque cheios de letras. Da poesia, então, nem se fala...

Plena de imaginação, esta leitura faz-nos refletir. Os pequenos alertas estão lá! Identificamos muitos fenómenos que estão a aumentar a um ritmo impressionante nos dias de hoje. Como exemplo disso aponto o automatismo com que tratamos os outros ou que nos tratam quer a nível pessoal como, e sobretudo, profissional.

O Samuel criou o Um Nove Um Seis. Eu senti-o perto de mim. A sua luta para não deixar-se apanhar por um sistema que o queria apático e sem vontade, foi a minha luta também. Conversas que tive com amigos e colegas de profissão vieram-me à memória: "para eles somos números", lembrei-me de quantos vezes disse esta frase. As câmaras, os radares, a televisão, o FB, tudo nos controla um pouco e nos dita o que fazer e, pior que isso, o que pensar...
Uma leitura que se faz breve mas que de ligeira nada possui. Recomendo!



Terminado em 4 de Junho

Estrelas: 5*

Sinopse

O que é um nome? — A pergunta ressoou por toda a divisão, embateu nas paredes e voltou ao emissor sem obter resposta. Um Nove Um Seis estava sentado na única cama do quarto número onze do hospício. Via as paredes do quarto a girar como se tivessem sido empurradas por uma criança que brinca com um globo terrestre pela primeira vez. Além disso, sentia-se como se estivesse de olhos abertos debaixo de água, estava tudo turvo. Era efeito dos fortes medicamentos. Sentado numa cadeira ao lado da cama, um médico observava-o de testa plissada, enquanto segurava uma folha no colo, onde fazia algumas anotações.