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sexta-feira, 31 de julho de 2026

"Na Tua Mão" de Hélder Teixeira Aguiar

Um livro surpreendente, na minha opinião! É uma obra ficcionada sobre a migração forçada de dois irmãos venezuelanos de ascendência portuguesa, Ruben e Gonzo, que, após o desaparecimento súbito da mãe, jornalista perseguida pelo regime, fogem e tentam sair do país para de alguma forma irem para a casa dos avós em Portugal. É um romance onde a sobrevivência destes irmãos está sempre em causa, sobretudo porque os perigos associados à sua fuga são imensos. A travessia na Selva de Darién, fronteira entre a Colômbia e o Panamá, aproxima os irmãos e mais do que um simples livro de aventuras é um livro onde se mostra que a fraternidade entre as pessoas existe ainda nos dias de hoje e isso faz aproximar o leitor a uma realidade que desconhece. Nada sabia sobre esta migração que ocorre quando os que não possuem posses pretendem sair da Venezuela. Muitos ficam pelo caminho. Que o digam os restos de objetos e corpos que se encontram nessa selva. Ficção baseada numa realidade que foi objecto de muita pesquisa por parte do autor. Esse facto transparece nas páginas do princípio ao fim.

Esta história é contada na primeira pessoa sobretudo por Rúben mas a voz de Gonzo também surge e enriquece muito a narrativa. Física e psicologicamente os irmãos crescem e amadurecem nesse caminho. O que deixam ficar pelo caminho, e não me refiro a objectos, irá marcá-los para a vida toda. 

O final é muito realista e gostei disso. Título certeiro, escrita directa, objectiva sem dramatismos mas muito real, este livro foi um page turner para mim. A realidade da migração forçada e a sobrevivência.

Gostei muito e recomendo!

Terminado em 23 de Junho de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Quando a mãe, jornalista, desaparece, Rúben, de dezasseis anos, e Gonzo, de onze, são forçados a sair do país. Invertendo o percurso dos avós portugueses, a perseguição política arrasta-os para Darién, a selva que devora os que a atravessam. Com companheiros que a travessia lhes impõe como família, terão de crescer anos em dias para sobreviver. Da antifronteira à Montanha da Morte, entre muralhas de lama, rios que se agigantam e predadores armados, a selva arranca-lhes quase tudo até lhes revelar a língua de quem sempre nela habitou.

Narrado alternadamente pelos irmãos, entre o coloquial e o lírico, a crueza e o humor, Na Tua Mão é um retrato migratório contemporâneo. Um romance baseado em relatos reais sobre uma fraternidade reinventada, corpos em movimento e palavras que arvoram.

No labirinto da selva, o «mar sonoro» é o último fio que os liga à esperança.

Cris

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A Convidada escolhe: "O Quarto de Giovanni"

“O Quarto de Giovanni”, James Baldwin, 1956 

Há muito que tinha o nome de James Baldwin como referência da literatura americana do século passado e voz forte na luta pelos direitos cívicos, contra o racismo e a homofobia. Acontece que foi através de “O Quarto de Giovanni” que me estreei na leitura deste autor negro e homossexual e, embora neste livro as suas personagens não sejam negras, ele versa a homossexualidade e a homofobia. Se nos dias de hoje os direitos da comunidade homossexual já fizeram um grande caminho, em meados do século passado, quando James Baldwin escreveu este livro, a homossexualidade ainda era criminalizada e patologizada em muitos países do mundo, nomeadamente nos Estados Unidos da América. 
David, o narrador, teve em jovem uma relação ocasional homossexual que quis esquecer. Vergonha, medo, a impossibilidade de esquecer essa experiência levam-no a decidir deixar os EUA e partir para França, numa tentativa de fugir do seu próprio eu. Tentativa vã. É com desconforto e amargura que vive a sua condição homossexual, incapaz de resistir, numa postura ambivalente de culpa e ódio, sonhando por libertar-se e seguir uma vida heteronormativa, ao mesmo tempo que reconhece que toda a vida não mais fez que mentir a si próprio. Esta condição de homofobia internalizada está muito bem retratada neste narrador contraditório que tenta sobreviver, ajustando-se a uma sociedade hipócrita, preconceituosa, homofóbica e profundamente misógina.
O próprio quarto de Giovanni, com o qual David tem uma relação breve, pode ser considerado uma personagem que ajuda a caracterizar o desconforto homofóbico do narrador - sujo, desarrumado e sem privacidade – mesmo que Giovanni o tente “melhorar”, criando um espaço na parede para arrumar livros… 
Não posso deixar de referir o final do livro, a condenação de Giovanni apenas aflorada e não explicitada na primeira parte, episodicamente referida ao longo do livro, que é descrita pelos olhos de David, enquanto faz as malas e se prepara para partir: os últimos momentos de Giovanni prestes a ser executado pela guilhotina. Brutal e magistral. Pensar que a pena de morte pela guilhotina só foi abolida em França em 1981!
“… Talvez não goste muito de mulheres, na verdade. Mas isso não me impediu de fazer amor com muitas e de amar uma ou duas. Mas a maior parte do tempo… a maior parte do tempo fiz amor apenas com o corpo. 
- Isto parece-me muito solitário – disse. Não tinha de todo previsto dizer isto.
E ele não esperava ouvi-lo. Olhou para mim, ergueu a mão e acariciou-me o rosto.
- Sim, e não estou a querer ser méchant quando falo de mulheres. Respeito, e muito, as mulheres, pela sua vida interior, que não é como a de um homem.
- As mulheres não parecem gostar dessa ideia.
- Oh, essas mulheres absurdas que andam agora por aí, cheias de ideias e de disparates julgando-se iguais aos homens, quelle rigolade!, precisam se ser copiosamente espancadas para perceberem quem manda no mundo.
Ri.
- As mulheres que conheceste gostavam de ser espancadas? 
Ele sorriu.
- Não sei se gostavam. Mas uma sova nunca as fez fugir. – Rimo-nos ambos. “
(pág. 94)

10 de Junho de 2026 

Almerinda Bento
 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

"A Metamorfose" de Franz Kafka

Acho que não me vou esquecer deste livro tão depressa! É uma novela que me causou estranheza pela sua história que, como o seu título deixa adivinhar, se traduz numa metamorfose. A estranheza decorre do facto de ser uma tranformação de um homem num insecto gigante.

A reação dos seus familiares (pai, mãe e irmã) que vivem na mesma casa que Gregor passa mais pelo modo como vão esconder a situação e como vão sobreviver sem os rendimentos que ele auferia do seu trabalho. À medida que Gregor deixa de poder comunicar, a família vai-se distanciando dele, levando apenas comida e trancando-o no quarto. A compaixão dá lugar ao desconforto, ao incómodo, à rejeição.

Um livro que nos faz pensar na "utilidade" que atribuímos às pessoas à nossa volta. O que acontece quando alguém deixa de corresponder ao papel que é suposto possuir!

Gosto, maioritariamente, de histórias que sejam verosímeis pelo que li este livro de uma assentada sempre com uma sensação de desconforto. Admito até que tenha sido isso que o autor pretendia!

Terminado em 16 de Junho de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse

«MERGULHAR NO MUNDO DE KAFKA É COMO ENTRAR NUM PESADELO PERFEITAMENTE LÚCIDO.» VIRGINIA WOOLF

Numa manhã banal, Gregor Samsa desperta para o impensável: o seu corpo já não lhe pertence. Transformado numa criatura grotesca, vê-se subitamente excluído do mundo que até então sustentava – um mundo regido pela utilida de, pelo dever e pelas expectativas familiares. Confinado ao silêncio e ao isolamento, Gregor assiste à lenta erosão dos la ços familiares que o definiam. O amor dá lugar ao desconforto, a dedicação à indiferença, e a identidade dissolve-se perante o olhar dos outros. À medida que o tempo avança, torna-se claro que a verdadeira metamorfose não reside apenas no corpo que habita, mas na forma como é visto – e esquecido. Com uma escrita de precisão implacável e uma atmosfera inquietante, Franz Kafka constrói uma das mais poderosas alegorias da condição humana.

A Metamorfose é uma obra-prima intemporal sobre alienação, dignidade e a fragilidade do lugar que ocupamos no mundo. 

Cris 


segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Apenas Miúdos" de Patti Smith

Há livros que demoram nas nossas mãos por muitas razões, umas melhores que outras. Este demorou porque li-o com um misto de sentimentos. Estava curiosa para conhecer melhor a vida de Patti Smith, o seu começo, mas, ao mesmo tempo a leitura ia avançando devagar porque havia muitas referências a nomes desconhecidos para mim. Tinha duas opções: ou avançava sem nada saber deles ou ia procurar. Fui intercalando as duas sem saber se seria o melhor. Isso desmotivou-me um pouco.

É um livro de memórias onde Patti Smith recorda como chegou a Nova Iorque em 67, praticamente sem dinheiro. Queria ser artista sem saber muito bem o que seria isso e que caminho tomar. Conhece Robert Mapplethorpe (que ainda não sabia o fotógrafo que havia dentro de si), apaixonam-se e, é precisamente junto dele, nos anos seguintes, que passa os bons e maus momentos que descreve nesta obra. Robert começa a compreender e aceitar, com o decorrer do tempo, a sua homossexualidade mas isso não destroi os laços de amizade que mantém com Patti.

Este livro é um retrato de uma época de Nova Iorque, onde o Hotel Chelsea tem um papel preponderante para os artistas que nele se cruzam frequentemente. Nomes como Jimi Hendrix, Janis Joplin e muitos mais, entrelaçam-se com Patti e Robert no seu dia a dia. Até Robert se tornar um fotógrafo célebre e Patti uma cantora de rock, muito se sucede e este romance decorre nesse ambiente.

"Eu estava a dormir quando ele morreu.", conta-nos na primeira frase do Preâmbulo. Patti cumpre a sua promessa e escreve a história de quem mais a fotografou, uma história de amor e, sobretudo, de amizade que o tempo não destruiu mesmo que tivessem seguido caminhos amorosos diferentes.

"Caminhávamos na direcção do fontanário. (...), quando um casal mais idoso parou e se pôs a observar-nos abertamente. (...) - Oh, tira-lhes lá uma fotografia - disse a mulher ao seu divertido esposo -, cá para mim são artistas. Um dia ainda podem vir a ser alguém. - Oh, deixa-te disso - disse-lhe ele encolhendo os ombros. - São apenas miúdos." pág 61

Terminado em 16 de Junho de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
Este é o primeiro livro de Patti Smith em prosa. É um livro de memórias - que começa no Verão em que Coltrane morreu, do Verão do amor livre e de todos os motins, do Verão em que conheceu a figura central deste livro - o lendário fotógrafo americano Robert Mapplethorpe. Mas é também um retrato de época - dos dias do Chelsea Hotel e de Nova Iorque no fim dos anos 1960 - e uma comovente história de juventude e amizade.
Just Kids é uma fábula em que encontramos poesia, rock’n’roll, sexo e arte que começa numa história de amor e acaba numa elegia.

Cris

sexta-feira, 24 de julho de 2026

"Maite" de Fernando Aramburu

Fiquei fã de Aramburu desde que li o Pátria, livro que considero o seu ex-libris (ver opinião aqui). Já li mais alguns dele e são sempre leituras prazerosas. Como esta.

As personagens deste romance são muito credíveis, complexas nos seus sentimentos. Aqui o foco é precisamente as personagens e toda a psicologia nelas envolvente. Se esperam que o contexto histórico esteja muito presente, como no Pátria, vão ao engano. Eu gostei muito sim, sem deixar que Pátria seja o meu preferido. Este romance decorre em quatro dias, entre 10 a 13 Julho de 1997, em San Sebastián.

Maite é uma mulher pacificadora, talvez demasiado. A sua necessidade de manter a paz familiar a todo o custo, tanto na relação mãe/irmã como na relação com o marido, leva-a a esquecer-se, muitas vezes, de si própria.  A relação entre as três mulheres está bem aprofundada. Os silêncios que se instalam e o sentimento de culpa aqui bem espelhados.

E há neste romance uma impressão em relação ao comportamento do marido que se instala no leitor e que faz com que me tenha apetecido abanar Maite. Embora tenha já ouvido alguns comentários menos favoráveis em relação ao final desta história, eu gostei muito dele. Achei credível, verosímil. Olhamos à volta e encontramos tantas mulheres assim... E mais não digo para não fazer nenhum spoiler.

Como pano de fundo, Aramburu foi buscar um acontecimento verídico, o rapto e assassinato de Miguel Ángel Blanco, vereador do Partido Popular pela ETA em 10 Julho de 1997. O medo e as tensões vividas na época (nesta altura esta organização fez um ultimato ao governo para transferir os presos da ETA para o País Basco) acontecem a par com o regresso da irmã de Maite, Elene, depois de muitos anos nos EUA, a doença da mãe, a viagem de trabalho do marido e os segredos familiares que vão sendo revelados aos poucos. Um acontecimento político que afetou as familias e as suas relações, sendo que pelo que li, este assassinato constituiu um dos pontos de viragem na luta contra a ETA porque provocou uma enorme reação social (manifestações enormes de cidadãos bascos condenando essa organização). O medo imperava até então. A tolerância social perante a ETA começava a romper.

Recomendo muito esta obra embora, como referi, estes aspectos políticos não constituam o cerne deste romance.

Terminado em 9 de Junho de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Uma história que volve o olhar para a memória recente do País Basco, retomando a temática do brilhante Pátria.

San Sebastián, julho de 1997. Enquanto o marido está em viagem de trabalho, Maite recebe a sua irmã Elene, que, depois de passar longos anos nos Estados Unidos, regressa à cidade natal porque a mãe de ambas sofreu um AVC. Nos dias que passarão juntas, as irmãs e a mãe convivem e conversam, mas escusam-se a dizer toda a verdade umas às outras. Evitam também encarar a tensão social que as rodeia: a ETA sequestrou um vereador de Ermua, Miguel Ángel Blanco, e ameaça executá-lo se as suas exigências não foram satisfeitas.

Os factos históricos correm em paralelo com a intimidade de Maite, uma mulher sensível, compassiva, atenta, mas espartilhada por convenções que a impedem de abrir os olhos e enfrentar a realidade. Fernando Aramburu voltou a fazê-lo: brinda-nos com um romance emocionante e inesquecível, outro marco na sua narrativa, que o confirma como um dos grandes narradores europeus do momento; uma história que volve o olhar para a memória recente do País Basco e cujas personagens, retratadas com espessura psicológica e profunda humanidade, nos comovem, em especial a sua imensa e memorável protagonista. 

Cris 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A Convidada escolhe: Viver com Homens - Reflexões sobre o Caso Pelicot

“Viver com Homens: Reflexões sobre o Caso Pelicot” – Manon Garcia, 2025

“Viver com Homens: Reflexões sobre o Caso Pelicot” é um importante trabalho etnográfico de extrema actualidade, num tempo em que impera o ódio às mulheres e a impunidade dos discursos misóginos ampliada livremente pelas redes sociais. A autora, Manon Garcia é uma filósofa e pensadora feminista com estudo e reflexão sobre questões feministas e sobre “submissão” e “consentimento”, que sentiu a urgência de escrever sobre este caso que abalou a sociedade e que ela acompanhou ao longo dos cerca de quatro meses que demorou o julgamento de Dominique Pelicot e dos cinquenta arguidos que violaram Gisele, com a conivência do marido. 

Antes do mais, quero referir a coragem de Gisele Pelicot, ao decidir que o seu caso não seria julgado à porta fechada, dado o melindre da situação. Foi ela que, depois de visionar os vídeos que o marido fizera ao longo de anos, organizados metodicamente e que identificara com o nome “Abusos”, decidiu que o julgamento tinha de ser público. Claro que a isso não é alheia a existência do movimento #Me Too e dos movimentos feministas que permitiram uma atitude que seria altamente improvável num contexto em que a força das organizações e dos movimentos feministas não existisse. “Desde o início do processo, Gisèle Pelicot é descrita às portas do tribunal como uma heroína, um ícone, uma mulher de uma rectidão sem igual.” (pág. 119) Se Gisèle Pelicot pode ser considerada “uma boa vítima” – é uma mulher de idade, educada e sabe falar a linguagem das instituições policial e judicial – a verdade é que houve momentos em que a justiça a tratou mal, insinuando que ela teria consentido, para além da “vitimização secundária” a que foi sujeita e que a levou a fazer esta afirmação: “Tenho a impressão de que a culpada sou eu, e que atrás de mim estão as cinquenta vítimas.” (pág. 122)

Provavelmente este caso de violações colectivas não teria sido descoberto, se Dominique Pelicot não tivesse sido “detido quando filmava por baixo das saias de mulheres no Intermarché de Carpentras. O vídeo do segurança que o interpelou nesse dia tornou-se viral: sem ele o caso Mazan não existiria, sem ele Gisèle Pelicot talvez tivesse acabado por morrer em consequência das enormes doses medicamentosas que o marido lhe ministrava.” (pág. 105) E isto leva-nos a pensar no que fica no silêncio, no que nunca se vem a saber, para além do que nunca é denunciado, do que nunca é punido. Este caso de violação colectiva com inúmeras provas concretas, que foi julgado e punido, veio ligado à suspeita de incesto que ficou por apurar relativamente à filha e às noras de Dominique, por falta de provas. 

O caso Pelicot altamente mediatizado é um problema social e não um mero episódio. O ódio às mulheres passou a ser explícito e largamente difundido a partir de influenciadores com milhares de seguidores em várias plataformas e redes sociais.  Refutamos a culpabilização das mulheres na sua luta pela igualdade, na não aceitação da submissão como comportamento expectável, normalizado e banalizado. No capítulo “Masculinidade(s)”, Manon Garcia faz referência a um jovem neonazi trumpista que escreveu na plataforma X, no próprio dia da eleição de Trump, o slogan “Your body, my choice”, num claro ataque ao direito ao aborto, o qual teve cem milhões de visualizações. Num artigo de opinião de Luísa Semedo, investigadora, doutorada em Filosofia Política e Ética, de 14 de Maio no jornal “Público” – O que “eles fazem entre quatro paredes” (não me) interessa? – a cronista escreve: “É o caso dos grupos de Whatsapp e Telegram em que homens como Dominique Pelicot drogam, violam, filmam as companheiras, mas também partilham as imagens. Em março de 2026, uma investigação da CNN revelou o que ficou conhecido como a «online rape academy», um espaço em que homens de vários países trocavam conselhos sobre sedativos e dosagens, partilhavam vídeos de mulheres inconscientes e vendiam o acesso a esses conteúdos. Em Portugal, o PÚBLICO documentou um grupo de Telegram, com perto de 70 mil membros, em que circulavam imagens de mulheres fotografadas sem o seu consentimento, muitas vezes enquanto dormiam, num dos tópicos mais ativos chamado “Esposas” ou ainda “Família” ou “Espiar em Casa”. Assustadoramente, confirma-se que o lugar mais inseguro é mesmo dentro de casa e que “saber e ver-se como violável de um momento para o outro é uma experiência específica da feminilidade. As raparigas e as mulheres são criadas com a ideia de que a ameaça está sempre lá, que têm de se adaptar, não podem andar sozinhas na rua, não podem ser demasiado sexy, têm de andar depressa, baixar os olhos, curvar o peito, não sorrir. Ter cuidado com o número de copos que bebem quando saem, não deixar sozinha a amiga alcoolizada, verificar a matrícula do Uber. «Mandas-me mensagem quando chegares?»” (pág. 139) pode ler-se no capítulo “Violável”.

O livro é perturbador e bastante completo na caracterização da personalidade perversa, doentia de Dominique Pelicot. Se na mensagem enviada para angariar violadores “Procuro cúmplice perverso para abusar da minha mulher adormecida, em violação colectiva, em minha casa. Ela toma todos os dias um comprimido para dormir, nem sequer te verá. Bela puta pudica que não quer trios” (pág. 63) Dominique mostra absolutamente ao que vai, colaborando activamente com os violadores, igualmente se mostra colaborador com a justiça em todo o processo, referindo-se a Gisèle como “o seu amor, a sua santa, que não ama outra mulher senão ela, que a deveria ter protegido…” (pág. 132), mantendo ao longo dos quatro meses do processo sempre o mesmo discurso “Sou um violador como estes que estão presentes nesta sala.” (pág. 131) e uma postura firme e destacada qual “rei Pelicot.” (pág. 134)

Termino valorizando o interesse e importância política da publicação deste livro de Manon Garcia pela Zigurate. Deveria fazer parte da bibliografia de qualquer pessoa que se interesse pelas questões do feminismo e do patriarcado. É um livro profundamente honesto em que a própria autora, com toda a sua formação teórica se mostra frágil,  abalada e exausta, enquanto observadora atenta deste processo, em que sentiu dúvidas, em que por vezes tomou partido contra a sua própria vontade, movida pela emoção e caindo na armadilha da cultura machista em que vivemos desde que nascemos.

Um livro que recomendo muitíssimo e que agradeço à minha amiga insubmissa que mo ofereceu. Obrigada Manu. 

18 de Maio de 2026

Almerinda Bento

quarta-feira, 22 de julho de 2026

"A Mulher Por Detrás da Parede" de Filipa Fonseca Silva

Estefânia é a protagonista desta história e também a sua narradora. É uma personagem fortemente marcada pelo seu passado traumático e é a sua perspectiva dos acontecimentos que conhecemos. Muito facilmente a acarinhamos porque percebemos que esses traumas de infância a marcaram profundamente: o abandono do pai, o desinteresse e o desamor da mãe, as duas irmãs que sendo muito mais velhas a excluiram das suas vidas, e por fim, o caso amoroso que manteve por mais de 15 anos e que a fez prisioneira de sentimentos ......

A narração sendo subjectiva permite-nos conhecer os seus pensamentos, os seus conflitos interiores e é precisamente neles que vamos percebendo a sua dependência face a Artur, seu namorado. Artur é casado, facto que ele refere como sendo temporário... Todos nós já ouvimos histórias destas, não é verdade? E sabemos como elas acabam maioritariamente! Mas o que torna este romance marcante é acompanharmos os pensamentos de Estefânia, a empatia que inicialmente sentimos por ela começa a diminuir no sentido em que ficamos irritados com as suas decisões e com as mentiras que se inflige a si mesma. No entanto, é precisamente aqui que a autora ganha pontos com o leitor: a personagem parece muito humana e real.

Provocando muita reflexão, esta obra está muito bem conseguida. Em causa estão temas como a manipulação psicológica e seus perigos, a perda de identidade, a dependência emocional, a culpa e a baixa auto-estima, as relações tóxicas que se instalam gradualmente. Não existe violência física nesta relação mas a violência psicológica é extrema. Sem querer desvendar como isso acontece, embora o título deixe transparecer um pouquinho, refiro apenas que Estefânia se deixa anular e vive em função do namorado.

A escrita de Filipa é simples, fluída e agarra logo após as primeiras páginas. A tensão é crescente e passa para o leitor. Recomendo.

Só não atribuí 6* porque o final não me pareceu verosímil. Embora ache que traz uma mensagem de esperança e reforça a ideia que o autoconhecimento é necessário para que o indivíduo não perca a sua identidade, houve um facto que não achei, como referi, verosímil.

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ALERTA SPOILER:
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Estefânia "acorda" da sua relação tóxica e vinga-se. Até aí tudo bem. Mata o companheiro. Ok também. Fica impune. Como assim? Faria, a meu ver mais sentido se estivesse a escrever estas suas memórias, presa.

Terminado em 30 de Maio de 2026

Estrelas: 5*

Sinopse
Durante quinze anos, Estefânia viveu entre a promessa e a espera. Apaixonou-se por Artur, um homem casado, e aceitou um amor confinado a um espaço improvável, onde uma parede móvel separa o desejo da mentira.

Quando a mulher de Artur o visita, a parede fecha-se, e Estefânia vê-se reduzida ao lugar invisível da amante, a vida suspensa, acreditando que um dia ele cumprirá a promessa de deixá-la livre — ou de libertar-se. Inspirado em factos reais, este é um romance que toca em feridas íntimas com delicadeza e intensidade. Uma dissecação literária da culpa, do autoengano e das múltiplas formas de submissão feminina.

Da autora de O elevador, já adaptado a filme, e de E se eu morrer amanhã?, livro fenómeno em Portugal e no Brasil que em breve também chegará ao grande ecrã. 

Cris

segunda-feira, 20 de julho de 2026

"No Meu Fim Está O Meu Começo" de Filipa Martins

Como eu gostei deste livro! Surpreendeu a escrita cuidada mas tranquila ao mesmo tempo. Os temas de fundo são introduzidos com tempo e, por vezes, quase devagar. Sem darmos conta, avançamos na leitura e apercebemo-nos de uma frase, de algo deixado cair que explica uma determinada situação.

A narradora, Isabel, fala-nos da doença incapacitante da mãe, Alzheimer, e a sua degeneração cognitiva. Lentamente ela vai perdendo a memória mas ao mesmo tempo começa a revelar um passado escondido através de frases que se lhe escapam. Isabel, ao mesmo tempo, relembra o seu passado. Sempre se viu no papel de cuidadora e sendo enfermeira assumiu esse papel também em adulta. Os seus sentimentos em relação a isso passam por momentos de desânimo e cansaço e, depois, culpa. 

O final desta história é como na vida. Muitas vezes não há respostas para tudo. No passado revisitado encontram-se os meios para analisar, perceber e aceitar. No fim de qualquer ciclo pode estar o começo de outro. A perda da memória da mãe é seguida, ao mesmo tempo, pelo recordar de Isabel. Toma consciência do seu passado e das feridas que ele lhe traz. O pai ausente, a pobreza vivida, a sua fiha que por ter a cor da pele diferente da dela sofre questões raciais.

(Re)começar passa por compreender o passado para decidir como se pretende viver o presente e o futuro. Passado e presente aqui numa simbiose perfeita mas que, contudo, o leitor distingue facilmente. As 6 estrelas são devidas tanto pela qualidade da escrita como pela forma como está articulada a narrativa, precisamente essa mudança do presente para o passado e vice-versa. Analepses perfeitas.

Memória familiar e, como pano de fundo, a memória histórica de um Portugal no antigo regime.

Livro que hei-de reler um dia porque vale muito a pena! Recomendo.

Terminado em 26 de Maio de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
A memória como um território instável. A persistência dos laços quando já não há palavras que os possam descrever. Isabel, enfermeira, acompanha o declínio cognitivo da mãe enquanto é forçada a revisitar a sua própria história.

A infância num bairro periférico, o trabalho precoce, a formação no hospital, o casamento falhado, a maternidade atravessada por tensões raciais e a figura ambígua de um pai ausente emergem como farrapos ainda vivos, nunca totalmente resolvidos. Cuidar torna-se um gesto ambivalente, simultaneamente técnico e afetivo, exercício de sobrevivência e de exaustão.

A doença instala-se não apenas como condição clínica, mas como metáfora de uma herança coletiva feita de silêncios, violência normalizada e adaptação contínua. A memória materna que se desfaz convoca as estratégias de esquecimento que atravessaram gerações e um país, pondo em causa a ideia de progresso, de redenção e de linearidade do tempo.

O fim deixa de significar apenas perda e passa a ser também um lugar de revelação. 

Cris

sexta-feira, 17 de julho de 2026

"Elena Sabe" de Claudia Piñeiro

Elena encontra-se fragilizada pela doença que a domina e pela morte da filha. Desconfia que a morte da filha não se deveu a suicídio e, por essa razão, tudo faz para descobrir indícios que provem o contrário. Só que as suas dificuldades físicas impedem-na de concretizar rapidamente os seus objectivos. Pedir ajuda pode ser mais difícil do que imagina!

Temas como a culpa, a dificuldade em conhecer aqueles que amamos, o direito ao aborto, a dependência física causada pela doença, a maternidade e as suas implicações, o condicionamento imposto pela religião, são tratados com profundidade levando-nos a refletir sobre as questões éticas aqui colocadas. A vulnerabilidade de Elena deixa o leitor em stand-by, expectante. Quase que nos é possível sentir as dores de Elena!

E lá bem no fundo destes temas tão importantes, está também a referência ao quanto pode ser desgastante cuidar de alguém com uma doença tão incapacitante, como o Alzhaimer Plus. Os cuidadores informais tão esquecidos!

Recomendo muito este pequeno livro tão marcante e de rápida leitura que aparenta ser um romance policial. Não o é, de todo.

Terminado em 21 de Maio de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse

Uma história poderosa que dá voz ao silêncio e afirma a liberdade de escolha.

Depois de Rita ser encontrada morta na torre do sino da igreja que frequentava, a investigação oficial sobre o caso é rapidamente encerrada. A sua mãe é a única que não desiste de esclarecer o crime. No entanto, fragilizada pela doença, é também quem tem menos condições para liderar a busca pelo assassino. Uma difícil viagem pelos subúrbios da cidade, uma antiga dívida de gratidão e uma conversa reveladora compõem a trama de um romance íntimo e crítico, em que os segredos das personagens são desvendados a par das facetas ocultas do autoritarismo e da hipocrisia da nossa sociedade.

Finalista do Booker Prize, Elena Sabe é uma obra única, que entrelaça histórias íntimas de moralidade com a procura da liberdade individual, escrita por uma das principais vozes contemporâneas da literatura latino-americana.

Cris

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Convidada escolhe: A Filha Obscura

“A Filha Obscura” – Elena Ferrante, 2006

Depois de ter lido há alguns anos a famosa tetralogia “A Amiga Genial” e posteriormente “Escombros”, chega agora a vez de “A Filha Obscura”, integrado na colectânea “Crónicas do Mal de Amor” da Relógio D’Água.

Esta leitura insere-se na reflexão iniciada na sequência do curso “Subversão: a maternidade na literatura e na cultura” ministrado por Rosa Azevedo e Joana Neves na livraria Snob. Curso que, sem dúvida, me pôs a pensar sobre um conceito que foi desconstruído, analisado e olhado sob vários ângulos e perspectivas e o qual nunca mais se conseguirá ver duma forma tão plana e singela como a sociedade patriarcal e capitalista quer que seja percepcionado. 

Digamos que “A Filha Obscura” me recordou alguns trechos de “A Amiga Genial” e consegue ser bastante perturbador. Até nos nomes que Elena Ferrante escolhe para as suas personagens, é impossível deixarmos de nos lembrar da famosa tetralogia. Leda é a narradora em “A Filha Obscura”. Tem 47 anos, é professora universitária e, pela primeira vez, vive uma sensação de leveza, sente-se “livre e sem culpas por sê-lo” e “milagrosamente desobrigada” (pág. 293) quando as duas filhas decidem ir viver com o pai em Toronto. Aproveita o final do ano lectivo para fazer umas férias diferentes das que fazia em família, carrega os seus livros e prepara-se para uma quebra da rotina que sempre fora a sua enquanto mãe disponível e sempre receosa de ser considerada ausente ou distraída. Agora, na praia, já não tinha “de estar atenta a horários nem de enfrentar pressas. Já ninguém dependia dos meus cuidados e eu própria, finalmente, já não era um peso para mim.” (pág. 297)

Este romance tem poucas personagens. Para além de Giovanni, que guarda o apartamento que Leda alugou na praia, temos Gino, o banheiro e uma numerosa e ruidosa família napolitana, de que se destacam Nina, uma jovem mãe, a sua filha Elena e a boneca Nani, com a qual as duas brincam e interagem. São estas três personagens que verdadeiramente interessam a narradora, que lhe chamam a atenção e que a fazem recordar a sua vida, a sua mãe, as filhas e também a boneca Mina que tivera quando criança. Afinal, querendo sentir-se livre, não consegue deixar de estar permanentemente a recordar o passado, a mãe, as filhas, o marido e as escolhas ou caminhos que fizera ao longo da vida. 

As descrições dos locais são minuciosas e muito vívidas e há uma carga dramática que antecipa uma tensão que está presente desde o início do romance. O cesto da fruta tão apetecível a desejar as boas vindas à locatária, é afinal fruta retardada ou podre, incomestível; a luz intermitente do farol que inunda o quarto do apartamento; o pinhal cerrado que há que percorrer até chegar à praia; a menina que se perde na praia; a boneca que desaparece; o ataque com uma pinha no pinhal sem que Leda perceba de onde veio; os miúdos “gang” napolitanos que ela sente como uma ameaça e lhe provocam medo. 

Quando chegamos ao final, recuamos ao princípio do romance, ao acidente que a levara ao hospital, sobre cujas causas ela não quis falar. “As coisas mais difíceis de contar são aquelas que nós próprios não conseguimos compreender.” (pág. 292)

No final pergunto-me: quem é afinal a filha obscura? Tanto pode ser Leda, como Nina, como Elena, como Nani a boneca, ou a filha da boneca... É este o enigma que Elena Ferrante nos deixa e nem sequer acho que ela queira que o resolvamos, antes que nos deixe a pensar sobre ele.

6 de Maio de 2026

Almerinda Bento


quarta-feira, 15 de julho de 2026

"Para as Gerações Futuras" de Simone Veil

Antes de comentar algo sobre esta obra, quero referir que o seu título está muito bem escolhido; todo o livro possui uma mensagem que perdurará para as gerações que aí vêm e é muito importante que seja lido pelo maior número de pessoas, jovens e não só. 

É constituido por vários textos reflexivos, baseados numa conferência que Simone Veil deu em 2005 a estudantes de uma escola superior francesa. Publicado postumamente, parece ser dirigido aos jovens de todo o mundo. Como disse anteriormente, aos jovens e não só. Lições a reter!

Livro pequeno, mas tão impactante! As páginas do meu livro ficaram repletas de post-it. Começa por contar os momentos que antecederam a sua deportação para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau com 17 anos, com a sua mãe e irmã; os momentos lá passados e a sua libertação. Perdeu nos campos o pai e o irmão e também a sua mãe, que muito lhes deu, a ela e à irmã, muita força naqueles momentos.

Explica, também, porque os sobreviventes não se referiram durante muitos anos aos martírios passados nos campos de concentração. Não era a dor que os impedia de falar mas o facto de não acreditarem no que contavam. Só anos mais tarde, ficou claro para muitos deles que testemunhar era importantíssimo para que não se voltem a repetir os horrores perpetrados a milhares de pessoas. 

Refere também que muitas crianças que foram salvas, porque estavam escondidas, sofreram traumas que não são referidos nem falados. "Falou-se dos deportados, do que vivemos, mas não nos apercebemos de que a dor das crianças escondidas era, na verdade, muito mais forte do que julgávamos." pág 17

Simone relata, sem dramatizar e sem ódios que seriam legítimos. Mas impressiona observar neste seu relato que a "sorte" ou o "azar" ditavam a morte ou a vida de alguém. Simone teve "sorte" e amadureceu com os acontecimentos vividos. Não deixou que o ódio e a raiva a dominassem. Confia nas gerações futuras para preservar a memória e defender a democracia, democracia que de um momento para o outro pode perigar.

Precisam mesmo de ler este livro!

"Tal como em Drancy, éramos incapazes de imaginar naquele momento que aquilo fosse possível. Qua aquelas pessoas que tinham vivido connosco, que ainda poucas horas antes se encontravam ao nosso lado, já estivessem mortas. Não só estavam mortas como ja não existiam. Assim era. (...) Extreminar de forma planeada, cientificamente, uma parte de uma população, porque não serve para anada, sejam bebés, pessoas mais velhas, e muitas vezes, até pessoas que poderiam trabalharmas das quais apenas querem manter vivas algumas. Sabemos que elas vão morrer, aliás. Como estamos tatuados, estamos destinados a nunca sair do campo de concentração. Mas é preciso fingir. Fazer com que alguns entrem no campo, mas arranjando as coias de modo a que nunca de lá saiam." Pág 23

Terminado em 17 de Maio de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse

A última grande e importante lição de Veil nunca antes publicada em Portugal.

Para as Gerações Futuras é uma comovente carta deixada aos jovens por Simone Veil, uma das fi guras mais importantes da política europeia e uma das suas grandes consciências. Um texto, até agora inédito, criado com base numa palestra que deu aos seus alunos da Rua d’Ulm, em abril de , e que condensa a lucidez e coragem da sua autora, enquanto mulher e sobrevivente do Holocausto, entre tantos outros aspetos que definiram esta que é uma das personalidades mais relevantes do século xx .

Nas suas páginas são evocadas a deportação da sua família, a memória do Holocausto e a urgência da sua transmissão às gerações futuras. A autora reflete sobre o destino das crianças escondidas, a importância da reconciliação e construção europeia e o papel da educação, da juventude e até da ficção na preservação viva das tragédias do passado.

Mais do que um testemunho ou manifesto, este livro é um apelo à responsabilidade, à vigilância democrática e à esperança. Uma mensagem clara e humanista que apela às gerações futuras a enorme importância das memórias na construção de um mundo mais justo e unido.

«Tudo é dito em poucas palavras neste texto profético, ao mesmo tempo íntimo e político.» LE POINT «Essencial.» LIREMAGAZINE LITTÉRAIRE

Cris

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Convidada escolhe: Nada

“Nada” – Carmen Laforet, 1945

Depois de ter lido este incrível “Nada” de Carmen Laforet, (1921-2004), fiquei com enorme curiosidade de conhecer outras obras desta autora natural de Barcelona. Na badana do livro fica-se a saber que “Nada”, publicado em 1945, foi o seu romance de estreia, vencedor do prémio Nadal e que se tornou rapidamente um sucesso com numerosas edições.  Apesar de apenas serem referidos mais três títulos posteriores a “Nada”, a sua obra literária é vasta, embora se tenha afastado deliberadamente da cena literária a partir da década de 1960. 

“Nada” é um livro espantosamente bem escrito e com personagens e situações que dificilmente se esquecerão. Andrea é uma jovem órfã de dezoito anos que abandona a sua aldeia e vai estudar Letras na Universidade de Barcelona, para casa da avó e dos tios. Durante um ano vai mergulhar num ambiente violento, de gente enlouquecida, profundamente instável e doentio, muito longe do sonho que certamente acalentara quando deixara a aldeia para estudar. Se logo no início do romance o viajar sozinha lhe proporciona uma “profunda liberdade” e a chegada à meia-noite “uma aventura agradável e excitante” (pág. 17), o primeiro confronto com o 1º andar da Rua de Aribau onde vai morar durante um ano lhe “pareceu um pesadelo” (pág. 19). Esse ciclo temporal fecha-se na última página do romance: “Desci as escadas, lentamente. Sentia uma viva emoção. Recordava a terrível esperança, o anseio de vida com que as subira pela primeira vez. Agora partia, sem ter conhecido nada daquilo que, confusamente, esperava: a vida na sua plenitude, a alegria, o interesse profundo, o amor. Da casa da Rua de Aribau, não levava nada comigo. Pelo menos, assim o julgava eu, então.” (pág. 275)

Se a tia Angustias queria “moldá-la na obediência” (pág. 30), oprimindo-a e reprimindo-a; se o tio Román lhe transmitia sentimentos ambivalentes de atracção, medo e repulsa; se experimenta a banalização da violência extrema no seio da família “Não te assustes, pequena. Isto acontece todos os dias.” (pág. 34), os sentimentos de insegurança e de abandono, rapidamente a fazem esquecer os seus sonhos, sente-se prisioneira e adoece. “Quantos dias sem importância!” (…) “Quantos dias inúteis” (pág. 46). O passar das estações do ano, primorosamente descritas, ajuda a caracterizar o quotidiano de uma rapariga de dezoito anos, extremamente desamparada, sem recursos e a conviver com a fome extrema, mas que tenta sair dessa prisão, explorando o deslumbramento da cidade, criando amizades fora do meio opressivo em que vive. Descobre o que é ser discriminado porque se é pobre, o paternalismo e a misoginia de alguns rapazes que se acham superiores às raparigas, que “não acreditavam na inteligência feminina” (pág. 136), ou que achavam ter como única função a da procriação “Os cérebros e os corações deles não chegam para mais.” (pág. 138). Mas, no meio de tanta adversidade e sendo ainda tão jovem, ela detém um orgulho e uma dignidade que não a vergam nem a põem vulnerável a aceitar quaisquer esmolas. 

Embora sem referir a guerra civil espanhola, é claro que o retrato de violência dentro de casa tão presente neste romance, reflecte o clima de violência social e política que a sociedade espanhola viveu e que se prolongou com o franquismo triunfante. A apatia social na banalização e não condenação da violência doméstica, o desmembramento social e económico resultante duma guerra civil prolongada e profunda, tudo isso se vive neste romance duro que, ao ter sido escrito duma forma tão consistente por uma escritora ainda tão jovem, certamente reflecte vivências que a própria experimentou.  

Um romance duro e inesquecível. 

9 de Abril de 2026

Almerinda Bento

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Convidada escolhe: Persépolis

“Persépolis”, Marjane Satrapi, 2007 

Marjane Satrapi (1969-2026). Falou-se e escreveu-se muito sobre ela há duas semanas, aquando da sua morte, com 56 anos. Avessa que sou a “histórias aos quadradinhos”, foi preciso ser incentivada por um dos clubes de leitura que sigo, que escolhera a leitura da novela gráfica “Persépolis” e ter recebido finalmente o aviso da Biblioteca Municipal de que já tinha o livro disponível para o poder levantar, que finalmente me lancei na leitura da famosa novela gráfica da ilustradora, cineasta e escritora iraniana. E que assombro. O meu preconceito impedira-me de apreciar há mais tempo esta maravilhosa autobiografia que é a “história de uma infância e a história de um regresso.”

Além de a mancha gráfica ser muito forte, expressiva e apelativa, a história é corajosa, muito divertida e dá-nos um retrato de uma sociedade e de um povo sobre o qual a informação que é veiculada é, regra geral, deturpada e enviesada. Na Introdução que é uma breve resenha da história do Irão, sobre o qual geralmente só temos a imagem do xá, da sua queda em 1979, aquando da Revolução Islâmica, escreve-nos a autora: “Desde então, esta antiga e grandiosa civilização tem sido quase sempre associada ao fundamentalismo, ao fanatismo e ao terrorismo. Como iraniana que viveu mais de metade da sua vida no Irão, sei que esta imagem está muito longe da verdade. É por isso que escrever «Persépolis» foi tão importante para mim. Acredito que uma nação inteira não deve ser julgada pelos crimes de uns quantos extremistas. Também não quero que aqueles iranianos que perderam a vida nas prisões defendendo a liberdade, que morreram na guerra contra o Iraque, que sofreram às mãos de vários regimes repressivos ou que foram forçados a abandonar as suas famílias e a fugir da sua pátria sejam esquecidos. Podemos perdoar, mas não devemos nunca esquecer.” (pág. 8)

Como escrevi acima, fiquei rendida a esta novela gráfica. A autora começa por nos falar sobre o momento em que ela e todas as meninas da sua idade foram obrigadas ao absurdo do uso do véu, quando viu a escola que era mista passar a ser segregada por sexo, o encerramento das universidades, a resistência através de manifestações contra o fundamentalismo e a repressão. Marjane teve a sorte de nascer e ser educada numa família com tradições de resistência ao regime opressivo do Xá, do pai que sempre a esclareceu nas suas dúvidas, desmontando as narrativas falsas dos livros escolares e sobretudo tendo a preocupação de que a memória da família não se perdesse, nomeadamente a memória do tio assassinado pelo regime. Numa fase de crescimento, confronta o que lê nos livros com a realidade, inclusivamente a situação de privilégio social da família detentora de um Cadillac e com uma criada que foi trabalhar para casa dos pais, aos 8 anos. O livro consegue ser muito divertido, porque traz a ingenuidade da criança influenciada pela religião e com o sonho de ser profeta…

Com a guerra com o Iraque, todo o ambiente se degrada rapidamente e a repressão intensifica-se. Os jovens mortos na guerra são transformados em mártires pelo regime, a vida do povo iraniano degrada-se profundamente e assiste-se ao apertar da vida social com restrições e proibições que vão fomentar não só as denúncias e a repressão, mas também a corrupção dos guardas da revolução. Os sinais de rebeldia da autora levam à sua expulsão da escola que frequenta e os pais tomam a difícil decisão de enviar a jovem Marjane de 14 anos para a Áustria.

A autora é bastante exaustiva na caracterização do que é a vida de uma jovem numa fase tão delicada do seu crescimento, sendo estrangeira, refugiada, sem suporte familiar, com problemas de afirmação da sua identidade iraniana, num país em que a extrema direita está a crescer e em que a xenofobia é uma realidade.  É a lembrança da avó e os seus ensinamentos que a salvam, nos momentos mais difíceis. 

No regresso a Teerão vai confrontar-se com a opressão que a obriga a voltar a pôr o véu, e por toda a parte, na rua, os murais omnipresentes trazem-lhe a culpa e fazem-na sentir-se “rodeada pelas vítimas de uma guerra a que tinha fugido” (pág. 261) quatro anos antes. Mas ela é rebelde, insubmissa e corajosa e consegue ultrapassar o choque e a depressão face a uma sociedade profundamente esquizofrénica que sobrevive dividida entre aquilo que é obrigada a exibir em público e o que vive entre as quatro paredes da casa, nomeadamente no que os guardiões da revolução consideram imoral e decadente do ponto de vista dos costumes e dos relacionamentos entre sexos. 

Após um casamento em que não foi feliz nem se sentiu realizada enquanto pessoa, pede o divórcio e, desta vez, é Marjane que decide partir para França. Estava-se em 1994. Era a despedida definitiva do seu amado país que, apesar da sua beleza, das memórias de infância, dos locais ligados à sua família e à sua história pessoal, era uma prisão para as mulheres, retirando-lhes quaisquer direitos.

Fiquei fascinada pelo livro e quero ver o filme que também foi realizado pela autora, o qual foi nomeado na categoria de Melhor Filme de Animação aos Óscares de 2008, tendo também recebido em 2007 o prémio do júri do festival de Cannes.

Uma pena a morte tão prematura duma mulher tão inspiradora e talentosa. 

16 de Junho de 2026 

Almerinda Bento