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terça-feira, 19 de abril de 2022

"A Mãe de Frankenstein" de Almudena Grandes

Para mim, Almudena tem selo de qualidade. Autora espanhola, falecida recentemente (1960-2021), tem ainda livros por traduzir em Portugal. Espero sinceramente que o façam porque são leituras muito interessantes e onde se aprende sempre mais.

O livro anterior que li dela (vejam aqui a minha opinião!), constituiu uma leitura muito gostosa, com pontos mais fortes e interessantes (sobretudo quando diziam respeito à história do Dr.), mas houve momentos em que a leitura era mais demorada porque retratavam questões políticas mais densas. Como eram histórias várias com múltiplos personagens precisavam de toda a nossa atenção para que não nos perdessemos no enredo. Mas o cômputo final foi muito positivo, sem dúvida alguma.

Já neste livro não tive idêntica dificuldade. É um Sr. Calhamaço mas que se lê com uma fluidez vertiginosa porque há, comparativamente, menos personagens, se bem que os saltos no tempo se dêem com frequência e sem aviso prévio. Mas, Almudena é uma mestre na arte da escrita. Em tempo algum tive dificuldade em situar-me! 

A época histórica que serve de pano de fundo a esta história espectacular é o pós-Guerra Civil de Espanha, tempo de Franco e da respectiva ditadura.

O protagonista e,  maior parte das vezes, o narrador, é um jovem psiquiatra que, tendo fugido de Espanha na altura da Guerra Civil e quando adolescente, regressa no tempo do franquismo para implementar um tratamento novo para certas doenças do foro psiquiátrico num manicómio feminino. Reencontra uma paciente especial e é em torno dela que a trama se vai desenvolver.

O ambiente político que se vivia, inibidor das liberdades mínimas pessoais, vai impulsionar o enredo para determinados caminhos, facto mais ou menos esperado em contextos politico-económicos repressivos. Baseado em factos e pessoas verídicas, este livro cativa, prende e é uma verdadeira lição de História sem que nos apercebemos dela!

No final somos brindados com muitos pormenores que enriquecem sobremaneira a obra, a leitura e o nosso gosto pelo conhecimento em si. Rico, nada expectável, fluído e apelativo, este livro é uma aposta certeira.

Mas sinceramente, o que me atraiu nele foi o nome da autora. Não achei a capa uma escolha muito feliz e o título não mereceu a minha atenção. Depois de ler esta obra, sei que este faz todo o sentido mas não fora o nome da escritora... Já falei com outras pessoas sobre isso e tentei convencê-las a pegarem nele, vale tanto a pena! E cá estamos nós a falar de novo em capas que não refletem o conteúdo. As pessoas são um pouquito assim, não concordam? O invólucro é, por vezes, enganador! Para melhor ou para pior.

Recomendo muitíssimo! Este livro é tão, mas tão bom!

Terminado em 10 de Abril de 2022

Estrelas: 6*

Sinopse

Em 1954, o psiquiatra Germán Velázquez regressa a Espanha para trabalhar no manicómio feminino de Ciempozuelos, a sul de Madrid. Depois de partir para o exílio em 1939, viveu quinze anos na Suíça, onde foi acolhido pela família do doutor Goldstein.

Naquela instituição psiquiátrica, Germán reencontra Aurora Rodríguez Carballeira, uma mulher inteligente e paranoica, tristemente célebre por matar a tiro a própria filha. Ali conhece também María Castejón, que cuida dela com enorme desvelo e gratidão. A amizade que acaba por nascer entre a jovem auxiliar e o doutor Velázquez leva o leitor a descobrir não apenas a sua origem humilde como neta do jardineiro da instituição, os anos de criada em Madrid e a infeliz história de amor que protagonizou, mas também o que levou Germán a abandonar a tranquilidade suíça e regressar a Espanha. Almas gémeas a fugir dos seus passados, ambos querem dar uma oportunidade a si próprios, porém vivem num país humilhado, onde os pecados se convertem em crimes, e o puritanismo – defendido pelo regime de Franco – encobre todo o tipo de abusos.

Em A Mãe de Frankenstein, Almudena Grandes regressa ao período mais difícil da história de Espanha, destacando as feridas imensas que uma guerra interminável provocou.

Cris

 

quinta-feira, 11 de março de 2021

"Os Doentes do Dr. Garcia" de Almudena Grandes

Este "tijolo" foi lido numa leitura conjunta com algumas amigas e feito em prestações. Todos os dias líamos algumas páginas. Se, por um lado, isso ajudou porque é um livro grandote, por outro senti muitas vezes a necessidade de não parar porque há na realidade muitas personagens a quem o leitor deve dar atenção. E apontar num papel para não se perder. Esse foi o meu lapso. Não apontei, ou melhor, fui apontando quando me apercebi que o deveria fazer, mas talvez tenha sido tarde demais. Por isso fica aqui a dica!

Que dizer de uma leitura a que atribuí 6*? Com um personagem chave, o Dr. Garcia, a autora cria uma verdadeira teia de uma história que mescla acontecimentos da História de Espanha e Argentina e que abarca uma época temporal muito lata (desde 1936 a 1976).

A Guerra Civil Espanhola, a II Guerra Mundial e o pós guerra. A ditadura franquista e as relações intimas dos falangistas com os alemães, sobretudo no pós-guerra quando o regime de Franco disponibilizou identidades falsas a criminosos de guerra procurados pelos seus crimes. 

Ficamos logo presos à história do Dr Garcia, filho de republicanos, e do seu amigo Manuel de Benitez. O Dr Garcia, para conseguir salvar a sua pele, vê-se obrigado a tomar uma identidade falsa que o vai acompanhar durante a sua vida e é impedido de praticar a sua profissão. Escondendo o que sentia e aquilo em que acreditava, torna-se espião sem nunca desprezar a sua integridade mesmo quando se vê obrigado a matar um homem. 

Romance muito envolvente, uma verdadeira lição de História, onde se cruzam personagens fictícios e reais. Adorei!

Terminado em 24 de Fevereiro de 2021

Estrelas: 6*

Sinopse

Depois da vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola, o Doutor Guillermo García Medina continua a viver em Madrid sob uma falsa identidade, a mesma que o salvou de ser fuzilado e que foi um presente de Manuel Arroyo Benítez, um diplomata republicano a quem salvara a vida uns anos antes. Julgando que nunca mais o veria, acaba por encontrar-se com Manuel em 1946, deixando-se recrutar para uma missão secreta e muito perigosa: a de se infiltrar na rede clandestina de evasão de criminosos de guerra fugidos do Terceiro Reich para a Argentina, dirigida por Clara Stauffer, uma poderosa mulher de nacionalidade alemã e espanhola, a partir do pacato bairro de Argüelles. Ao mesmo tempo  thriller  e romance de espionagem,  Os Doentes do Doutor García é uma emocionante história que parte de acontecimentos reais pouco conhecidos sobre a Segunda Guerra Mundial e o franquismo para construir personagens que representam e evocam um dos momentos históricos mais difíceis do século passado.

Cris