Para mim, Almudena tem selo de qualidade. Autora espanhola, falecida recentemente (1960-2021), tem ainda livros por traduzir em Portugal. Espero sinceramente que o façam porque são leituras muito interessantes e onde se aprende sempre mais.
O livro anterior que li dela (vejam aqui a minha opinião!), constituiu uma leitura muito gostosa, com pontos mais fortes e interessantes (sobretudo quando diziam respeito à história do Dr.), mas houve momentos em que a leitura era mais demorada porque retratavam questões políticas mais densas. Como eram histórias várias com múltiplos personagens precisavam de toda a nossa atenção para que não nos perdessemos no enredo. Mas o cômputo final foi muito positivo, sem dúvida alguma.
Já neste livro não tive idêntica dificuldade. É um Sr. Calhamaço mas que se lê com uma fluidez vertiginosa porque há, comparativamente, menos personagens, se bem que os saltos no tempo se dêem com frequência e sem aviso prévio. Mas, Almudena é uma mestre na arte da escrita. Em tempo algum tive dificuldade em situar-me!
A época histórica que serve de pano de fundo a esta história espectacular é o pós-Guerra Civil de Espanha, tempo de Franco e da respectiva ditadura.
O protagonista e, maior parte das vezes, o narrador, é um jovem psiquiatra que, tendo fugido de Espanha na altura da Guerra Civil e quando adolescente, regressa no tempo do franquismo para implementar um tratamento novo para certas doenças do foro psiquiátrico num manicómio feminino. Reencontra uma paciente especial e é em torno dela que a trama se vai desenvolver.
O ambiente político que se vivia, inibidor das liberdades mínimas pessoais, vai impulsionar o enredo para determinados caminhos, facto mais ou menos esperado em contextos politico-económicos repressivos. Baseado em factos e pessoas verídicas, este livro cativa, prende e é uma verdadeira lição de História sem que nos apercebemos dela!
No final somos brindados com muitos pormenores que enriquecem sobremaneira a obra, a leitura e o nosso gosto pelo conhecimento em si. Rico, nada expectável, fluído e apelativo, este livro é uma aposta certeira.
Mas sinceramente, o que me atraiu nele foi o nome da autora. Não achei a capa uma escolha muito feliz e o título não mereceu a minha atenção. Depois de ler esta obra, sei que este faz todo o sentido mas não fora o nome da escritora... Já falei com outras pessoas sobre isso e tentei convencê-las a pegarem nele, vale tanto a pena! E cá estamos nós a falar de novo em capas que não refletem o conteúdo. As pessoas são um pouquito assim, não concordam? O invólucro é, por vezes, enganador! Para melhor ou para pior.
Recomendo muitíssimo! Este livro é tão, mas tão bom!
Terminado em 10 de Abril de 2022
Estrelas: 6*
Sinopse
Em 1954, o psiquiatra
Germán Velázquez regressa a Espanha para trabalhar no manicómio feminino
de Ciempozuelos, a sul de Madrid. Depois de partir para o exílio em
1939, viveu quinze anos na Suíça, onde foi acolhido pela família do
doutor Goldstein.
Naquela instituição
psiquiátrica, Germán reencontra Aurora Rodríguez Carballeira, uma mulher
inteligente e paranoica, tristemente célebre por matar a tiro a própria
filha. Ali conhece também María Castejón, que cuida dela com enorme
desvelo e gratidão. A amizade que acaba por nascer entre a jovem
auxiliar e o doutor Velázquez leva o leitor a descobrir não apenas a sua
origem humilde como neta do jardineiro da instituição, os anos de
criada em Madrid e a infeliz história de amor que protagonizou, mas
também o que levou Germán a abandonar a tranquilidade suíça e regressar a
Espanha. Almas gémeas a fugir dos seus passados, ambos querem dar uma
oportunidade a si próprios, porém vivem num país humilhado, onde os
pecados se convertem em crimes, e o puritanismo – defendido pelo regime
de Franco – encobre todo o tipo de abusos.
Em A Mãe de Frankenstein, Almudena Grandes regressa ao período mais difícil da história de Espanha, destacando as feridas imensas que uma guerra interminável provocou.
Cris

