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terça-feira, 10 de março de 2026

A Convidada escolhe: "Gaza está em toda a parte"

“Gaza está em toda a parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025

Conhecia Alexandra Lucas Coelho de ler no jornal “Público” as suas crónicas sobre o Brasil e Jerusalém, e também duma série que passou na televisão sobre livros, com um nome sugestivo “Volta ao Mundo em Cem Livros”. No entanto, nunca tinha lido nenhum livro escrito por ela e este ano não resisti na Feira do Livro de Lisboa a comprar o seu mais recente “Gaza Está em Toda a Parte”. 

É uma colectânea de textos com a força do conhecimento da realidade palestina, ligada ao seu vínculo afectivo e político com aquele povo. Constituída por crónicas e reportagens já publicadas, tem ainda alguns textos inéditos e um conjunto valioso de fotografias captadas antes e depois do 7 de Outubro. Embora a maior parte do livro seja formado por crónicas e reportagens sobre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia depois do 7 de Outubro, a introdução é um trabalho jornalístico publicado na revista Visão História de Julho de 2017, que corresponde à última vez que Alexandra Lucas Coelho esteve em Gaza (Maio de 2017). Através da reportagem então feita, a autora mostra que as dificuldades para a vida daquele povo não começaram com o 7 de Outubro.  Experienciou ela própria ao entrar na Faixa de Gaza, por Erez no norte, quer pelos check points montados por Israel quer pelo Hamas, que compara ao “… cenário de uma distopia altamente militarizada” (pág. 15). “Gaza é uma prisão” (pág. 33) e isso reflecte-se na saúde física e mental da população, maioritariamente jovem, sem emprego, sem futuro, com elevados níveis de suicídio. Desemprego, escassez de água, frequentes cortes de electricidade, na altura, para dois milhões de habitantes, apenas dois psiquiatras! Apesar de a Faixa de Gaza se estender ao longo de 40 quilómetros junto ao Mar Mediterrâneo, os pescadores apenas podem pescar até 6 milhas, sujeitos a ser abatidos pela armada israelita, caso ultrapassem esse limite.

Uma prisão, um gueto, uma ratoeira, um campo de concentração que passou a campo de extermínio depois de 7 de Outubro. A Nakba de 1948 que nunca deixou de existir, que obrigou milhões de palestinianos a viver como refugiados na Síria, no Líbano, no Egipto e um pouco por todo o mundo ao longo dos últimos 75 anos, intensificou-se com o 7 de Outubro. Impossibilitada de poder ir ao terreno para fazer o seu trabalho como jornalista, Alexandra Lucas Coelho contextualiza a situação através de crónicas entre Outubro e Novembro de 2023. Atónitos com a destruição que se vai vendo através da comunicação social e pelas redes sociais, o tempo corre enquanto assistimos às mortes e à destruição ao vivo, sem que o mundo dito dos direitos humanos, o mundo “ocidental” mexa uma palha. Guterres passou a persona non grata quando levantou a voz contra Netanyahu e disse que “… o 7 de Outubro não aconteceu no vazio”. A Europa, refém da culpa do holocausto, é incapaz de denunciar o governo de Israel pelos bombardeamentos, destruição maciça e deslocação forçada das populações para sul da faixa de Gaza. Netanyahu utiliza a experiência do holocausto sobre os judeus na 2ª Guerra Mundial como arma de arremesso e chama antissemita a qualquer um que se oponha à política de extermínio que o seu governo de extrema direita está a impor ao povo de Gaza, para além das incursões dos colonos israelitas no território da Cisjordânia. Ao contrário da cobardia dos governantes europeus, os povos começam a manifestar-se nas ruas para dizer que a Palestina tem direito a ser livre. Numa troca de mensagens com W., o amigo palestino de Alexandra, ele pedira-lhe que contasse o que se estava a passar em Gaza, ciente do poder da solidariedade e da força das ruas. 

Alexandra Lucas Coelho traz ao longo do livro inúmeros nomes e exemplos de heroicidade num tempo de desumanidade e horror. O médico de Al-Shifa que se recusou a deixar o hospital e a abandonar os doentes à sua sorte; o herói e líder nacional Marwan Barghouti, preso desde 2002 e condenado a prisão perpétua; os milhares de jovens e crianças presos arbitrariamente nas prisões israelitas e sujeitos a torturas atrozes; Ahmed Tobasi e o seu Freedom Theatre que faz do teatro a sua forma de resistência; os Tamimi e os habitantes duma pequena aldeia da Cisjordânia empenhados em defender a sua água e a câmara que Bilal usou para documentar e levar ao mundo através do canal de You Tube as incursões dos buldozers israelitas; as consequências de se ser objector de consciência e recusar o serviço militar obrigatório como é o caso da jovem israelita Sofia Orr, presa por ser considerada traidora. Embora sejam uma ínfima minoria os israelitas que defendam abertamente os direitos humanos ou que sejam antimilitaristas, a maioria, mesmo criticando Netanyahu, apenas lutam pelo regresso dos reféns na posse do Hamas, mas não têm uma postura de defesa dos direitos humanos do povo palestino. 

Entre Dezembro de 2023 e Janeiro de 2024 Alexandra Lucas Coelho esteve na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e Israel onde fez reportagens e tirou fotografias que constituem a segunda parte do livro. Documentou as dificuldades do quotidiano dos refugiados em Jenin, a “Pequena Gaza”, a constante presença dos drones israelitas e a arrogância dos colonos a expulsar os palestinos do seu território. A autora testemunhou em Belém o “Natal mais triste de sempre”, sem turistas, apenas com jornalistas e correspondentes, em que a artista Rana Bishara colocou uma incubadora com Jesus morto pelas bombas israelitas no exterior da Basílica da Natividade, para lembrar as crianças mortas que o mundo não quer ver. E em Telavive a praça mais triste de Israel com uma mesa vazia posta à espera dos reféns ainda na posse do Hamas e o piano de um dos reféns presos. Na altura já estavam contabilizados 79 jornalistas palestinianos mortos na Faixa de Gaza, um número imenso, tendo em conta que desde o 7 de Outubro nunca mais tinha sido possível a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza.

A terceira parte do livro é constituída por crónicas escritas entre Janeiro de 2024 e Março de 2025, altura em que “Gaza Está em Toda a Parte” vai para a gráfica. Longos meses em que a situação se agrava para os palestinos em Gaza e na Cisjordânia. A UNRWA agência para os refugiados palestinianos criada pela ONU em 1949 e que era um apoio indispensável para muitos palestinianos é extinta. A ajuda externa é impedida e a fome, a doença e a subnutrição de toda uma população chegam-nos diariamente pelos telejornais. A 2 de Fevereiro, na última mensagem de W. para a autora, ele escreve: “O meu povo hospitaleiro e decente tornou-se mendigo ou ladrão. Fomos privados de tudo, até da nossa humanidade”. (pág. 384). E R. o intérprete que Alexandra conhecera em 2017 usa a palavra ““pedintes” entre aspas, como se nem suportasse outra forma.” (pág. 384) Vozes fortes como a de Guterres e de Lula, Francesca Albanese ou Jorge Borrell, governos que se destacam como o de Espanha ou da Irlanda quebram o silêncio da maioria dos governantes da União Europeia subjugados à desumanidade do governo sionista de Netanyahu. A repressão sobre jovens manifestantes universitários nos EUA, em França e na Alemanha faz emergir cada vez de forma mais clara uma geração de jovens que se mobilizam pela defesa do futuro do planeta e pela defesa da paz no mundo. Apesar de o peso da direita e da extrema direita se acentuar em Israel e de os pró-Palestina serem uma ínfima minoria, a mais importante associação de direitos humanos israelita divulga um relatório arrasador com relatos de torturas a mando da dupla Ben-Gvir/Smotrich, para quem os palestinos não são gente, tal como para os nazis os judeus eram untermensch. Igualmente, Lee Mordechai, um historiador israelita documentou no relatório Bearing Witness to the Israel-Gaza War informação factual sobre o que se passa em Gaza. “Considera o ataque do Hamas e outros grupos a 7 de Outubro uma atrocidade. Tal como considera a resposta de Israel um genocídio, e no fim explica porquê.”  (pág. 489)

Nos EUA, Biden e Kamala Harris preparam as eleições e ignoram Gaza, não usam sequer os seus discursos para dar voz e denunciar o genocídio. A hipocrisia é tal que ao mesmo tempo que se fala em cessar fogo se enviam milhões em armamento para Israel. E tudo piorou ainda mais com a eleição de Trump. Na noite em que se anuncia o cessar fogo (Janeiro de 2025) são mortos 81 palestinianos. Tal como hoje, no final do ano de 2025, tenta-se normalizar o genocídio, como bem disse a Relatora Especial da ONU Francesca Albanese. Somos confrontados diariamente com projectos e discursos obscenos sobre o futuro da faixa de Gaza, como a dita Riviera do Médio Oriente. Há muitos anos Hannah Arendt afirmou que “a morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie”. 

Estou a escrever este breve texto sobre um livro imperdível, ao mesmo tempo que no meu computador surgem mensagens com votos de um Feliz Ano Novo. É com pessimismo que prevejo os acontecimentos de 2026, mas tento reter as palavras de Alexandra Lucas Coelho : “Mas o pessimismo é um luxo, os palestinianos não se dão a ele. Estão ocupados a tentar não morrer.” (pág. 474)

28 de Dezembro de 2025 

Almerinda Bento

segunda-feira, 9 de março de 2026

"Hamnet" de Maggie O'Farrell

Tenho livros muito bons, creio eu, por ler e às vezes é só necessário um pequeno impulso para pegar neles. Foi o caso deste livro! Recebi um convite para ver a ante-estreia e, como prefiro ler primeiro o livro e ver depois o filme nele baseado, peguei de imediato e comecei a ler.

Que boa que foi esta leitura! Baseando-se na morte do filho de Shakespeare aos 11 anos (provavelmente vítima da peste bubónica) e da qual pouco se sabe, a autora elaborou um romance tendo como foco, sobretudo, uma personagem feminina forte, determinada, com um quê de rebeldia, não muito compreendida pelos habitantes de Stratford-upon-Avon dado a sua ligação à natureza e a um certo misticismo: a mãe do filho falecido, Agnes. Note-se que Shakespeare nunca é mencionado como tal, é sempre referido como o pai, o marido, o filho... 

 Passado e presente intercalados nos finais do sec XVI, o luto, a perda e a memória e as suas repercussões no seio de uma família, personagens fortes, escrita rica, um romance que custa a largar.

Sei de opiniões diametralmente opostas a esta por isso experimentem e deixem-se conquistar. Digam alguma coisa se o lerem ou tiverem já lido. 

O filme está, a meu ver, muito bem "esgalhado". Bons actores, bons cenários. Quem tiver lido o livro antes, mais facilmente consegue identificar as situações e as personagens. 

Uma maravilha. Adorei!

Terminado em 14 de Janeiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse 
Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O’Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade. Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI.

Cris


sexta-feira, 6 de março de 2026

A Convidada escolhe: “Anos de Brasa – Contos e outros Títulos”

“Anos de Brasa – Contos e outros Títulos” – Luís Farinha, 2025

Tal como diz o título, “Anos de Brasa – Contos e outros Escritos” é constituído por um conjunto de dez pequenos contos, seguido de textos sobre personagens marcantes da nossa história recente e com ligação ao período revolucionário do 25 de Abril. É um livro denso, muito abrangente no retrato da sociedade portuguesa no período do 25 de Abril, assim como no que o antecedeu e nos anos seguintes. Dá-nos a perspectiva da complexidade desse período único que a nossa geração viveu e protagonizou. Daí o interesse de o trazer a este público que na altura teria entre os vinte e os trinta anos, como memória, mas também como testemunho num tempo de recuo nos direitos que estamos actualmente a viver, lembrando-nos que os direitos conquistados têm de ser preservados pois a sua existência não é um dado adquirido. E se hoje, para os jovens, é com estranheza e até incredulidade que escutam relatos do que era a ditadura e a vida antes do 25 de Abril, “Anos de Brasa” é um testemunho real a necessitar de ser divulgado 

Como se lê no prefácio de Maria Helena Ventura, o 25 de Abril de 74 foi “O confronto quase mítico dos oprimidos com o nada … e o quase tudo, na abertura de múltiplas perspectivas de futuro, … no desesperado anseio de bens essenciais por um proletariado exausto, contra a negação dos que temiam perder privilégios e se agarravam a um passado de 48 anos.”  E acrescenta que o “… povo que, não sendo uma massa homogénea, estava irmanado no despojamento de condições básicas de vida. E de repente, como se levantado do chão pelos braços dos mais fortes, afagava a decisão de obter iguais liberdades para a sua diversidade,” (pág. 7). O desafio era imenso: mudar a vida, mudar mentalidades e lutar contra os saudosistas, sem contar com o receio de represálias que se tinha incrustado ao longo de 48 anos de repressão e medo.  A energia que irrompeu, nunca antes vista, fez nascer uma coragem colectiva, um criar laços, um transformar os sonhos em realidade, não sem contradições, que constituíram esses “anos de brasa” que aqui nos traz Luís Farinha. 

Num tempo em que o analfabetismo em Portugal era uma vergonha, sobretudo entre as mulheres e nos campos, foram as jornadas de alfabetização as primeiras acções que levaram centenas de jovens por esse país fora a descobrir esse mundo esquecido de tantas pessoas que só queriam saber escrever o seu nome para deixarem “a vergonha de ter o dedo no cartão de identidade” (pág. 20). O primeiro conto intitulado “Se tivesse durado mais algum tempo…”  mostra-nos quanto esses jovens – o “bando” – aprenderam (porventura mais do que ensinaram!) confrontando as suas teorias, os seus saberes académicos com a realidade, com a desconfiança, com os preconceitos e com o caciquismo viesse ele da igreja, ou de casa.  O grupo, sobretudo de alunas, “vinha à escola como se fosse dia de festa” com um objectivo muito prosaico: saber escrever o seu nome. “Ninguém estava ali para chegar de imediato às estrelas, talvez apenas para nascer com o dia e ver crescer na horta o fruto com que se dá de comer aos filhos.” (pág.25)

As revoluções, mesmo as que são feitas com cravos, são sempre momentos de profundas transformações e todos estes contos nos trazem essas memórias. O surgimento de partidos e organizações, antes na clandestinidade, trouxe ao de cima as diferenças ideológicas, o confronto entre grupos, estudantes e operários com as suas reivindicações, o radicalismo de quem esperou tanto tempo e agora queria tudo e já, o boicote e a sabotagem de quem não queria perder privilégios nem poder, a generosidade e o entusiasmo de quem queria mudar o mundo e o cepticismo de quem achava que “o mundo é feito de ricos e pobres.  Sempre foi assim e sempre será!” Nas revoluções, mesmo as que foram feitas com cravos, a luta de classes não deixa de existir. Antes fica mais acesa. 

“Casas sim! Barracas não!” quem não se lembra desta palavra de ordem? Tão actual nos dias de hoje, passados quase 52 anos de Abril. O direito à habitação como direito básico gera um movimento muito forte, com grande mobilização das mulheres, nas ocupações de casas devolutas. Também dessa altura, assiste-se à construção de casas da noite para o dia, só possível graças à solidariedade e entreajuda dos moradores, num tempo em que a força do povo conseguia mover montanhas e responder a necessidades básicas. Também aqui o associativismo através da constituição de Comissões de Moradores foi o impulso para enormes transformações ao nível das infraestruturas, acessíveis de forma assimétrica e muito rudimentar no todo nacional. Nas escolas, pela primeira vez, substituem-se os reitores, muitos coniventes com o antigo regime e experimenta-se a gestão democrática partilhada, enfrentando-se o gigantesco desafio de pensar a escola como bem público aberto a todas as crianças e jovens, independentemente das posses dos pais. Cometeram-se erros? Certamente, mas abriu-se a escola a todos e deram-se os passos essenciais para implantar a Escola Pública como uma das grandes conquistas que depois a Constituição inscreveu como direito fundamental. 

A luta estudantil que tinha começado a ter expressão com o eclodir da guerra colonial, intensificou-se com a morte de Salazar e com o marcelismo que, ao contrário do que era expectável, não só não diminuiu a repressão, como a aumentou. Luís Farinha traz em “Anos de Brasa” as incursões da polícia de choque nas universidades e o intensificar da resistência estudantil que lutando contra os bufos e a ausência de liberdade de expressão, se mobiliza abertamente contra a guerra colonial. As tertúlias de intelectuais oposicionistas, as salas míticas de cinema e os cineclubes, alguns poucos professores que se distinguiram na época como o Padre Manuel Antunes, as leituras censuradas e proibidas que eram partilhadas, a morte do estudante Ribeiro dos Santos, todo esse caldo fervia e um dia permitiu a adesão popular massiva que levou o Povo a aprender rapidamente a falar nas assembleias e decidir sobre os seu destino. 

Mas nada é linear e a história também não se faz sem sobressaltos, sem contradições, sem desilusões, sem cortes. O sonho da utopia e os caminhos para lá chegar eram diversos e desde cedo se percebeu que a alegria daquele 1º de Maio em que todo aquele mar de gente corria todo para o mesmo lado, não ia durar sempre. Para avançar na revolução era preciso acabar com privilégios, tirar o poder a quem sempre fora único dono e senhor. As nacionalizações e sobretudo a reforma agrária eram medidas demasiado avançadas para poderem resistir. Muitos problemas sociais subsistiram apesar das muitas leis que pela primeira vez deram direitos fundamentais a quem nunca os tinha vivido. Portugal abriu-se ao mundo, aderiu à CEE, acreditou que o fosso que nos separava do mundo iria diminuir. A queda do muro de Berlim e o fim da URSS constituiu para muitos o fim do tempo da utopia. Muitas certezas se desmoronam com a queda do muro, ao mesmo tempo que o individualismo vai paulatinamente substituir o espírito colectivo agregador que tinha irmanado tantos no sonho de um mundo mais igual e mais justo para todos. 

A segunda parte de “Anos de Brasa” traz aos leitores testemunhos de conversas entre o estudioso, o historiador Luís Farinha e importantes figuras com relevo na construção deste período revolucionário. Emídio Guerreiro, exilado durante 42 anos, que considerava que tinha tido uma segunda vida aos 75 anos quando ocorreu o 25 de Abril. Homem duma energia e têmpera notáveis morreu com 105 anos em 2005. Não deixava ninguém com dúvidas quando afirmava que nunca tinha sido do PSD, mas sim do PPD. 

António Borges Coelho com quem Luís Farinha fez um percurso enquanto aluno, enquanto parceiro nos corpos directivos do Museu do Aljube e enquanto parceiro na produção e divulgação da História em Revistas com o foco na memória da resistência. Homem vincadamente de esquerda, foi inovador em todos os campos a que dedicou a sua inteligência e conhecimento.

Álvaro Cunhal, personagem mítica, amado e odiado, que transformou a programada entrevista de meia hora em cinco horas de conversa. Afinal, aquele poço de sabedoria, o mítico secretário-geral era mesmo inacessível?

José Medeiros Ferreira que no 3º Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, em 1973, defendeu uma tese inovadora que um ano depois o MFA parecia decalcar. À teoria dos 3D como ficou conhecida – Democratizar, Descolonizar, Desenvolver – Medeiros Ferreira acrescentou - Socializar. Medeiros Ferreira ambicionava Portugal soberano, fora do controlo quer dos EUA quer da União Soviética. 

O livro de José Saramago “Levantado do Chão” e o excelente roteiro que foi concebido pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo para dar a conhecer essa obra merece destaque nos “Anos de Brasa”. E cito: “Roteiro também para os leitores de Saramago e para muitos outros que hão-de começar a sê-lo se perceberem que a literatura, a verdadeira literatura, não é um devaneio deleitoso para entretenimento de ociosos, mas antes uma leitura profunda da vida para compreender e transformar o mundo.” (pág. 176)

Termina Luís Farinha esta sua lição de história com a referência a Manuel Francisco Rodrigues, professor e tradutor, um pacifista, naturista, adepto do vegetarianismo, considerado pela polícia política um “perigoso anarquista”, preso em 1940 quando entrou em Portugal vindo de Espanha. Passou pelo Aljube e pelo Tarrafal. A singularidade das suas ideias e pensamento sempre foram difíceis de serem entendidos por quem com ele lidou, sendo frequentemente considerado lunático. Reabilitado em 1963, voltou a exercer a sua profissão docente em Chaves.

Termino mais uma vez agradecendo a Luís Farinha esta sua incursão na literatura, trazendo-nos este retrato dum tempo que mudou o rumo da nossa história recente e que marcou a nossa juventude.


28 de Janeiro de 2026 

Almerinda Bento


quinta-feira, 5 de março de 2026

"Vinte Anos de Manicómio" de Carmen de Figueiredo

Peguei neste livro para uma categoria de um desafio literário cujo mote seria ler alguma autora cujos
livros tivessem sido proíbidos. Confesso que a minha curiosidade estava ao rubro. O que conteria tal obra para ser proibida?

Tendo sido publicado em 1951/1952, foi proibida de circular em 30 Janeiro de 1952, através de um despacho da PIDE, a polícia política do Estado Novo. O motivo: continha conteúdos e descrições de sexualidade e de moralidade imprópria. 

O enredo é centrado na vida de uma família, mais propriamente de uma mulher (devassa, se considerarmos as normas sociais de então!) que, desde cedo, foge dos padrões sociais conservadores impostos sobretudo às mulheres. O adultério é um dos temas dominantes. 

Fica aqui um pequeno spoiler: o título pegou-me de surpresa porque depreendi (mal!) que, devido ao seu comportamento desviante a personagem principal teria sido internada à força, como era apanágio de então.

Um dado que achei muito interessante foi esta edição conter, logo na primeira página, a reprodução da carta escrita pelo director da PIDE, proibindo a circulação do livro e, também, uma informação sobre a ida do gerente da editora onde se escusava por ter publicado o livro, alegando que, tendo questionado a autora sobre o seu conteúdo, esta ter afirmado que nada de mal possuía. Foi logo avisado que se voltasse a publicar tais conteúdos a sua empresa seria fechada.

Fiquei curiosa em relação a outro livro da autora, "Famintos", que foi, de igual modo, proibido pelo antigo regime. De referir que Carmen de Figueiredo possui outras obras. Esquecer estas mulheres não devia fazer parte da nossa actualidade!

Terminado em 30 de Dezembro de 2025

Estrelas: 5*

Cris

quarta-feira, 4 de março de 2026

"Angola, Vidas Quebradas" de António Mateus

Este livro é uma obra de não ficção histórica em que o autor efetua uma investigação jornalística sobre uma caravana em fuga de civis, em Angola, obrigados a fugir aquando da sua independência.

Através de testemunhos diretos, o autor reconstrói essa fuga, reconstituindo o colapso social que se verificou e marcou o início da guerra civil que duraria mais de vinte anos (1975 até 2002 com a morte de Jonas Savimbi).

Relatos impressionantes de pessoas que se viram, abruptamente, no caos e na desordem, e forçados a abandonar os seus bens. É focado o abandono que a população portuguesa sofreu por parte das autoridades.

Gostei de ler sobre um tema que não é muito falado e que me diz muito. A minha mãe nasceu em Angola e o meu pai, oriundo de uma aldeia interior do norte, foi para lá ainda jovem para tentar melhorar a sua vida.

Memórias, História e jornalismo, uma combinação que resulta num livro que se lê com interesse.

Terminado em 12 de dezembro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse 
Acedendo a vários documentos inéditos, o autor revela mentiras e excessos cometidos pelos três movimentos de libertação subscritores dos Acordos de Alvor. Expõe também a hipocrisia de uma dualidade de critérios; enquanto atualmente é indiscutível a pertença de um ser humano ao território onde nasceu, independentemente da sua etnia, os brancos nascidos em Angola e que de lá fugiram para Portugal, expulsos pela guerra, pilhagens e atrocidades, foram apodados de retornados. Incluindo as dezenas de milhares que nunca haviam saído de África.

Cris

segunda-feira, 2 de março de 2026

"Huris" de Kamel Daoud

Já faz algum tempo que li este livro. Gosto de fazer a opinião de imediato e não deixar passar tanto tempo mas a forte impressão com que fiquei quando o acabei, manteve-se até hoje. E vai
permanecer.

Contado na primeira pessoa, por uma mulher, o leitor vai-se apercebendo do aspecto físico da mesma pelas descrições que a própria vai fazendo de si. Possui "um sorriso de orelha a orelha". Dito assim parece um aspecto positivo, uma característica fisica favorável. Mas não. Não mesmo. 

Alva é uma mulher que sofreu, em criança, quando tinha apenas 5 anos, uma mutilação, que sobreviveu a uma tentativa de assassinato e o dito sorriso mais não é que a cicatriz que lhe resta desse ataque bárbaro. Sobreviveu com muitas sequelas físicas (ficou sem voz, respira por uma cânula) e psicológicas.

Este livro é uma carta que Alva escreve à filha que está no seu ventre e que ela trata carinhosamente por Huris mas que não quer que nasça pois o mundo em que vive não é um bom mundo para as mulheres.

A história transporta-nos para a História da Argélia, mais propriamente para a guerra civil que durou 10 anos, entre 1990 até 2000. Dez anos de massacres e violência, de mortes e horror. Pior ainda que essa guerra é o facto de se fingir que ela não aconteceu, que tudo não se passou de um mal entendido. Logo, Alva (com a sua situação física) é uma testemunha indesejável.

Esta história é tambem a história de um livreiro, a história do pai de Huris, das mães que teve, da Argélia desconhecida de muitos.

Com uma escrita muito dura, descritiva, emotiva e forte, este livro penetra aos poucos no leitor, marcando-o. As palavras de Huris, as suas lembranças que só muito lentamente são oferecidas ao leitor, são duras e marcantes.

Vale muito a pena mergulhar profundamente neste livro.

"Deram comigo enfiada num canto, como morta, depois de ter rastejado para debaixo do baú de madeira da minha mãe, aquele onde ela guardava os cobertores grossos. tinha-me arrastado até lá ao longo de um oued vermelho. Muitas vezes escondia-me nesse sítio, quando brincava com a minha irmã. Empurrei a minha cabeça com uma mão e o corpo com a outra; da minha irmã, primeiro, só encontraram a cabeça. Depois os rastros de sangue, como um caminho, indicaram outros cadáveres. Os meus pais, não se conseguiu juntar-lhes os pedaços para os enterrar. Aliás nunca se enterrou ninguém inteiro." pág. 123

Terminado em 10 de Dezembro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse

Sou o verdadeiro vestígio, o mais sólido dos indícios a atestar tudo o que vivemos. Escondo a história de uma guerra inteira inscrita na minha pele desde criança.

Minha pequena Huri, que virias tu fazer com uma mãe como eu, num país que não nos quer, às mulheres, ou só as quer de noite? Conto-te tudo o que puder, mas, a certa altura, será preciso parar. Sou um livro cujo fim é o teu.

Alva é uma jovem argelina com uma tragédia marcada no seu corpo: a cicatriz no pescoço e as cordas vocais destruídas, consequência da guerra civil dos anos 90. Muda, sonha em recuperar a voz. A sua história, só a pode contar numa voz imaginada à filha que traz no ventre.

Mas será que ela tem o direito de ter esta criança? Pode uma mulher dar vida quando a sua praticamente lhe foi tirada? Num país que aprovou leis para punir qualquer pessoa que evoque a guerra civil, Alva decide voltar à sua aldeia natal, onde tudo começou, com a esperança de que os mortos possam dar-lhe as respostas que os vivos lhe negam.

Em Huris, um romance corajoso e comovente , poderoso e lírico, Kamel Daoud restitui aos esquecidos, às vítimas inocentes e aos sobreviventes da terrível guerra civil argelina – e de todas as guerras – a voz que lhes foi roubada.

Cris


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Regresso a Reims

 Regresso a Reims” – Didier Eribon, 2009

Parece que os clubes de leitura estão a surgir um pouco por todo o lado e isso é bom. Porque, além de podermos partilhar impressões e visões sobre aquilo que lemos e que nos liga periodicamente, estes espaços permitem-nos criar novas amizades e descobrir livros que, possivelmente, nunca teriam feito parte da nossa lista de livros a ler. É o que se passou com “Regresso a Reims” de Didier Eribon, filósofo e sociólogo francês, um ano mais novo do que eu. O não ter nenhuma referência do autor e o facto de a capa do livro ser pouco apelativa, dificilmente me teriam levado a comprar este livro, se não fosse por sugestão do “Ler à Esquerda”.

Sendo uma autoficção sobre o autor e sobre a sociedade francesa em que ele e a família se inserem, o livro permite-nos também olhar para a realidade portuguesa agora, com o crescimento e visibilização agressiva da extrema direita e do conservadorismo, ocorridos há algumas décadas atrás em França com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen. Desde logo este livro trouxe-me à lembrança Annie Ernaux e o seu característico recurso às fotografias de família para nos situar nos diferentes momentos da(s) história(s).

Após 20 anos de ausência, numa necessidade de fuga do seu meio social e familiar de origem, este regresso a Reims de Didier Eribon após a morte do pai, é uma reconciliação com a mãe e também consigo próprio. Oriundo de uma família muito pobre, para a qual estudar estava fora de questão e que carregava o preconceito para com o intelectual, a descoberta da cultura, a escolha entre resistir ou submeter-se ao determinismo social que o levaria a não sair dos seus limites de classe, assim como decidir assumir a sua orientação sexual, foram processos nada fáceis nem lineares. “É preciso ter passado, como foi o meu caso, de um lado para o outro lado da linha de demarcação para escapar à lógica implacável do óbvio e ter a perceção da terrível injustiça dessa distribuição inigualitária das oportunidades e dos possíveis” (pág. 45). Visto pela família como “excêntrico”, “não-normal”, “estranho”, “bizarro”, por causa das suas leituras, actividades políticas e atitudes (pág. 83), os estudos e a sua sexualidade afastam-no da família e de Reims, “a cidade do insulto” (pág. 187).

Um aspecto muito relevante, analisado na terceira parte do livro, é o fenómeno político que consistiu na mudança de voto de parte significativa da classe operária francesa anteriormente comunista para o voto na direita e na extrema-direita. Didier Eribon analisa a erosão do PCF, a incapacidade de aceitar os movimentos sociais emergentes, a desilusão dos meios operários que se sentiram traídos por um governo com participação dos comunistas, com uma esquerda socialista cada vez mais a virar-se para a direita, assumindo uma linguagem de governantes e já não de governados. A anterior dicotomia “operários/burgueses” passa a ser substituída por “franceses/estrangeiros”; a “classe operária” e os “operários” desaparecem do discurso político; o “senso comum” aprofunda-se: já não é o/a operário/a ou o homem/mulher de esquerda, substituídos pelo “francês”. O racismo entranhado na classe operária vira-se contra os imigrantes, acusados de “roubarem” os empregos e as prestações sociais devidas aos “nacionais”. De notar a persistência desse discurso anti-imigrantes dos anos 80 em França e que encontramos nos anos 20 do século XXI disseminado na Europa e na boca e nas palavras de ordem da extrema direita portuguesa. Em conversa com o autor, a mãe explica que o seu voto na Frente Nacional foi “para expressar um protesto porque as coisas não estavam bem” (pág. 122), rematando que “A esquerda, a direita, não há nenhuma diferença, são todos iguais e são sempre os mesmos que pagam” (pág. 120). A impotência transforma-se em raiva e faz alterar radicalmente o voto anteriormente de esquerda para a direita e extrema direita.

Didier Eribon cita Sartre e Beauvoir como referências fundamentais no seu percurso e no seu pensamento, assim como Foucault que biografou. Sendo Paris a cidade para onde partiu para viver plenamente a sua homossexualidade e a Sorbonne onde encontrou excelentes professores em contraponto ao “marasmo desmobilizador e desmoralizador”(pág. 173) existente em Reims, foi, no entanto, Reims a cidade onde se “construiu como gay” (pág. 195).

O orgulho de se assumir é político, “visto que desafia os mecanismos mais profundos da normalidade e da normatividade” (…) “Estamos sempre em equilíbrio instável entre o significado ofensivo da palavra injuriosa e a sua reapropriação orgulhosa. Nunca se é totalmente livre, nunca se está libertado” (pág. 211). “a “subversão” absoluta não existe, tal como não existe a absoluta “emancipação”. E quase a terminar, cita Sartre: “O importante não é o que fazem de nós, mas o que nós próprios fazemos daquilo que fizeram de nós”. (pág. 212). E conclui: “No fundo, estava marcado por dois vereditos sociais: um veredito de classe e um veredito sexual. Nunca é possível escapar às sentenças assim proferidas. E eu trago em mim as marcas desses dois vereditos. Mas uma vez que eles entraram em conflito um com o outro em dado momento da minha vida, tive de me moldar a mim próprio voltando-os um contra o outro.” (pág. 213).

Um livro actualíssimo. Indispensável.

25 de Novembro de 2025 

Almerinda Bento 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Notas sobre um Naufrágio

 Notas sobre um Naufrágio” – Davide Enia, 2017

Em nota na badana deste livro traduzido por Tânia Ganho, ela refere que este livro lhe foi sugerido por uma amiga italiana, depois de Tânia Ganho lhe ter recomendado “Um Muro no Meio do Caminho de Julieta Monginho. (https://almerindaagridoce.blogs.sapo.pt/um-muro-no-meio-do-caminho-julieta-16794) Enquanto Julieta Monginho ficciona a partir da sua experiência como voluntária durante um mês, no Verão de 2016, num campo de refugiados numa ilha grega, Davide Enia em “Notas sobre um Naufrágio” traz-nos relatos e vozes de pessoas que conheceu em Lampedusa, em vários momentos, ao longo de três anos.

Mediterrâneo, o mar sonhado como meio de chegar à Europa para milhares de homens e mulheres fugidos da fome, da guerra, da violência, e que para muitos acaba por ser o seu cemitério. Lampedusa, a ilha mais próxima de África, um “contentor de opostos” onde “… convivem emergência e hipocrisia, burocracia e solidariedade” (pág. 16). Ao longo de três anos e em várias ocasiões, o autor, dramaturgo e actor Davide Enia assistiu a desembarques de náufragos, ouviu socorristas, mergulhadores, médicos, psicólogos, ilhéus, sobreviventes de naufrágios e também Paola e Melo donos de um B&B onde Davide fica, sempre que permanece na ilha.

Todas as vozes, todos os testemunhos são únicos e reflectem episódios, cenas, momentos inesquecíveis e marcantes para cada um dos protagonistas. “De todas as vezes, absolutamente todas, tenho a nítida sensação de me encontrar diante de seres humanos que carregam dentro de si um cemitério inteiro.” (pág. 12). Há uma enorme honestidade e ausência de sensacionalismo na escrita poética, muito sensível e até contida de Davide Enia nos relatos dramáticos que acompanhamos ao longo das duas centenas de páginas deste romance. O medo de Paola e Melo quando um dia vêem através da janela da sala, uma multidão de náufragos a aproximar-se da casa – “Trancamo-nos aqui dentro.” (pág. 31) – logo seguida de vergonha por essa reacção instintiva. “Nunca me esquecerei disso. Pregava uma coisa e na hora H, fazia outra. Já antes, tinha as minhas ideias de intelectual de esquerda: é preciso acolher, não se deve ter medo. Pois, no momento em que me vi metida naquela situação, porra…” (pág. 31). Há um registo que se repete – “O primeiro desembarque nunca se esquece” (pág. 34) – por parte de pessoas que tinham assistido a vários desembarques de refugiados. Para o ginecologista Pietro Bartolo, o primeiro a ser entrevistado sobre o naufrágio de 3 de Outubro de 2013, aquele foi “o evento divisor de águas” (pág. 53). Se há um mergulhador experiente que se recusa a falar sobre aquele dia trágico, dos vários testemunhos das pessoas cuja vida é a realidade dos desembarques e dos naufrágios, há um antes e um depois do 3 de Outubro. Num barco com 523 pessoas, conseguiram-se resgatar 155 sobreviventes e os restantes 368 foram cadáveres posteriormente recolhidos. “Fala-se demasiadas vezes dos seres humanos como números ou estatísticas, mas as pessoas são muito mais do que isso, acalentam esperanças e preces, inquietudes e tormentos.” (pág. 109). “Assistimos impotentes ao naufrágio e é como se a água entrasse dentro de nós” (pág. 91).

É complexo e é-me difícil num pequeno texto, destacar alguns casos, porque todos são importantes. As mulheres e meninas que chegam grávidas em resultado de violações contínuas e repetidas, individuais ou em grupo. “Para uma mulher é sempre pior.” (pág. 52). (…) “Há mulheres transformadas em brinquedos, usadas até se partirem.” (pág. 53). As crianças que sobrevivem. O rapaz de doze anos que se recusava a comer, a dormir, a falar até que finalmente um mediador conseguiu que ele dissesse que o que desejava era falar com a mãe para lhe dizer que estava vivo. Há 8 meses que partira da sua terra. Ou Bemnet, um rapaz de 17 anos, da Eritreia, sobrevivente de um naufrágio em que morreram 75 pessoas sendo ele um dos cinco sobreviventes: “Lampedusa é a minha casa, o lugar onde renasci”. “Pus o pé em terra no dia 20 de Agosto. Esse dia tornou-se o meu segundo aniversário. Aqui, nasci pela segunda vez. (…) “Os meus amigos estão todos ali” (pág. 128) disse Bemnet apontando para o mar.

Os relatos são entrecortados com reflexões do autor em que surgem o pai, cardiologista reformado, amante da fotografia e o tio Beppe por quem o autor tem um amor muito especial e que está, ele também a lutar contra um linfoma. A doença, uma outra forma de naufrágio. É esse entrelaçar dos testemunhos de sobreviventes, de profissionais e de voluntários na tarefa do resgaste e da cura dos náufragos, com as histórias e personalidades do pai e do tio de Davide que torna este romance uma leitura memorável e de grande sensibilidade. Num tempo de ódios como aquele que vivemos, é um privilégio este livro ter-me chegado às mãos. Aconselho que o leiam.

Termino, escolhendo dois parágrafos do testemunho de Bartolo, o médico ginecologista:

Toda a gente sabe o que está a acontecer e finge não saber. É por isso que estou a falar convosco, porque cada voz individual pode ajudar a sensibilizar as pessoas. Somos gotas individualmente, mas muitas gotas podem fazer um oceano.”

Escrevam, contem ao mundo inteiro o que viram, porque é preciso: no continente não têm noção do que está realmente a acontecer. Mas não me refiro só ao que se passa aqui em Lampedusa, esta ilha é apenas um ponto de passagem, a etapa de uma odisseia; refiro-me ao que acontece realmente a estes pobres coitados que aqui chegam, as atrocidades que são obrigados a sofrer, a humilhação da sua própria existência, o aviltamento dos seus sonhos e esperanças.” (pág. 52)

1 de Novembro de 2025

Almerinda Bento



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: O Quinto Filho

“O Quinto Filho” – Doris Lessing, 1988

Este é um livro perturbador, muito duro, que li de forma compulsiva. Já antes havia tido contacto com a escrita peculiar de Doris Lessing, da qual já lera três outros livros, mas este é, sem dúvida, o mais poderoso e mesmo inesquecível. O facto de deixar o final em aberto torna esta obra ainda mais interessante.

Embora o livro parta de um casal inglês conservador com um projecto de vida em torno de constituírem uma família numerosa, em que à pergunta “Querem ter muitos filhos? Quantos?” a resposta dos dois era invariavelmente “Muitos” “Muitos”, a verdade é que vai ser Harriet Lovatt, a mãe, quem vai assumir o papel central no destino de toda a família. A enorme casa vitoriana que adquirem, nos arredores de Londres, que mais se assemelha a um hotel, é também uma personagem central neste romance de Doris Lessing. É o local de encontro de toda a família nas festas de Natal e da Páscoa e nas férias de Verão. Aparentemente, tudo flui, aquela família feliz é um ímã e mesmo quando há algum azedume nas discussões e alguma crítica velada ou quando opiniões divergentes ocorrem, as nuvens escuras são passageiras e a vida continua sem sobressaltos. Quem diria que um dia Harriet quisesse “acabar de vez com aquela casa de infelicidade e com os pensamentos que a acompanhavam.” (pág. 151)

“O Quinto Filho” narra a situação do nascimento de um filho diferente, para daí analisar os comportamentos das pessoas, da família, das instituições, da comunidade relativamente ao que sai fora do expectável. Doris Lessing trata com maestria os mais variados sentimentos vividos por aquela família feliz, quando confrontada com aquele novo ser, o quinto filho tão diferente dos que o tinham antecedido: surpresa, medo, culpabilização, crueldade, remorso, afastamento, apatia. “Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…” (pág. 69) Focando na mulher, na mãe, não só o ónus da estranheza, como a culpa, deixando-a sozinha, completamente só. “Dirigiu-se para a porta e olhou para trás. Na cara da médica viu o que já esperava: um sombrio olhar fixo que reflectia o que a mulher estava a sentir, que era horror pelo desconhecido, rejeição normal daquilo que estava para além dos limites humanos. Horror por Harriet, que trouxera Ben ao mundo.” (pág. 126)

Em anteriores livros de Doris Lessing que li, tal como aqui, a autora é crítica relativamente ao funcionamento das instituições do estado não poucas vezes insensíveis quando deveriam responder às necessidades dos seus cidadãos: pela forma fria e desumanizada como funcionam sem atender aos indivíduos nas suas especificidades, num sistema padronizado aparentemente “profissional” e “sem falhas” que é cego e desumanizado. O mal-estar social surge logo numa fase inicial da narrativa, no início dos anos 1970: “A cidadezinha onde viviam transformara-se durante os cinco anos que lá tinham morado. Incidentes brutais e crimes que outrora chocariam toda a gente eram agora lugar-comum. Havia bandos de jovens que frequentavam certos cafés e becos e que não tinham respeito por ninguém. A casa ao lado já fora assaltada três vezes; a dos Lovatt ainda não, talvez porque estava sempre lá gente. No fim da rua havia uma cabina telefónica que fora destruída tantas vezes que as autoridades tinham desistido: ficara ali sem préstimo. (…) Esses acontecimentos representavam uma separação horrível: cada vez mais parecia que a Inglaterra era habitada por dois povos em vez de um, dois povos inimigos, que se odiavam um ao outro, que não ouviam o que cada um dizia. Os Lovatt começaram a ler os jornais e a ver os noticiários da televisão, embora não tivessem vontade de fazer nem uma coisa nem outra. Pelo menos deviam saber o que se passava fora da sua fortaleza, do seu reino, no qual três preciosas crianças eram criadas e onde tantas pessoas iam para mergulharem em segurança, conforto, amabilidade.” (pág. 27)

Este livro que pode ser lido literalmente, pode também ser encarado como uma fábula dos males da sociedade com muitas camadas e muitos pontos de análise e reflexão. Por outro lado, é muito actual e até intemporal e a sequência dos acontecimentos é vertiginosa, daí que qualquer pessoa que o comece a ler tenha muita dificuldade de o poisar e interromper a leitura.

Um grande e poderoso livro.

25 de Outubro de 2025

Almerinda Bento

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Quem Tem Medo dos Santos da Casa" de Sara Duarte Brandão

Estava expectante quando peguei neste livro porque tinha ouvido boas opiniões e o resultado da leitura foi muito positivo. Gostei muito da construção de todo o ambiente narrado, das tricas e invejas habituais de pequenos lugarejos, neste caso uma pequena vila piscatória, e de como os personagens foram crescendo de densidade e delicadeza com o decorrer da leitura. A escrita tem uma pitada de poesia de quando em vez o que me agradou imenso, mesmo não sendo eu leitora desse género literário. 

A trama é narrada num constante vai e vem em termos de alguns espaços temporais e acompanhamos Maria Teresa quer na sua infância, quer no casamento e na velhice. Na minha opinião o leitor não se vê em nada aptrapalhado com estes saltos temporais e não se perde. Pelo contrário, isso dá uma vivacidade fantástica à narrativa pois vão sendo descobertos a pouco e pouco os segredos e os acontecimentos que fizeram de Maria Teresa uma mulher solitária e ostracizada pelos habitantes da vila. Como referi, os pormenores vão sendo desvendados com o decorrer da leitura, sendo que muitas vezes são contados nas entrelinhas, aspecto que mantém o leitor sempre cativo.

A vida de Maria Teresa vai sendo marcada pelas expectativas sociais, familiares e religiosas muito restritas que condicionam sobremaneira a sua vida futura. 

E a cereja no topo do bolo é a importância da leitura na sua vida desde criança, importância essa que transporta até à velhice. A sua amizade, aquando idosa marginalizada pela vila onde habita, com uma criança que não se importa de se aproximar da "bruxa" é um sopro de luz na sua vida. Uma vez mais o papel da leitura como aproximação ao outro. O que está por detrás dessa solidão quase que auto imposta? Como se libertou das algemas que a prendiam a uma vida sensaborona?

Abordam-se aqui temas muito interessantes como a importância da liberdade, da identidade e pertença, como a tradição e religião podem condicionar as expectativas de alguém. 

Gostei e recomendo muito esta leitura! Atirem-se de cabeça, não se vão arrepender!

Terminado em 30 de Novembro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse 
Uma estreia auspiciosa de uma jovem escritora, romance que já venceu o Prémio Literário Cidade de Almada.

Esta é a história de Maria Teresa, uma mulher que cresceu numa pequena vila piscatória entre a austeridade familiar e a liberdade que encontrava nos livros e numa paixão clandestina.

Condenada a viver à sombra do que o pai e o marido haviam sonhado para ela, resolveu pôr em causa as ordens e as tradições, tomar as rédeas do seu destino, deixar para trás uma vida de conforto e atravessar o rio em busca de emancipação.

Hoje encontramo-la a tecer tapetes numa casa escura que ninguém sabe o que esconde e é considerada uma espécie de bruxa que assusta as crianças; porém, é numa amizade improvável com Joana, uma menina que aprende com ela a amar os livros, que Maria Teresa encontrará a redenção.

Com um ritmo poético e introspetivo, a narrativa desenrola-se em pequenos fragmentos belíssimos que refletem as superstições de uma comunidade marcada por um episódio com consequências dramáticas.

Mas onde todos veem horror Maria Teresa vê beleza e possibilidade.

Terão, ela e Joana, medo dos santos da casa?
Romance inspirado na história dos santos do escultor Altino Maia, que foram retirados da Igreja de São Pedro da Afurada, é na ficção que esta obra desafia algumas verdades.

Cris 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Como Animais

Como Animais” – Violaine Bérot, 2021

Um livro breve, que se lê de um fôlego, mas com um grande impacto e abordando vários temas com grande importância.

Em jeito de polifonia, cada capítulo é uma voz, um testemunho diferente. Começando com a voz de uma professora, somos confrontados com um enigma: uma família “disfuncional” que escolheu viver fora da aldeia, constituída por uma mulher e o filho autista, para o qual a escola nunca conseguiu ter uma resposta inclusiva, antes o quis direccionar para uma instituição, o que a mãe liminarmente recusou. E uma menina sobre a qual nada se sabe. Aquilo para que Violaine Bérot nos convida, à medida que as diversas vozes surgem dando o seu testemunho às autoridades, é olharmos também para nós como espectadores/as, como membros da sociedade, porque uma daquelas vozes pode ser a nossa. Como reage a sociedade ao que não entende? Como reage a sociedade ao outro, que sai fora da norma estabelecida? A sociedade intromete-se; a sociedade julga; a sociedade reprime.

Para além da crítica à escola que não está preparada para responder à individualidade das crianças na sua diversidade e nas suas necessidades, e em especial às crianças com deficiência, as outras instituições aqui em foco são a polícia e os media mais interessados em embarcar no “circo mediático” do que informar com seriedade. O título “Como Animais”, se por um lado mostra a estranheza da população que rotula de animais quem, como é o caso, se isola e não vive segundo os padrões das sociedades de consumo, padronizadas; por outro nos leva a questionar se não serão afinal os animais aqueles que se afastaram de tal forma da natureza que já perderam a capacidade de empatia para com os humanos.

Como anteriormente referi, os diferentes testemunhos, as diferentes vozes são únicas e inconfundíveis, levando-nos a ouvi-las/vê-las pela sua singularidade e individualidade através de frases curtas que nos transportam para situações de diferentes personagens respondendo a interrogatórios. E a autora consegue fazê-lo de uma forma notável. Inesquecíveis os depoimentos da mãe – Mariette – que tenta ao limite defender o filho duma sociedade que o exclui, e o depoimento da farmacêutica – Viviane Desroches – uma longa confissão, inesquecível, de alguém que engravidou na sequência de uma violação.

À laia de separadores entre os diferentes capítulos, surgem as vozes das fadas que vivem nas grutas, observam o mundo e estão prontas para libertar as mães que não querem ser, para acolher as crianças das mães que as rejeitaram. Transcrevo um desses poemas, dum livro que dificilmente esquecerei:

Nós

as fadas

vemos

o que alguns homens

por vezes

fazem às mulheres

sem lhes perguntarem

nada.


Sem pedirem

às mulheres

o seu consentimento

sem lho pedirem

os homens

antes.


Nós

as fadas

adivinhamos

o que pode significar

no mundo de baixo

ser menina

ser rapariga

ser mulher.


Nós

nos nossos pequenos corpos

nos nossos pequenos corpos de fadas

compreendemos

o que deve ser

um homem

que se exime

antes de entrar

de pedir.”

(págs. 105 e 106)

 

20 de Setembro de 2025

Almerinda Bento



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

"O Caminho da Cidade" de Natalia Ginzburg

Uma curiosidade sobre o presente livro desta autora que muito aprecio; este foi o seu primeiro romance, publicado sob um pseudónimo devido à censura fascista e leis anti-semíticas em Itália.

O livro gira em torno de uma adolescente e é narrado na primeira pessoa, a Delia. Vive num lugarejo pobre e a cidade constitui uma promessa de sonhos a realizar. Segundo ela a sua independência encontra-se lá. Ao engravidar de um rapaz economicamente mais abastado, as suas expectativas são, dia a dia, goradas. A passagem de uma adolescência cheia de sonhos para uma vida adulta com restrições impostas, familiar e socialmente.

Crítica social intensa, a autora com uma prosa simples, nua e crua, sem julgamentos, mostra bem como as expectativas não conduzem necessariamente à realidade.

Novela que se lê num ápice e que aconselho vivamente.

Terminado em 26 de Novembro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
O Caminho da Cidade foi o primeiro romance escrito por Natalia Ginzburg e tem já o tom inconfundível que vai caracterizar a sua obra posterior. Foi publicado em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, sob o pseudónimo de Alessandra Tornimparte. 

Cris 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

"Entre os Genes" de Raquel Cunha

Livro pequeno mas muito impactante. Conheço a Raquel desde que nasceu. Filha de uma amiga de longa data e vizinha também. Recordo os momentos que passei com a sua mãe a conversar nas noites de verão cada uma sentada na sua varanda, que fazíamos questão de saltar quando a isso estávamos dispostas. Note-se que as varandas pegavam uma na outra... Era o meio mais rápido de passar de uma casa para a outra, aliás!

Depois as nossas vidas seguiram o seu rumo e as visitas deixaram de ser tão frequentes mas o contacto, embora mais esporádico, manteve-se. Recordo que numa visita a minha casa a Raquel, já com os seus oito anos, fartou-se de pedir água à minha mãe (disse-mo ela depois). Pouco tempo depois surgiu o diagnóstico de diabetes. Para a Raquel e para a sua família imagino que tenha sido uma situação muito delicada em que tiveram de juntar forças para superar da forma o mais natural possível! Este diagnóstico foi a ponta do iceberg.

Ler este livro foi mergulhar em tudo o que um iceberg esconde por debaixo das águas. Muitos anos mais tarde foi-lhe diagnosticada uma doença rara, o Síndrome de Wolfram, que acarreta outras complicações de saúde difíceis.

Fiquei com uma admiração enorme pela coragem demonstrada pela Raquel ao colocar ao de cima algumas das situações por que passa no seu dia a dia e, sobretudo, como consegue modificar e dar sentido às mesmas. Dar a volta às dificuldades, ajudar outros com o seu exemplo é o seu propósito. 

Farmacêutica de profissão, curso que não exerce devido aos seus sintomas, dedica-se à mentoria e ao coaching. Aconselho vivamente a leitura deste livro. Faz-nos pensar em como, muitas vezes, as coisas pequeninas tomam, para nós, porporções desmedidas e nos esquecemos facilmente do seu minúsculo tamanho.

Resiliência, coragem e força. Fui à apresentação do livro da Raquel. Quis ouvir um pouco do que tinha acabado de ler. Um exemplo para todos. 

Se tiverem Facebook espreitem aqui: https://www.facebook.com/raquel.cunha.7165

Terminado em 25 de Novembro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse
De uma menina tímida à mulher que vemos hoje, após trinta anos a lidar com uma doença genética rara, neste livro, a autora relaciona muito do que já viveu com coaching e desenvolvimento pessoal, e ainda sugere pequenas atitudes que nos levam além do que a vida nos dá. 

Cris

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Convidada escolhe: As Migalhas de Beirute

As Migalhas de Beirute” – S. Costa Brava, 2019

A minha escolha por este título da obra de uma autora que não conheço, mas que foi sugerida por uma das participantes do Círculo de Leitura da UNISSEIXAL, teve a ver com o interesse que tenho em perceber a complexidade dos conflitos no Médio Oriente, motivo de notícias desde que me conheço. A minha solidariedade com a causa palestina e com o direito de um povo a viver em paz na sua terra, o qual tem nos últimos dois anos sido alvo de um genocídio impensável por parte do governo israelita, mais me levou a fazer esta escolha. Na calha e a seguir, irei ler “Gaza está em toda a parte” de Alexandra Lucas Coelho, cujas crónicas e percurso sigo regularmente e que muito admiro.

“As Migalhas de Beirute” é um livro muito duro, cuja leitura não me foi fácil. O facto de a autora ter vivido no Médio Oriente e em Paris teve certamente peso na escolha do tema. A primeira parte do livro traz-nos através de datas e acontecimentos marcantes naquela zona do mundo e em Beirute, em particular, a história de um país dilacerado pela guerra civil, por conflitos gerados do exterior, que têm tido os EUA e a Europa como potências omnipresentes. O papel da França no conflito libanês é inegável, mesmo quando os governos tentam através de divisões e de mistificações fazer de conta que nada têm a ver com os conflitos. Independentemente das divisões religiosas, foi através do exacerbamento dessas divisões que se tentou sempre chamar de religiosas as guerras, quando desde sempre os conflitos se deveram a questões de ordem geopolítica num território muito apetecível para quem quer mandar no mundo. Para além das mortes, a primeira parte do livro dá-nos a imagem de um país e de uma cidade divididos, com campos de milhares de refugiados palestinianos e com milhares de libaneses espalhados por todo o mundo, tentando refazer a vida como imigrantes. De forma larvar, o ódio vai-se instalando, os traumas de guerra não se apagam e a sede de vingança é aproveitada por milícias e grupos radicais que florescem num clima de desconfiança e de ódio generalizados.

A morte dos pais de Samir Bustani na Primavera de1988 é o ponto de partida para esta história de uma família libanesa. Apoiado por um tio há anos refugiado em Paris, o jovem Samir e a irmã vão conhecer uma realidade completamente diferente. No livro surgem temas em que se confrontam culturas, crenças e atitudes que dividem pessoas e famílias. A intolerância baseada na religião, a homossexualidade, a submissão da mulher na família, mas também a capacidade de resistir e continuar a viver num mundo em convulsão são alguns dos temas que o livro aborda.

Se o surgimento da internet foi uma ferramenta extraordinária para pôr em comunicação pessoas de todo o mundo, ou seja, um poderoso aliado da democracia, ela também tem sido usada para chegar a alvos frágeis e vulneráveis, facilmente manipuláveis que veem nela a resposta a frustrações e desilusões da vida. Muitos grupos extremistas têm-na usado em seu favor, radicalizando jovens inseguros, sem perspectivas de futuro, desiludidos da vida e facilmente ganhos quando lhes acenam com um paraíso que vingue anos e anos de frustração e infortúnio. O livro mostra-nos esse mundo de ódio que infelizmente contamina tanta gente, que gera destroços, migalhas e apenas destruição.

O ódio e a violência só geram cada vez mais ódio e violência. Todos perdemos e a democracia fica em risco. Será que temos capacidade de enfrentar a besta que nos quer destruir?

2 de Setembro de 2025

Palavras-chave: guerra, democracia, ódio, Médio Oriente

Almerinda Bento 



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

"Pão Seco" e "Tempo de Erros" de Muhammad Chukri


Tendo lido estas obras uma a seguir à outra fez-me sentido falar delas em conjunto.

"Pão Seco" foi uma descoberta intensa, dolorosa e de um realismo brutal. Foi realmente uma leitura muito forte quer pela escrita dura e muito crua como pela história contada. Sabem quando a realidade ultrapassa em muito a ficção? Quando, depois de teres lido muitos livros, estás perante um que sai fora de tudo o que leste até aí?

Estes volumes constituem uma autobiografia (existindo um outro, "Rostos", que ainda não li) e neste primeiro é-nos narrada a infância e juventude do autor, marcada por um ódio intenso na sua relação com o pai que era uma pessoa de uma agressividade extrema. Miséria, fome, violência, drogas, prostituição, criminalidade pelas ruas de Tânger e Tetuão (Marrocos). 

Com um estilo seco, que saltita de quando em vez entre acontecimentos mas que não é difícil de seguir, esta obra marcou-me profundamente como leitora. Não existe inocência nesta infância e sim uma forte resistência que o fazem um sobrevivente. Mas não se enganem, Muhammad Chukri resvala na marginalidade como seria de esperar. 

"O meu irmão chora, contorce-se com dores, chora por pão. É mais novo que eu.. Choro com ele. Vejo-o (o pai) a acercar-se dele. O monstro acerca-se dele.A demência nos olhos. As mãos, quais tentáculos dum polvo. Ninguém o consegue deter. Sonho que peço ajuda. Monstro! Demente!Alguém o detenha! Num ataque de fúria, o maldito torce-lhe o pescoço. O meu irmão contorce-se. O sangue jorra-lhe da boca. Fujo para fora de casa enquanto o meu pai cala a minha mãe ao murro e ao pontapé."

"(...) - O pai vai-me matar como matou o mano. 

- Não tenhas medo. Vem comigo (a mãe). Ele não te vai matar. Anda. E cala-te, para os vizinhos não nos ouvirem. 

O meu pai lava-se em lágrimas e cheira rapé. Impressionante: primeiro mata o meu irmão e depois chora."

No final desta obra fica a esperança que a escrita e a leitura, que Chukri quer desesperadamente aprender, o salvem da vida que tinha até então. Foi isso que me fez de imediato pegar o livro seguinte, "Tempo de Erros", que fui buscar à biblioteca.

Este segundo volume é menos chocante, a aprendizagem traz-lhe um sentido de análise sobre o mundo que se reflecte nas suas palavras, embora os problemas com a bebida o levem a situações desesperadas. O álcool está presente na sua vida de uma forma avassaladora mesmo depois de ter conseguido alguma instrução e de ser um devorador de livros.

São duas obras de uma intensidade imensa, É impossível o leitor ficar indiferente. Li que o terceiro volume desta trilogia, "Rostos", se afasta um pouco do carácter autobiográfico apresentando-se já como escritor, e fazendo referencia a várias pessoas que terão marcado a sua vida, sendo a narrativa mais fragmentada. Creio ainda não estar traduzido para português.

Terminado em 28 de Outubro de 2025 e 6 de Novembro de 2026, respectivamente

Estrelas: 5*

Sinopse "Pão Seco"
Quando a fome grassa no Rife, uma família parte para Tânger em busca de uma vida melhor.

Nas noites passadas ao relento, nos becos da cidade, o pequeno Muhammad, orgulhoso e insolente, descobre a injustiça e a compaixão, a tirania da autoridade, a loucura labiríntica da miséria, o consolo das drogas, do sexo e do álcool.

E é na prisão que um companheiro lhe desvenda as maravilhas da leitura, mudando para sempre a sua vida.

Estreia do autor em Portugal, em tradução directa do árabe, Pão Seco foi publicado originalmente em 1973, na tradução inglesa de Paul Bowles (For Bread Alone), quando os editores de língua árabe não estavam ainda preparados para o caos narrativo, a linguagem crua e a indisciplina gramatical que desafiavam a tradição e o «bom gosto».

«Verdadeiro documento do desespero humano» (Tennessee Williams), obra de culto proibida até recentemente nos países árabes por tocar em tabus da sociedade magrebina.

Este avassalador romance autobiográfico consagrou o autor e continua a iluminar o caminho de várias gerações de renegados marroquinos.

Sinopse "Tempo de Erros"
Em Tempo de Erros (1992), Muhammad Chukri prossegue o duro relato autobiográfico iniciado em Pão Seco. Nesta história, assistimos aos anos de aprendizagem do autor, à sua crescente obsessão pela leitura e ao advento de um escritor. Entre a família em Tânger e a escola em Laraxe, preenchem os seus dias uma galeria de almas perdidas, amigos e amantes como a marca da loucura e, diz-nos, «bárbaros com quem vivi de noite em estreitas ruelas e tabernas duvidosas». Num país onde «os inteligentes enlouqueceram e deliram pelas ruas, e os que merecem ficar aqui emigraram», Chukri revisita a doença, a idade adulta e as amizades com os marginais estrangeiros atraídos por Tânger, reiterando a impossibilidade de aniquilar os desejos que o movem. 

Cris