A narradora, Isabel, fala-nos da doença incapacitante da mãe, Alzheimer, e a sua degeneração cognitiva. Lentamente ela vai perdendo a memória mas ao mesmo tempo começa a revelar um passado escondido através de frases que se lhe escapam. Isabel, ao mesmo tempo, relembra o seu passado. Sempre se viu no papel de cuidadora e sendo enfermeira assumiu esse papel também em adulta. Os seus sentimentos em relação a isso passam por momentos de desânimo e cansaço e, depois, culpa.
O final desta história é como na vida. Muitas vezes não há respostas para tudo. No passado revisitado encontram-se os meios para analisar, perceber e aceitar. No fim de qualquer ciclo pode estar o começo de outro. A perda da memória da mãe é seguida, ao mesmo tempo, pelo recordar de Isabel. Toma consciência do seu passado e das feridas que ele lhe traz. O pai ausente, a pobreza vivida, a sua fiha que por ter a cor da pele diferente da dela sofre questões raciais.
(Re)começar passa por compreender o passado para decidir como se pretende viver o presente e o futuro. Passado e presente aqui numa simbiose perfeita mas que, contudo, o leitor distingue facilmente. As 6 estrelas são devidas tanto pela qualidade da escrita como pela forma como está articulada a narrativa, precisamente essa mudança do presente para o passado e vice-versa. Analepses perfeitas.
Memória familiar e, como pano de fundo, a memória histórica de um Portugal no antigo regime.
Livro que hei-de reler um dia porque vale muito a pena! Recomendo.
Terminado em 26 de Maio de 2026
Estrelas: 6*
Sinopse
A memória como um território instável. A persistência dos laços quando já não há palavras que os possam descrever. Isabel, enfermeira, acompanha o declínio cognitivo da mãe enquanto é forçada a revisitar a sua própria história.
A infância num bairro periférico, o trabalho precoce, a formação no hospital, o casamento falhado, a maternidade atravessada por tensões raciais e a figura ambígua de um pai ausente emergem como farrapos ainda vivos, nunca totalmente resolvidos. Cuidar torna-se um gesto ambivalente, simultaneamente técnico e afetivo, exercício de sobrevivência e de exaustão.
A doença instala-se não apenas como condição clínica, mas como metáfora de uma herança coletiva feita de silêncios, violência normalizada e adaptação contínua. A memória materna que se desfaz convoca as estratégias de esquecimento que atravessaram gerações e um país, pondo em causa a ideia de progresso, de redenção e de linearidade do tempo.
O fim deixa de significar apenas perda e passa a ser também um lugar de revelação.
Cris






















