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sexta-feira, 15 de maio de 2026

"A Lei do Inverno" de Gemma Ventura Farré

Livro curto mas que demorou algum tempo a ser lido porque a escrita poética, nem sempre linear, nalgumas partes, fez-me perder o rumo nalguns dos pensamentos do narrador mas, outros tantos, fizeram todo o sentido.

O luto, a memória e os laços familiares que muitas vezes são complexos constituem o pano de fundo desta história, narrada por uma jovem que vela o avô, gravemente doente. Mergulhando nas suas recordações, as páginas alternam entre momentos presentes e passados. O amor que sente pelo avô e que é plenamente correspondido, as mensagens que relembra que ele lhe deixou durante a sua vida, a aceitação da sua perda iminente, a memória que, acredita, o manterá vivo dentro de si.

"Explicaste-me que há pessoas que nos queimam e outras que nos dão a luz toda." Pág 49

"Mas eu diria que existem dois tempos: o dos relógios e o das memórias. E se os relógios organizam tudo, as memórias fazem o que querem: não podem ser fixadas por um calendário, escapam. Sim sim, têm patas e saltam para onde querem: se nasceram a 1 de Fevereiro, voltam a 3 de abril, a 5 de maio. E não é só isso, aparecem sempre em formatos diferentes: dez anos resumem-se a uma porta a bater, e o beijo de um segundo, à imagem que prolongamos todas as noites antes de dormir." Pag 52

"E mesmo que nos vejamos já feitos, estaremos sempre meio feitos, que morreremos inacabados. E que são as pessoas que nos fazem: há quem nos arrasta para o ódio, quem nos guia para a alegria. E somos um pedaço de barro cheio de marcas." Pag 59

"Amanhã não conseguirei ver que apareceste assim, por acaso, para me dares um ponto de luz. Sim há pessoas que passam para nos levantar do chão e partir. E é tudo, e é tanto." Pág 100

Terminado em 16 de Março de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
Vencedor do Prémio Josep Pla 2023.

A Lei do Inverno é um convite a reconhecer a beleza dos laços intangíveis, a aceitar o ciclo da perda e a escutar o murmúrio daqueles que nos guiam, mesmo quando já partiram.

No silêncio suspenso do inverno, quando as cerejeiras se despem e a casa se enche de suaves ecos, uma jovem vela o avô. Em profunda solidão, discorre entre a memória e a imaginação, descobrindo que as presenças mais profundas são, por vezes, feitas de ausência.

Gemma Ventura Farré tece uma ode delicada ao invisível — aquilo que não se vê, mas que permanece: as vozes que nos sussurram ao ouvido, o amor que resiste ao tempo, a saudade que ilumina os dias e a forma como superamos cada ausência.

Num registo íntimo e mágico, esta é uma história destinada a tocar quem a lê. Celebra a delicadeza, a força do coração e o poder da imaginação, e recorda-nos de que, para renascer, é necessário, antes de mais, deixar ir.

Cris

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A Convidada escolhe: “A Livraria Perdida”

“A Livraria Perdida” – Evie Woods, 2023

Hoje são dezenas os livros que atraem amantes de livros e de gatos com títulos e capas sugestivos, que muitas vezes acabam por ser meros produtos facilmente vendáveis, mas de fraca qualidade literária. “A Livraria Perdida” foi-me oferecido por amigas que sabem desta minha ligação aos livros e à literatura e acho que, também por o romance se passar na cidade de Dublin e ter referências a James Joyce, autor de que lemos “Dubliners”, deve ter sido determinante na escolha deste livro que me ofereceram.  

Se houve aspectos muito interessantes no livro, confesso que com muito menos folhas, o livro não perderia muito. A parte relacionada com os encontros/desencontros amorosos das duas personagens me aborreceu bastante; achei mesmo que o livro tem muitas passagens xaroposas e muitos lugares comuns que me deram vontade de as saltar. Também as partes relacionadas com o realismo mágico são um bocado incongruentes, alguns aspectos da narrativa são pouco consistentes e nem todas as pontas soltas se conjugam, mas mesmo assim gostei de ir até ao fim na leitura do livro da irlandesa Evie Woods. 

São três os narradores do livro, cujos nomes dão título aos diferentes capítulos. Embora Opaline Carlisle – a mais interessante – tenha vivido no século passado, há um vínculo (ou múltiplos vínculos) que os une a todos: a paixão pela literatura e por manuscritos e livros raros; a violência e o abandono nas relações familiares; a capacidade de superação. Opaline é uma mulher muito corajosa para a época, alguém que ama a liberdade mais do que tudo e, portanto, não se sujeita à submissão de um casamento arranjado 

Se o tema da violência doméstica surge bem retratado, foi, no entanto, a questão do encarceramento da jovem Opaline Carlisle durante dezoito anos no hospício do distrito de Cornacht na Irlanda, o que mexeu mais comigo ao longo da leitura deste livro, lembrando-me a recente leitura do maravilhoso “Pequenas Coisas com Estas” de Claire Keegan. “Eu tinha ouvido falar de lares para mães e bebés na Irlanda – sítios para onde mães solteiras eram enviadas pelas famílias para terem os seus bebés em segredo.” (pág. 238) Mulheres com comportamentos fora da norma, neste caso a gravidez de Opaline e a recusa de casar com alguém que ela não escolheu, o que a levou a fugir de casa, eram aprisionadas em hospícios longe da vista de todos e “diagnosticadas” de loucas, de violentas, de histéricas, enfim “mulheres problemáticas, com ideias inconvenientes.” (pág. 259). Lucia, a filha de James Joyce que sofria de esquizofrenia, foi internada numa destas instituições em 1932 e por lá ficou por cinquenta anos… 

Pensar que este tipo de instituições geridas por freiras e financiadas pela igreja Católica, em parceria com o estado irlandês, resistiram e persistiram até 1996, é verdadeiramente chocante. Como diz a nota final no livro de Claire Keegan a que faço referência “Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato”

23 de Abril de 2026

Almerinda Bento




quarta-feira, 13 de maio de 2026

"As Recordações" de David Foenkinos

Gostei muito deste livro. Às vezes os livros esperam pacientemente por nós nas estantes e, subitamente, algum motivo nos leva a pegar neles... A razão, neste caso, foi a escolha de um livro que tivesse sido objecto de filme. 

A temática agarrou-me logo de início. Escrito na primeira pessoa (prefiro tanto que assim seja!), o narrador é um jovem cujo nome, se bem me lembro, fica no anonimato. É alguém que sonha tornar-se escritor, que trabalha num hotel e o foco do livro centra-se, sobretudo, na sua relação com a avó mas também nas suas recordações, nem sempre felizes.

A entrada da sua avó num lar leva o autor e o leitor a uma reflexão conjunta sobre a velhice e o abandono a que muitas vezes está associada, a importãcia da memória, o conflito de gerações, o luto.

Escrito com delicadeza mas com muito foco, apontando questões tão actuais, ainda. Comove porque são temas tratados com muita sensibilidade.

O que fica de nós nos outros? O que deixamos por dizer àqueles que partem sem retorno? Como se sente aquele que tem de deixar a sua casa para ir para um lar com regras diferentes daquelas que possui?

"Sobreveio, então, uma mudança. Não foi um gesto importante, não foi sequer uma decisão, apenas um ínfimo sinal que a minha avó detectou no olhar dos seus filhos. Ela cedeu ao descobriro pânicono olhar deles.Viu, de súbito, a que ponto deixara de ser uma mãe para se transformar num peso. Será essa a verdadeira fronteira da velhice? Quando nos tornamos um problema?Isto era insuportável para ela, que vivera livremente, sem depender de ninguém. Portanto, para simplificar as coisas, sussurrara; está bem!" pág 24

Gostei muito desta obra e queria ver se o filme é tão bom quanto...

Terminado em 14 de Fevereiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Quando a avó do narrador foge do lar onde vive, ele sabe que não pode ficar de braços cruzados à espera de que as autoridades a encontrem. Afinal, se se arrependera de não ter passado mais tempo com o avô antes de ele morrer, não quer agora desistir de uma pessoa que ainda pode ter tanto para lhe dar Numa narrativa que conjuga matizes de humor e poesia, David Foenkinos oferece-nos uma reflexão plena de sensibilidade sobre o tempo, a memória, a velhice, os conflitos de gerações, o amor conjugal, o desejo de criar e a beleza do acaso.

Cris

sexta-feira, 17 de abril de 2026

"Cães Pretos" de Ian McEwan

Durante esta leitura tive sentimentos variados. Logo após o prefácio achei que este livro não seria para mim. Isto porque, na minha opinião, ele começa lindamente sendo a minha atenção captada rapidamente mas depois, Jeremy, o narrador, segue por um caminho que não esperava. 

Um mini spoiler: a sua ligação com a sua pequena sobrinha, Sally, perdeu-se e achei que podia ter sido mais explorada. Mas na vida acontece muito isso, as separações voluntárias ou involuntárias dão-se. Ele próprio mostra, durante a narrativa, sentir algum remorso por não ter conseguido acompanhá-la na sua vida. Quem não tem, dificilmente dá. Alterar padrões de comportamento não é fácil. E Jeremy, com a morte dos pais aos oito anos, teve emocionalmente muito pouco. Estas observações são fruto das reflexões que este livro, depois de o terminar, me levou a fazer. 

E, aos poucos, fui mergulhando nesta obra em que Jeremy, saltitando temporalmente, vai-nos contando o passado dos seus sogros, June e Bernard, fazendo também referência à sua infãncia (que explica a razão do seu interesse pelas pessoas "mais idosas"), à sua juventude errática e ao seu casamento aos 35 anos. 

Vai questionando os sogros, separadamente, e tentando perceber como duas pessoas que se amaram (e amam) não conseguiram seguir um caminho juntos. Tenta reconstruir a vida do casal sem o conseguir totalmente. Uma história contada de forma diferente pelos seus protagonistas. Jeremy quer perceber o que de facto aconteceu, a causa da sua separação ideológica que implicou a separação física. Pelo meio, põe-nos ao corrente da situação no pós-guerra, vivenciada pelos sogros e pais e, numa fase temporal posterior, da queda do muro de Berlim.

 O título surge do encontro traumático que June viveu no pós guerra e que marcou a divergência do casal. Refiro que esse encontro com uns cães pretos (sabemos ter existido mas que não conhecemos as circunstâncias em que ocorreu), só nas últimas páginas tem o seu despoletar e é verdadeiramente memorável. O leitor tem de se conter para não saltar palavras tal a ânsia de saber o que aconteceu!!! A interpretação que June e Bernard fazem desse encontro é radicalmente oposta e é interessante verificar como ambos a interpretam e as consequências que daí advêem.

A história aparentemente simples é o mote para reflexões filosóficas quer de Jeremy, June e Bernard,  quer do próprio leitor. Foi isso que me agradou sobremaneira e daí as 5*. Leiam que vale a pena!

Terminado em 15 de Março de 2026

Estrelas: 5*

Sinopse

Dois jovens membros do Partido Comunista, June e Bernard, conhecem-se em Londres em 1946. Apaixonam-se perdidamente e casam-se. Durante a lua-de-mel em França, June sofre uma experiência que altera a sua vida: descobre a religião e acaba por renunciar ao partido. Cinco anos depois, June e Bernard Tremaine separam-se. Nunca chegam a divorciar-se nem a envolver-se romanticamente com outras pessoas.

Embora as convicções vão enfraquecendo lentamente, Bernard mantém-se no partido até 1956. June e Bernard voltam a aparecer na história 40 anos mais tarde, quando o seu genro Jeremy investiga a história pessoal e intelectual de ambos. Religião versus razão. A memória de um versus a memória de outro. Amor versus existência diária. Sacrificar o individual pelo bem das massas.

É disto de que nos fala Cães Pretos. Tendo como cenário a queda do Muro de Berlim, Cães Pretos recua no tempo até à Europa do pós-guerra e mostra como a guerra e os seus demónios mudaram o destino de uma família. Metafórica e literalmente, os cães pretos do título percorrem a paisagem deste romance – a Europa e a família Tremaine.

Cães Pretos mostra o talento literário excepcional de Ian McEwan, que desenvolve improváveis e invulgares combinações de suspense, ética, filosofia e ideologia política e religiosa. Noutras mãos, semelhante mistura poderia tornar-se letal, nas mãos de Ian McEwan é simplesmente inebriante.

Cris

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "O Acontecimento"

“O Acontecimento” – Annie Ernaux, 2000

(tradução de Maria Etelvina Santos)

Este é o terceiro livro que leio de Annie Ernaux. Quando o li, sabia ao que ia: a memória de um aborto que a autora fez, quando jovem mulher, estudante universitária. No entanto, o início do livro refere-se a um outro momento na sua vida relacionado com a possibilidade de estar seropositiva, na sequência de uma relação sexual não protegida. “Pensava que nunca haveria qualquer tipo de relação entre o sexo e outra coisa,” (pág. 10) Nos dois momentos “… a mesma aflição e a mesma incredulidade. Portanto, a minha vida situa-se entre o método Ogino e o preservativo a um franco nas máquinas de venda.” (pág. 11)

Acho importante registar algumas datas para mostrar as diferenças entre o país da autora e o nosso país, no que se refere aos direitos sexuais e reprodutivos e especificamente no que se relaciona com a despenalização do aborto. O aborto que a autora fez quando tinha 23 anos, foi em 1963. A lei francesa à época punia com prisão e multa “I) o autor de quaisquer procedimentos abortivos; 2) os médicos, parteiras, farmacêuticos e outros culpados de terem indicado ou favorecido aqueles procedimentos; 3) a mulher que praticou ela própria o aborto ou que o consentiu; 4) o incitamento ao aborto e a propaganda anticoncecional. A interdição de domicílio pode, de resto, ser pronunciada contra os culpados, para além, no caso do segundo ponto, da proibição definitiva ou temporária do exercício da profissão” (pág. 21). Em 1975, o aborto deixou de ser punido em França com a famosa lei Simone Veil. Em Março de 2024, a França foi o primeiro país do mundo a inscrever o direito ao aborto na Constituição. Em Portugal, o processo foi mais demorado e complicado pois só em 2007, num segundo referendo, as mulheres portuguesas puderam ter acesso ao aborto até às dez semanas, a seu pedido. Até essa data, o aborto era clandestino e ocorreram vários casos de mulheres e pessoal da saúde levados a tribunal por fazerem ou facilitarem a prática do aborto. 

A agenda em que Annie Ernaux registou o que ia acontecendo, a partir do momento em que se apercebeu do tempo a passar sem ter menstruação, é um elemento fundamental a que recorreu no momento em que decidiu que era preciso dar testemunho do que se tinha passado com ela. O facto de numa altura em que o aborto já estava legalizado levar muita gente a dizer “Isso já passou” (pág. 20) e de se querer apagar uma memória traumática para tanta mulher, mais reforçou nela a convicção da necessidade de dar testemunho daquilo que tinha acontecido com ela e de não silenciar uma realidade que, para ela, constituiu “um acontecimento inesquecível.” (pág. 20)

Essa agenda reflecte as sensações, os receios, a ideia de fracasso social, a busca kafkiana por uma solução, a angústia, a incapacidade de se concentrar, o desânimo, a impotência, a discriminação de quem é pobre, a solidão. E o assinalar da data que separa a vida da morte. A descrição do “acontecimento” é crua, brutal; a capa da edição dos Livros do Brasil não podia ser mais certeira. Se a data em que se libertou do feto foi, por vários anos, considerada um aniversário, havia algo de sagrado nisso. “Não sabia se tinha estado no auge do horror ou da beleza. Sentia orgulho. Provavelmente o mesmo que sentem os navegadores solitários, os drogados e os ladrões, aquele orgulho de terem ido até onde os outros nunca considerarão ir. Foi, sem dúvida, algo desse orgulho que me fez escrever esta narrativa. “(pág. 80) “Numa outra tarde, entrei numa igreja, a de Saint-Patrice, perto do boulevard de la Marne, para contar a um padre que tinha abortado. Depressa me dei conta do erro. Sentia-me inundada de luz e para ele estava inundada de crime. Ao sair, percebi que, para mim, o tempo da religião tinha chegado ao fim.” (pág. 81) “Apaguei a única culpabilidade que nunca poderia suportar em relação a este acontecimento, a de que me tivesse acontecido e eu não tivesse feito nada em relação a isso. Seria como um dom recebido e desperdiçado (…) E o verdadeiro objetivo da minha vida é, provavelmente, apenas este: que o meu corpo, as minhas sensações e os meus pensamentos se transformem em escrita, isto é, em qualquer coisa de inteligível e comum – a minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.” (pág. 84)

Os direitos sexuais e reprodutivos foram sempre um alvo de ataque de forças conservadoras, de direita, frequentemente ligadas às igrejas e nos tempos actuais em que o conservadorismo ganha palco e projecção, há quem queira reverter em Portugal uma lei tão recente, que fez diminuir drasticamente os riscos de morte e de complicações por motivos de interrupção de gravidezes não desejadas, num contexto de clandestinidade. Uma lei que conferiu um importantíssimo direito às mulheres: o direito à escolha.  Num tempo em que a palavra “aborto” não tinha lugar na linguagem, nem mesmo nos consultórios médicos, “a impossibilidade absoluta de imaginar que, um dia, as mulheres pudessem livremente decidir abortar. E, como sempre, seria impossível determinar se o aborto era proibido porque estava errado, ou se estava errado porque era proibido. Julgava-se em conformidade com a lei, não se julgava a lei.” (pág. 34) 

Daí a imensa actualidade deste livro. Deste corajoso testemunho. 

23 de Março de 2026

Almerinda Bento

 




quarta-feira, 15 de abril de 2026

"O Café Sem Nome" de Robert Seethaler

Leitura rápida e sem grandes altos e baixos na narrativa. Não existem dramas intensos na vida do
protagonista, Robert Simon, que após a sua vinda para a cidade (Viena de Áustria) e de ter trabalhado num mercado local, consegue abrir um café junto ao mesmo. Por não saber que nome lhe atribuir fica o café sem nome e, aos poucos, passa a ser o ponto de encontro das pessoas que habitam ou trabalham perto.

A história passa-se por volta de 1960 e é o retrato de uma comunidade com os pequenos dramas do dia-a dia. Mais do que a história pessoal de Robert este livro conta-nos pequenas histórias dos frequentadores do café, que se transforma de um local fechado e sem identidade para um café ponto de encontro de trabalhadores e vizinhos.

Mostra um pouco como a vida nas grandes cidades pode ser solitária para muitos e a importância de locais de encontro para minimizar essa solidão.

Leitura calma sem grandes sobressaltos. Tranquilo.

Terminado em 12 de Março de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse

Após a Segunda Guerra, um homem simples abre um café sem nome em Viena. O espaço torna-se refúgio de pessoas comuns, marcadas por perdas e esperanças. Entre rotinas, conversas e silêncios, este romance retrata a reconstrução da cidade e dos laços humanos. Mais do que uma história cheia de acontecimentos, o livro acompanha o quotidiano dessas personagens e mostra como, no meio da reconstrução material e emocional da cidade, os laços humanos se formam através de gestos simples: conversas, silêncios compartilhados, rotinas.

O estilo do premiado autor austríaco Robert Seethaler é contido, sensível e melancólico, menos focado em grandes dramas e mais focado na beleza discreta da vida quotidiana. O café sem nome é um livro profundo e muito humano sobre a forma como nos apoiamos mutuamente nos bons e maus momentos, e como até a vida mais comum é, à sua maneira, extraordinária.

Cris

terça-feira, 14 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "O Último Avô"

“O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025

De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais complexo. Há bastante tempo que um livro não me perturbava tanto. É um verdadeiro puzzle, não só pela sequência de capítulos em tempos diferentes, mas pelas personagens cujas vidas se ligam, pelo twist no final do livro e pela extrema atenção que requer por parte do/a leitor/a. Mas, sobretudo, muito bem escrito. Imagino que para o autor que o imaginou e escreveu, precisou de muito tempo, muito rigor e atenção, porque se trata de uma tapeçaria com muitos fios e desenho muito elaborado. 

É um livro sobre os traumas da guerra colonial, não só nos que a viveram enquanto soldados, mas nos familiares que viveram as consequências do trauma. A figura central é Campelo, o avô do narrador, a quem deixa como testamento o cuidar da gestão do seu património intelectual. Engenheiro de formação, escritor famoso, Campelo é um egocêntrico, possessivo, violento e obcecado por memórias de África, o tabu de um futuro livro sempre anunciado, mas nunca concretizado. Em torno dele, além do narrador, múltiplas figuras femininas, personagens complexas que se vão desvendando ao longo da  narrativa, essenciais para a caracterização de Campelo. A filha, mãe do narrador – a Formiga – “tímida com o coração selvagem” (pág. 24) que um dia se rebela contra o pai e foge; a avó que se revela  já não como a mulher silenciosa, quando se separa e decide ir viver para Azeitão, onde “se tornara a versão mais feliz de si mesma” (pág. 108); Noélia, a criada, para quem Regina, a fazer um mestrado em Teoria da Literatura envolvendo a obra de Campelo e envolvendo-se com ele, era uma “cabra” (pág. 57); as tias, manas da Formiga, praticamente inexistentes; Cecília, a namorada do narrador, o grande apoio deste ao longo dos vários momentos do romance e, finalmente, Jóia e Estrela da Piedade, as duas africanas da fotografia encontrada entre as recordações de Angola. Porquê esta fotografia? Quem serão estas mulheres? Despojos de guerra?

Quanto aos homens, além de Campelo e do neto (narrador), apenas uma cena com o pai do narrador, afinal um pai ausente; o editor Torres, sempre ansioso por notas ou pelo manuscrito que possa sair à luz para finalmente responder à expectativa do que seria a obra maior de Campelo, numa crítica clara ao meio literário e à avidez pelos sucessos editoriais. E claro, Campelo e Augusto o neto, afinal muito parecidos, por vezes até difíceis de se distinguirem!

O cerne do romance é o manuscrito de Campelo, o mistério em torno do conteúdo do manuscrito que o avô destrói antes de morrer, a ânsia de saber se não haverá outro manuscrito para além do queimado – o manuscrito – eventualmente no quarto fechado que a mãe do narrador ocupou antes de morrer. E também em torno da autoria… Os traumas de guerra que Campelo partilhou com a filha e com o neto, em quem projectou a escrita do seu livro de memórias de África e que o levou um dia a afirmar: “Hoje nasceu um escritor” (pág. 92). A certa altura, o narrador tem a sensação de que o avô quer que seja o neto a escrever o livro por ele e conta-lhe episódios da guerra, fala-lhe de Zacarias, o mulato que salvou das chibatadas, da mãe Jóia e da tia Estrela da Piedade: “Tinha a impressão de que ele se apoderava de mim frase a frase” (pág. 101) “Mas faltava rigor ao imaginário” (pág. 103). É de tal forma intensa esta presença do avô na escrita do neto (até as caligrafias se assemelham), que a certa altura o neto se rebela e não quer continuar a escrever. 

O livro vai sendo construído como num puzzle com capítulos curtos entrecortados, até que começam a surgir capítulos escritos em itálico, as histórias da guerra, o tão ansiado manuscrito. Será aquilo um romance, ou antes uma confissão, um romance autobiográfico? É justo publicar uma confissão que venha manchar a memória de alguém que já morreu e que desse modo venha contaminar negativamente as expectativas e uma imagem até então tão positiva? Afinal “qualquer escrito é um engano” (pág. 217) e “Quantas pessoas não são a ficção que fazemos delas, e quantas histórias não andam por aí à solta sem verdade excepto a própria, isto é, a verdade da ficção”. (pág. 269). 

Termino com esta transcrição de “O Último Avô” um livro sobre a guerra colonial, difícil e corajoso, que li atentamente e cujos últimos capítulos senti necessidade de reler. “… ocorre-me que este país com a geografia fácil de um rectângulo, mais a porção das ilhas, não tem os quilómetros quadrados necessários para mistérios ou descobertas. (…) Todavia, apesar de claustrofóbico, ainda tem dimensão para segredos: é que Portugal esconde um exército, o exército dos ex-combatentes. 

Restam uns trezentos mil soldados da velha guerra. A estatística manda que os encontremos na rua, na sucursal do banco ou dos correios, nos cafés. Frequentam os transportes públicos e sentam-se ao nosso lado na Loja do Cidadão. São eles que conversam entre si durante horas nos bancos de jardim. Uns falam alto, outros perderam a voz. Suspeito de que muitos dos que agarramos pelos pulsos e tornozelos às camas dos hospitais, e que bradam como cercados pelo inimigo, também sejam antigos combatentes. Alguns escondem-se à paisana de velho e à paisana de soldado: como ninguém lhes dá mais de setenta anos, não parecem velhos o suficiente e ninguém desconfia de que combateram em África. Outros entraram em lares” (pág. 245).

7 de Fevereiro de 2026 

Almerinda Bento


segunda-feira, 13 de abril de 2026

"Aquilo Que Vi No Escuro" de Margarida David Cardoso

Reunindo histórias reais de pessoas que viveram (e vivem) episódios de psicose, este livro levou-me a pensar sobre a doença mental e os estigmas a ela associados. A autora mostra-nos como a psicose pode ser uma das manifestações de algumas doenças e, sobretudo, como a pessoa pode piorar se não for tratada atempadamente. 

Casos reais, relatos vividos e sofridos que colocam o leitor a refletir. O medo, o isolamento e o estigma social que acompanham o doente. 

Os sintomas que acompanham a psicose - ouvir vozes, o acreditar que são alvos de conspirações e/ou perseguições, a confusão entre realidade e imaginação - são tremendos e ouvir estes relatos fizeram-me repensar a doença. Até que ponto não excluímos e marginalizamos estes doentes com observações como "ele é maluco"?

São familias que se desfazem, familiares que se afastam, respostas da sociedade inadequadas (isolando mas não tratando o doente).

Há muito sofrimento por detrás da doença e este livro é um relato vivo disso. Impactante! Vale a pena ler. E refletir sobre.

Terminado em 28 de Fevereiro de 2026

Estrelas: 5*

Sinopse

Sabia que a psicose não é um diagnóstico, mas sim um sintoma?

Surge quando alguém vê ou ouve algo que não existe para os outros, num estado que pode ser estável, intermitente ou único ao longo da vida. Estigmatizados e incompreendidos, os episódios psicóticos afetam uma em cada três mil pessoas por ano. Apesar de se associarem à esquizofrenia, integram um espectro mais vasto de doenças mentais. Este livro retrata vidas marcadas pela psicose, logo, pela perplexidade e pelo estigma. Porque a alteração do entendimento da realidade comum é, sobretudo, uma experiência de solidão extrema.

E, até mesmo quando condena alguém a viver numa clínica psiquiátrica dentro de um estabelecimento prisional, significa dor e sofrimento mentais quase inconcebíveis.

Cris

sexta-feira, 10 de abril de 2026

"Filhos da Quimio" de Nelson Marques

Gosto bastante dos livros da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), sobretudo os da coleção Retratos. Este aguardava há muito tempo para ser lido. O tema interessava-me  porque queria estar consciente destas terríveis situações e adivinhava-o muito pesado.

São relatos de vários casos, como o próprio nome indica, de mães que estavam grávidas e que souberam, ao mesmo tempo, que tinham cancro. A felicidade tantas vezes desejada mesclada com o horror de saber que se tem uma doença muitas vezes terminal.

São cinco histórias, quase todas de sucesso, onde as mães optaram pelo bebé, adiando os tratamentos ou fazendo-os de forma a preservar a gravidez, com risco da sua própria saúde.

O estilo jornalístico do autor é directo, simples mas que cria de imediato empatia com o leitor. Uma leitura curta, dado o tamanho do livro, mas impactante. É impossível não se querer saber mais pormenores.

Terminado em 25 de Fevereiro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
Nenhuma mulher está preparada para ouvir que tem cancro. Muito menos quando está grávida, naquele que devia ser o período mais bonito da sua vida. Dá para imaginar a montanha-russa de emoções? Este livro conta as histórias intensas, tocantes e, por vezes, trágicas de mulheres que tiveram de enfrentar o inimaginável. Como Anabela, que deixou crescer um tumor dentro dela durante meio ano para poder ser mãe; como Raquel e Liliana, que recusaram abortar e decidiram fazer quimioterapia durante a gravidez; como Gintare, que lutou até ao limite das suas forças para que o Salvador pudesse nascer, mas que morreu sem o poder ver crescer; ou ainda como Michelle, uma das primeiras mulheres em Portugal a serem mães enquanto tomavam medicação para a leucemia mielóide crónica.

São relatos de dor e de angústia, de coragem e de resistência, de vontade de viver e dar vida. Histórias de vida e de morte, porque nem sempre o cancro, esse bicho danado, tem um final feliz. Mas são, acima de tudo, testemunhos de um amor imenso, que nos comovem e inspiram pela sua infinita crença na força humana.

Cris

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "As Pessoas Felizes"

“As Pessoas Felizes” – Agustina Bessa-Luís, , 1975

Há muito que estava para ler Agustina. Aliás, quando li a excelente biografia de Agustina Bessa-Luís “O Poço e a Estrada” escrita por Isabel Rio Novo, prometi a mim mesma que iria tirar da estante “A Sibila” do meio dos muitos livros de Agustina que herdei da minha irmã Isabel. Afinal comecei com “As Pessoas Felizes”, graças à proposta de leitura saída do Leia Mulheres que se reúne mensalmente no Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, coincidente com o inesperado e injusto afastamento de Rita Rato da direcção deste excelente espaço de cultura e memória situado em Lisboa. Não me esqueço do momento em que o meu filho, então estudante do 3º ciclo, me apareceu com “Dentes de Rato”, para eu o ajudar na compreensão daquele livrinho de Agustina, num trabalho que tinha de apresentar na aula de Português. Nem os comentários de Mónica Baldaque, filha da autora, sobre a crítica a quem faz os programas de Língua Portuguesa, por escolherem “A Sibila” como obra a ser lida por jovens, que certamente, em vez de ficarem com apetência por ler e, especificamente Agustina Bessa-Luís, certamente irão ficar sem vontade de ler esta autora, no futuro.

Não quero ser injusta e fazer uma generalização abusiva, tanto mais que só li “As Pessoas Felizes” de Agustina. Mas, a partir do que li, considero uma leitura difícil, muitas vezes incompreensiva, que estilhaça o senso comum, a ordem previsível das coisas, repleta de aforismos. Uma leitura para ser feita lentamente, voltando muitas vezes atrás, tentando encontrar o fio à meada e muitas vezes não o encontrando… O facto de o livro fazer constantes referências a Anna Karenina e às suas personagens, livro que não li, e a Lev Tolstói e à sua vida, tornaram muitas vezes difícil de compreender algumas das páginas de “As Pessoas Felizes”. Como Isabel Rio Novo escreve em “O Poço e a Estrada” todos os livros de Agustina são biográficos, sem obedecerem a um plano, nascendo como um rio e, com efeito, descobri em Nel “estrela do paradoxo burguês” (p. 177) em “As Pessoas Felizes” muitas semelhanças com a vida de Agustina. Se não tivesse lido a biografia, teria tido mais dificuldade e menos interesse em chegar ao fim do livro.

“As Pessoas Felizes” foi escrito antes e depois do 25 de Abril e se só nas páginas finais do livro se sente que as personagens estão a viver a revolução e os choques nas relações entre as pessoas se intensificam, a verdade é que a autora quis, quanto a mim, mostrar que a pretensa concórdia e harmonia entre as pessoas é muito frágil e que o conflito e a separação das famílias são a norma. Nel, sendo mulher, não segue o padrão feminino tradicional, nem no matrimónio nem na maternidade, aliás tal como Agustina. A personalidade incomum da autora – “sou o que se chama conservadora”/ “sou uma pessoa tranquila, mas não conformada” – demarcando-se do feminismo, apoiou, contudo, o movimento pelo “Sim” à despenalização do aborto em 2007, aconselhava as jovens mães a não se deixarem prender na teia da maternidade e ela própria fez a escolha do homem com quem esteve casada durante 72 anos, saindo absolutamente dos cânones da época.

Em “As Pessoas Felizes” há uma crítica explícita à Mocidade Portuguesa, a Salazar como um moralista e uma pessoa obscura, uma crítica à educação sexual ou à ausência dela. Ou seja, sendo conservadora e de direita, Agustina era uma mulher insubmissa e com atitudes inusitadas e fora dos padrões da época e, embora haja neste seu livro mulheres sujeitas a “humilhações femininas” (p. 23), outras para além de Nel a personagem central, reflectem esse estilhaçar do senso comum que referi em parágrafo anterior. Nel que vai viver com os tios após a morte da mãe “detestou a gente grande. A gente grande era constituída por certo número de pessoas destinadas a lugares de mando ou dum servilismo prepotente. Gente feia, ocupada em coisas enfadonhas e intermináveis.” (págs. 47 e 48) “Nel tornou-se, na casa dos Carrancas, um autêntico pomo de discórdia” (p. 56). Nel era um problema para a tia Florinda “sobretudo porque ela não tinha, como as outras raparigas, o casamento como objectivo. Interessava-se pelos homens, de maneira apenas turística: frequentava-os, mas não pensava em habitá-los.” (p. 77) E quando, finalmente, Nel se casa, a prima atira-lhe estas palavras: “Casas-te porque é a única maneira de não andarem atrás de ti a fazerem-te perguntas obscenas. É chato. Querem saber que espécie de mulher tu és, se não tens cio, se és pela emancipação sexual, se tens a vagina estreita, se és lésbica, se tens o complexo de Édipo. Isto são palavras tuas, não acrescento nada, mas tens razão. É chato.” (p. 82)

Sendo geralmente vaga a localização temporal dos acontecimentos que não surgem numa ordem cronológica perceptível, há, no entanto, a referência a 1961 “ano em que deflagrou o terrorismo no Ultramar” (p. 151). “A culpa abriu-se no coração dos portugueses, e eles aguardaram que ela se transformasse numa medalha ou numa pensão de sangue ou num luto apenas.” (p. 152). “Essa juventude que vivia a guerra ou era neonaturalista ou contestatária. Uns cumpriam o seu tempo de selva e batiam-se não como mercenários, mas também sem o espírito de invulnerabilidade que estimulou o racismo europeu.(…) Outros emigravam. Indocumentados, mas em grande parte munidos duma protecção familiar que tornava o exílio uma aventura de estação. (p. 153)

Já vai longo este texto, mas gostaria de fazer aqui algumas transcrições de trechos em que é feita referência a “pessoas felizes”. 

“O que faz as pessoas felizes é não terem vida interior. A vida privada raramente coincide com a vida interior.” (p. 118)

“João Afonso Carranca costumava dizer que a generosidade não é própria dos ricos, mas dos felizes. Eram pois pessoas felizes, moderadas nas paixões e nos pensamentos, capazes de vencer preconceitos, para acudir a necessidades. Pois todo o extremo as desgosta e toda a justiça por demais assídua as acaba por descontentar.” (p. 172)  

E quando em 1971 uma série de calamidades caiu sobre a família dos Carrancas “As pessoas felizes desagregavam-se.” (p. 175)

Termino, repetindo que ler Agustina Bessa-Luís não foi fácil. Houve coisas que não percebi, mas nem por isso não deixei de chegar ao fim do livro que terminou na página 184, como podia ter terminado umas tantas páginas antes, quando o rio tivesse secado.

17 de Março de 2026

Almerinda Bento

quarta-feira, 8 de abril de 2026

"História do rei Transparente" de Rosa Montero

Fui para a Idade Média numa viagem maravilhosa com este livro! E que viagem esta!

A história é fantástica e com um começo brilhante que me agarrou logo no primeiro parágrafo. Senão vejam (coloco aqui só um pouquito):

"Sou mulher e escrevo. Sou plebeia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi na minha vida coisas maravilhosas. Fiz na minha vida coisas maravilhosas. Durante algum tempo o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou. A pena estremece entre os meus dedos cada vez que o arìete investe contra a porta. Um portão sólido de metal e madeira que não tardará em ficar em pedaços. Pesados e suados homens de ferro amontoam-se à entrada. Vêm buscar-nos."

E começamos assim a inteirarmo-nos da história de vida desta mulher (Leola) que adivinhamos cheia de carácter e força numa época em que as mulheres não tinham voz activa em nada. Com uma escrita fluída, intensa, a autora mistura ficção com a realidade histórica dessa época  e uma pitada de fantasia, tão leve que me pareceu plausível. Adorei tudo na verdade!

Leola faz-se passar por homem, disfarce mais ou menos conseguido consoante as situações por que passa. A sua vida sofre alterações tais que o leitor não se entedia mesmo quando as descrições sobre as guerras, lutas e confrontos o poderiam fazer.

Este livro é, também, sobre a liberdade, o papel da mulher, a intolerância, os vicíos que comandam as acções, sobre identidade. A personagem principal não é estática vai crescendo e é com gosto que vamos verificando que a sua personalidade sofre modificações.

O ritmo de leitura não é constante sendo que há partes lidas freneticamente e outras em que o leitor pode "descansar" porque são mais lentas. Embora possa parecer estranho, gostei disso também.

Recomendo muito esta leitura caso encontrem o livro porque creio estar esgotado. Há sempre a optima opção de ir dar um passeio a uma biblioteca...

Terminado em 23 de Fevereiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Considerado pela revista Qué Leer como o melhor romance espanhol de 2005.

Sob uma pele de ferro, o coração de Leola palpita por aventura, e a sua coragem leva-a numa turbulenta viagem rumo à liberdade.

Num tumultuoso século XII, Leola, uma camponesa adolescente, despe um guerreiro morto num campo de batalha e veste as suas roupas para se proteger sob um disfarce viril. Assim começa o vertiginoso e emocionante relato da sua vida, uma peripécia existencial que não é apenas de Leola mas também nossa, porque este romance de aventuras com ingredientes de fantástico fala-nos, na verdade, do mundo actual e do que todos nós somos.

A História do Rei Transparente é uma insólita viagem a uma Idade Média desconhecida, relatada de uma forma tão vívida que quase se consegue sentir na pele, uma fábula que comove pela sua grandeza épica. Original e poderoso, o novo romance de Rosa Montero tem essa força transbordante dos livros destinados a converterem-se em clássicos.

Cris

terça-feira, 7 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "A Promessa"

“A Promessa” - Silvina Ocampo, 2011

“Que livro estranho” foi o que pensei à medida que ia lendo “A Promessa”. Se não desisti e o li até ao fim, deveu-se ao facto de ter sido o livro escolhido para este mês pelo Leia Mulheres e ter interesse em conhecer a opinião das minhas companheiras e companheiros que se juntam uma vez por mês no Museu do Aljube - Resistência e Liberdade, sempre em torno de um livro escrito por uma mulher. Desta vez a argentina Silvina Ocampo. 

Também estranho o facto de o livro ter sido revisto, corrigido e concluído entre 1988 e 1989, depois de cerca de três décadas de reescritas constantes. Iniciada a escrita na década de 1960, anunciada a publicação para finais de 1966 e posteriormente para 1975, a revisão e finalização ocorre num período de grande fragilidade de Silvina Ocampo, a par do fim da protagonista. A autora caracterizou “A Promessa” como um “romance fantasmagórico” em que autora e narradora estão ligadas por um destino comum. 

Devota de Santa Rita, “a padroeira das causas impossíveis” (pág. 11) a narradora faz a promessa de escrever um livro, caso se salve do estúpido desastre que a leva a cair ao mar, sem que ninguém do navio onde seguia, se aperceba da sua queda. Segue-se um desfiar de pessoas que recorda, de histórias que envolvem essas pessoas e que ela não pára de contar, tentando não adormecer, sempre na esperança de poder ser salva, de o navio a poder vir resgatar. Com a perspectiva da morte certa, são muitas as personagens sobretudo ligadas à sua infância que lhe vêm à memória. Nomeia-as, dá-lhes os traços fisionómicos e de carácter que as tornam únicas, mostra os seus defeitos e virtudes, recorda com maior insistência Gabriela (Gabriel), Irene a mãe e Leandro, conta histórias caricatas que algumas protagonizam, sonha, revela o seu amor pelos animais porque são verdadeiros… No fim daquelas pequenas histórias e das personagens que ela traz, o mar está sempre presente, nomeadamente através de uma pequena frase ou período que nos situa a narradora e a sua condição de náufraga que vai resistindo, vai perdendo as forças e a consciência, até ao momento em que em vez de pessoas passa a recordar árvores e animais. “A água está fria, uma araucária ocupa o meu pensamento.” (pág. 98). “Morrerei depressa! Se morrer antes de terminar o que estou a escrever ninguém se lembrará de mim, nem sequer a pessoa que mais amei no mundo.” (pág. 99). “Mal sinto o bater do meu coração. Terei realmente um coração? Ou ter-se-á perdido na água do mar?” (pág. 100).

É sem dúvida um livro pungente, com destaque para os momentos de escrita poética em que a narradora fala do mar em que luta pela sobrevivência? Por que teria Silvana Ocampo levado tanto tempo a escrevê-lo? Por que deixou a parte final para o tempo que sabia que era o fim da sua vida? 

20 de Fevereiro de 2026 

Almerinda Bento

segunda-feira, 6 de abril de 2026

"Noite Sem Fim" de Agatha Christie

Não sou uma fã incondicional de Agatha Christie. E não tenho de ser, claro! Se ultimamente tenho lido mais livros dela é porque o faço em grupo e isso é o que acho o mais giro. Muitos comentários no grupo criado, sem spoilers, com muitos palpites também.

O livro, dizem os entendidos de AC, é bastante diferente dos outros. Há um narrador que nos conta a história na primeira pessoa. Neste caso é Michael, um jovem instável que não consegue manter um emprego, que não se dá com a mãe não se percebendo a razão, e cujo sonho é ser rico. 

Conhece Ellie, uma jovem herdeira de uma fortuna imensa e casam-se rapidamente sem que os seus familiares saibam disso. Pouco tempo depois Ellie morre. E as reviravoltas no final são muitas e espectaculares! O ambiente é sombrio, inquietante e mantém o mistério até ao final. Ter um narrador faz com que a leitura seja mais empolgante e que vejamos as situações com os seus olhos.  E é aí que está o busilis da questão... :)

Foi um das leituras de AC que mais gostei de fazer mas pouco posso acrescentar sem que com isso não faça spoiler. Assim fico-me por aqui. 

Terminado em 8 de Fevereiro de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
Infelizmente, a grande maioria das pessoas que decidem ir viver para o Terreno do Cigano está condenada a uma "noite sem fim", geralmente como resultado de um "acidente". Mas para os recém casados Michael e Ellie Rogers, aquele parece ser o lugar perfeito para começar uma vida a dois.
O casal decide ignorar os avisos sobre uma maldição mortal lançada sobre o terreno. É verdade que acontecem algumas coisas estranhas, mas isso são apenas inconvenientes e não uma maldição. Até que, um dia, ela vai andar a cavalo e não regressa…

Noite sem Fim (Endless Night) foi originalmente publicado em 1967 na Grã-Bretanha, tendo sido editado nos Estados Unidos no ano seguinte. Foi adaptado para o cinema em 1972, com Hayley Mills, Hywel Bennett e George Sanders nos principais papéis.

Cris

segunda-feira, 23 de março de 2026

"Partida" de Julian Barnes

Há autores que constituem um desafio para o leitor. E no meu caso Julian Barnes é um deles. 

Não é a escrita que constitui um desafio para mim porque ela é simples e lúcida, nada rebuscada nem complicada, mas os temas abordados. Já tinha começado um livro dele (Nada a temer) mas acabei por largá-lo. Creio que são livros para se ler devagar, para se estar concentrado e deixar o mundo lá fora.

Como é óbvio isso não quer dizer que a sua escrita constitua um desafio para outrém. Por saber que é tão admirado por tantos leitores quis muito pegar neste livro, neste que ele refere que é o seu livro de  despedida. 

Não estou por isso a colocar em causa a escrita deste autor. Como disse é uma escrita reflexiva, bonita, algo melancólica, que nos faz pensar. Escreve sobre a memória, menciona casos, fala de si também. O que fica por dizer com o decorrer dos dias, a solidão que acompanha as relações, o caminho que tem de se fazer sózinho, embora possamos estar acompanhados na nossa caminhada pela vida, o poder analisar o passado sem que não o possamos alterar, as separações que acontecem no percurso, o silêncio que se intromete nas relações. 

A morte física é presença difusa neste livro, bem como a sua doença. É referida como morte dos afectos, dos pequenos "eus" que morrem e se transformam durante toda a vida.

É uma leitura introspectiva para fazer sem pressa. Sem sentimentalismos, Barnes despede-se. 

Terminado em 31 de Janeiro de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse

A vida não é uma tragédia com um final feliz. Julian Barnes despede-se dos seus leitores.

Partindo da história de um casal de namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação, e que decide tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice e, inevitavelmente, a morte.

Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda, nem o sentido de humor neste balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira com um final triste».

Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas expressões da vida. E despede-se deles.

Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco».

«Uma despedida elegante de um escritor cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review

«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal

«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books

Cris

sexta-feira, 20 de março de 2026

"O Primeiro Amor" de Ivan Turguénev


Instado por amigos a contar o seu primeiro amor, Vladimir Petrovitch, prefere escrever. Escrevê-o. E recorda quando, com 16 anos, se foi apercebendo de novos vizinhos aquando a sua estada numa casa de campo nos arredores de Moscovo. Apaixona-se pela filha da vizinha, mais velha cinco anos

Novela curta, o primeiro amor é vivido como algo doloroso, quase uma perda da inocência e certamente da infãncia, onde a dor e o sofrimento começam a ter lugar na sua vida. Amor escondido que não é bem sucedido e que lhe traz situações caricatas dado o seu alheamento.

A descoberta duma realidade que não estava à espera e que vem abalar a estrutura familiar, coloca-o numa situação de sofrimento. Amor impossível. Logo depois das primeiras páginas imaginei e antecipei o que ia acontecer pelo que aqui tratou-se, no decorrer da leitura, de saber quando ia o protagonista descobrir e o que ia fazer com isso.

Pequeno e de leitura rápida, um mimo. O primeiro livro que leio deste autor russo. Gostei.

Terminado em 29 de Janeiro de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
O Primeiro Amor é uma narrativa sobre o amor adolescente. Voldemar, um jovem de dezasseis anos, apaixona-se pela filha do seu vizinho, a bela Zinaída, alguns anos mais velha que ele e a quem não faltam pretendentes. O leitor é arrastado pelas inconstantes emoções de Voldemar: exaltação, ciúme, desespero, ódio, renúncia e, de novo, devoção. No final, Voldemar sente-se destroçado ao descobrir a identidade do seu verdadeiro rival - uma revelação esmagadora, que, no entanto, lhe abre as portas para a compreensão dos abismos da paixão.

Cris

quarta-feira, 18 de março de 2026

"Como Animais" de Violaine Bérot

Há livros que nos tocam mais profundamente. Este foi um deles. É bom que nada leiam dele, como fiz, para serem surpreendidos como eu fui. Como tal tentarei nada revelar mas, ao mesmo tempo, explicar-vos como esta leitura foi especial para mim.

Foi a forma como a autora conseguiu contar esta história sem a ela se referir concretamente. Testemunhos captados de várias pessoas sobre certo assunto, sem que percebamos com quem elas estão a falar. Respondem a questões que lhes são colocadas e, assim, a história vai-se fazendo e compondo. Diversas percepções sobre um mesmo acontecimento.

É uma novela breve que se lê num ápice e o leitor vai compondo a história como um puzzle.

Fala-nos de como as pessoas que não correspondem ao "normal" podem ser estigmatizadas durante a sua vida, como podem ser mal compreendidas, fala-nos de preconceitos e lendas tributo de uma aldeia isolada. Preconceitos face à diferença, violência institucional, julgamentos sociais mas também sobre empatia e sensibilidade (visível em algumas personagens).

Gostei muito. Na verdade, adorei! Surpreendeu-me sobretudo como a história é contada, o que é dito por meias palavras, o que o leitor subentende...

Terminado em 28 de Janeiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
COMO ANIMAIS (2021), novela breve e magnética, emerge dos depoimentos dos habitantes de uma aldeia isolada nos Pirenéus, quando uma criança desconhecida é avistada numa gruta e a suspeição se abate sobre um deles, reavivando antigas lendas e mistérios. Desta polifonia se tece um conto da montanha, forte e ambicioso, sobre o direito à diferença, que revisita o tema da criança selvagem.

Um livro que se lê de um só fôlego e nos deixa uma duradoura pergunta: quando os que vivem pacificamente à margem da sociedade esbarram na incompreensão de um mundo cada vez mais desumano e alheado da natureza, quem são afinal os animais?

Cris

terça-feira, 17 de março de 2026

A convidada escolhe: "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”

“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” -Tiago Rodrigues, 2024

O título é suficientemente polémico, para se desejar ver a peça em palco, mas conseguir arranjar bilhetes antes que todas as sessões se esgotem? Li o texto dramatúrgico, li o extraordinário posfácio da autoria de Gonçalo Frota e voltei de novo ao texto, para o ler desta vez com mais atenção aos detalhes  sobre que se debruça o posfácio. 

Que grande texto de Tiago Rodrigues, que peça perturbadora e tão polémica esta “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.  Começado a ser construído a partir da ideia de uma família que se reúne anualmente para vingar a morte de Catarina Eufémia, símbolo das mortes de todas as mulheres, ainda com os ecos dos protestos das feministas pelo absurdo do acórdão do juiz Neto Moura que se baseia em citações da Bíblia e no Código Penal de 1886, a eleição do primeiro deputado do Chega em Outubro de 2019 foi o gatilho para o texto cuja apresentação pública estava prevista para meados de 2020. A leitura do posfácio ajuda-nos, leigos, a perceber a complexidade do trabalho de criação de texto e de montagem duma peça teatral, do método de trabalho de Tiago Rodrigues até ao momento da apresentação da peça ao público. Atento ao que se passa no mundo, sensível às ideias e propostas dos actores, rodeando-se de uma equipa que vai de historiadores, a músicos, a estilistas, bailarinos, há todo um trabalho colectivo de criação aberto a alterações e mudanças que podem ser radicalmente diferentes da ideia original. Quando a equipa de actores partiu para a residência artística em Motemor-o-Novo, na primeira semana de Março de 2020, estava longe de imaginar que a pandemia iria alterar definitivamente todo o calendário de trabalho previsto inicialmente. No entanto, em Montemor-o-Novo, o trabalho colectivo, as conversas informais, as ideias individuais, os momentos de lazer, tudo isso foi o combustível que permitiu criar um texto dramatúrgico praticamente finalizado. Com a entrada em cena da pandemia, a interdição de ensaios presenciais trouxe a frustração do trabalho à distância, em tudo contrário à dinâmica criada por Tiago Rodrigues. 

Eram muitas as dúvidas que se colocavam quando se fizeram os primeiros ensaios em Junho de 2020. “A pandemia roubou-nos a confiança de imaginarmos o futuro” (p. 181). A peça foi à cena pela primeira vez em Dezembro de 2020 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, seguindo depois para o Centro Cultural de Belém em Lisboa. A peça situa-se em 2028, no sul de Portugal, com um governo fascista. Em palco, encontra-se reunida a família descendente de uma ceifeira companheira de Catarina Eufémia que há 75 anos deixou uma carta como herança para a família, para que nunca cale a injustiça onde confessa: “Hoje matei um homem. Não o matei pelo mal que me fez, embora estivesse no meu direito. Matei-o pelo bem que não fez” (p. 42). Todas as personagens se chamam Catarina, excepto o fascista também em cena, o ideólogo do partido de extrema direita, raptado para ser morto por uma das mulheres da família. 

É uma peça que nos perturba. O que está ali em jogo: justiça ou vingança? Vale a pena continuar a apostar em eleições, em manifestações, em petições, ou a resposta ao ascenso do extremismo fascista tem de se combater com acções radicais? “Deve ou não dar-se a palavra a alguém que discursa contra o edifício democrático? Deve aceitar-se que tenha palco, que use a liberdade para falar sem censura ou, pelo contrário, ser silenciado?” (p. 222)

Se o texto é extremamente forte pelas questões que coloca, pelo carácter quase premonitório de um futuro governo liderado por fascistas, também alerta para os alçapões e fragilidades do sistema democrático que deram azo a que a desconfiança, o ressentimento e a raiva medrassem e dessem espaço ao discurso sedutor, simplista, manipulador e perigoso da extrema-direita. 

27 de Fevereiro de 2026 

Almerinda Bento 

segunda-feira, 16 de março de 2026

"O Mel Sem Abelhas" de Judite Canha Fernandes

Depois de ter ouvido falar muito bem desta obra, peguei nela com bastantes expectativas. Creio não ter lido ainda nada desta autora e estava bem na hora de o fazer.  O título tem a ver com uma expressão antiga que se refere à cana de açucar como os juncos que produzem mel sem abelhas, o que ignorava por completo. E gostei desse pormenor que desconhecia.

A narrativa é feita na primeira pessoa através de Marta, uma jovem raptada em Angola e feita escrava, levada a trabalhar na Ilha da Madeira, numa plantação de cana de açúcar. Com momentos muito explícitos de violência que impressionam o leitor, este livro é forte, cru e intenso nas descrições numa escrita sem cedências, facto que apreciei sobremaneira. Não custa ao leitor visualizar as situações extremas descritas e que, certamente, reproduzem com clareza os anos em que a Madeira foi palco de escravatura, ligada às plantações de açúcar, sobretudo entre os sec XV e XVI, segundo apurei.

Gostei especialmente do final. Uma forma perfeita de acabar uma história ficcionada baseada em factos reais. Uma forma inteligente de acabar uma história que não poderia ter um final feliz porque não traduziria verdadeiramente o passado.

Terminado em 20 de Janeiro de 2026

Estrelas: 5*

Sinopse

O Mel sem Abelhas, o mais recente romance de Judite Canha Fernandes, vencedora do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2018 com Um Passo Para Sul, é uma ficção histórica centrada na cultura da cana do açúcar na ilha da Madeira.

O seu título nasceu da expressão «Juncos que produzem mel sem abelhas», utilizada para designar a cana-de-açúcar, quando a encontraram pela primeira vez Índia, cerca do século v a. C.

A novela descreve a história de Marta, que chega à cidade do Funchal vinda de Angola no decorrer do século XVI, para trabalhar como escrava na cultura da cana.

Com o olhar do medo, acompanhado pelo fascínio do novo que se lhe apresenta na ilha, vê-se na necessidade de encontrar na cidade do Funchal alguma forma de abrigo e, simultaneamente, inventar um modo de voltar a casa.

Fruto de uma exaustiva investigação histórica e da afirmação de um talento literário singular já anunciado no seu primeiro romance, Judite Canha Fernandes traça a história da escravatura portuguesa e da sociedade colonial madeirense do século XVI açucareiro através voz de uma mulher escravizada, num romance profundamente original que é também um fresco de uma época e de uma condição social.

Cris

terça-feira, 10 de março de 2026

A Convidada escolhe: "Gaza está em toda a parte"

“Gaza está em toda a parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025

Conhecia Alexandra Lucas Coelho de ler no jornal “Público” as suas crónicas sobre o Brasil e Jerusalém, e também duma série que passou na televisão sobre livros, com um nome sugestivo “Volta ao Mundo em Cem Livros”. No entanto, nunca tinha lido nenhum livro escrito por ela e este ano não resisti na Feira do Livro de Lisboa a comprar o seu mais recente “Gaza Está em Toda a Parte”. 

É uma colectânea de textos com a força do conhecimento da realidade palestina, ligada ao seu vínculo afectivo e político com aquele povo. Constituída por crónicas e reportagens já publicadas, tem ainda alguns textos inéditos e um conjunto valioso de fotografias captadas antes e depois do 7 de Outubro. Embora a maior parte do livro seja formado por crónicas e reportagens sobre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia depois do 7 de Outubro, a introdução é um trabalho jornalístico publicado na revista Visão História de Julho de 2017, que corresponde à última vez que Alexandra Lucas Coelho esteve em Gaza (Maio de 2017). Através da reportagem então feita, a autora mostra que as dificuldades para a vida daquele povo não começaram com o 7 de Outubro.  Experienciou ela própria ao entrar na Faixa de Gaza, por Erez no norte, quer pelos check points montados por Israel quer pelo Hamas, que compara ao “… cenário de uma distopia altamente militarizada” (pág. 15). “Gaza é uma prisão” (pág. 33) e isso reflecte-se na saúde física e mental da população, maioritariamente jovem, sem emprego, sem futuro, com elevados níveis de suicídio. Desemprego, escassez de água, frequentes cortes de electricidade, na altura, para dois milhões de habitantes, apenas dois psiquiatras! Apesar de a Faixa de Gaza se estender ao longo de 40 quilómetros junto ao Mar Mediterrâneo, os pescadores apenas podem pescar até 6 milhas, sujeitos a ser abatidos pela armada israelita, caso ultrapassem esse limite.

Uma prisão, um gueto, uma ratoeira, um campo de concentração que passou a campo de extermínio depois de 7 de Outubro. A Nakba de 1948 que nunca deixou de existir, que obrigou milhões de palestinianos a viver como refugiados na Síria, no Líbano, no Egipto e um pouco por todo o mundo ao longo dos últimos 75 anos, intensificou-se com o 7 de Outubro. Impossibilitada de poder ir ao terreno para fazer o seu trabalho como jornalista, Alexandra Lucas Coelho contextualiza a situação através de crónicas entre Outubro e Novembro de 2023. Atónitos com a destruição que se vai vendo através da comunicação social e pelas redes sociais, o tempo corre enquanto assistimos às mortes e à destruição ao vivo, sem que o mundo dito dos direitos humanos, o mundo “ocidental” mexa uma palha. Guterres passou a persona non grata quando levantou a voz contra Netanyahu e disse que “… o 7 de Outubro não aconteceu no vazio”. A Europa, refém da culpa do holocausto, é incapaz de denunciar o governo de Israel pelos bombardeamentos, destruição maciça e deslocação forçada das populações para sul da faixa de Gaza. Netanyahu utiliza a experiência do holocausto sobre os judeus na 2ª Guerra Mundial como arma de arremesso e chama antissemita a qualquer um que se oponha à política de extermínio que o seu governo de extrema direita está a impor ao povo de Gaza, para além das incursões dos colonos israelitas no território da Cisjordânia. Ao contrário da cobardia dos governantes europeus, os povos começam a manifestar-se nas ruas para dizer que a Palestina tem direito a ser livre. Numa troca de mensagens com W., o amigo palestino de Alexandra, ele pedira-lhe que contasse o que se estava a passar em Gaza, ciente do poder da solidariedade e da força das ruas. 

Alexandra Lucas Coelho traz ao longo do livro inúmeros nomes e exemplos de heroicidade num tempo de desumanidade e horror. O médico de Al-Shifa que se recusou a deixar o hospital e a abandonar os doentes à sua sorte; o herói e líder nacional Marwan Barghouti, preso desde 2002 e condenado a prisão perpétua; os milhares de jovens e crianças presos arbitrariamente nas prisões israelitas e sujeitos a torturas atrozes; Ahmed Tobasi e o seu Freedom Theatre que faz do teatro a sua forma de resistência; os Tamimi e os habitantes duma pequena aldeia da Cisjordânia empenhados em defender a sua água e a câmara que Bilal usou para documentar e levar ao mundo através do canal de You Tube as incursões dos buldozers israelitas; as consequências de se ser objector de consciência e recusar o serviço militar obrigatório como é o caso da jovem israelita Sofia Orr, presa por ser considerada traidora. Embora sejam uma ínfima minoria os israelitas que defendam abertamente os direitos humanos ou que sejam antimilitaristas, a maioria, mesmo criticando Netanyahu, apenas lutam pelo regresso dos reféns na posse do Hamas, mas não têm uma postura de defesa dos direitos humanos do povo palestino. 

Entre Dezembro de 2023 e Janeiro de 2024 Alexandra Lucas Coelho esteve na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e Israel onde fez reportagens e tirou fotografias que constituem a segunda parte do livro. Documentou as dificuldades do quotidiano dos refugiados em Jenin, a “Pequena Gaza”, a constante presença dos drones israelitas e a arrogância dos colonos a expulsar os palestinos do seu território. A autora testemunhou em Belém o “Natal mais triste de sempre”, sem turistas, apenas com jornalistas e correspondentes, em que a artista Rana Bishara colocou uma incubadora com Jesus morto pelas bombas israelitas no exterior da Basílica da Natividade, para lembrar as crianças mortas que o mundo não quer ver. E em Telavive a praça mais triste de Israel com uma mesa vazia posta à espera dos reféns ainda na posse do Hamas e o piano de um dos reféns presos. Na altura já estavam contabilizados 79 jornalistas palestinianos mortos na Faixa de Gaza, um número imenso, tendo em conta que desde o 7 de Outubro nunca mais tinha sido possível a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza.

A terceira parte do livro é constituída por crónicas escritas entre Janeiro de 2024 e Março de 2025, altura em que “Gaza Está em Toda a Parte” vai para a gráfica. Longos meses em que a situação se agrava para os palestinos em Gaza e na Cisjordânia. A UNRWA agência para os refugiados palestinianos criada pela ONU em 1949 e que era um apoio indispensável para muitos palestinianos é extinta. A ajuda externa é impedida e a fome, a doença e a subnutrição de toda uma população chegam-nos diariamente pelos telejornais. A 2 de Fevereiro, na última mensagem de W. para a autora, ele escreve: “O meu povo hospitaleiro e decente tornou-se mendigo ou ladrão. Fomos privados de tudo, até da nossa humanidade”. (pág. 384). E R. o intérprete que Alexandra conhecera em 2017 usa a palavra ““pedintes” entre aspas, como se nem suportasse outra forma.” (pág. 384) Vozes fortes como a de Guterres e de Lula, Francesca Albanese ou Jorge Borrell, governos que se destacam como o de Espanha ou da Irlanda quebram o silêncio da maioria dos governantes da União Europeia subjugados à desumanidade do governo sionista de Netanyahu. A repressão sobre jovens manifestantes universitários nos EUA, em França e na Alemanha faz emergir cada vez de forma mais clara uma geração de jovens que se mobilizam pela defesa do futuro do planeta e pela defesa da paz no mundo. Apesar de o peso da direita e da extrema direita se acentuar em Israel e de os pró-Palestina serem uma ínfima minoria, a mais importante associação de direitos humanos israelita divulga um relatório arrasador com relatos de torturas a mando da dupla Ben-Gvir/Smotrich, para quem os palestinos não são gente, tal como para os nazis os judeus eram untermensch. Igualmente, Lee Mordechai, um historiador israelita documentou no relatório Bearing Witness to the Israel-Gaza War informação factual sobre o que se passa em Gaza. “Considera o ataque do Hamas e outros grupos a 7 de Outubro uma atrocidade. Tal como considera a resposta de Israel um genocídio, e no fim explica porquê.”  (pág. 489)

Nos EUA, Biden e Kamala Harris preparam as eleições e ignoram Gaza, não usam sequer os seus discursos para dar voz e denunciar o genocídio. A hipocrisia é tal que ao mesmo tempo que se fala em cessar fogo se enviam milhões em armamento para Israel. E tudo piorou ainda mais com a eleição de Trump. Na noite em que se anuncia o cessar fogo (Janeiro de 2025) são mortos 81 palestinianos. Tal como hoje, no final do ano de 2025, tenta-se normalizar o genocídio, como bem disse a Relatora Especial da ONU Francesca Albanese. Somos confrontados diariamente com projectos e discursos obscenos sobre o futuro da faixa de Gaza, como a dita Riviera do Médio Oriente. Há muitos anos Hannah Arendt afirmou que “a morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie”. 

Estou a escrever este breve texto sobre um livro imperdível, ao mesmo tempo que no meu computador surgem mensagens com votos de um Feliz Ano Novo. É com pessimismo que prevejo os acontecimentos de 2026, mas tento reter as palavras de Alexandra Lucas Coelho : “Mas o pessimismo é um luxo, os palestinianos não se dão a ele. Estão ocupados a tentar não morrer.” (pág. 474)

28 de Dezembro de 2025 

Almerinda Bento

segunda-feira, 9 de março de 2026

"Hamnet" de Maggie O'Farrell

Tenho livros muito bons, creio eu, por ler e às vezes é só necessário um pequeno impulso para pegar neles. Foi o caso deste livro! Recebi um convite para ver a ante-estreia e, como prefiro ler primeiro o livro e ver depois o filme nele baseado, peguei de imediato e comecei a ler.

Que boa que foi esta leitura! Baseando-se na morte do filho de Shakespeare aos 11 anos (provavelmente vítima da peste bubónica) e da qual pouco se sabe, a autora elaborou um romance tendo como foco, sobretudo, uma personagem feminina forte, determinada, com um quê de rebeldia, não muito compreendida pelos habitantes de Stratford-upon-Avon dado a sua ligação à natureza e a um certo misticismo: a mãe do filho falecido, Agnes. Note-se que Shakespeare nunca é mencionado como tal, é sempre referido como o pai, o marido, o filho... 

 Passado e presente intercalados nos finais do sec XVI, o luto, a perda e a memória e as suas repercussões no seio de uma família, personagens fortes, escrita rica, um romance que custa a largar.

Sei de opiniões diametralmente opostas a esta por isso experimentem e deixem-se conquistar. Digam alguma coisa se o lerem ou tiverem já lido. 

O filme está, a meu ver, muito bem "esgalhado". Bons actores, bons cenários. Quem tiver lido o livro antes, mais facilmente consegue identificar as situações e as personagens. 

Uma maravilha. Adorei!

Terminado em 14 de Janeiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse 
Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O’Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade. Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI.

Cris