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segunda-feira, 23 de maio de 2022

"Uma Vida Entre Marés" de José Rodrigues

Não me lembro de ter lido nenhum dos anteriores livros deste autor muito embora conheça bem as suas capas porque gostei muito do facto de serem a preto e branco, característica que lhes deu um toque muito especial, a meu ver. Daí que, sou sincera, esta capa não me encheu as medidas. Gostaria que tivesse seguido a orientação das outras mas a editora lá terá as suas razões... provavelmente o público a quem é dirigido este romance ficará mais atraído por uma capa mais colorida. Confesso que achei as outras mais sóbrias.

Mas voltando ao que interessa que é precisamente o conteúdo, não é? 

Sofia criou a filha sózinha. Um passado duro liga-a ao pai dessa menina que ama mais que a sua vida. Quando esse pai reaparece e tenta reaproximar-se, Sofia luta para que a filha, sem a desilusão que teme acontecer, se aproxime e se ligue a um pai que desconhece. Só o amor verdadeiro a um filho consegue fazer ultrapassar o ciúme que sente ao ver a menina a aproximar-se e a gostar cada vez mais dele! Perguntei-me muitas vezes, durante esta leitura, se teria sido a atitude mais acertada o facto da mãe ter escondido sempre o passado tumultuoso e grave por que passou. Não creio! Conforme as idades, as crianças estão prontas a receber a informação necessária e a processá-la. 

Romance com uma escrita escorreita e que se lê muito rapidamente. Embora a temática possa parecer dura é um romance leve, algo previsível no seu final. Sentimos que vai dar tudo certo depois da tempestade. Considero-o um livro perfeito para uma ida à praia numa tarde de calor.

Terminado em 8 de Maio de 2022

Estrelas: 4 -

Sinopse

Num quotidiano sem sobressaltos, Sofia divide o seu tempo entre a vida profissional e a dedicação a Leonor, a filha adolescente. Quando Edgar, ex-marido de Sofia e pai de Leonor, reaparece determinado a reconquistar o coração da filha, regressam também os fantasmas do passado, marcados pelo vício do jogo e pela consequente perda de tudo o que Sofia herdara dos pais. Entre o passado feliz vivido à beira-mar e o presente que ameaça a paz entretanto reencontrada, Sofia depara-se com uma nova e dolorosa luta pela felicidade. No momento em que as forças ameaçam faltar, o mar parece querer devolver-lhe o mundo perfeito da sua juventude, quando a amizade e o amor se uniam de forma intensa, muito antes da chegada de Edgar à sua vida…

Um romance comovente, ilustrado pela inspiração fotográfica de Sara Augusto.

Cris

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Para os Mais Pequeninos: "O Dia Em Que Chegaste"


Que livro bonito este! 

De uma forma subtil traduz por palavras e ilustrações a espera ansiosa e a grande vontade de um casal receber um filho. Um filho adoptado, um filho do coração que não sabiam quem seria, como seria mas que já esperavam com muito amor! Prepararam o quarto, brinquedos e sonhavam com a sua chegada! Até que esse dia maravilhoso chegou!

Um livro com poucas palavras, frases curtas mas muito expressivas e fortes. Bem como as imagens! Capa sugestiva e linda! Gostei muito e os vossos pequeninos também vão gostar, de certeza.

Um bom pretexto para lhes falarem dos filhos do coração.

 

 
 


Cris

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Experiências na Cozinha: Diário de Cozinha - Receitas Veganas


Uma óptima sugestão para quem quer, pelo menos, reduzir o consumo de carne. A Moussaka Vegan que hoje vos trazemos estava deliciosa. O aspecto é o que se pode ver, o sabor e o cheirinho só fazendo... Por isso mãos à obra! As lentilhas usadas foram as castanhas mas podem experimentar com as rosa também, lembrando que estas ao não possuírem as cascas são de mais fácil cozedura.
Deixem-se tentar e experimentem comer um dia na semana um prato vegetariano.



 



 

Palmira e Cris

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Experiências na Cozinha: Cozinhar em Mindfulness By Natália


Já há muito que não vos trazíamos uma receitinha boa! Esta, hoje, é dedicada a quem deseja introduzir um alimento pouco usual na alimentação habitual, as algas.

Devemos consumir algas com alguma regularidade porque possuem muitos minerais mas, como tudo, devem ser consumidas com moderação e em pouca quantidade de cada vez. Têm acção no sistema circulatório e linfático e ajudam na digestão. Sabem que se colocarem um pouco de alga kombu na água de demolhar e na de cozer as leguminosas, ajuda a evitar os gazes que normalmente provocam?

Às vezes o sabor não agrada a todos porque é muito forte (e a alga hiziki tem-no). A solução é fazer um estufado com o toque final da raspa do limão, como na receita que vos trazemos.

Brevemente traremos mais receitas com algas para experimentarem, se vos apetecer.

Ficam então as fotos e a receita:

 

Palmira e Cris

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Resultado do Passatempo Mensal "Toca a Comentar"

Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Abril.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionado uma vencedora! Foi ela:

Ryk@rdo

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 25, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:

 
Cris
 

terça-feira, 10 de maio de 2022

"Independência - Terra Alta II" de Javier Cercas

Este é a sequela do livro de Javier Cercas, "Terra Alta", um policial que foge aos estereótipos habituais e que, por essa razão, gostei muito de ler. A minha opinião aqui.

Melchor, como referi, não é como os outros polícias que estou habituada a ver caracterizados nos (poucos) policiais que leio. Tem duas facetas que, nele, coabitam admiravelmente. O leitor não estranha que seja um pai carinhoso, que goste de ler para si e para a filha, amigo do seu amigo, que cumpre a lei e a ordem. E depois há todo um lado de "vingador", movido pelo seu passado muito pouco ortodoxo, que nos desconcerta como leitores mas que nos dá, simultaneamente, um intimo prazer descobrir. Os métodos usados por este polícia não são os politicamente corretos mas são sim os que nos dão mais gozo ler!

Fiquei com vontade de ler "Os Miseráveis" de Vitor Hugo, tais são as vezes referidas nesta obra. Júlio Verne e Eça de Queiróz também aparecem referidos como autores preferidos deste polícia tão singular.

Terminado a 7 de Maio de 2022

Estrelas: 5*

Sinopse

Como enfrentar quem na sombra maneja o poder? Como vingar-se de quem tanto mal lhe fez? Volta Melchor Marín. E volta a Barcelona, aonde foi chamado para investigar um caso delicado: a presidente da Câmara está a ser chantageada com um vídeo sexual. Com um sentido inflexível de justiça e uma integridade moral inabalável, Melchor deverá desmontar uma extorsão cujas intenções não são claras. Para tal, terá de penetrar no mais fundo dos círculos do poder, onde reinam o cinismo, a ambição sem escrúpulos e a brutalidade da corrupção. E é nesse palco que este romance absorvente e selvagem, povoado de personagens memoráveis, se converte num retrato demolidor da elite político-económica de Barcelona, mas, sobretudo, num poderoso grito contra a tirania dos detentores do dinheiro e os amos do mundo.

Cris

segunda-feira, 9 de maio de 2022

"A rapariga de Java" de Pramoedya Ananta Toer

Sabem quando um livro vos está a custar a ler mas que há algo que vos impele a continuar? Um bichinho chamado curiosidade que vos impele a virar as páginas?

Estranhei muito a sua trama. Estranhei alguns diálogos, não os entendi. Mas tinha lido na badana do livro que o autor foi preso político da Indonésia, que escreveu grande parte da sua obra na prisão, obra essa proibida no seu país, e que era muito aclamado fora do seu país. Claro que fui googlar para saber mais sobre estas ilhas, antigas colónias da Holanda, e as relações existentes entre colonizados e colonizadores.

Isso manteve-me presa. Fiz bem em continuar.

Um casamento arranjado entre uma bela rapariga de 14 anos de uma aldeia piscatória pobre com um nobre é o ponto de partida. É um mundo diferente que ela tem de enfrentar, com regras que não compreende, com poucos benefícios. As relações de poder resultantes das diferenças de classe e de sexo são devastadoras e um pouco incompreensíveis para quem lê. Um mundo diferente. 

A injustiça é fortemente tratada e relatada pelo autor e é um sentimento que permanece latente tanto na personagem principal, a Rapariga de Java (que nunca surge com outro nome que não este) como no leitor. Permanece latente até que rebenta e somos inundados por esse sentimento para o qual não temos remédio. Nem a Rapariga de Java.

Adorei as ultimas páginas. Mudou tanto o meu sentir sobre este livro! Não vos conto mas a revelação  que o autor faz é... 😀

Terminado em 3 de Maio de 2022

Estrelas: 4*

Sinopse

É a primeira obra de ficção publicada em Portugal de Pramoedya Ananta Toer, depois de Solilóquio Mudo, um conjunto de textos de memórias escrito durante os anos de prisão. O casamento arranjado entre uma adolescente de 14 anos e um aristocrata javanês é o ponto de partida para uma longa e dolorosa caminhada de amadurecimento. A integração no meio aristocrático vai dilacerando lentamente o espírito rebelde e independente daquela jovem que, apesar de tudo, se vai apercebendo de que os aristocratas são, afinal, tão empobrecidos, oprimidos e grosseiros como os outros.

A Rapariga de Java é um romance que nos comove e inspira não só pela celebração daquilo que é simples e genuíno como por uma história profundamente enraizada nos problemas políticos e sociais da Indonésia, explorando as relações de poder entre as classes e os sexos.

Cris

sexta-feira, 6 de maio de 2022

"Quando a Noite Cai" de Laurent Petitmangin

Queria verdadeiramente que este livro não tivesse terminado tão de repente. Bem sabia eu que faltava muito pouco (uma página apenas!), mas fui apanhada, mais uma vez, por esta técnica, o factor surpresa, que me deixou sem chão muitas vezes durante esta estória.

E digo "mais uma vez" porque o autor a utiliza diversas vezes durante o decorrer da trama. Passo a explicar: subitamente, quer no decorrer de uma frase quer na mudança de capítulo, a acção muda de repente. O sentido do que estávamos a ler altera-se profunda e drasticamente. Numa pequena frase, o contexto muda. Confesso que adorei isso. Disse várias vezes durante a leitura: "Ah, mas afinal ..."

Ainda não acredito que este livro seja a primeira obra deste autor! Está perfeito! É de uma sensibilidade extrema, de uma delicadeza e profundidade tal nos temas tratados, que nos conduz, literalmente, pelos caminhos do enredo conforme os seus desejos sem que possamos ousar querer outra coisa.

Muito intenso, revelador de sentimentos extremos por parte dos personagens, sobretudo do narrador, um pai, viúvo, que tenta criar dois filhos, dando-lhes o melhor que consegue e sabe. Entre o amor, a raiva, a cólera, a vergonha que este pai sente ao contar-nos os acontecimentos que marcaram as suas vidas, ele acaba por revelar os segredos mais profundos da sua família e revelar-se também. A dor, a perda, o amor envergonhado que une estes três seres, as provas que superam. 

Como pano de fundo "temos" uma França, não muito longínqua, onde militantes de partidos de extrema direita e de extrema esquerda chegam ao confronto físico.

Um livro tão pequeno mas que nos enche tanto! Recomendo sem reservas! Nada leva o leitor a esperar uma intensidade tão grande nesta narrativa, tanto mais que esta começa de mansinho, levemente.

Terminado em 27 de Abril de 2022

Estrelas: 6*

Sinopse

Esta é a história de um pai que perdeu a mulher e que dá o melhor de si para criar os seus dois filhos sozinho. Os anos passam e os rapazes crescem. Fazem as suas escolhas, aquilo que é importante para eles. Os homens em que se vão tornar. Agem como homens e, no entanto, continuam a ser crianças. Esta é uma história de família e de convicções, de escolhas e de sentimentos comprometidos. Um mergulho no coração de três homens. Num mundo que ressoa por vezes de tanto ódio e tanta incompreensão, como abraçar um filho que guarda dentro de si estes sentimentos?
Num primeiro romance deslumbrante, Laurent Petitmangin desfia com infinita sensibilidade e delicadeza a linha dos destinos destes homens em formação.

Cris

quarta-feira, 4 de maio de 2022

"É Tempo de Reacender as Estrelas" de Virginie Grimaldi

Confesso que fui apanhada de surpresa por esta história. Esperava-a leve, ligeira. Era isso que me apetecia ler. E é-o em grande parte mas é tão mais que isso!

Possui um humor que me encantou, que me fez sorrir amiúde com frases muito cómicas, bem pensadas e certeiras. Para além desta leveza que procurava, começaram a surgir temas mais fortes, sérios ecom os quais nos identificamos e que imprimiram um ritmo acelerado à leitura. Capítulos curtos, três narradoras que se vão dando a conhecer.

Uma mãe e suas duas filhas, uma vida de trabalho, dura, dívidas que crescem como uma bolinha de neve. Desemprego. Quando a vida nos empurra para um precipício e quando queremos alterar comportamentos e atitudes, que fazer? Que priorizar? Uma viagem numa autocaravana, tempo para ver, reparar nas belezas naturais, mas sobretudo tempo para estar com a família, saber estar, saber ouvir, saber amar.

Um livro que me surpreendeu muito! Uma amiga associou-o aos livros de Frederik Backman pelos comentários que eu ia fazendo aquando da leitura. E não é que achei que tinha razão? Um tema aparentemente tratado com ligeireza mas que aborda assuntos actuais, sérios. Frases que nos prendem e que nos fazem pensar ao mesmo tempo que somos bombardeados com um humor muito peculiar que nos faz sorrir.

Gostei tanto deste livro! Que boa surpresa foi! 

Dica que vos deixo: vão acompanhando a viagem que esta família vai fazendo com o Google Maps, por exemplo, e assim podem admirar e ficar a conhecer cantinhos deste nosso mundo verdadeiramente maravilhosos, cheios de beleza.

Terminado em 25 de Abril de 2022

Estrelas: 6*

Sinopse

Anna, Chloé, Lily. Três mulheres, três gerações, três vozes que dialogam. Uma história plena de humor, amor e humanidade, que nos faz querer dizer aos nossos entes queridos que os amamos.

No dia em que tudo desmorona sobre ela, Anna percebe que está prestes a perder o que mais ama no mundo e pelo qual suportou o cansaço e a frustração: as filhas. Superando medos e ataques de pânico, toma uma decisão louca e imprudente: mete-se com as filhas numa autocaravana e parte numa viagem para a Escandinávia. É o início de uma aventura cheia de surpresas hilariantes e encontros comoventes, um corpo a corpo que verá mãe e filhas colidirem no presente e discutirem os segredos do passado, para depois aprenderem a conhecer-se e a ouvir-se.

Cris 

segunda-feira, 2 de maio de 2022

"Mulheres de Sal" de Gabriela Garcia

"Nem as melhores mães do mundo conseguem sempre salvar as suas filhas" lê-se no verso da capa deste livro. Tanta verdade contida aqui. 

Este livro é sobre mulheres, várias gerações, várias histórias. Mas não é dirigido somente às mulheres. Quem não tem uma nas suas vidas? Uma mãe, uma filha, uma companheira, uma amiga.

Mães e filhas, várias histórias de (e)migração ilegal, violência, drogas, de algumas mulheres unidas por laços familiares, pedaços de um puzzle que se vai completando e unindo com o decorrer da leitura.

A trama decorre em espaços temporais diferentes bem como em vários países:  México, Cuba, El Salvador e EUA. Sabiamente, para que o leitor não se perca, uma árvore  genealógica surge logo nas primeiras páginas, onde fui acrescentando datas e lugares conforme a ia consultando.

Um livro de poucas páginas mas com um conteúdo forte, duro e muito actual. 

Terminado a 21 de Abril de 2022

Estrelas: 5*

Sinopse

Na Miami do presente, Jeanette luta contra o vício. Filha de Carmen, uma imigrante cubana, está determinada em saber mais sobre a história da sua família e toma a decisão imprudente de acolher a filha de uma vizinha levada pelo Departamento de Imigração. Carmen, ainda a lutar com o trauma da mudança, tem de processar a relação difícil que tem com a sua própria mãe enquanto tenta criar uma Jeanette rebelde.
Firme na sua busca por respostas, Jeanette viaja para Cuba para encontrar a avó e desvendar os segredos do passado.

Desde as fábricas de tabaco do século XIX aos centros de detenção atuais, de Cuba ao México, Mulheres de Sal de Gabriela Garcia são um caleidoscópio de traições - pessoais e políticas, autoimpostas e infligidas por outros - que moldaram a vida destas mulheres extraordinárias. Uma reflexão assombrosa sobre as escolhas das mães, o legado das memórias que carregam e a tenacidade das mulheres que escolhem contar as suas histórias apesar de tentarem silenciá-las. Este é mais do que um livro sobre diáspora, é a história das raízes humanas mais emaranhadas e honestas da América.

Cris

A Convidada escolhe: "Maria Stuart"

Maria Stuart, Stefan Zweig, 1935

Em 2018, li quatro contos de Stefan Zweig, por ocasião de uma das sessões do Clube de Leitura da Livraria Bertrand do Chiado em que fomos convidas/os a descobrir a obra deste autor austríaco. Fiquei tão entusiasmada com a capacidade do autor de analisar as personagens, que na altura decidi que no futuro havia de ler uma das diversas biografias que Zweig escreveu. Há pouco “tropecei” neste “Maria Stuart” num leilão online de livros duma alfarrabista e logo não hesitei em comprar uma 9ª edição de 1961, da Livraria Civilização, com tradução de Alice Ogando.

No breve prefácio, o autor chama a atenção para o facto de a rainha Maria Stuart ser porventura aquela que é objecto de leituras e interpretações mais contraditórias, de acordo com quem as faz, sua origem, religião, corrente ou concepção social. Sendo esta biografia baseada em documentos, quis o escritor “ser mais objectivo e abordar esta tragédia com toda a paixão, mas com toda a imparcialidade de artista. (…) E por muito prudente que se possa ser na escolha, o historiador será obrigado, muito honestamente, a acompanhar a sua opinião com um ponto de interrogação e de confessar que este ou aquele acto da vida de Maria Stuart ficou obscuro e ficá-lo-á provàvelmente para sempre.”

O que posso dizer desta biografia, agora que terminei a sua leitura? É extraordinária. E com vontade de em breve ler “Maria Antonieta” do mesmo autor, a qual já antes me foi aconselhada. E, embora isto seja mais difícil, com vontade de voltar a Edimburgo e olhar para o palácio de Holyrood e o imponente castelo com outros olhos, lembrando aquela que “com seis dias foi rainha da Escócia, com seis anos noiva do príncipe mais poderoso da Europa , com dezassete anos rainha de França” (pág.41), aos dezoito viúva, rainha da Escócia e herdeira legítima da coroa de Inglaterra, embora tenha tido sempre a barreira intransponível de Isabel que nunca lha concedeu. 45 anos duma vida aventurosa que Stefan Zweig vai, ao longo de cerca de quatrocentos páginas narrando, de forma rigorosa, com uma riqueza e profundidade na análise psicológica das personagens, estabelecendo com o leitor um diálogo fluido e claro.

Período conturbado da história europeia aquele século XVI. As potências digladiavam-se ambicionando aumentar o seu poderio. A Reforma e a Contra-Reforma jogavam os seus peões e estendiam a sua influência. Os casamentos combinados das crianças que viriam a ser os futuros reis e rainhas eram a moeda dos negócios das potências de então. Os espiões, traidores, intriguistas enxameavam a corte num ambiente que podia ir das cartas melosas e dissimuladas, mas cheias de alçapões, até aos cativeiros sem fim mas sem serem cruéis, mas também aos envenenamentos ou às mortes brutais com o punhal ou com o machado do carrasco, qual espectáculo para gáudio do povo. Shakespeare só teve de usar o seu génio para criar as suas personagens trágicas a partir das personagens de carne e osso do tempo em que viveu.

No centro da biografia de “Maria Stuart”, para além da jovem despreocupada, culta, apaixonada, impetuosa, sedutora, destemida, corajosa, arrogante e que escolhe morrer como mártir pelas suas convicções religiosas, todo o drama da vida de Maria gira em torno do facto de ser a herdeira legítima da coroa de Inglaterra. Para Isabel, filha de Henrique VIII e de Ana Bolena, declarada bastarda em vida do pai, mas rainha de Inglaterra por morte da meia-irmã Maria, a existência da prima Maria Stuart foi sempre um perigo e um obstáculo de que se quis livrar com receio de que a coroa de Inglaterra lhe fosse retirada. Ao longo de vinte e cinco anos, Isabel fez da recusa do contacto, do fingimento, da ambiguidade e da falsidade na sua relação com a prima, a quem tratava por “sua irmã”, as armas que usou como escudo para a fragilidade da sua ascendência.

O livro é verdadeiramente maravilhoso, numa narrativa marcada por períodos decisivos da vida da rainha Maria Stuart com indicações precisas de datas relevantes, sendo as descrições de um escritor de elevada qualidade. Destaco o penúltimo parágrafo – No meu fim está o meu começo (8 de Fevereiro de 1587) – o mais dramático e o mais visual, referente às últimas horas de Maria Stuart antes de subir ao cadafalso até ao momento em que o carrasco desfere os três golpes que concluem a decapitação de uma mulher que não vergou. “Agora, pouco mais tem que fazer. Inclina a cabeça sobre o cepo, que abraça com os dois braços. Até ao último momento, Maria Stuart conserva a sua grandeza de rainha. Nenhuma das suas palavras, nenhum dos seus gestos exprimem medo. A filha dos Stuart, dos Tudor, dos Guise preparou-se para morrer dignamente.” (pág.381).

27 de Abril de 2022

Almerinda Bento