Gosta deste blog? Então siga-me...

Também estamos no Facebook e Twitter

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Regresso a Reims

 Regresso a Reims” – Didier Eribon, 2009

Parece que os clubes de leitura estão a surgir um pouco por todo o lado e isso é bom. Porque, além de podermos partilhar impressões e visões sobre aquilo que lemos e que nos liga periodicamente, estes espaços permitem-nos criar novas amizades e descobrir livros que, possivelmente, nunca teriam feito parte da nossa lista de livros a ler. É o que se passou com “Regresso a Reims” de Didier Eribon, filósofo e sociólogo francês, um ano mais novo do que eu. O não ter nenhuma referência do autor e o facto de a capa do livro ser pouco apelativa, dificilmente me teriam levado a comprar este livro, se não fosse por sugestão do “Ler à Esquerda”.

Sendo uma autoficção sobre o autor e sobre a sociedade francesa em que ele e a família se inserem, o livro permite-nos também olhar para a realidade portuguesa agora, com o crescimento e visibilização agressiva da extrema direita e do conservadorismo, ocorridos há algumas décadas atrás em França com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen. Desde logo este livro trouxe-me à lembrança Annie Ernaux e o seu característico recurso às fotografias de família para nos situar nos diferentes momentos da(s) história(s).

Após 20 anos de ausência, numa necessidade de fuga do seu meio social e familiar de origem, este regresso a Reims de Didier Eribon após a morte do pai, é uma reconciliação com a mãe e também consigo próprio. Oriundo de uma família muito pobre, para a qual estudar estava fora de questão e que carregava o preconceito para com o intelectual, a descoberta da cultura, a escolha entre resistir ou submeter-se ao determinismo social que o levaria a não sair dos seus limites de classe, assim como decidir assumir a sua orientação sexual, foram processos nada fáceis nem lineares. “É preciso ter passado, como foi o meu caso, de um lado para o outro lado da linha de demarcação para escapar à lógica implacável do óbvio e ter a perceção da terrível injustiça dessa distribuição inigualitária das oportunidades e dos possíveis” (pág. 45). Visto pela família como “excêntrico”, “não-normal”, “estranho”, “bizarro”, por causa das suas leituras, actividades políticas e atitudes (pág. 83), os estudos e a sua sexualidade afastam-no da família e de Reims, “a cidade do insulto” (pág. 187).

Um aspecto muito relevante, analisado na terceira parte do livro, é o fenómeno político que consistiu na mudança de voto de parte significativa da classe operária francesa anteriormente comunista para o voto na direita e na extrema-direita. Didier Eribon analisa a erosão do PCF, a incapacidade de aceitar os movimentos sociais emergentes, a desilusão dos meios operários que se sentiram traídos por um governo com participação dos comunistas, com uma esquerda socialista cada vez mais a virar-se para a direita, assumindo uma linguagem de governantes e já não de governados. A anterior dicotomia “operários/burgueses” passa a ser substituída por “franceses/estrangeiros”; a “classe operária” e os “operários” desaparecem do discurso político; o “senso comum” aprofunda-se: já não é o/a operário/a ou o homem/mulher de esquerda, substituídos pelo “francês”. O racismo entranhado na classe operária vira-se contra os imigrantes, acusados de “roubarem” os empregos e as prestações sociais devidas aos “nacionais”. De notar a persistência desse discurso anti-imigrantes dos anos 80 em França e que encontramos nos anos 20 do século XXI disseminado na Europa e na boca e nas palavras de ordem da extrema direita portuguesa. Em conversa com o autor, a mãe explica que o seu voto na Frente Nacional foi “para expressar um protesto porque as coisas não estavam bem” (pág. 122), rematando que “A esquerda, a direita, não há nenhuma diferença, são todos iguais e são sempre os mesmos que pagam” (pág. 120). A impotência transforma-se em raiva e faz alterar radicalmente o voto anteriormente de esquerda para a direita e extrema direita.

Didier Eribon cita Sartre e Beauvoir como referências fundamentais no seu percurso e no seu pensamento, assim como Foucault que biografou. Sendo Paris a cidade para onde partiu para viver plenamente a sua homossexualidade e a Sorbonne onde encontrou excelentes professores em contraponto ao “marasmo desmobilizador e desmoralizador”(pág. 173) existente em Reims, foi, no entanto, Reims a cidade onde se “construiu como gay” (pág. 195).

O orgulho de se assumir é político, “visto que desafia os mecanismos mais profundos da normalidade e da normatividade” (…) “Estamos sempre em equilíbrio instável entre o significado ofensivo da palavra injuriosa e a sua reapropriação orgulhosa. Nunca se é totalmente livre, nunca se está libertado” (pág. 211). “a “subversão” absoluta não existe, tal como não existe a absoluta “emancipação”. E quase a terminar, cita Sartre: “O importante não é o que fazem de nós, mas o que nós próprios fazemos daquilo que fizeram de nós”. (pág. 212). E conclui: “No fundo, estava marcado por dois vereditos sociais: um veredito de classe e um veredito sexual. Nunca é possível escapar às sentenças assim proferidas. E eu trago em mim as marcas desses dois vereditos. Mas uma vez que eles entraram em conflito um com o outro em dado momento da minha vida, tive de me moldar a mim próprio voltando-os um contra o outro.” (pág. 213).

Um livro actualíssimo. Indispensável.

25 de Novembro de 2025 

Almerinda Bento 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Notas sobre um Naufrágio

 Notas sobre um Naufrágio” – Davide Enia, 2017

Em nota na badana deste livro traduzido por Tânia Ganho, ela refere que este livro lhe foi sugerido por uma amiga italiana, depois de Tânia Ganho lhe ter recomendado “Um Muro no Meio do Caminho de Julieta Monginho. (https://almerindaagridoce.blogs.sapo.pt/um-muro-no-meio-do-caminho-julieta-16794) Enquanto Julieta Monginho ficciona a partir da sua experiência como voluntária durante um mês, no Verão de 2016, num campo de refugiados numa ilha grega, Davide Enia em “Notas sobre um Naufrágio” traz-nos relatos e vozes de pessoas que conheceu em Lampedusa, em vários momentos, ao longo de três anos.

Mediterrâneo, o mar sonhado como meio de chegar à Europa para milhares de homens e mulheres fugidos da fome, da guerra, da violência, e que para muitos acaba por ser o seu cemitério. Lampedusa, a ilha mais próxima de África, um “contentor de opostos” onde “… convivem emergência e hipocrisia, burocracia e solidariedade” (pág. 16). Ao longo de três anos e em várias ocasiões, o autor, dramaturgo e actor Davide Enia assistiu a desembarques de náufragos, ouviu socorristas, mergulhadores, médicos, psicólogos, ilhéus, sobreviventes de naufrágios e também Paola e Melo donos de um B&B onde Davide fica, sempre que permanece na ilha.

Todas as vozes, todos os testemunhos são únicos e reflectem episódios, cenas, momentos inesquecíveis e marcantes para cada um dos protagonistas. “De todas as vezes, absolutamente todas, tenho a nítida sensação de me encontrar diante de seres humanos que carregam dentro de si um cemitério inteiro.” (pág. 12). Há uma enorme honestidade e ausência de sensacionalismo na escrita poética, muito sensível e até contida de Davide Enia nos relatos dramáticos que acompanhamos ao longo das duas centenas de páginas deste romance. O medo de Paola e Melo quando um dia vêem através da janela da sala, uma multidão de náufragos a aproximar-se da casa – “Trancamo-nos aqui dentro.” (pág. 31) – logo seguida de vergonha por essa reacção instintiva. “Nunca me esquecerei disso. Pregava uma coisa e na hora H, fazia outra. Já antes, tinha as minhas ideias de intelectual de esquerda: é preciso acolher, não se deve ter medo. Pois, no momento em que me vi metida naquela situação, porra…” (pág. 31). Há um registo que se repete – “O primeiro desembarque nunca se esquece” (pág. 34) – por parte de pessoas que tinham assistido a vários desembarques de refugiados. Para o ginecologista Pietro Bartolo, o primeiro a ser entrevistado sobre o naufrágio de 3 de Outubro de 2013, aquele foi “o evento divisor de águas” (pág. 53). Se há um mergulhador experiente que se recusa a falar sobre aquele dia trágico, dos vários testemunhos das pessoas cuja vida é a realidade dos desembarques e dos naufrágios, há um antes e um depois do 3 de Outubro. Num barco com 523 pessoas, conseguiram-se resgatar 155 sobreviventes e os restantes 368 foram cadáveres posteriormente recolhidos. “Fala-se demasiadas vezes dos seres humanos como números ou estatísticas, mas as pessoas são muito mais do que isso, acalentam esperanças e preces, inquietudes e tormentos.” (pág. 109). “Assistimos impotentes ao naufrágio e é como se a água entrasse dentro de nós” (pág. 91).

É complexo e é-me difícil num pequeno texto, destacar alguns casos, porque todos são importantes. As mulheres e meninas que chegam grávidas em resultado de violações contínuas e repetidas, individuais ou em grupo. “Para uma mulher é sempre pior.” (pág. 52). (…) “Há mulheres transformadas em brinquedos, usadas até se partirem.” (pág. 53). As crianças que sobrevivem. O rapaz de doze anos que se recusava a comer, a dormir, a falar até que finalmente um mediador conseguiu que ele dissesse que o que desejava era falar com a mãe para lhe dizer que estava vivo. Há 8 meses que partira da sua terra. Ou Bemnet, um rapaz de 17 anos, da Eritreia, sobrevivente de um naufrágio em que morreram 75 pessoas sendo ele um dos cinco sobreviventes: “Lampedusa é a minha casa, o lugar onde renasci”. “Pus o pé em terra no dia 20 de Agosto. Esse dia tornou-se o meu segundo aniversário. Aqui, nasci pela segunda vez. (…) “Os meus amigos estão todos ali” (pág. 128) disse Bemnet apontando para o mar.

Os relatos são entrecortados com reflexões do autor em que surgem o pai, cardiologista reformado, amante da fotografia e o tio Beppe por quem o autor tem um amor muito especial e que está, ele também a lutar contra um linfoma. A doença, uma outra forma de naufrágio. É esse entrelaçar dos testemunhos de sobreviventes, de profissionais e de voluntários na tarefa do resgaste e da cura dos náufragos, com as histórias e personalidades do pai e do tio de Davide que torna este romance uma leitura memorável e de grande sensibilidade. Num tempo de ódios como aquele que vivemos, é um privilégio este livro ter-me chegado às mãos. Aconselho que o leiam.

Termino, escolhendo dois parágrafos do testemunho de Bartolo, o médico ginecologista:

Toda a gente sabe o que está a acontecer e finge não saber. É por isso que estou a falar convosco, porque cada voz individual pode ajudar a sensibilizar as pessoas. Somos gotas individualmente, mas muitas gotas podem fazer um oceano.”

Escrevam, contem ao mundo inteiro o que viram, porque é preciso: no continente não têm noção do que está realmente a acontecer. Mas não me refiro só ao que se passa aqui em Lampedusa, esta ilha é apenas um ponto de passagem, a etapa de uma odisseia; refiro-me ao que acontece realmente a estes pobres coitados que aqui chegam, as atrocidades que são obrigados a sofrer, a humilhação da sua própria existência, o aviltamento dos seus sonhos e esperanças.” (pág. 52)

1 de Novembro de 2025

Almerinda Bento



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: O Quinto Filho

“O Quinto Filho” – Doris Lessing, 1988

Este é um livro perturbador, muito duro, que li de forma compulsiva. Já antes havia tido contacto com a escrita peculiar de Doris Lessing, da qual já lera três outros livros, mas este é, sem dúvida, o mais poderoso e mesmo inesquecível. O facto de deixar o final em aberto torna esta obra ainda mais interessante.

Embora o livro parta de um casal inglês conservador com um projecto de vida em torno de constituírem uma família numerosa, em que à pergunta “Querem ter muitos filhos? Quantos?” a resposta dos dois era invariavelmente “Muitos” “Muitos”, a verdade é que vai ser Harriet Lovatt, a mãe, quem vai assumir o papel central no destino de toda a família. A enorme casa vitoriana que adquirem, nos arredores de Londres, que mais se assemelha a um hotel, é também uma personagem central neste romance de Doris Lessing. É o local de encontro de toda a família nas festas de Natal e da Páscoa e nas férias de Verão. Aparentemente, tudo flui, aquela família feliz é um ímã e mesmo quando há algum azedume nas discussões e alguma crítica velada ou quando opiniões divergentes ocorrem, as nuvens escuras são passageiras e a vida continua sem sobressaltos. Quem diria que um dia Harriet quisesse “acabar de vez com aquela casa de infelicidade e com os pensamentos que a acompanhavam.” (pág. 151)

“O Quinto Filho” narra a situação do nascimento de um filho diferente, para daí analisar os comportamentos das pessoas, da família, das instituições, da comunidade relativamente ao que sai fora do expectável. Doris Lessing trata com maestria os mais variados sentimentos vividos por aquela família feliz, quando confrontada com aquele novo ser, o quinto filho tão diferente dos que o tinham antecedido: surpresa, medo, culpabilização, crueldade, remorso, afastamento, apatia. “Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…” (pág. 69) Focando na mulher, na mãe, não só o ónus da estranheza, como a culpa, deixando-a sozinha, completamente só. “Dirigiu-se para a porta e olhou para trás. Na cara da médica viu o que já esperava: um sombrio olhar fixo que reflectia o que a mulher estava a sentir, que era horror pelo desconhecido, rejeição normal daquilo que estava para além dos limites humanos. Horror por Harriet, que trouxera Ben ao mundo.” (pág. 126)

Em anteriores livros de Doris Lessing que li, tal como aqui, a autora é crítica relativamente ao funcionamento das instituições do estado não poucas vezes insensíveis quando deveriam responder às necessidades dos seus cidadãos: pela forma fria e desumanizada como funcionam sem atender aos indivíduos nas suas especificidades, num sistema padronizado aparentemente “profissional” e “sem falhas” que é cego e desumanizado. O mal-estar social surge logo numa fase inicial da narrativa, no início dos anos 1970: “A cidadezinha onde viviam transformara-se durante os cinco anos que lá tinham morado. Incidentes brutais e crimes que outrora chocariam toda a gente eram agora lugar-comum. Havia bandos de jovens que frequentavam certos cafés e becos e que não tinham respeito por ninguém. A casa ao lado já fora assaltada três vezes; a dos Lovatt ainda não, talvez porque estava sempre lá gente. No fim da rua havia uma cabina telefónica que fora destruída tantas vezes que as autoridades tinham desistido: ficara ali sem préstimo. (…) Esses acontecimentos representavam uma separação horrível: cada vez mais parecia que a Inglaterra era habitada por dois povos em vez de um, dois povos inimigos, que se odiavam um ao outro, que não ouviam o que cada um dizia. Os Lovatt começaram a ler os jornais e a ver os noticiários da televisão, embora não tivessem vontade de fazer nem uma coisa nem outra. Pelo menos deviam saber o que se passava fora da sua fortaleza, do seu reino, no qual três preciosas crianças eram criadas e onde tantas pessoas iam para mergulharem em segurança, conforto, amabilidade.” (pág. 27)

Este livro que pode ser lido literalmente, pode também ser encarado como uma fábula dos males da sociedade com muitas camadas e muitos pontos de análise e reflexão. Por outro lado, é muito actual e até intemporal e a sequência dos acontecimentos é vertiginosa, daí que qualquer pessoa que o comece a ler tenha muita dificuldade de o poisar e interromper a leitura.

Um grande e poderoso livro.

25 de Outubro de 2025

Almerinda Bento

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Quem Tem Medo dos Santos da Casa" de Sara Duarte Brandão

Estava expectante quando peguei neste livro porque tinha ouvido boas opiniões e o resultado da leitura foi muito positivo. Gostei muito da construção de todo o ambiente narrado, das tricas e invejas habituais de pequenos lugarejos, neste caso uma pequena vila piscatória, e de como os personagens foram crescendo de densidade e delicadeza com o decorrer da leitura. A escrita tem uma pitada de poesia de quando em vez o que me agradou imenso, mesmo não sendo eu leitora desse género literário. 

A trama é narrada num constante vai e vem em termos de alguns espaços temporais e acompanhamos Maria Teresa quer na sua infância, quer no casamento e na velhice. Na minha opinião o leitor não se vê em nada aptrapalhado com estes saltos temporais e não se perde. Pelo contrário, isso dá uma vivacidade fantástica à narrativa pois vão sendo descobertos a pouco e pouco os segredos e os acontecimentos que fizeram de Maria Teresa uma mulher solitária e ostracizada pelos habitantes da vila. Como referi, os pormenores vão sendo desvendados com o decorrer da leitura, sendo que muitas vezes são contados nas entrelinhas, aspecto que mantém o leitor sempre cativo.

A vida de Maria Teresa vai sendo marcada pelas expectativas sociais, familiares e religiosas muito restritas que condicionam sobremaneira a sua vida futura. 

E a cereja no topo do bolo é a importância da leitura na sua vida desde criança, importância essa que transporta até à velhice. A sua amizade, aquando idosa marginalizada pela vila onde habita, com uma criança que não se importa de se aproximar da "bruxa" é um sopro de luz na sua vida. Uma vez mais o papel da leitura como aproximação ao outro. O que está por detrás dessa solidão quase que auto imposta? Como se libertou das algemas que a prendiam a uma vida sensaborona?

Abordam-se aqui temas muito interessantes como a importância da liberdade, da identidade e pertença, como a tradição e religião podem condicionar as expectativas de alguém. 

Gostei e recomendo muito esta leitura! Atirem-se de cabeça, não se vão arrepender!

Terminado em 30 de Novembro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse 
Uma estreia auspiciosa de uma jovem escritora, romance que já venceu o Prémio Literário Cidade de Almada.

Esta é a história de Maria Teresa, uma mulher que cresceu numa pequena vila piscatória entre a austeridade familiar e a liberdade que encontrava nos livros e numa paixão clandestina.

Condenada a viver à sombra do que o pai e o marido haviam sonhado para ela, resolveu pôr em causa as ordens e as tradições, tomar as rédeas do seu destino, deixar para trás uma vida de conforto e atravessar o rio em busca de emancipação.

Hoje encontramo-la a tecer tapetes numa casa escura que ninguém sabe o que esconde e é considerada uma espécie de bruxa que assusta as crianças; porém, é numa amizade improvável com Joana, uma menina que aprende com ela a amar os livros, que Maria Teresa encontrará a redenção.

Com um ritmo poético e introspetivo, a narrativa desenrola-se em pequenos fragmentos belíssimos que refletem as superstições de uma comunidade marcada por um episódio com consequências dramáticas.

Mas onde todos veem horror Maria Teresa vê beleza e possibilidade.

Terão, ela e Joana, medo dos santos da casa?
Romance inspirado na história dos santos do escultor Altino Maia, que foram retirados da Igreja de São Pedro da Afurada, é na ficção que esta obra desafia algumas verdades.

Cris 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Como Animais

Como Animais” – Violaine Bérot, 2021

Um livro breve, que se lê de um fôlego, mas com um grande impacto e abordando vários temas com grande importância.

Em jeito de polifonia, cada capítulo é uma voz, um testemunho diferente. Começando com a voz de uma professora, somos confrontados com um enigma: uma família “disfuncional” que escolheu viver fora da aldeia, constituída por uma mulher e o filho autista, para o qual a escola nunca conseguiu ter uma resposta inclusiva, antes o quis direccionar para uma instituição, o que a mãe liminarmente recusou. E uma menina sobre a qual nada se sabe. Aquilo para que Violaine Bérot nos convida, à medida que as diversas vozes surgem dando o seu testemunho às autoridades, é olharmos também para nós como espectadores/as, como membros da sociedade, porque uma daquelas vozes pode ser a nossa. Como reage a sociedade ao que não entende? Como reage a sociedade ao outro, que sai fora da norma estabelecida? A sociedade intromete-se; a sociedade julga; a sociedade reprime.

Para além da crítica à escola que não está preparada para responder à individualidade das crianças na sua diversidade e nas suas necessidades, e em especial às crianças com deficiência, as outras instituições aqui em foco são a polícia e os media mais interessados em embarcar no “circo mediático” do que informar com seriedade. O título “Como Animais”, se por um lado mostra a estranheza da população que rotula de animais quem, como é o caso, se isola e não vive segundo os padrões das sociedades de consumo, padronizadas; por outro nos leva a questionar se não serão afinal os animais aqueles que se afastaram de tal forma da natureza que já perderam a capacidade de empatia para com os humanos.

Como anteriormente referi, os diferentes testemunhos, as diferentes vozes são únicas e inconfundíveis, levando-nos a ouvi-las/vê-las pela sua singularidade e individualidade através de frases curtas que nos transportam para situações de diferentes personagens respondendo a interrogatórios. E a autora consegue fazê-lo de uma forma notável. Inesquecíveis os depoimentos da mãe – Mariette – que tenta ao limite defender o filho duma sociedade que o exclui, e o depoimento da farmacêutica – Viviane Desroches – uma longa confissão, inesquecível, de alguém que engravidou na sequência de uma violação.

À laia de separadores entre os diferentes capítulos, surgem as vozes das fadas que vivem nas grutas, observam o mundo e estão prontas para libertar as mães que não querem ser, para acolher as crianças das mães que as rejeitaram. Transcrevo um desses poemas, dum livro que dificilmente esquecerei:

Nós

as fadas

vemos

o que alguns homens

por vezes

fazem às mulheres

sem lhes perguntarem

nada.


Sem pedirem

às mulheres

o seu consentimento

sem lho pedirem

os homens

antes.


Nós

as fadas

adivinhamos

o que pode significar

no mundo de baixo

ser menina

ser rapariga

ser mulher.


Nós

nos nossos pequenos corpos

nos nossos pequenos corpos de fadas

compreendemos

o que deve ser

um homem

que se exime

antes de entrar

de pedir.”

(págs. 105 e 106)

 

20 de Setembro de 2025

Almerinda Bento



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

"O Caminho da Cidade" de Natalia Ginzburg

Uma curiosidade sobre o presente livro desta autora que muito aprecio; este foi o seu primeiro romance, publicado sob um pseudónimo devido à censura fascista e leis anti-semíticas em Itália.

O livro gira em torno de uma adolescente e é narrado na primeira pessoa, a Delia. Vive num lugarejo pobre e a cidade constitui uma promessa de sonhos a realizar. Segundo ela a sua independência encontra-se lá. Ao engravidar de um rapaz economicamente mais abastado, as suas expectativas são, dia a dia, goradas. A passagem de uma adolescência cheia de sonhos para uma vida adulta com restrições impostas, familiar e socialmente.

Crítica social intensa, a autora com uma prosa simples, nua e crua, sem julgamentos, mostra bem como as expectativas não conduzem necessariamente à realidade.

Novela que se lê num ápice e que aconselho vivamente.

Terminado em 26 de Novembro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
O Caminho da Cidade foi o primeiro romance escrito por Natalia Ginzburg e tem já o tom inconfundível que vai caracterizar a sua obra posterior. Foi publicado em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, sob o pseudónimo de Alessandra Tornimparte. 

Cris 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

"Entre os Genes" de Raquel Cunha

Livro pequeno mas muito impactante. Conheço a Raquel desde que nasceu. Filha de uma amiga de longa data e vizinha também. Recordo os momentos que passei com a sua mãe a conversar nas noites de verão cada uma sentada na sua varanda, que fazíamos questão de saltar quando a isso estávamos dispostas. Note-se que as varandas pegavam uma na outra... Era o meio mais rápido de passar de uma casa para a outra, aliás!

Depois as nossas vidas seguiram o seu rumo e as visitas deixaram de ser tão frequentes mas o contacto, embora mais esporádico, manteve-se. Recordo que numa visita a minha casa a Raquel, já com os seus oito anos, fartou-se de pedir água à minha mãe (disse-mo ela depois). Pouco tempo depois surgiu o diagnóstico de diabetes. Para a Raquel e para a sua família imagino que tenha sido uma situação muito delicada em que tiveram de juntar forças para superar da forma o mais natural possível! Este diagnóstico foi a ponta do iceberg.

Ler este livro foi mergulhar em tudo o que um iceberg esconde por debaixo das águas. Muitos anos mais tarde foi-lhe diagnosticada uma doença rara, o Síndrome de Wolfram, que acarreta outras complicações de saúde difíceis.

Fiquei com uma admiração enorme pela coragem demonstrada pela Raquel ao colocar ao de cima algumas das situações por que passa no seu dia a dia e, sobretudo, como consegue modificar e dar sentido às mesmas. Dar a volta às dificuldades, ajudar outros com o seu exemplo é o seu propósito. 

Farmacêutica de profissão, curso que não exerce devido aos seus sintomas, dedica-se à mentoria e ao coaching. Aconselho vivamente a leitura deste livro. Faz-nos pensar em como, muitas vezes, as coisas pequeninas tomam, para nós, porporções desmedidas e nos esquecemos facilmente do seu minúsculo tamanho.

Resiliência, coragem e força. Fui à apresentação do livro da Raquel. Quis ouvir um pouco do que tinha acabado de ler. Um exemplo para todos. 

Se tiverem Facebook espreitem aqui: https://www.facebook.com/raquel.cunha.7165

Terminado em 25 de Novembro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse
De uma menina tímida à mulher que vemos hoje, após trinta anos a lidar com uma doença genética rara, neste livro, a autora relaciona muito do que já viveu com coaching e desenvolvimento pessoal, e ainda sugere pequenas atitudes que nos levam além do que a vida nos dá. 

Cris

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Convidada escolhe: As Migalhas de Beirute

As Migalhas de Beirute” – S. Costa Brava, 2019

A minha escolha por este título da obra de uma autora que não conheço, mas que foi sugerida por uma das participantes do Círculo de Leitura da UNISSEIXAL, teve a ver com o interesse que tenho em perceber a complexidade dos conflitos no Médio Oriente, motivo de notícias desde que me conheço. A minha solidariedade com a causa palestina e com o direito de um povo a viver em paz na sua terra, o qual tem nos últimos dois anos sido alvo de um genocídio impensável por parte do governo israelita, mais me levou a fazer esta escolha. Na calha e a seguir, irei ler “Gaza está em toda a parte” de Alexandra Lucas Coelho, cujas crónicas e percurso sigo regularmente e que muito admiro.

“As Migalhas de Beirute” é um livro muito duro, cuja leitura não me foi fácil. O facto de a autora ter vivido no Médio Oriente e em Paris teve certamente peso na escolha do tema. A primeira parte do livro traz-nos através de datas e acontecimentos marcantes naquela zona do mundo e em Beirute, em particular, a história de um país dilacerado pela guerra civil, por conflitos gerados do exterior, que têm tido os EUA e a Europa como potências omnipresentes. O papel da França no conflito libanês é inegável, mesmo quando os governos tentam através de divisões e de mistificações fazer de conta que nada têm a ver com os conflitos. Independentemente das divisões religiosas, foi através do exacerbamento dessas divisões que se tentou sempre chamar de religiosas as guerras, quando desde sempre os conflitos se deveram a questões de ordem geopolítica num território muito apetecível para quem quer mandar no mundo. Para além das mortes, a primeira parte do livro dá-nos a imagem de um país e de uma cidade divididos, com campos de milhares de refugiados palestinianos e com milhares de libaneses espalhados por todo o mundo, tentando refazer a vida como imigrantes. De forma larvar, o ódio vai-se instalando, os traumas de guerra não se apagam e a sede de vingança é aproveitada por milícias e grupos radicais que florescem num clima de desconfiança e de ódio generalizados.

A morte dos pais de Samir Bustani na Primavera de1988 é o ponto de partida para esta história de uma família libanesa. Apoiado por um tio há anos refugiado em Paris, o jovem Samir e a irmã vão conhecer uma realidade completamente diferente. No livro surgem temas em que se confrontam culturas, crenças e atitudes que dividem pessoas e famílias. A intolerância baseada na religião, a homossexualidade, a submissão da mulher na família, mas também a capacidade de resistir e continuar a viver num mundo em convulsão são alguns dos temas que o livro aborda.

Se o surgimento da internet foi uma ferramenta extraordinária para pôr em comunicação pessoas de todo o mundo, ou seja, um poderoso aliado da democracia, ela também tem sido usada para chegar a alvos frágeis e vulneráveis, facilmente manipuláveis que veem nela a resposta a frustrações e desilusões da vida. Muitos grupos extremistas têm-na usado em seu favor, radicalizando jovens inseguros, sem perspectivas de futuro, desiludidos da vida e facilmente ganhos quando lhes acenam com um paraíso que vingue anos e anos de frustração e infortúnio. O livro mostra-nos esse mundo de ódio que infelizmente contamina tanta gente, que gera destroços, migalhas e apenas destruição.

O ódio e a violência só geram cada vez mais ódio e violência. Todos perdemos e a democracia fica em risco. Será que temos capacidade de enfrentar a besta que nos quer destruir?

2 de Setembro de 2025

Palavras-chave: guerra, democracia, ódio, Médio Oriente

Almerinda Bento 



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

"Pão Seco" e "Tempo de Erros" de Muhammad Chukri


Tendo lido estas obras uma a seguir à outra fez-me sentido falar delas em conjunto.

"Pão Seco" foi uma descoberta intensa, dolorosa e de um realismo brutal. Foi realmente uma leitura muito forte quer pela escrita dura e muito crua como pela história contada. Sabem quando a realidade ultrapassa em muito a ficção? Quando, depois de teres lido muitos livros, estás perante um que sai fora de tudo o que leste até aí?

Estes volumes constituem uma autobiografia (existindo um outro, "Rostos", que ainda não li) e neste primeiro é-nos narrada a infância e juventude do autor, marcada por um ódio intenso na sua relação com o pai que era uma pessoa de uma agressividade extrema. Miséria, fome, violência, drogas, prostituição, criminalidade pelas ruas de Tânger e Tetuão (Marrocos). 

Com um estilo seco, que saltita de quando em vez entre acontecimentos mas que não é difícil de seguir, esta obra marcou-me profundamente como leitora. Não existe inocência nesta infância e sim uma forte resistência que o fazem um sobrevivente. Mas não se enganem, Muhammad Chukri resvala na marginalidade como seria de esperar. 

"O meu irmão chora, contorce-se com dores, chora por pão. É mais novo que eu.. Choro com ele. Vejo-o (o pai) a acercar-se dele. O monstro acerca-se dele.A demência nos olhos. As mãos, quais tentáculos dum polvo. Ninguém o consegue deter. Sonho que peço ajuda. Monstro! Demente!Alguém o detenha! Num ataque de fúria, o maldito torce-lhe o pescoço. O meu irmão contorce-se. O sangue jorra-lhe da boca. Fujo para fora de casa enquanto o meu pai cala a minha mãe ao murro e ao pontapé."

"(...) - O pai vai-me matar como matou o mano. 

- Não tenhas medo. Vem comigo (a mãe). Ele não te vai matar. Anda. E cala-te, para os vizinhos não nos ouvirem. 

O meu pai lava-se em lágrimas e cheira rapé. Impressionante: primeiro mata o meu irmão e depois chora."

No final desta obra fica a esperança que a escrita e a leitura, que Chukri quer desesperadamente aprender, o salvem da vida que tinha até então. Foi isso que me fez de imediato pegar o livro seguinte, "Tempo de Erros", que fui buscar à biblioteca.

Este segundo volume é menos chocante, a aprendizagem traz-lhe um sentido de análise sobre o mundo que se reflecte nas suas palavras, embora os problemas com a bebida o levem a situações desesperadas. O álcool está presente na sua vida de uma forma avassaladora mesmo depois de ter conseguido alguma instrução e de ser um devorador de livros.

São duas obras de uma intensidade imensa, É impossível o leitor ficar indiferente. Li que o terceiro volume desta trilogia, "Rostos", se afasta um pouco do carácter autobiográfico apresentando-se já como escritor, e fazendo referencia a várias pessoas que terão marcado a sua vida, sendo a narrativa mais fragmentada. Creio ainda não estar traduzido para português.

Terminado em 28 de Outubro de 2025 e 6 de Novembro de 2026, respectivamente

Estrelas: 5*

Sinopse "Pão Seco"
Quando a fome grassa no Rife, uma família parte para Tânger em busca de uma vida melhor.

Nas noites passadas ao relento, nos becos da cidade, o pequeno Muhammad, orgulhoso e insolente, descobre a injustiça e a compaixão, a tirania da autoridade, a loucura labiríntica da miséria, o consolo das drogas, do sexo e do álcool.

E é na prisão que um companheiro lhe desvenda as maravilhas da leitura, mudando para sempre a sua vida.

Estreia do autor em Portugal, em tradução directa do árabe, Pão Seco foi publicado originalmente em 1973, na tradução inglesa de Paul Bowles (For Bread Alone), quando os editores de língua árabe não estavam ainda preparados para o caos narrativo, a linguagem crua e a indisciplina gramatical que desafiavam a tradição e o «bom gosto».

«Verdadeiro documento do desespero humano» (Tennessee Williams), obra de culto proibida até recentemente nos países árabes por tocar em tabus da sociedade magrebina.

Este avassalador romance autobiográfico consagrou o autor e continua a iluminar o caminho de várias gerações de renegados marroquinos.

Sinopse "Tempo de Erros"
Em Tempo de Erros (1992), Muhammad Chukri prossegue o duro relato autobiográfico iniciado em Pão Seco. Nesta história, assistimos aos anos de aprendizagem do autor, à sua crescente obsessão pela leitura e ao advento de um escritor. Entre a família em Tânger e a escola em Laraxe, preenchem os seus dias uma galeria de almas perdidas, amigos e amantes como a marca da loucura e, diz-nos, «bárbaros com quem vivi de noite em estreitas ruelas e tabernas duvidosas». Num país onde «os inteligentes enlouqueceram e deliram pelas ruas, e os que merecem ficar aqui emigraram», Chukri revisita a doença, a idade adulta e as amizades com os marginais estrangeiros atraídos por Tânger, reiterando a impossibilidade de aniquilar os desejos que o movem. 

Cris 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A Convidada escolhe: Autobiografia de uma Mulher Romântica

Autobiografia de uma Mulher Romântica” – Natália Nunes, 1954

Há muito que desejava conhecer a obra de Natália Nunes, tendo apenas referências através de dois cursos online que frequentei sobre escritoras portuguesas desconhecidas. Mesmo em bibliotecas públicas é difícil aceder à obra desta escritora nascida em 1921. No entanto, sabia da paixão de Teresa Sousa de Almeida pela obra desta escritora, tendo-a estudado de forma intensa a aprofundada. “Autobiografia de uma Mulher Romântica” que encontrei na livraria Snob, um romance escrito na primeira pessoa, é prefaciado por Teresa Sousa de Almeida, que o caracteriza como “obra única pela sua estrutura formal e pela complexidade psicológica da sua narradora” que encontra “a escrita como única tábua de salvação”.

Clotilde, a narradora, começa por falar da chuva naquele dia em que chegou “à terra do exílio” (pág. 21) que lhe faz recordar um outro dia marcante, de chuva inclemente de que só saberemos no final do romance. Ela está num quarto de pensão numa Vila, onde irá dar aulas de alemão num colégio da terra. A viver um momento de dor profunda, logo se percebe que essa dor não decorre da sua viuvez recente, mas de uma paixão posterior não correspondida.

Enquanto não começam as suas aulas que só se iniciarão uma semana depois, aproveita para passear pela aldeia de pescadores, passear pelas dunas e ver o mar, tentando obter serenidade através do contacto com a natureza. Desde o início, o/a leitor/a segue as descrições minuciosas da paisagem, da vida vegetal e animal, e as reflexões que acompanham a narradora ao longo desse percurso. No tempo livre de que dispuser vai recordar a infância, o papel da austera avó Gracinda com quem viveu nos seus primeiros anos de vida e da preceptora Charlotte, uma mulher livre que sempre a aconselhou “a seguir sempre os seus impulsos” (pág. 98). “Talvez devesse aproveitar as horas livres que me vão surgir, para fazer aquilo que se chama um exame de consciência, para dirigir um olhar perscrutador a todo o meu passado, contemplar numa visão retrospectiva o caminho que já percorri e me trouxe assombrada e desolada a este exílio…” (pág. 76)

Desde sempre a ligação que estabeleceu desde nova com a natureza na aldeia da avó trazia-lhe uma sensação de plenitude a que se seguia um sentimento de insatisfação e até desespero, sendo que os sentimentos de incompletude e frustração caracterizaram as suas primeiras experiências sentimentais, que a levaram a isolar-se, sentindo que era “esquisita”.

Clotilde não se enquadra no modelo tradicional que a avó Gracinda e a tia Constância queriam para ela e para as primas, que era final o caminho asfixiante da sujeição aos padrões da docilidade e da domesticidade que estavam reservados para as mulheres como esposas e donas de casa e não como pessoas com autonomia e vontade própria. Apesar do breve período da sua vida que correspondeu a um curto noivado e casamento e em que existiu um certo apaziguamento que a leva a seguir as convenções e as normas impostas socialmente, Clotilde confessa “Eu tinha uma tendência para complicar a vida!” (pág. 167), à felicidade segue-se o tédio, a vontade de fugir. Foi em Filipe que ela viu pela primeira vez uma vida com sentido, alguém cuja “passagem pela vida” era “significativa e útil”. (pág. 173)

Como escreve Teresa Sousa de Almeida no prefácio (pág. 12) “as heroínas de Natália Nunes, apesar de todas as vicissitudes, encontram sempre o seu caminho” e Clotilde, a terminar o romance decide regressar às serras da sua infância e diz: “Fui repelida e desprezada por ser uma romântica. Pois não serei eu quem desminta a minha natureza! Se não tenho lugar neste mundo fujo para as penhas nas alturas solitárias e levo a minha alma, que o meu corpo de bicho montês sabe contentar-se com as caricias das fragas e com os beijos dos arbustos!”

Um romance escrito por alguém com profundo domínio da língua, usando vocabulário rico e elaborado e totalmente dedicado a analisar os estados de alma de uma mulher fora dos padrões expectáveis na sociedade portuguesa dos anos 1950.

15 de Agosto de 2025

Almerinda Bento

A Convidada Escolhe: “A Outra Filha”

A Outra Filha” – Annie Ernaux, 2011

Depois de “Os Anos”, este é o segundo livro que leio de Annie Ernaux. Em todo ele encontro o estilo autobiográfico e certos detalhes que se observam em “Os Anos”, como por exemplo a referência às fotografias, embora aqui as fotografias sejam escassas. A fotografia a sépia que os pais disseram ser dela, afinal era de uma irmã que morreu dois anos antes de a narradora ter nascido. Essa morte e essa outra filha, foi algo sempre silenciado até ao dia em que a narradora ouviu uma conversa entre a mãe e uma cliente. Foi uma descoberta dolorosa para uma menina com dez anos, numas férias de Verão de 1950.

A morte da outra filha, um assunto que foi sempre silenciado pelos pais. Naturalmente, algo que foi muito penoso na vida do jovem casal e que nunca conseguiram revelar à segunda filha, tida como filha única. No entanto, numa idade avançada da mãe, diagnosticada com doença de Alzheimer e numa consulta médica, entre as respostas dadas às perguntas do médico, falou que tinha tido duas filhas.

O livro é uma carta à irmã. E embora a narradora pudesse ter questionado primas, tias e tios sobre essa irmã, a verdade é que houve sempre um pudor, uma incapacidade de transpor esse silêncio que os pais criaram. “… não interroguei… porque eu não queria saber. Preservar-te tal qual te recebi aos dez anos. Morta e pura. Um mito. (…) Antes de começar esta carta, eu sentia uma espécie de tranquilidade em relação a ti, que agora ficou pulverizada. (…) Tenho a impressão de não possuir uma linguagem para ti, para te exprimir, de só saber falar de ti em modo de negação, do constante não-ser. Tu estás fora da linguagem dos sentimentos e das emoções. Tu és a antítese da linguagem. (…) Tu só existes através da impressão que deixaste na minha existência. Escrever-te mais não é do que percorrer a tua ausência. Descrever a herança de ausência. És uma forma vazia impossível de preencher com a escrita.” (págs. 42 e 43)

Este livro tem muito a ver com vida e morte. Com família. Com silêncios. Com fantasmas. Com traumas que ficam para a vida. A autora-narradora, ainda antes de escrever esta carta à irmã sentiu necessidade de voltar à casa de infância, àquela onde ela e a irmã tinham nascido e que há muitas décadas estava na posse de outros proprietários. “Tinha uma espécie de sensação plena, feita de espanto e de contentamento obscuro por me encontrar ali, naquele exato lugar no mundo, entre aquelas paredes, perto daquela janela, por ser o olhar que contempla o quarto onde tudo começou para uma e outra, para uma e depois a outra. Onde tudo se decidiu. O quarto da vida e da morte, que estava banhado de luz naquele fim de tarde. O lugar do enigma do acaso.” (pág. 61)

Annie Ernaux é uma autora a quem apetece voltar. Diz-me tanto e está tão próxima da alma humana. Este livro foi traduzido para a nossa língua por Tânia Ganho.

24 de Junho de 2025

Almerinda Bento

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

"No Brasil Não Há Leões" de Álvaro Curia

Li com gosto este livro, muito embora, no início, tivesse tido alguma dificuldade em
compreender a linguagem utilizada nalgumas partes. Não a achei difícil de  apreender e até acho que tem uma musicalidade sui generis, quase poética, mas foi isso que aconteceu. Depois de entranhada, fluiu bem.

A história prende-se com as memórias que possuímos na infância e que muitas vezes se desvanecem no tempo ficando uma sensação que pode não corresponder verdadeiramente ao acontecido. Mas, lá está, o sentimento de que algo aconteceu continua lá, que pode ser uma sensação de perda, de abuso, de falta de amor, etc.

O protagonista, e também narrador, relata-nos a sua infância. O seu nome só é desvendado muitas páginas à frente. Logo de início, um acidente grave onde perdem a vida os seus avós faz despoletar toda uma memória de traumas de infância.

Passado e presente são intercalados sem que o leitor perca o fio à meada. O narrador, adulto, revisita o seu tempo de menino de 10 anos. O medo por se sentir diferente e que lhe tolhe os movimentos, o bullying a que é sujeito, os nomes atirados com raiva, as agressões cheias de ódio e que passam despercebidas e que esconde desesperadamente. As visitas a casa dos avós e o tio que se insinua sexualmente sem que ninguém se aperceba.

E sempre as memórias que não são exactas e que deixam dúvida.

Como é que uma criança lida com os diferentes tipos de abusos a que é sujeita? Onde leva o medo se não tiver escape? A somatização dos traumas é, muitas vezes uma dura realidade. Os comportamentos obsessivo/compulsivos a saída encontrada pela criança.

"Se, durante um almoço, eu não abanasse a perna direita um dado número de vezes, isso significaria que o rapaz mais velho que me pisou a cabeça estaria à minha espera quando regressasse à escola. (...) Se abanasse as duas pernas em simultâneo entre cada fala do apresentador das notícias, na televisão, então ter-me-iam esquecido das lengalengas com que também rimavam o meu nome em palavrões. Durante semanas fui adicionando pequenos gestos aos meus rituais. (...) Todos estes eram rituais viciados mas que passavam despercebidos, Conforme os dias avançavam o preciosismo da alucinação ganhava mais detalhe." pág 86/87

"Os meus rituais passaram a ser não só de súplica, como também de graças." pág 95

"Passaram-se anos, mas continuo a detalhar as noites de pavor, insinuando-me nas ausências com que esta cidade me recebe. (...) Não somente os aldeões, os pioneiros, mas também as crianças que me atulharam os dias de pavor, não imagino que tenham crescido (...) Talvez me procure também o meu tio, o que terá feito de mim para que, quando acordei, naquela noite, me parecesse tão saciado. Onde me esqueci de vigiar as horas? A sua impunidade pesa-me aos ombros." pág 213

Um livro duro, uma história sobre coragem também. E o poder do amor que um animal te dedica.

Terminado em 6 de Novembro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
O elevador caiu. Os corpos ainda não arrefeceram, mas a família desfaz-se. O luto não é só perda - é também libertação, é fuga, é abandono. E, para uma criança, pode ser o fim decisivo da inocência.

Quinze anos depois, é nos fragmentos difusos de uma infância marcada pelo medo que o narrador, agora adulto, tenta dar forma ao seu trauma e compreender quem se tornou.

Nesta dolorosa narração, há lapsos, imagens que se repetem, detalhes que só mais tarde ganham significado.

Nenhuma pedra fica por virar: o abuso, tão difícil de nomear; a violência, por vezes física, quase sempre emocional; e o abandono, sempre o maldito abandono, vindo de quem nunca deveria ter ousado pensar em partir.

«Olho essa violência de frente, defino-a em rigor, nomeio-a, dou-lhe a minha voz para que ninguém faça dela a sua fala. Feito em pedaços de pedra, é a mim que a minha dor pertence.»

Uma nova voz na literatura portuguesa - urgente, inconfundível. Álvaro Curia está de regresso com um romance em que a escrita é ferida, denúncia e salvação.

Cris 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

"As Moscas de Outono" de Irène Némirovsky

Gosto muito desta autora e recomendo muito o seu livro "Suite Francesa".

Tatiana é uma velha ama de uma família nobre, os Karine, que estão exilados em Paris, fugidos da Revolução Russa. Ficou a tomar conta da casa até se ver obrigada a deslocar-se também para essa cidade. Encontra-os perdidos dentro de um apartamento, sem rumo, sem estatuto, sem dinheiro. Como moscas de Outono. Daí o título. Tatiana vive de recordações.

É uma novela que está pejada de reflexões sobre a memória, o envelhecimento, a mudança imposta. Tem como pano de fundo implícito a França entre as duas guerras, a situação socio/económica de uma burguesia em decadência. Leitura que se faz num ápice. Gostei e prende o leitor.

Terminado em 4 de Outubro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse
«A escrita subtil e a afinada certeza psicológica recordam-nos do quanto a boa prosa pode conseguir em muito poucas palavras.»
The Times

Tatiana Ivanovna dedicou a sua vida aos Karine, que ajudou a nascer e a criar na opulência e no luxo ao longo de duas gerações.

Agora que a revolução russa triunfou, é ainda a velha serva que continua até ao último momento a defender a propriedade da família e a velar sozinha pelo que resta dos seus bens.

Até que o dever mais uma vez lhe impõe que atravesse a pé o país e se junte aos seus amos em fuga.

No pequeno e escuro apartamento de paris onde agora vivem, os karine partilham o destino de tantos outros nobres exilados russos que procuram adaptar-se à sua nova vida e sobreviver por todos os meios possíveis, exaustos e confusos como moscas de outono.

Só Tatiana, demasiado velha para mudar, está determinada a não querer esquecer o passado...

Publicado originalmente em 1931, quando Irène  Némirovsky contava apenas 28 anos, As Moscas de Outono vem contribuir decisivamente para o aumento do seu prestígio enquanto autora, referida pelo New York Times como «sucessora de Dostoiévski» pela sua capacidade para refletir sobre a moralidade e as contradições da vida.

«Némirovsky evoca os lugares da sua juventude com uma sensualidade e clareza que mostram o quanto aprendeu com Tolstói e  Proust.»
The Guardian

Cris

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A Convidada Escolhe: “Memória de uma Epifania”

Memória de uma Epifania” – Maria João Vaz, 2023

Conheci a Maria João Vaz numa sessão promovida pelo Bloco de Esquerda em Coimbra, no início de Março, no âmbito do II Fórum LGBTQI+. No final da sessão comprei o livro “Memória de uma Epifania” à autora, mas só agora o li, depois de ter lido “As Malditas” de Camila Sosa Villada.

Acho que André Tecedeiro consegue, no prefácio, sintetizar muito do que gostaria de aqui escrever sobre o livro: “É um livro claro, generoso e honesto. Acima de tudo, é um livro necessário” (pág. 7). E mais à frente acrescenta: “De uma forma geral, as pessoas sabem pouco sobre o que é ser trans, e o que julgam saber está cheio de equívocos.” (pág. 8).

Muito diferente de “As Malditas”, este livro surge do desejo de Maria João Vaz escrever um texto para um espectáculo de teatro que falasse da sua vida e da sua realidade, ou seja, daquilo que ela conhece melhor, projecto esse que, entretanto, evoluiu para a presente autobiografia. No fundo, Maria João Vaz sentiu necessidade de partilhar a sua experiência de mulher trans numa sociedade ainda muito alheada dessa realidade. A autora é exaustiva na partilha das suas memórias desde a mais tenra idade: a vida com os pais, os irmãos e irmã, o colégio execrável que frequentou durante sete anos, as idas à Feira Popular, o fascínio da neve e das lojas de brinquedos, mas também o desconforto desde sempre entre ela e as outras pessoas, que a levava ao isolamento, buscando a solidão e o silêncio. Nunca os pais revelaram capacidade nem sensibilidade para ver que ela era diferente, nem os próprios médicos descortinaram a origem dos ataques de pânico na escola, que para ela foi um lugar de humilhação, de prepotência e de desrespeito pelos direitos das crianças. Ao longo da vida e desde criança fez inúmeras viagens com a família, as quais reconhece não conseguir desfrutar na plenitude, mas que lhe deram uma base cultural e uma visão do mundo que é muito patente em todo o livro. O gosto secreto de vestir roupas femininas, a paixão e/ou identificação com outras mulheres mais velhas gerava nela um sentimento de culpa, de que vivia uma vida de fachada, de mentira. Para além do imenso amor pelas três filhas da sua relação com uma mulher por quem se apaixonou, os animais, e sobretudo os cães e cadelas que teve ao longo da vida, foram certamente os maiores amores da sua vida. Com formação artística na área do teatro, Maria João Vaz fez teatro, telenovelas, cinema, dobragens de filmes de animação, foi música, tendo tocado trompete no Hot Club e é escultora autodidacta . Foi uma mulher dos sete instrumentos, agarrando tudo o que podia para viver e sobreviver, num mundo que muitas vezes lhe virou as costas, a usou, foi falso e hipócrita. Mas Maria João era mulher com um sentido profundo da vida e uma busca incessante do equilíbrio e do direito a ser feliz.

Até que se dá a epifania em 2018. Maria João é muito precisa e descreve todo o seu processo de descoberta e de coming out em relação à família e ao mundo. Após cinquenta anos de condicionamento pessoal e social, descobre-se e encontra o seu verdadeiro eu. Uma epifania é sempre algo de mágico, de verdadeiramente novo, de maravilhoso, mas este processo não foi sem custos e sofrimento, significou também muita solidão e confronto com algumas pessoas que considerava amigas. Maria João Vaz partilha connosco este seu processo e embora tenha ocorrido tardiamente na sua vida, volto ao prefácio de André Tecedeiro, um homem trans, e transcrevo: “Não há solidão comparável à de vivermos longe de nós”. (pág. 7)

Num tempo em que as questões de género e a comunidade trans estão sob ataque mortal por parte da direita e extrema-direita, o conhecimento da realidade e da diversidade deverão gerar empatia e a quebra de preconceitos que se baseiam sobretudo na ignorância. Maria João Vaz foi muitas vezes aos EUA, país que sempre lhe provocou enorme atracção e até vontade de ser lugar para viver, mas, a certa altura, fruto dos ventos conservadores que dali sopram, escreve que hoje já tem pouca vontade de lá voltar. Compreende-se e lamenta-se que o mundo esteja a virar-se para o conservadorismo mais abjecto.

À autora e à coragem que reflecte ao longo deste livro autobiográfico, o meu respeito e solidariedade. A luta continua!

15 de Julho de 2025

Almerinda Bento



sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

"Confissões de Uma Livreira" de Nanako Hanada

Este título prendeu-me logo de início. Quem é apaixonado por livros e tudo o que lhes é intrínseco percebe facilmente a razão pela qual peguei nele. Li embrenhada mas fui detectando algumas situações que não me fizeram acelerar esta leitura. 

Creio que a principal razão foi o desconhecimento de quase todos os livros mencionados a maior pare deles não editados em Portugal. 

Mas contextualizando: a autora relata o seu percurso profissional que esteve quase sempre relacionado com o mundo dos livros e a sua paixão pelos mesmos. A sua inscrição, após o seu divórcio, num site de encontros e o propósito com que o fez (para além de ser obviamente conhecer pessoas) foram o ponto de partida de uma alteração na sua vida (sendo que o livro começa por aqui). Vai conhecendo pessoas e vai aconselhando livros que, acredita, essas pessoas podem gostar.

É um romance leve, autobiográfico que se lê bem. Pode-nos fazer reflectir sobre as ligações que surgem via net e no poder da leitura.

"Porque não podemos recomendar um livro a alguém que não conhecemos, não mesmo. E não podemos recomendar um livro se não o conhecermos bem. E, além disso, não podemos recomendar um livro sem termos um bom motivo. Temos de querer que aquela pessoa o leia, porque pensámos no significado que determinado livro terá para essa pessoa." pág. 52

Terminado em 3 de Outubro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse
A vida de Nanako Hanada não só estagnou - bateu mesmo no fundo.
À medida que a vida de Nanako se desmorona, ler livros é a única coisa que a mantém viva. Até que se inscreve num site de encontros que oferece 30 minutos com alguém que nunca voltará a ver.
Apresentando-se como uma «livreira sexy», propõe-se a recomendar o livro perfeito em troca de um encontro. No ano que se segue, Nanako conhece centenas de pessoas, algumas das quais procuram mais do que apenas um livro…
Confissões de Uma Livreira é uma ode ao prazer da leitura. Oferecendo um vislumbre do mundo livreiro no Japão e do lado mais excêntrico de Tóquio, esta é uma história sobre como os livros nos ajudam a criar laços com os outros — e a reencontrarmo-nos.

Cris


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

"Travessia de Verão" de Truman Capote

Estava curiosa com esta obra de Truman Capote, editada postumamente e escrita quando o autor ainda novo e posta de lado. Dele só li A Sangue Frio, que gostei muito, e daí a minha curiosidade. Sabendo que teria sido escrita, segundo li, quando teria aí uns 19 anos, estava consciente que, provavelmente não iria gostar tanto quanto o livro anterior.

E se na realidade assim foi, o que é certo é que entrei na história muito rapidamente o que para mim é uma mais valia grande. Grady McNeil, uma jovem de 17 anos, aproveitando uma viagem de seus pais resolve gozar o verão quente de Nova Iorque com o seu namorado recente e secreto. De classes sociais bem diferentes, Grady sente essas diferenças mas busca novidade e pretende rebelar-se sobretudo contra os pais e suas convenções sociais. As dúvidas existem e o leitor apercebe-se disso. A tensão sente-se também porque Truman consegue passar  para o leitor as diferenças de sentimento entre Clyde e Grady. Grady questiona-se interiormente. O ambiente social encontra-se, de igual modo, bem descrito, numa tensão entre mãe e filha, uma desejando controlar, outra desejando a independência própria da idade.

 Li sem no entanto me sentir marcada por esta obra. Com a minha memória de galinha e ao escrever esta opinião passados já bastantes dias pergunto-me "como foi mesmo o final?" Fui reler. ;)

Terminado em 1 de Outubro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse
Obra póstuma e inédita, "Travessia de Verão" é um primeiro romance precoce e seguro que mostra o sentido implacável de narração de um dos maiores escritores do século xx. Os seus fraseados imaculados, a sua crua ironia e a sua visão das subtilezas das diferenças de classe anunciam os futuros triunfos de Capote.

Digno de um lugar em qualquer estante de um leitor de Capote, este é, em todos os sentidos, um tesouro perdido e reencontrado.

Truman Capote nasceu em Nova Orleãs em 1924. Aos 17 anos trabalhava já como jornalista na revista The New Yorker. Em 1945 abandona a revista e publica o conto Miriam, na revista Mademoiselle, premiado com o Prémio O’Henry e que lhe valeu o aplauso, sem reservas, da crítica. Em 1948 publica o seu primeiro romance "Other Voices, Other Rooms", uma das primeiras obras em que se expõe abertamente o tema da homossexualidade.
A sua obra inclui, entre outros, o famoso romance "Breakfast at Tiffany’s" (1958), adaptado ao cinema num filme com Audrey Hepburn. "A Sangue-Frio", publicado em 1966, obteve um êxito estrondoso e gerou intensa polémica. É considerado a sua obra-prima, e iniciou um género denominado pelo autor como romance de não-ficção.

Cris

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

"Triste Tigre" de Neige Sinno

Já tinha lido e ouvido críticas muito boas sobre este livro. O tema, infelizmente, é sempre actual. A autora narra partes da sua vida, do abuso sexual que sofreu cometido pelo seu padrasto. Era miúda, tinha por volta dos 9 anos. Por isso não teve consciência do que lhe estava a acontecer.

A leitura desta obra é dolorosa, crua. Mas a sua escrita não foi fácil e isso transparece em cada linha escrita. Escrever torna-se necessário para ela. Ir ao fundo da sua memória, recordar, não deve ter sido fácil pese embora o leitor ao lê-la sente que nunca foi um assunto resolvido. Por isso a análise que a autora faz, dissecando os motivos, lembrando os acontecimentos numa tentativa de compreender a maldade a que foi sujeita. 

A literatura foi uma forma que encontrou de fazer uma catarse, de seguir a vida em frente. Uma obra autobiográfica diferente das que tenho lido onde se mesclam memórias e reflexões sobre o sucedido que fazem o leitor pensar sobre. Muito para além de narrar o que lhe aconteceu, a autora tenta mostrar como isso afectou a sua vida e lhe condicionou os caminhos, muito embora tenha combatido com resistência, arduamente, o sentimento de culpa que toda a vítima sente indevidamente. 

Não pude deixar de admirar como, já adulta, teve coragem de contar à mãe, enfrentá-la e acusar judicialmente o padrasto. Espantei-me também com os "motivos" invocados por este. É que há gente muito doente mesmo!!!

O trauma transformado em literatura, sabiamente. A escrita é intensa, honesta e dura. Neige Sinno soube dar voz, através da literatura, ao que silenciou durante anos. Leitura que, mais do que nos fazer pensar, pode ajudar outras pessoas que, calando, abafam a dor. 

Cita Annie Ernaux e Marguerite Duras, duas escritoras que abordaram traumas através da sua escrita.

Gostei muito e recomendo.

Terminado em 29 de Setembro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
A memória é vívida, mas essa memória tingiu todas as outras imagens, todos os acontecimentos, a vida.
Neige Sinno teria sete ou nove anos - a cronologia exata, essa, também está turva - quando o padrasto começou a abusar dela.
No corpo de Neige, em tudo o que é matéria ou espírito da mulher que se tornou, a memória exata do abuso permanece.
Calada, aos 19 anos, decide quebrar o silêncio, denuncia o agressor, passa pelo julgamento público, sai de França, depois da condenação.
E, depois, há este livro, que não queria escrever.
E, depois, há o passado que a alcança - e a certeza de que é preciso fazê-lo.
Este livro não é a história de uma criança que foi abusada; é a procura incessante e obstinada de Neige para encontrar a verdade sem adornos, por conseguir ouvir a sua voz real, por no-la fazer escutar, sem esquecimento, sem perdão, sem resiliência.
Neste lugar de intimidade, onde só ela e nós habitamos, não há Lolitas, não há reparação de danos, não há a retórica da vítima.

Em Triste Tigre - que Annie Ernaux disse ser o livro mais poderoso e profundo que alguma vez leu sobre uma criança devastada por um adulto -, há palavras exatas, há ternura, há violência, há a urgência de testemunhar coletivamente.
Porque, no silêncio e na solidão, o abuso acontece, mas o espaço físico que ocupa é o do resto da vida, e a sua dimensão negra torna-se um duplo que se sobrepõe a tudo.
Dialogando com os grandes nomes da literatura que mergulharam nesta dimensão, Neige Sinno escreveu um dos mais extraordinários, inclassificáveis e premiados livros dos últimos anos.

Cris