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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

"Lobos" de Tânia Ganho

Gostei muito dos dois livros anteriores da Tânia Ganho e tinha muita curiosidade em ler este, sobretudo porque sabia que a autora fazia voluntariado no Centro de Recuperação do Lobo Ibérico em Mafra e o que estava a escrever tinha a ver com lobos e com essa sua experiência.

Confesso que a leitura do "Apneia" me foi deixando, cada vez mais, em apneia, com uma revolta muito grande pelo que a personagem principal e o seu filho estavam a passar, principalmente porque as injustiças narradas constituem o dia a dia de muitas pessoas, ainda hoje. 

Com esta leitura de "Lobos" isso não aconteceu. Foi uma leitura mais calma mas não menos impactante. No cômputo final creio que ainda gostei mais deste. São tratados muitos temas actuais, que (nota-se!) têm por base uma profunda pesquisa sem que, contudo, o leitor sinta que a autora se limitou a despejar informação. E o que se aprende, senhores!!! Tanto conhecimento que nos é passado em matérias tão diversas e actuais!

Claro que, após ter lido o livro e ouvido a autora falar tão bem, numa apresentação, fiquei com vontade de ler "O Pintor de Batalhas" de Arturo Pérez-Reverte, livro que mora cá em casa há muito.  Nas primeiras páginas lê-se uma citação desse autor: "Há lugares de onde nunca se regressa". E este livro fala-nos precisamente disso, das vivências que vamos tendo nas nossas vidas, que nos marcam profundamente e as quais nos é difícil deixar ir, libertar.

A acção decorre, maioritariamente, no tempo da pandemia mas vai fazendo algumas analepses e focando-se em temas como a guerra, a pandemia, abusos sexuais, Alzheimer, consoante as personagens. Vamos conhecendo o seu passado e como ele influencia e marca o presente. 

Freda, Helena, Leonor, Stefan, Amélia, todos nos ficam no coração de uma forma ou outra. E o António? Personagem secundária que não se esquece mesmo. 

Gostei muito e recomendo. Venha o seguinte, Tânia!

Terminado em 24 de Junho de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse

Fedra passou mais de vinte anos nalguns dos piores lugares da Terra. Depois de ter estado no Ruanda, Kosovo, Iraque, Mali, a antropóloga forense regressa por fim a casa. O seu novo trabalho no Instituto de Medicina Legal obriga-a a mergulhar diariamente nas profundezas sórdidas da dark net, uma experiência irreparavelmente solitária.
Stefan vive na cabana que construiu numa floresta. Após décadas de nomadismo, o antigo repórter de guerra alemão leva uma vida de eremita, procurando na sua relação com a natureza um contraponto à crueldade humana que testemunhou.

Leonor, uma adolescente de 14 anos, isola-se no apartamento familiar, num bairro privilegiado de Lisboa, após ser vítima de um crime sexual. Helena, a mãe, revela-se incapaz de lidar com o trauma e refugia-se numa obsessão que ameaça destruí-la a ela e à filha.
Nos bastidores destas vidas que se entrelaçam, Amélia, uma mulher no limite da memória e da sobrevivência, guarda a chave de um mistério que poderá nunca ser desvendado.

O regresso de Tânia Ganho à ficção apresenta-nos pessoas que enfrentam os seus demónios num momento de viragem das suas vidas e do mundo. 

Cris 



quarta-feira, 28 de agosto de 2024

"O Meu Pai Voava" de Tânia Ganho

Ponto 1: Se a Tânia escrevesse uma lista telefónica, eu iria comprá-la e lê-la. 

Ponto 2: A frase anterior reflete o respeito e a admiração que tenho por esta autora e pela mestria da sua escrita. 

Ponto 3: Gosto muito de a ouvir falar, perco-me nas suas palavras. Ia de propósito a um clube de leitura na Biblioteca da Amadora, organizado por ela, e agora vou à Livraria Buchholz. Os temas escolhidos são sempre muito abrangentes e as opções de leitura são variadas. Ouvi-la é um prazer.

E agora sobre este livro...

Um livro num formato pequeno mas que revela tanto! Escrito de uma forma intimista, revelador de uma profunda admiração pelo seu pai, recentemente falecido, é um livro de memórias. As suas, porque a memória é algo muito próprio e pessoal, porque as outras pessoas que lidaram com ele terão certamente outras.

Foi um deitar cá para fora de acontecimentos, sensações e marcas sobre alguém que a autora amava. É um livro sobre o luto, a perda, sobre a doença, sobre o "nunca mais", sobre as lições deixadas através do exemplo. É sobre o amor, sobretudo!

E é com esse sentimento que se termina este livro. Amei! Capa belíssima (foto real).

"Depois deixou de encontrar palavras e apontava simplesmente.(...) As palavras foram-lhe morrendo, uma a uma, até restar o silêncio. Um silêncio impotente e aterrador. Deixou de sorrir com os olhos." Pág. 30

"(...) mas ensinou-me essa lição, que infelizmente, noutros momentos da minha vida, ignorei: Ouve a tua intuição." Pág. 74

Terminado a 19 de Julho de 2024

Estrelas: 6*

Sinopse
"Não sei para quem escrevo estas palavras.
Para ele, talvez.
Desde que morreu, escrevo sem parar.
Escrevo para recuperar o fulgor com que ele viveu."

Cris

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

"Apneia" de Tânia Ganho

AVISO: Este livro deve ser lido em doses homeopáticas! Expresssão utilizada por uma amiga livrólica que traduz lindamente a carga emocional que esta obra transporta e que passa para o leitor!


Eu sei que são 700 páginas, que é um tijolo (tenho o livro físico, oferecido por outra amiga livrólica, mas li-o em ebook) mas a primeira recomendação que faço é que o devem ler, a segunda é que o façam em doses reduzidas em cada dia. Não é para estômagos fracos, nem para pessoas que queiram um romance cor de rosa. Mas, quem quiser tomar conhecimento da dor que algumas pessoas passam (neste caso uma mulher) nos processos de custódia dos filhos, na dor infligida às crianças inocentes que são manipuladas pelos pais e de como são vitimas de guerras onde impera o ódio, então devem lê-lo!

Estou a escrever a quente! Acabei de ler há pouco. Prefiro assim, quando as palavras se revoltam cá dentro e que têm dificuldade em sair... Não achei repetitivo nem exaustivo este livro. Achei necessário! São páginas e páginas que refletem o ódio, o desamor, a lentidão da justiça portuguesa, o não querer tomar decisões, o "deixa andar" à espera que algo ocorra. O agir depois em vez de prevenir! 

Como disse no meu IG, Tânia Ganho sabe escrever! Ponto. Mas a que preço? Não imagino sequer o que lhe custou escrever este livro. Ou melhor, penso que não o poderá ter feito sem sair oprimida nem sufocada com as suas próprias palavras. E a razão é muito simples: a história pode ser ficção para muita gente, pode ser inventada, mas para muitas pessoas é a história da sua vida. E isso pesa no leitor e há-de ter pesado na Tânia quando, ela também, se viu obrigada a mergulhar nesta história. É que, se o leitor consegue dividir o livro aos poucos (li em conjunto com um grupo de amigas uma média de 30 páginas por dia) e consegue acabá-lo nos meros 23/24 dias, a autora demorou... quanto tempo a escrevê-lo?

Nas últimas 100 páginas o ritmo acelerou de tal forma que não consegui mantêr a leitura nessas doses homeopáticas, tendo que acabar rapidamente a leitura para terminar com o sufoco.

Um grito, um alerta! Que chegue a quem de direito! Muito bom! Recomendadíssimo!

Nota: Não sei se "conhecem" a Tânia! Mas a sua escrita é simplesmente fabulosa, sem floreados desnecessários, direta e tão, mas tão, verdadeira! E este não é o seu primeiro livro, não. Pesquisem e leiam-na! A sua escrita merece! 

Terminado em 19 de Setembro de 2020

Estrelas: 6*

Sinopse

Quando Adriana ganha finalmente coragem para sair de casa com o filho de cinco anos, pondo fim ao casamento com Alessandro, mal pode imaginar que o marido, incapaz de aceitar o divórcio, tudo fará para a destruir – nem que para isso tenha de destruir o próprio filho. APNEIA é uma viagem ao mundo sórdido da violência conjugal e parental, através de um labirinto negro em que os limites da resistência psicológica são postos à prova, ameaçando desabar a qualquer instante, e dos meandros tortuosos de uma Justiça por vezes incompreensível, desumana e desfasada da realidade. Escrito com uma sobriedade e frieza inquietantes, APNEIA é um romance intenso, absorvente e perturbador, que ilustra com uma autenticidade desarmante o estado de guerra em que vivem milhares de famílias estilhaçadas, e com o qual, inevitavelmente, muitos leitores se vão identificar, encontrando nestas páginas ecos da sua própria experiência.

Cris

sábado, 7 de julho de 2012

A mulher-casa de Tânia Ganho


Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 376
Editor: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04594-2
Coleção: MARCA D'ÁGUA

Espectacular este romance! Gostei mesmo muito. A escrita desta autora surpreendeu-me. 

Cheia de pormenores, de quem conhece Paris intimamente e nos quer transmitir esse conhecimento tão ínfimo, tão cheio de cores, de cheiros, de sabores, de toques, mas também de barulhos e de sons mais agrestes, de espaços e locais verídicos, movimentados.

As descrições tão intensas levam-nos a vivenciar e partilhar os sentimentos da personagem principal, Mara, sentindo e dividindo com ela as sua dúvidas, incertezas e temendo as suas decisões.


Às vezes queremos que a vida e os sentimentos das pessoas sejam a duas cores, ou preto ou branco. Ou sim ou sopas! E isso não é assim porque se trata da Vida e das suas formas múltiplas de estar nela e a viver.
Existe, de facto, um leque de cores variadas como se retratasse a multiplicidade de sentimentos que podem coabitar numa única pessoa. Isto é bastante visível nesta leitura porque Mara avança e recua nas suas decisões, num processo de crescimento que é habitual num ser humano.

Os seus estados de alma estão muito bem caracterizados, sem pudor mas também repletos de uma honestidade e verdade que dá nas vistas ao leitor que se mantém atento e interessado. Mara sente solidão, amor, indecisão. Nós sentimos também. É um prazer e uma explosão de sentidos que se sente ao ler este livro. Aconselho!


Um dos factores que me levou a dar nota máxima foram as inúmeras vezes que senti uma verdadeira inserção na vida real quer pelos aspectos focados anteriormente como pelas referências a factos verídicos que se mesclam na história com verdadeira mestria.


Li desta autora a "Lucidez do amor". Muito bom! Veja aqui!

Terminado em 2 de Julho de 2012

Estrelas: 6*

Sinopse

Ela é uma modista de chapéus pouco conhecida; ele, um ghostwriter de políticos menores e personalidades duvidosas. Quando trocam a pacata Aix-en-Provence pela imponente Paris, levam consigo toda uma bagagem de sonhos e promessas de glamour. Porém, o crescente sucesso profissional do marido depressa reduz Mara ao papel de mãe e dona de casa, arrastando-a para um abismo de solidão e desencanto.

É então que se envolve com Matthéo, um jovem chef mais novo do que ela, e de súbito se vê enredada numa espiral de sentimentos contraditórios onde a lealdade, a luxúria e o dever encerram as agonizantes perguntas: poderá uma adúltera ser uma boa mãe? Poderá ela esperar que este amor proibido a salve de si mesma e da sua falta de fé?

domingo, 1 de agosto de 2010

A lucidez do amor de Tânia Ganho



Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 320
Editor: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04297-2
Colecção: MARCA D'ÁGUA



Bem escrito, este romance. Mantém-nos no suspense, como se estivéssemos num tempo que parou, um tempo de espera, sentimos que algo vai acontecer a Michael e a Paula, protagonistas desta história...

O presente é intercalado com o passado. Viramos as páginas com a sensação de que é na seguinte que se vai dar "o desastre"!

Transparece neste romance toda a pesquisa que a autora realizou sobre temas que vão desde as técnicas da pintura e ilustração, passando pela guerra colonial na Guiné Bissau e pela recente guerra no Afeganistão, como também por hábitos culturais, que ainda subsistem, que inferiorizam a mulher face ao homem, como por exemplo: o impedimento de serem tratadas por médicos-homens e a excisão de meninas. Temas actuais que nunca é demais lembrar.

Gostei muito!

Terminado em 1 de Agosto de 2010

Estrelas: 4*

Sinopse

Esta é a história de Michael e Paula, cujas vidas se vão desenrolando em paralelo, numa pequena aldeia de França e numa base internacional no meio do deserto tajique, separados por quatro meridianos e cinco mil quilómetros de distância.

Uns meses depois do 11 de Setembro, Michael Adam, piloto da Força Aérea francesa, é enviado para o Afeganistão no âmbito da luta contra o terrorismo. Passados quatro anos, parte novamente em missão, mas desta vez com plena consciência da natureza letal do seu trabalho. É com o inquietante pressentimento de que poderá não regressar a casa que se despede da mulher, Paula, e do filho recém-nascido. Atirada para um mundo sem homens, Paula é obrigada a tornar-se mãe solteira e a criar laços de amizade com o heterogéneo grupo de mulheres que a rodeia e que vive ao ritmo do toque do telefone - até ao dia em que as linhas ficam mudas…

Baseado em quatro personagens profundamente humanas e complexas - o piloto estranhamente supersticioso com licença para matar, a sua mulher artista e impressionável, a sogra africana, sábia e marcada para toda a vida, e o sogro amargo que carrega um pesado segredo dos seus tempos de guerra na Guiné-Bissau -, A Lucidez do Amor é um romance inquietante e cheio de suspense, que questiona o significado do amor, explorando as diferenças que nos separam uns dos outros, mas que podem também unir-nos irrevogavelmente.

Soltas...

"Como é que se pode viver depois de perder um filho? E, no entanto, vive-se. Sobrevive-se."

"Para que uma relação entre duas pessoas aparentemente opostas resulte (...) é preciso que cada uma delas descubra os pormenores que tornarão o seu mundo cativante aos olhos da outra."

"De repente, tem noção de que nada controla na vida, que, por mais que se esforce, por mais que planeie o futuro, haverá sempre alguma coisa no presente que escapa ao seu comando."

"(...) quer tê-los à distancia de um passo, um olhar, um carinho, e nunca os deixar sair de casa de manhã com uma briga em suspenso, uma discussão a meio, um silêncio mal esclarecido."

"Dizem que o amor é cego, mas é a paixão que não vê defeitos e incoerências. O amor é lúcido, vê as falhas e as contradições e, apesar disso, subsiste."