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segunda-feira, 20 de julho de 2026

"No Meu Fim Está O Meu Começo" de Filipa Martins

Como eu gostei deste livro! Surpreendeu a escrita cuidada mas tranquila ao mesmo tempo. Os temas de fundo são introduzidos com tempo e, por vezes, quase devagar. Sem darmos conta, avançamos na leitura e apercebemo-nos de uma frase, de algo deixado cair que explica uma determinada situação.

A narradora, Isabel, fala-nos da doença incapacitante da mãe, Alzheimer, e a sua degeneração cognitiva. Lentamente ela vai perdendo a memória mas ao mesmo tempo começa a revelar um passado escondido através de frases que se lhe escapam. Isabel, ao mesmo tempo, relembra o seu passado. Sempre se viu no papel de cuidadora e sendo enfermeira assumiu esse papel também em adulta. Os seus sentimentos em relação a isso passam por momentos de desânimo e cansaço e, depois, culpa. 

O final desta história é como na vida. Muitas vezes não há respostas para tudo. No passado revisitado encontram-se os meios para analisar, perceber e aceitar. No fim de qualquer ciclo pode estar o começo de outro. A perda da memória da mãe é seguida, ao mesmo tempo, pelo recordar de Isabel. Toma consciência do seu passado e das feridas que ele lhe traz. O pai ausente, a pobreza vivida, a sua fiha que por ter a cor da pele diferente da dela sofre questões raciais.

(Re)começar passa por compreender o passado para decidir como se pretende viver o presente e o futuro. Passado e presente aqui numa simbiose perfeita mas que, contudo, o leitor distingue facilmente. As 6 estrelas são devidas tanto pela qualidade da escrita como pela forma como está articulada a narrativa, precisamente essa mudança do presente para o passado e vice-versa. Analepses perfeitas.

Memória familiar e, como pano de fundo, a memória histórica de um Portugal no antigo regime.

Livro que hei-de reler um dia porque vale muito a pena! Recomendo.

Terminado em 26 de Maio de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
A memória como um território instável. A persistência dos laços quando já não há palavras que os possam descrever. Isabel, enfermeira, acompanha o declínio cognitivo da mãe enquanto é forçada a revisitar a sua própria história.

A infância num bairro periférico, o trabalho precoce, a formação no hospital, o casamento falhado, a maternidade atravessada por tensões raciais e a figura ambígua de um pai ausente emergem como farrapos ainda vivos, nunca totalmente resolvidos. Cuidar torna-se um gesto ambivalente, simultaneamente técnico e afetivo, exercício de sobrevivência e de exaustão.

A doença instala-se não apenas como condição clínica, mas como metáfora de uma herança coletiva feita de silêncios, violência normalizada e adaptação contínua. A memória materna que se desfaz convoca as estratégias de esquecimento que atravessaram gerações e um país, pondo em causa a ideia de progresso, de redenção e de linearidade do tempo.

O fim deixa de significar apenas perda e passa a ser também um lugar de revelação. 

Cris

terça-feira, 20 de março de 2018

"Na Memória dos Rouxinóis" de Filipa Martins

Com uma capa perfeita, sóbria mas belíssima, este livro despertou logo a minha atençāo. Nāo conhecia a autora, embora este tenha sido, segundo creio, o seu quarto romance. 

Fui conquistada pela escrita. Muito. Bonita, cuidada, quase poética, daquele tipo de se querer voltar a trás e reler, mas, ao mesmo tempo, crua e intensa. Foi um bom começo. Depois confesso que a história levou o seu tempo a entrar. Sou irrequieta nas leituras, o meu cérebro precisa de algo muito fluente para se manter sossegado e nāo divagar. Talvez por isso custou-me a permanecer no livro. Agora que a história faz parte de mim, precisava de voltar ao início e reler algumas partes. Posso ter perdido algo e nāo gostava que assim fosse...

Às vezes, há livros dificeis para nós. Nāo maus (esses largo-os, abandonando-os!), mas dificeis. E eu insisto na leitura, teimosa, porque quero saber o que se vai passar, como acaba. Com este foi um pouco assim! Fiz bem em continuar (outra coisa nāo me passou pela cabeça!).

Gostei, de igual modo, logo no início, de me ter equivocado com o sexo de um personagem, neste caso daquele que é também o narrador. Por nada ser explícito (como por exemplo os tempos verbais) intuí erradamente que o narrador era... Mas pronto! Nāo vos digo mais porque pode ser que sintam o mesmo que eu e que gostem de ser surpreendidos!

Passado e presente. A vida do narrador e a vida de Jorge Rousinol, "o Sete". Um biógrafo e um biografado. 

Terminado em 17 de Março de 2018

Estrelas: 4*

Sinopse
Um romance extraordinário, feminino (embora sobre homens), em torno de um matemático que encomendou a sua biografia antes de morrer.
Jorge Rousinol é um matemático galego, que sempre defendeu o esquecimento como o melhor veículo para a tomada de decisões acertadas. No final da vida encomenda uma biografia sua a uma casa editora. Estranha decisão para quem nunca quis recordar. O biógrafo escolhido acaba por ser alguém com quem privara décadas antes e que se vê, ele próprio, enleado em memórias moribundas.

É um romance em três tempos (o do passado do biografado, o do passado do biógrafo - e o do presente, que os une), que vê no arrependimento outra forma de se lidar com as recordações. Biógrafo e biografado conseguirão, em parte, o que pretendem: não se trata de esquecer, mas sim de escrever uma confissão. Uma escrita fantástica, inesperada, inovadora - de uma leveza surpreendente. Diálogos muito bem escritos, sensuais. Incursões pela magia dos números primos. Desenlace inesperado.

Cris