Gosta deste blog? Então siga-me...

Também estamos no Facebook e Twitter

Mostrar mensagens com a etiqueta Olivier Rolin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Olivier Rolin. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 25 de maio de 2015

"O Meteorologista" de Olivier Rolin

Existem pessoas que, através dos seus feitos, ficam conhecidas na História. Muitas, infelizmente, não pelos melhores motivos. Estaline foi uma delas. Outras há que passam despercebidas. Quantos feitos heroicos terão realizado sem que ninguém se tenha apercebido? Quantas acções terão sido abafadas porque ninguém soube o que se passou?

Este livro, um misto de romance e ensaio, fala-nos disso. De um homem que hoje quase ninguém conhece e que até só queria viver uma vida dedicada à família (mulher e filha de quatro anos) e ao conhecimento. Alexei Feodossevitch Vangengheim, o meteorologista, acreditava no "socialismo" e nos ideais do partido. Foi nomeado para a direcção do Serviço Hidrometeorológico Unificado da URSS. Membro do Partido, burguês comunista, é um fiel seguidor da sua ideologia. Acreditava que sendo competente servia o seu Partido e o povo.

A 8 de Janeiro de 1934, Varvara Kurgusova, sua segunda mulher, espera em vão à porta do teatro Bolshoi. Alexei é preso. Sem se dar conta o círculo foi-se fechando à sua volta. As prisões sucedem-se em catadupa. O terror estalinista envolve tudo e todos. Ninguém fica a salvo. Quem hoje prende, amanhã é preso.

Mesmo depois de ter sido injustamente acusado de conspirador, acreditava que o erro seria desvendado em breve. Mas os dias foram passando, levado que foi à força para as Ilhas Solavki, onde permaneceu por alguns anos. Pelas cartas apercebemo-nos que Alexei nunca perdeu realmente a fé no reconhecimento da sua inocência mas podemos questionarmo-nos até que ponto isso seria verdade...

Alexei não mais voltará. Não se apercebe que o seu desfecho já estava decidido por mais que envie cartas aos membros do Partido explicando a sua inocência e pedido que o erro seja reconhecido. Escreve também à sua esposa e envia desehos para a sua filha Eleonora de quatro anos, com o intuito de a ensinar e para que ela não o esqueça. São desenhos de herbários geométricos e aritméticos, de animais e bagas, de adivinhas que sua filha guardou ciosamente e que ilustram as últimas páginas deste livro. Lindos e cheios de pormenores.

São partes dessas cartas que se encontram neste livro e alguns dos desenhos também. É parte da vida de um inocente que aqui se retrata que vale a pena ler. Um dos muitos de que a História não faz juz.

 Aconselho.

Terminado em 18 de Junho de 2015

Estrelas: 5*

Sinopse

A sua ocupação eram as nuvens. Sobre a imensa extensão da URSS, os aviões tinham necessidade das suas previsões para aterrar, os navios para abrir caminho através dos gelos, os tratores para lavrar as terras negras. Na conquista do espaço que se iniciava, os seus instrumentos sondavam a estratosfera, ele sonhava domesticar a energia dos ventos e do sol, acreditava «construir o socialismo», até ao dia de 1934 em que foi detido como «sabotador». A partir desse momento a sua vida, a de uma vítima por entre os milhões de outras do terror estalinista, foi uma descida aos infernos.
Durante os anos no campo de concentração, e até à véspera da sua morte atroz, ele enviava à pequena filha Eleonora desenhos, herbários, adivinhas. É a descoberta dessa correspondência destinada a uma criança, que ele não mais voltaria a ver, que me levou a investigar sobre o destino de Alexei Feodossevitch Vangengheim, o meteorologista. Mas também a convicção de que estas histórias de um outro tempo, de um outro país, não são tão longínquas como poderíamos pensar: o triunfo mundial do capitalismo não se explica sem o fim terrível da esperança revolucionária.
Olivier Rolin

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Escolha do Jorge: O Meteorologista

Olivier Rolin (n. 1947) apresenta-nos no seu mais recente livro "O Meteorologista" que poderá ser lido num misto de romance histórico e ensaio. Partindo de dados verídicos sobre Alexei Feodossevitch Vangengheim (1881-1937), o escritor francês começa por relatar-nos como surgiu o desejo de investigar sobre a vida e destino daquele que foi o primeiro director do Serviço Hidrometeorológico da URSS, em 1929, passando pela sua detenção, em 1934, altura em que é deportado para um Gulag numa das ilhas do arquipélago Solovki, no Mar Branco, até ao seu desaparecimento, em 1937.
É precisamente em 2010 na sequência da visita de Olivier Rolin ao arquipélago Solovki que o escritor trava conhecimento com Antonina Sotchina que lhe deu a conhecer um álbum com a reprodução das cartas que o meteorologista Alexei Feodossevitch enviava à sua filha Eleonora juntamente com desenhos de grande qualidade (que vêm no final deste livro) feitos durante o tempo em que permaneceu no gulag. "Havia herbários, desenhos feitos com traço firme, ingénuo e claro, coloridos com lápis ou aguarela. Via-se uma aurora boreal, gelo marinho, uma raposa preta, uma galinha, uma melancia, um samovar, um avião, barcos, um gato, uma mosca, uma vela, pássaros… Através das plantas, o pai ensinava à filha os rudimentos da aritmética e da geometria. Os lóbulos de uma folha figuravam os números elementares, a sua forma, a simetria e a dissimetria, uma pinha ilustrava a espiral." (p. 16)
É desta forma que os dados estão lançados para o nascimento de um livro que embarca no encalço de um homem que foi vítima da loucura estalinista à semelhança de vários milhões de russos que sucumbiram ante o terror que se instalou na URSS durante a década de 30 do século passado.
Deste modo, "O Meteorologista" não só tenta fazer justiça face a um período negro da História da ex-URSS que vitimou milhões de concidadãos, repondo a verdade, neste caso em concreto, sobre a inocência de Alexei Feodossevitch que se vem a comprovar, sendo igualmente uma forma de, uma vez mais, compreendermos que os assassinatos em massa na URSS durante o período estalinista tiveram, afinal de contas, um peso semelhante ao número de vítimas de judeus durante a 2ª Guerra Mundial ainda que, ainda hoje, o impacto seja substancialmente menor, (in)compreensivelmente, como se o valor da vida humana tivesse um peso e medida diferentes mediante a região do globo onde se perpetraram tamanhos atos de loucura assassina.
Impossível não ficar preso a este livro com a leitura das primeiras linhas em que Olivier Rolin nos apresenta um Alexei Feodossevitch completamente apaixonado pela natureza e pela necessidade de a compreender através de forma científica. "A sua ocupação eram as nuvens. As longas penas de gelo dos cirros, as torres florescentes dos cumulonimbus, os trapos esfarrapados dos estratos, os estratocúmlos que encarquilham o céu como as pequenas ondas da maré a areia da praia, os alto-estratos que se tornam véus do Sol, todas as grandes formas que andam à deriva orladas de luz, os gigantes de algodão donde caem chuva e neve e trovoada." (p.11)
O contributo de Alexei Feodossevitch conduziu, a partir de 1930, à institucionalização do boletim meteorológico com vista ao desenvolvimento da economia da URSS assente na agricultura que, segundo o autor, visava a "construção do socialismo e, mais precisamente, da agricultura socialista". (p. 27) "A parte que lhe cabia na construção do socialismo era essa: ajudar o proletariado revolucionário a dominar as forças da Natureza." (p. 42)
À medida que Alexei Feodossevitch Vangengheim vai fazendo carreira como meteorologista e face aos cargos relevantes que vai desempenhando ao serviço da consolidação do socialismo, é provável, segundo o autor, que as suspeitas da polícia política tenham aumentado enquanto o terror estalinista alastrava, não poupando ninguém, nem mesmo aqueles ligados às altas esferas do Partido que acabaram também por ser eliminados, sempre que necessário.
É neste contexto que Alexei Feodossevitch é preso em 1933 no seguimento de uma denúncia que comprovava a existência de uma organização contrarrevolucionária afeta ao Serviço Hidrometeorológico que tinha como objetivo criar "previsões conscientemente falsas, no intuito de prejudicar a agricultura socialista, e a desorganização ou destruição da rede das estações, nomeadamente aquelas cujo objetivo era combater as estiagens (…)." (p. 57)
Alexei Feodossevitch não vê alternativa senão em confessar aquilo que não é verdade, perante situações concretas de espancamento, humilhações e ameaças à família durante os interrogatórios.
Assim, entre 1934 e 1937, Alexei Feodossevitch encontra-se num Gulag, numa das ilhas do arquipélago Solovki, para onde foi deportado. Durante o período em que está preso, Alexei Feodossevitch refere várias vezes, nas cartas dirigidas à sua esposa, frases como "(…) Escrevi ao camarada Estaline que não perdi e que nunca perderei a confiança no Partido" (p. 68) ou "A minha confiança no poder soviético não está de modo algum abalada" (p. 81), o que segundo o autor, Alexei Feodossevitch Vangengheim "continua a ser um bom militante comunista, um bom soviético empanturrado de ideologia, o destino que o espera, e que não será o único a conhecer, não parece abalar as suas convicções. (pp. 84-85).
Durante este período, para além das tarefas diárias a que Alexei Feodossevitch está sujeito, também se dedica a desenhar para a filha como já foi dito no início do texto, a ler e a observar a natureza à sua volta e sempre com um olhar científico, fazendo jus à sua profissão de meteorologista, acompanhando, deste modo, a cadência das duas únicas estações do ano, o inverno e o verão, naquela ilha das Solovki.
Alexei Feodossevitch acaba por "desaparecer" no contexto do período que ficou conhecido por "Grande Terror" (1937-1938) em que o estado soviético, sob as orientações de Estaline, perseguiu milhões de concidadãos, cumprindo, deste modo, as quotas de assassinatos por região e república da URSS.
Face ao desejo de se fazer justiça, assim como de se repor a verdade em torno do meteorologista, Olivier Rolin investiga ao máximo tudo o que tem que ver com este indivíduo, articulando-se com alguns elementos do Memorial, uma espécie de associação ligada às vítimas do terror estalinista.
Em "O Meteorologista", Olivier Rolin capta a atenção do leitor para esta história apaixonante e que, através dela, confirmamos, uma vez mais, o quão longe foi o estalinismo.