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quinta-feira, 30 de julho de 2026

A Convidada escolhe: "O Quarto de Giovanni"

“O Quarto de Giovanni”, James Baldwin, 1956 

Há muito que tinha o nome de James Baldwin como referência da literatura americana do século passado e voz forte na luta pelos direitos cívicos, contra o racismo e a homofobia. Acontece que foi através de “O Quarto de Giovanni” que me estreei na leitura deste autor negro e homossexual e, embora neste livro as suas personagens não sejam negras, ele versa a homossexualidade e a homofobia. Se nos dias de hoje os direitos da comunidade homossexual já fizeram um grande caminho, em meados do século passado, quando James Baldwin escreveu este livro, a homossexualidade ainda era criminalizada e patologizada em muitos países do mundo, nomeadamente nos Estados Unidos da América. 
David, o narrador, teve em jovem uma relação ocasional homossexual que quis esquecer. Vergonha, medo, a impossibilidade de esquecer essa experiência levam-no a decidir deixar os EUA e partir para França, numa tentativa de fugir do seu próprio eu. Tentativa vã. É com desconforto e amargura que vive a sua condição homossexual, incapaz de resistir, numa postura ambivalente de culpa e ódio, sonhando por libertar-se e seguir uma vida heteronormativa, ao mesmo tempo que reconhece que toda a vida não mais fez que mentir a si próprio. Esta condição de homofobia internalizada está muito bem retratada neste narrador contraditório que tenta sobreviver, ajustando-se a uma sociedade hipócrita, preconceituosa, homofóbica e profundamente misógina.
O próprio quarto de Giovanni, com o qual David tem uma relação breve, pode ser considerado uma personagem que ajuda a caracterizar o desconforto homofóbico do narrador - sujo, desarrumado e sem privacidade – mesmo que Giovanni o tente “melhorar”, criando um espaço na parede para arrumar livros… 
Não posso deixar de referir o final do livro, a condenação de Giovanni apenas aflorada e não explicitada na primeira parte, episodicamente referida ao longo do livro, que é descrita pelos olhos de David, enquanto faz as malas e se prepara para partir: os últimos momentos de Giovanni prestes a ser executado pela guilhotina. Brutal e magistral. Pensar que a pena de morte pela guilhotina só foi abolida em França em 1981!
“… Talvez não goste muito de mulheres, na verdade. Mas isso não me impediu de fazer amor com muitas e de amar uma ou duas. Mas a maior parte do tempo… a maior parte do tempo fiz amor apenas com o corpo. 
- Isto parece-me muito solitário – disse. Não tinha de todo previsto dizer isto.
E ele não esperava ouvi-lo. Olhou para mim, ergueu a mão e acariciou-me o rosto.
- Sim, e não estou a querer ser méchant quando falo de mulheres. Respeito, e muito, as mulheres, pela sua vida interior, que não é como a de um homem.
- As mulheres não parecem gostar dessa ideia.
- Oh, essas mulheres absurdas que andam agora por aí, cheias de ideias e de disparates julgando-se iguais aos homens, quelle rigolade!, precisam se ser copiosamente espancadas para perceberem quem manda no mundo.
Ri.
- As mulheres que conheceste gostavam de ser espancadas? 
Ele sorriu.
- Não sei se gostavam. Mas uma sova nunca as fez fugir. – Rimo-nos ambos. “
(pág. 94)

10 de Junho de 2026 

Almerinda Bento
 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A Convidada escolhe: Viver com Homens - Reflexões sobre o Caso Pelicot

“Viver com Homens: Reflexões sobre o Caso Pelicot” – Manon Garcia, 2025

“Viver com Homens: Reflexões sobre o Caso Pelicot” é um importante trabalho etnográfico de extrema actualidade, num tempo em que impera o ódio às mulheres e a impunidade dos discursos misóginos ampliada livremente pelas redes sociais. A autora, Manon Garcia é uma filósofa e pensadora feminista com estudo e reflexão sobre questões feministas e sobre “submissão” e “consentimento”, que sentiu a urgência de escrever sobre este caso que abalou a sociedade e que ela acompanhou ao longo dos cerca de quatro meses que demorou o julgamento de Dominique Pelicot e dos cinquenta arguidos que violaram Gisele, com a conivência do marido. 

Antes do mais, quero referir a coragem de Gisele Pelicot, ao decidir que o seu caso não seria julgado à porta fechada, dado o melindre da situação. Foi ela que, depois de visionar os vídeos que o marido fizera ao longo de anos, organizados metodicamente e que identificara com o nome “Abusos”, decidiu que o julgamento tinha de ser público. Claro que a isso não é alheia a existência do movimento #Me Too e dos movimentos feministas que permitiram uma atitude que seria altamente improvável num contexto em que a força das organizações e dos movimentos feministas não existisse. “Desde o início do processo, Gisèle Pelicot é descrita às portas do tribunal como uma heroína, um ícone, uma mulher de uma rectidão sem igual.” (pág. 119) Se Gisèle Pelicot pode ser considerada “uma boa vítima” – é uma mulher de idade, educada e sabe falar a linguagem das instituições policial e judicial – a verdade é que houve momentos em que a justiça a tratou mal, insinuando que ela teria consentido, para além da “vitimização secundária” a que foi sujeita e que a levou a fazer esta afirmação: “Tenho a impressão de que a culpada sou eu, e que atrás de mim estão as cinquenta vítimas.” (pág. 122)

Provavelmente este caso de violações colectivas não teria sido descoberto, se Dominique Pelicot não tivesse sido “detido quando filmava por baixo das saias de mulheres no Intermarché de Carpentras. O vídeo do segurança que o interpelou nesse dia tornou-se viral: sem ele o caso Mazan não existiria, sem ele Gisèle Pelicot talvez tivesse acabado por morrer em consequência das enormes doses medicamentosas que o marido lhe ministrava.” (pág. 105) E isto leva-nos a pensar no que fica no silêncio, no que nunca se vem a saber, para além do que nunca é denunciado, do que nunca é punido. Este caso de violação colectiva com inúmeras provas concretas, que foi julgado e punido, veio ligado à suspeita de incesto que ficou por apurar relativamente à filha e às noras de Dominique, por falta de provas. 

O caso Pelicot altamente mediatizado é um problema social e não um mero episódio. O ódio às mulheres passou a ser explícito e largamente difundido a partir de influenciadores com milhares de seguidores em várias plataformas e redes sociais.  Refutamos a culpabilização das mulheres na sua luta pela igualdade, na não aceitação da submissão como comportamento expectável, normalizado e banalizado. No capítulo “Masculinidade(s)”, Manon Garcia faz referência a um jovem neonazi trumpista que escreveu na plataforma X, no próprio dia da eleição de Trump, o slogan “Your body, my choice”, num claro ataque ao direito ao aborto, o qual teve cem milhões de visualizações. Num artigo de opinião de Luísa Semedo, investigadora, doutorada em Filosofia Política e Ética, de 14 de Maio no jornal “Público” – O que “eles fazem entre quatro paredes” (não me) interessa? – a cronista escreve: “É o caso dos grupos de Whatsapp e Telegram em que homens como Dominique Pelicot drogam, violam, filmam as companheiras, mas também partilham as imagens. Em março de 2026, uma investigação da CNN revelou o que ficou conhecido como a «online rape academy», um espaço em que homens de vários países trocavam conselhos sobre sedativos e dosagens, partilhavam vídeos de mulheres inconscientes e vendiam o acesso a esses conteúdos. Em Portugal, o PÚBLICO documentou um grupo de Telegram, com perto de 70 mil membros, em que circulavam imagens de mulheres fotografadas sem o seu consentimento, muitas vezes enquanto dormiam, num dos tópicos mais ativos chamado “Esposas” ou ainda “Família” ou “Espiar em Casa”. Assustadoramente, confirma-se que o lugar mais inseguro é mesmo dentro de casa e que “saber e ver-se como violável de um momento para o outro é uma experiência específica da feminilidade. As raparigas e as mulheres são criadas com a ideia de que a ameaça está sempre lá, que têm de se adaptar, não podem andar sozinhas na rua, não podem ser demasiado sexy, têm de andar depressa, baixar os olhos, curvar o peito, não sorrir. Ter cuidado com o número de copos que bebem quando saem, não deixar sozinha a amiga alcoolizada, verificar a matrícula do Uber. «Mandas-me mensagem quando chegares?»” (pág. 139) pode ler-se no capítulo “Violável”.

O livro é perturbador e bastante completo na caracterização da personalidade perversa, doentia de Dominique Pelicot. Se na mensagem enviada para angariar violadores “Procuro cúmplice perverso para abusar da minha mulher adormecida, em violação colectiva, em minha casa. Ela toma todos os dias um comprimido para dormir, nem sequer te verá. Bela puta pudica que não quer trios” (pág. 63) Dominique mostra absolutamente ao que vai, colaborando activamente com os violadores, igualmente se mostra colaborador com a justiça em todo o processo, referindo-se a Gisèle como “o seu amor, a sua santa, que não ama outra mulher senão ela, que a deveria ter protegido…” (pág. 132), mantendo ao longo dos quatro meses do processo sempre o mesmo discurso “Sou um violador como estes que estão presentes nesta sala.” (pág. 131) e uma postura firme e destacada qual “rei Pelicot.” (pág. 134)

Termino valorizando o interesse e importância política da publicação deste livro de Manon Garcia pela Zigurate. Deveria fazer parte da bibliografia de qualquer pessoa que se interesse pelas questões do feminismo e do patriarcado. É um livro profundamente honesto em que a própria autora, com toda a sua formação teórica se mostra frágil,  abalada e exausta, enquanto observadora atenta deste processo, em que sentiu dúvidas, em que por vezes tomou partido contra a sua própria vontade, movida pela emoção e caindo na armadilha da cultura machista em que vivemos desde que nascemos.

Um livro que recomendo muitíssimo e que agradeço à minha amiga insubmissa que mo ofereceu. Obrigada Manu. 

18 de Maio de 2026

Almerinda Bento

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Convidada escolhe: A Filha Obscura

“A Filha Obscura” – Elena Ferrante, 2006

Depois de ter lido há alguns anos a famosa tetralogia “A Amiga Genial” e posteriormente “Escombros”, chega agora a vez de “A Filha Obscura”, integrado na colectânea “Crónicas do Mal de Amor” da Relógio D’Água.

Esta leitura insere-se na reflexão iniciada na sequência do curso “Subversão: a maternidade na literatura e na cultura” ministrado por Rosa Azevedo e Joana Neves na livraria Snob. Curso que, sem dúvida, me pôs a pensar sobre um conceito que foi desconstruído, analisado e olhado sob vários ângulos e perspectivas e o qual nunca mais se conseguirá ver duma forma tão plana e singela como a sociedade patriarcal e capitalista quer que seja percepcionado. 

Digamos que “A Filha Obscura” me recordou alguns trechos de “A Amiga Genial” e consegue ser bastante perturbador. Até nos nomes que Elena Ferrante escolhe para as suas personagens, é impossível deixarmos de nos lembrar da famosa tetralogia. Leda é a narradora em “A Filha Obscura”. Tem 47 anos, é professora universitária e, pela primeira vez, vive uma sensação de leveza, sente-se “livre e sem culpas por sê-lo” e “milagrosamente desobrigada” (pág. 293) quando as duas filhas decidem ir viver com o pai em Toronto. Aproveita o final do ano lectivo para fazer umas férias diferentes das que fazia em família, carrega os seus livros e prepara-se para uma quebra da rotina que sempre fora a sua enquanto mãe disponível e sempre receosa de ser considerada ausente ou distraída. Agora, na praia, já não tinha “de estar atenta a horários nem de enfrentar pressas. Já ninguém dependia dos meus cuidados e eu própria, finalmente, já não era um peso para mim.” (pág. 297)

Este romance tem poucas personagens. Para além de Giovanni, que guarda o apartamento que Leda alugou na praia, temos Gino, o banheiro e uma numerosa e ruidosa família napolitana, de que se destacam Nina, uma jovem mãe, a sua filha Elena e a boneca Nani, com a qual as duas brincam e interagem. São estas três personagens que verdadeiramente interessam a narradora, que lhe chamam a atenção e que a fazem recordar a sua vida, a sua mãe, as filhas e também a boneca Mina que tivera quando criança. Afinal, querendo sentir-se livre, não consegue deixar de estar permanentemente a recordar o passado, a mãe, as filhas, o marido e as escolhas ou caminhos que fizera ao longo da vida. 

As descrições dos locais são minuciosas e muito vívidas e há uma carga dramática que antecipa uma tensão que está presente desde o início do romance. O cesto da fruta tão apetecível a desejar as boas vindas à locatária, é afinal fruta retardada ou podre, incomestível; a luz intermitente do farol que inunda o quarto do apartamento; o pinhal cerrado que há que percorrer até chegar à praia; a menina que se perde na praia; a boneca que desaparece; o ataque com uma pinha no pinhal sem que Leda perceba de onde veio; os miúdos “gang” napolitanos que ela sente como uma ameaça e lhe provocam medo. 

Quando chegamos ao final, recuamos ao princípio do romance, ao acidente que a levara ao hospital, sobre cujas causas ela não quis falar. “As coisas mais difíceis de contar são aquelas que nós próprios não conseguimos compreender.” (pág. 292)

No final pergunto-me: quem é afinal a filha obscura? Tanto pode ser Leda, como Nina, como Elena, como Nani a boneca, ou a filha da boneca... É este o enigma que Elena Ferrante nos deixa e nem sequer acho que ela queira que o resolvamos, antes que nos deixe a pensar sobre ele.

6 de Maio de 2026

Almerinda Bento


quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Convidada escolhe: Nada

“Nada” – Carmen Laforet, 1945

Depois de ter lido este incrível “Nada” de Carmen Laforet, (1921-2004), fiquei com enorme curiosidade de conhecer outras obras desta autora natural de Barcelona. Na badana do livro fica-se a saber que “Nada”, publicado em 1945, foi o seu romance de estreia, vencedor do prémio Nadal e que se tornou rapidamente um sucesso com numerosas edições.  Apesar de apenas serem referidos mais três títulos posteriores a “Nada”, a sua obra literária é vasta, embora se tenha afastado deliberadamente da cena literária a partir da década de 1960. 

“Nada” é um livro espantosamente bem escrito e com personagens e situações que dificilmente se esquecerão. Andrea é uma jovem órfã de dezoito anos que abandona a sua aldeia e vai estudar Letras na Universidade de Barcelona, para casa da avó e dos tios. Durante um ano vai mergulhar num ambiente violento, de gente enlouquecida, profundamente instável e doentio, muito longe do sonho que certamente acalentara quando deixara a aldeia para estudar. Se logo no início do romance o viajar sozinha lhe proporciona uma “profunda liberdade” e a chegada à meia-noite “uma aventura agradável e excitante” (pág. 17), o primeiro confronto com o 1º andar da Rua de Aribau onde vai morar durante um ano lhe “pareceu um pesadelo” (pág. 19). Esse ciclo temporal fecha-se na última página do romance: “Desci as escadas, lentamente. Sentia uma viva emoção. Recordava a terrível esperança, o anseio de vida com que as subira pela primeira vez. Agora partia, sem ter conhecido nada daquilo que, confusamente, esperava: a vida na sua plenitude, a alegria, o interesse profundo, o amor. Da casa da Rua de Aribau, não levava nada comigo. Pelo menos, assim o julgava eu, então.” (pág. 275)

Se a tia Angustias queria “moldá-la na obediência” (pág. 30), oprimindo-a e reprimindo-a; se o tio Román lhe transmitia sentimentos ambivalentes de atracção, medo e repulsa; se experimenta a banalização da violência extrema no seio da família “Não te assustes, pequena. Isto acontece todos os dias.” (pág. 34), os sentimentos de insegurança e de abandono, rapidamente a fazem esquecer os seus sonhos, sente-se prisioneira e adoece. “Quantos dias sem importância!” (…) “Quantos dias inúteis” (pág. 46). O passar das estações do ano, primorosamente descritas, ajuda a caracterizar o quotidiano de uma rapariga de dezoito anos, extremamente desamparada, sem recursos e a conviver com a fome extrema, mas que tenta sair dessa prisão, explorando o deslumbramento da cidade, criando amizades fora do meio opressivo em que vive. Descobre o que é ser discriminado porque se é pobre, o paternalismo e a misoginia de alguns rapazes que se acham superiores às raparigas, que “não acreditavam na inteligência feminina” (pág. 136), ou que achavam ter como única função a da procriação “Os cérebros e os corações deles não chegam para mais.” (pág. 138). Mas, no meio de tanta adversidade e sendo ainda tão jovem, ela detém um orgulho e uma dignidade que não a vergam nem a põem vulnerável a aceitar quaisquer esmolas. 

Embora sem referir a guerra civil espanhola, é claro que o retrato de violência dentro de casa tão presente neste romance, reflecte o clima de violência social e política que a sociedade espanhola viveu e que se prolongou com o franquismo triunfante. A apatia social na banalização e não condenação da violência doméstica, o desmembramento social e económico resultante duma guerra civil prolongada e profunda, tudo isso se vive neste romance duro que, ao ter sido escrito duma forma tão consistente por uma escritora ainda tão jovem, certamente reflecte vivências que a própria experimentou.  

Um romance duro e inesquecível. 

9 de Abril de 2026

Almerinda Bento

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Convidada escolhe: Persépolis

“Persépolis”, Marjane Satrapi, 2007 

Marjane Satrapi (1969-2026). Falou-se e escreveu-se muito sobre ela há duas semanas, aquando da sua morte, com 56 anos. Avessa que sou a “histórias aos quadradinhos”, foi preciso ser incentivada por um dos clubes de leitura que sigo, que escolhera a leitura da novela gráfica “Persépolis” e ter recebido finalmente o aviso da Biblioteca Municipal de que já tinha o livro disponível para o poder levantar, que finalmente me lancei na leitura da famosa novela gráfica da ilustradora, cineasta e escritora iraniana. E que assombro. O meu preconceito impedira-me de apreciar há mais tempo esta maravilhosa autobiografia que é a “história de uma infância e a história de um regresso.”

Além de a mancha gráfica ser muito forte, expressiva e apelativa, a história é corajosa, muito divertida e dá-nos um retrato de uma sociedade e de um povo sobre o qual a informação que é veiculada é, regra geral, deturpada e enviesada. Na Introdução que é uma breve resenha da história do Irão, sobre o qual geralmente só temos a imagem do xá, da sua queda em 1979, aquando da Revolução Islâmica, escreve-nos a autora: “Desde então, esta antiga e grandiosa civilização tem sido quase sempre associada ao fundamentalismo, ao fanatismo e ao terrorismo. Como iraniana que viveu mais de metade da sua vida no Irão, sei que esta imagem está muito longe da verdade. É por isso que escrever «Persépolis» foi tão importante para mim. Acredito que uma nação inteira não deve ser julgada pelos crimes de uns quantos extremistas. Também não quero que aqueles iranianos que perderam a vida nas prisões defendendo a liberdade, que morreram na guerra contra o Iraque, que sofreram às mãos de vários regimes repressivos ou que foram forçados a abandonar as suas famílias e a fugir da sua pátria sejam esquecidos. Podemos perdoar, mas não devemos nunca esquecer.” (pág. 8)

Como escrevi acima, fiquei rendida a esta novela gráfica. A autora começa por nos falar sobre o momento em que ela e todas as meninas da sua idade foram obrigadas ao absurdo do uso do véu, quando viu a escola que era mista passar a ser segregada por sexo, o encerramento das universidades, a resistência através de manifestações contra o fundamentalismo e a repressão. Marjane teve a sorte de nascer e ser educada numa família com tradições de resistência ao regime opressivo do Xá, do pai que sempre a esclareceu nas suas dúvidas, desmontando as narrativas falsas dos livros escolares e sobretudo tendo a preocupação de que a memória da família não se perdesse, nomeadamente a memória do tio assassinado pelo regime. Numa fase de crescimento, confronta o que lê nos livros com a realidade, inclusivamente a situação de privilégio social da família detentora de um Cadillac e com uma criada que foi trabalhar para casa dos pais, aos 8 anos. O livro consegue ser muito divertido, porque traz a ingenuidade da criança influenciada pela religião e com o sonho de ser profeta…

Com a guerra com o Iraque, todo o ambiente se degrada rapidamente e a repressão intensifica-se. Os jovens mortos na guerra são transformados em mártires pelo regime, a vida do povo iraniano degrada-se profundamente e assiste-se ao apertar da vida social com restrições e proibições que vão fomentar não só as denúncias e a repressão, mas também a corrupção dos guardas da revolução. Os sinais de rebeldia da autora levam à sua expulsão da escola que frequenta e os pais tomam a difícil decisão de enviar a jovem Marjane de 14 anos para a Áustria.

A autora é bastante exaustiva na caracterização do que é a vida de uma jovem numa fase tão delicada do seu crescimento, sendo estrangeira, refugiada, sem suporte familiar, com problemas de afirmação da sua identidade iraniana, num país em que a extrema direita está a crescer e em que a xenofobia é uma realidade.  É a lembrança da avó e os seus ensinamentos que a salvam, nos momentos mais difíceis. 

No regresso a Teerão vai confrontar-se com a opressão que a obriga a voltar a pôr o véu, e por toda a parte, na rua, os murais omnipresentes trazem-lhe a culpa e fazem-na sentir-se “rodeada pelas vítimas de uma guerra a que tinha fugido” (pág. 261) quatro anos antes. Mas ela é rebelde, insubmissa e corajosa e consegue ultrapassar o choque e a depressão face a uma sociedade profundamente esquizofrénica que sobrevive dividida entre aquilo que é obrigada a exibir em público e o que vive entre as quatro paredes da casa, nomeadamente no que os guardiões da revolução consideram imoral e decadente do ponto de vista dos costumes e dos relacionamentos entre sexos. 

Após um casamento em que não foi feliz nem se sentiu realizada enquanto pessoa, pede o divórcio e, desta vez, é Marjane que decide partir para França. Estava-se em 1994. Era a despedida definitiva do seu amado país que, apesar da sua beleza, das memórias de infância, dos locais ligados à sua família e à sua história pessoal, era uma prisão para as mulheres, retirando-lhes quaisquer direitos.

Fiquei fascinada pelo livro e quero ver o filme que também foi realizado pela autora, o qual foi nomeado na categoria de Melhor Filme de Animação aos Óscares de 2008, tendo também recebido em 2007 o prémio do júri do festival de Cannes.

Uma pena a morte tão prematura duma mulher tão inspiradora e talentosa. 

16 de Junho de 2026 

Almerinda Bento

quinta-feira, 25 de junho de 2026

A Convidada escolhe: Inyenzi ou As Baratas

“Inyenzi ou As Baratas” – Scholastique Mukasonga, 2006

Quando li num blogue que sigo uma apreciação sobre “Inyenzi ou As Baratas” e percebi que se tratava de um relato de uma sobrevivente do genocídio do Ruanda, logo o pus na lista de livros a ler. Tive uma ligação ao Ruanda breve, mas inesquecível. Em 2004, a Marcha Mundial das Mulheres a cuja coordenação nacional pertencia, escolheu o Ruanda para aí se realizar o 5º Encontro Internacional, com o objectivo de preparar a 2ª Acção Global e, sobretudo, concluir a discussão e aprovação do texto final da Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade. O local teria de ser marcante e assim, foi escolhida Kigali a capital do Ruanda, no ano em que se assinalavam os dez anos do genocídio que matou perto de um milhão de ruandeses de etnia tútsi. Para além de querermos conhecer mulheres que tinham sobrevivido àquele tempo tão atroz, queríamos estar perto de associações que se tinham formado para apoiar na reconstituição e na cura das feridas deixadas pela luta fratricida entre etnias. E também, mostrar a solidariedade de mulheres de todo o mundo para com o imenso esforço que as ruandesas estavam a fazer para se levantar e levantar o país dos escombros do genocídio. 

“Inyenzi ou As Baratas” é um livro duríssimo que me obrigou várias vezes a parar, respirar fundo e deixar a leitura. Aproveitei para ir buscar o álbum e rever algumas fotografias que fiz em Kigali, nomeadamente do Memorial do Genocídio que visitei e que é impossível esquecer. Tal como os nazis achavam que os judeus eram untermensch (infra-humanos), os sionistas acham que os palestinianos não são gente, os hútus consideravam os tútsis baratas (inyenzi), uma etnia que tinha de ser esmagada. O genocídio que aconteceu no espaço de três meses em 1994, como nos é contado neste livro, tinha começado há muitos anos a ser preparado. É sobre isso que escreve Scholastique Mukasonga, nomeando toda a sua família morta e muitos dos habitantes e vizinhos apanhados na fúria assassina daqueles cerca de cem dias. Ela quis nomeá-los repetidamente, começando logo na dedicatória, lembrá-los, já que não há uma lápide que os lembre, podendo as suas ossadas estar na cripta da igreja de Nyamata, ou terem sido atirados para uma vala comum, ou mesmo terem sido comidos pelos cães ou pelas feras. 

Scholastique Mukasonga vive em França. Tinha apenas 3 anos quando ela, irmãos, irmãs e pais foram forçados a um primeiro exílio em 1959, enviados compulsivamente para Gitwe, um lugar inóspito no mato, onde passaram imensas privações, desde fome, falta de água e constante receio dos animais selvagens, embora ela refira que descobriu que a crueldade dos humanos supera o perigo dos animais selvagens. Em 1962, aquando da independência do Ruanda, mais de 150 mil tútsis tiveram de fugir para países vizinhos, tendo nessa altura ocorrido milhares de mortos. As tensões entre hútus e tútsis, instigadas desde sempre pelo poder colonial belga, acentuaram-se após a independência e o mundo fingiu não ver. Destacou-se em 1964 a voz solitária de Bertrand Russell a denunciar o genocídio e a lembrar o que os nazis tinham feito aos judeus. Os pais de Scholastique Mukasonga fugiram com a família para Gitagata, sua última morada, lugar onde iriam ser assassinados em 1994. “Não havia dias tranquilos em Nyamata. Os militares do campo de Gako faziam questão de nos recordar constantemente o que éramos: serpentes, Inyenzi, essas baratas que nada tinham de humano e um dia seria preciso dizimar. Enquanto isso não acontecia, o terror era sistematicamente organizado.” (pág. 65). O único lugar seguro era a igreja da missão, hoje transformada em memorial do genocídio, onde foram depositados milhares de ossadas.  No entanto, a narradora não deixa de referir os dias felizes da sua infância quando ficava com a mãe, que lhe contava histórias. A criação do partido único e a organização da juventude partidária vão fazer aumentar significativamente a violência e as tensões. As violações das meninas são uma constante. 

A educação e o acesso aos graus superiores do ensino eram uma miragem para a etnia tútsi, mas foi o sucesso na escola que lhe permitiu ser uma sobrevivente. O exame nacional de acesso ao ensino secundário era uma das mais importantes barreiras, tanto mais que a quota de acesso aos tútsis se ficava nos 10%.  No entanto, Scholastique Mukasonga conseguiu ser a única na sua aldeia que passou no exame e teve acesso ao melhor liceu de Kigali, onde resistiu durante 3 anos, sujeita a humilhações e a uma rejeição constante por parte das colegas e das professoras. Só no terceiro ano conseguiu deixar de andar descalça e os seus traços fisionómicos e cabelo volumoso eram para ela motivo de frequentes humilhações. Seguiu-se o acesso à Escola de Assistentes Sociais em Butare, uma experiência mais aberta e menos excludente que só durou dois anos e que teve de ser interrompida abruptamente com a mudança da direcção da escola. Os pais, cientes da tragédia que os perseguia, escolheram que para sobreviverem, Mukasonga e André teriam de partir para o Burundi para continuarem os seus estudos. Refugiados no Burundi, Scholastique Mukasonga obtém o seu diploma de Assistente Social e André vai estudar Medicina. 

É em 1986 que Mukasonga vê os pais pela última vez. Nessa altura ela já tinha a cidadania francesa, era casada com um francês e tinha 2 filhos. Os projectos de desenvolvimento rural da UNICEF e outros tinham levado o casal do Burundi, para o Djibuti. André era médico num hospital no Senegal. Das cinco raparigas e dois rapazes que Cosma e Sefania tinham tido, só André e Mukasonga foram poupados ao genocídio. Mukasonga, na sua casa em França, tem pesadelos constantes. Impossível esquecer o que passou e deixar de imaginar o que terá sido o horror vivido pelos 37 familiares que se encontram na fotografia do casamento de Jeanne, a irmã mais nova, todos eles mortos. André e ela são os sobreviventes. Ou não serão antes os “subviventes” como ela própria diz?

Da comuna de Nyamata, dos 60 mil tútsis recenseados em Janeiro de 1994, sobreviveram 5348. O genocídio foi o corte das amizades, das relações, algumas com muitos anos. O que aconteceu foi puro sadismo, loucura, fria crueldade. Foi com extrema dificuldade que Scholastique Mukasonga voltou a Nyamata, dez anos depois, para tentar encontrar vestígios dos sítios onde ela tinha vivido com os pais. Apenas descobriu ali “o país dos mortos” (pág, 149). “Comecei a sentir um ódio violento por aquela vegetação descontrolada que tão bem finalizara o «trabalho» dos assassinos, que transformara a minha casa num matagal hostil”. (pág. 162). Os poucos habitantes que encontra refugiam-se num discurso de negação, falam em “acontecimentos infelizes” (pág. 17), incapazes de usar a palavra genocídio. “A memória de todos aqueles mortos ficava a meu cargo: eles acompanhar-me-iam até à minha própria morte” (pág. 122). “Os assassinos quiseram apagar-lhes até a memória, mas, no caderno escolar que me acompanha sempre, inscrevi os seus nomes, e não tenho para os meus e todos os que tombaram em Nyamata senão este túmulo de papel”. (pág. 166)

Termino, citando do Posfácio, as palavras de Boniface Mongo Mboussa, congolês, académico e professor de literatura: “Em “Inyenzi ou As Baratas” Scholastique Mukasonga oferece-nos um relato autobiográfico valioso, um documento que nos permite ver por dentro o Ruanda pós-colonial (…) que nos mostra, a partir de uma sucessão de factos, porque é que o genocídio era – infelizmente, tão infelizmente – inevitável”. (pág. 173).

5 de Janeiro de 2026 

Almerinda Bento





quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Convidada escolhe: "O País dos Outros"

 “O País dos Outros” – Leïla Slimani, 2021

(tradução de Tânia Ganho)

“O País dos Outros” com o subtítulo “A guerra, a guerra, a guerra” é o primeiro de uma trilogia. A autora nascida em Rabat, oriunda de uma família de expressão francesa, é filha dos filhos da independência de Marrocos. “O País dos Outros” que inicia a saga da família Belhaj, é inspirado na história da avó da autora.  Leïla Slimani, com um percurso no jornalismo e com um interesse particular pelos problemas das jovens marroquinas para quem muitas causas e direitos de igualdade e emancipação estão ainda longe de estar alcançados, busca na sua obra trazer a história, a memória, as causas sociais e políticas. Numa entrevista ao Jornal de Letras de 9 de Agosto de 2022, diz que através da sua obra “quer pôr palavras sobre o silêncio, desafiar a amnésia.” 

A história passa-se após a segunda Guerra Mundial e nos anos 50, quando irrompe a luta contra o colonialismo francês em Marrocos. Adime vai combater contra o nazismo, integrado nas fileiras do exército francês. Mathilde é uma jovem alsaciana que lhe serve de guia em França e por quem se apaixona. 

Terminada a guerra, o jovem casal vai viver para Marrocos, para uma pequena terra Meknès. À fase do encantamento pelo desconhecido e pela novidade, segue-se a desilusão e a perceção de que aquela é uma viagem sem regresso. Afastada da família, lá longe na Alsácia, rapidamente se vê confrontada com uma cultura profundamente preconceituosa relativamente às mulheres. Desamparo, desespero, solidão, insegurança são os sentimentos vividos pela jovem Mathilde. “– Aqui, é assim. Ela ouviria aquela resposta muitas vezes. Nesse preciso instante, compreendeu que era uma estrangeira, uma mulher, uma esposa, um ser à mercê dos outros.” (pág. 20). Amine, obcecado em transformar o terreno pedregoso e estéril que tinha herdado do pai em terra arável e produtiva, à semelhança dos colonos seus vizinhos, era incapaz de minimamente atender às necessidades e aspirações da jovem mulher. Num período em que Mathilde teve uma profunda crise nervosa, é significativa a pergunta do médico que a vai observar: “- Desculpe a indiscrição, minha cara senhora, mas estou curioso. Como é que aterrou aqui, por deus?” (pág. 133). Só uma vez, quando o pai morre e ela decide voltar à Alsácia, a vontade de ficar e de voltar costas ao marido e aos filhos quase se sobrepõe às obrigações sociais e familiares que havia construído em Marrocos. A resignação vence a momentânea rebeldia e o sonho de um futuro diferente. Mais tarde, num desabafo com uma amiga também estrangeira, Mathilde diz-lhe: “Não tenho alternativa a não ser a solidão. Na minha situação, como é que quer que tenhamos vida social? Não imagina o que é ser casada com um indígena, numa cidade como esta.” “Corinne quase lhe respondera que também nem sempre era fácil ser casada com um judeu, um meteco, um apátrida e ser uma mulher sem filhos.” (págs. 160 e 161). Também a filha, Aïcha, a estudar numa escola católica, é ostracizada pelas colegas que a gozam por causa do cabelo indomável e das roupas usadas. 

Os anos 50 trazem o desejo de independência dos marroquinos que não querem mais ser colonizados pelos franceses. Para além da questão política da luta de libertação com revoltas, ataques e mortes, incêndios às plantações e às casas dos colonos, também no seio da sociedade marroquina as jovens aspiram à sua libertação das amarras e dos preconceitos patriarcais que as querem dóceis e submissas. Esses dois mundos em choque são retratados neste livro através de Mouilala, Amine, Omar e Selma, respetivamente a mãe, os dois filhos e a filha e irmã mais nova. Dificilmente se poderá esquecer a violência extrema de Amine contra Mathilde e Selma, que por pouco não termina em femicídio. Crimes de honra, casamentos forçados, conversões… 

Também neste livro há registo da solidariedade entre as mulheres como é o caso da viúva Mercier que dá livros a Mathilde ou Corinne, mulher do ginecologista, judeu refugiado e amigo do casal Mathilde/Amine. E mesmo de Mouilala e Mathilde. 

Esta primeira parte – guerra, guerra, guerra – termina num momento crítico em que a propriedade de Amine e Mathilde é poupada, mas com o país em convulsão profunda. Fica a vontade de continuar e seguir esta saga da família Belhaj. Os próximos volumes da trilogia serão “Vejam como Dançamos” e finalmente “Levarei o Fogo Comigo.”

1 de Abril de 2026

Almerinda Bento

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A Convidada escolhe: “A Livraria Perdida”

“A Livraria Perdida” – Evie Woods, 2023

Hoje são dezenas os livros que atraem amantes de livros e de gatos com títulos e capas sugestivos, que muitas vezes acabam por ser meros produtos facilmente vendáveis, mas de fraca qualidade literária. “A Livraria Perdida” foi-me oferecido por amigas que sabem desta minha ligação aos livros e à literatura e acho que, também por o romance se passar na cidade de Dublin e ter referências a James Joyce, autor de que lemos “Dubliners”, deve ter sido determinante na escolha deste livro que me ofereceram.  

Se houve aspectos muito interessantes no livro, confesso que com muito menos folhas, o livro não perderia muito. A parte relacionada com os encontros/desencontros amorosos das duas personagens me aborreceu bastante; achei mesmo que o livro tem muitas passagens xaroposas e muitos lugares comuns que me deram vontade de as saltar. Também as partes relacionadas com o realismo mágico são um bocado incongruentes, alguns aspectos da narrativa são pouco consistentes e nem todas as pontas soltas se conjugam, mas mesmo assim gostei de ir até ao fim na leitura do livro da irlandesa Evie Woods. 

São três os narradores do livro, cujos nomes dão título aos diferentes capítulos. Embora Opaline Carlisle – a mais interessante – tenha vivido no século passado, há um vínculo (ou múltiplos vínculos) que os une a todos: a paixão pela literatura e por manuscritos e livros raros; a violência e o abandono nas relações familiares; a capacidade de superação. Opaline é uma mulher muito corajosa para a época, alguém que ama a liberdade mais do que tudo e, portanto, não se sujeita à submissão de um casamento arranjado 

Se o tema da violência doméstica surge bem retratado, foi, no entanto, a questão do encarceramento da jovem Opaline Carlisle durante dezoito anos no hospício do distrito de Cornacht na Irlanda, o que mexeu mais comigo ao longo da leitura deste livro, lembrando-me a recente leitura do maravilhoso “Pequenas Coisas com Estas” de Claire Keegan. “Eu tinha ouvido falar de lares para mães e bebés na Irlanda – sítios para onde mães solteiras eram enviadas pelas famílias para terem os seus bebés em segredo.” (pág. 238) Mulheres com comportamentos fora da norma, neste caso a gravidez de Opaline e a recusa de casar com alguém que ela não escolheu, o que a levou a fugir de casa, eram aprisionadas em hospícios longe da vista de todos e “diagnosticadas” de loucas, de violentas, de histéricas, enfim “mulheres problemáticas, com ideias inconvenientes.” (pág. 259). Lucia, a filha de James Joyce que sofria de esquizofrenia, foi internada numa destas instituições em 1932 e por lá ficou por cinquenta anos… 

Pensar que este tipo de instituições geridas por freiras e financiadas pela igreja Católica, em parceria com o estado irlandês, resistiram e persistiram até 1996, é verdadeiramente chocante. Como diz a nota final no livro de Claire Keegan a que faço referência “Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato”

23 de Abril de 2026

Almerinda Bento




quinta-feira, 16 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "O Acontecimento"

“O Acontecimento” – Annie Ernaux, 2000

(tradução de Maria Etelvina Santos)

Este é o terceiro livro que leio de Annie Ernaux. Quando o li, sabia ao que ia: a memória de um aborto que a autora fez, quando jovem mulher, estudante universitária. No entanto, o início do livro refere-se a um outro momento na sua vida relacionado com a possibilidade de estar seropositiva, na sequência de uma relação sexual não protegida. “Pensava que nunca haveria qualquer tipo de relação entre o sexo e outra coisa,” (pág. 10) Nos dois momentos “… a mesma aflição e a mesma incredulidade. Portanto, a minha vida situa-se entre o método Ogino e o preservativo a um franco nas máquinas de venda.” (pág. 11)

Acho importante registar algumas datas para mostrar as diferenças entre o país da autora e o nosso país, no que se refere aos direitos sexuais e reprodutivos e especificamente no que se relaciona com a despenalização do aborto. O aborto que a autora fez quando tinha 23 anos, foi em 1963. A lei francesa à época punia com prisão e multa “I) o autor de quaisquer procedimentos abortivos; 2) os médicos, parteiras, farmacêuticos e outros culpados de terem indicado ou favorecido aqueles procedimentos; 3) a mulher que praticou ela própria o aborto ou que o consentiu; 4) o incitamento ao aborto e a propaganda anticoncecional. A interdição de domicílio pode, de resto, ser pronunciada contra os culpados, para além, no caso do segundo ponto, da proibição definitiva ou temporária do exercício da profissão” (pág. 21). Em 1975, o aborto deixou de ser punido em França com a famosa lei Simone Veil. Em Março de 2024, a França foi o primeiro país do mundo a inscrever o direito ao aborto na Constituição. Em Portugal, o processo foi mais demorado e complicado pois só em 2007, num segundo referendo, as mulheres portuguesas puderam ter acesso ao aborto até às dez semanas, a seu pedido. Até essa data, o aborto era clandestino e ocorreram vários casos de mulheres e pessoal da saúde levados a tribunal por fazerem ou facilitarem a prática do aborto. 

A agenda em que Annie Ernaux registou o que ia acontecendo, a partir do momento em que se apercebeu do tempo a passar sem ter menstruação, é um elemento fundamental a que recorreu no momento em que decidiu que era preciso dar testemunho do que se tinha passado com ela. O facto de numa altura em que o aborto já estava legalizado levar muita gente a dizer “Isso já passou” (pág. 20) e de se querer apagar uma memória traumática para tanta mulher, mais reforçou nela a convicção da necessidade de dar testemunho daquilo que tinha acontecido com ela e de não silenciar uma realidade que, para ela, constituiu “um acontecimento inesquecível.” (pág. 20)

Essa agenda reflecte as sensações, os receios, a ideia de fracasso social, a busca kafkiana por uma solução, a angústia, a incapacidade de se concentrar, o desânimo, a impotência, a discriminação de quem é pobre, a solidão. E o assinalar da data que separa a vida da morte. A descrição do “acontecimento” é crua, brutal; a capa da edição dos Livros do Brasil não podia ser mais certeira. Se a data em que se libertou do feto foi, por vários anos, considerada um aniversário, havia algo de sagrado nisso. “Não sabia se tinha estado no auge do horror ou da beleza. Sentia orgulho. Provavelmente o mesmo que sentem os navegadores solitários, os drogados e os ladrões, aquele orgulho de terem ido até onde os outros nunca considerarão ir. Foi, sem dúvida, algo desse orgulho que me fez escrever esta narrativa. “(pág. 80) “Numa outra tarde, entrei numa igreja, a de Saint-Patrice, perto do boulevard de la Marne, para contar a um padre que tinha abortado. Depressa me dei conta do erro. Sentia-me inundada de luz e para ele estava inundada de crime. Ao sair, percebi que, para mim, o tempo da religião tinha chegado ao fim.” (pág. 81) “Apaguei a única culpabilidade que nunca poderia suportar em relação a este acontecimento, a de que me tivesse acontecido e eu não tivesse feito nada em relação a isso. Seria como um dom recebido e desperdiçado (…) E o verdadeiro objetivo da minha vida é, provavelmente, apenas este: que o meu corpo, as minhas sensações e os meus pensamentos se transformem em escrita, isto é, em qualquer coisa de inteligível e comum – a minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.” (pág. 84)

Os direitos sexuais e reprodutivos foram sempre um alvo de ataque de forças conservadoras, de direita, frequentemente ligadas às igrejas e nos tempos actuais em que o conservadorismo ganha palco e projecção, há quem queira reverter em Portugal uma lei tão recente, que fez diminuir drasticamente os riscos de morte e de complicações por motivos de interrupção de gravidezes não desejadas, num contexto de clandestinidade. Uma lei que conferiu um importantíssimo direito às mulheres: o direito à escolha.  Num tempo em que a palavra “aborto” não tinha lugar na linguagem, nem mesmo nos consultórios médicos, “a impossibilidade absoluta de imaginar que, um dia, as mulheres pudessem livremente decidir abortar. E, como sempre, seria impossível determinar se o aborto era proibido porque estava errado, ou se estava errado porque era proibido. Julgava-se em conformidade com a lei, não se julgava a lei.” (pág. 34) 

Daí a imensa actualidade deste livro. Deste corajoso testemunho. 

23 de Março de 2026

Almerinda Bento

 




terça-feira, 14 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "O Último Avô"

“O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025

De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais complexo. Há bastante tempo que um livro não me perturbava tanto. É um verdadeiro puzzle, não só pela sequência de capítulos em tempos diferentes, mas pelas personagens cujas vidas se ligam, pelo twist no final do livro e pela extrema atenção que requer por parte do/a leitor/a. Mas, sobretudo, muito bem escrito. Imagino que para o autor que o imaginou e escreveu, precisou de muito tempo, muito rigor e atenção, porque se trata de uma tapeçaria com muitos fios e desenho muito elaborado. 

É um livro sobre os traumas da guerra colonial, não só nos que a viveram enquanto soldados, mas nos familiares que viveram as consequências do trauma. A figura central é Campelo, o avô do narrador, a quem deixa como testamento o cuidar da gestão do seu património intelectual. Engenheiro de formação, escritor famoso, Campelo é um egocêntrico, possessivo, violento e obcecado por memórias de África, o tabu de um futuro livro sempre anunciado, mas nunca concretizado. Em torno dele, além do narrador, múltiplas figuras femininas, personagens complexas que se vão desvendando ao longo da  narrativa, essenciais para a caracterização de Campelo. A filha, mãe do narrador – a Formiga – “tímida com o coração selvagem” (pág. 24) que um dia se rebela contra o pai e foge; a avó que se revela  já não como a mulher silenciosa, quando se separa e decide ir viver para Azeitão, onde “se tornara a versão mais feliz de si mesma” (pág. 108); Noélia, a criada, para quem Regina, a fazer um mestrado em Teoria da Literatura envolvendo a obra de Campelo e envolvendo-se com ele, era uma “cabra” (pág. 57); as tias, manas da Formiga, praticamente inexistentes; Cecília, a namorada do narrador, o grande apoio deste ao longo dos vários momentos do romance e, finalmente, Jóia e Estrela da Piedade, as duas africanas da fotografia encontrada entre as recordações de Angola. Porquê esta fotografia? Quem serão estas mulheres? Despojos de guerra?

Quanto aos homens, além de Campelo e do neto (narrador), apenas uma cena com o pai do narrador, afinal um pai ausente; o editor Torres, sempre ansioso por notas ou pelo manuscrito que possa sair à luz para finalmente responder à expectativa do que seria a obra maior de Campelo, numa crítica clara ao meio literário e à avidez pelos sucessos editoriais. E claro, Campelo e Augusto o neto, afinal muito parecidos, por vezes até difíceis de se distinguirem!

O cerne do romance é o manuscrito de Campelo, o mistério em torno do conteúdo do manuscrito que o avô destrói antes de morrer, a ânsia de saber se não haverá outro manuscrito para além do queimado – o manuscrito – eventualmente no quarto fechado que a mãe do narrador ocupou antes de morrer. E também em torno da autoria… Os traumas de guerra que Campelo partilhou com a filha e com o neto, em quem projectou a escrita do seu livro de memórias de África e que o levou um dia a afirmar: “Hoje nasceu um escritor” (pág. 92). A certa altura, o narrador tem a sensação de que o avô quer que seja o neto a escrever o livro por ele e conta-lhe episódios da guerra, fala-lhe de Zacarias, o mulato que salvou das chibatadas, da mãe Jóia e da tia Estrela da Piedade: “Tinha a impressão de que ele se apoderava de mim frase a frase” (pág. 101) “Mas faltava rigor ao imaginário” (pág. 103). É de tal forma intensa esta presença do avô na escrita do neto (até as caligrafias se assemelham), que a certa altura o neto se rebela e não quer continuar a escrever. 

O livro vai sendo construído como num puzzle com capítulos curtos entrecortados, até que começam a surgir capítulos escritos em itálico, as histórias da guerra, o tão ansiado manuscrito. Será aquilo um romance, ou antes uma confissão, um romance autobiográfico? É justo publicar uma confissão que venha manchar a memória de alguém que já morreu e que desse modo venha contaminar negativamente as expectativas e uma imagem até então tão positiva? Afinal “qualquer escrito é um engano” (pág. 217) e “Quantas pessoas não são a ficção que fazemos delas, e quantas histórias não andam por aí à solta sem verdade excepto a própria, isto é, a verdade da ficção”. (pág. 269). 

Termino com esta transcrição de “O Último Avô” um livro sobre a guerra colonial, difícil e corajoso, que li atentamente e cujos últimos capítulos senti necessidade de reler. “… ocorre-me que este país com a geografia fácil de um rectângulo, mais a porção das ilhas, não tem os quilómetros quadrados necessários para mistérios ou descobertas. (…) Todavia, apesar de claustrofóbico, ainda tem dimensão para segredos: é que Portugal esconde um exército, o exército dos ex-combatentes. 

Restam uns trezentos mil soldados da velha guerra. A estatística manda que os encontremos na rua, na sucursal do banco ou dos correios, nos cafés. Frequentam os transportes públicos e sentam-se ao nosso lado na Loja do Cidadão. São eles que conversam entre si durante horas nos bancos de jardim. Uns falam alto, outros perderam a voz. Suspeito de que muitos dos que agarramos pelos pulsos e tornozelos às camas dos hospitais, e que bradam como cercados pelo inimigo, também sejam antigos combatentes. Alguns escondem-se à paisana de velho e à paisana de soldado: como ninguém lhes dá mais de setenta anos, não parecem velhos o suficiente e ninguém desconfia de que combateram em África. Outros entraram em lares” (pág. 245).

7 de Fevereiro de 2026 

Almerinda Bento


quinta-feira, 9 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "As Pessoas Felizes"

“As Pessoas Felizes” – Agustina Bessa-Luís, , 1975

Há muito que estava para ler Agustina. Aliás, quando li a excelente biografia de Agustina Bessa-Luís “O Poço e a Estrada” escrita por Isabel Rio Novo, prometi a mim mesma que iria tirar da estante “A Sibila” do meio dos muitos livros de Agustina que herdei da minha irmã Isabel. Afinal comecei com “As Pessoas Felizes”, graças à proposta de leitura saída do Leia Mulheres que se reúne mensalmente no Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, coincidente com o inesperado e injusto afastamento de Rita Rato da direcção deste excelente espaço de cultura e memória situado em Lisboa. Não me esqueço do momento em que o meu filho, então estudante do 3º ciclo, me apareceu com “Dentes de Rato”, para eu o ajudar na compreensão daquele livrinho de Agustina, num trabalho que tinha de apresentar na aula de Português. Nem os comentários de Mónica Baldaque, filha da autora, sobre a crítica a quem faz os programas de Língua Portuguesa, por escolherem “A Sibila” como obra a ser lida por jovens, que certamente, em vez de ficarem com apetência por ler e, especificamente Agustina Bessa-Luís, certamente irão ficar sem vontade de ler esta autora, no futuro.

Não quero ser injusta e fazer uma generalização abusiva, tanto mais que só li “As Pessoas Felizes” de Agustina. Mas, a partir do que li, considero uma leitura difícil, muitas vezes incompreensiva, que estilhaça o senso comum, a ordem previsível das coisas, repleta de aforismos. Uma leitura para ser feita lentamente, voltando muitas vezes atrás, tentando encontrar o fio à meada e muitas vezes não o encontrando… O facto de o livro fazer constantes referências a Anna Karenina e às suas personagens, livro que não li, e a Lev Tolstói e à sua vida, tornaram muitas vezes difícil de compreender algumas das páginas de “As Pessoas Felizes”. Como Isabel Rio Novo escreve em “O Poço e a Estrada” todos os livros de Agustina são biográficos, sem obedecerem a um plano, nascendo como um rio e, com efeito, descobri em Nel “estrela do paradoxo burguês” (p. 177) em “As Pessoas Felizes” muitas semelhanças com a vida de Agustina. Se não tivesse lido a biografia, teria tido mais dificuldade e menos interesse em chegar ao fim do livro.

“As Pessoas Felizes” foi escrito antes e depois do 25 de Abril e se só nas páginas finais do livro se sente que as personagens estão a viver a revolução e os choques nas relações entre as pessoas se intensificam, a verdade é que a autora quis, quanto a mim, mostrar que a pretensa concórdia e harmonia entre as pessoas é muito frágil e que o conflito e a separação das famílias são a norma. Nel, sendo mulher, não segue o padrão feminino tradicional, nem no matrimónio nem na maternidade, aliás tal como Agustina. A personalidade incomum da autora – “sou o que se chama conservadora”/ “sou uma pessoa tranquila, mas não conformada” – demarcando-se do feminismo, apoiou, contudo, o movimento pelo “Sim” à despenalização do aborto em 2007, aconselhava as jovens mães a não se deixarem prender na teia da maternidade e ela própria fez a escolha do homem com quem esteve casada durante 72 anos, saindo absolutamente dos cânones da época.

Em “As Pessoas Felizes” há uma crítica explícita à Mocidade Portuguesa, a Salazar como um moralista e uma pessoa obscura, uma crítica à educação sexual ou à ausência dela. Ou seja, sendo conservadora e de direita, Agustina era uma mulher insubmissa e com atitudes inusitadas e fora dos padrões da época e, embora haja neste seu livro mulheres sujeitas a “humilhações femininas” (p. 23), outras para além de Nel a personagem central, reflectem esse estilhaçar do senso comum que referi em parágrafo anterior. Nel que vai viver com os tios após a morte da mãe “detestou a gente grande. A gente grande era constituída por certo número de pessoas destinadas a lugares de mando ou dum servilismo prepotente. Gente feia, ocupada em coisas enfadonhas e intermináveis.” (págs. 47 e 48) “Nel tornou-se, na casa dos Carrancas, um autêntico pomo de discórdia” (p. 56). Nel era um problema para a tia Florinda “sobretudo porque ela não tinha, como as outras raparigas, o casamento como objectivo. Interessava-se pelos homens, de maneira apenas turística: frequentava-os, mas não pensava em habitá-los.” (p. 77) E quando, finalmente, Nel se casa, a prima atira-lhe estas palavras: “Casas-te porque é a única maneira de não andarem atrás de ti a fazerem-te perguntas obscenas. É chato. Querem saber que espécie de mulher tu és, se não tens cio, se és pela emancipação sexual, se tens a vagina estreita, se és lésbica, se tens o complexo de Édipo. Isto são palavras tuas, não acrescento nada, mas tens razão. É chato.” (p. 82)

Sendo geralmente vaga a localização temporal dos acontecimentos que não surgem numa ordem cronológica perceptível, há, no entanto, a referência a 1961 “ano em que deflagrou o terrorismo no Ultramar” (p. 151). “A culpa abriu-se no coração dos portugueses, e eles aguardaram que ela se transformasse numa medalha ou numa pensão de sangue ou num luto apenas.” (p. 152). “Essa juventude que vivia a guerra ou era neonaturalista ou contestatária. Uns cumpriam o seu tempo de selva e batiam-se não como mercenários, mas também sem o espírito de invulnerabilidade que estimulou o racismo europeu.(…) Outros emigravam. Indocumentados, mas em grande parte munidos duma protecção familiar que tornava o exílio uma aventura de estação. (p. 153)

Já vai longo este texto, mas gostaria de fazer aqui algumas transcrições de trechos em que é feita referência a “pessoas felizes”. 

“O que faz as pessoas felizes é não terem vida interior. A vida privada raramente coincide com a vida interior.” (p. 118)

“João Afonso Carranca costumava dizer que a generosidade não é própria dos ricos, mas dos felizes. Eram pois pessoas felizes, moderadas nas paixões e nos pensamentos, capazes de vencer preconceitos, para acudir a necessidades. Pois todo o extremo as desgosta e toda a justiça por demais assídua as acaba por descontentar.” (p. 172)  

E quando em 1971 uma série de calamidades caiu sobre a família dos Carrancas “As pessoas felizes desagregavam-se.” (p. 175)

Termino, repetindo que ler Agustina Bessa-Luís não foi fácil. Houve coisas que não percebi, mas nem por isso não deixei de chegar ao fim do livro que terminou na página 184, como podia ter terminado umas tantas páginas antes, quando o rio tivesse secado.

17 de Março de 2026

Almerinda Bento

terça-feira, 7 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "A Promessa"

“A Promessa” - Silvina Ocampo, 2011

“Que livro estranho” foi o que pensei à medida que ia lendo “A Promessa”. Se não desisti e o li até ao fim, deveu-se ao facto de ter sido o livro escolhido para este mês pelo Leia Mulheres e ter interesse em conhecer a opinião das minhas companheiras e companheiros que se juntam uma vez por mês no Museu do Aljube - Resistência e Liberdade, sempre em torno de um livro escrito por uma mulher. Desta vez a argentina Silvina Ocampo. 

Também estranho o facto de o livro ter sido revisto, corrigido e concluído entre 1988 e 1989, depois de cerca de três décadas de reescritas constantes. Iniciada a escrita na década de 1960, anunciada a publicação para finais de 1966 e posteriormente para 1975, a revisão e finalização ocorre num período de grande fragilidade de Silvina Ocampo, a par do fim da protagonista. A autora caracterizou “A Promessa” como um “romance fantasmagórico” em que autora e narradora estão ligadas por um destino comum. 

Devota de Santa Rita, “a padroeira das causas impossíveis” (pág. 11) a narradora faz a promessa de escrever um livro, caso se salve do estúpido desastre que a leva a cair ao mar, sem que ninguém do navio onde seguia, se aperceba da sua queda. Segue-se um desfiar de pessoas que recorda, de histórias que envolvem essas pessoas e que ela não pára de contar, tentando não adormecer, sempre na esperança de poder ser salva, de o navio a poder vir resgatar. Com a perspectiva da morte certa, são muitas as personagens sobretudo ligadas à sua infância que lhe vêm à memória. Nomeia-as, dá-lhes os traços fisionómicos e de carácter que as tornam únicas, mostra os seus defeitos e virtudes, recorda com maior insistência Gabriela (Gabriel), Irene a mãe e Leandro, conta histórias caricatas que algumas protagonizam, sonha, revela o seu amor pelos animais porque são verdadeiros… No fim daquelas pequenas histórias e das personagens que ela traz, o mar está sempre presente, nomeadamente através de uma pequena frase ou período que nos situa a narradora e a sua condição de náufraga que vai resistindo, vai perdendo as forças e a consciência, até ao momento em que em vez de pessoas passa a recordar árvores e animais. “A água está fria, uma araucária ocupa o meu pensamento.” (pág. 98). “Morrerei depressa! Se morrer antes de terminar o que estou a escrever ninguém se lembrará de mim, nem sequer a pessoa que mais amei no mundo.” (pág. 99). “Mal sinto o bater do meu coração. Terei realmente um coração? Ou ter-se-á perdido na água do mar?” (pág. 100).

É sem dúvida um livro pungente, com destaque para os momentos de escrita poética em que a narradora fala do mar em que luta pela sobrevivência? Por que teria Silvana Ocampo levado tanto tempo a escrevê-lo? Por que deixou a parte final para o tempo que sabia que era o fim da sua vida? 

20 de Fevereiro de 2026 

Almerinda Bento

terça-feira, 17 de março de 2026

A convidada escolhe: "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”

“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” -Tiago Rodrigues, 2024

O título é suficientemente polémico, para se desejar ver a peça em palco, mas conseguir arranjar bilhetes antes que todas as sessões se esgotem? Li o texto dramatúrgico, li o extraordinário posfácio da autoria de Gonçalo Frota e voltei de novo ao texto, para o ler desta vez com mais atenção aos detalhes  sobre que se debruça o posfácio. 

Que grande texto de Tiago Rodrigues, que peça perturbadora e tão polémica esta “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.  Começado a ser construído a partir da ideia de uma família que se reúne anualmente para vingar a morte de Catarina Eufémia, símbolo das mortes de todas as mulheres, ainda com os ecos dos protestos das feministas pelo absurdo do acórdão do juiz Neto Moura que se baseia em citações da Bíblia e no Código Penal de 1886, a eleição do primeiro deputado do Chega em Outubro de 2019 foi o gatilho para o texto cuja apresentação pública estava prevista para meados de 2020. A leitura do posfácio ajuda-nos, leigos, a perceber a complexidade do trabalho de criação de texto e de montagem duma peça teatral, do método de trabalho de Tiago Rodrigues até ao momento da apresentação da peça ao público. Atento ao que se passa no mundo, sensível às ideias e propostas dos actores, rodeando-se de uma equipa que vai de historiadores, a músicos, a estilistas, bailarinos, há todo um trabalho colectivo de criação aberto a alterações e mudanças que podem ser radicalmente diferentes da ideia original. Quando a equipa de actores partiu para a residência artística em Motemor-o-Novo, na primeira semana de Março de 2020, estava longe de imaginar que a pandemia iria alterar definitivamente todo o calendário de trabalho previsto inicialmente. No entanto, em Montemor-o-Novo, o trabalho colectivo, as conversas informais, as ideias individuais, os momentos de lazer, tudo isso foi o combustível que permitiu criar um texto dramatúrgico praticamente finalizado. Com a entrada em cena da pandemia, a interdição de ensaios presenciais trouxe a frustração do trabalho à distância, em tudo contrário à dinâmica criada por Tiago Rodrigues. 

Eram muitas as dúvidas que se colocavam quando se fizeram os primeiros ensaios em Junho de 2020. “A pandemia roubou-nos a confiança de imaginarmos o futuro” (p. 181). A peça foi à cena pela primeira vez em Dezembro de 2020 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, seguindo depois para o Centro Cultural de Belém em Lisboa. A peça situa-se em 2028, no sul de Portugal, com um governo fascista. Em palco, encontra-se reunida a família descendente de uma ceifeira companheira de Catarina Eufémia que há 75 anos deixou uma carta como herança para a família, para que nunca cale a injustiça onde confessa: “Hoje matei um homem. Não o matei pelo mal que me fez, embora estivesse no meu direito. Matei-o pelo bem que não fez” (p. 42). Todas as personagens se chamam Catarina, excepto o fascista também em cena, o ideólogo do partido de extrema direita, raptado para ser morto por uma das mulheres da família. 

É uma peça que nos perturba. O que está ali em jogo: justiça ou vingança? Vale a pena continuar a apostar em eleições, em manifestações, em petições, ou a resposta ao ascenso do extremismo fascista tem de se combater com acções radicais? “Deve ou não dar-se a palavra a alguém que discursa contra o edifício democrático? Deve aceitar-se que tenha palco, que use a liberdade para falar sem censura ou, pelo contrário, ser silenciado?” (p. 222)

Se o texto é extremamente forte pelas questões que coloca, pelo carácter quase premonitório de um futuro governo liderado por fascistas, também alerta para os alçapões e fragilidades do sistema democrático que deram azo a que a desconfiança, o ressentimento e a raiva medrassem e dessem espaço ao discurso sedutor, simplista, manipulador e perigoso da extrema-direita. 

27 de Fevereiro de 2026 

Almerinda Bento 

terça-feira, 10 de março de 2026

A Convidada escolhe: "Gaza está em toda a parte"

“Gaza está em toda a parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025

Conhecia Alexandra Lucas Coelho de ler no jornal “Público” as suas crónicas sobre o Brasil e Jerusalém, e também duma série que passou na televisão sobre livros, com um nome sugestivo “Volta ao Mundo em Cem Livros”. No entanto, nunca tinha lido nenhum livro escrito por ela e este ano não resisti na Feira do Livro de Lisboa a comprar o seu mais recente “Gaza Está em Toda a Parte”. 

É uma colectânea de textos com a força do conhecimento da realidade palestina, ligada ao seu vínculo afectivo e político com aquele povo. Constituída por crónicas e reportagens já publicadas, tem ainda alguns textos inéditos e um conjunto valioso de fotografias captadas antes e depois do 7 de Outubro. Embora a maior parte do livro seja formado por crónicas e reportagens sobre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia depois do 7 de Outubro, a introdução é um trabalho jornalístico publicado na revista Visão História de Julho de 2017, que corresponde à última vez que Alexandra Lucas Coelho esteve em Gaza (Maio de 2017). Através da reportagem então feita, a autora mostra que as dificuldades para a vida daquele povo não começaram com o 7 de Outubro.  Experienciou ela própria ao entrar na Faixa de Gaza, por Erez no norte, quer pelos check points montados por Israel quer pelo Hamas, que compara ao “… cenário de uma distopia altamente militarizada” (pág. 15). “Gaza é uma prisão” (pág. 33) e isso reflecte-se na saúde física e mental da população, maioritariamente jovem, sem emprego, sem futuro, com elevados níveis de suicídio. Desemprego, escassez de água, frequentes cortes de electricidade, na altura, para dois milhões de habitantes, apenas dois psiquiatras! Apesar de a Faixa de Gaza se estender ao longo de 40 quilómetros junto ao Mar Mediterrâneo, os pescadores apenas podem pescar até 6 milhas, sujeitos a ser abatidos pela armada israelita, caso ultrapassem esse limite.

Uma prisão, um gueto, uma ratoeira, um campo de concentração que passou a campo de extermínio depois de 7 de Outubro. A Nakba de 1948 que nunca deixou de existir, que obrigou milhões de palestinianos a viver como refugiados na Síria, no Líbano, no Egipto e um pouco por todo o mundo ao longo dos últimos 75 anos, intensificou-se com o 7 de Outubro. Impossibilitada de poder ir ao terreno para fazer o seu trabalho como jornalista, Alexandra Lucas Coelho contextualiza a situação através de crónicas entre Outubro e Novembro de 2023. Atónitos com a destruição que se vai vendo através da comunicação social e pelas redes sociais, o tempo corre enquanto assistimos às mortes e à destruição ao vivo, sem que o mundo dito dos direitos humanos, o mundo “ocidental” mexa uma palha. Guterres passou a persona non grata quando levantou a voz contra Netanyahu e disse que “… o 7 de Outubro não aconteceu no vazio”. A Europa, refém da culpa do holocausto, é incapaz de denunciar o governo de Israel pelos bombardeamentos, destruição maciça e deslocação forçada das populações para sul da faixa de Gaza. Netanyahu utiliza a experiência do holocausto sobre os judeus na 2ª Guerra Mundial como arma de arremesso e chama antissemita a qualquer um que se oponha à política de extermínio que o seu governo de extrema direita está a impor ao povo de Gaza, para além das incursões dos colonos israelitas no território da Cisjordânia. Ao contrário da cobardia dos governantes europeus, os povos começam a manifestar-se nas ruas para dizer que a Palestina tem direito a ser livre. Numa troca de mensagens com W., o amigo palestino de Alexandra, ele pedira-lhe que contasse o que se estava a passar em Gaza, ciente do poder da solidariedade e da força das ruas. 

Alexandra Lucas Coelho traz ao longo do livro inúmeros nomes e exemplos de heroicidade num tempo de desumanidade e horror. O médico de Al-Shifa que se recusou a deixar o hospital e a abandonar os doentes à sua sorte; o herói e líder nacional Marwan Barghouti, preso desde 2002 e condenado a prisão perpétua; os milhares de jovens e crianças presos arbitrariamente nas prisões israelitas e sujeitos a torturas atrozes; Ahmed Tobasi e o seu Freedom Theatre que faz do teatro a sua forma de resistência; os Tamimi e os habitantes duma pequena aldeia da Cisjordânia empenhados em defender a sua água e a câmara que Bilal usou para documentar e levar ao mundo através do canal de You Tube as incursões dos buldozers israelitas; as consequências de se ser objector de consciência e recusar o serviço militar obrigatório como é o caso da jovem israelita Sofia Orr, presa por ser considerada traidora. Embora sejam uma ínfima minoria os israelitas que defendam abertamente os direitos humanos ou que sejam antimilitaristas, a maioria, mesmo criticando Netanyahu, apenas lutam pelo regresso dos reféns na posse do Hamas, mas não têm uma postura de defesa dos direitos humanos do povo palestino. 

Entre Dezembro de 2023 e Janeiro de 2024 Alexandra Lucas Coelho esteve na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e Israel onde fez reportagens e tirou fotografias que constituem a segunda parte do livro. Documentou as dificuldades do quotidiano dos refugiados em Jenin, a “Pequena Gaza”, a constante presença dos drones israelitas e a arrogância dos colonos a expulsar os palestinos do seu território. A autora testemunhou em Belém o “Natal mais triste de sempre”, sem turistas, apenas com jornalistas e correspondentes, em que a artista Rana Bishara colocou uma incubadora com Jesus morto pelas bombas israelitas no exterior da Basílica da Natividade, para lembrar as crianças mortas que o mundo não quer ver. E em Telavive a praça mais triste de Israel com uma mesa vazia posta à espera dos reféns ainda na posse do Hamas e o piano de um dos reféns presos. Na altura já estavam contabilizados 79 jornalistas palestinianos mortos na Faixa de Gaza, um número imenso, tendo em conta que desde o 7 de Outubro nunca mais tinha sido possível a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza.

A terceira parte do livro é constituída por crónicas escritas entre Janeiro de 2024 e Março de 2025, altura em que “Gaza Está em Toda a Parte” vai para a gráfica. Longos meses em que a situação se agrava para os palestinos em Gaza e na Cisjordânia. A UNRWA agência para os refugiados palestinianos criada pela ONU em 1949 e que era um apoio indispensável para muitos palestinianos é extinta. A ajuda externa é impedida e a fome, a doença e a subnutrição de toda uma população chegam-nos diariamente pelos telejornais. A 2 de Fevereiro, na última mensagem de W. para a autora, ele escreve: “O meu povo hospitaleiro e decente tornou-se mendigo ou ladrão. Fomos privados de tudo, até da nossa humanidade”. (pág. 384). E R. o intérprete que Alexandra conhecera em 2017 usa a palavra ““pedintes” entre aspas, como se nem suportasse outra forma.” (pág. 384) Vozes fortes como a de Guterres e de Lula, Francesca Albanese ou Jorge Borrell, governos que se destacam como o de Espanha ou da Irlanda quebram o silêncio da maioria dos governantes da União Europeia subjugados à desumanidade do governo sionista de Netanyahu. A repressão sobre jovens manifestantes universitários nos EUA, em França e na Alemanha faz emergir cada vez de forma mais clara uma geração de jovens que se mobilizam pela defesa do futuro do planeta e pela defesa da paz no mundo. Apesar de o peso da direita e da extrema direita se acentuar em Israel e de os pró-Palestina serem uma ínfima minoria, a mais importante associação de direitos humanos israelita divulga um relatório arrasador com relatos de torturas a mando da dupla Ben-Gvir/Smotrich, para quem os palestinos não são gente, tal como para os nazis os judeus eram untermensch. Igualmente, Lee Mordechai, um historiador israelita documentou no relatório Bearing Witness to the Israel-Gaza War informação factual sobre o que se passa em Gaza. “Considera o ataque do Hamas e outros grupos a 7 de Outubro uma atrocidade. Tal como considera a resposta de Israel um genocídio, e no fim explica porquê.”  (pág. 489)

Nos EUA, Biden e Kamala Harris preparam as eleições e ignoram Gaza, não usam sequer os seus discursos para dar voz e denunciar o genocídio. A hipocrisia é tal que ao mesmo tempo que se fala em cessar fogo se enviam milhões em armamento para Israel. E tudo piorou ainda mais com a eleição de Trump. Na noite em que se anuncia o cessar fogo (Janeiro de 2025) são mortos 81 palestinianos. Tal como hoje, no final do ano de 2025, tenta-se normalizar o genocídio, como bem disse a Relatora Especial da ONU Francesca Albanese. Somos confrontados diariamente com projectos e discursos obscenos sobre o futuro da faixa de Gaza, como a dita Riviera do Médio Oriente. Há muitos anos Hannah Arendt afirmou que “a morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie”. 

Estou a escrever este breve texto sobre um livro imperdível, ao mesmo tempo que no meu computador surgem mensagens com votos de um Feliz Ano Novo. É com pessimismo que prevejo os acontecimentos de 2026, mas tento reter as palavras de Alexandra Lucas Coelho : “Mas o pessimismo é um luxo, os palestinianos não se dão a ele. Estão ocupados a tentar não morrer.” (pág. 474)

28 de Dezembro de 2025 

Almerinda Bento

sexta-feira, 6 de março de 2026

A Convidada escolhe: “Anos de Brasa – Contos e outros Títulos”

“Anos de Brasa – Contos e outros Títulos” – Luís Farinha, 2025

Tal como diz o título, “Anos de Brasa – Contos e outros Escritos” é constituído por um conjunto de dez pequenos contos, seguido de textos sobre personagens marcantes da nossa história recente e com ligação ao período revolucionário do 25 de Abril. É um livro denso, muito abrangente no retrato da sociedade portuguesa no período do 25 de Abril, assim como no que o antecedeu e nos anos seguintes. Dá-nos a perspectiva da complexidade desse período único que a nossa geração viveu e protagonizou. Daí o interesse de o trazer a este público que na altura teria entre os vinte e os trinta anos, como memória, mas também como testemunho num tempo de recuo nos direitos que estamos actualmente a viver, lembrando-nos que os direitos conquistados têm de ser preservados pois a sua existência não é um dado adquirido. E se hoje, para os jovens, é com estranheza e até incredulidade que escutam relatos do que era a ditadura e a vida antes do 25 de Abril, “Anos de Brasa” é um testemunho real a necessitar de ser divulgado 

Como se lê no prefácio de Maria Helena Ventura, o 25 de Abril de 74 foi “O confronto quase mítico dos oprimidos com o nada … e o quase tudo, na abertura de múltiplas perspectivas de futuro, … no desesperado anseio de bens essenciais por um proletariado exausto, contra a negação dos que temiam perder privilégios e se agarravam a um passado de 48 anos.”  E acrescenta que o “… povo que, não sendo uma massa homogénea, estava irmanado no despojamento de condições básicas de vida. E de repente, como se levantado do chão pelos braços dos mais fortes, afagava a decisão de obter iguais liberdades para a sua diversidade,” (pág. 7). O desafio era imenso: mudar a vida, mudar mentalidades e lutar contra os saudosistas, sem contar com o receio de represálias que se tinha incrustado ao longo de 48 anos de repressão e medo.  A energia que irrompeu, nunca antes vista, fez nascer uma coragem colectiva, um criar laços, um transformar os sonhos em realidade, não sem contradições, que constituíram esses “anos de brasa” que aqui nos traz Luís Farinha. 

Num tempo em que o analfabetismo em Portugal era uma vergonha, sobretudo entre as mulheres e nos campos, foram as jornadas de alfabetização as primeiras acções que levaram centenas de jovens por esse país fora a descobrir esse mundo esquecido de tantas pessoas que só queriam saber escrever o seu nome para deixarem “a vergonha de ter o dedo no cartão de identidade” (pág. 20). O primeiro conto intitulado “Se tivesse durado mais algum tempo…”  mostra-nos quanto esses jovens – o “bando” – aprenderam (porventura mais do que ensinaram!) confrontando as suas teorias, os seus saberes académicos com a realidade, com a desconfiança, com os preconceitos e com o caciquismo viesse ele da igreja, ou de casa.  O grupo, sobretudo de alunas, “vinha à escola como se fosse dia de festa” com um objectivo muito prosaico: saber escrever o seu nome. “Ninguém estava ali para chegar de imediato às estrelas, talvez apenas para nascer com o dia e ver crescer na horta o fruto com que se dá de comer aos filhos.” (pág.25)

As revoluções, mesmo as que são feitas com cravos, são sempre momentos de profundas transformações e todos estes contos nos trazem essas memórias. O surgimento de partidos e organizações, antes na clandestinidade, trouxe ao de cima as diferenças ideológicas, o confronto entre grupos, estudantes e operários com as suas reivindicações, o radicalismo de quem esperou tanto tempo e agora queria tudo e já, o boicote e a sabotagem de quem não queria perder privilégios nem poder, a generosidade e o entusiasmo de quem queria mudar o mundo e o cepticismo de quem achava que “o mundo é feito de ricos e pobres.  Sempre foi assim e sempre será!” Nas revoluções, mesmo as que foram feitas com cravos, a luta de classes não deixa de existir. Antes fica mais acesa. 

“Casas sim! Barracas não!” quem não se lembra desta palavra de ordem? Tão actual nos dias de hoje, passados quase 52 anos de Abril. O direito à habitação como direito básico gera um movimento muito forte, com grande mobilização das mulheres, nas ocupações de casas devolutas. Também dessa altura, assiste-se à construção de casas da noite para o dia, só possível graças à solidariedade e entreajuda dos moradores, num tempo em que a força do povo conseguia mover montanhas e responder a necessidades básicas. Também aqui o associativismo através da constituição de Comissões de Moradores foi o impulso para enormes transformações ao nível das infraestruturas, acessíveis de forma assimétrica e muito rudimentar no todo nacional. Nas escolas, pela primeira vez, substituem-se os reitores, muitos coniventes com o antigo regime e experimenta-se a gestão democrática partilhada, enfrentando-se o gigantesco desafio de pensar a escola como bem público aberto a todas as crianças e jovens, independentemente das posses dos pais. Cometeram-se erros? Certamente, mas abriu-se a escola a todos e deram-se os passos essenciais para implantar a Escola Pública como uma das grandes conquistas que depois a Constituição inscreveu como direito fundamental. 

A luta estudantil que tinha começado a ter expressão com o eclodir da guerra colonial, intensificou-se com a morte de Salazar e com o marcelismo que, ao contrário do que era expectável, não só não diminuiu a repressão, como a aumentou. Luís Farinha traz em “Anos de Brasa” as incursões da polícia de choque nas universidades e o intensificar da resistência estudantil que lutando contra os bufos e a ausência de liberdade de expressão, se mobiliza abertamente contra a guerra colonial. As tertúlias de intelectuais oposicionistas, as salas míticas de cinema e os cineclubes, alguns poucos professores que se distinguiram na época como o Padre Manuel Antunes, as leituras censuradas e proibidas que eram partilhadas, a morte do estudante Ribeiro dos Santos, todo esse caldo fervia e um dia permitiu a adesão popular massiva que levou o Povo a aprender rapidamente a falar nas assembleias e decidir sobre os seu destino. 

Mas nada é linear e a história também não se faz sem sobressaltos, sem contradições, sem desilusões, sem cortes. O sonho da utopia e os caminhos para lá chegar eram diversos e desde cedo se percebeu que a alegria daquele 1º de Maio em que todo aquele mar de gente corria todo para o mesmo lado, não ia durar sempre. Para avançar na revolução era preciso acabar com privilégios, tirar o poder a quem sempre fora único dono e senhor. As nacionalizações e sobretudo a reforma agrária eram medidas demasiado avançadas para poderem resistir. Muitos problemas sociais subsistiram apesar das muitas leis que pela primeira vez deram direitos fundamentais a quem nunca os tinha vivido. Portugal abriu-se ao mundo, aderiu à CEE, acreditou que o fosso que nos separava do mundo iria diminuir. A queda do muro de Berlim e o fim da URSS constituiu para muitos o fim do tempo da utopia. Muitas certezas se desmoronam com a queda do muro, ao mesmo tempo que o individualismo vai paulatinamente substituir o espírito colectivo agregador que tinha irmanado tantos no sonho de um mundo mais igual e mais justo para todos. 

A segunda parte de “Anos de Brasa” traz aos leitores testemunhos de conversas entre o estudioso, o historiador Luís Farinha e importantes figuras com relevo na construção deste período revolucionário. Emídio Guerreiro, exilado durante 42 anos, que considerava que tinha tido uma segunda vida aos 75 anos quando ocorreu o 25 de Abril. Homem duma energia e têmpera notáveis morreu com 105 anos em 2005. Não deixava ninguém com dúvidas quando afirmava que nunca tinha sido do PSD, mas sim do PPD. 

António Borges Coelho com quem Luís Farinha fez um percurso enquanto aluno, enquanto parceiro nos corpos directivos do Museu do Aljube e enquanto parceiro na produção e divulgação da História em Revistas com o foco na memória da resistência. Homem vincadamente de esquerda, foi inovador em todos os campos a que dedicou a sua inteligência e conhecimento.

Álvaro Cunhal, personagem mítica, amado e odiado, que transformou a programada entrevista de meia hora em cinco horas de conversa. Afinal, aquele poço de sabedoria, o mítico secretário-geral era mesmo inacessível?

José Medeiros Ferreira que no 3º Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, em 1973, defendeu uma tese inovadora que um ano depois o MFA parecia decalcar. À teoria dos 3D como ficou conhecida – Democratizar, Descolonizar, Desenvolver – Medeiros Ferreira acrescentou - Socializar. Medeiros Ferreira ambicionava Portugal soberano, fora do controlo quer dos EUA quer da União Soviética. 

O livro de José Saramago “Levantado do Chão” e o excelente roteiro que foi concebido pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo para dar a conhecer essa obra merece destaque nos “Anos de Brasa”. E cito: “Roteiro também para os leitores de Saramago e para muitos outros que hão-de começar a sê-lo se perceberem que a literatura, a verdadeira literatura, não é um devaneio deleitoso para entretenimento de ociosos, mas antes uma leitura profunda da vida para compreender e transformar o mundo.” (pág. 176)

Termina Luís Farinha esta sua lição de história com a referência a Manuel Francisco Rodrigues, professor e tradutor, um pacifista, naturista, adepto do vegetarianismo, considerado pela polícia política um “perigoso anarquista”, preso em 1940 quando entrou em Portugal vindo de Espanha. Passou pelo Aljube e pelo Tarrafal. A singularidade das suas ideias e pensamento sempre foram difíceis de serem entendidos por quem com ele lidou, sendo frequentemente considerado lunático. Reabilitado em 1963, voltou a exercer a sua profissão docente em Chaves.

Termino mais uma vez agradecendo a Luís Farinha esta sua incursão na literatura, trazendo-nos este retrato dum tempo que mudou o rumo da nossa história recente e que marcou a nossa juventude.


28 de Janeiro de 2026 

Almerinda Bento


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Regresso a Reims

 Regresso a Reims” – Didier Eribon, 2009

Parece que os clubes de leitura estão a surgir um pouco por todo o lado e isso é bom. Porque, além de podermos partilhar impressões e visões sobre aquilo que lemos e que nos liga periodicamente, estes espaços permitem-nos criar novas amizades e descobrir livros que, possivelmente, nunca teriam feito parte da nossa lista de livros a ler. É o que se passou com “Regresso a Reims” de Didier Eribon, filósofo e sociólogo francês, um ano mais novo do que eu. O não ter nenhuma referência do autor e o facto de a capa do livro ser pouco apelativa, dificilmente me teriam levado a comprar este livro, se não fosse por sugestão do “Ler à Esquerda”.

Sendo uma autoficção sobre o autor e sobre a sociedade francesa em que ele e a família se inserem, o livro permite-nos também olhar para a realidade portuguesa agora, com o crescimento e visibilização agressiva da extrema direita e do conservadorismo, ocorridos há algumas décadas atrás em França com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen. Desde logo este livro trouxe-me à lembrança Annie Ernaux e o seu característico recurso às fotografias de família para nos situar nos diferentes momentos da(s) história(s).

Após 20 anos de ausência, numa necessidade de fuga do seu meio social e familiar de origem, este regresso a Reims de Didier Eribon após a morte do pai, é uma reconciliação com a mãe e também consigo próprio. Oriundo de uma família muito pobre, para a qual estudar estava fora de questão e que carregava o preconceito para com o intelectual, a descoberta da cultura, a escolha entre resistir ou submeter-se ao determinismo social que o levaria a não sair dos seus limites de classe, assim como decidir assumir a sua orientação sexual, foram processos nada fáceis nem lineares. “É preciso ter passado, como foi o meu caso, de um lado para o outro lado da linha de demarcação para escapar à lógica implacável do óbvio e ter a perceção da terrível injustiça dessa distribuição inigualitária das oportunidades e dos possíveis” (pág. 45). Visto pela família como “excêntrico”, “não-normal”, “estranho”, “bizarro”, por causa das suas leituras, actividades políticas e atitudes (pág. 83), os estudos e a sua sexualidade afastam-no da família e de Reims, “a cidade do insulto” (pág. 187).

Um aspecto muito relevante, analisado na terceira parte do livro, é o fenómeno político que consistiu na mudança de voto de parte significativa da classe operária francesa anteriormente comunista para o voto na direita e na extrema-direita. Didier Eribon analisa a erosão do PCF, a incapacidade de aceitar os movimentos sociais emergentes, a desilusão dos meios operários que se sentiram traídos por um governo com participação dos comunistas, com uma esquerda socialista cada vez mais a virar-se para a direita, assumindo uma linguagem de governantes e já não de governados. A anterior dicotomia “operários/burgueses” passa a ser substituída por “franceses/estrangeiros”; a “classe operária” e os “operários” desaparecem do discurso político; o “senso comum” aprofunda-se: já não é o/a operário/a ou o homem/mulher de esquerda, substituídos pelo “francês”. O racismo entranhado na classe operária vira-se contra os imigrantes, acusados de “roubarem” os empregos e as prestações sociais devidas aos “nacionais”. De notar a persistência desse discurso anti-imigrantes dos anos 80 em França e que encontramos nos anos 20 do século XXI disseminado na Europa e na boca e nas palavras de ordem da extrema direita portuguesa. Em conversa com o autor, a mãe explica que o seu voto na Frente Nacional foi “para expressar um protesto porque as coisas não estavam bem” (pág. 122), rematando que “A esquerda, a direita, não há nenhuma diferença, são todos iguais e são sempre os mesmos que pagam” (pág. 120). A impotência transforma-se em raiva e faz alterar radicalmente o voto anteriormente de esquerda para a direita e extrema direita.

Didier Eribon cita Sartre e Beauvoir como referências fundamentais no seu percurso e no seu pensamento, assim como Foucault que biografou. Sendo Paris a cidade para onde partiu para viver plenamente a sua homossexualidade e a Sorbonne onde encontrou excelentes professores em contraponto ao “marasmo desmobilizador e desmoralizador”(pág. 173) existente em Reims, foi, no entanto, Reims a cidade onde se “construiu como gay” (pág. 195).

O orgulho de se assumir é político, “visto que desafia os mecanismos mais profundos da normalidade e da normatividade” (…) “Estamos sempre em equilíbrio instável entre o significado ofensivo da palavra injuriosa e a sua reapropriação orgulhosa. Nunca se é totalmente livre, nunca se está libertado” (pág. 211). “a “subversão” absoluta não existe, tal como não existe a absoluta “emancipação”. E quase a terminar, cita Sartre: “O importante não é o que fazem de nós, mas o que nós próprios fazemos daquilo que fizeram de nós”. (pág. 212). E conclui: “No fundo, estava marcado por dois vereditos sociais: um veredito de classe e um veredito sexual. Nunca é possível escapar às sentenças assim proferidas. E eu trago em mim as marcas desses dois vereditos. Mas uma vez que eles entraram em conflito um com o outro em dado momento da minha vida, tive de me moldar a mim próprio voltando-os um contra o outro.” (pág. 213).

Um livro actualíssimo. Indispensável.

25 de Novembro de 2025 

Almerinda Bento