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sexta-feira, 24 de julho de 2026

"Maite" de Fernando Aramburu

Fiquei fã de Aramburu desde que li o Pátria, livro que considero o seu ex-libris (ver opinião aqui). Já li mais alguns dele e são sempre leituras prazerosas. Como esta.

As personagens deste romance são muito credíveis, complexas nos seus sentimentos. Aqui o foco é precisamente as personagens e toda a psicologia nelas envolvente. Se esperam que o contexto histórico esteja muito presente, como no Pátria, vão ao engano. Eu gostei muito sim, sem deixar que Pátria seja o meu preferido. Este romance decorre em quatro dias, entre 10 a 13 Julho de 1997, em San Sebastián.

Maite é uma mulher pacificadora, talvez demasiado. A sua necessidade de manter a paz familiar a todo o custo, tanto na relação mãe/irmã como na relação com o marido, leva-a a esquecer-se, muitas vezes, de si própria.  A relação entre as três mulheres está bem aprofundada. Os silêncios que se instalam e o sentimento de culpa aqui bem espelhados.

E há neste romance uma impressão em relação ao comportamento do marido que se instala no leitor e que faz com que me tenha apetecido abanar Maite. Embora tenha já ouvido alguns comentários menos favoráveis em relação ao final desta história, eu gostei muito dele. Achei credível, verosímil. Olhamos à volta e encontramos tantas mulheres assim... E mais não digo para não fazer nenhum spoiler.

Como pano de fundo, Aramburu foi buscar um acontecimento verídico, o rapto e assassinato de Miguel Ángel Blanco, vereador do Partido Popular pela ETA em 10 Julho de 1997. O medo e as tensões vividas na época (nesta altura esta organização fez um ultimato ao governo para transferir os presos da ETA para o País Basco) acontecem a par com o regresso da irmã de Maite, Elene, depois de muitos anos nos EUA, a doença da mãe, a viagem de trabalho do marido e os segredos familiares que vão sendo revelados aos poucos. Um acontecimento político que afetou as familias e as suas relações, sendo que pelo que li, este assassinato constituiu um dos pontos de viragem na luta contra a ETA porque provocou uma enorme reação social (manifestações enormes de cidadãos bascos condenando essa organização). O medo imperava até então. A tolerância social perante a ETA começava a romper.

Recomendo muito esta obra embora, como referi, estes aspectos políticos não constituam o cerne deste romance.

Terminado em 9 de Junho de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Uma história que volve o olhar para a memória recente do País Basco, retomando a temática do brilhante Pátria.

San Sebastián, julho de 1997. Enquanto o marido está em viagem de trabalho, Maite recebe a sua irmã Elene, que, depois de passar longos anos nos Estados Unidos, regressa à cidade natal porque a mãe de ambas sofreu um AVC. Nos dias que passarão juntas, as irmãs e a mãe convivem e conversam, mas escusam-se a dizer toda a verdade umas às outras. Evitam também encarar a tensão social que as rodeia: a ETA sequestrou um vereador de Ermua, Miguel Ángel Blanco, e ameaça executá-lo se as suas exigências não foram satisfeitas.

Os factos históricos correm em paralelo com a intimidade de Maite, uma mulher sensível, compassiva, atenta, mas espartilhada por convenções que a impedem de abrir os olhos e enfrentar a realidade. Fernando Aramburu voltou a fazê-lo: brinda-nos com um romance emocionante e inesquecível, outro marco na sua narrativa, que o confirma como um dos grandes narradores europeus do momento; uma história que volve o olhar para a memória recente do País Basco e cujas personagens, retratadas com espessura psicológica e profunda humanidade, nos comovem, em especial a sua imensa e memorável protagonista. 

Cris 

segunda-feira, 24 de junho de 2024

"Filhos da Fábula" de Fernando Aramburu

Fernando Aramburu conquistou-me com o seu romance, "Pátria". Com as suas (tantas!) páginas fiquei um pouco mais conhecedora do quanto sofreram as famílias no País Basco, muitas vezes amigas que a guerra cível fez rivais, inimigas. Uma história que nos conta as feridas pelas quais duas famílias passaram. Impossível esquecer, necessário perdoar. Tão bom!

Confesso que não li ainda "O Regresso dos Andorinhões", sobretudo pelo tijolo que é e pela dificuldade de o transportar no dia a dia. Sei que a temática é diferente do "Pátria" mas o interesse está lá e, espero que chegue a sua vez!

Este "Filhos da Fábula", sendo de Aramburu e possuindo menos de 300 páginas, suscitou o meu interesse imediato. O tom da escrita é completamente diferente mas como pano de fundo encontra-se, à semelhança do "Pátria", o conflito basco. Asier e Joseba são dois jovens que em 2011 partem para o sul de França com o intuito de se juntarem à ETA. Não fosse a sua situação - e atitudes - desesperadamente ridículas, dado julgarem-se prestes a serem heróis, poderia ter dado algumas gargalhadas. Este tom na escrita não é o meu preferido mas reconheço em Aramburu uma mestria ímpar. E porquê?  Porque independentemente de não apreciar este tom jocoso na narrativa, o autor conseguiu conquistar-me com esta trama logo de início.

Asier e Joseba, Sancho e Pança. Foi de quem logo me lembrei. Dois personagens bastante patéticos na sua forma de encarar os acontecimentos, nomeadamente a extinção da ETA, porque lutam contra moinhos inventados. A sua perseverança fá-los caminhar para situações que se não fossem trágicas, seriam cómicas. A reflectir.

Leiam!

Terminado em 19 de Maio de 2024

Estrelas: 4*

Sinopse

O novo romance do autor de Pátria sobre gentes bascas: uma obra irónica, demolidora, divertidíssima. Dois jovens empolgados, Asier e Joseba, partem em 2011 para o Sul de França com a intenção de se converterem em militantes da ETA. Esperam instruções numa quinta com um aviário, acolhidos por um casal francês com quem pouco se entendem. É lá que ficam a saber que o grupo anunciou o fim da atividade armada. Abandonados à sua sorte, sem dinheiro, sem experiência nem armas, decidem continuar a luta por sua conta, fundando uma organização própria, na qual um assumirá o papel de chefe e disciplinado ideólogo, e o outro o de subalterno mais descontraído. O contraste entre o ensejo de feitos heroicos e as peripécias mais ridículas, sob uma chuva persistente, vai conduzindo a história para uma espécie de drama cómico. Até que conhecem uma jovem que lhes propõe um plano. Depois do sucesso de Pátria, este novo romance de Fernando Aramburu arrasta-nos, de uma forma muito ágil e surpreendente, para uma aventura inesperada com um desenlace magistral. Contado com um humor permanente, cáustico e veloz, e escrito com frases cuja brevidade são um autêntico virtuosismo, Filhos da Fábula é mais uma prova de que Fernando Aramburu pertence à estirpe dos grandes escritores, aqueles que nos contam histórias como mais ninguém é capaz de o fazer. 

Cris

quinta-feira, 3 de maio de 2018

"Pátria" de Fernando Aramburu

Já há bastante tempo que nāo lia um "calhamaço". Acabei de distribuir este por dois fins de semana porque é-me completamente impossível transportá-los durante a semana porque tento fazer uma caminhada diária do meu emprego para casa e os quilos a mais de livros "gordos" nāo ajudam em nada... Embora com muita pena tive de intercalar outros livros durante a semana pois leio algumas vezes à hora do almoço e logo pela manhā, antes de entrar.

Um amigo avisou-me que este autor é um dos grandes mestres da literatura espanhola, um basco de māo cheia. Tirando isso nāo sabia bem ao que ia. A sinopse refere muito ao de leve a história retratada nestas 700 páginas e ainda bem que assim é. A surpresa foi magnífica!

Sem me dar conta vi-me envolvida na história de duas famílias bascas e nos conflitos existentes numa época em que a ETA imperava pelo medo, com subornos, extorsōes e luta armada. E assassinatos. Nāo consigo descrever como me envolvi e me transportei para essa época... A escrita de Fernando Aramburu é realmente de mestre. Simples e concisa mas apaixonante, directa. A narrativa flui perante os nossos olhos e em cada capítulo, dedicado a cada personagem, sabemos um pouco mais da história dos elementos das duas famílias envolvidas; caminhamos entre passado e presente sem que a nossa atençāo esmoreça de todo. 

Os personagens, pertencentes a duas famílias, entranham-se na pele facilmente e, nem a mudança de capítulos onde a história de cada um é retratada, nem o caminhar alternado pelo presente e passado, faz com que o leitor perca o rumo à trama! Muito fácil de associar, nestas mudanças de capítulos, a quem o autor se refere e a que tempo elas ocorrem. Achei que esse pormenor refletia bem a mestria desta escrita e deste saber como ninguém contar uma história com sabedoria. Esta subtil passagem entre o passado e o presente, o sabermos antecipadamente (algumas coisas, nāo todas!) o que vai acontecer, a sensibilidade extrema com que sāo retratados as vítimas dos atentados da ETA, a fragmentaçāo de uma comunidade, de famílias e de amigos por discordâncias políticas, tudo está tāo bem descrito que, nāo fora a dor de braços com que este calhamaço me deixou, me apraz dizer que tāo cedo estes personagens nāo me vāo abandonar.

E sabem que mais? Já ia a mais de meio quando "senti" que independentemente do fim escolhido pelo autor eu o ia aprovar porque, em livros como este, o importante nāo é o final mas a história no seu todo, o seu conteúdo na sua totalidade. 

Recomendadíssimo!  A meio do livro soube logo que estrelas daria a esta preciosidade!

Terminado em 1 de Maio de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
O retábulo definitivo sobre mais de 30 anos da vida no País Basco sob o terrorismo.
      No dia em que a ETA anuncia o abandono das armas, Bittori dirige-se ao cemitério para, na sepultura do marido, Txato, assassinado pelos terroristas, lhe contar que decidira voltar à casa onde tinham vivido os dois. Mas poderá ela conviver com aqueles que a perseguiram antes e depois do atentado que transtornou a sua vida e a da família? Poderá saber quem foi o encapuzado que num dia chuvoso matou o marido, quando este regressava da sua empresa de transportes?
      Por mais que chegue às escondidas, a presença de Bittori alterará a falsa tranquilidade da terra, sobretudo a da vizinha Miren, amiga íntima noutros tempos, e mãe de Joxe Mari, um terrorista encarcerado e suspeito dos piores receios de Bittori. O que aconteceu entre essas duas mulheres? O que envenenou a vida dos filhos e dos respetivos maridos, tão unidos no passado? Com lágrimas escondidas e convicções inabaláveis, com feridas e coragem, a história arrebatadora das suas vidas, antes e depois da tormenta que foi a morte de Txato, fala-nos da impossibilidade de esquecer e da necessidade de perdoar numa comunidade fragmentada pelo fanatismo político.

Cris