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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

"Naufrágio" de João Tordo

O mote para pegar neste livro foi um encontro com o autor no âmbito de um clube de leitura nas Caldas da Rainha, moderado por uma amiga. Já li alguns livros de João Tordo e, como em tudo na vida, uns livros foram mais do meus agrado do que outros, se bem que como já foram lidos há algum tempo (sobretudo os mais antigos) não consigo lembrar-me com nitidez quais é que me ficaram no coração. Coisa estranha é verdade, mas às vezes acontece. A ideia no geral é positiva pelo que foi com alguma expectativa que peguei neste "Naufrágio".

O autor não podia ter escolhido título melhor! Está perfeito!

A trama gira à volta de um escritor de sucesso, sexagenário, que não escreve há mais de dez anos. É uma narrativa feita na primeira pessoa, intimista, que gera no leitor uma empatia natural face a este escritor. Jaime Toledo, pelo que ouvi, já apareceu noutro romance mas como personagem secundário, ganha aqui uma dimensão e profundidade bem maior. Para além de sofrer de um bloqueio que nenhum escritor quer possuir, sofreu de um cancro que o deixou bastante debilitado e com fracos recursos financeiros. No topo da pirâmide, está o seu (mau) feitio e um passado de abusos, assédios e pressões sobre as mulheres com quem se envolveu. O declínio, o isolamento, o arrependimento e a loucura.

Temos aqui uma personagem ao estilo de João Tordo. Uma escrita que nos envolve, rica em pormenores, possuidora de uma fina ironia, que nos obriga a questionar alguns valores. Queremos não simpatizar com esse Jaime e algo nos impede de o fazer. O seu percurso de auto-análise é fascinante e somos atraídos por essa mente que tanto se desculpa como se arrepende. O caminho do crescimento não é mais do que isso, não acham?

Leiam, vale muito a pena!

Terminado em 12 de Novembro de 2022

Estrelas: 6*

Sinopse

O novo romance de João Tordo conta-nos a história de um homem à deriva, enredado nos seus fantasmas e obrigado a enfrentar a mais terrível das acusações.

«Quão longa é a penitência de um homem, quantas semanas e meses e anos demora a expiação dos pecados?»

Aos sessenta anos, o romancista Jaime Toledo enfrenta vários problemas. Não escreve há uma década, foi diagnosticado com cancro e, de repente, dá por si no epicentro de um escândalo. Escritor de renome em Portugal, a polémica lança-o para o abismo – sem carreira, sem dinheiro e sem casa, com os livros a ganhar pó nos armazéns, depois de banidos pela sua editora, toma uma decisão radical: deixar tudo para trás e mudar-se para um barco decrépito, fundeado nas docas de Lisboa. É no Narcisse – um minúsculo «barco mágico» –, na companhia de uma velha guitarra e de um cão chamado Sozinho, que Jaime procurará devolver o sentido à sua vida, reconciliando-se com o passado: as relações conturbadas com as mulheres, o abandono da escrita, a culpa que o corrói.

Até que, um dia, a aparição de uma figura do passado mudará tudo, desviando a narrativa para um lugar inesperado. Estará nas mãos de Jaime decidir se este naufrágio é o fim ou um caminho para algo novo.

Este é um romance corajoso sobre o amor e as relações entre os sexos, uma reflexão sobre a memória e a culpa, e as linhas difusas que definem as fronteiras pessoais, sociais e morais. Através de Jaime Toledo, João Tordo traça o perfil de um homem em busca da redenção possível, num mundo mais rápido a julgar do que a reflectir e onde é mais fácil condenar do que estender a mão.

«Por vezes, a ausência de esperança é uma forma de esperança; a paciência surge quando se esgota a paciência; o amor nasce, estranhamente, do mais profundo desamor.»

Cris

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

"Ensina-me a Voar Sobre os Telhados" de João Tordo

Gosto de ler João Tordo. Creio que os primeiros livros que li dele foram o Hotel Memória e As Três Vidas, antes de 2010 porque não tenho ainda registo no blogue. Gostei e fiquei fã. 

Mesmo assim, gosto de ler os seus livros com intervalos grandes. Há uma melancolia na sua escrita que se me agarra ao corpo e que me faz ler coisas mais leves depois de ter lido um livro seu. Passeando pelas reviews que fiz anteriormente e que estão no blogue, vejo que a sensação que tive ao ler este livro é algo recorrente.

Algumas partes não constituem nem uma leitura fácil nem fluída para mim, outras há em que voo sobre as suas páginas. Mas no final, tudo faz sentido. Neste "Ensina-me a Voar...", marcado por duas histórias separadas temporalmente, aconteceu algo semelhante. Uma das histórias, a que ocorre no tempo presente, foi lida com muito gosto e rapidamente. A outra, que decorre no Japão, foi-me passando pelas mãos com dificuldade e sem perceber o seu sentido completo. 

Claro que depois elas se juntam e, tendo lido já tantos livros de João Tordo, não deveria ficar espantada com alguns detalhes que mudam e alteram a história... mas fico. E isso é surpreendente para mim. No entanto, sobretudo pela história contada no tempo passado, não achei este o seu melhor livro não deixando, na mesma, de ser bom. Vejam por vocês. 

Terminado em 31 de Julho de 2021

Estrelas: 4*+

Sinopse

Algures entre o sonho e a mais pura realidade, Ensina-me a Voar Sobre os Telhados é um lugar onde um pai e um filho aprendem a amar-se, é um espaço onde se procura aceitar dores antigas e abraçar a fragilidade humana. Um romance que é uma elegia à beleza imperfeita da vida.

Cris

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

"A Mulher Que Correu Atrás do Vento" de João Tordo

Gosto da escrita deste autor. João Tordo escreve com simplicidade e, no entanto, às vezes, numa

palavra ou outra obriga-nos a ir procurar o seu significado. 

O enredo não é facil nem linear. Como neste livro. É no final que tudo se encaixa, que tudo faz sentido mas, isso não quer dizer que consigamos perceber tudo de rajada. Com esta "mulher que correu atrás do vento" fica-se a pensar no que se leu, no significado das acções dos personagens, na história atrás da história, no livro atrás do livro.

Foi uma leitura feita conjuntamente com algumas meninas livrólicas, à qual não consegui cumprir as metas diárias estabelecidas, mas gostei de "ouvi-las" chegar ao fim com exclamações de espanto, surpresa e admiração. Quando foi a minha vez já ia preparada para qualquer coisa de diferente...

E sim, o final une as pontas, as histórias de algumas mulheres separadas no tempo e no espaço. E sim, é preciso ter cabecinha para escrever um livro assim. Mas é preciso gostar de ler um livro assim, também. Eu gostei. E vocês já leram João Tordo?

Terminado em 25 de Agosto de 2020

Estrelas: 5*

Sinopse

Quatro mulheres. Três cidades. Um século. E uma poderosa história de amor e de perda a uni-las.

1892, Baviera. Lisbeth Lorentz, uma professora de piano, apaixona-se por um aluno de 13 anos que sofre de autismo. Ao descobrir que ele é um prodígio, instiga-o a compor um concerto durante as aulas e, um dia, sem explicação, fá-lo desaparecer.

1991, Lisboa. Beatriz, uma estudante universitária —que sonha com o toque das mãos da mãe falecida —envolve-se com o autor d’A História do Silêncio, um romance sobre Lisbeth Lorentz. Ao mesmo tempo, enquanto voluntária num abrigo para mendigos, Beatriz conhece Lia, uma jovem adolescente com um passado incógnito e um presente destruído.

1973, Londres. Graça Boyard, portuguesa, dá à luz a primeira e única filha. Fugida de Lisboa durante as cheias de 1967, para escapar à tirania do pai e à mordaça da ditadura, regressa à capital após a Revolução, tornando-se uma actriz de renome —e abandonando a filha ainda criança.

2015, Lisboa. No consultório de uma terapeuta, Lia Boyard desfia a sua história, dos anos de mendicidade ao momento em que decide procurar a mãe. É aqui que começam a unir-se as pontas de um romance a várias vozes: a história de quatro mulheres - Lisbeth, Graça, Beatriz e Lia - que atravessam um século de História e diferentes geografias, unidas por uma força que transcende a própria vida.

Um livro sobre o poder do amor e o vazio da perda, sobre a amizade que nasce das circunstâncias mais improváveis e o terrível poder da confissão. E, quase no final, uma revelação chocante, a reviravolta que faz deste romance de João Tordo uma narrativa magnética.

Cris

terça-feira, 21 de julho de 2020

"Manual de Sobrevivência de um Escritor" de João Tordo

João Tordo dirige-se, neste livro, a quem quer ser escritor. "Tu que queres ser escritor"! Mas, há tantas coisas que são tão interessantes para quem gosta de livros, para quem gosta de ler!

Quem não gosta de ouvir falar de escritores e das suas particularidades? De saber como o João começou, quais as decisões que teve de tomar, que conselhos dá, como "olha para a vida"? É este olhar para a vida, o estar atento ao que se passa em redor, que Tordo aconselha o estreante a escritor a fazer. Sempre.

Mas, embora Tordo se dirija constantemente a quem deseja ser escritor, o certo é que este livro interessa a todos que gostem de ler. Numa dada altura, refere que "escritor chora, leitor chora". É tão verdade isto. O leitor sente quando o que está a ler foi sentido pelo autor ao escrevê-lo.

Creio que este livro interessa a toda a gente, mas é uma "bíblia" para quem desejar seguir este ofício solitário. Um conselho de João Tordo: não desistir nunca!

Em abono deste livro posso dizer-vos que, não tendo post-it ao pé aquando do começo do livro (preguiça de os ir buscar!), peguei num lápis e... o livro encontra-se todo sublinhado! Nada de definitivo, pois marquei-o levemente, mas até eu fiquei surpreendida, no final, com a quantidade de coisas que achei interessantes e que queria recordar no futuro.

Terminado em 15 de Julho de 2020

Estrelas: 5*

Sinopse
O que é um escritor? Como vive? Como cria? Como sente? Partindo das suas memórias do ofício, João Tordo esboça neste livro uma espécie de manual para todos aqueles que se interessam pelo mundo da escrita sejam escritores a dar os primeiros passos ou leitores curiosos. Misturando humor e pragmatismo, memórias de vida e conselhos úteis, o autor abre as portas da sua actividade e da sua relação com a literatura e a vida a todos aqueles que experimentam a magia da ficção.

Cris

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

"O Paraíso Segundo Lars D." de João Tordo

Depois de acabar de ler há poucos dias O Luto de Elias Gro e sabendo que este era o segundo desta trilogia não quis deixar passar muito tempo e peguei neste "Paraíso".

Nunca sei o que dizer quando acho que o livro não chegou até mim... A obra está bem escrita, não tivesse ela por detrás a mão de João Tordo, um autor que gosto e admiro pelas reviravoltas que consegue efetuar no decurso das suas histórias e pela sua escrita segura e clara. No entando, fui cometida por uma tristeza que não sei explicar, uma melancolia que me roubou a esperança de um final aprazivel que espero sempre quando leio freneticamente qualquer livro. Mesmo quando o final é triste, porque muitas vezes ele é semelhante à vida, eu mantenho a esperança até ao fim, a esperança que algo mude e que o terminus da leitura não seja como eu temia. E essa esperança, esse querer ler depressa, faz-me devorar as suas páginas. Ora neste livro, senti seguramente que fui dominada por uma melancolia, uma tristeza que acompanhou também os personagens durante o todo o livro e que o final da história seria um pouco mais do mesmo: triste e sem esperança.

Sinto que precisaria de ler de novo este livro. Para buscar nele a esperança que procuro sempre numa leitura mesmo quando a história é triste.

Ufa! Que confusão! É assim mesmo que me sinto. Não sabendo explicar melhor, fico por aqui. Vou ler, mal seja editado, o terceiro livro do trilogia para desfazer estes sentimentos. Até porque gostei muito da ideia deste livro nos contar a história do (suposto) autor de O Luto de Elias Gro...

Terminado em 1 de Fevereiro de 2016

Estrelas: 4*

Sinopse

Numa manhã de Inverno, Lars sai de casa e encontra uma jovem a dormir no seu carro. Ele é um escritor sexagenário e, poucas horas mais tarde, parte em viagem com a jovem deixando para trás um casamento de uma vida inteira e um romance inédito: O luto de Elias Gro.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

"O Luto de Elias Gro" de João Tordo

Não foi o primeiro livro de João Tordo que li (O Bom Inverno). Sei que gostei dos outros mas não consigo comparar essas leituras e a sua escrita com este livro. Tão pouco importa, não é? Gosto da sua forma de escrever e tive prazer neste Luto de Elias...

Quem nos conta esta história não é Elias, um homem de fé, o pastor de uma pequena ilha com poucos habitantes. É o narrador, ao qual nunca chegamos a saber o nome, que nos fala na primeira pessoa e nos conta a sua história. Chegado à ilha procura a paz e indiferença que a solidão pode trazer, certo de que nada mais o espera, senão a morte, depois de ter perdido quem mais amava.

Este processo de luto, este abandono interior, essa vontade de nada fazer que o assola, arrasta-o para situações extremas. Junto com este relato, o narrador fala-nos de Elias, da sua filha Cecília, de Alma e de outros habitantes dessa ilha que o acolheu. Ficamos presos a esse declínio que assistimos, sem nada poder fazer, e partilhamos dos seus momentos de dor e de um certo desleixo também.

E ficamos a saber que muitas pessoas à nossa volta fazem o seu luto também. Às vezes é mais pessado que o nosso, ou pelo menos tão igualmente intenso. Foi uma das coisas que o narrador ficou a saber também.
O final é intenso, arrebatador. João Tordo encontrou a medida certa de o terminar! Gostei muito deste final que achei perfeito!

Terminado em 30 de Janeiro de 2016

Estrelas: 4*+

Sinopse

Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.
O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

"O Bom Inverno" de João Tordo


Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 292
Editor: Dom Quixote
ISBN: 9789722041379

"Pois é, João! Apetece-me dizer: Com esta é que me lix....!" Tenho de dar a mão à palmatória com este livro de João Tordo!

Explico porquê: Comprei o livro e estava bastante curiosa pois já tinha lido dois livros deste autor ("Hotel Memória" e "As três vidas") e tinha gostado bastante. Mas quando li a sinopse achei a história tola, sem jeito, tanto mais que, como tenho dito, prefiro livros que me façam viajar para lugares ou acontecimentos que tenham um fundo de verdade...nem que seja um "fundinho" pequenino! 

Nas primeiras 100 páginas (mais ou menos) não mudei a minha opinião e só continuei a ler porque o autor escreve excepcionalmente bem. A história pareceu-me fraca (quem sou eu para afirmar tal coisa?!) mas está, repito, muito bem escrito, o que me levou a ficar curiosa: "Como se vai desenvencilhar João Tordo?" e "Porque tem tantas críticas positivas?"

A certa altura, a história torna-se tão absorvente e o mistério é tal que não consegui largar o livro. Mais: não consegui adivinhar o desfecho, nem sequer apontar para um dos possíveis fins... o que, modéstia à parte, não me acontece muitas vezes neste tipo de livros, onde o suspense tem lugar na primeira fila.

Diferente do tipo de leitura que gosto e prefiro ler, este livro merece, no entanto e indiscutivelmente, cinco estrelas, pois é de uma imaginação sem limites! Deixo uma crítica: perdi uma aula de ginástica e quase um almoço porque tive de acabar de o ler, tal era a urgência ... Isso não se faz, João! Ai, ai...  


Terminado em 23 de Setembro de 2010

Estrelas: 5*

Sinopse

Quando o narrador, um escritor prematuramente frustrado e hipocondríaco, viaja até Budapeste para um encontro literário, está longe de imaginar até onde a literatura o pode levar. Coxo, portador de uma bengala, e planeando uma viagem rápida e sem contratempos, acaba por conhecer Vincenzo Gentile, um escritor italiano mais jovem, mais enérgico, e muito pouco sensato, que o convence a ir da Hungria até Itália, onde um famoso produtor de cinema tem uma casa de província no meio de um bosque, escondida de olhares curiosos, e onde passa a temporada de Verão à qual chama, enigmaticamente, de O Bom Inverno. O produtor, Don Metzger, tem duas obsessões: cinema e balões de ar quente. Entre personagens inusitadas, estranhos acontecimentos, e um corpo que o atraiçoa constantemente, o narrador apercebe-se que em casa de Metzger as coisas não são bem o que parecem. Depois de uma noite agitada, aquilo que podia parecer uma comédia transforma-se em tragédia: Metzger é encontrado morto no seu próprio lago. Porém, cada um dos doze presentes tem uma versão diferente dos acontecimentos. Andrés Bosco, um catalão enorme e ameaçador, que constrói os balões de ar quente de Metzger, toma nas suas mãos a tarefa de descobrir o culpado e isola os presentes na casa do bosque. Assustadas, frágeis, e egoístas, as personagens começam a desabar, atraiçoando-se e acusando-se mutuamente, sob a influência do carismático e perigoso Bosco, que desaparece para o interior do bosque, dando início a um cerco. E, um a um, os protagonistas vão ser confrontados com os seus piores medos, num pesadelo assassino que parece só poder terminar quando não sobrar ninguém para contar a história.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Soltas...

"Coxeei devagar pelo corredor, procurando evitar que a bengala fizesse demasiado barulho, e procurei um interruptor que acendesse uma luz, mas não encontrei nenhum. A perede pareceu-me morder os dedos"

"Bosco, ajoelhado, arfava. Com uma mão sobre a outra, pressionava levemente o peito de Don: a água turva saia-lhe da boca num fio contínuo, mas Don continuava morto."

"Havia muito tempo que não me sentava para escrever e dei-me conta de que tinha saudades. Tinha saudades da folha em branco, da eterna hesitação antes de começar; tinha saudades de ver as palavras formarem-se perante os meus olhos e serem conduzidas pelos meus dedos."

"Os cinco envelopes sobre a mesa olharam-me na cruel indiferença das coisas mortas. Retribuí o olhar e pressenti a melancolia de um final: fosse qual fosse, o futuro estava hipotecado."