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quinta-feira, 30 de abril de 2020

A Escolha do Jorge: “Histórias Daqui e Dali”

“Histórias Daqui e Dali” – Luis Sepúlveda 
(Porto Editora)

“Durante a minha vida confrontei-me com muitas situações que me obrigaram a emudecer durante muito tempo, com a linguagem imobilizada por uma esclerose que não conhece outra terapia para além da ira ou da acção.” (p. 8)

Falar sobre Luis Sepúlveda (1949-2020) é associá-lo a algumas das suas mais emblemáticas obras, tais como “O Velho que Lia Romances de Amor”, “Nome de Toureiro”, “Patagónia Express” e “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”, entre outras narrativas breves que retratam histórias simples, de gente humilde, procurando dar voz aos mais desfavorecidos ainda que, com eles, todos possam aprender algo sobre a vida.

No exílio durante catorze anos distribuídos por vários países, Luis Sepúlveda foi granjeando a simpatia e amizade de milhares de leitores em todo o mundo, sendo Portugal um dos países que melhor o acolheu ao longo da sua vida enquanto escritor.

Nunca consegui falar com Luis Sepúlveda, não que tivesse sido impossível, mas recordo-me de ver ano após ano, na Feira do Livro de Lisboa, as sessões com o escritor sempre repletas de pessoas ávidas de conversar um pouco com o escritor e obter um autógrafo. Mais recentemente, em Janeiro deste ano, tive oportunidade de assistir a uma sessão na Biblioteca Municipal de Oeiras, repleta de participantes, muitos deles em pé, para ouvirem algumas das suas histórias que foi coleccionando ao longo da vida.

Talvez o facto de o escritor chileno ter sido um excelente comunicador (e continuará a sê-lo através das suas obras) e na sua relação humilde e sincera com as pessoas que tenha obtido a sua atenção, respeito e admiração. Talvez por essas razões os leitores se identifiquem com o carácter universalista das suas obras, das suas histórias, dos seus personagens, tantas vezes pessoas de carne e osso que graças à escrita saltaram do plano da realidade para serem imortalizados no plano ficcional.

Recordo-me que o primeiro contacto que tive com o escritor foi através da deliciosa fábula “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar” que, mais tarde, tive oportunidade de ver a sua adaptação ao teatro, em 2001, com a chancela do Teatro Meridional com a qualidade que a entidade tem habituado os seus espectadores ao longo dos anos. Quem assistiu à peça, quem não se recorda da actriz Carla Chambel no papel da gaivota Ditosa? Na altura ainda pouco conhecida e já nestes circuitos menos comerciais demonstrava um talento que mais tarde o grande público viria a confirmar noutros trabalhos.

Impossível ficar indiferente a esta fábula que nos ensina sobre a amizade e a tolerância e o que se consegue atingir quando centramos a nossa energia e força naquilo que de facto importa que é o bem-estar de todos, o estar presente quando o mundo se apresenta como estranho, difícil e perigoso. Os valores universais estão espelhados nesta fábula de Luis Sepúlveda que tem conquistado milhões de leitores de todas as idades em todo o mundo.

Olhamos para o mundo e este apresenta-se-nos mais perigoso e estranho e agora que uma boa parte da população se encontra confinada nos seus lares, não deixa de ser estranho olhar lá para fora e tentar compreender os tempos de incerteza que vivemos naquele que é um mundo industrializado, civilizado.

À semelhança de muitos outros leitores que foram tomados por surpresa com o falecimento do escritor há uns dias, procurei nas estantes um livro de Luis Sepúlveda que ainda não tinha lido. Trata-se de um livro num registo diferente face aos títulos que enumerei no início do texto. “Histórias Daqui e Dali” (2010) é um conjunto de histórias compiladas pelo escritor sobre variados assuntos, desde o seu exílio, questões ambientais, dar voz aos mais desfavorecidos, a decadência do jornalismo, a sua participação em várias edições do Correntes D’Escrita, na Póvoa do Varzim ou a ode dirigida ao escritor uruguaio Mario Benedetti, entre outros temas que captam de imediato a atenção do leitor.

Destes temas, destacaria quatro deles, iniciando com a temática do exílio, na medida em que é um dos temas transversais nestas histórias e uma constante na obra do escritor. Um exílio iniciado em 1977 e com a duração de 14 anos, tendo percorrido vários países, foi acompanhando à distância a evolução política do Chile até à passagem da ditadura militar de Pinochet para a democracia.

O fim da ditadura e o regresso à liberdade e à participação do povo na vida pública do país mantém ainda muitas feridas e questões por resolver, como de resto é comum acontecer nos países que viveram em ditadura, fosse mais ou menos agressiva na relação com os seus concidadãos. E esta ideia é espelhada na primeira história deste volume. “Uma democracia que nasce cansada, vigiada, permitida e paralisada por um pacto monstruoso: construir o eufemismo que salve a face de um Estado de delinquentes, que permita admitir publicamente a existência dos crimes cometidos, mas não os nomes dos criminosos.” (pp. 8-9)

Compreendemos o sentido de liberdade condicionada quando Luis Sepúlveda, em 1990, tem autorização para visitar o Chile e ao sair do consulado chileno em Hamburgo refere: “Abandonei o consulado sentindo que a generosidade da ditadura era humilhante. O direito de viajar ou de permanecer é inerente ao ser humano. O visto para ir ou ficar é um golpe cruel e planificado na liberdade do indivíduo.” (p. 12)

Numa outra história, a meio do volume, Luis Sepúlveda tece um pensamento ainda mais denso, sobretudo quando trava conhecimento com outros exilados e pequenas comunidades que vivem na selva amazónica que, já de si, levam uma vida de exílio em comparação com a vida das pessoas nas cidades e no campo. “Nós, os exilados, somos como lobos, para onde vamos juntamo-nos às alcateias que não são as nossas, mas convivemos, caçamos juntos, e, no entanto, a lua convida a afastar-nos para uivar de solidão.” (p. 87)

É durante as suas deambulações pela selva amazónica, no Equador, durante quatro meses, que, em 1978, Luis Sepúlveda, no meio de uma tempestade é acolhido por um indivíduo de idade avançada que partilhou tudo o que tinha naquela noite. Foi este episódio que, uma década mais tarde originou o seu primeiro romance “O Velho que Lia Romances de Amor”, um dos mais representativos da sua carreira. “Sempre quis escrever alguma coisa, não sabia o quê, mas aquele velho que nos deu guarida numa noite de tormenta na selva e repartiu connosco tudo o que tinha, necessariamente, deveria ser o protagonista. Não sabia o que escrever e tão-pouco tinha pressa de o fazer. No exílio, se algo temos, é tempo, muito tempo.” (p. 84) “O velho começou a visitar-me em sonhos, nunca me falou, mas deixava-me cheio de perguntas: O que estás a ler? Porque estás de pé? Quem te deu esses livros? E a lupa, de onde saiu? Porque conheces a língua dos Shuar?” (p. 85)

Um dos temas bastante interessantes e da actualidade presente neste volume são as alterações climáticas. Se o panorama dos glaciares em 2010 já era preocupante, passada uma década apresenta-se como um dos temas que tem estado na ordem do dia, fruto da actividade humana, as emissões de CO2, e o modo como o turismo tem afectado de modo negativo alguns pontos do globo terrestre que se apresentam como ecossistemas frágeis, como por exemplo, os glaciares de Perito Moreno, na Argentina. “Vê como isto é bonito; por favor, não me tragas turistas!” É o pedido que Luis Sepúlveda recebe várias vezes enquanto sobrevoa a Patagónia.

Não deixa de ser curioso que na sequência da pandemia que presentemente vivemos, o planeta parece recuperar a olhos vistos de parte dos estragos que tem sofrido pela acção continuada do Homem. São inúmeros os exemplos que nos têm deixado perplexos na sequência do confinamento das pessoas, desde a melhoria da qualidade do ar, a limpeza das águas, fruto de uma repentina diminuição da poluição. O planeta, a natureza encontra sempre uma forma de dar resposta às retaliações da actividade humana, não só como defesa, mas também como necessidade de estabelecer o seu próprio equilíbrio.

Há duas passagens fundamentais nesta história que dando um pouco a ideia de se tratar de lugares-comuns, o certo é que, na verdade, há aspectos e áreas específicas da economia, como o turismo, que precisam ser repensados com urgência nos tempos vindouros, para o bem da Humanidade. “Agora (…) chegam cá milhares de turistas para ver como caem cada vez mais blocos de gelo, como os glaciares desaparecem, e vêm alegremente para atestar a morte destas paisagens. Meu amigo, hoje paga-se para ser testemunha da morte do mundo.” (p. 39) “A Patagónia, a Terra do Fogo, os confins de Fin del Mundo estão em perigo. Uma visão irracional do progresso e do desenvolvimento sustentado, a que se acrescenta um turismo irresponsável, fazem destes territórios extremos lugares condenados. (…) Num futuro próximo, os turistas chegarão às imediações do Perito Moreno e lerão: «Aqui havia um glaciar.» (pp. 41-42)

Aproveitando o tema da morte lenta do planeta, Luis Sepúlveda alude também à morte lenta do jornalismo na actualidade. Se colocarmos sobre este texto mais uma década estamos em 2020 e olhamos para os media e o que temos? A que é que assistimos diariamente? O que é uma notícia actualmente? O que é considerado uma notícia? Como são apresentadas as notícias? São tudo faces da mesma moeda que perante uma profissão tão importante cuja missão é informar, nos dias que correm apercebemo-nos do seu papel difuso, equívoco e não raras vezes contraditório, gerando dúvidas e confusão junto daqueles a quem se dirigem. Luis Sepúlveda coloca o dedo na ferida neste breve texto alusivo ao jornalismo, tema que tanto considera porque também ele próprio exerceu essa função. “A precariedade em que caiu o jornalismo faz com que ninguém seja responsável pelo que se escreve, diz, ou emite, salvo raras excepções, e com que sejam poucos os jornais feitos por jornalistas que, com absoluto rigor, assistem ao funeral de uma profissão tão bela quanto necessária.” (p. 111) “Também sou jornalista, digo, e sinto-me como Dom Quixote de la Mancha, derrotado no fim, vendo como no pátio da sua casa a ignorância baila feliz junto à fogueira em que ardem os seus livros.” (p. 112)

Não gostaria que terminar este texto sem aludir ao momento que Luis Sepúlveda dedica a Mario Benedetti (1920-2009) quando este morre. O breve texto é, em si mesmo, uma ode à humanidade, ao reconhecimento de um dos grandes nomes da poesia e da literatura em língua espanhola, um dos grandes nomes das letras que marcou o século XX. E agora que já não temos nem Luis Sepúlveda, nem Mario Benedetti, resta-nos, pois continuar a ler ambos os escritores e a espalhar a amizade, a humildade e o desejo de construir um mundo melhor e mais justo. Termino com as palavras de Luis Sepúlveda dedicadas a Mario Benedetti em jeito de homenagem.

"Nunca conheci outro homem tão simples, tão generoso, solidário, e que, como diz o poema de César Vallejo, parecia viver em representação de toda a gente. Homens como Mario Benedetti são para serem cantados sem que importe a rima dos seus versos, encontram-se nos bairros populares, nas tasquinhas frequentadas por gente de outras terras, no fragor das lutas mais justas de ortografia mas correctos nas suas razões, nos estudantes que, atrás das barricadas, pegam na mão das suas namoradas, descobrindo então que não estão sozinhos, e, sem que importe a língua que falam os seus corações, eles batem a ritmo uruguaio, convertem-se na ‘flor da banda oriental’, e olham-se nos olhos antes da carga repressiva, para dizer: ‘Si te quiero es porque sos / mi amor mi cómplice y todo / y en la calle codo a codo / somos mucho más que dos.’ Nunca um Poeta encheu os estádios de futebol como os enchia Mario Benedetti. Nenhum outro homem entrou num bar e, à pergunta sobre o que queria beber, terá respondido: «Um traguito, dos mais humildes.» Nenhum outro escritor nos convocou para não perdermos o norte nem a alegria nos piores momentos de dúvidas e desilusões: ‘un torturador no se redime suicidándose, pero algo es algo.’” (pp. 114-115)adas,pegam na mão das suas namoradas, descobrindo então que não estão sozinhos, e, sem que importe a língua que falam os seus corações, eles batem a ritmo uruguaio, convertem-se na 'flor da banda oriental', e olham-se nos olhos antes da carga repressiva, para dizer: 'Si te quiero es porque sos / mi amor mi cómplice y todo / y en la calle codo a codo / somos mucho más que dos.' Nunca um Poeta encheu os estádios de futebol como os enchia Mario Benedetti. Nenhum outro homem entrou num bar e, à pergunta sobre o que queria beber, terá respondido: «Um traguito, dos mais humildes.» Nenhum outro escritor nos convocou para não perdermos o norte nem a alegria nos piores momentos de dúvidas e desilusões: 'un torturador no se redime suicidándose, pero algo es algo."

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 7 de abril de 2020

A Escolha do Jorge: "A Peste"



“(…) A peste deixaria vestígios, pelo menos nos corações.” (p. 238)
“Para se ser santo é preciso viver. Lute.” (p. 243)
“Mas o que quer isso dizer, a peste? É a vida, nada mais.” (p. 263)

Albert Camus (1913-1960), Prémio Nobel de Literatura (1957), um dos nomes incontornáveis da literatura do século XX apresentou nas suas obras questões de pertinência filosófica no que concerne à existência do homem e o sentido da vida. “O Estrangeiro”, “A Queda”, “O Mito de Sísifo” e “A Peste” figuram entre as obras de referência deste escritor francês nascido na Argélia.

Numa época em que o mundo parou, há obras que recuperam novo fôlego com leitores em todo o mundo, de todas as idades, a tentarem procurar respostas para as questões que agora se colocam à Humanidade em geral, na sequência do surto do novo coronavírus, considerado uma pandemia pela OMS.

Neste sentido, “A Peste” (1947) encontra-se hoje entre os livros mais procurados, em todas as línguas, quase como uma espécie de salvação face a um inimigo invisível. Confinadas às suas residências, na sequência de todas as organizações sociais e estruturas económicas se apresentarem bloqueadas, as pessoas têm mais tempo para reflectir, agarrando-se àquilo que mais importa, a preservação da vida.

Tendo como pano de fundo a cidade argelina de Orã que conheceu um surto de peste nos anos 40 do século passado, “A Peste” é o relato de Grand, que desempenha o papel de cronista, relatando o início da doença disseminada pelos ratos, as medidas de prevenção tomadas ao nível do poder local, com o encerramento da cidade com o exterior, o período de quarentena, a evolução da doença, o aumento do número de mortos até que a doença siga o seu curso natural e abrande, o desespero das populações confinadas às suas casas desde a Primavera até ao Inverno seguinte, a desorganização económica da cidade, o aumento do desemprego, a incerteza perante o futuro e tudo o que acontecerá e como se desenrolará a partir daí, questões que a Humanidade em geral se debate actualmente. Questões que ultrapassam o conceito de países e delimitações de fronteiras porque a questão central perante uma epidemia (ou pandemia) é colocar a atenção naquilo que é fundamental, a vida, e de que forma cada indivíduo não constitui em si mesmo uma ponte de contágio - “assassino inocente” (p. 219) - a outras pessoas.

“A Peste” sendo um livro de leitura mais acessível, pelo menos não apresentando um registo tão denso como outras obras de Albert Camus, não deixa, no entanto, de levantar as principais questões do conjunto das suas obras, ainda que já seja tenebroso o suficiente o tema central, a doença que pode ser fatal se não se verificar um tratamento rápido e eficaz a par do confinamento das pessoas como forma de travar a disseminação da mesma.

O confinamento motivado pelo distanciamento social (expressão actual) vai gerar a angústia e a alteração dos comportamentos do quotidiano, podendo conduzir ao desespero, verificando-se o desejo de um bem-estar colectivo, também em isolamento. “O hábito do desespero é pior do que o próprio desespero.” (p. 160) A peste tornou a pessoas mais solidárias na medida em que o distanciamento impõe-se como o desejo de saber do outro, preocupar-se com o outro. “Em período de flagelo é normal desejar o fim dos sofrimentos colectivos e, de facto, desejavam que aquilo acabasse.” (p. 160)

A peste impôs um ritmo lento à vida, estabeleceu um regime próprio na medida em que a vida em geral passou a ser determinada pela doença. Neste sentido, “o termo da doença tornou-se o objecto de todas as esperanças.” (p. 192)

“Já não havia então destinos individuais, mas uma história colectiva, que era a peste, e sentimentos compartilhados por todos. O maior era a separação e o exílio, com o que isso comportava de medo e de revolta.” (p. 149)

São inúmeros os episódios de peste e de epidemias registados ao longo da História, como por exemplo a Peste Negra que ceifou um terço da população da Europa em meados do século XIV, fenómeno conjugado com outros factores que fragilizaram ainda mais as populações. O bacilo oriundo da China era transportado por ratos contaminados pelas pulgas que circulavam através da rota da seda por mercadores europeus. As cidades portuárias foram as primeiras a sofrerem com a epidemia que rapidamente se alastrou a todo o continente. O contágio era feito através do ar vitimando mortalmente uma pessoa entre três a cinco dias, assim como todos aqueles com quem viviam ou conviviam.

Aprendemos com a História que a Humanidade pode sofrer grandes flagelos na sequência das fomes e guerras que vitimam milhares e até milhões de pessoas, mas, de um modo geral, a Humanidade esquece que os vírus e as bactérias apresentam-se como os maiores inimigos contra os quais tem sido difícil lutar ao longo das gerações.

A ciência e a tecnologia desenvolvem-se, avançam, desbravam conhecimento, derrubam barreiras no intuito de trazer melhores condições de vida às pessoas até que um novo surto de alguma doença ou uma nova epidemia (ou pandemia) desperta e ataca de modo inclemente sendo, dessa forma, chamadas a intervir, a encontrar um antídoto, uma vacina para travar o alastramento da calamidade.
Inimigos invisíveis minam e destroem não havendo nada seguro. Economias fortes são arrasadas. Ninguém está a salvo. “A sua vida e a sua liberdade estão todos os dias na véspera de serem destruídas.” (p. 172)

Ao longo da História, a Humanidade tem tido dificuldade em compreender que sendo parte integrante da Natureza, é esta quem determina as suas regras, o seu funcionamento, dispondo de mecanismos que procedem à sua regulação, nem que para isso recorra a meios implacáveis de modo a restabelecer a harmonia. O Homem, ao longo da História, procedeu a múltiplas conquistas em todos os sectores, conquistou o mundo, impôs a sua vontade, mas, de tempos a tempos, é levado a encontrar-se consigo próprio e formular as questões fundamentais da existência humana, tal como Albert Camus as apresentou nas suas obras.

“O bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. E sabia também que viria talvez o dia que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.” (p. 264)

Em jeito de solidariedade, Albert Camus elogia e reconhece o valor dos médicos e de todos aqueles que se envolveram na área na saúde como forma de pôr cobro à epidemia (ou pandemia), algo que deve ser tido em consideração nos dias de incerteza em que vivemos presentemente. “Mas, no entanto, sabia que esta crónica não podia ser a da vitória definitiva. Podia apenas ser o testemunho do que tinha sido necessário realizar e que, sem dúvida, deveriam realizar ainda, contra o terror e a sua arma infatigável, a despeito das suas dores pessoais, todos os homens que não podendo ser santos e, recusando-se a admitir os flagelos, se esforçam, no entanto, por ser médicos.” (p. 264)

Texto da autoria de Jorge Navarro

segunda-feira, 9 de março de 2020

A Escolha do Jorge: "O Tradutor Cleptomaníaco"


O Tradutor Cleptomaníaco
Dezső Kosztolányi 
(Editora 34)

“Um departamento de psiquiatria é igual em todo o mundo, como um parlamento. Parece que a natureza, com a equação das doenças psiquiátricas, quer demonstrar o mesmo em todos os pontos cardeais.” (p. 78)

Tradutor, jornalista, poeta e romancista, Dezső Kosztolányi (1885-1936) é um dos nomes incontornáveis da literatura húngara do século XX. Em Portugal conhecemos o escritor através do romance “Cotovia” (Dom Quixote, 2006), além de contos dispersos integrados nas antologias de contos húngaros publicados na década de 40.

Dezső Kosztolányi deu um contributo enorme no que concerne ao romance tradicional, graças à linguagem refrescante que introduz, recorrendo a situações do quotidiano que constituem o pano de fundo das suas narrativas, podendo os leitores reverem-se nas histórias.

Maioritariamente de cariz urbano, as histórias de Dezső Kosztolányi reflectem o dia-a-dia de Budapeste, num período entre guerras, tendo os jardins, cafés, quartos de escritores, salões de conferências e outros locais de convívio, os espaços onde a sociedade deambula e procura ser feliz.

Dezső Kosztolányi acompanhou o desenvolvimento das teorias psicanalistas procurando estudar a complexidade do ser humano, um dos traços mais presentes na obra do autor, subvertendo muitas vezes a realidade, percebendo quais são os obstáculos da humanidade no trilho da felicidade, tentando demonstrar que o caminho a seguir e o sentido da vivência do ser humano reside nas coisas mais simples.

Irónico, mordaz, algumas vezes corrosivo, sarcástico e muitas vezes divertido, Dezső Kosztolányi presenteia-nos com histórias que resistem à passagem do tempo. Graças à sua simplicidade articulada com as preocupações da existência humana, o escritor húngaro mostra ao leitor que a alegria e a felicidade encontram-se nas pequenas coisas, nos gestos simples.

“Kornél Esti” (1933) é a penúltima obra de Dezső Kosztolányi, cuja edição brasileira recebeu o título de “O Tradutor Cleptomaníaco e outras histórias de Kornél Esti” (Editora 34, 1996). Este volume de contos apresenta Kornél Esti como personagem transversal nos treze contos à semelhança da sua última obra “O Olho do Mar” (1936). Kornél Esti apresenta-se como uma espécie de alter ego de Dezső Kosztolányi, em que numas histórias é narrador, noutras é o personagem principal, mas em todas elas, ajudam o leitor a compreender a vida cosmopolita de Budapeste durante os anos 20 do século passado.

Dezső Kosztolányi explora nalguns pontos a linha da literatura fantástica, como por exemplo, no conto inicial, “O Tradutor Cleptomaníaco”, em que o personagem principal rouba os personagens da obra que traduz. A relação da ciência com a literatura é desenvolvida no conto mais extenso, em “O presidente” que nos relata a história de um indivíduo que adormece sempre no início dos discursos das conferências, acordando momentos antes de os mesmos terminarem. Constituindo um objecto de estudo, Dezső Kosztolányi tece fortes críticas aos políticos e à sociedade em geral, aludindo às questões relacionadas com os casos psiquiátricos versus conceito de normalidade, aproveitando o momento para criticar todos aqueles que têm a pretensão de virem a ser escritores quando, na verdade, aquilo que de melhor fazem é provocar sonolência nos leitores, seguindo em linha com o conteúdo da narrativa.

“O fim do mundo” é outra das melhores histórias presentes neste volume em que um dos personagens, seduzido e angustiado pelo fim do mundo nos seus sonhos, vê-se incapaz de compreender o sentido da vida até decidir começar a vivê-la. “(…) Só aquele que está totalmente preparado para a morte é que pode viver, e nós tolos, morremos, porque só nos preparamos para a vida, e queremos viver a todo o custo. A ordem que você vê ao seu redor, na verdade, é desordem, e a desordem é a verdadeira ordem. E o fim do mundo, no fundo, é o começo do mundo.” (p. 124)
Do mesmo modo que Dezső Kosztolányi projectou em Kornél Esti o seu alter ego, dando-lhe liberdade de pensar e agir, contar histórias, as suas histórias, interagir com os demais personagens, discutindo até um com o outro, Dezső Kosztolányi teve de pôr cobro a algo que se tornava insustentável no decurso dos episódios.

Neste sentido, após este conjunto de histórias extraordinárias em que o absurdo se cruza com o inesperado, Dezső Kosztolányi  vaticina algo, não necessariamente insólito, em “A Derradeira Conferência” acontecendo algo de inesperado a Kórnel Esti ou nem tanto assim…, mostrando uma vez mais a sua mestria enquanto contista.

Excerto:
"No meu transtorno, enfiei as mãos no bolso. Encontrei aquele livro que Zwetschke embrulhara, e o abri. Era o Messias de Klopstock, aquela poesia épica em hexâmetros, que – segundo a opinião unânime de gerações – é o livro mais chato do mundo, tão chato que ninguém ainda o leu, nem aqueles que o enaltecem, nem aqueles que o achincalham. Dizem que o próprio Klopstock não conseguiu lê-lo, apenas o escreveu. Abri-o, e comecei a folheá-lo meditativo. Que trecho deveria ler? Tanto fazia. Como sabia que o que o falecido mais prezava na vida era o sossego, e o seu desejo, como o de todos nós, deveria ser o de dormir tranquilamente no caixão, devagar, monotonamente comecei a ler o primeiro canto. O efeito foi espantoso. Uma flor da trepadeira fechou o seu cálice assombrada, como se a noite já tivesse descido. Um besouro caiu de costas na poeira e assim ficou, como que hipnotizado. Uma borboleta, que em círculos sobrevoava o túmulo, caiu do ar sobre a lápide e dormiu de asas fechadas. Senti que os hexâmetros penetravam pelo granito da tumba, até os restos mortais do falecido e que seu sono mortal – o sono eterno – ficava mais profundo com eles.” (p. 81)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A Escolha do Jorge: "Chuva Miúda"

“Chuva Miúda”
Luis Landero (Porto Editora)

"«Ei, oiça! Se for aqui, vou bem para o futuro?»” (p. 238)
Considerado o melhor livro de 2019 pelo El País, Chuva Miúda de Luis Landero (n. 1948) chega agora às livrarias portuguesas, com uma excelente tradução de Miguel Filipe Mochila, constituindo uma grande surpresa no mercado editorial neste início de ano.
A narrativa de Chuva Miúda decorre em Madrid, abrangendo um arco cronológico que abarca desde o final do franquismo até aos nossos dias. O leitor vai percebendo as alterações na sociedade, fruto da consolidação da liberdade, trazendo à luz muitos recalcamentos e situações ainda por resolver no seio da família retratada na obra.
De modo sintético, a narrativa tem como pano de fundo a organização da festa do octogésimo aniversário da mãe de Sonia, Andrea e Gabriel, tendo sido este quem tomou a iniciativa do evento.
Nunca chegaremos a saber se se chegará a concretizar tal festa na medida em que os sucessivos contactos telefónicos entre os irmãos vão despertar antigos ódios e rancores, além de inúmeras histórias mal resolvidas do passado familiar.
Aurora, a esposa de Gabriel, é a personagem central de Chuva Miúda que foi sempre considerada por todos os elementos da família como a mais assertiva, bondosa, boa ouvinte e incapaz de fazer um juízo sobre os seus interlocutores. “E Aurora ouve, cala e compreende, e, com aquela sua maneira tão doce de ouvir, parece que alivia os pesares de todos e pacifica as discórdias.” (p. 80)
Chuva Miúda é também um romance sobre memória e verdade. Cada família tem os seus mistérios, os seus segredos, as suas loucuras e o relato das experiências pessoais por parte de cada um dos irmãos é sempre exponenciado face à tentativa de, cada um, à sua maneira, fazer levar a água ao seu moinho, em detrimento dos irmãos e até da mãe. Cada um dos interlocutores faz junto de Aurora a apologia da vitimização no contexto de uma família pejada de contradições e absurdos, marcada pelas dificuldades económicas do período franquista e com sérias consequências nas décadas seguintes, pelo menos ao nível psicológico face às experiências de vida dos vários personagens, a que foram sujeitos por parte da mãe.
É na conversa com os demais interlocutores que Aurora, esposa de Gabriel e cunhada de Sonia e Andrea, procura um equilíbrio entre o relato e a verdade da família. No meio de tanta loucura, mágoas e até alguma esquizofrenia, Aurora vai urdindo a verdadeira história de cada um e, no seu conjunto, a verdade desta família.
É nas conversas tidas com as cunhadas que Aurora é levada a confrontar-se com as desconfianças em relação a Gabriel, acabando por perceber de facto com quem está casada e que a ideia que as cunhadas fazem do irmão não corresponde de todo à verdade.
Ao fim de cerca de uma semana, período em que decorrem os sucessivos contactos telefónicos, Aurora sente-se esgotada com o peso das histórias de cada elemento da família, tentando, ela própria, reconstituir aquilo que será a história da família, partindo de memórias que, mesmo apresentando-se turvas, aparentemente são projectadas de modo muito intenso como se os acontecimentos tivessem tido agora lugar. “Não estaria também ela a reinventar o passado e a construir uma história à sua medida, baseada em suspeitas, minúcias e imaginações, como Sonia e Andrea? E pensou novamente se não estaria já a germinar a semente da loucura que se abrigava no seu interior.” (p. 202)
Luis Landero neste magistral romance sobre a família contemporânea e os costumes agarra o leitor nas primeiras páginas graças à sua escrita apelativa e enredo intenso. A narrativa vai evoluindo entre o humor negro e a tragédia, atirando-nos para o fundo do poço sem direito à corda de salvação. Há momentos tensos e de uma crueldade sem precedentes, a violência doméstica que tem empurrado tantas mulheres para o silêncio em detrimento dos filhos, optando, tantas vezes pela paz pobre, ainda que sofrendo no corpo e na alma.
Chuva Miúda desperta os rancores e ódios do passado que ao longo de uma semana de contactos telefónicos, perceberá o leitor que se transformarão finalmente em gritos, sendo então lícito questionar “«Ei, oiça! Se for por aqui, vou bem para o futuro?»” (p. 238)
Excerto:
“Hoje é quinta-feira. Há seis dias que Gabriel se lembrou de organizar uma festa para a mãe. Uma festa onde todos pudessem perdoar e expiar as culpas e os erros, e onde as ofensas e os equívocos do passado fossem enfim redimidos. (…) São histórias, impressões, conjeturas e sonhos, que, uma vez encarnados e materializados em palavras, passam a ser reais e, com o tempo, invulneráveis a qualquer discussão. Um dia, não se lembra a propósito de quê, [Aurora] disse a Andrea «Esta é que é a verdade», e Andrea replicou: «Pois então a verdade é mentira.» E talvez não lhe falte razão. E é curioso, pensa Aurora, porque às vezes a memória vai reconstituindo e ampliando com notícias fornecidas pela imaginação e pela nostalgia o que o esquecimento destrói, de modo que se dá então o paradoxo: quanto maior é o esquecimento, mais rica e detalhada é também a lembrança.” (pp. 233-234)
Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A Escolha do Jorge: “A Cripta dos Capuchinhos”




“A Cripta dos Capuchinhos” – Joseph Roth 

(Cavalo de Ferro)

“Começámos, inclusivamente, a adorar o nosso desespero como se ama um inimigo fiel. Enterrávamo-nos nele.” (p. 123)
Um excelente início de ano editorial que assinala a publicação de “A Cripta dos Capuchinhos” (1838), a última obra de Joseph Roth (1894-1939) publicada em vida. Este romance constitui a sequela de “A Marcha de Radetzky” (1932), uma das mais representativas e icónicas no conjunto das obras do escritor.
O título da obra alude à Igreja de Nossa Senhora dos Anjos igualmente conhecida por Cripta Imperial de Viena, onde se encontram os restos mortais dos Habsburgos austríacos, incluindo o último monarca, Francisco José (1830-1916), figura emblemática do Império Austro-Húngaro que vem a falecer no decurso da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Este romance pejado de melancolia remete para o fim de um mundo e de uma ordem que dominava o espírito de uma boa parte do continente europeu no início do século XX. Tendo Viena, a capital imperial, como pano de fundo, Joseph Roth recupera a família Trotta, os personagens principais de “A Marcha de Radetzky”, centrando a narrativa no fim da Belle Époque em que muitos jovens pertencentes a famílias nobres de então deambulavam pela cidade, livres de preocupações, fazendo o roteiro dos principais cafés por onde passam os ilustres da sociedade até ser comunicada a obrigatoriedade para se alistarem no exército seguindo para uma frente de batalha em terras longínquas do império que entretanto se desmantelava.
Narrado na pessoa de Franz Ferdinand Trotta, somos levados a compreender as principais transformações que ocorreram com a derrocada de toda uma ordem política, social e económica, ao ponto de a realidade anteriormente conhecida deixara de existir com o seu regresso a Viena após a guerra.
Estando do lado dos vencidos, a Áustria recuperava aos poucos da humilhação tentando adaptar-se às novas circunstâncias ao ponto de muitas das famílias nobres passavam agora a viver com sérias dificuldades económicas na medida em que tinham contribuído com muitos dos seus bens no intuito de alimentar a guerra. Os títulos nobiliárquicos passaram a ser proibidos, passando estas famílias a viver de crédito e de aparências face a uma ideia de mundo organizado que, na verdade, já não existia.
De há muito tempo a esta parte, desde que voltara da guerra, via-me a mim mesmo como uma pessoa sem direito à vida. Habituara-me a contemplar todos os acontecimentos que os jornais consideravam «históricos» com o olhar distante de quem não pertence a este mundo. A morte tinha-me concedido há muito uma licença por prazo indeterminado, licença essa que ela podia interromper a qualquer momento. Que me importavam as coisas deste mundo? (…) Eu era um «extraterreno» no meio dos vivos.” (pp. 154-155)
A desagregação do Império Austro-Húngaro deu origem a um conjunto de novas nacionalidades em convergência com o novo mapa político europeu no pós-guerra como forma de resposta às divergências e clivagens de ordem histórica e ao nível da própria identidade, aspectos que eram uniformizados durante o Império procurando a harmonia entre as partes envolvidas.
“Só muito mais tarde, muito tempo depois da Grande Guerra (…) compreendi que até mesmo as paisagens, os campos, as nações, os povos, as cabanas e os cafés estão sujeitos a uma lei natural mais forte que permite converter o distante em próximo e unir o que tende a desagregar-se. Refiro-me ao espírito da antiga monarquia, incompreendido e desperdiçado, que era capaz de me fazer sentir em casa tanto em Zlotogrod como em Šipolje ou em Viena.” (pp. 39-40)
À semelhança de outras obras de Joseph Roth, percebemos como as suas palavras assumem um carácter (quase) profético na medida em que há várias passagens que aludem a uma antevisão daquilo que viria a acontecer na Europa, nos anos a seguir à 1ª Guerra Mundial (1914-1918), percebendo o terreno fácil para as ideias da extrema-direita, em especial, o nazismo, que culminaria na 2ª Guerra Mundial (1939-1945) que levaria ao desaparecimento da influência judaica no contexto da cultura europeia.
Podemos ir ainda mais longe ao analisarmos as tendências políticas vigentes na Europa e no Mundo actualmente interrogando-nos face ao futuro e aquilo que poderemos esperar. Vivemos tempos conturbados, de uma complexidade tal ao ponto de percebermos que qualquer acontecimento (im)previsível poderá reflectir-se em alterações políticas, económicas e sociais com forte impacto nas populações. O risco do populismo é imenso. A ignorância é mais que muita. Os abutres também. E o medo instala-se. O futuro assume características semelhantes a uma longa noite onde se torna cada vez mais difícil despertar para a claridade. Resta a esperança…
Creio que a terrível submissão das gerações actuais a um jugo ainda mais nefasto é compreensível e também perdoável, se pensarmos que é próprio da natureza humana preferir a grande calamidade a uma preocupação pessoal. A grande calamidade devora rapidamente a pequena infelicidade, o azar, por assim dizer. Por isso, naquela época, amávamos esta desgraça colectiva.” (p. 123)
Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A Escolha do Jorge: “Uma Beleza que nos Pertence”



Uma Beleza que nos Pertence”
José Tolentino Mendonça 
(Quetzal)


"Uma das crises mais graves da nossa época é a separação entre conhecimento e amor.” (p. 24)
“A velocidade com que vivemos impede-nos de viver. Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos.” (p. 207)

“Uma Beleza que nos Pertence” é a última obra de José Tolentino Mendonça (n. 1965), editada pela Quetzal no final de 2019, tratando-se de pensamentos e aforismos compilados a partir das obras do autor publicadas entre 2004 e 2018.
Numa época marcada pela vida agitada em que vivemos, as exigências do trabalho, a solicitação constante dos media face à aquisição constante de bens materiais, a afirmação das redes sociais e a utilização generalizada das tecnologias de informação e comunicação têm privado o homem do silêncio, do encontro consigo mesmo, da relação com os outros, com a natureza e, em última instância, com Deus.
Sem se tratar de um discurso religioso, “Uma Beleza que nos Pertence” é um livro de cabeceira que se lê de uma uma ponta à outra ou pode-se abrir e escolher um texto breve e reflectir sobre o mesmo. Os assuntos não são novos, mas esta compilação constitui uma forma de apelo ao homem voltar a ter tempo para si mesmo numa tentativa de a reflexão, em silêncio, o homem se poder encontrar consigo mesmo, redescobrindo-se e compreendendo que é parte integrante da natureza.
O tempo gasto pelas rotinas diárias e a forma como o sistema capitalista se apresenta às pessoas, torna-as cativas de bens e serviços dando a ilusão de uma felicidade momentânea em oposição a uma frustração permanente e constante geradora de angústia. “As nossas sociedades, que impõem o consumo como padrão de felicidade, transformam o desejo numa armadilha. O desejo tem a dimensão de uma montra e promete uma satisfação imediata e plena que evidentemente não pode cumprir.” (pp. 206-207)
De pensamento em pensamento, de máxima em máxima, distribuídos por temas catalogados por ordem alfabética, concluímos que a humanidade atingiu um nível de desenvolvimento sem precedentes e que interfere com a melhoria das condições de vida das pessoas, mas também lhes retira, em muitas situações, a capacidade de interagir uns com os outros, ficando o ser humano isolado sobre si mesmo e dependente dessas mesmas tecnologias.
Assiste-se a um crescente movimento por parte das gerações mais novas à redescoberta do meio rural como local privilegiado para as vivências quotidianas, substituindo, deste modo, a vida agitada da cidade, procurando o equilíbrio do ser humano com a natureza envolvente, ganhando qualidade de vida e, acima de tudo, tempo para si mesmo.
Acima de tudo e sem moralismos, há a ideia de caminho a trilhar, o percurso e a vida enquanto ideia de viagem que se percorre, que se vai trilhando, sem receitas e sem mapas, mas que é esse caminho e essa viagem que nos ajuda a compreender o sentido da vida e da humanidade.
“A pessoa humana não é apenas o que já é, mas é um poder ser, um ser a caminho, em vias de, como se estivesse destinada até ao fim a nascer. Por isso, ao lado dos nossos sapatos, colocados tranquilamente no armário, temos de guardar umas «sandálias de vento», pois são elas que nos levam a compreender que a vida não se cumpre nos mapas, mas no caminho e na viagem.” (p. 190)
Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A Escolha do Jorge: LITERATURA TRADUZIDA - escolhas de 2019

1. 
Trieste
Daša Drndić
(Sextante Editora)


2.
Viagens
Olga Tokarczuk
(Cavalo de Ferro)


3. 
Cartas a Milena
Franz Kafka
(Relógio D’Água)




Os restantes títulos apresentam-se por ordem alfabética

A Justiça de Yerney – Ivan Cankar (Cavalo  de Ferro)


Alguns Preferem Urtigas – Jun'ichirō Tanizaki (Teorema)



A Lotaria e Outras Histórias – Shirley Jackson (Cavalo de Ferro)



Ao Largo da Vida – Rainer Maria Rilke (Ítaca)



As Moscas de Outono – Irène Némirovsky (Cavalo de Ferro)


Cuidar dos Vivos – Maylis de Kerangal (Teodolito)



Dor – Zeruya Shalev (Elsinore)



Em tudo havia beleza – Manuel Vilas (Alfaguara)



Gelo – Anna Kavan (Cavalo de Ferro)



Istambul, Istambul – Burhan Sönmez (Dom Quixote)



Jó – Romance de um homem simples – Joseph Roth (Ulisseia)



Léxico Familiar – Natalia Ginzburg (Relógio D’Água)



O Caso do Camarada Tulaev – Victor Serge (E-Primatur)



Os Anos Doces – Hiromi Kawakami (Relógio D’Água)



Os Irmãos Tanner – Robert Walser (Relógio D’Água)



Quando as Pombas desaparecem – Sofi Oksanen (Alfaguara)



Raparigas da Província – Edna O’Brien (Relógio D’Água)



Rashōmon e Outras Histórias – Ryūnosuke Akutagawa (Cavalo de Ferro)



Regresso a Reims – Didier Eribon (Dom Quixote)



Schlump – Hans Herbert Grimm (PIM! Edições)



Trinta Anos – Ingeborg Bachmann (Relógio D’Água)



Uma Vida Inteira – Robert Seethaler (Porto Editora)



Jorge Navarro


terça-feira, 24 de dezembro de 2019

A Escolha do Jorge: "O Senhor"


O Senhor 
de Miljenko Jergović
“Antigamente, ao longo de Sepetarovac, carreteiros levavam às costas canastras cheias de mercadorias, até aos armazéns de Bjelava e às lojas de Pothrastovi. Durante séculos subiam por essa rua infinitamente íngreme para, mesmo lá no alto, serem acolhidos por uma bica debaixo do jorro da qual encontravam o refrigério e a esperança de que um dia esse monte cedesse debaixo do peso do seu sofrimento. A bica foi, em tempos remotos, já ninguém se recorda quando, construída por um rei para fazer bem às pessoas e para que isso lhe fosse reconhecido no outro mundo. A sua água nunca secou, nem no tempo em que os carreteiros foram substituídos por camiões, e em que ficou apenas o nome da rua para evocar as suas canastras.
O Senhor Ivo tem vivido quase toda a sua vida perto do fundo da Sepetarovac, mas tanto para si próprio como para todos os demais continuou a ser o Senhor de Dubrovnik. As rosas do seu jardim eram mais robustas do que as outras, o caminho de pedra sempre limpo e a sua saudação 
exactamente tão cordial como devia sê-lo, nem íntima demais como a do povo da Baixa, nem distante como a dos senhores cidadãos novos-ricos.
No início do Outono de 1991, depois do ataque dos tchetniks a Dubrovnik, o Senhor Ivo comprou cinco galinhas e um galo, arrancou as rosas e cavou a terra e ainda encontrou no jardim um antigo poço enterrado. Limpou-o, pôs-lhe cascalho e rodeou-o de finas pedras brancas. Os vizinhos sabiam o que tinha na ideia, mas mesmo assim custava-lhes meter na cabeça que alguém pudesse ter pensamentos tão negros e que um senhor se pudesse transformar num trabalhador enlameado e num camponês disposto a aguentar o fedor das galinhas.
- Deixa lá, se acontecer algo, Deus não o permita, eu estou preparado, e se não acontecer, diverti-me muito. Há trinta anos que vivo entre rosas, e não vá por acaso morrer sem sentir em que é que elas diferem das galinhas.
O início da guerra encontrou-o com uma excelente colheita de tomate e alface e os primeiros cortes de água com a límpida e fresca água do poço. Com o passar do tempo, o alegre cacarejo parecia à vizinhança, o canto das aves do paraíso, era o som que do mundo das trevas te guia à luz do dia.
- Um senhor é sempre um senhor, e canalha é canalha, e não há nada a fazer. Ontem víamo-lo entre rosas e pensávamos - «olha, chegou um senhor de Dubrovnik», e hoje, lá está, em caca de galinhas, e continua o mesmo senhor.
Mas quando uma vez a água da torneira não veio durante dez dias e mesmo a bica do alto de Sepetarovac secou, os vizinhos, com baldes nas mãos, pela primeira vez bateram na janela de Ivo. Ele tirou-lhes água, e eles, claro, fizeram correr a boa nova pelo bairro. No dia seguinte já se juntaram diante da casa de Ivo umas cinquenta pessoas, ele atendeu-as, mas vieram mais cinquenta. Para não enturvar o poço ninguém podia tirar a água sozinho.
Depois de uns quantos dias, o Senhor Ivo pendurou um aviso na porta: «Estimados vizinhos, o horário do poço é das 10 às 12 e das 16 às 18. Fora dessas horas não tenho possibilidade de vos atender.» Diante da casa estendeu-se uma fila longa e excepcionalmente bem ordenada, Ivo deixava entrar três aguadeiros de cada vez, ninguém protestava nem sequer falava um pouco mais alto. As normas de comportamento tinham de ser respeitadas como na mesquita ou na igreja. Os incautos eram avisados, quer por Ivo, quer pelas pessoas da fila, de que tinham vindo à água e não ao café, e que se deviam comportar em conformidade.
Nos dias em que havia grandes bombardeamentos ou quando soprava o siroco, o Senhor ficava um pouco nervoso, mas as pessoas tentavam pô-lo bem-humorado com olhares, perguntas de cortesia e pequenos gestos de atenção. Às vezes conseguiam-no, mas outras Ivo comportava-se como um nobre altivo; choviam observações irónicas, repreensões sem motivo, até mesmo insultos. Mas jamais negou a água a alguém.
Quando os ventos do sul, e também os tchetniks, se acalmavam, o Senhor voltava a ser o de sempre; emanava dignidade quer quando estava assim dobrado sobre o poço, quer quando o suor lhe escorria pela cara, quer quando lhe dava a fraqueza e tinha de se sentar por uns cinco minutos.
Nas alturas em que o abastecimento público de água voltava a funcionar o Senhor Ivo podia suspirar de alívio. Nesses dias ninguém o mencionava, nem lhe batia à porta. Era preciso deixar o homem descansar um pouco da gente. E não esquecer que voltarias a ele, feliz por teres nascido debaixo de uma estrela boa e por não teres de caminhar até à bica municipal junto à Cervejaria para onde os tchekniks de quando em quando mandavam granadas.
Na véspera de Natal, o Senhor Ivo informou o povo de que, no dia seguinte, a título excepcional, não iria trabalhar porque, para ele, era um dia de festa, mas que em troca permaneceria junto do poço na véspera. No dia santo os aguadeiros trouxeram presentes. Pitas, baklavas, jarros de quefir feito com leite em pó, pequenos embrulhinhos de café moído, um jovem até conseguiu um maço de Croatia com filtro, o que comoveu particularmente Ivo.
O primeiro dia depois do Natal foi como todos os outros. De um lado, uma longa fila de homens, mulheres e crianças com baldes, e do outro, Ivo com os olhos pregados no fundo do poço. Para um bairro de Sarajevo, na sua limpidez estava recolhida toda a bondade deste mundo. O Senhor encheria todos os baldes e os fregueses teriam depois de subir a encosta com eles.
- Todos os dias, quando acarreto a água, lembro-me de Cristo e do seu Calvário. Penso se é possível que o Calvário fosse sempre a subir, ou se seria um pouco a subir, e um pouco a descer – dizia a minha mãe a uma muçulmana, carregando-lhe às costas mais essa preocupação.”
Miljenko Jergović in O Senhor in Marlboro Sarajevo
Cavalo de Ferro
1ª edição, 2004
pp. 35-38
Texto escolhido por Jorge Navarro






segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A Escolha do Jorge: Poesia - As Escolhas de 2019


POESIA – As Escolhas de 2019

Obras apresentadas por ordem alfabética

Antologia de Poesia Romena Contemporânea
Tradução de Corneliu Popa
(Guerra e Paz)


A Árvore Derrubada pelos Frutos
Roberto Juarroz
Selecção e tradução de Rui Caeiro, Duarte Pereira e Diogo Vaz Pinto
(Língua Morta)


A Canção do Croupier do Mississípi e Outros Poemas
Leopoldo María Panero
Tradução de Jorge Melícias
(Antígona)


O Poeta Nu
Jorge Sousa Braga
(Assírio e Alvim)


Poesia e Prosa
Tao Yuanming
Selecção, introdução e versões portuguesas de Manuel Afonso Costa
(Assírio e Alvim)


Poética
Ana Cristina Cesar
(Companhia das Letras)


Síntese e Simultaneidade – Antologia de Poesia Futurista
Introdução, selecção e versões de Ricardo Marques
(Zanzibar)

Jorge Navarro

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A Escolha do Jorge: Gelo


 “Gelo” – Anna Kavan (Cavalo de Ferro)
A neve tornou-se mais espessa e continuou a cair inexoravelmente, espalhando um lençol de brancura estéril sobre o rosto do mundo moribundo, enterrando os violentos e as suas vítimas numa vala comum, obliterando o último vestígio do Homem e das suas obras.” (p. 163)
“Gelo” é o romance mais representativo do percurso literário da escritora inglesa Anna Kavan, pseudónimo de Helen Emily Woods (1901-1968), que foi publicado recentemente em língua portuguesa, mais de seis décadas após a sua edição, em 1967.
Com um tom quase profético, Anna Kavan apresenta-nos uma distopia com características totalmente diferentes às demais congéneres escritas até então. Em “Gelo” percebemos nas primeiras páginas que é a própria Natureza que assume os comandos do planeta, sobrepondo-se a qualquer regime totalitário de esquerda ou de direita. Visionária ou atenta às transformações que o mundo estava a ter à data da publicação de “Gelo”, o certo é que com o arco temporal entre a sua publicação e a sua recuperação com a recente edição, é impossível não remetermos todas as transformações a que assistimos nos últimos anos para as “mudanças climáticas” (p. 163) fruto da acção nefasta do Homem na sua relação directa e indirecta com a Natureza.
Numa época em que a Guerra Fria se fazia sentir ao nível da política internacional, como confronto de posições e de poder por via do recurso ao armamento, essa ideia é transposta no romance à medida que o mundo entra em colapso fruto do avanço do gelo e frio árctico que destrói tudo e todos, arrasando por completo todo e qualquer vestígio da acção humana. “Deixou de haver estações do ano – tinham sido substituídas por um frio perpétuo.” (p. 125) “Era impossível deter os gigantescos batalhões do gelo, que marchavam a um ritmo imparável pelo mundo, esmagando, obliterando, destruindo tudo o que encontravam pelo caminho.” (pp. 101-102)
Percebemos que o gelo começa a avançar a partir das regiões mais a Norte do planeta em direcção ao Sul, fazendo com que países inteiros deixem de existir, obrigando as populações, as que conseguem, fugir em direcção a território ainda não abrangido pelo avanço do gelo. A crise de refugiados em luta pela sobrevivência é intensa e os países reorganizam-se tentando a supremacia perante outros. Os recursos naturais tornam-se cada vez mais finitos, principalmente a alimentação que escasseia porque também as trocas comerciais cessam fruto do frio intenso ao ponto de os transportes deixarem de funcionar. Tudo se transforma num verdadeiro mar branco congelado.
A luta pela sobrevivência é em si mesma uma ideia relativa porque o que sobra da humanidade vai acabar por sucumbir face ao avanço da massa de gelo. Trata-se de um cataclismo que ditará o fim da humanidade e da civilização. Por onde quer que as pessoas se voltem ou se dirigem, a morte é inevitável. “O mundo girava em direcção à morte. O gelo já tinha sepultado milhões de pessoas; os sobreviventes distraíam-se com combates e fugas, mas sempre conscientes de que o inimigo invencível estava a avançar e que, para onde quer que fossem, o gelo lá estaria, como conquistador final.” (p. 156)
São vários os momentos que se nos gravam na mente, sobretudo as descrições alusivas ao avanço do gelo e destruição de tudo quanto se lhe depara, devido à sua intensidade imagética, contudo, há uma passagem que traduz o sublime kantiano e que colide com a ideia de surreal deixando o leitor perplexo tanto quanto esmagado face à sua fragilidade e incapacidade de acção. “Vi ilhas espalhadas pelo mar, uma vista aérea normal. Depois, algo de extraordinário, não pertencente a este mundo; uma parede de gelo com as cores do arco-íris a subir do mar, a avançar, empurrando uma crista de água à sua frente ao mover-se, como se a superfície pálida do mar fosse uma carpete a ser enrolada. Era uma visão sinistra e fascinante, que não parecia destinada aos olhos humanos. Fiquei a olhar para baixo e vi outras coisas ao mesmo tempo. O mundo do gelo a espalhar-se pelo nosso mundo.” (pp. 145-146)
Não há força humana ou tecnológica, leis ou poder político capazes de fazer face ao poder da Natureza cujo planeta ficará sob a ditadura do gelo. Parece que Anna Kavan foi bastante clarividente quanto a este aspecto na medida em que a Terra, aos poucos, começa a dar sinais de não conseguir dar resposta e de se renovar mediante a actividade intensa do Homem. Hoje, mais do que nunca, as mudanças climáticas são mais do que evidentes e a humanidade tem sido alertada de que corremos o risco de a situação se tornar irreversível. As medidas implementadas até ao presente têm sido insuficientes num contexto global no que concerne à consciência cívica, moral e ambiental dos cidadãos. “Os glaciares estavam a aproximar-se. Em vez do meu mundo, em breve só haveria gelo, neve, quietude, morte; acabar-se-iam a violência, as guerras, as vítimas; só restaria silêncio gelado, ausência de vida. O último feito da Humanidade seria não apenas a autodestruição, mas a destruição de toda a vida; a transformação do mundo vivo num planeta cadáver.” (p. 157)
“Gelo” é um manifesto que procura alertar os políticos e a sociedade a nível mundial no intuito de racionalizar os recursos para as gerações futuras face à iminência do colapso civilizacional imposto pelo poder da Natureza. Com “Gelo”, Anna Kavan conduz-nos à conclusão de que não existem ideologias acima do poder e da força da Natureza. “Sentia-me oprimido por uma sensação de estranheza universal, pelo calafrio da catástrofe iminente, pela ameaça das ruínas suspensas; e também pela enormidade do que tinha sido feito, pelo peso da culpa colectiva. Tinha sido cometido um crime aterrador contra a Natureza, contra o Universo, contra a vida. Ao rejeitar a vida, o Homem tinha destruído a ordem que reinava desde o princípio dos tempos, tinha destruído o mundo; agora, estava tudo prestes a ficar em ruínas.” (p. 157)
Texto da autoria de Jorge Navarro