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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Soltas...

"Na garota recaiu o desamor do pai. Abandonada pelo homem que desejaria seu, Maria Albertina repudiou o que dele restava na sua vida. Aliás, ela mesmo fora abandonada em pequenina. O ciclo refazia-se. Em Maria Isabel vingou a própria infância."

"Mas  talvez a criança servisse de descarga fácil à sua própria frustração. Quem nada tem abusa facilmente do que é seu- Por isso muitas crianças vivem até adultas em asilos ou arrastam-se de ama em ama porque as mães. que só aparecem para as visitar uma vez por ano, persistem em manter os seus direitos sobre um ser que puseam no mundo, mas pelo qual nada mais fizeram. Nem sequer renunciar a ele, de modo a permitir-lhe uma vida normal."

"De uma maneira ou de outra, todos quantos conheceram a Belinha lamentam não ter invervindo. Inconscientemente sentem-se algo culpados deste crime por omissão."

"Pune-se a mulher que mata o filho à nascença. Pune-se a mulher que abandona o recém-nascido. Mas o que se faz para dar à mulher sozinha a possibilidade de sustentar o filho pelos seus próprios meios? Que medidas se tomam para responsabilizar o homem por uma paternidade não desejada e não assumida?"

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ao nosso redor?


  • Edição: 1
  • Editor: Livraria Bertrand
  • Data de publicação: 1979

Este livro de páginas amarelecidas pelo tempo chegou-me às mãos, via BLX, recomendado já não sei por quem. Embora o título seja significativo, "Só acontece aos outros - Histórias de violência", a capa de outros tempos sugere-nos assuntos de outras épocas, que já não têm nada a ver com a nossa realidade. Mas não! A violência é um assunto contemporâneo, habitando ao nosso lado muitas vezes disfarçada, camuflada, sobretudo a violência contra os mais fracos - as mulheres e as crianças.

A acção decorre entre 1970 e 79. Foram reportagens realizadas pela jornalista Maria Antónia Palla, no semanário já desaparecido O Século Ilustrado, e que retratam casos de violência vivenciados em Portugal, tendo ficado por esclarecer muitos dos mistérios que lhes estavam subjacentes.

Podiam muito bem ter constituído o início de vários romances... Prendem-nos logo pela forma como estão escritos só que, na realidade, são pequenas-grandes histórias verídicas de violência gratuita e outras de actos irreflectidos e brutais, onde a omissão dos vizinhos está presente e contribui para a realização de vários crimes. O que nos faz perguntar: O que se esconde ao nosso lado? Será que olhamos devidamente ao nosso redor? Denunciamos ou fingimos não ver?

  • Terminado em 26 de Dezembro de 2010

Estrelas: 4*

Sinopse

Jornalista corajosa e independente, uma das mais prestigiadas da nossa imprensa, Maria Antónia Palla desde sempre se interessou pelos "casos humanos", muito especialmente aqueles que envolviam as mulheres e as crianças.
"Só acontece aos outros" reúne alguns dos muitos casos em que interveio como repórter e a sua escolha assenta em duas linhas gerais: são histórias de violência e histórias em que a violência recaiu sobre mulheres e crianças.
Contadas de uma maneira directa, como reportagens que são, não excluem, no entanto, a visão emocionada de quem, por muito que habituada à realidade, não se conforma com ela.