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terça-feira, 8 de abril de 2025

“Não Saí da Minha Noite” de Annie Ernaux

Annie Ernaux para mim é casa. Gosto de ler os seus livros espaçadamente porque o seu tom intimista e revelador de aspectos da sua vida fazem-me querer conhecê-la melhor, identificando-me com alguns acontecimentos e reacções. E, sobretudo, admiro a sua escrita concisa. Os seus pequenos livros, de auto-ficção, dizem tanto! 

Um diário, escrito em vários momentos da sua vida aquando da descoberta e posterior acompanhamento de sua mãe, doente de Alzheimer. Leitura onde os sentimentos dela se misturam com os nossos, leitores: frustração, ternura, dor, choque. Uma inversão de papéis para a qual ninguém está preparado. Quem nos ensinou a ser pais dos nossos pais? Como se gere o esquecimento a que somos votados quando essa terrível doença progride e nada podemos fazer?

Um livro que mesmo depois de lido permanece em nós. A reflexão impõe-se.

A escolha do título é uma descoberta doce, terna.

Terminado em 1 de Março de 2025

Estrelas: 6* 

Sinopse
No verão de 1983, durante uma vaga de calor, a mãe de Annie Ernaux sentiu-se mal e foi hospitalizada. Aperceberam-se de que não comia nem bebia há vários dias, estava desorientada, revelava falhas de memória. Pouco depois, foi diagnosticada com a doença de Alzheimer. «Não saí da minha noite» foi a última frase que escreveu, numa carta a uma amiga, quando já se encontrava a viver com Annie, que nos três anos seguintes manteve um diário. Aí registou não apenas os sinais do agravamento da doença da mãe, mas também os seus próprios sentimentos ao ver-se impotente, assistindo ao definhar daquele ser que lhe deu vida. «Sonho muitas vezes com ela, tal qual era antes da doença. Está viva, mas esteve morta. Quando acordo, durante um minuto, tenho a certeza de que ela vive realmente sob essa dupla forma, morta e viva ao mesmo tempo, como as personagens da mitologia grega que atravessaram duas vezes o rio dos mortos.»  

Cris


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

"Um Lugar ao Sol" seguido de "Uma Mulher" de Annie Ernaux

Duas narrativas de uma autora que aprecio, dado o seu tom intimista. Annie Ernaux, como sempre, fala dos seus e, indiretamente, de si. Desta feita, os textos são um sobre o pai e outro sobre a mãe, ambos já falecidos quando escreveu estas linhas. 

Presente nestas linhas está a sua perda, os sentimentos por vezes contraditórios que unem pais e filhos, a ligação familiar que os unia. É, mais do que isso, um retrato social da época (foram publicados em 1984 e 1988 respectivamente); muito interessante de ler. 

Memórias felizes e tristes que a marcaram e que quis deixar escritas, num misto de sentimentos,  de modo a fazer o luto e a libertar o que lhe ia no interior. 

Não recomendaria começar por esta obra, caso nunca tenham lido Annie Ernaux. A mim, fez-me bem conhecer um pouco da sua vida antes de ter começado este livro. Pareceu-me que já a conhecia um pouco quando peguei nele e isso fez com que me sentisse em casa.

A ler!

Terminado em 7 de Fevereiro de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

Dois meses depois de passar nos exames finais para se tornar professora, o pai de Annie Ernaux morreu. Revisitando a memória da sua vida, no que ela teve de mais particular, repleta de confiança no trabalho árduo e igual dose de sonhos frustrados, complexos de inferioridade e vergonha, uma filha procura preencher um vazio que é seu, traçando em simultâneo um retrato coletivo sobre uma época, um meio social, uma ligação familiar. Pouco depois, também a mãe desapareceu, após uma doença prolongada que lhe arrasou a existência, intelectual e física, e mais uma vez cabe à filha restaurar, através da palavra escrita, a sua presença na história.

Neste volume reúnem-se os dois textos de Annie Ernaux sobre estas perdas: Um Lugar ao Sol, sobre o pai, publicado em 1984 e vencedor do Prémio Renaudot, e Uma Mulher, sobre a mãe, lançado em 1988. Duas peças literárias fulgurantes, misto de biografia, sociologia e história, onde resplandece a ambivalência dos sentimentos que unem filhos e pais e o impacto da quebra desse elo vital.

Cris

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

"O Acontecimento" de Annie Ernaux

Quem não leu Annie Ernaux, Prémio Nobel deste ano, pode começar por este livro. É pequeno, não tem mais de noventa páginas e lê-se em poucas horas. E, acima de tudo, é bom!

Annie recorda um episódio de sua vida ocorrido quando tinha 23 anos e era uma brilhante estudante universitária. Não é spoiler se vos disser que Annie engravida e relata aqui o que esse acontecimento lhe provocou. Estava-se em França , em 1963, e o aborto era ilegal. 

Quarenta anos mais tarde, as suas memórias estão ainda vivas e apoia-se nas frases singelas, mas que não a trairiam se fossem descobertas na época, dos seus cadernos de apontamentos de então. 

Que dizer?

Primeiro que está brilhantemente bem escrito, depois a autora consegue captar com exactidão o ambiente externo e interno vivido por ela. A onda de crítica velada com que foi brindada pelos seus pares, as condições insalubres existentes para quem se atrevia a contrariar as leis, as suas próprias sensações. Um voltar ao passado que não deixa o leitor  indiferente. 

Tão pequeno e tão bom este livrinho! Fiquei curiosa com o seu livro "Um Lugar ao Sol" e pretendo ir buscá-lo à biblioteca.

Terminado em 17 de Novembro de 2022

Estrelas: 6*

Sinopse 

Uma jovem de 23 anos, estudante universitária brilhante, descobre que está grávida. Tomada pela vergonha, consciente de que aquela gravidez representará um falhanço social para si e para a sua família, sabe que não poderá ter aquela criança. Mas, na França de 1963, o aborto é ilegal e não existe ninguém a quem possa acorrer.

Quarenta anos mais tarde, as memórias daquele acontecimento continuam presentes, num trauma impossível de ultrapassar e cujas sombras se estendem para além da história individual.

Escrito com uma clareza acutilante, sem artifícios, este é um romance poderoso sobre sofrimento, justiça e a condição feminina. Escrito por Annie Ernaux em 1999, foi adaptado ao cinema em 2021 por Audrey Diwan, num filme vencedor do Leão de Ouro em Veneza.

Cris

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

"Uma Paixão Simples" de Annie Ernaux

Este livro pequenino, este romance, que parece ser um conto retrata os sentimentos mais sinceros e puros de uma mulher. É o seu desabafo, a sua reflexão de como é sentir uma paixão de tal forma avassaladora que não consegue pensar em mais nada, quase que nem nela própria!

Sempre ouvi dizer que paixão não era amor. E se o que esta mulher sente é paixão, então a felicidade mora longe... porque o que ela sente não a faz feliz! 

A autora soube traduzir na perfeição os estados de alma desta mulher sofredora, que vive para os momentos curtos mas intensos que vive quando o homem que julga amar está presente na sua casa, no seu quarto. 

Pequeno mas intenso, este livro deixa-nos pensativos e um pouco angustiados. Que paixão é esta que não tem espaço para o amor-próprio? Um livro que é muito maior do que o seu tamanho!

Terminado a 8 Janeiro de 2021

Estrelas: 4*

Sinopse

De um lado, uma mulher culta, independente, divorciada e já com filhos adultos. Do outro, um homem casado, estrangeiro, mais jovem, por quem ela perde completamente a cabeça. E por quem espera, dia após dia. Se o tema parece trivial, não o é, de todo, o modo como os dois anos que dura esta «paixão simples» são contados: no seu estilo frontal, acutilante, despido de vergonhas e julgamentos, Annie Ernaux desfoca a linha ténue entre ficção e autobiografia e põe na voz da narradora as confidências da história de uma relação que toma conta de tudo, que extasia e rebaixa, fonte da maior felicidade e da mais dolorosa solidão. Viver algo assim será, talvez, o maior privilégio da existência.

Lançado em 1991, Uma Paixão Simples surpreendeu o panorama literário francês, quebrando os estereótipos do romance sentimental pelo seu erotismo e pela sua honestidade. Em 2020, é adaptado ao cinema por Danielle Arbid.

Cris