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segunda-feira, 30 de abril de 2018

"O Som Das Coisas Que Começam" de Evita Greco

A primeira coisa que me apraz dizer sobre este livro é que fiquei um pouquito furiosa com o conteúdo do último capítulo. Normalmente aceito bem qualquer final mas este custou-me bastante. Nāo podendo dizer-vos do que se trata, por motivos óbvios, fico sem saber como explicar a razāo deste meu inesperado mal estar. Leiam o livro e vejam por vocês mesmos se sentiram o que senti...

De resto, toda a obra é escrita num tom bastante doce, agradável aos olhos e ouvidos, e fala-nos um pouco dos conflitos internos da personagem principal, Ada, das suas inseguranças provenientes do abandono do qual a sua māe foi a principal responsável, do seu amor pela avó que a criou, dos laços que as unem, do que ela sente quando a velha senhora é hospitalizada com uma doença grave. Da iminente separaçāo.

Fala-nos também de outra forma de amor, quando Ada conhece Matheo e se apaixona. Se houve personagens que captaram facilmente a minha simpatia e com os quais me senti fortemente ligada, como por exemplo Ada, sua avó Teresa e Giulia, a enfermeira que a trata com tanto carinho, já nāo posso dizer o mesmo de Matheo. Embora bem retratado, irritou-me deveras. Da mesma forma que se conhecesse alguém assim, me irritaria, afastando-me e nāo desenvolvendo qualquer laço de amizade. 

Mas, o que me deixou incomodada foi a reacçāo de Ada e Giulia, face ao comportamento de Matheo. Creio que as mulheres podem ser um pouquito mais "senhoras do seu nariz" do que as retratadas aqui. 

No entanto considero que o balanço final desta leitura foi positivo. Comprovem-no por vocês mesmos! 

Terminado a 25 de Abril de 2018

Estrelas: 4*

Sinopse
Ada aprendeu com a avó, Teresa, a não ter medo e a não perder a coragem: sempre que algo de belo parece desaparecer, ela deve apurar o ouvido e prestar atenção aos sons. Só assim será possível reconhecer O Som das Coisas Que Começam. Alguns são simples e têm uma magia especial: uma orquestra no momento de afinar os instrumentos, o vento uivante na tempestade, o tilintar de chávenas de café todas as manhãs...
      Mas na vida nem sempre sabemos reconhecer as coisas belas - quando deixamos de acreditar em nós próprios, ou quando alguém parte. Para Ada, agora que Teresa está gravemente doente, o medo de ficar só é tão forte que a tolhe. Mas ela conhece Giulia, a enfermeira que a encoraja, e Matteo, o homem que a surpreende com o amor incondicional. Giulia e Matteo irão confirmar que o amor significa prestar atenção aos sons que ninguém, exceto cada um de nós, consegue ouvir. E Ada irá aprender que, mesmo quando as coisas estão a terminar, algures no mundo elas estão também a começar.           

Para saber mais sobre este livro, aceda ao site da Editorial Presença aqui.

Cris

sábado, 28 de abril de 2018

Na minha caixa de correio

  

  

  

  

  

Comprado num alfarrabista, Um Gentleman em Moscovo.
Ofertados pelas editoras:
O Menino de Deus e Acorde a Sua Alma e Cure a Sua Vida, Porto Editora;
Tenho de Saber, Planeta;
A Casa da Beleza, Suma de Letras;
Elmet, Uma Certa Forma de Vida e Nos Passos de Magalhāes, Clube do Autor;
Os restantes foram ganhos nos passatempos do JN.


quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Escolha do Jorge: "HÁ MUITO ABRIL POR CUMPRIR"


"HÁ MUITO ABRIL POR CUMPRIR"

Em jeito de comemoração deste dia simbólico e histórico para Portugal e para os Portugueses, multiplicam-se os cartazes e as palavras alusivas ao 25 de Abril.

Não tenho recordações deste dia porque tinha somente três anos, mas recordo-me, nos anos a seguir, e, sobretudo, quando entrei para a escola, a importância de se comemorar este dia, assim como percebia, com o passar dos anos, e ainda, sendo criança, que algo de importante aconteceu no país e na vida das pessoas pelas conversas que ouvia por parte dos adultos.

Recordo-me nos anos a seguir ao dia histórico dos inúmeros murais, simples e elaborados, com mensagens certeiras e sentidas sobre a conquista da liberdade que pôs fim a um regime de décadas de apressão, mas fazendo também referência aos desafios e às promessas ainda por cumprir.
De todos os murais, aquele que me ficou mais fortemente gravado e até porque quando o vi eu já era adulto e já era professor de História há alguns anos, é um mural que prima tanto pela simplicidade como apela à reflexão num misto de desalento, mas também de esperança. "HÁ MUITO ABRIL POR CUMPRIR" reza o mural que vi algures entre Alfândega da Fé e Mirandela, no distrito de Bragança, onde leccionei um ano.

Não vivi nos tempos da ditadura, mas os meus pais, avós e bisavós viveram. Convivi com os meus bisavós durante muito tempo (tinha 11 ou 12 anos quando o meu bisavô Ernesto faleceu e 20 anos quando faleceu a minha bisavó Isaura, ambos bisavós paternos).
Nascidos, respectivamente, em 1900 e 1902, os meus bisavós, em crianças, são do tempo do regicídio, do fim da monarquia, dos anos da República, e já adultos quando foi instaurada a Ditadura Militar que abriu caminho para a criação do Estado Novo, mas ainda assistiram ao 25 de Abril, podendo assim desfrutar da chamada Liberdade que pôs fim a um período longo de negritude. Quando a minha bisavó faleceu já Portugal era parte integrante da então CEE.

Foram inúmeras as histórias que ouvi directamente das suas bocas, assim como da minha avó que na semana passada comemorou 94 anos e, não há dúvida, que quanto mais recuamos na História do século XX do país, percebemos a pobreza e até miséria que se vivia em muitas situações descritas, ouvidas através de relatos ou lidas em artigos ou obras de fundo.

São essas histórias que me fazem compreender as mudanças que ocorreram no país e que, em certa medida, abriram caminho para eu ter feito o percurso que escolhi na vida, ainda que reconheça as limitações e até deficiências da democracia portuguesa e do seu servilismo ao sistema capitalista invisível e que condiciona a vida de todos, havendo, por essa razão MUITO ABRIL POR CUMPRIR.

Mas independentemente das questões profissionais e materiais, é a Liberdade a grande questão central. Não conheci os tempos da Ditadura e não me revejo a viver condicionado no meu dia-a-dia no que concerne à minha forma de pensar, correndo o sério risco de ser denunciado às autoridades face às minhas ideias, ao que tivesse pensado e ter até medo do impensado. Chego até a pensar que, conhecendo-me como me conheço, o mais certo seria fazer parte de algum grupo que operasse na clandestinidade, lutando por valores de cariz universal. Pelo menos, a ideia sempre me seduziu, confesso.

Daí que considere estranho e quase absurdo quando, na semana passada, algures numa página do Facebook, vi um post com muitos comentários relativos ao repúdio que sentiam em relação ao 25 de Abril. Não gosto de fazer juízos até porque não conheço as pessoas em causa, porém, não acredito que gostassem de ter tido as vivências dos meus bisavós durante uma boa parte da vida durante o século XX.
A insensatez e o desconhecimento são também palavras de ordem nos dias de hoje, mas o melhor é não fazermos caso.

Termino com duas frases certeiras de Czeslaw Milosz, Prémio Nobel de Literatura, em 1980, integradas no monumental ensaio "A Mente Aprisionada", sobre os regimes totalitários, publicado recentemente:
"E onde reinam o terror e a miséria, ninguém pode ser feliz." (p. 298)
"O medo é sobejamente conhecido como cimento das sociedades" (p. 302)

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 24 de abril de 2018

"Sem Rasto" de K. L. Slater

Antes de vos falar da minha opiniāo sobre esta leitura, tenho de vos falar da capa. Todos concordamos, acho eu, que uma capa nāo é verdadeiramente importante para que um livro seja considerado bom ou mau mas quem nāo comprou já um livro só porque tem uma capa bonita, sedutora, que "atire a primeira pedra"... Isto para vos dizer que me senti atraída pelas cores fortes e contranstantes desta capa. Foi paixāo à primeira vista e uma parte do conteúdo é-nos revelado quer pelo título quer pela imagem da criança que nela vemos. A sinopse fez o resto. Precisava de ler este Sem Rasto!

Até meio da narrativa sentimos que a dominamos. Passo a explicar: o leitor é posto ao corrente de uma história contada em dois tempos, o presente e o passado, ocorrido três anos antes. Parece-nos, ainda a meio da narrativa, que conseguimos unir a história, o antes e o depois. Uma criança de cinco anos é raptada, a sua māe jaz numa cama do hospital três anos depois do seu rapto e tenta desesperadamente sair do encarceramento em que o AVC a deixou, para ajudar a encontrar a sua filha. Parece tudo isto, mas nāo... A meio da leitura, uma chapada! Nada é o que parece e o final nāo é o previsível.

A caracterizaçāo da personagem principal está soberba. Toni é uma māe em sofrimento que tenta desesperadamente dar à sua filha um lar estável depois da morte do marido num acidente no Afegasnistāo, do qual ele nāo está isento de culpa. Fragilizada, Toni começa a ter ausências prolongadas devido aos medicamentos que toma às escondidas. Questiona-se com frequência se está a conseguir ser uma boa māe. Esquecimentos, deslizes, fazem parte do seu dia a dia. Parece que tudo ajuda para o desfecho que o leitor sabe de antemāo: a sua filha é raptada. 

Um livro que se lê a uma velocidade estonteante, com uma trama muito bem articulada e vários suspeitos do rapto surgem na nossa mente aquando do desenrolar da narrativa. Quem raptou a pequena Evie? Onde é que ela se encontra? 

Fiquei curiosa com o livro anterior desta autora, A Salvo Comigo. Alguém o leu?

Terminado a 21 de Abril de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Para Toni, Evie é a coisa mais importante do mundo.
Quando perdeu o marido na guerra, Toni tomou medidas para começar tudo de novo e dar à filha, Evie, uma vida melhor.
Mudou-se para uma cidade diferente, arranjou um novo emprego e mudou a filha para outra escola.
Mas há coisas más que não param de acontecer.

O recomeço está a ser difícil. Evie não gosta da escola, os vizinhos têm antecedentes criminais e a nova chefe é terrível. Para conseguir lidar com tudo isto, Toni começa a abusar de sedativos.
Quando fecha os olhos, as horas desaparecem e o descanso torna-se possível. É quando algo terrível acontece.
E agora Evie desapareceu.
Ninguém sabe onde Evie está e não há pistas, nem suspeitos. Toda a gente culpa Toni, que rapidamente é vista pela opinião pública como uma mãe irresponsável e toxicodependente.
Mas ela tem a certeza de não ter feito nada de errado. Ou será que fez?

Cris

segunda-feira, 23 de abril de 2018

"Todos os Dias Sāo Meus" de Ana Saragoça

O que me apraz dizer de um livro do qual tenho ouvido opiniōes muito boas? De que TODA a gente diz bem?

Primeiro comecei a lê-lo apreensiva. Quase prefiro ler um livro que tenha opiniōes mistas, sentindo-me livre de gostar ou nāo. Com todo este "peso" temi que a minha opiniāo fosse influenciada. Depois senti, pela primeira vez ao ler um livro e logo nas primerias páginas, que gostaria muito de ler este livro noutro formato: audiobook. Talvez o Pedro Lamares?

E sim! Gostei. Mas quero lê-lo de novo. Tenho a certeza que captarei pormenores que me escaparam. Relíquias, acho. Porque as várias entradas, isto é capítulos, possuem um narrador diferente, todos eles moradores de um prédio onde foi cometido um assassínio, e dizem respeito aos seus esclarecimentos face à polícia. Como referi anteriormente, quero lê-lo de novo. A leitura faz-se rápida, talvez pela escrita fluida, e temo ter deixado escapar pormenores que quero apreciar melhor.

Esta obra, escrita com muito humor, prima pela frescura das palavras da autora, que com pitadas de uma crítica (por vezes subtil, por vezes crua e mordaz) à nossa sociedade, retrata uma parte dela na perfeiçāo. O final é inesperado. Gostei dele por essa razāo. Experimentem!

Terminado a 14 de Abril de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Um thriller surpreendente e de ir às lágrimas que é também um retrato irónico da sociedade portuguesa, seus tiques e manias.
Um livro cheio de inteligência e humor que explora os tiques e as vicissitudes de personagens que todos reconhecemos do prédio, do local de trabalho ou até mesmo das nossas amizades.
É raro a literatura portuguesa apresentar uma mistura tão fina de sensibilidade e ironia. Mais ainda quando garante uma grande dose de humor.

Cris

sábado, 21 de abril de 2018

Na minha caixa de correio

  

  

Comprados:
- Bibliotecas Cheias de Fantasmas (feira do Chiado)
- Ho'oponopono (através do FB)

Oferecidos pelas editoras parceiras:
- Love Star, Bertrand Editora
- Outras Pessoas, Quetzal
- O Que Perdemos, Editora Minotauro
- A Dieta do Cérebro, Editora Pergaminho
- A Vida em 5 Minutos, Editora Pergaminho

quarta-feira, 18 de abril de 2018

"25 Gramas de Felicidade" de Massimo Vacchetta

Fiquei rendida a esta capa tāo ternurenta. Confesso que foi isso que me fez pegar neste livro (lembrei-me deste instagram que adoro particularmente: Mr Pokee) e pensei que se tratava de um romance onde a ficçāo imperava. Devo ter lido a sinopse anteriormente mas rapidamente a esqueci pois quando me apercebi que a história era verídica, fiquei deveras agarrada à narrativa logo de imediato.

É a história de como o amor que Massimo Vacchetta sente pelos ouriços que ajudou a salvar, o fez fundar um centro de recuperaçāo de ouriços bebés ou com ferimentos. Tudo começou quando encontrou um ouriço que pesava apenas 25 gramas, a Ninna. Ajudou-a a crescer mas o amor tende a ser possessivo e custou-lhe  muito libertá-la quando Ninna estava já pronta para se ir embora... Amar é libertar, sobretudo aqueles seres que vivem em liberdade. É a história também de como o amor liberta e transforma. Massimo sentiu isso na pele.

Uma leitura ternurenta e calma que muito me agradou. Um livro que se lê rápido, num fôlego.

Terminado em 16 de Abril de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Uma deliciosa história destinada a emocionar todos os que adoram animais.

Este livro é sobre um ouriço e sobre o veterinário que decidiu cuidar dele. Mas é também sobre o amor, a felicidade e uma imensa vontade de viver. Massimo Vacchetta conta a sua ligação extraordinária com um animal tão pequeno e especial, e de que forma esta o ajudou a sair de um período sombrio com um novo objetivo de vida: criar um centro de recuperação para ouriços.

«— Um animal selvagem precisa de viver livremente para ser feliz. Tens de deixá-lo ir.
— Já tentei, uma vez. Mas não se foi embora. Ficou à minha espera. Na verdade… afeiçoei-me demasiado…»

Mais do que um relato sobre os problemas que afetam tantas espécies em risco de extinção, 25 Gramas de Felicidade é uma sensível e emotiva descrição dos laços de um veterinário com um pequeno ouriço, e é um daqueles livros que nos elevam a alma e nos deixam com um sorriso na cara.

Inclui 8 páginas de fotografias.

Cris

terça-feira, 17 de abril de 2018

"A Minha Avó Pede Desculpa" de Fredrik Backman

É através de um narrador desconhecido que nos pomos ao corrente desta história. Achei esse narrador simplesmente delicioso! Fala como se fosse uma criança grande e conta-nos como, uma criança pequena de quase oito anos, e sua avó de quase oitenta (que "nāo bate muito bem da bola" no entender dos adultos à sua volta), comunicam uma com a outra através do amor. 

Elsa é uma menina diferente. É inteligente, fala corretamente, percebe e entende do mundo que a rodeia muito mais que os seus pares, mas é uma menina solitária, sem amigos da sua idade. Na escola é perseguida e vê-se envolvida em brigas de onde normalmente sai a perder. Os adultos insinuam que ela deve fazer um esforço para se integrar... Como se a culpa fosse dela! Tenta esconder as nódoas negras e arranhōes mas a sua Avózinha percebe o que se passa. 

Sua avó também é diferente. Por trás chamam-na de louca. É certo que Elsa participou nalgumas situaçōes bem diferentes em que a sua avó agiu de uma forma nāo convencional, excêntrica até, mas todas as peças do seu pequeno mundo se desmoronam quando Elsa descobre que a sua avózinha está gravemente doente. Numa espécie de "caça ao tesouro"  criada pela avó, Elsa descobre que pode fazer amigos onde menos espera e tudo porque a avó ...e pronto! Mais nāo digo, mais nāo conto!

Um romance surpreendente onde a imaginaçāo extrema do autor está intimamente ligada com a vida que criou para os seus personagens. Histórias de encantar de uma avó para uma neta, mundos fantásticos onde as duas se descobrem e onde descobrem também a amizade dos moradores de um prédio que vive unido por laços invisíveis de amor criados por uma velha senhora louca (ou nāo?). 

E tantos sāo os assuntos delicamente tratados pelo autor! A vida e a morte; o motivo que nos impulsiona a praticar o Bem (ou o Mal); como as dificuldades da vida nos levam a agir de determinada forma (ou como deixamos que elas nos impeçam de viver); o bullying, os medos e traumas, e tanto, tanto mais...

Um romance que me surpreendeu pela positiva, repleto de uma ternura e sensibilidade na escrita que muitas vezes me deixou pensativa, com um sorriso interior, apanágio de um romance de muita qualidade. Adorei fazer parte desta leitura fantástica! Sim, porque quando um livro nos envolve completamente sabemos que é por isso que adoramos ler: pertencer por umas boas horas ao mundo fantástico, de uma sensibilidade a toda a prova, criado pelo escritor!

Adorei o seu livro anterior, "Um Homem Chamado Ove", mas este, quanto a mim, nāo lhe fica atrás! Recomendadíssimo!

Um agradecimento especial à Porto Editora pela surpresa enviada: o livro de avanço possuidor de uma capa muito especial!

Terminado em 13 de Abril de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
Elsa tem sete anos de idade, quase oito, e é diferente. Para já, tem como melhor - e única - amiga a avó de setenta e sete anos de idade, que é doida: não levemente taralhoca, mas doida varrida a sério, capaz de se pôr à varanda a tentar atingir pessoas que querem falar sobre Jesus com uma arma de paintball, ou assaltar um jardim zoológico porque a neta está triste. Todas as noites, Elsa refugia-se nas histórias da Avozinha, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Acordar, um reino mágico onde o normal é ser diferente.

Quando a Avozinha morre de repente e deixa uma série de cartas a pedir desculpa às pessoas que prejudicou, tem início a maior aventura de Elsa. As cartas levam-na a descobrir o que se esconde por detrás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de um prédio muito especial, mas também à verdade sobre contos de fadas, reinos encantados e a forma como as escolhas do passado de uma mulher ímpar criam raízes no futuro dos que a conheceram.

A minha avó pede desculpa é uma belíssima história, contada com o mesmo sentido de humor e a mesma emoção que o romance de estreia de Fredrik Backman, o bestseller internacional Um homem chamado Ove.

Cris

segunda-feira, 16 de abril de 2018

"Sonata em Auschwitz" de Luize Valente

Ao fim da primeira página fiquei irremediavelmente presa a esta história. 1944, Polónia anexada, um oficial nazi foge num veículo transportando uma carga preciosa. A sua vida depende dessa fuga. Nāo pode ser apanhado.  Nāo, a carga nāo é o que poderiam estar a pensar! Pelo menos eu nāo acertei. De todo.

Depois, um salto no tempo. O caminho estava aberto aos segredos, às descobertas, à descoberta de um livro deveras especial que me deu um imenso prazer ler. De facto, adorei esta leitura. Achei-a verosímil com uma história muito bem elaborada, pensada com sabedoria e com uma pesquisa profunda e detalhada sobre a época em questāo. Uma mescla de mistério, ficçāo e realidade que se traduziu numa leitura absorvente e compulsiva,

O título tem tudo a ver com a história. No final, uma surpresa! Gostaria de saber música para a ter conseguido apreciar devidamente.

Nāo vos vou contar nadica, como já seria de prever para quem lê o que escrevo por aqui. Para além disso, a sinopse possui informaçōes que vos podem dar uma ideia da história. Quanto a mim, detalhes a mais. No entanto, garanto-vos páginas e páginas de um leitura fantástica e, nalguns casos, muito rica em detalhes que podem impressionar quem for mais sugestivo. Algumas frases ainda estāo gravadas em mim (aliás sublinhei-as a lápis) tal foi o impacto que me provocaram. O Holocausto no seu... pior!

No final do livro, caso queiram ter a mesma surpresa que eu, podem cuscar aqui: sonata.luizevalente.com

Terminado dia 8 de Abril de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
Décadas depois do fim da II Guerra Mundial, Amália, uma portuguesa com ascendência alemã, começa a levantar o véu do passado nazi da sua família a partir de uma partitura que lhe é revelada pela sua bisavó. A hipótese de que o avô, dado como morto antes do fim da guerra, possa estar vivo no Rio de Janeiro leva Amália a atravessar o oceano e a conhecer um casal de judeus sobreviventes do Holocausto.
      A ascensão do nazismo em Berlim, a saga dos judeus húngaros, os mistérios ocorridos no campo de extermínio da Polónia e o pós-guerra numa casa cheia de segredos oferecem os caminhos que Amália irá percorrer para desvendar o enigma. Dando corpo a uma narrativa elaborada com extrema sensibilidade e precisão investigativa, Luize Valente envolve o leitor em mistério, suspense e nos sentimentos mais profundos.

Cris

domingo, 15 de abril de 2018

Ao Domingo com... Isabel Moreira Brito


D. Sebastião desapareceu em Alcácer do Sal? Não, não desapareceu. Este é um dos lapsos que faz parte do livro e que acabou por dar título ao mesmo. Trata-se de um livro divertido mas ao mesmo tempo com uma vertente pedagógica. Não se apresenta apenas o erro. É necessário explicar em que contexto ele surgiu, apresentando-se a questão formulada pelo docente e posteriormente a história contada tal como ela é, os verdadeiros factos. É esta a estrutura apresentada ao longo de 12 capítulos, num total de 100 histórias. A informação é apresentada de forma breve, contudo, precisa, e está relacionada com acontecimentos abordados nos programas de História do Ensino Básico e Secundário.
      Os erros compilados não permitem que se identifiquem os alunos e foram coligidos ao longo de 20 anos em fichas de trabalho, testes de avaliação e nas aulas. 
      Em momentos de ansiedade, de pouca inspiração, ou de pouco estudo, podemos tornar-nos mais criativos. Muitos dos erros dos alunos estão relacionados com o stresse, com os nervos que os dominam durante a realização de uma prova, e, muitas vezes, quando se trata de questões colocadas em fichas de trabalho, testes e exames, percebe-se que não releram sequer a sua resposta e que muitos nem compreenderam a questão formulada.
      Ainda que não se acredite, é real. Os erros nas aulas e testes de História (e de outras disciplinas) acontecem e, na maior parte das vezes, originam histórias engraçadas impossíveis de esquecer.

Isabel Moreira Brito

sábado, 14 de abril de 2018

Na minha caixa de correio

  

 

 

Os livrinhos que chegaram cá a casa esta semana foram:

- Embalando a minha biblioteca, oferta do marido,
- A rapariga que lia no metro, oferta da Porto Editora,
- Este foi um homem, oferta da Bertrand,
- A verdade segundo Cinny Moon, oferta da Topseller,
- Quando tu voltaste, oferta da Planeta (livro personalizado)
- Deus como tu, oferta Matéria Prima,
- Equilíbrio, oferta da Chá das Cinco

sexta-feira, 13 de abril de 2018

A Escolha do Jorge: "O Acompanhante"


“O mundo parece estar curiosamente desordenado, talvez por causa do pecado original… Estamos onde estamos. Onde estamos?” (p. 322)

Publicado em 2008 com o título original “The Extra Man”, este portento romance de Jonathan Ames (n. 1964) conheceu a sua edição portuguesa dois anos mais tarde com o título de “O Acompanhante”, sendo um livro que não mereceu o seu devido reconhecimento à data, encontrando-se actualmente fora do mercado editorial.

Divertido e soberbo são dois adjectivos que me vêm de imediato à ideia para caracterizar este romance. Com inúmeras alusões a grandes nomes e obras de referência da literatura contemporânea, Jonathan Ames escreveu um romance que marcou garantidamente o período compreendido entre o final dos anos 90 e a mudança do novo século.

Passado em 1992, numa época em que Bill Clinton se preparava para assegurar os desígnios dos EUA, era também uma época em que a sida continuava a matar milhares de pessoas, sendo, este um romance que retrata em certa medida alguns dos meandros dos clubes nocturnos frequentados maioritariamente por crossdressers e transexuais.

O leitor é imediatamente aliciado nas primeiras páginas com a loucura cometida por Louis ao ser apanhado a experimentar um soutiã de uma colega em plena sala de professores, situação que contribuiu para não voltar a ser contratado no ano seguinte.

Em função disso, Louie decide abandonar Princeton, em Nova Jérsia, tentando a sua sorte na vizinha Nova Iorque, refazendo, dessa forma, a sua vida.

É neste contexto que Louie acaba por conhecer o septuagenário Henry, na sequência de um anúncio de jornal, acabando por partilhar um pequeníssimo apartamento numa das avenidas movimentadas da cidade.

Parte das peripécias é passada no minúsculo apartamento que ao longo da narrativa conhece três tipos de infestações: baratas, pulgas e ratos.

Esta amizade improvável vai-se sedimentando e sem que nenhuma das partes envolvida o assuma, Henry e Louis acabam por se ligar, ao ponto de serem, em certa medida, uma família pouco convencional, sem que se verifique certo tipo de envolvimento de carácter mais físico.

Henry, mais velho, e com uma sexualidade dúbia, viveu na Europa na sequência da herança de uma tia, o que lhe permitiu levar uma vida tranquila, fazendo o que mais apreciava e sem preocupações: comer, beber, frequentar festas, passear.

Acabado o dinheiro, Henry regressa aos EUA, passando a levar uma vida de penúria, dando aulas de literatura e arte, e vivendo de refeições gratuitas ao tornar-se o acompanhante de senhoras idosas endinheiradas que necessitam de alguém para as transportar e que olhe por elas durante os convívios.

Com inúmeras taras, manias e esquemas, Henry arrastou Louie para o centro da vida social de Nova Iorque, sem que nenhum dos dois tivesse dinheiro, nem estatuto. Henry era nas palavras de Louie  “um anfitrião capaz de fazer aquele caos parecer o camarim babelesco de uma vedeta.” (p. 299)

Quanto a Louie, era judeu, não necessariamente praticante, mas era herdeiro de toda uma consciência de culpa por via da tradição judaica, na medida em que sentia frequentemente a dualidade entre o dever e a sua “consciência sexual difusa” (p. 330)

Louie não sabe exactamente qual é a sua identidade sexual, fruto, talvez de ser um indivíduo com valores, ser boa pessoa, no fundo, porque tem sempre a consciência de não querer magoar ninguém, o sentido de dever corre-lhe nas veias, apesar dos seus laivos de loucura que o levam a experimentar todo o género de fetiches, na sequência de se sentir maravilhado com a oferta de anúncios na secção de adultos dos jornais, tais como, espancamento, sessão de crossdresser, peep shows ou frequentar o Sally’s, o bar onde poderia vir a ser um potencial cliente de uma crossdresser ou transexual.

No meio desta alucinante viagem de reconhecimento e/ou descoberta de identidade sexual de Louie, é precisamente Miss Pepper, uma das frequentadoras assíduas do Sally’s, quem melhor define Louie: “Antes de mais, tu és giro. A maioria de nós era capaz de matar para ter essas sobrancelhas louras. Veste-te bem, tens bom gosto, e tens também uma personalidade. Tratas as Queens com respeito. És o típico caça-trans. Não és propriamente hetero, mas também não és gay. És heterossexuado.” (p. 252).

Louie é assim este personagem que se vai construindo ao longo de toda a narrativa. São inúmeras as peripécias e aventuras em que se vê envolvido, mas nada é exagerado. Este personagem é bem real e vive para lá das páginas deste livro. Como a maior parte da narrativa é um diálogo interior, são muitas as reflexões que Louie faz de si e das suas actividades, os seus medos mais terríficos e o sentimento de culpa, sempre presente, fruto da tradição judaica referida anteriormente. É nesse diálogo interior que Louie cresce e se adapta a Nova Iorque, a cidade que tem espaço para todas as pessoas e todas as tendências, sejam elas de que natureza for.

Mas esta amizade improvável, “excêntrica e melancólica” entre Henry e Louie, que se transforma numa qualquer espécie de amor não oficializado, ainda que individualmente se constate essa assunção tanto por sentimentos, como pela via de contrariar a solidão. E é a par de momentos divertidos que Jonathan Ames também confere ao seu romance um tom mais sério e sentimental capaz de agarrar o leitor, conferindo humanidade aos seus personagens para além das folhas de papel, como se pode verificar na seguinte passagem:

“Voltei à fotografia [de Henry] na bicicleta. Era perfeito. Depois olhei para a cama estreita que tinha à minha frente, coberta por vários montículos de roupa suja e escondendo umas quantas garrafas vazias debaixo de si. Tentei olhar com profundidade para os belos olhos do rapaz da fotografia. A nossa idade não devia ser tão diferente quanto isso. Queria avisá-lo do que aí vinha e comecei a chorar. Chorava porque aquele rapaz não fazia ideia daquilo em que se ia tornar, que cinquenta anos mais tarde estaria a dormir num decrépito sofá no meio de um quarto pouco menos que imundo.
Chorei pelo que acontecera à vida daquele jovem e chorei porque o velho em que esse jovem se tornou me tinha abandonado.” (p. 300)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 12 de abril de 2018

A Convidada Escolhe: "Os Loucos da Rua Mazur"


Por que é que um livro é incómodo, polémico, alvo de cartas abertas… Digo livro e podia dizer obra de arte, mas neste caso estou a referir-me ao último livro de João Pinto Coelho, galardoado com o Prémio Leya 2017. É polémico porque falseia a verdade? É polémico porque põe o dedo na ferida e destapa a história naquilo que ela se esforça por ocultar? É incómodo porque devido à sua crueza, revela características humanas que são tudo menos “humanas”?

Na nota de autor que encerra o livro, João Pinto Coelho escreve: “No dia 10 de Julho de 1941, em Jedwabne, pequena cidade do nordeste da Polónia, um grupo de cidadãos, na sua maioria cristãos, reuniram à força os seus vizinhos judeus na praça principal e, num festim de violência, conduziram-nos até um celeiro próximo que incendiaram, queimando vivas centenas de pessoas, incluindo muitas crianças. Nos dias que se seguiram, sucederam-se as pilhagens e apagaram-se para sempre os traços seculares da presença judaica na cidade. “ Mas, apesar de o livro ter a ver com esses momentos da história ocorridos há oitenta anos, é um livro de ficção.

A narrativa decorre em Paris no início deste século e acompanha alguns meses da vida de Yankel, um velho judeu cego proprietário da Livraria Thibault. A rotina da sua vida de livreiro com a presença de Fidelia, a actual companheira que faz dos seus dias “maratonas de leitura”, de Armand, o cão, para além dos dias da semana na livraria, é interrompida pela visita de Eryk. Eryk que Yankel não vê desde 1941, fora seu amigo de infância e é actualmente um escritor famoso em Bruxelas, sob o nome de Paul Lestrange.  Este reencontro há muito ansiado tem agora a urgência da vida que está quase a chegar ao fim. Eryk quer escrever o seu último livro, quer acabá-lo, mas para isso precisa das informações que só o seu amigo Yankel tem, apesar de cego e que ele não foi capaz de captar. Isso obrigá-los-á a recordar a infância e a terra natal no nordeste da Polónia, na segunda metade dos anos 30 e nos primeiros anos dos anos 40 do século passado, quando a sua terra – “o círculo perfeito” – era habitada por uma comunidade dividida entre judeus e cristãos. Vivienne, a mulher de Eryk e sua editora, será o elo de ligação entre os dois homens.

É clara, desde o início, a tensão entre os dois velhos polacos. Os seus diálogos são cínicos, mordazes, percebe-se que há questões por resolver, que há um ajuste de contas, mas por fim Yankel acede em contar para um gravador a sua história na primeira pessoa, a qual depois será reescrita e editada por Eryk e Vivienne. O/A leitor/a vai assim acompanhando entre a Polónia e Paris o desenrolar da história dos dois amigos e de Shionka, a jovem muda filha da Dreide, a bruxa da aldeia. E fica desde logo preparado/a para um crescendo na narrativa, pois se o preâmbulo e os primeiros capítulos são sobre a inocência, o final será obsceno.

São inúmeras as personagens que povoam aqueles dias despreocupados e felizes da infância: Shionka, viva, desinibida, despreocupada, era muda, mas tinha um talento especial com os seus silêncios e trejeitos e uma capacidade extraordinária para comunicar com o belo Yankel, cego de nascença e Eryk o amigo cristão; Rasia, a mãe de Yankel; Salomão Finkelstein e Roman Skiba os dois homens mais poderosos da comunidade judaica e cristã respectivamente; Tadeusz o presidente da Câmara; o padre Kazimierz, Pani Krysia e as beatas; o professor Shlomo Pasternak, judeu, poeta, encadernador, tenor, comunista, uma personagem invulgar, injustiçada e caluniada por um crime que não cometeu, abandona a terra e deixa um edifício que virá a ser o manicómio Pasternak; Florian e a irmã Kasia serão os primeiros loucos a habitar o manicómio; Tauba Sandberg a linda judia com “pescoço de Modigliani” e Perla são as duas amigas ligadas pela vida e pela morte; o Checo, pintor e vendedor de tintas…

Aparentemente convivendo sem problemas, o “círculo perfeito” era uma comunidade dividida e com territórios delimitados. Se ocorriam episódios banais e fruto de a intriga ser “a cultura dominante da cidade”, a verdade é que os sinais a que poucos liga(va)m e vistos como naturais são sintoma de um mal-estar que vai crescendo. “Cada Judeu é um prego espetado em Cristo” uma frase obsessiva do presidente da Câmara revelou-se bem um sinal do antisemitismo em muitos dos seus conterrâneos. O início da guerra, o medo que se instala, a desconfiança, são os ingredientes que potenciam os conflitos latentes, despertam a bestialidade e levam à tragédia. A história está repleta de exemplos terríveis que tornam a luta pela Paz uma prioridade absoluta para que a Humanidade não se perca. Há quem queira apagar a história, mas para além do holocausto, relembro aqui a matança dos judeus em Lisboa, na Páscoa de 1506 e que precedeu um período de cerca de trezentos anos de presença da Inquisição em Portugal, o genocídio de hutus contra tutsis no Ruanda em 1994 ou o genocídio na Bósnia-Herzegovina são apenas alguns exemplos que não podemos esquecer, especialmente agora que o mundo se está a tornar num lugar cada vez mais perigoso. Um lugar onde a loucura anda à solta.

A incomodidade a que me referi no início deste texto decorre do facto de que ninguém sai incólume. Os ocupantes que à vez são os senhores do território, fruto do acordo entre Hitler e Estaline sobre o destino da Polónia (1939) –  os alemães, os russos, os alemães – vão gerar um clima de ódio entre a população que leva a que os cristãos jurem vingar-se um dia que os russos partam: “Por isso, fizeram a Cristo a mais solene das promessas: se um dia os bolcheviques partissem, cada cristão que sobrasse saberia o que fazer à raça de sabujos e nem uma cabeça ficaria por pisar.”(p. 224) Basta o riscar de um fósforo para que a palha se incendeie. Aos gritos de “Comunistas, traidores, bufos” começa-se com pedras arremessadas contra um guarda-livros e depois vai tudo a eito. E depois há os silêncios, as cobardias, as cumplicidades, as vinganças, mas também os actos singulares, fora da multidão ensandecida. Yankel foi “só mais um judeu a escapar das cinzas.”

É um livro muito duro, com uma estrutura narrativa em dois momentos alternados, bem construído, mas nem sempre de leitura fácil; não só pelas muitas personagens que aparecem, pelo que não poucas vezes tive de voltar atrás para contextualizar, para perceber sobre quem se estava a falar. Mas é também um livro muito visual, muito dos sentidos, com passagens que certamente permanecerão na memória de quem o ler. Pela dureza, mas também pela subtileza, pela poesia e pela beleza. Terríveis a cena do parto, as cenas no manicómio onde Tauba em estado avançado de gravidez foi posta a trabalhar, as dos vagões repletos de seres amontoadas, exaustos e sedentos onde se morre e se mata por umas gotas de água ou a do afogamento voluntário das duas amigas judias agarradas aos seus bebés.  A cegueira de Yankel e o mutismo de Shionka são fonte de cenas maravilhosas de comunicação táctil entre eles, quer num aperto de mão que pode ter tantos significados até ao descobrir dos corpos e do amor. E como são os sons da guerra, dos ocupantes que entram para um cego que os ouve através das vidraças? E quando a velhice chega, a solidão é quebrada com o tic tac constante das centenas de relógios que foi coleccionando ou com o som do oboé ou será do papagaio do vizinho do andar de cima?

Depois de “Perguntem a Sarah Gross” lido há dois anos, este último livro de João Pinto Coelho leva-me a acreditar que o autor nos irá continuar a surpreender com o seu talento e  capacidade narrativa.

Abril 2018
Almerinda Bento

quarta-feira, 11 de abril de 2018

"Encontrei-te Nas Páginas de Um Livro" de Xavier Bosch

O título deste livro chamou por mim! Quem gosta de livros, gosta de ler sobre livros, sobre bibliotecas, sobre personagens que gostam de ler, sobre livros que se referem a livros... A escolha desta leitura foi para saciar um pouco essa curiosidade que me invadiu quando li o título desta obra.

Se gostasse muito de ler romances ligth, tinha adorado à partida a premissa de um amor repentino e intenso como aquele que viveram os protagonistas deste livro. Quatro dias bastaram para que a paixāo tomasse conta dos seus corações. Isso acredito ser possível. Mas, sendo mais "terra a terra", nāo acredito que um amor de quatro dias possa viver para sempre nos corações de quem o vivencia... Perdoem-me os românticos extremos por esta afirmaçāo! É no dia a dia, com a vivência constante, que o Amor pode encontrar a sua verdadeira força, creio. Foi por esta razāo que essa parte da história nāo me convenceu totalmente.

Para além desse pormenor da história, achei a escrita do autor talentosa e convincente pois dei por mim a acreditar na força de um amor "de quatro dias" embora ache que, se pensar com a razāo em vez do coraçāo, tal situação (como já referi) nāo seja verosímel.

Mas, mesmo céptica, fui apanhada tanto pela personalidade marcada do personagem masculino como pela força e beleza do personagem feminino. E pelas cartas de ambos, também. Quem nāo gostaria de viver um amor assim?

Mas a história nāo se fica pelo amor de Jean-Pierre e Paulina. E de todo esse restante enredo gostei muito. O passeio pelas melhores bibliotecas da Europa (que como amante de viagens apontei de imediato), a ideia sublime de deixar recadinhos de amor nesses locais mágicos, a busca de uma história, trinta anos depois, por parte de uma filha que deseja conhecer um pouco melhor a sua māe... Tudo isso me encantou.

Quero dar os parabéns ao escritor. Se me tivessem dado este livro a ler e desconhecesse o sexo do autor, afirmaria sem sombra de dúvida que tinha sido escrito por uma mulher. O livro é de uma sensibilidade e de uma retocada fineza que atribuiria as suas palavras a alguém que, comumente e no geral, achamos possuidores de um sexto sentido: uma mulher.

Por tudo isto digo: amantes de romances e de sonhos este livro é para vocês! Experimentem!

Terminado a 5 de Abril de 2018

Estrelas: 4*

Sinopse
Encontrei-te nas Páginas de Um Livro é um romance sobre a força perdurável do amor. Jean-Pierre Zahardi, galerista na Rive Gauche, é um espírito livre. Paulina Homs, com uma tranquila vida familiar em Barcelona, chega a Paris para o casamento da prima. Como se o destino o tivesse reparado, entre eles nascerá uma atração inesperada que mudará as suas vidas para sempre.

Este livro é a crónica da procura e da reconstrução de uma história de amor, a de Paulina e Jean-Pierre, através das recordações, dos documentos e do testemunho das pessoas que conheceram a paixão clandestina do casal. Será a filha de Paulina, Gina, que descobrirá muitos anos depois da morte da mãe o grande amor que a marcou para sempre.

Aguarda o leitor uma viagem pelas livrarias mais bonitas do mundo, onde estão dispersos os testemunhos misteriosos e comoventes desse amor, e uma viagem no tempo, para descobrir aqueles quatro dias únicos e inesquecíveis. Eternos.

Para mais informações sobre este livro, aceda ao site da Editorial Presença aqui.

Cris

terça-feira, 10 de abril de 2018

segunda-feira, 9 de abril de 2018

"O Terceiro País" de Joan London

Acabar de ler um livro sem saber se a história relatada é verídica ou nāo é um doce embalo para quem é um leitor apaixonado. Pelo menos para mim é.

Pegar nalguns factos verídicos - refugiados judeus húngaros fugidos para a Austrália na altura da II Guerra, surto de poliomielite neste país em 1954 - e imbuí-los nas histórias de vida dos personagens ficcionados, no seu presente e no seu passado, de forma a construir uma narrativa verosímil, é uma tarefa difícil, sobretudo se se quer uma história que agarre o leitor.

Confesso que foram esses factos verídicos descritos na sinopse que me impulsionaram para esta leitura mas os pequenos personagens, Frank e Elsa, apoderaram-se do meu coraçāo. A sua doença e as suas consequências, vagamente conhecida por mim, fez com que a narrativa tomasse contornos reais e um pouco impressionantes.

Gostei de assistir ao seu amor terno, nascido da suas desventuras, às suas tentativas de inclusāo no mundo real e à sua coragem. O salto final na história de Frank e Elsa, que nos permite saber como tudo acabou, agradou-me particularmente.

Adorei ler este livro. Aprendi e fiquei a conhecer um pouco melhor o que deve ter sido esta doença e as suas consequências, sobretudo para as crianças atingidas por este mal, antes da vacina ser uma realidade. Vale mesmo a pena esta leitura! Recomendo.

Terminado em 31 de Março de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Uma história de resistência e de determinação sobre a irresistível e duradoura natureza do amor e a fragilidade da vida. Frank Gold, um refugiado de guerra vindo da Hungria para a Austrália, é apanhado pelo surto de poliomielite que atingiu aquele país em 1954. Como tantas outras crianças é acolhido na casa de recuperação «Golden Age», onde reaprendem a andar. É aí que encontra Sullivan, que lhe revela a poesia, e mais tarde, Elsa. Resiste ao abandono e ao isolamento daquele lugar através da poesia e do laço de paixão que o liga a Elsa. Nesta casa parada no tempo, as crianças estão sujeitas a regras próprias que fazem de «Golden Age» um outro país, um terceiro país, onde todos descobrem que estão sós, numa luta de recuperação muito própria.

Cris

domingo, 8 de abril de 2018

Ao Domingo com... Vanessa Ribeiro Rodrigues

Um dia percebi que poderia aprender a ler os igarapés - esses cursos de água da Amazónia- voar pelas
copas dos ipês amarelos da selva, descodificar o fogo das lareiras, ouvir o palpitar da terra, decifrar ventos, cultivar a serendipidade e aprender com as itinerâncias num autocarro.

Um dia dei conta de que havia mundos mágicos, paralelos, se nos deixássemos levar pelas vielas das palavras, uma vez que a forma como falamos está relacionada com a forma como pensamos. E se nos nutrirmos de ideias pelas histórias, havemos de armazenar pensamentos para mais tarde partilhar. As histórias aproximam-nos de nós e dos outros. Desfazem muros. São partilha. Fazem parte da nossa anatomia para a sobrevivência.

A minha avó Alzira só tinha a quarta classe e inventava fábulas para eu e o meu irmão adormecermos. Para mim, foi a mais douta das mulheres que me ensinou, primeiro, a querer caçar histórias e como eles podem ser uma forma de amor. E, nas estantes dos meus pais, nunca faltaram mundos diversificados e mágicos prontos para que o mergulho fosse necessário. Aqueles volumes eram livros de areia. Ou seja, uma vez lá dentro, tornavamo-nos grãos de uma ampulheta que nos faziam submergir, navegando e explorando, quase como se fôssemos ao centro da terra.

Talvez por isso, e muito por causa disso, caminho pelas estradas das margens para olhar os detalhes: a forma como as borboletas falam, a dança bruxuleante das folhas que levitam no ar, a forma como as raízes se espreguiçam à procura da humidade no solo, a maneira como o mar beija a areia, numa paixão renovada.

Tenho aprendido, ainda, que as tempestades são bálsamos de mudança. E as viagens são sempre tempestades. Epopeias ao mundo dos outros. Itinerâncias aos nossos quotidianos. Jornadas empáticas pela costura das culturas. São a melhor forma para ararmos o terreno interior, fazendo nascer novas linguagens em nós e habilidades para decifrar o mundo. Talvez por isso – e muito devido a isso – desde cedo escrevinhei a lápis de cor nos livros dos meus pais, sem saber o que lá estava escrito. Há clássicos da literatura riscados pela criança que fui, naquele ali e agora. A criança com quem falo ainda. Afinal, a essência de nós permanece, transforma-se na mulher que sou, sem deixar de me vigiar para a espontaneidade da vida.

Talvez por isso – e muito devido a isso – fui escrevinhando o que sentia em vários cadernos, ao longo da vida. Primeiro através da poesia, depois com a prosa lírica. Mais tarde escrevendo com a luz: a fotografia; caminhando, nómada, até ao cinema. No fundo, são coordenadas para trazer das profundezas do mar, do íntimo da nossa essência, a fronteira invisível daquilo que fica por dizer quando tentamos traduzir o que pensamos e sentimos em palavras. Há sempre um território insondável onde as palavras parecem não ser suficientes para tornar verbal a linguagem das emoções.

Talvez por isso – e muito devido a isso – a criação que cruza todas estas linguagens, possa ser uma forma de nos aproximar. E se - confidencio - a minha primeira palavra ao mundo foi “Olá”, creio, que quem começa assim, já nasce com a missão de criar pontes. Talvez por isso – e muito devido a isso – escreva, para aproximar mundos e traduzir a forma como nos costuramos para ficar mais perto. 

Vanessa Ribeiro Rodrigues

sábado, 7 de abril de 2018

Na minha caixa de correio

  

  

  

 

Eta semana boa! Entāo foi assim... Comprados em segunda māo a 1 €:
- A Morte do Decano e Fragmentos de Uma Exposiçāo;

Oferecidos pelas editoras parceiras:
- Ala Feminina, Editora Saída de Emergência;
- Todos os Dias Sāo Meus e Quando Tu Voltaste (livro de avanço personalizado como mostrei aqui no meu insta) da  editora Planeta:
- O Segredo da Minha Māe da Topseller;
- Lendas, Mitos e Ditos de Portugal e Afinal as Feministas até Gostam de Homens da Manuscrito;
- As Abelhas e O Vento da Booksmile
- E da Porto Editora uma ediçāo de avanço personalizada ( como mostrei aqui) A Minha Avó Pede Desculpa (à Cristina)