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segunda-feira, 12 de julho de 2021

"Da Meia Noite às Seis" de Patrícia Reis

A Patrícia Reis escreve bem,  muito bem mesmo,  mas de fácil acesso. Não é preciso avançar muito na leitura de uma obra sua para reparar nisso. Esta não foi excepção.

Tinha ouvido comentários muito bons e sendo esta a leitura escolhida para o grupo de leitura da Leya, facilitou a minha escolha. Tinha ideia que falava sobre esta pandemia com que estamos a lidar e, confesso, que não era tema em que me interessasse muito mergulhar...  Mas a empatia com a personagem principal fez-se rápido. Susana Ribeiro de Andrade, locutora de rádio, que no meio da pandemia se vê a braços com a perda do marido,  vítima de Covid, é uma mulher de armas e, com ela, a autora passa uma mensagem de superação e força. No seu programa noturno, após um luto doloroso que não quer abandonar, ela descobre o sentido que lhe faltava e nos ouvintes as histórias de vida semelhantes a tantas outras e à sua. Escutar, ouvir! 

E com isso, este livro é tudo menos depressivo. Poderia ser sim, mas Patrícia Reis soube,  magistralmente, falar da perda mas também de recomeços. Uma ode às mulheres que em tempo de crise (qualquer que seja) conseguem ultrapassar os obstáculos. Um livro que traduz muito bem os tempos actuais. Mas, este livro não se fica por aqui. Rui Vieira, um colega de Susana, também nos conquista com a sua história e, também ele, fica conquistado com a repercussão que um simples programa de rádio tem na sua vida e na dos ouvintes.

No clube de leitura que referi tivemos a oportunidade de estar online com a autora.  Tão bom! Fizemos aquelas perguntas óbvias sobre o processo de escrita que nunca cansam o leitor. E a Patrícia falou, falou. Quase tão bem como escreve! 😀

Terminado em 16 de Junho de 2021

Estrelas: 5*

Sinopse

Susana Ribeiro de Andrade é uma locutora de rádio a tentar sobreviver à perda súbita do marido, vítima de Covid-19. Rui Vieira, jornalista na mesma estação de rádio, debate-se com as consequências de um acidente que veio expor as fragilidades da sua vida familiar e amorosa. Ambos vão encontrar um novo alento para reconstruir as suas vidas no programa de rádio das madrugadas, e aquelas horas mortas, da meia noite às seis, serão uma alternativa ao oxigénio, não só para eles, como para os seus ouvintes.

Escrita num registo de intimidade que nos envolve, esta narrativa segue a vida, presente e passada, de personagens que se cruzam e cujas opções de vida reflectem o que é prioritário em tempos de pandemia.  

Da Meia-Noite às Seis é o regresso de Patrícia Reis ao espaço literário que define a singularidade, a subtileza e a sabedoria da sua voz: o território da complexidade das relações humanas e da busca de identidade. 

Cris

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A Escolha do Jorge: Gramática do Medo

"Gramática do Medo" é o projeto conjunto das escritoras Maria Manuel Viana e Patrícia Reis publicado recentemente pela Dom Quixote. A obra apresenta-se num registo (quase) policial atingindo a apoteose com a tomada de consciência por parte do leitor em relação à estrutura da narrativa.
"Gramática do Medo" revela-se uma obra que se traduz num duplo significado de viagem: a viagem no sentido geográfico cujo objeto se confunde com a questão ontológica fulcral apresentada, e a viagem pelos meandros da literatura brindando o leitor com horizontes intelectualmente estimulantes.
Viagem… Vida… Conhecimento… Conceitos que se cruzam e entrecruzam acabando por se confundirem em determinados pontos. Conceitos que se aplicam às personagens principais de "Gramática do Medo", Sara e Mariana, cujas vidas se cruzaram quando ainda muito jovens, acabando por se tornarem dependentes uma da outra, complementando-se uma à outra, confundindo-se uma com a outra, tornando-se, segundo Mariana, "o avesso uma da outra" (p. 90). Uma amizade que se confunde com um estádio de amor que só quem partilha amizades intensas e unas compreende porque sente essa ligação que lhes é própria e que se identifica com o próprio ser. O "eu" que se reflete no "outro" superando-se e confundindo-se num "nós" é o jogo fenomenológico da viagem do (re)conhecimento da identidade que acompanha toda a obra.
Mas esta viagem só se concretiza a partir do momento em que Mariana, de forma (in)esperada, desaparece sem deixar rasto deixando as preocupações e questões habituais nestes casos. Porquê? Para onde terá ido? E novamente, porquê? Se por um lado Mariana embarcou numa viagem, pelo que se sabe, rumo ao Mediterrâneo, por outro lado, Sara, a par da procura de Mariana, vai iniciar uma viagem interior numa busca de identidade ou de (re)encontro consigo própria. "(…) O reencontro com Mariana, o resgate de Mariana, a salvação de ambas." (p. 154)
Deste modo, o misterioso desaparecimento (ou fuga inusitada) de Mariana conferiu a Sara a possibilidade de realizar uma viagem em que a geografia se vai confundir com a questão ontológica numa viagem que constitui uma espécie de peregrinação individual na busca de si própria em que o momento mais intimista se mistura (ou confunde) com o religioso numa perspectiva de (re)descoberta da essência de si mesma.
Esta complexa viagem do desejo de reencontrar Mariana que se mistura com a busca da identidade de Sara coloca inúmeras questões sobre o conhecimento que temos acerca do outro. E a questão "o que conhecemos do outro?" que aparentemente se apresenta simples em si mesma, acaba por revelar-se com contornos bastante complexos. Partindo da premissa que Mariana e Sara eram "o avesso uma da outra", Sara é confrontada com a clarividência de tantos aspectos e acontecimentos da vida da amiga (ou a outra face do "eu") apresentando um lado ou uma face totalmente desconhecida, revelando-se, em certa medida, uma pessoa diferente, tendo em consideração as revelações no decurso da procura de Mariana.
Impõe-se novamente a mesma questão: o que conhecemos afinal acerca do outro? Ou simplesmente, conhecemos verdadeiramente o outro? Ao longo da narrativa o leitor vai tomando consciência de que o conhecimento que construímos do outro baseia-se muito para além daquilo que o outro conta, tendo também de considerar aquilo que o outro não conta através de actos, gestos e até silêncios, e ainda aquilo que aprendemos através de outras pessoas que conhecem diferentes perspectivas, facetas e dimensões desse mesmo outro.
De revelação em revelação, de pista em pista na demanda de Mariana, Sara é conduzida ao Mosteiro de Ostrog, no Montenegro, o mais importante local de culto daquele pequeno país dos Balcãs. O Mosteiro de Ostrog poderá em certa medida desempenhar um papel semelhante ao "conhece-te a ti mesmo", inscrição do Oráculo de Delfos, na Grécia Antiga, quando pensamos nesta viagem como uma viagem interior, ontológica, (quase) de natureza religiosa. A viagem de Sara permite o encontro consigo própria, ganhando uma dimensão ou consciência de si mesma para voltar novamente a perder-se, embarcando assim num novo périplo, desta vez, rumo à sua vida.
Excertos:
"Muito mais tarde, anos depois, quando já eram, nas palavras de Mariana, o avesso uma da outra, acabariam sempre a concordar que esse fora o momento inicial, o começo de um amor que as ligaria para o resto das suas vidas. E, no entanto, Mariana quebrara o acordo, partira, esfumara-se, traíra Sara pela primeira vez. Ou não? E não o quê? Não traíra ou não fora a primeira vez?" (p. 90)

"Podia ter sido uma amizade passageira, um caso, um deslumbramento. Também acontece. Aquelas pessoas que se cruzam connosco, com quem temos uma cumplicidade imediata, trocamos segredos, rimos a desoras, ficamos perante a carne e as lágrimas com uma honestidade quase bizarra, parece que somos o tudo e o nada, um pacto de sangue sem o corte no dedo, não é preciso o simbolismo, basta a possibilidade de aguentar o silêncio em conjunto e, depois, sem se saber como, a mesma pessoa que foi nossa intensamente, que nos pertenceu e tirou tanto e deu outro tanto, essa pessoa desaparece, já não importa, o telefone deixa de tocar um dia, depois o outro, e depois para sempre. O lado platónico não aguenta a distância e o que era crucial, tão imediato, cheio de empatia, deixa de o ser." (p. 127)

"Durante vinte anos estivemos uma na outra com a tal vida dupla. Nem eu sei tudo de ti, nem tu suspeitas de metade da minha existência. Era um acordo silencioso, de não agressão, mesmo que, por vezes, escapasse um sentimento de posse. Uma noite, há quantos anos?, dei comigo a ver-te dançar com a Bela e senti que era uma traição, não podias ter todo aquele riso para outra pessoa. Houve momentos destes. Nunca falámos sobre isso, Sara, não serviria de nada. Trocámos roupa vezes sem conta. Atirei-te nomes de homens para escolheres. Levei-te às galas televisivas e outras festas. Tu já não eras uma desconhecida, eras a voz dos poemas que um programa de rádio popularizou. Eras uma estrela sozinha e eu, sempre orgulhosa de ti, a tentar que fosses feliz." (p. 129)

Texto da autoria de Jorge Navarro

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"Contracorpo" de Patrícia Reis


Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 216
Editor: Dom Quixote
ISBN: 9789722051651





Gosto de escrita da autora! intimista, clara e simples mas profunda. Consegue que os personagens principais, neste caso uma mãe e um filho adolescente, tenham um discurso próprio e se pareçam com alguém que conhecemos e amamos.

Gostei de ler este livro. Senti-me em casa. Desejei tê-lo escrito e algures, desejei pensar como Maria, a protagonista, quase sempre a narradora. O esforço que faz em querer (re)conhecer o filho leva-a a partir para uma viagem sem destino. A paisagem passa, como passam os dias, repentinamente e em silêncio. Tal como a capa deste livro. Perfeita!

Comunicando vão, aos poucos, mãe e filho. Devagar. Por tentativas. E gostam do silêncio e das palavras que proferem. O amanhã será diferente. Uma família que perdeu o pai mas que reencontrou, nas palavras, o amor.

Pedro, expõe-nos as suas dúvidas e as suas certezas quase nenhumas. Maria sai de si e entra no mundo do filho.

Um livro que se lê rapidamente mas que  é para se refletir lentamente. Recomendo porque gostei!

Terminado em 16 de Junho de 2013

Estrelas: 5*

Sinopse

Uma mulher fica viúva com dois filhos. Alguns anos depois da morte do marido, a vida não se refez e o filho mais velho, agora adolescente, cresce contra a mãe, num silêncio obstinado que só quebra nas histórias que se conta para adormecer e nos desenhos que faz de forma compulsiva. Com o anúncio do chumbo escolar, a mãe decide, sem grandes reflexões, fazer uma viagem com este filho, deixando o pequeno com os avós. Não se trata de uma viagem com destino, mas antes uma procura.
Contracorpo é um livro contra o silêncio e sobre o silêncio. É uma história de procura de identidades distintas - da mulher e do quase homem - e ainda de descobertas. Uma mãe nunca é o que se espera. Um filho é sempre uma surpresa. O encontro dá-se enquanto procuram caminhos, de Lisboa a Roma, num jogo de claro escuro. Como se tudo fosse uma imagem.