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quinta-feira, 21 de novembro de 2024

"Niketche, Uma História de Poligamia" de Paulina Chiziane

Já não tenho recordações muito específicas da história deste livro mas a ideia geral está ainda cá. É o que dá não fazer as opiniões a quente, como gosto…

“Mães, mulheres, invisíveis mas presentes.(…) Mulheres de ontem, de hoje e de amanhã, sem esperança de mudanças.” pág 97. Considerei esta frase o cerne da história deste livro que nos conta a vida de Rami, moçambicana do sul do país, seu marido Tony e suas outras mulheres. Nada do que eu possa dizer aqui constitui spoiler visto que o título é bastante elucidativo.

Foi um mergulhar noutro país, noutra cultura, com tudo o que isso pode trazer de estranheza mas também de conhecimento e reflexão posterior. Rami é uma mulher forte. Ela não sabe disso mas vai descobrindo toda essa força quando se dá conta de quanto vivia à margem da vida do seu amor, Tony. As outras mulheres que ele possui vão aparecendo na vida de Rami aos poucos e o choque é brutal. Mas… ainda bem que nas histórias de ficção (e nas reais também!) há sempre um mas, uma reviravolta que por vezes é dolorosa, em que se descobrem forças onde pensamos não existir!

Narrativa efetuada na primeira pessoa, bastante fluida, embora tivesse sentido que em alguns momentos se foi arrastando. A personagem central cresce psicologicamente no decorrer desta trama, começando por reconquistar o marido que a trai e evoluindo posteriormente nesse seu querer, equacionando a melhor forma de tratar “esse assunto”. Confesso que partes houve que o meu estômago se revolveu bastante! Mas gosto disso porque considero que retrata com bastante veracidade muitas das realidades vividas não só em África.

Muitas questões são colocadas por Paulina Chiziane nesta obra. Machismo, traição, maternidade vs paternidade, relações de género, de poder, emancipação feminina, colonização, são alguns dos temas que podem gerar um debate muito interessante em torno deste livro.

Gostei e recomendo.


Terminado em 03/09/2024

Estrelas: 4*

Sinopse
Rami, casada há vinte anos com Tony, um alto funcionário da polícia, de quem tem vários filhos, descobre que o partilha com várias mulheres, com as quais ele constituiu outras famílias. O seu casamento, de «papel passado» e aliança no dedo, resume-se afinal a um irónico drama de que ela é apenas uma das personagens. Numa procura febril, Rami obriga-se a conhecer «as outras». O seu marido é um polígamo! Na via dolorosa que então começa, séculos de tradição e de costumes, a crueldade da vida e as diferenças abissais de cultura entre o norte e o sul da terra que é sua, esmagam-na. E só a sabedoria infinita que o sofrimento provoca lhe vai apontando o rumo num labirinto de emoções, de revelações, de contradições e perigosas ambiguidades. Poligamia e monogamia, que significado assumem? Cultura, institucionalização, hipocrisia, comodismo, convenção ou a condição natural de se ser humano, no quadro da inteligência e dos afectos? Paulina Chiziane estende-nos o fio de Ariadne e guia-nos com o desassombro, a perícia e a verdade de quem conhece o direito e o avesso da aventura de viver a vida. Niketche, dança de amor e erotismo, é um espelho em que nos vemos e revemos, mas no qual, seguramente, só alguns de nós admitirão reflectir-se.

"Dizem que sou romancista e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance (Balada de Amor ao Vento, 1990), mas eu afirmo: sou contadora de estórias e não romancista. Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte. Nasci em 1955 em Manjacaze. Frequentei estudos superiores que não concluí. Actualmente vivo e trabalho na Zambézia, onde encontrei inspiração para escrever este livro." Paulina Chiziane

Cris

terça-feira, 1 de abril de 2014

A Convidada Escolhe: "O Alegre Canto da Perdiz"

O Alegre Canto da Perdiz, Paulina Chiziane, 2008

Vinda do Gilé, um dos distritos da Zambézia, província do centro de Moçambique, os meus dedos agarraram por acaso, na estante da casa em Maputo da minha amiga Zita, este livro de Paulina Chiziane. Autora que já conhecia de outros livros, ao começar a leitura de “O Alegre Canto da Perdiz” senti que afinal ainda estava na Zambézia, entre aquelas mulheres sofridas e lutadoras com quem tive a oportunidade de conviver nas terras distantes e esquecidas do Gilé.

É um livro marcante, com trechos que é preciso ler devagar, saborear, anotar, voltar atrás. Poesia pura. Complexo, aborda temas muito vastos: a colonização, o racismo, a assimilação, a traição, a ambição de ter uma vida melhor mesmo que isso seja a destruição dos outros e/ou a autodestruição, a guerra de libertação, os conflitos entre raças e entre sexos. As contradições da vida, o remorso, o arrependimento, o reencontro e a reconciliação.
É a exaltação da Natureza, a exaltação da Zambézia e dos Montes Namuli origem da humanidade, a terra dos palmares e do canto da perdiz logo pela manhã (gurué,gurué). A exaltação da(s) Mulher(es), da sua diversidade,dos corpos, da sexualidade, das suas lutas, das violências que sofrem e que infligem, da sobrevivência.

As histórias daquelas mulheres – Serafina, Delfina, Maria das Dores e Maria Jacinta – são pretexto para falar do estatuto das mulheres na sociedade, do seu papel e da permanência das violências qualquer que seja o regime em que tenham vivido. E para os homens também – José dos Montes, Simba, Moyo – o sonho da liberdade é uma miragem, porque a independência não é o fim do colonialismo. “Nessa independência que sonhamos o mundo não será o mesmo. Libertaremos a terra, sim, mas jamais seremos senhores… O colonialismo habitará a nossa mente e o nosso ventre e a liberdade será apenas um sonho.”

No entanto, e mesmo ao chegarmos ao fim deste romance que é também uma pincelada da história do povo moçambicano ao longo dos séculos, a autora quis-nos deixar um sinal de esperança no futuro, quando José dos Montes – o sipaio assimilado que matou sem remorso – diz à sua mulher Delfina – que por ambição se prostituiu e prostituiu a filha-criança: “No final desta guerra seremos um. Esses filhos metade pretos, metade brancos, metade asiáticos, serão os fósseis a partir dos quais se compreenderá a nossa História. Nas próximas gerações as raças se amarão, sem ódio nem raivas, inspiradas no nosso exemplo. A humanidade aventureira conquistará outras estações celestes com gente azul e verde. Terá chegado o momento de inventar novas raças e recriar novas humanidades. Os pretos, os brancos e seus mulatos deverão expurgar ódios, raivas e ressentimentos que ainda restem.”

Almerinda Bento