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quarta-feira, 21 de julho de 2021

"Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio" de Julieta Monginho

Li, quando foi editado, o livro de Julieta Monginho "Um Muro no Meio do Caminho" (podem ver a minha opinião aqui) e gostei muito. Histórias ficcionadas de gente igual a nós que nasceu em terra errada a que dão pelo nome de refugiados. Gente que sofreu guerras na pele, que perdeu familiares em mortes sem sentido. Julieta esteve num campo de refugiados e  sentiu o que lá se passava. Muito dificilmente esse livro sairá do trono onde o coloquei.

Era evidente que teria de ler este também. A temática não é a mesma mas a escrita da autora está lá. Por vezes não me foi fácil de ler, precisei de atenção e andando dispersa nos meus pensamentos... obriguei-me a voltar algumas vezes e a reler algumas passagens.

Leo é uma criança que pretende iniciar uma fuga. O pai, a mãe e o namorado da mãe. Um trio que não cria a estabilidade necessaria para que Leo se sinta feliz. Como pano de fundo o museu que Leo visita amiúde, Riijksmuseum. Uma história em que os traumas, a solidão, a rejeição estão bem presentes no presente desta criança e também no passado dos adultos que a rodeiam.

Gostei mas não achei de fácil leitura.

Terminado em 22 de Junho de 2021

Estrelas: 4*

Sinopse

Um dia - na realidade, num somatório de dias -, uma criança decide empreender uma viagem. A ideia é fugir de uma vez por todas: já não lhe bastam as visitas periódicas ao Rijksmuseum de Amsterdão para brincar com o cão Puck, em exibição na sala 1.15, ou as escapadelas ao moinho do outro lado da casa amarela. A braços com uma família disfuncional assente num triângulo desamorável formado por foragidos - do amor, do talento, dos traumas de uma infância reprimida e passada no Portugal rural -, a fuga de Leo é quase um imperativo moral, uma imposição hereditária. Do outro lado da fuga, o dilúvio, o mais universal dos mitos, oferece às personagens, vítimas da lógica e dos paradoxos das suas vidas, e a nós, leitores, essa possibilidade de, purificando a humanidade, abrir caminho ao renascimento e à renovação.

Cris

segunda-feira, 19 de março de 2018

"Um Muro no Meio do Caminho" de Julieta Monginho

Quando soube que este livro tinha sido escrito na sequência de uma acçāo de voluntariado da autora num campo de refugiados sírios numa ilha grega, Chios, fiquei deveras interessada em lê-lo. Mesmo sabendo que os personagens sāo fictícios, sentimos tanta verdade neles que tomamos como verdadeiras as suas acçōes e comportamentos, as suas vidas passadas e as suas dores. Porque se eles sāo inventados, as suas histórias, porém, refletem as milhares de vidas que procuram na Europa um (re)começo, um novo sentido para as suas vidas destroçadas pela guerra sem sentido que se vive na Síria.

Isto foi o que senti em relaçāo às vidas reais que estāo por detrás destas histórias inventadas por Julieta Monginho.  E em relaçāo à história central posso-vos dizer que ficamos presos ao seu relato. Pela escrita escorreita e directa da autora, pelo ambiente bem descrito, espelhado e vivido por quem se encontra dependente da caridade alheia, num sítio que os prende sem estarem presos, por trazer para bem perto o que só assistimos pela TV. 

Um livro que devem ler se o tema vos interessar. Para refletir e porque nāo agir?

Terminado em 14 de Março de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Trazem o que lhes restou: um caderno, um brinco, fotografias, a t-shirt do filho que morreu, um bebé a crescer na barriga, o barulho do seu quarto a ruir. Atravessado o mar, ergue-se o obstáculo inesperado: o muro construído pela hostilidade, esquecida dos que sucumbiram sem refúgio em território europeu, há menos de um século. À porta do muro alastram os campos de refugiados - chão de pedras, ratos, tendas fustigadas pelo sol, pela neve, pelas quezílias.
      De todo o mundo acorrem os que ajudam. Levam as mãos para amparar, mimar, oferecer e cozinhar, os olhos para ver e entender.
      As histórias são mais que mil e uma. A de Amina e Omid, os fugitivos, a de Dimitris, o grego cercado pelos seus próprios muros, as de Ann e Saud, Juan e Eleni. Vidas suspensas, à beira do muro, à porta da Europa.

Cris

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A Escolha do Jorge: Os Filhos de K

O texto desta semana recai sobre o mais recente romance de Julieta Monginho (Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB 2008) "Os Filhos de K." publicado pela Teodolito.
Trata-se de um livro com uma estrutura original, contada a três vozes (Carminho, Francisco e Carlito) reservando espaço ao leitor que tecerá os fios desenrolados pelos outros narradores com o objetivo de um (re)encontro final.
Partindo do acidente de Camarate no dia 5 de dezembro de 1980 que parou por completo o país numa época em que gozava os prazeres da liberdade, fruto da ainda jovem democracia, Carminho, Jacinto, Rui e Francisco, estudantes de Direito, apropriam-se dos acontecimentos com os olhos da juventude de uma época que ambicionava o futuro a seus pés e que ao concluírem as licenciaturas nada haveria que os fizesse parar a justiça. O futuro risonho do país dependia em certa medida do desempenho feliz dos jovens desta geração, detentora de plenos direitos, da liberdade, e conhecedora das leis vigentes.
Quão nobres são os sonhos dos jovens que almejam um futuro auspicioso para si e para o seu país! Sonhos e ideais são o que move o mundo e estes jovens acreditavam na sua capacidade de transformar tudo à sua volta! Eram a esperança renovada da geração anterior amarrada pelos bafos de uma longa ditadura que, durante mais de meio século, pintalgou todo um país de cinzento.
A par deste sentido de justiça e de idealizar (de alguma forma) todo um tecido social, Carminho, uma das personagens centrais do romance, recebe como presente "O Processo", o clássico de Franz Kafka, oferecido pelo seu amigo e colega Francisco, mais tarde rebatizado por Franz. Quem é que saiu ileso com a leitura de "O Processo"? Trata-se de um livro tortuoso, tão ao estilo de Kafka que nos mói e espezinha pelo seu caráter, neste caso em concreto, perverso, tão perverso como o início desse (outro) livro em que Josef K. é preso no dia do seu trigésimo aniversário sem que saiba (nem o próprio) exatamente qual o motivo da acusação. Não deixa de ser curioso que ao longo da obra, Josef K. vai também, aos poucos, inculcando essa mesma culpa que o conduzirá a um processo sem retorno como se tratasse de uma necessidade imensa de expiar essa mesma culpa que, apesar de tudo, desconhece qual é. A dada momento diz Carminho "Quando me deu o livro, Francisco não desejava divertir-me. Queria ensinar-me a vida como viria a ser depois da ingenuidade. ‘O Processo’ era uma espécie de baptismo, um aviso à minha navegação solitária. E um presente para o resto dos meus aniversários." (p. 21) "Hoje, depois de ler tantos livros de Kafka e tanta coisa sobre ele, de reler ‘O Processo’, depois de levar uma vida inteira a invejar Milena Jesenská, assalta-me às vezes um calafrio: e se no dia em que me pediu para ler ‘O Processo’ o Francisco quisesse simplesmente lançar-me um feitiço? Os juízes e os seus retratos num sótão pesadélico? Foi essa a prova que me fez passar? Prova que ele, aliás, já tinha passado, renunciando a todo o poder menos àquele que o livraria do perigo: o pacto com a lei. Ignorar o guarda e aceitar o que está além da porta. A única maneira de escapar à inexorabilidade é submeter-se ao seu encanto. (…) Nenhum processo nasce para a felicidade, isso é garantido. O mais que pode é congelar numa preguiça semelhante à paz." (p. 30)
Estaria Francisco (ou simplesmente Franz) ciente das voltas que a busca incessante pela verdade através do funcionamento do sistema de justiça que se apresenta como um labirinto e por essa razão, através do presente (algo envenenado) de ‘O Processo’ a Carminho constituísse em si mesmo um alerta face ao fracasso iminente?
É precisamente esta ideia de fracasso iminente da justiça que conduz Franz a abandonar o barco em termos profissionais partindo à procura de si mesmo e do sentido de justiça pelo mundo fora.
Por outro lado, é a própria experiência profissional de Carminho que ao fim de vários anos a faz regressar ao perturbador ‘O Processo’. "E pronto, aconteceu, saltei para dentro d’"O Processo", onde Franz me esperava. Bem-vinda, disse-me, talvez com ironia. Continuou a cativar-me pela vida fora, arranjando sempre forma de me escapar. Tal como Francisco, que me escrevia de sítios inimagináveis, para logo a seguir desaparecer do mapa. A busca de Franz tornou-se o enredo da minha vida." (p. 33)
Assim, a busca incessante de Franz equipara-se em certa medida à busca do sentido da justiça, apresentando-se, em ambos os casos, como um verdadeiro labirinto onde "a verdade não se pode ocultar nem exibir." (p. 108)
Esta dialética "O Processo" / procura de Franz conduz Carminho à tomada de consciência de que seria ela própria Josef K., em que "o destinatário da ameaça, no livro, confundia-se" com a própria Carminho. (p. 109)
E até que ponto esta procura de Franz, vulgo identificação com Josef K., não torna também cada leitor num Josef K.? Não seremos todos também Josef K.,de uma forma ou de outra?
De que forma é que os sucessivos périplos de Carminho por vários pontos do globo à procura de Franz não tem que ver com a busca e a compreensão de si própria num mundo que se apresenta em si mesmo como um labirinto?
Conseguirá Carminho (re)encontrar Franz em locais tão distantes e tão diferentes como Trogir, Berlim, Nápoles ou até Luanda? Conseguirá Carminho encontrar Franz através do olhar daqueles que conheceram Franz? Terão essas pessoas os olhos de Franz? Serão esses a descendência de Franz e daí Carminho encontrar Franz em cada vida à sua volta?
São inúmeras as questões que podem ser levantadas em "Os Filhos de K.", tantas quantas quisermos e em que direções pretendemos, mas são essencialmente as questões de teor ético e ontológico as que mais me impressionaram na obra. A dialética entre a consciência do eu e o sentido de dever através do cumprimento da justiça que tantas vezes se apresenta num misto de "é-não é" ocupa uma parte significativa da obra. "Acendemos candeias, premimos furiosos botões, calcorreamos séculos, engolimos em seco, damos o peito aos impropérios e, no final, não há outro remédio senão satisfazermo-nos com uma centelha aqui, outra acolá. (…) A distância entre o que fomos ao longo dessa caminhada (…) e o que pudemos vislumbrar no final é imensa e raquítica." (p. 108)
Num ritmo próprio e deveras peculiar, "Os Filhos de K." é um livro que para além das questões que levanta, permite-nos, em certa medida, viajar no tempo, regressando assim ao início dos anos 80 em que a liberdade ainda era entendida como uma conquista que então se saboreava a cada momento e movimento, numa Lisboa que hoje já pouco se encontra ou reconhece e cujos sonhos quase rebentavam como os balões das crianças como que a pretenderem dizer "Acordem!".

Texto da autoria de Jorge Navarro