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quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Para Os Mais Pequeninos: "Perla, A Cadelinha Poderosa" de Isabel Allende e Sandy Rodrigues


Ter uma cadelinha com poderes especiais não seria fantástico? Aposto que para os mais pequeninos é um desejo frequente! E esta história de Isabel Allende sobre uma cadelinha vem-nos mostrar como isso é possível. 

O primeiro poder é ser simpático e amável para com os outros. Foi usando este poder que Perla cativou Nico e fez com que ele a escolhesse e levasse para casa!

O segundo - rugir como um leão - conquistou os pais que queriam um cão de guarda e não uma mini cadelinha... Mas mais importante que esta impressão resultante de um primeiro contacto, foi o impacto que Perla teve na vida de Nico e que se veio comprovar mais tarde! Têm de espreitar e ler com os vossos pequeninos esta história tão bonita, feita de pequenos pormenores da vida desta família.

Uma história que nos fala da importância de sabermos ultrapassar obstáculos que nos surgem, de como com um pouquinho de coragem e algumas ferramentas conseguimos vencer quem nos quer fazer mal ("Todos os rufias são cobardes!").

Palavras escritas com mestria e ilustrações maravilhosas que nos conquistam, a nós adultos. Creio que as crianças vão adorar!




Cris

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

"O Vento Conhece O Meu Nome" de Isabel Allende

Sei que lerei qualquer livro de Isabel Allende. São livros muito reais, pese embora alguns possam não ser baseados em histórias verídicas. Sinto que representam a história de alguém tanto mais que, os que li e se bem me lembro, são baseados em acontecimentos históricos. Normalmente guerras. Absurdas, como o são todas!

Aqui são-nos contadas algumas histórias em espaços temporais diferentes. A forma como elas se vão interligar prende-nos à leitura e tudo encaixa e faz sentido no final.

Em 1938 começamos a seguir a história de Samuel, cujo pai, médico, desaparece na tão triste e conhecida Noite de Cristal, em Viena de Áustria. Como muitas outras crianças, Samuel é enviado para fora do país na esperança que se consiga, ao menos ele, salvar. No seu caminho solitário pela vida fora terá um companheiro sempre presente, o seu violino.

1981/2000. Leticia possui passaporte e cidadania dos Estados Unidos mas era natural de El Salvador. Ela e seu pai foram dos poucos sobreviventes ao massacre de El Mozote, porque não se encontravam lá aquando desse acontecimento. Vejam na Wikipédia informações sobre este terrível massacre.

Selena, mais uma personagem fantástica desta trama, trabalha para um projecto que ajuda refugiados e imigrantes devido à crise humanitária e existente na fronteira com o México. Crianças são separadas dos seus pais e o projecto tem como finalidade reuni-las. Anita é uma dessas crianças, que se viu separada da mãe ao tentar fugir de El Salvador e entrar nos EUA. As suas histórias retratam um pouco da razão pela qual as pessoas tentam emigrar a todo o custo, mesmo quando põem em risco as suas vidas.

A forma genial como a autora interliga estas histórias, prende totalmente o leitor levando-o rapidamente a uma leitura sôfrega! Gostei muito.

Terminado em 10 de Agosto de 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

Viena, 1938. Samuel Adler tem apenas 5 anos quando o pai desaparece, na infame Noite de Cristal – a noite em que a sua família perde tudo. Procurando garantir a segurança do filho, a mãe consegue-lhe lugar num comboio que transporta crianças judias para fora do país, agora ocupado pelo regime nazi. Samuel embarca sozinho, deixando a família para trás, tendo o seu violino como única companhia.

Arizona, 2019. Anita Díaz e a mãe tentam entrar nos EUA, fugindo à violência que reina no seu país, El Salvador. No entanto, são separadas na fronteira, ao abrigo de uma nova lei que regulamenta a imigração, forçando à separação das famílias. A mãe desaparece sem deixar rasto, e Anita é colocada em sombrias instituições de acolhimento. O caso desperta a atenção de Selena Durán, uma californiana de ascendência latina, e de Frank Angileri, um promissor advogado, que tudo farão para reunir de novo mãe e filha. Juntos, vão conhecer de perto a violência que muitas mulheres sofrem em silêncio, sem que dela consigam escapar.

Entrelaçando passado e presente, O vento conhece o meu nome conta-nos a história destas duas personagens inesquecíveis, ambas em busca da família e de um lar. É uma sentida homenagem aos sacrifícios que fazemos em nome dos filhos e uma carta de amor às crianças que sobrevivem a perigos inimagináveis – sem nunca deixarem de sonhar. 

Cris

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

"Violeta" de Isabel Allende

Gosto muito dos mundos que Isabel Allende constrói. Embrenhamo-nos neles muito facilmente e, mesmo sendo uma mescla de ficção com não ficção, conseguimos visualizar os acontecimentos da trama como se fossem reais, verídicos. 

Como pano de fundo desta história, a História de um século. Desde a gripe espanhola, terminando na pandemia que hoje vivemos. Num país da América Latina, que não esclarece qual, acompanhamos o nascimento de Violeta até à sua morte, cem anos depois. 

É em jeito de memórias que Violeta descreve a sua longa vida e fá-lo directamente a Camilo, alguém que tem o seu amor mais profundo mas que o leitor não sabe quem é. A seu tempo saberá que ligação os une. A primeira página é-lhe dirigida. Uma pequena nota sobre o que vamos (nós, leitores e Camilo) encontrar nas páginas seguintes: um testemunho do que foi a sua vida. Para os leitores mais distraídos fica a nota: tomem atenção à data junto à assinatura de Violeta, Setembro de 2020. Tendo nascido em 1920, facto que narra logo na primeira frase, Violeta tem quase 100 anos e  conta a sua vida. Nada esconde. Os seus erros, as suas conquistas, os seus amores e desamores.

Pelo meio, assuntos como as consequências dos regimes ditatoriais, a emancipação cada vez maior da mulher, os maus tratos físicos e abusos de que muitas estão sujeitas, dão força e conferem veracidade à história. Mesmo sabendo que Violeta não existiu ela representa mil e uma mulheres que tiveram de lutar pelos seus ideais, pela sua família, pelos seus direitos. 

A saga de uma família que teve ao leme do navio uma mulher forte, decidida, muito à frente daquilo que se esperava de uma mulher na época mas que possuía, por outro lado, as suas fragilidades e dependências que a deixaram, muitas vezes, em situações complicadas e em mau estado. Uma mulher real.

Gostei muito!

Terminado em 7 de Fevereiro de 2022

Estrelas: 5*

Sinopse

Violeta del Valle é a primeira rapariga numa família de cinco irmãos truculentos. Nasce num dia de tempestade, em 1920, quando ainda se sentem os efeitos devastadores da Grande Guerra e a gripe espanhola chega ao seu país natal, na América do Sul. Graças à ação determinada do pai, a família sairá incólume desta crise, apenas para ter de enfrentar uma outra: a Grande Depressão. A elegante vida urbana que Violeta conhecia até então muda drasticamente. Os Del Valle são forçados a viver numa região selvagem e remota, onde Violeta atinge a maioridade e viverá o primeiro amor. Décadas depois, numa longa carta dirigida ao seu companheiro espiritual, o mais profundo amor da sua longa existência, Violeta relembra desgostos amorosos e apaixonadas relações, momentos de pobreza e de prosperidade, perdas terríveis e alegrias imensas. A sua vida será moldada por alguns dos momentos mais importantes da História: a luta pelos direitos da mulher, a ascensão e queda de tiranos, os ecos longínquos da Segunda Guerra Mundial. Contado a partir do olhar de uma mulher determinada, de paixões intensas, com uma vida plena de sobressaltos, Violeta é um romance épico, inspirador e emotivo, ao melhor estilo de Isabel Allende.

Cris

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

"Mulheres da Minha Alma" de Isabel Allende

Comecei 2020 a ler "Longa Pétala de Mar" (opinião aqui) e, sem querer, uma das minhas últimas leituras deste ano é o "Mulheres da Minha Alma". Gosto muito desta autora. Nos seus (nossos!) romances, a ficção casa na perfeição com acontecimentos verídicos, vivenciados por si, numa vida que nada teve de monótona.

Este livro é um não ficção, fala-nos de Mulheres. Num tom intimista, Isabel Allende, tal como nos habituou noutras obras, abre a porta do seu coração, da sua vida e da da sua alma para nos falar de como desde pequena sempre se sentiu diferente, avançada nas suas ideias feministas mais do que seria próprio para uma menina nessa altura e no país onde viveu cerca de trinta anos, o Chile.

Suponho que não seja fácil deixar entrar desconhecidos no nosso mundo. Mas na escrita de Isabel Allende não falta honestidade. E creio que é isso que cativa o leitor. Este livro não é um romance e, no entanto, lê-se tão bem. A autora fala da sua vida, de como esteve sempre ligada a ideias feministas, das protagonistas dos seus livros, deambulando sobre temas variadíssimos, desde o amor, a paixão e a violência, sempre no prisma da igualdade das mulheres e nos seus direitos.

E são tantas as mulheres mencionadas aqui, que se cruzaram na vida da autora, que desconhecemos por completo e que fazem tanto por este mundo fora! Olga Murray é uma delas. Fiquei impressionada pela vitalidade desta jovem senhora de mais de 90 anos e do que ela consegue fazer em prol dos outros! Pesquisem sobre ela na net.

Um livro a ler, sem dúvida alguma. Carregado de significado, de partilhas onde a principal protagonista é a Mulher. Fabuloso!

Terminado a 30 de Novembro de 2020

Estrelas: 6*

Sinopse

A discussão em torno da igualdade de género tem vindo a ganhar importância nos dias de hoje. Para Isabel Allende, essa é uma luta que a acompanha desde a infância, quando não compreendia porque certos comportamentos lhe estavam interditos por ser mulher, e na qual continua a estar profundamente comprometida, defendendo que o patriarcado seja permanentemente erradicado, em favor de uma sociedade mais justa, igualitária e inclusiva.

Mulheres da Minha Alma é um importante testemunho da autora em torno da causa do feminismo, a partir de exemplos da sua vida pessoal e da reflexão sobre os acontecimentos que vão tendo lugar no mundo. Com o seu exemplo, e através da partilha da sua experiência de vida, com a escrita bem-humorada e preciosa tão do agrado dos leitores portugueses, Isabel Allende traz uma obra obrigatória para todos aqueles que sonham com um mundo melhor.

Cris

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"Longa Pétala de Mar" de Isabel Allende

Ler um livro assim enche a alma. É o que chamo um livro completo. Uma mescla de romance e de factos históricos combinam-se com mestria fazendo com que o leitor se distraia e aprenda em simultâneo.

Mesmo não sendo o primeiro livro que leio sobre a Guerra Civil Espanhola,  é sempre com prazer que aprendo factos novos para mim, embora não sejam de todo situações agradáveis.

Com a história de vida de dois jovens, atravessamos a História de três países (Espanha, Chile e Venezuela) no período decorrido entre 1936 a 1994. Começamos com a tragédia que foi a Guerra Civil Espanhola, com a luta entre irmãos, as mortes, a fuga, o exílio, a repressão, as torturas. O percurso destas duas personagens fictícias, Roser e Victor, no meio uma guerra sem sentido, onde as ideologias opostas se confontam até à quase exterminação de uma das partes, são vividos pelo leitor com muito realismo e autenticidade.

Porque,  apesar destas personagens serem fictícias, muita das restantes foram reais. Uma delas, presente em quase todo o romance, é Pablo Neruda, consul do Chile em Espanha. Por sua iniciativa, ajudado pelo presidente do Chile e instituições humanitárias, fretou um navio, o Winnipeg, e partiu para o Chile com centenas de refugiados fugidos de Espanha. Este facto verídico mescla- se na perfeição com a ida dos personagens principais, obrigados a fugir de Espanha para salvar a sua pele.

Um romance obrigatório, à maneira de Isabel Allende. O seu percurso de vida teve algumas semelhanças com a vida que atribuiu aos personagens principais. Isso nota- se. Daí as minhas 6*.

Terminado a 4 de Janeiro de 2020

Estrelas: 6*

Sinopse
Espanha, final da década de 1930. A vitória iminente das tropas franquistas na Guerra Civil obriga milhares de pessoas a abandonar o país, numa perigosa viagem através dos Pirenéus. Entre eles, Roser Bruguera, uma jovem viúva, e Víctor Dalmau, médico e irmão do falecido marido de Roser.
Em França, conseguem embarcar no Winnipeg, um navio fretado pelo poeta Pablo Neruda que transportou mais de 2 mil espanhóis até ao Chile - essa «longa pétala de mar, de vinho e de neve» -, onde são recebidos como heróis.
Víctor e Roser integram-se com sucesso na vida social do país de acolhimento, durante várias décadas, até ao golpe de Estado que derruba Salvador Allende, parceiro de xadrez de Víctor Dalmau. Os dois amigos de toda uma vida são de novo forçados ao exílio, mas, como diz a autora, «se vivermos o suficiente, todos os círculos se fecharão».


Isabel Allende propõe-nos uma viagem através da História do séc. XX, pela mão de personagens inesquecíveis que descobrirão que numa só vida cabem muitas vidas e que, por vezes, o difícil não é fugir, mas regressar.

Cris

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"Para Lá do Inverno" de Isabel Allende

É facil gostar da escrita corrida e escorreita de Isabel Allende. Assim como é fácil entrar nas histórias que conta e nos personagens que retrata. Prima pela simplicidade nos diálogos e numa forte caracterização dos personagens que levam o leitor a conhecê-los em profundidade através desses mesmos diálogos.

Deste modo, é fácil dizer que se gostou do que se leu. Que se fez parte da história, que se viveu "dentro" dela. Um assassinato, três pessoas que se vêm envolvidas sem querer com um morto e está criado o mote para se falar, como pano de fundo, de um problema gravíssimo que assola quase todo o mundo, a migração clasdestina, o tráfico humano e as máfias que lucram com isso. Ah, e o amor, sempre o amor, que faz com que este romance possa parecer ligeiro. Isabel Allende não se esqueceu de colocar uma pitada de romance que sempre atrai o leitor e derrete o seu coração...

Gostei deste livro, contado num tom ligeiro mas que nos fala com profundidade de alguns problemas que assolam já há muito a nossa sociedade.

Terminado em 27 de Novembro de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
«No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível.»
Albert Camus 

Isabel Allende parte da célebre frase de Albert Camus para nos apresentar um conjunto de personagens próprios da América contemporânea que se encontram «no mais profundo inverno das suas vidas»: uma mulher chilena, uma jovem imigrante ilegal guatemalteca e um cauteloso professor universitário.

Os três sobrevivem a uma terrível tempestade de neve que se abate sobre Nova Iorque e acabam por perceber que para lá do inverno há espaço para o amor e para o verão invencível que a vida nos oferece quando menos se espera.

Para lá do inverno é um dos romances mais pessoais da autora: uma obra absolutamente atual que aborda a realidade da migração e a identidade da América de hoje através de personagens que encontram a esperança no amor e nas segundas oportunidades.

Cris

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A Convidada escolhe: O Plano Infinito

O Plano Infinito, Isabel Allende, 1991


Este é um dos livros iniciais de Isabel Allende e, à semelhança dos anteriores, foca-se de forma pormenorizada na caracterização de personagens e no acompanhar dos seus percursos de vida. Ao longo das quatro partes em que é dividido o romance, Isabel Allende, ao mesmo tempo em que nos dá a conhecer a vida de Gregory Reeves, faz um retrato dos Estados Unidos da América, da vida dura dos imigrantes vindos do México, do racismo e da segregação, do proliferar de seitas que arrastam multidões, dos anos loucos do amor livre e das drogas que marcaram a geração hippy, da carnificina que foi a guerra do Vietname de onde a América saiu derrotada e envergonhada, dos protestos dos movimentos pacifistas e anti-racistas e por fim o surgimento de um tipo de vida insustentável baseado no crédito fácil que viria mais tarde a eclodir na bolha financeira.
      Gregory Reeves é a personagem central, mas são inúmeras, diria mesmo demasiadas, as pessoas em torno dele, caracterizadas de forma viva e colorida. Se há relatos duros e sombrios, outros são engraçados e picarescos. As personagens “vêem-se”, são palpáveis, têm vida.
      Greg teve uma vida atribulada e difícil, aspirando antes do mais e, sobretudo, à aceitação e ao amor por parte dos outros. Desenraizado, percorrendo enquanto criança, a América do Norte na companhia de um pai pregador inflexível e de uma mãe fria e distante, até que a família se fixa numa comunidade de imigrantes predominantemente mexicanos. Aí, como, aliás, ao longo de toda a vida, e por diferentes motivos, sentir-se-á um estranho. Muito louro e branco é rejeitado e visto com desconfiança numa escola em que todos são morenos e usam uma linguagem diferente. Mas uma vez que é preso por um pequeno delito verifica que é tratado com benevolência por ser branco. Ou ainda quando chega à universidade de Berkeley percebe que lá só há brancos como ele.
      A sua vida amorosa que ele via ser a possibilidade de resgatar a felicidade que nunca tinha tido enquanto criança é um desastre. Nem amado pela mulher e muito menos pela filha, os piores anos da sua vida foram aqueles em que perdeu a “candura” e corresponderam aos anos da revolução sexual dos anos 60. Ao ser chamado para o Vietname, foi com a secreta esperança de morrer na guerra, mas, afinal, descobriu que “morrer é muito mais difícil que continuar vivendo”!
      Isabel Allende é brilhante nos relatos do horror da guerra que nos recordam muitos filmes emblemáticos sobre a guerra do Vietname. Greg regressa do Vietname e sente-se totalmente sozinho e fora do resto do mundo. Pode subir na carreira de advogado, mas a infelicidade, a ansiedade e a insatisfação são permanentes. Ele, tal como grande parte das personagens que o rodeiam não passam de ilhas sozinhas e isoladas. Greg leva uma vida de grande instabilidade e sofrimento, sem conseguir encontrar-se, chegar ao seu eu. Depois de se ter endividado com créditos e mais créditos para alardear um status falso, entra em falência. Tudo cai à sua volta. Será a terapia que vai fazer ao longo de anos que o irá ajudar a conhecer-se e dar-lhe as ferramentas para se levantar a partir do zero.
      No fim, percebe-se que Greg Reeves está a falar com Isabel Allende e que todas as personagens e acontecimentos que lhe está a narrar são a sua história de vida. Voltando ao princípio do livro, lê-se “quarenta e tantos anos mais tarde, durante uma longa confissão em que passou revista à sua existência e fez as contas dos seus erros e acertos, Gregory Reeves descreveu-me a sua recordação mais antiga…”
      Na dedicatória Isabel Allende escreve: “Ao meu companheiro, William C. Gordon, e às outras pessoas que me confiaram os segredos das suas vidas”. “O Plano Infinito” recheado de personagens é o retrato dessas muitas pessoas que confiaram os segredos Almerinda Bentodas suas vidas a Isabel Allende. Mais ou menos romanceado, mais ou menos verídico, é um livro denso com episódios de grande dureza e com personagens inesquecíveis.

Setembro 2017

Almerinda Bento

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Ninfa de Porcelana de Isabel Allende e Ana de Lima

Que livro bonito este de se ver e ler! Um conto de Isabel Allende serviu de mote para Ana de Lima fazer umas ilustrações belíssimas para nos podermos deliciar com algumas horas de pintura. 

O conto é simples, quase infantil, e por isso mesmo belo. Simplesmente belo. D. Cornélio tinha uma vida enfadonha e cronometrada ao minuto. Até que uma ninfa de porcelana, de seu nome Fantasia, entrou na sua vida, alterando-a para sempre.

As ilustrações são um deleite para a vista. Difícil é escolher o material: lápis de cor ou canetas? Quem se sentir à vontade pode sempre optar por aguarelas...

Um livro a levar para férias! Uma página já está! E não ficou mal de todo, pois não? O resto é "trabalho para as férias".








Sinopse
«Don Cornelio ocupou sempre um lugar especial no meu coração. Quando o conheci era um senhor míope, vestido com um fato cinzento com catorze bolsos. Vivia numa pensão do meu bairro e nós, os seus vizinhos, acertávamos os relógios quando o víamos passar de manhã. Nunca se adiantava nem se atrasava.

Saía às oito horas e três minutos em ponto, começava a andar em direção à esquina contando os passos e aí apanhava o autocarro para o trabalho.»

Esta é a história de um homem cinzento, cuja vida deu uma reviravolta maravilhosa num dia de outono: conheceu alguém. Mas não é um alguém qualquer. É uma ninfa chamada Fantasia, que parece decidida a dar cor à sua vida.

Percorra as páginas desta mágica aventura de Isabel Allende e comece também a colorir o universo de Don Cornelio. Seguindo os seus passos, não só verá com outros olhos o mundo que nos rodeia como poderá dar asas à sua imaginação e libertar o artista que há em si.


Cris

terça-feira, 30 de junho de 2015

A Convidada Escolhe: A Ilha Debaixo do Mar

A Ilha debaixo do mar de Isabel Allende é um romance sobre as revoluções que ocorreram na ilha do Caribe "Hispaniola" no século XVIII, que veio a ser dividida dando lugar à República Dominicana e ao Haiti antes conhecido como Saint Domingue, e sobretudo sobre a escravatura e a opressão dos colonos nesses locais do mundo, factos que levaram à rebelião dos escravos que fez inúmeras vítimas de um lado e de outro.

É um drama que não só aborda com profundidade a escravidão no Caribe, o quotidiano dos escravos, suas condições de vida, os maus tratos nas plantações de açúcar, paixões, inseguranças e medos e mais que tudo a sua luta para alcançar a liberdade, como também se debruça sobre a história da colonização espanhola e francesa em La Hispaniola incluindo as lutas pela independência da parte ocidental.

A protagonista é a escrava Zarité, chamada de Tété, e é através dela que o leitor toma conhecimento do desenrolar da história.

Zarité foi aos nove anos vendida a um fazendeiro rico de Saint- Domingue, no tempo colónia francesa, mas teve a sorte de nunca ter trabalhado nem passado pelo trabalho duro das plantações. Em vez disso, embora não menos desumano, o seu destino foi ser escrava doméstica, obrigada a ser amante de seu dono ao mesmo tempo que servia sua esposa espanhola e criava seu filho Maurice, que cresceu juntamente com Rosette, a filha que teve de seu patrão. Tété é uma mulher bondosa e forte de espírito, que luta para alcançar os seus objetivos por isso se torna protetora dos escravos dando-lhes alento e confiança ao mesmo tempo que se torna confidente de seu amo e dono. Com a guerra civil que entretanto acontece na ilha, é obrigada, junto com Valmorain e os filhos, a fugir para Nova Orléans, ainda colónia espanhola.

Zarité apesar de todas as adversidades alcança o seu sonho de liberdade e concretiza por fim a sua grande história de amor.

Este livro de Isabel Allende, baseado em factos históricos, presenteia o leitor com personagens fortes e bem contextualizadas que tornam a narrativa bastante emocionante.

Maria Fernanda Pinto

terça-feira, 2 de junho de 2015

A convidada Escolhe: "Eva Luna"

"Eva Luna", Isabel Allende, 1987
Para alguém que aprecia e já leu muitos livros desta autora, acrescido do facto de que "Eva Luna" era um livro que há muito me tinha sido aconselhado por uma pessoa cujas apreciações tenho em consideração, posso dizer que este livro de Isabel Allende é porventura um daqueles que menos apreciei.
Achei-o pouco consistente, ligeiro, com uma estrutura fluida e superficial e, embora tenha ainda para ler "Contos de Eva Luna", sequência natural de "Eva Luna", certamente muitos outros livros que aguardam a sua vez de ser lidos terão prioridade sobre ele.
Eva é uma contadora de histórias, tal como Isabel Allende. Sobrevive e vence as dificuldades de uma vida errante e cheia de peripécias pela sua capacidade de efabular. Aprendeu isso com a mãe – Consuelo – uma mulher silenciosa, invisível, que tinha um prazer especial pela leitura e que quando contava histórias fazia "verdadeira magia". Embora habitando um espaço limitado, restringido à casa, ela capta todo aquele mundo sensorial feito de cheiros e imagens e carregado de fantasia e magia. Eva vai ter diversas experiências, conhecer inúmeras personagens e vai levar essa "bagagem" para recriar histórias e para passar pelo mundo, muitas vezes alheada e à margem do que vai acontecendo. Para contextualizar na época as vivências de Eva Luna, a autora tem a preocupação de ir aludindo a momentos marcantes da história da humanidade a partir dos anos 30 do século passado: as referências à Europa da 2ª grande guerra, as viagens espaciais e a cadela Laica como protagonista dessa aventura humana, a revolução cubana, o Che, a primavera de Praga, o fim da guerra do Vietname… Há também uma crítica aos regimes ditatoriais dos velhos caudilhos, dos Benfeitores, dos Amos da Pátria, dos Presidentes Vitalícios, substituídos por "democracias". Quando o poder cai na rua, a oligarquia financeira rapidamente se restabelece e de novo assume o poder. Antigos delatores e carrascos rapidamente passam por uma reconversão e integram-se na sociedade. Entretanto, os povos das regiões remotas e isoladas – referência aos Andes – continuam fora da realidade e para eles nada de novo acontece e nenhumas mudanças efectivas ocorrem nas suas vidas. Isabel Allende mantém-se fiel à sua leitura crítica sobre o poder e sobre a evolução política das sociedades.
Alguns temas presentes neste livro de Isabel Allende, para além de uma sensualidade e erotismo em que a autora é mestra no uso das palavras, a sua abordagem da transexualidade, a propósito de uma das personagens com que Eva se relaciona. Também a sua relação com a guerrilha – Huberto Naranjo – e com um fotófrafo que filma os guerrilheiros – Rolf Carlé – é motivo para uma série de considerações sobre a postura dos revolucionários e guerrilheiros que sublimam qualquer dor e sofrimento em nome do ideal revolucionário, tornando-se como que máquinas. Como feminista assumida que é, as suas personagens femininas são também ensejo para considerações que lançam o foco sobre as diferentes discriminações a que as mulheres são sujeitas e, no caso das que abraçam a revolução, encaradas como subalternas, contribuindo para a luta, mas excluídas das decisões e do poder.
Embora esta seja, quanto a mim, uma obra menos interessante de Isabel Allende, acho que estes aspectos a que acima aludi são uma marca importante da escrita desta autora da América Latina.

Almerinda Bento

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A Convidada Escolhe... Inés da Minha Alma

O foco deste romance tem uma mulher extraordinária como figura central mas todo o enredo tem a ver com a conquista do Perú e do Chile pelos espanhóis. Inés Suárez, que é também a narradora, surge-nos logo no início do livro a contar a sua longa e aventurosa vida, numa altura em que morrera o seu terceiro marido – Rodrigo de Quiroga – e numa altura em que sente que a sua vida também está a chegar ao fim. O facto de ter vivido numa época em que às mulheres estava destinada uma vida recatada, convencional e sem história leva-a pois a decidir que é urgente dedicar o tempo que lhe resta a contar e a deixar para a posteridade a sua vidaextraordinária marcada pela ruptura com todos os estereótipos e preconceitos associados ao género feminino. Porque a História sempre tem sido a história dos homens e dos seus feitos, este romance que vai beber à história e às crónicas da época, é um contributo embora romanceado, para desocultar essa presença das mulheres que a história muito raramente conta.

Nascida em Plasencia, na Extremadura, no início do século XVI, abandona a Europa à procura do marido Juan de Málaga que há anos tinha partido em busca do ElDorado e das riquezas do Novo Mundo. Essa busca torna-se infrutífera, mas a sua personalidade forte, independente, destemida e aliada a uma saúde de ferro torna-a protagonista na história da difícil conquista do Chile ao lado de Pedro de Valdívia por quem se apaixona e com o qual se torna parceira na conquista, na guerra, no tratar dos feridos e enfermos e também no amor.

A conquista do território é extremamente difícil e está cheia de adversidades para os conquistadores espanhóis,súbditos do imperador Carlos V. É a morfologia inclemente do território e do clima, os interesses conflituantes entre os próprios conquistadores, a resistência dos povos nativos justamente aguerridos na defesa das suas terras e dos seus bens, a lonjura e a ausência de notícias de Espanha que tornam esta conquista uma luta terrível e brutal nos confrontos entre espanhóis e as tribos indígenas e que ficaram para a história.

Embora tendo participado ao lado e na frente da batalha do lado dos conquistadores, Inés reflecte e critica os horrores, a crueldade e a desumanização que acompanhamas guerras e, por diversas vezes no seu registo de vida para os vindouros e sobretudo no fim da sua longa vida, põe-se na pele e solidariza-se com os mapuche como legítimos donos das terras, compreendendo as baixas que eles fizeram nas hostes dos usurpadores.

Embora achando interessante a perspectiva escolhida pela autora para falar deste episódio da história da Humanidade em que dá a uma mulher o papel principal, este foi de entre os diversos livros de Isabel Allende que já li, porventura o que me levou mais tempo a ler.

Almerinda Bento