Gosta deste blog? Então siga-me...

Também estamos no Facebook e Twitter

sexta-feira, 17 de abril de 2026

"Cães Pretos" de Ian McEwan

Durante esta leitura tive sentimentos variados. Logo após o prefácio achei que este livro não seria para mim. Isto porque, na minha opinião, ele começa lindamente sendo a minha atenção captada rapidamente mas depois, Jeremy, o narrador, segue por um caminho que não esperava. 

Um mini spoiler: a sua ligação com a sua pequena sobrinha, Sally, perdeu-se e achei que podia ter sido mais explorada. Mas na vida acontece muito isso, as separações voluntárias ou involuntárias dão-se. Ele próprio mostra, durante a narrativa, sentir algum remorso por não ter conseguido acompanhá-la na sua vida. Quem não tem, dificilmente dá. Alterar padrões de comportamento não é fácil. E Jeremy, com a morte dos pais aos oito anos, teve emocionalmente muito pouco. Estas observações são fruto das reflexões que este livro, depois de o terminar, me levou a fazer. 

E, aos poucos, fui mergulhando nesta obra em que Jeremy, saltitando temporalmente, vai-nos contando o passado dos seus sogros, June e Bernard, fazendo também referência à sua infãncia (que explica a razão do seu interesse pelas pessoas "mais idosas"), à sua juventude errática e ao seu casamento aos 35 anos. 

Vai questionando os sogros, separadamente, e tentando perceber como duas pessoas que se amaram (e amam) não conseguiram seguir um caminho juntos. Tenta reconstruir a vida do casal sem o conseguir totalmente. Uma história contada de forma diferente pelos seus protagonistas. Jeremy quer perceber o que de facto aconteceu, a causa da sua separação ideológica que implicou a separação física. Pelo meio, põe-nos ao corrente da situação no pós-guerra, vivenciada pelos sogros e pais e, numa fase temporal posterior, da queda do muro de Berlim.

 O título surge do encontro traumático que June viveu no pós guerra e que marcou a divergência do casal. Refiro que esse encontro com uns cães pretos (sabemos ter existido mas que não conhecemos as circunstâncias em que ocorreu), só nas últimas páginas tem o seu despoletar e é verdadeiramente memorável. O leitor tem de se conter para não saltar palavras tal a ânsia de saber o que aconteceu!!! A interpretação que June e Bernard fazem desse encontro é radicalmente oposta e é interessante verificar como ambos a interpretam e as consequências que daí advêem.

A história aparentemente simples é o mote para reflexões filosóficas quer de Jeremy, June e Bernard,  quer do próprio leitor. Foi isso que me agradou sobremaneira e daí as 5*. Leiam que vale a pena!

Terminado em 15 de Março de 2026

Estrelas: 5*

Sinopse

Dois jovens membros do Partido Comunista, June e Bernard, conhecem-se em Londres em 1946. Apaixonam-se perdidamente e casam-se. Durante a lua-de-mel em França, June sofre uma experiência que altera a sua vida: descobre a religião e acaba por renunciar ao partido. Cinco anos depois, June e Bernard Tremaine separam-se. Nunca chegam a divorciar-se nem a envolver-se romanticamente com outras pessoas.

Embora as convicções vão enfraquecendo lentamente, Bernard mantém-se no partido até 1956. June e Bernard voltam a aparecer na história 40 anos mais tarde, quando o seu genro Jeremy investiga a história pessoal e intelectual de ambos. Religião versus razão. A memória de um versus a memória de outro. Amor versus existência diária. Sacrificar o individual pelo bem das massas.

É disto de que nos fala Cães Pretos. Tendo como cenário a queda do Muro de Berlim, Cães Pretos recua no tempo até à Europa do pós-guerra e mostra como a guerra e os seus demónios mudaram o destino de uma família. Metafórica e literalmente, os cães pretos do título percorrem a paisagem deste romance – a Europa e a família Tremaine.

Cães Pretos mostra o talento literário excepcional de Ian McEwan, que desenvolve improváveis e invulgares combinações de suspense, ética, filosofia e ideologia política e religiosa. Noutras mãos, semelhante mistura poderia tornar-se letal, nas mãos de Ian McEwan é simplesmente inebriante.

Cris

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "O Acontecimento"

“O Acontecimento” – Annie Ernaux, 2000

(tradução de Maria Etelvina Santos)

Este é o terceiro livro que leio de Annie Ernaux. Quando o li, sabia ao que ia: a memória de um aborto que a autora fez, quando jovem mulher, estudante universitária. No entanto, o início do livro refere-se a um outro momento na sua vida relacionado com a possibilidade de estar seropositiva, na sequência de uma relação sexual não protegida. “Pensava que nunca haveria qualquer tipo de relação entre o sexo e outra coisa,” (pág. 10) Nos dois momentos “… a mesma aflição e a mesma incredulidade. Portanto, a minha vida situa-se entre o método Ogino e o preservativo a um franco nas máquinas de venda.” (pág. 11)

Acho importante registar algumas datas para mostrar as diferenças entre o país da autora e o nosso país, no que se refere aos direitos sexuais e reprodutivos e especificamente no que se relaciona com a despenalização do aborto. O aborto que a autora fez quando tinha 23 anos, foi em 1963. A lei francesa à época punia com prisão e multa “I) o autor de quaisquer procedimentos abortivos; 2) os médicos, parteiras, farmacêuticos e outros culpados de terem indicado ou favorecido aqueles procedimentos; 3) a mulher que praticou ela própria o aborto ou que o consentiu; 4) o incitamento ao aborto e a propaganda anticoncecional. A interdição de domicílio pode, de resto, ser pronunciada contra os culpados, para além, no caso do segundo ponto, da proibição definitiva ou temporária do exercício da profissão” (pág. 21). Em 1975, o aborto deixou de ser punido em França com a famosa lei Simone Veil. Em Março de 2024, a França foi o primeiro país do mundo a inscrever o direito ao aborto na Constituição. Em Portugal, o processo foi mais demorado e complicado pois só em 2007, num segundo referendo, as mulheres portuguesas puderam ter acesso ao aborto até às dez semanas, a seu pedido. Até essa data, o aborto era clandestino e ocorreram vários casos de mulheres e pessoal da saúde levados a tribunal por fazerem ou facilitarem a prática do aborto. 

A agenda em que Annie Ernaux registou o que ia acontecendo, a partir do momento em que se apercebeu do tempo a passar sem ter menstruação, é um elemento fundamental a que recorreu no momento em que decidiu que era preciso dar testemunho do que se tinha passado com ela. O facto de numa altura em que o aborto já estava legalizado levar muita gente a dizer “Isso já passou” (pág. 20) e de se querer apagar uma memória traumática para tanta mulher, mais reforçou nela a convicção da necessidade de dar testemunho daquilo que tinha acontecido com ela e de não silenciar uma realidade que, para ela, constituiu “um acontecimento inesquecível.” (pág. 20)

Essa agenda reflecte as sensações, os receios, a ideia de fracasso social, a busca kafkiana por uma solução, a angústia, a incapacidade de se concentrar, o desânimo, a impotência, a discriminação de quem é pobre, a solidão. E o assinalar da data que separa a vida da morte. A descrição do “acontecimento” é crua, brutal; a capa da edição dos Livros do Brasil não podia ser mais certeira. Se a data em que se libertou do feto foi, por vários anos, considerada um aniversário, havia algo de sagrado nisso. “Não sabia se tinha estado no auge do horror ou da beleza. Sentia orgulho. Provavelmente o mesmo que sentem os navegadores solitários, os drogados e os ladrões, aquele orgulho de terem ido até onde os outros nunca considerarão ir. Foi, sem dúvida, algo desse orgulho que me fez escrever esta narrativa. “(pág. 80) “Numa outra tarde, entrei numa igreja, a de Saint-Patrice, perto do boulevard de la Marne, para contar a um padre que tinha abortado. Depressa me dei conta do erro. Sentia-me inundada de luz e para ele estava inundada de crime. Ao sair, percebi que, para mim, o tempo da religião tinha chegado ao fim.” (pág. 81) “Apaguei a única culpabilidade que nunca poderia suportar em relação a este acontecimento, a de que me tivesse acontecido e eu não tivesse feito nada em relação a isso. Seria como um dom recebido e desperdiçado (…) E o verdadeiro objetivo da minha vida é, provavelmente, apenas este: que o meu corpo, as minhas sensações e os meus pensamentos se transformem em escrita, isto é, em qualquer coisa de inteligível e comum – a minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.” (pág. 84)

Os direitos sexuais e reprodutivos foram sempre um alvo de ataque de forças conservadoras, de direita, frequentemente ligadas às igrejas e nos tempos actuais em que o conservadorismo ganha palco e projecção, há quem queira reverter em Portugal uma lei tão recente, que fez diminuir drasticamente os riscos de morte e de complicações por motivos de interrupção de gravidezes não desejadas, num contexto de clandestinidade. Uma lei que conferiu um importantíssimo direito às mulheres: o direito à escolha.  Num tempo em que a palavra “aborto” não tinha lugar na linguagem, nem mesmo nos consultórios médicos, “a impossibilidade absoluta de imaginar que, um dia, as mulheres pudessem livremente decidir abortar. E, como sempre, seria impossível determinar se o aborto era proibido porque estava errado, ou se estava errado porque era proibido. Julgava-se em conformidade com a lei, não se julgava a lei.” (pág. 34) 

Daí a imensa actualidade deste livro. Deste corajoso testemunho. 

23 de Março de 2026

Almerinda Bento

 




quarta-feira, 15 de abril de 2026

"O Café Sem Nome" de Robert Seethaler

Leitura rápida e sem grandes altos e baixos na narrativa. Não existem dramas intensos na vida do
protagonista, Robert Simon, que após a sua vinda para a cidade (Viena de Áustria) e de ter trabalhado num mercado local, consegue abrir um café junto ao mesmo. Por não saber que nome lhe atribuir fica o café sem nome e, aos poucos, passa a ser o ponto de encontro das pessoas que habitam ou trabalham perto.

A história passa-se por volta de 1960 e é o retrato de uma comunidade com os pequenos dramas do dia-a dia. Mais do que a história pessoal de Robert este livro conta-nos pequenas histórias dos frequentadores do café, que se transforma de um local fechado e sem identidade para um café ponto de encontro de trabalhadores e vizinhos.

Mostra um pouco como a vida nas grandes cidades pode ser solitária para muitos e a importância de locais de encontro para minimizar essa solidão.

Leitura calma sem grandes sobressaltos. Tranquilo.

Terminado em 12 de Março de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse

Após a Segunda Guerra, um homem simples abre um café sem nome em Viena. O espaço torna-se refúgio de pessoas comuns, marcadas por perdas e esperanças. Entre rotinas, conversas e silêncios, este romance retrata a reconstrução da cidade e dos laços humanos. Mais do que uma história cheia de acontecimentos, o livro acompanha o quotidiano dessas personagens e mostra como, no meio da reconstrução material e emocional da cidade, os laços humanos se formam através de gestos simples: conversas, silêncios compartilhados, rotinas.

O estilo do premiado autor austríaco Robert Seethaler é contido, sensível e melancólico, menos focado em grandes dramas e mais focado na beleza discreta da vida quotidiana. O café sem nome é um livro profundo e muito humano sobre a forma como nos apoiamos mutuamente nos bons e maus momentos, e como até a vida mais comum é, à sua maneira, extraordinária.

Cris

terça-feira, 14 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "O Último Avô"

“O Último Avô” – Afonso Reis Cabral, 2025

De todos os livros que li de Afonso Reis Cabral, e li todos, este é o mais elaborado e mais complexo. Há bastante tempo que um livro não me perturbava tanto. É um verdadeiro puzzle, não só pela sequência de capítulos em tempos diferentes, mas pelas personagens cujas vidas se ligam, pelo twist no final do livro e pela extrema atenção que requer por parte do/a leitor/a. Mas, sobretudo, muito bem escrito. Imagino que para o autor que o imaginou e escreveu, precisou de muito tempo, muito rigor e atenção, porque se trata de uma tapeçaria com muitos fios e desenho muito elaborado. 

É um livro sobre os traumas da guerra colonial, não só nos que a viveram enquanto soldados, mas nos familiares que viveram as consequências do trauma. A figura central é Campelo, o avô do narrador, a quem deixa como testamento o cuidar da gestão do seu património intelectual. Engenheiro de formação, escritor famoso, Campelo é um egocêntrico, possessivo, violento e obcecado por memórias de África, o tabu de um futuro livro sempre anunciado, mas nunca concretizado. Em torno dele, além do narrador, múltiplas figuras femininas, personagens complexas que se vão desvendando ao longo da  narrativa, essenciais para a caracterização de Campelo. A filha, mãe do narrador – a Formiga – “tímida com o coração selvagem” (pág. 24) que um dia se rebela contra o pai e foge; a avó que se revela  já não como a mulher silenciosa, quando se separa e decide ir viver para Azeitão, onde “se tornara a versão mais feliz de si mesma” (pág. 108); Noélia, a criada, para quem Regina, a fazer um mestrado em Teoria da Literatura envolvendo a obra de Campelo e envolvendo-se com ele, era uma “cabra” (pág. 57); as tias, manas da Formiga, praticamente inexistentes; Cecília, a namorada do narrador, o grande apoio deste ao longo dos vários momentos do romance e, finalmente, Jóia e Estrela da Piedade, as duas africanas da fotografia encontrada entre as recordações de Angola. Porquê esta fotografia? Quem serão estas mulheres? Despojos de guerra?

Quanto aos homens, além de Campelo e do neto (narrador), apenas uma cena com o pai do narrador, afinal um pai ausente; o editor Torres, sempre ansioso por notas ou pelo manuscrito que possa sair à luz para finalmente responder à expectativa do que seria a obra maior de Campelo, numa crítica clara ao meio literário e à avidez pelos sucessos editoriais. E claro, Campelo e Augusto o neto, afinal muito parecidos, por vezes até difíceis de se distinguirem!

O cerne do romance é o manuscrito de Campelo, o mistério em torno do conteúdo do manuscrito que o avô destrói antes de morrer, a ânsia de saber se não haverá outro manuscrito para além do queimado – o manuscrito – eventualmente no quarto fechado que a mãe do narrador ocupou antes de morrer. E também em torno da autoria… Os traumas de guerra que Campelo partilhou com a filha e com o neto, em quem projectou a escrita do seu livro de memórias de África e que o levou um dia a afirmar: “Hoje nasceu um escritor” (pág. 92). A certa altura, o narrador tem a sensação de que o avô quer que seja o neto a escrever o livro por ele e conta-lhe episódios da guerra, fala-lhe de Zacarias, o mulato que salvou das chibatadas, da mãe Jóia e da tia Estrela da Piedade: “Tinha a impressão de que ele se apoderava de mim frase a frase” (pág. 101) “Mas faltava rigor ao imaginário” (pág. 103). É de tal forma intensa esta presença do avô na escrita do neto (até as caligrafias se assemelham), que a certa altura o neto se rebela e não quer continuar a escrever. 

O livro vai sendo construído como num puzzle com capítulos curtos entrecortados, até que começam a surgir capítulos escritos em itálico, as histórias da guerra, o tão ansiado manuscrito. Será aquilo um romance, ou antes uma confissão, um romance autobiográfico? É justo publicar uma confissão que venha manchar a memória de alguém que já morreu e que desse modo venha contaminar negativamente as expectativas e uma imagem até então tão positiva? Afinal “qualquer escrito é um engano” (pág. 217) e “Quantas pessoas não são a ficção que fazemos delas, e quantas histórias não andam por aí à solta sem verdade excepto a própria, isto é, a verdade da ficção”. (pág. 269). 

Termino com esta transcrição de “O Último Avô” um livro sobre a guerra colonial, difícil e corajoso, que li atentamente e cujos últimos capítulos senti necessidade de reler. “… ocorre-me que este país com a geografia fácil de um rectângulo, mais a porção das ilhas, não tem os quilómetros quadrados necessários para mistérios ou descobertas. (…) Todavia, apesar de claustrofóbico, ainda tem dimensão para segredos: é que Portugal esconde um exército, o exército dos ex-combatentes. 

Restam uns trezentos mil soldados da velha guerra. A estatística manda que os encontremos na rua, na sucursal do banco ou dos correios, nos cafés. Frequentam os transportes públicos e sentam-se ao nosso lado na Loja do Cidadão. São eles que conversam entre si durante horas nos bancos de jardim. Uns falam alto, outros perderam a voz. Suspeito de que muitos dos que agarramos pelos pulsos e tornozelos às camas dos hospitais, e que bradam como cercados pelo inimigo, também sejam antigos combatentes. Alguns escondem-se à paisana de velho e à paisana de soldado: como ninguém lhes dá mais de setenta anos, não parecem velhos o suficiente e ninguém desconfia de que combateram em África. Outros entraram em lares” (pág. 245).

7 de Fevereiro de 2026 

Almerinda Bento


segunda-feira, 13 de abril de 2026

"Aquilo Que Vi No Escuro" de Margarida David Cardoso

Reunindo histórias reais de pessoas que viveram (e vivem) episódios de psicose, este livro levou-me a pensar sobre a doença mental e os estigmas a ela associados. A autora mostra-nos como a psicose pode ser uma das manifestações de algumas doenças e, sobretudo, como a pessoa pode piorar se não for tratada atempadamente. 

Casos reais, relatos vividos e sofridos que colocam o leitor a refletir. O medo, o isolamento e o estigma social que acompanham o doente. 

Os sintomas que acompanham a psicose - ouvir vozes, o acreditar que são alvos de conspirações e/ou perseguições, a confusão entre realidade e imaginação - são tremendos e ouvir estes relatos fizeram-me repensar a doença. Até que ponto não excluímos e marginalizamos estes doentes com observações como "ele é maluco"?

São familias que se desfazem, familiares que se afastam, respostas da sociedade inadequadas (isolando mas não tratando o doente).

Há muito sofrimento por detrás da doença e este livro é um relato vivo disso. Impactante! Vale a pena ler. E refletir sobre.

Terminado em 28 de Fevereiro de 2026

Estrelas: 5*

Sinopse

Sabia que a psicose não é um diagnóstico, mas sim um sintoma?

Surge quando alguém vê ou ouve algo que não existe para os outros, num estado que pode ser estável, intermitente ou único ao longo da vida. Estigmatizados e incompreendidos, os episódios psicóticos afetam uma em cada três mil pessoas por ano. Apesar de se associarem à esquizofrenia, integram um espectro mais vasto de doenças mentais. Este livro retrata vidas marcadas pela psicose, logo, pela perplexidade e pelo estigma. Porque a alteração do entendimento da realidade comum é, sobretudo, uma experiência de solidão extrema.

E, até mesmo quando condena alguém a viver numa clínica psiquiátrica dentro de um estabelecimento prisional, significa dor e sofrimento mentais quase inconcebíveis.

Cris

sexta-feira, 10 de abril de 2026

"Filhos da Quimio" de Nelson Marques

Gosto bastante dos livros da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), sobretudo os da coleção Retratos. Este aguardava há muito tempo para ser lido. O tema interessava-me  porque queria estar consciente destas terríveis situações e adivinhava-o muito pesado.

São relatos de vários casos, como o próprio nome indica, de mães que estavam grávidas e que souberam, ao mesmo tempo, que tinham cancro. A felicidade tantas vezes desejada mesclada com o horror de saber que se tem uma doença muitas vezes terminal.

São cinco histórias, quase todas de sucesso, onde as mães optaram pelo bebé, adiando os tratamentos ou fazendo-os de forma a preservar a gravidez, com risco da sua própria saúde.

O estilo jornalístico do autor é directo, simples mas que cria de imediato empatia com o leitor. Uma leitura curta, dado o tamanho do livro, mas impactante. É impossível não se querer saber mais pormenores.

Terminado em 25 de Fevereiro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
Nenhuma mulher está preparada para ouvir que tem cancro. Muito menos quando está grávida, naquele que devia ser o período mais bonito da sua vida. Dá para imaginar a montanha-russa de emoções? Este livro conta as histórias intensas, tocantes e, por vezes, trágicas de mulheres que tiveram de enfrentar o inimaginável. Como Anabela, que deixou crescer um tumor dentro dela durante meio ano para poder ser mãe; como Raquel e Liliana, que recusaram abortar e decidiram fazer quimioterapia durante a gravidez; como Gintare, que lutou até ao limite das suas forças para que o Salvador pudesse nascer, mas que morreu sem o poder ver crescer; ou ainda como Michelle, uma das primeiras mulheres em Portugal a serem mães enquanto tomavam medicação para a leucemia mielóide crónica.

São relatos de dor e de angústia, de coragem e de resistência, de vontade de viver e dar vida. Histórias de vida e de morte, porque nem sempre o cancro, esse bicho danado, tem um final feliz. Mas são, acima de tudo, testemunhos de um amor imenso, que nos comovem e inspiram pela sua infinita crença na força humana.

Cris

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "As Pessoas Felizes"

“As Pessoas Felizes” – Agustina Bessa-Luís, , 1975

Há muito que estava para ler Agustina. Aliás, quando li a excelente biografia de Agustina Bessa-Luís “O Poço e a Estrada” escrita por Isabel Rio Novo, prometi a mim mesma que iria tirar da estante “A Sibila” do meio dos muitos livros de Agustina que herdei da minha irmã Isabel. Afinal comecei com “As Pessoas Felizes”, graças à proposta de leitura saída do Leia Mulheres que se reúne mensalmente no Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, coincidente com o inesperado e injusto afastamento de Rita Rato da direcção deste excelente espaço de cultura e memória situado em Lisboa. Não me esqueço do momento em que o meu filho, então estudante do 3º ciclo, me apareceu com “Dentes de Rato”, para eu o ajudar na compreensão daquele livrinho de Agustina, num trabalho que tinha de apresentar na aula de Português. Nem os comentários de Mónica Baldaque, filha da autora, sobre a crítica a quem faz os programas de Língua Portuguesa, por escolherem “A Sibila” como obra a ser lida por jovens, que certamente, em vez de ficarem com apetência por ler e, especificamente Agustina Bessa-Luís, certamente irão ficar sem vontade de ler esta autora, no futuro.

Não quero ser injusta e fazer uma generalização abusiva, tanto mais que só li “As Pessoas Felizes” de Agustina. Mas, a partir do que li, considero uma leitura difícil, muitas vezes incompreensiva, que estilhaça o senso comum, a ordem previsível das coisas, repleta de aforismos. Uma leitura para ser feita lentamente, voltando muitas vezes atrás, tentando encontrar o fio à meada e muitas vezes não o encontrando… O facto de o livro fazer constantes referências a Anna Karenina e às suas personagens, livro que não li, e a Lev Tolstói e à sua vida, tornaram muitas vezes difícil de compreender algumas das páginas de “As Pessoas Felizes”. Como Isabel Rio Novo escreve em “O Poço e a Estrada” todos os livros de Agustina são biográficos, sem obedecerem a um plano, nascendo como um rio e, com efeito, descobri em Nel “estrela do paradoxo burguês” (p. 177) em “As Pessoas Felizes” muitas semelhanças com a vida de Agustina. Se não tivesse lido a biografia, teria tido mais dificuldade e menos interesse em chegar ao fim do livro.

“As Pessoas Felizes” foi escrito antes e depois do 25 de Abril e se só nas páginas finais do livro se sente que as personagens estão a viver a revolução e os choques nas relações entre as pessoas se intensificam, a verdade é que a autora quis, quanto a mim, mostrar que a pretensa concórdia e harmonia entre as pessoas é muito frágil e que o conflito e a separação das famílias são a norma. Nel, sendo mulher, não segue o padrão feminino tradicional, nem no matrimónio nem na maternidade, aliás tal como Agustina. A personalidade incomum da autora – “sou o que se chama conservadora”/ “sou uma pessoa tranquila, mas não conformada” – demarcando-se do feminismo, apoiou, contudo, o movimento pelo “Sim” à despenalização do aborto em 2007, aconselhava as jovens mães a não se deixarem prender na teia da maternidade e ela própria fez a escolha do homem com quem esteve casada durante 72 anos, saindo absolutamente dos cânones da época.

Em “As Pessoas Felizes” há uma crítica explícita à Mocidade Portuguesa, a Salazar como um moralista e uma pessoa obscura, uma crítica à educação sexual ou à ausência dela. Ou seja, sendo conservadora e de direita, Agustina era uma mulher insubmissa e com atitudes inusitadas e fora dos padrões da época e, embora haja neste seu livro mulheres sujeitas a “humilhações femininas” (p. 23), outras para além de Nel a personagem central, reflectem esse estilhaçar do senso comum que referi em parágrafo anterior. Nel que vai viver com os tios após a morte da mãe “detestou a gente grande. A gente grande era constituída por certo número de pessoas destinadas a lugares de mando ou dum servilismo prepotente. Gente feia, ocupada em coisas enfadonhas e intermináveis.” (págs. 47 e 48) “Nel tornou-se, na casa dos Carrancas, um autêntico pomo de discórdia” (p. 56). Nel era um problema para a tia Florinda “sobretudo porque ela não tinha, como as outras raparigas, o casamento como objectivo. Interessava-se pelos homens, de maneira apenas turística: frequentava-os, mas não pensava em habitá-los.” (p. 77) E quando, finalmente, Nel se casa, a prima atira-lhe estas palavras: “Casas-te porque é a única maneira de não andarem atrás de ti a fazerem-te perguntas obscenas. É chato. Querem saber que espécie de mulher tu és, se não tens cio, se és pela emancipação sexual, se tens a vagina estreita, se és lésbica, se tens o complexo de Édipo. Isto são palavras tuas, não acrescento nada, mas tens razão. É chato.” (p. 82)

Sendo geralmente vaga a localização temporal dos acontecimentos que não surgem numa ordem cronológica perceptível, há, no entanto, a referência a 1961 “ano em que deflagrou o terrorismo no Ultramar” (p. 151). “A culpa abriu-se no coração dos portugueses, e eles aguardaram que ela se transformasse numa medalha ou numa pensão de sangue ou num luto apenas.” (p. 152). “Essa juventude que vivia a guerra ou era neonaturalista ou contestatária. Uns cumpriam o seu tempo de selva e batiam-se não como mercenários, mas também sem o espírito de invulnerabilidade que estimulou o racismo europeu.(…) Outros emigravam. Indocumentados, mas em grande parte munidos duma protecção familiar que tornava o exílio uma aventura de estação. (p. 153)

Já vai longo este texto, mas gostaria de fazer aqui algumas transcrições de trechos em que é feita referência a “pessoas felizes”. 

“O que faz as pessoas felizes é não terem vida interior. A vida privada raramente coincide com a vida interior.” (p. 118)

“João Afonso Carranca costumava dizer que a generosidade não é própria dos ricos, mas dos felizes. Eram pois pessoas felizes, moderadas nas paixões e nos pensamentos, capazes de vencer preconceitos, para acudir a necessidades. Pois todo o extremo as desgosta e toda a justiça por demais assídua as acaba por descontentar.” (p. 172)  

E quando em 1971 uma série de calamidades caiu sobre a família dos Carrancas “As pessoas felizes desagregavam-se.” (p. 175)

Termino, repetindo que ler Agustina Bessa-Luís não foi fácil. Houve coisas que não percebi, mas nem por isso não deixei de chegar ao fim do livro que terminou na página 184, como podia ter terminado umas tantas páginas antes, quando o rio tivesse secado.

17 de Março de 2026

Almerinda Bento

quarta-feira, 8 de abril de 2026

"História do rei Transparente" de Rosa Montero

Fui para a Idade Média numa viagem maravilhosa com este livro! E que viagem esta!

A história é fantástica e com um começo brilhante que me agarrou logo no primeiro parágrafo. Senão vejam (coloco aqui só um pouquito):

"Sou mulher e escrevo. Sou plebeia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi na minha vida coisas maravilhosas. Fiz na minha vida coisas maravilhosas. Durante algum tempo o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou. A pena estremece entre os meus dedos cada vez que o arìete investe contra a porta. Um portão sólido de metal e madeira que não tardará em ficar em pedaços. Pesados e suados homens de ferro amontoam-se à entrada. Vêm buscar-nos."

E começamos assim a inteirarmo-nos da história de vida desta mulher (Leola) que adivinhamos cheia de carácter e força numa época em que as mulheres não tinham voz activa em nada. Com uma escrita fluída, intensa, a autora mistura ficção com a realidade histórica dessa época  e uma pitada de fantasia, tão leve que me pareceu plausível. Adorei tudo na verdade!

Leola faz-se passar por homem, disfarce mais ou menos conseguido consoante as situações por que passa. A sua vida sofre alterações tais que o leitor não se entedia mesmo quando as descrições sobre as guerras, lutas e confrontos o poderiam fazer.

Este livro é, também, sobre a liberdade, o papel da mulher, a intolerância, os vicíos que comandam as acções, sobre identidade. A personagem principal não é estática vai crescendo e é com gosto que vamos verificando que a sua personalidade sofre modificações.

O ritmo de leitura não é constante sendo que há partes lidas freneticamente e outras em que o leitor pode "descansar" porque são mais lentas. Embora possa parecer estranho, gostei disso também.

Recomendo muito esta leitura caso encontrem o livro porque creio estar esgotado. Há sempre a optima opção de ir dar um passeio a uma biblioteca...

Terminado em 23 de Fevereiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Considerado pela revista Qué Leer como o melhor romance espanhol de 2005.

Sob uma pele de ferro, o coração de Leola palpita por aventura, e a sua coragem leva-a numa turbulenta viagem rumo à liberdade.

Num tumultuoso século XII, Leola, uma camponesa adolescente, despe um guerreiro morto num campo de batalha e veste as suas roupas para se proteger sob um disfarce viril. Assim começa o vertiginoso e emocionante relato da sua vida, uma peripécia existencial que não é apenas de Leola mas também nossa, porque este romance de aventuras com ingredientes de fantástico fala-nos, na verdade, do mundo actual e do que todos nós somos.

A História do Rei Transparente é uma insólita viagem a uma Idade Média desconhecida, relatada de uma forma tão vívida que quase se consegue sentir na pele, uma fábula que comove pela sua grandeza épica. Original e poderoso, o novo romance de Rosa Montero tem essa força transbordante dos livros destinados a converterem-se em clássicos.

Cris

terça-feira, 7 de abril de 2026

A Convidada escolhe: "A Promessa"

“A Promessa” - Silvina Ocampo, 2011

“Que livro estranho” foi o que pensei à medida que ia lendo “A Promessa”. Se não desisti e o li até ao fim, deveu-se ao facto de ter sido o livro escolhido para este mês pelo Leia Mulheres e ter interesse em conhecer a opinião das minhas companheiras e companheiros que se juntam uma vez por mês no Museu do Aljube - Resistência e Liberdade, sempre em torno de um livro escrito por uma mulher. Desta vez a argentina Silvina Ocampo. 

Também estranho o facto de o livro ter sido revisto, corrigido e concluído entre 1988 e 1989, depois de cerca de três décadas de reescritas constantes. Iniciada a escrita na década de 1960, anunciada a publicação para finais de 1966 e posteriormente para 1975, a revisão e finalização ocorre num período de grande fragilidade de Silvina Ocampo, a par do fim da protagonista. A autora caracterizou “A Promessa” como um “romance fantasmagórico” em que autora e narradora estão ligadas por um destino comum. 

Devota de Santa Rita, “a padroeira das causas impossíveis” (pág. 11) a narradora faz a promessa de escrever um livro, caso se salve do estúpido desastre que a leva a cair ao mar, sem que ninguém do navio onde seguia, se aperceba da sua queda. Segue-se um desfiar de pessoas que recorda, de histórias que envolvem essas pessoas e que ela não pára de contar, tentando não adormecer, sempre na esperança de poder ser salva, de o navio a poder vir resgatar. Com a perspectiva da morte certa, são muitas as personagens sobretudo ligadas à sua infância que lhe vêm à memória. Nomeia-as, dá-lhes os traços fisionómicos e de carácter que as tornam únicas, mostra os seus defeitos e virtudes, recorda com maior insistência Gabriela (Gabriel), Irene a mãe e Leandro, conta histórias caricatas que algumas protagonizam, sonha, revela o seu amor pelos animais porque são verdadeiros… No fim daquelas pequenas histórias e das personagens que ela traz, o mar está sempre presente, nomeadamente através de uma pequena frase ou período que nos situa a narradora e a sua condição de náufraga que vai resistindo, vai perdendo as forças e a consciência, até ao momento em que em vez de pessoas passa a recordar árvores e animais. “A água está fria, uma araucária ocupa o meu pensamento.” (pág. 98). “Morrerei depressa! Se morrer antes de terminar o que estou a escrever ninguém se lembrará de mim, nem sequer a pessoa que mais amei no mundo.” (pág. 99). “Mal sinto o bater do meu coração. Terei realmente um coração? Ou ter-se-á perdido na água do mar?” (pág. 100).

É sem dúvida um livro pungente, com destaque para os momentos de escrita poética em que a narradora fala do mar em que luta pela sobrevivência? Por que teria Silvana Ocampo levado tanto tempo a escrevê-lo? Por que deixou a parte final para o tempo que sabia que era o fim da sua vida? 

20 de Fevereiro de 2026 

Almerinda Bento

segunda-feira, 6 de abril de 2026

"Noite Sem Fim" de Agatha Christie

Não sou uma fã incondicional de Agatha Christie. E não tenho de ser, claro! Se ultimamente tenho lido mais livros dela é porque o faço em grupo e isso é o que acho o mais giro. Muitos comentários no grupo criado, sem spoilers, com muitos palpites também.

O livro, dizem os entendidos de AC, é bastante diferente dos outros. Há um narrador que nos conta a história na primeira pessoa. Neste caso é Michael, um jovem instável que não consegue manter um emprego, que não se dá com a mãe não se percebendo a razão, e cujo sonho é ser rico. 

Conhece Ellie, uma jovem herdeira de uma fortuna imensa e casam-se rapidamente sem que os seus familiares saibam disso. Pouco tempo depois Ellie morre. E as reviravoltas no final são muitas e espectaculares! O ambiente é sombrio, inquietante e mantém o mistério até ao final. Ter um narrador faz com que a leitura seja mais empolgante e que vejamos as situações com os seus olhos.  E é aí que está o busilis da questão... :)

Foi um das leituras de AC que mais gostei de fazer mas pouco posso acrescentar sem que com isso não faça spoiler. Assim fico-me por aqui. 

Terminado em 8 de Fevereiro de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
Infelizmente, a grande maioria das pessoas que decidem ir viver para o Terreno do Cigano está condenada a uma "noite sem fim", geralmente como resultado de um "acidente". Mas para os recém casados Michael e Ellie Rogers, aquele parece ser o lugar perfeito para começar uma vida a dois.
O casal decide ignorar os avisos sobre uma maldição mortal lançada sobre o terreno. É verdade que acontecem algumas coisas estranhas, mas isso são apenas inconvenientes e não uma maldição. Até que, um dia, ela vai andar a cavalo e não regressa…

Noite sem Fim (Endless Night) foi originalmente publicado em 1967 na Grã-Bretanha, tendo sido editado nos Estados Unidos no ano seguinte. Foi adaptado para o cinema em 1972, com Hayley Mills, Hywel Bennett e George Sanders nos principais papéis.

Cris