O livro relata a vida de pessoas ligadas a essa tragédia, sobretudo Solomon, um sobrevivente da travessia, e Adal que perdeu o irmão no naufrágio.
O adjectivo que o caracteriza é, realmente, impressionante, como já referi. A autora reconstrói o percurso dos migrantes desde os seus países de origem (Eritreia. Etiópia), a sua passagem pela Líbia, pelo deserto, pelo tráfego humano e condições horriveis por que passam até chegar à ilha siciliana. O sofrimento físico e psicológico é tremendo.
A desumanização retratada de forma brutal. Um livro a ler, sem sombra de dúvida. Lê-se com a sensação que não pode ser verdade! Só que não.
"Falava como se estivesse a dar conta de uma qualquer burocracia em falta, um carimbo num papel e pronto, teria logo um passaporte válido que lhe serviria para embarcar para um qualquer país do mundo. Como se um eritreu pudesse comprar um bilhete de avião e sair do país, como se houvesse muitos países a receber eritreus com vistos de turista, como se as autoridades daquele país deixassem os jovens sair assim, sem perguntas." Pág 14
"(...) mas a Eritreia é a Coreia do Norte do continente africano, ninguém sabe o que se passa, só através dos testemunhos de quem foge." Pág 52
"Em Os Que Sucumbem e os Que se Calam, Primo Levi fala disto, da dificuldade que alguns sobreviventes têm em contar todas as partes das suas histórias: vergonha é uma das principais razões e as pessoas adquirem vergonha sem nenhuma razão que possa ser compreendida por quem não viveu um desastre, por quem não foi humilhado, por quem não foi violentado, por quem não sabe o que é sobreviver enquanto outros, em simultâneo ou no espaço de poucos minutos, morrem." Pág 142
Terminado em 23 de Março de 2026
Estrelas: 6*
Sinopse
MEDITERRÂNEO, 3 DE OUTUBRO DE 2013: — O MAIS TRÁGICO NAUFRÁGIO NA ROTA DE IMIGRAÇÃO MAIS MORTAL DO MUNDO, NUM RELATO DA JORNALISTA ANA FRANÇA
Naquela noite sem lua, um barco com cerca de 500 pessoas zarpou da Líbia pelo Mediterrâneo rumo a um qualquer porto na Europa. Naquela noite sem lua, apareceram, ainda assim, outras luzes, de barcos de pesca e navios de resgate das autoridades italianas. Nenhuma se aproximou o suficiente para reparar que aquela traineira velha parada estava a afundar. A bordo, entre as tentativas de pedir ajuda, o pânico fez a traineira virar. Naquela noite que até parecia tranquila, ao largo de Lampedusa, um grupo de amigos despedia-se do verão numa pequena embarcação quando começou a ouvir um som agudo e lamurioso como gritos de gaivotas. Mas não eram gaivotas. Este livro conta a história da sucessão de eventos que levou ao naufrágio de 3 de Outubro de 2013 no Mediterrâneo, resultando em 366 mortes, o mais trágico na história da ilha siciliana que é o território europeu onde chegaram mais migrantes nos últimos 30 anos. Seguimos os passos de Solomon, um dos sobreviventes, e de Adal, que perdeu o irmão nesse dia, ao mesmo tempo que olhamos deste acidente para demasiados outros e deste recanto de Itália para toda a Europa. «Começam a acordar-se uns aos outros e estoira a felicidade a bordo. Voam camisas e sapatos no ar, voam bonés e garrafas de água, as pessoas abraçam-se e gritam e suspiram e limpam as lágrimas para verem melhor o contorno de luz que o farol, com a sua intermitência previsível, vai derramando sobre a salvação tão próxima. Aparece um barco que lança uma luz forte lá de longe. Depois desaparece. Aparece outro, dá a volta à traineira e também desaparece. Sem motor para poder fazer frente à corrente, o barco começa a afastar-se da costa. A montanha de terra que estava perfeitamente desenhada à sua frente, contornos discerníveis, limites precisos, começa a diminuir de tamanho no horizonte. Solomon não entra em pânico, alguém os viu, alguém virá. Mas um burburinho aflito levanta- se das vozes dos passageiros como o vento levanta as folhas secas antes de uma tempestade.»
Cris
































