O luto, a memória e os laços familiares que muitas vezes são complexos constituem o pano de fundo desta história, narrada por uma jovem que vela o avô, gravemente doente. Mergulhando nas suas recordações, as páginas alternam entre momentos presentes e passados. O amor que sente pelo avô e que é plenamente correspondido, as mensagens que relembra que ele lhe deixou durante a sua vida, a aceitação da sua perda iminente, a memória que, acredita, o manterá vivo dentro de si.
"Explicaste-me que há pessoas que nos queimam e outras que nos dão a luz toda." Pág 49
"Mas eu diria que existem dois tempos: o dos relógios e o das memórias. E se os relógios organizam tudo, as memórias fazem o que querem: não podem ser fixadas por um calendário, escapam. Sim sim, têm patas e saltam para onde querem: se nasceram a 1 de Fevereiro, voltam a 3 de abril, a 5 de maio. E não é só isso, aparecem sempre em formatos diferentes: dez anos resumem-se a uma porta a bater, e o beijo de um segundo, à imagem que prolongamos todas as noites antes de dormir." Pag 52
"E mesmo que nos vejamos já feitos, estaremos sempre meio feitos, que morreremos inacabados. E que são as pessoas que nos fazem: há quem nos arrasta para o ódio, quem nos guia para a alegria. E somos um pedaço de barro cheio de marcas." Pag 59
"Amanhã não conseguirei ver que apareceste assim, por acaso, para me dares um ponto de luz. Sim há pessoas que passam para nos levantar do chão e partir. E é tudo, e é tanto." Pág 100
Terminado em 16 de Março de 2026
Estrelas: 4*
Sinopse
Vencedor do Prémio Josep Pla 2023.
A Lei do Inverno é um convite a reconhecer a beleza dos laços intangíveis, a aceitar o ciclo da perda e a escutar o murmúrio daqueles que nos guiam, mesmo quando já partiram.
No silêncio suspenso do inverno, quando as cerejeiras se despem e a casa se enche de suaves ecos, uma jovem vela o avô. Em profunda solidão, discorre entre a memória e a imaginação, descobrindo que as presenças mais profundas são, por vezes, feitas de ausência.
Gemma Ventura Farré tece uma ode delicada ao invisível — aquilo que não se vê, mas que permanece: as vozes que nos sussurram ao ouvido, o amor que resiste ao tempo, a saudade que ilumina os dias e a forma como superamos cada ausência.
Num registo íntimo e mágico, esta é uma história destinada a tocar quem a lê. Celebra a delicadeza, a força do coração e o poder da imaginação, e recorda-nos de que, para renascer, é necessário, antes de mais, deixar ir.
Cris

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