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sexta-feira, 26 de agosto de 2022

"Almoço de Domingo" de José Luís Peixoto

As expectativas eram muito elevadas quando comecei esta leitura. O autor e quem ele retrata nesta obra, acrescentando as várias opiniões positivas que tinha como referência, faziam prever uma leitura espectacular. Embora tivesse gostado, ficou um pouco aquém do esperado. 

Gostei sobretudo das partes em que Peixoto coloca o discurso directo na voz de Rui Nabeiro, para quem ainda não saiba, o retratado nesta obra é dono dos tão famosos cafés Delta. Aí a intensidade da narrativa faz esquecer o sítio onde estamos e mergulhamos mais facilmente nas histórias interessantes e sui generis deste senhor com letra maiúscula. 

Paralelamente com a história da sua vida vai-se descortinando a História de um Portugal com uma população maioritariamente pobre que é prenúncio de vidas difíceis, muitas vezes vividas fora do país, onde se tenta sobreviver com mais dignidade. Viver, quem sabe. 

Várias gerações, vários estados da nação desde 1931 a 2021, desta e da vizinha Espanha, são descritos aqui com mestria. O esforço, a luta contra a pobreza, a determinação de um homem que queria viver melhor e ajudar a terra onde nasceu, fazem deste livro uma leitura muito aprazível. 

Terminado a 12 de Agosto de 2022

Estrelas: 4*

Sinopse

Um romance, uma biografia, uma leitura de Portugal e das várias gerações portuguesas entre 1931 e 2021. Tudo olhado a partir de uma geografia e de uma família.
Com este novo romance de José Luís Peixoto acompanhamos, entre 1931 e 2021, a biografia de um homem famoso que o leitor há de identificar — em paralelo com história do país durante esses anos. No Alentejo da raia, o contrabando é a resistência perante a pobreza, tal como é a metáfora das múltiplas e imprecisas fronteiras que rodeiam a existência e a literatura. Através dessa entrada, chega-se muito longe, sem nunca esquecer as origens. Num percurso de várias gerações, tocado pela Guerra Civil de Espanha, pelo 25 de abril, por figuras como Marcelo Caetano ou Mário Soares e Felipe González, este é também um romance sobre a idade, sobre a vida contra a morte, sobre o amor profundo e ancestral de uma família reunida, em torno do patriarca, no seu almoço de domingo. 

Cris

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"Morreste-me" de José Luís Peixoto

É-me muito difícil falar deste livro. Ele traduz por palavras os sentimentos do autor aquando da morte do seu pai. Saber que é um livro baseado num facto verídico e que, muito provavelmente, foi a forma que o autor encontrou para fazer um pouco do seu luto, torna a minha reflexão um pouco mais difícil. 
    Os sentimentos face à morte de um ente querido são algo de muito particular e cada pessoa sente e manifesta-os  de forma diferente. Posto isto, o que senti ao ler este livro nada tem a ver com o que acabei de dizer, ou melhor, os meus sentimentos face a esta leitura nada têm a ver com o respeito que senti ao mergulhar nos sentimentos de perda do autor.
    A escrita é poética o bastante para eu não me rever o suficiente nela. Não é o meu género de eleição e não me senti confortável ao ler o texto. Está bem escrito, sem dúvida, mas não me senti tocada.
    Sei que muita gente tem este livro como referência e as minhas expectativas eram altas em demasia. Gostei sim mas para ser sincera esperava emocionar-me com esta leitura, o que não aconteceu.

Terminado em 2 de Novembro de 2019

Estrelas: 4*

Sinopse
Morreste-me, texto que deu a conhecer o jovem escritor José Luís Peixoto, é uma obra intensa, avassaladora e comovente: é o relato da morte do pai, o relato do luto, e ao mesmo tempo uma homenagem, uma memória redentora.

Um livro de culto há muito tempo indisponível no mercado português.

Cris

terça-feira, 9 de junho de 2015

A Convidada Escolhe: Galveias

Mais um excelente livro de um jovem escritor português. "Galveias" teve um pré-lançamento em Setembro de 2014, no dia dos 40 anos do autor e é uma homenagem à sua terra natal e ao imaginário rural que marca profundamente a sua escrita.
A acção está balizada entre Janeiro e Setembro de 1984. Precisamente nove meses, o tempo de uma gestação. "Uma coisa sem nome" chega durante a noite a Galveias e vai impregnar o ar da terra, tornando-se omnipresente na vida dos galveenses. O cheiro permanente a enxofre, o sabor amargo no pão são presenças inexplicáveis, sendo o pano de fundo das diversas histórias das personagens retratadas neste livro. "A coisa sem nome" traz uma chuva repentina e inclemente durante sete dias seguidos, a que se seguem nove meses de seca. Para fazer face à imensa seca, o padre Daniel acaba por aceder a um ritual considerado milagroso de fazer uma missa, seguida da distribuição de papas de milho a todos os habitantes, aguardando que se concretize o milagre tão necessário.
"Galveias" é um ciclo de vida, um ciclo que começa com um acto de amor protagonizado pelos Sem Medo e termina com o nascimento de uma menina filha do casal, que restitui aos habitantes a memória do tempo sem o cheiro pestilento a enxofre. "Galveias" é um painel muito vasto de personagens que vivem naquela terra, mas que podem viver em qualquer aldeia ou vila do país.
As personagens e as suas vidas entrelaçam-se ao longo da narrativa, vão desvendando segredos, partilham com o leitor os seus rancores, sonhos, fantasias, fragilidades. Há um tom de dureza nas relações que se estabelecem, os ciúmes, a maledicência própria dos lugares pequenos, a violência física, a tragédia e a morte que pairam sobre Galveias, mas também há lugar para a reconciliação e para o amor improvável, como acontece com Justino e o irmão o senhor Cordato, desavindos durante cinquenta anos ou Rosa Cabeça e Joana Barreta. O carteiro Joaquim Janeiro ligado às memórias da guerra na Guiné, que ciclicamente volta a Bissau onde deixou mulher e filhos, a quem desfia as histórias dos seus conterrâneos, deixando-os presos às suas palavras e para quem Galveias "era um lugar imenso". A professora, uma estranha vinda de fora, cujo voluntarismo é considerado sobranceria e que é "castigada" e violentada. As mulheres que querem o melhor para os seus filhos, mesmo opondo-se aos maridos, ou aquelas que tudo fazem para dar um sentido e uma vida digna aos filhos com incapacidades físicas ou mentais. As prostitutas, seres humanos com emoções, com sentimentos, ignoradas e discriminadas, mas a quem todos recorrem para comprar o pão, o único que consegue não ter o terrível sabor a enxofre que contaminou tudo e todos. Isabella, desejosa de regressar ao Brasil natal, mas irremediavelmente presa a Galveias por amor a um homem. O padre Daniel dominado pelo alcoól e cujas homilias são verdadeiros sermões para si próprio.
E depois há os cães, leais aos seus donos, escorraçados e maltratados, que vagueiam pela terra à procura de uma sombra, de um degrau para descansar, de algum petisco que pode ser a sua morte. Podem ser o único amigo de alguém que vive só, surgem como os únicos que conhecem segredos inconfessáveis e povoam Galveias como verdadeiras personagens.
O nascimento da menina no final do livro é o sinal de esperança na vida de Galveias. "Tinha o cheiro normal das crianças acabadas de nascer. Não cheirava a enxofre". … "Há muitas formas de estar morto". … "A coisa sem nome conservava ainda o seu mistério, talvez nunca viesse a perdê-lo, mas as ruas estavam já cheias de gente a caminhar na sua direcção. Galveias não pode morrer."

Almerinda Bento

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Soltas...

"Precisava de luz, precisava de ar e, por isso, levantou-se e foi ajudar o Galopim. Pensou que lhe bastava chegar e abrir a porta, mas a fechadura recusou o seu jeito. Depois recusou a sua força."

"No céu os pássaros faziam sentido. O Ilídio acreditava num futuro que imaginava imperfeitamente. Avançava dentro dele. Talvez por isso, aquele caminho pareceu-lhe longo, como se atravessasse uma idade."

"O Ilídio avançou pela rua até desaparecer, até ficar só a rua vazia, até parecer que também a rua desapareceu. O Josué fechou a porta e a casa tornou-se definitiva, nenhum lume seria capaz de aquecê-la."

"Arrastavam uma vontade que era cada vez mais difícil de explicar, náufragos de todas as palavras que não diziam, manchas cinzentas a atravessarem campos, a esconderem-se. Entre eles, seguia a Adelaide, pensamentos misturados com mágoa e pó."

"E continuaram. Sem relógio, não eram capazes de prever que a manhã iria nascer daí a uma hora. O negro do céu era tão opaco quanto o mundo que não existia a metros, quilómetros, do lugar onde estavam."

"O Cosme ia ferrado a dormir de boca aberta, o corpo oblíquo à poltrona. O Ilídio tinha ideias que não o deixavam adormecer, eram como pedras bicudas dentro dos olhos. Às vezes, talvez por sugestão, chorava-lhe a vista."

"Essas tardes eram uma muda de ar. Tirando isso, o pó acumulava-se em camadas sobre os livros da mesmo maneira que os dias se acumulavam uns sobre os outros. A Adelaide acumulava tempo e pó, enleava-se nesses materiais."

"O Ilídio e a Adelaide respondiam a perguntas, tinham mãos que se interessavam pelos objectos, mas dentro deles, chegou um silêncio que cobriu e preencheu tudo, como a preparação de uma tempestade."

"A Adelaide desapareceu atrás do chafariz. O Ilídio não temeu o arrulhar das águas e desapareceu no mesmo ponto, atrás do mesmo muro. Quando a Adelaide saiu atrás do muro do chafariz, já uma vírgula iniciara o percurso em direcção ao seu útero."

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Livro


Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 264
Editor: Livros Quetzal
ISBN: 9789725648995
Colecção: Língua Comum

Este livro tem um registo muito diferente do que li anteriormente e, talvez por isso, custou-me um pouco a entrar na história. Mas fiquei rendida ao fim de algumas páginas!

É um livro de uma escrita apaixonante, para ler devagar, para saborear lentamente... Voltei atrás variadíssimas vezes para reler frases lindíssimas que careciam de uma nova leitura, mais atenta.

A história tem como pano de fundo uma situação verificada anteriormente em Portugal: a emigração de muitos portugueses para França, clandestinos, à procura de uma vida que lhes trouxesse mais fartura e menos miséria. Viagem cheia de perigos e dificuldades...

Os livros estão presentes nesta leitura, sobretudo um, que acompanha alguns personagens pela vida fora, mas Livro é o nome de um desses personagens.

Imaginativo, muito bem escrito, com uma poesia toda própria, com um humor que nos faz sorrir interiormente, "Livro" é um livro a ler. Seguramente!


Terminado em 13 de Outubro 2010

Estrelas: 5*

Sinopse

Este livro elege como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França, contada através de uma galeria de personagens inesquecíveis e da escrita luminosa de José Luís Peixoto. Entre uma vila do interior de Portugal e Paris, entre a cultura popular e as mais altas referências da literatura universal, revelam-se os sinais de um passado que levou milhares de portugueses à procura de melhores condições e de um futuro com dupla nacionalidade. Avassalador e marcante, Livro expõe a poderosa magnitude do sonho e a crueza, irónica, terna ou grotesca, da realidade. Através de histórias de vida, encontros e despedidas, os leitores de Livro são conduzidos a um final desconcertante onde se ultrapassam fronteiras da literatura. Livro confirma José Luís Peixoto como um dos principais romancistas portugueses contemporâneos e, também, como um autor de crescente importância no panorama literário internacional.

sábado, 17 de julho de 2010

Não deu...


Pois! Às vezes é melhor não forçar a leitura... muitas da vezes o livro está bem escrito mas há qualquer coisa na história ou em nós mesmos que faz com que não "pegue", não ficamos "dentro" dela... Ao fim de 30 páginas resolvi desistir. Pode ser que noutra altura, noutro lugar ou noutro momento da vida retome a leitura deste livro. Hoje não!

Leitura não terminada

Estrelas: 1

Sinopse


Já tinha sido um dos finalistas ao Grande Prémio de Ficção da APE, e acaba de receber o Prémio Literário José Saramago, atribuído pela Fundação Círculo de Leitores, um prémio para uma obra de ficção de um autor da área da lusofonia com menos de 35 anos, e com o valor pecuniário de 5000 contos.
José Luís Peixoto foi uma das revelações do ano passado e publicou, até à data, três livros: "Morreste-me", "Nenhum Olhar" e, acabado de sair, um livro de poesia, "A Criança em Ruínas". "Nenhum Olhar" será publicado ainda este ano em Espanha e em Itália.

"José Luís Peixoto tem essa qualidade notável: bastam duas linhas, e entramos num continente novo, num lugar inédito do espaço literário. Depois, resta saber até que ponto isto vai ser possível sustentar-se ou desenvolver-se. E neste romance o leitor pode estar certo de que a partir da segunda ou terceira sequência ficamos seguros de que a inclinação é fatal: vamos embater num limite, num muro, num enigma, na origem do mundo e no desastre final, num empolgamento incontrolável dos seres, das palavras, dos sinais, das paisagens, das situações, numa altíssima conjura a que não podemos escapar." Eduardo Prado Coelho, Público "Leituras"