Estefânia é a protagonista desta história e também a sua narradora. É uma personagem fortemente marcada pelo seu passado traumático e é a sua perspectiva dos acontecimentos que conhecemos. Muito facilmente a acarinhamos porque percebemos que esses traumas de infância a marcaram profundamente: o abandono do pai, o desinteresse e o desamor da mãe, as duas irmãs que sendo muito mais velhas a excluiram das suas vidas, e por fim, o caso amoroso que manteve por mais de 15 anos e que a fez prisioneira de sentimentos ......
A narração sendo subjectiva permite-nos conhecer os seus pensamentos, os seus conflitos interiores e é precisamente neles que vamos percebendo a sua dependência face a Artur, seu namorado. Artur é casado, facto que ele refere como sendo temporário... Todos nós já ouvimos histórias destas, não é verdade? E sabemos como elas acabam maioritariamente! Mas o que torna este romance marcante é acompanharmos os pensamentos de Estefânia, a empatia que inicialmente sentimos por ela começa a diminuir no sentido em que ficamos irritados com as suas decisões e com as mentiras que se inflige a si mesma. No entanto, é precisamente aqui que a autora ganha pontos com o leitor: a personagem parece muito humana e real.
Provocando muita reflexão, esta obra está muito bem conseguida. Em causa estão temas como a manipulação psicológica e seus perigos, a perda de identidade, a dependência emocional, a culpa e a baixa auto-estima, as relações tóxicas que se instalam gradualmente. Não existe violência física nesta relação mas a violência psicológica é extrema. Sem querer desvendar como isso acontece, embora o título deixe transparecer um pouquinho, refiro apenas que Estefânia se deixa anular e vive em função do namorado.
A escrita de Filipa é simples, fluída e agarra logo após as primeiras páginas. A tensão é crescente e passa para o leitor. Recomendo.
Só não atribuí 6* porque o final não me pareceu verosímil. Embora ache que traz uma mensagem de esperança e reforça a ideia que o autoconhecimento é necessário para que o indivíduo não perca a sua identidade, houve um facto que não achei, como referi, verosímil.
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ALERTA SPOILER:
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Estefânia "acorda" da sua relação tóxica e vinga-se. Até aí tudo bem. Mata o companheiro. Ok também. Fica impune. Como assim? Faria, a meu ver mais sentido se estivesse a escrever estas suas memórias, presa.
Terminado em 30 de Maio de 2026
Estrelas: 5*
Sinopse
Durante quinze anos, Estefânia viveu entre a promessa e a espera. Apaixonou-se por Artur, um homem casado, e aceitou um amor confinado a um espaço improvável, onde uma parede móvel separa o desejo da mentira.
Quando a mulher de Artur o visita, a parede fecha-se, e Estefânia vê-se reduzida ao lugar invisível da amante, a vida suspensa, acreditando que um dia ele cumprirá a promessa de deixá-la livre — ou de libertar-se. Inspirado em factos reais, este é um romance que toca em feridas íntimas com delicadeza e intensidade. Uma dissecação literária da culpa, do autoengano e das múltiplas formas de submissão feminina.
Da autora de O elevador, já adaptado a filme, e de E se eu morrer amanhã?, livro fenómeno em Portugal e no Brasil que em breve também chegará ao grande ecrã.
Cris

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