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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A convidada escolhe: Em teu ventre

Este romance de José Luís Peixoto decorre em Fátima, no ano de 1917, entre Maio e Outubro. É um livro centrado em Lúcia e em todo o ambiente que se viveu naquela terra desde que a jovem pastora de nove anos afirmou ter visto uma aparição. Lúcia é uma criança do campo que não sabe ler, mas que com a imaginação própria da sua idade faz diálogos com os objectos e com o que a natureza lhe dá.  Educada no seio de uma família religiosa, com uma mãe austera que não admite mentiras nem é muito sensível às brincadeiras das crianças, com um pai mais amigo da taberna do que de casa, tem duas irmãs mais velhas e um irmão prestes a ser recrutado para a guerra em França. As suas brincadeiras com os dois primos também pastores – Jacinta e Francisco – entrelaçam-se com o trabalho no campo e com o cuidar dos animais à sua guarda.
É um livro que perturba porque faz o retrato de um Portugal rural, atrasado, analfabeto, religioso, subserviente. A pobreza tem como contrapartida a caridade como forma de expiação para os pecadores. O analfabetismo e a religião são os ingredientes que moldam as consciências das pessoas no Portugal rural e atrasado de há um século. Os detentores do poder são além do administrador do concelho a Igreja, que tem como missão a subjugação e o condicionamento das pessoas pelo temor, pela culpa e pela interiorização do pecado.
E depois há as mães: a mãe de Lúcia, a mãe do autor, a mãe de Cristo, as mães que estão sempre presentes, mesmo quando não estão, as mães que cuidam, que choram, que trabalham, que não descansam, que acreditam no milagre da cura do filho, que rezam para que o filho seja poupado à guerra, as mães que desculpam as bebedeiras dos maridos, as mães que são as últimas a sentar-se à mesa e a comer porque primeiro é para o marido e os filhos…

(“Todas as pessoas têm direito a descanso, menos as mães. Para cada tarefa, profissão ou encargo há direito a uma folga, menos para as mães. Se alguma mãe demonstrar a mínima fadiga de ser mãe, haverá logo uma besta, ignorante de limpar baba e de parir, que se oferecerá para a pôr em causa. Não é mãe, não sabe ser mãe, não foi feita para ser mãe, dirá. Mas, se todas as pessoas têm direito a descanso, será que as mães não são pessoas? A culpa é nossa. Sim, a culpa é das mães. Deixámos que fossem os filhos a definir-nos.”)

E quem se lembra das mães que antes de serem mães foram meninas?
(“Duvido que sejas capaz de me imaginar com dez anos. Já fui nova, sabias? Quando nasceste, em setembro, eu tinha trinta e dois anos feitos em junho. Talvez consigas suspeitar o que foi para mim ter-te com trinta e dois anos, até acredito nisso. Lembro-me de estares na minha barriga, nos últimos meses era um barrigão, mas tu não és capaz de me imaginar com dez anos, duvido. Não sou essa menina que imaginas quando tentas imaginar-me com dez anos. Fui uma menina que nunca conhecerás.”)

A mãe de Lúcia é forte, austera, receia que as revelações de Lúcia tragam castigos divinos porque para ela são mentiras, não passam de imaginação da filha. O prior acompanha a mãe de Lúcia na descrença das palavras da pequena pastora, mas logo uma outra Maria (da Capelinha), impelida na crença da salvação do filho e focada no desígnio da construção de uma capelinha junto ao local da aparição, movimenta a aldeia e pressiona Lúcia a garantir da veracidade das aparições. Neste jogo do esconde e do empurra, a pobre Lúcia sente-se perdida, confusa, chora, ausenta-se, quer que a deixem em paz, entristece-se, sente-se um joguete. É um joguete. E por que não “construir uma estância rentável, comparável à que existe em Lourdes?”
José Luís Peixoto usa de grande sensibilidade no tratamento desta ocorrência que passou à categoria de milagre e que tem sido analisada de vários ângulos, embora seja corrente e se tenha estabelecido como local de peregrinação e de culto por parte de pessoas crentes provenientes de todo o mundo. O autor não impõe a sua visão, antes nos dá a liberdade de pensar e fazer um juízo sobre como e por que surgiu Fátima e o culto a ela associado.

Dezembro de 2016
Almerinda Bento

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A Convidada Escolhe: Livro

"A mãe pousou o livro nas mãos do filho." Assim começa este romance; está-se em 1948, uma pequena vila do interior de Portugal. Mesmo no final, outra mãe e outro filho, repete-se o gesto, desta vez já na primeira década deste século. O mesmo livro, o livro que temos na mão e que estamos a terminar. Livro recebe o livro.
Há como que um voltar ao princípio, uma história que se repete, um desvendar de um segredo, um deslindar de questões que ficaram por resolver, um passar de um testemunho de uma história muito portuguesa.
O romance tem duas partes muito distintas.
Na primeira, o Ilídio, o Josué, o Cosme, o Galopim e a Adelaide para além da velha Lubélia são as personagens que seguimos numa vila de um Portugal atrasado e pobre. As brincadeiras dos rapazes, os bêbados, os deficientes sem apoios, os bailes onde se trocam os primeiros olhares e bilhetes "Se namorares comigo dou-te um pombo, 100 escudos e um livro", as idas às sortes e as primeiras experiências fora da vila, a repressão sexual, a emigração e os riscos de uma fuga para um país desconhecido, sem dinheiro e sem papéis, à mercê de engajadores sem escrúpulos. Mais tarde, já nos anos 60, o medo da guerra e a ida a salto por Espanha até Paris, a vida nos bidonvilles da grande cidade onde se trabalha e se sonha com a terra distante e com as cartas que nem sempre vêm. Os desencontros, as saudades, o não desistir e acreditar num amanhã melhor, o lutar. Adelaide, cuja felicidade é amputada pela velha Lubélia aspira à liberdade e à independência de viver a sua vida e acaba por cair numa relação de violência psicológica, de controlo, por parte de um homem obcecado e de personalidade doentia. E depois a referência ao Maio de 68 e ao Portugal de 74, altura em que nasce o jovem Livro. O regresso a Portugal, a construção de uma casa, a concretização de sonhos de toda uma vida de trabalho.
Livro é nome de personagem, mas também é o local onde se trocam mensagens, instrumento para estabelecer uma amizade e uma relação, local onde é colocada como marcador uma carta há muito esperada mas nunca entregue, local de segredos. Para Ilídio, a última lembrança da mãe. Para Constantino, os livros são uma obsessão e uma doença.
Na segunda parte do romance, Livro surge em frequentes diálogos com o/a leitor/a, falando directamente e com referências a autores e títulos da sua paixão pelos livros, pela leitura e pela escrita. "Grande parte deste livro que estás a ler foi escrito com a soma do que conservo desses agostos". (…) "Ao longo da escrita deste livro que estás a ler, tenho sentido que gostaria de poder fazer o mesmo com o que sei." (…) "Nas tuas mãos, a vila descansa e Paris é tão longe. Às vezes, penso em ti sem te dizer. Mesmo esses pensamentos invisíveis estão agora nas tuas mãos. Seguras o meu nome. Este livro que estás a ler e que estou a escrever, onde estamos, é exactamente o mesmo que a minha mãe me pousou nas mãos, como na primeira frase. Também esse livro era este. O início também é agora. (…) Agradeço-te por teres aceitado que este livro se transformasse em ti e pela generosidade de te teres transformado nele, agradeço-te pela claridade que entra por esta janela e por tudo aquilo que me constitui, agradeço-te por me teres deixado existir, agradeço-te por me teres trazido à última página e por seguires comigo até à última palavra. Sim, tu e eu sabemos, isto: . Insignificância, pedaço de nada. Interior da letra ó. Mas isso será daqui a pouco. Por enquanto, aproveitemos, ainda estamos aqui. "

Almerinda Bento