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sábado, 30 de junho de 2018

Na minha caixa de correio

  
  

Comprados em segunda mão:
Quando o Céu Caiu e A cidade dos Aflitos
Oferecido por uma amiga, Antes de Adormeceres.
Oferta da Editorial Presença:
O Lutador de Sumo Que Não Conseguia Engordar e Beloved
ATENÇÂO!Há passatempos no blogue e estes dois livros estão a ser sorteados também!

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Passatempo 8º Aniversário / Gonçalo Dias (autor)



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Passatempo 8º Aniversário / Vieira da Silva


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Passatempo 8º Aniversário / Arte Plural


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Passatempo 8º Aniversário / Marcador


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Passatempo 8º Aniversário / Presença


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Passatempo 8º Aniversário / Saída de Emergência


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Passatempo 8º Aniversário / Clube do Autor

 

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Passatempo 8º Aniversário / Planeta

 


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Passatempo 8º Aniversário / Bizâncio



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Passatempo 8º Aniversário - "O Tempo entre os meus Livros"


Mais um ano que passou e mais um mega passatempo aqui n'O Tempo Entre os Meus Livros! Para celebrar mais um aniversário do blogue, com o apoio de algumas editoras parceiras, temos para sortear alguns livros a que corresponderão horas de leitura agradáveis para os vencedores...

Assim, as regras são muito simples:

1) O passatempo decorre até ao dia 15 de Julho;

2) Devem enviar um mail para otempoentreosmeuslivros@gmail.com, tendo como assunto o título do post do passatempo relativo a cada editora para que concorrem. Ex: "Passatempo 8º Aniversário /  Presença"

3) Só podem participar uma vez com um mail por cada post/editora; sendo nove passatempos poderão fazê-lo nove vezes;

4) Devem mencionar o nome, morada e nick do seguidor do blogue;

5) Os vencedores serão contactados via e-mail.

6) O blogue e as editoras não se responsabilizam por qualquer extravio por parte dos CTT aquando do envio dos livros. Como o periodo de férias está próximo os vencedores deverão mencionar, atempadamente e quando forem contactados, caso desejem que o envio seja efetuado mais tarde.

Agradeço em especial às editoras que colaboraram neste mega passatempo, a saber:

Bizâncio, Planeta, Clube do Autor, Saída de Emergência, Presença, Marcador, Arte Plural, Vieira da Silva e ainda o autor Gonçalo Dias.

Os livros a sortear serāo:

Bizâncio
- O Terceiro País de Joan London

Planeta
- Espero por Ti na Próxima Tempestade de Yves Robert
- Todos os Dias são meus de Ana Saragoça

Clube do Autor
- A Ilha dos Segredos de Nadia Marks 
- As Sombras de Leonardo Da Vinci de Christian Galvéz

Saída de Emergência
- Equilíbrio de Mafalda Rodrigues de Almeida

Presença
- Beloved de Toni Morrison

Marcador
- O Lutador de Sumo que não Conseguia Engordar de Eric-Emmanuel Schmitt

Arte Plural
- Praias Escondidas - Lisboa de Robert Butler e Andy Mumford

Vieira da Silva
- Se Vier Vento do Norte, Chove de Fernado Rui da Clara Maria

Gonçalo Dias (autor)
- O Bom Ditador II de Gonçalo Dias

Alma dos Livros
- A Biblioteca dos Livros Proibidos 


BOA SORTE A TODOS!

Cris

terça-feira, 26 de junho de 2018

A escolha do Jorge: "Depois do Divórcio" e "Marianna Sirca"


“As lágrimas toldavam-lhe os olhos: e quem sabe se ela não se comovia mais com a recordação do passado do que com a ideia do futuro eterno?” 
(In “Depois do Divórcio”, p. 138)

“(…)Antes viver na certeza da dor do que na humilhação da incerteza e da esperança vã.” 
(In “Marianna Sirca”, p. 169)

A Sibila Publicações é uma das mais recentes editoras que surgem em 2018 no panorama editorial português, apresentando um catálogo que aposta, atendendo aos títulos já disponíveis nas livrarias, em temas da actualidade, mas com um grande enfoque no papel da mulher na luta pela igualdade de direitos, no contexto do longo caminho que tem sido a emancipação.

Entre os vários títulos publicados, o presente texto abordará as duas obras da italiana, Grazia Deledda (1871-1936), tendo sido a segunda mulher a ser galardoada com o Nobel de Literatura, em 1926, a seguir à sueca Selma Lagerlöf, em 1909.

Grazia Deledda, natural da Sardenha, é ainda uma escritora pouco conhecida dos leitores portugueses e, no entanto, com um contributo enormíssimo, tanto no que concerne ao papel da mulher na sociedade contemporânea, ainda que, no caso específico destas duas obras, se reportem a um microcosmos social com reminiscências ancestrais que aludem a ecos da sociedade homérica, paternalista, filtrada pelo Cristianismo e que avança timidamente rumo à modernidade. A própria insularidade funciona como guardiã desses valores e cultura ancestrais que se reflectem também nos usos e costumes linguísticos, sem dúvida uma das marcas e contributos de Grazia Deledda.
 

“Depois do Divórcio” (1902) e “Marianna Sirca” (1915) podem, em conjunto, apresentar-se como duas faces da mesma moeda, assim como, as personagens principais, Giovanna Ledda e Marianna Sirca, poderiam ser uma e a mesma pessoa, quer pelos valores por que se debatem, pela sua força e energia que transmitem, assim como pela sua atitude perante a ideia grega de destino ao qual ninguém escapará e que a consecução dos actos se traduz na concretização desse mesmo destino.

Nas duas obras, a ideia de destino surge ligada à ideia de amor, à necessidade de que o destino só se concretiza quando existe a possibilidade de consumar o amor.

Do mesmo modo que as duas personagens femininas podem ser apresentadas como uma e a mesma pessoa, também, no caso dos dois amados, Costantino Ledda (marido) em “Depois do Divórcio” e Simone Sole (pretendente) em “Marianna Sirca” surgem em contexto análogo, o primeiro, encarcerado, vítima da acusação injusta sobre a morte de alguém, o segundo, vivendo a monte, como um bandido, acusado igualmente de crimes que não cometeu. Costantino Ledda vê-se privado da sua liberdade; Simone Sole, vive a sua liberdade, mas apartado do tecido social que o persegue.

O amor constitui o laço indiscutível de união e ligação entre estes dois casais que se vêem privados desta partilha, contudo, em “Depois do Divórcio” e “Marianna Sirca”, as duas mulheres sentem-se completamente sozinhas, abandonadas e até asfixiadas face à pressão das famílias e amigos no que respeita à ideia de, no primeiro caso, o casamento ser dissolvido por via do divórcio e, neste caso em particular, trata-se da primeira obra literária em que declaradamente este assunto é abordado, e no segundo caso, a pressão que existe para o fim da relação de modo que não chegue a ser consumada pela via do casamento.

Aparentemente, o leitor poderá ser levado a pensar que tanto Costantino Ledda como Simone Sole são apresentados como homens fracos e que vivem como sombra destas duas mulheres. A questão é que, em ambas as obras, estes dois casais são apresentados como fortemente apaixonados, casais ideais, cuja ligação aconteceu livremente, de forma espontânea, por via do amor. É o amor que está na base de ambos os romances de Grazia Ledda sendo, pois, a fonte viva não só de ambas as relações, mas também a garantia de concretização e consumação do próprio destino, termine ele com um happy end ou de forma trágica. A questão é que em ambos os romances o amor, a chama do amor é vivido e levado às últimas consequências quando todos os personagens à volta destas duas mulheres se apresentam, na verdade, como fortes oponentes e nunca como adjuvantes, o que reforça a ideia clássica de destino que está acima de qualquer ordem divina, mas sempre aliado a uma forte experiência sacrificial.

Em ambas as obras, Giovanna Era e Marianna Sirca são apresentadas, em certa medida, como a Penélope que durante, anos a fio, faz e desfaz o sudário, iludindo os seus pretendentes.

“Depois do Divórcio” e “Marianna Ledda” apresentam-se desta forma aos leitores portugueses dando assim a conhecer uma escritora italiana que é herdeira de uma riquíssima cultura por via dos povos que durante séculos ocuparam a Sardenha, traduzindo-se através do recurso a uma linguagem que também tem ecos de um passado longínquo e que, progressivamente, se tenta impor na contemporaneidade, trazendo valores ancestrais, mas também as lutas e os desafios da sociedade face à emancipação feminina, mas também ao tema da justiça no geral.

Excertos:
"— Uma profunda corrupção rói quase todos os condenados, muitos dos quais são verdadeiros criminosos cheios de vícios. Até o ar é pestilento. O homem que é tirado da sociedade, privado de liberdade, no local do cumprimento da pena enlouquece completamente, perde todo o senso moral, torna-se mentiroso, vil, feroz, corrupto até à inconsciência da corrupção." (In “Depois do Divórcio”, p. 72)

"Uma vez um caçador encontrou lá um veado com chifres de ouro. Disparou e matou-o. Ao morrer, o veado lançou um grito humano e disse: «A penitência acabou.» Julga-se que no corpo dele havia uma alma humana que se encontrava a expiar os seus pecados. Foi então erguida uma cruz." (In “Depois do Divórcio”, p. 112)

“- Marianna, Marianna! Tu falas como uma criança!
- E sou velha, pelo contrário, é o que tu queres dizer! Sim, sei-o bem; é este o meu mal.
- O teu mal tem-lo aqui – disse a criada tocando na testa com um dedo. – E depois tu estás demasiado ociosa. É preciso sermos pobres e sermos forçados ao trabalho para moer bem os dias da vida.
- E tu moeste-los bem? De que maneira? Como o jerico em volta da mó; por conta de outrem. Deixa-me moer os meus por minha conta. Ora bem, é assim que eu gosto – repetiu alto, endireitando-se e batendo com as mãos nos joelhos. – Quero conhecer a desgraça, sim! Sei tudo, não tenho os olhos vendados. Prevejo a ira dos parentes, os mexericos de todo o povo; mas isto não é nada. Ele será talvez condenado: é esta a minha mágoa. E é este o pão amargo que eu ambiciono: contanto que fiquem salvas a minha alma e a sua para a eternidade.” (In “Marianna Sirca”, pp. 109-110)

Texto da autoria de Jorge Navarro

segunda-feira, 25 de junho de 2018

"Tenho de Saber" de Karen Cleveland

Recebi este livro da editora Planeta sem estar à espera e, quando li a sinopse e vi que se tratava de um livro com espiões "à mistura", torci um pouco o nariz porque não sou grande apreciadora deste género literário. Falando bem depressinha, pensei que fosse uma leitura aborrecida... Mas não podia estar mais enganada! 

Posso afirmar que fiquei presa à sua trama logo nas primeiras linhas. Vivian e Matt estão casados há 10 anos e têm 4 filhos. Estão felizes juntos. Viv trabalha para o FBI, investiga "células adormecidas", espiões russos que estão infiltrados por toda a América. Em casa fala muito pouco do seu trabalho. Não o pode fazer: é segredo. Um dia, pesquisando num ficheiro onde conseguiu entrar, decobre a foto de alguém que lhe é muito querido e que é, supostamente, um espião russo infiltrado. 

Todo o livro gira à volta do seu drama, das suas dúvidas sobre se deve ou não comunicar aos seus superiores o que descobriu e sobre as suas desconfianças. O leitor, acompanhando os pensamentos de Vivian (neste caso, euzinha!), tomba para um lado e, no momento seguinte, a sua opinião dá uma volta de 180 graus e passa a ser diametralmente oposta. Gostei deste acreditar/desconfiar contínuo que se prolonga durante todas as páginas deste livro e que faz com que o leitor não saiba em que acreditar... Se não me engano, vai ser isso que vos vai acontecer e irão chegar ao final do livro bastante confusos.

E o final é bastante surpreendente! Espectacular, mesmo! Quase me fez acreditar que preferia rasgar a última folha para, assim, poder sossegar! Mas não o podia fazer mesmo! É essa folha que nos deixa inquietos e que faz valer em dobro esta história!

Muito bom! Recomendo!

Terminado em 20 de Junho de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
Ao perseguir uma célula de agentes russos adormecidos em território americano, uma analista da CIA descobre um terrível segredo. Vivian Miller é uma dedicada analista de contra-espionagem que tem por missão descobrir os chefes das células de agentes adormecidos a operar nos Estados Unidos.

Ao aceder ao computador de um possível operacional russo, Vivian tropeça num ficheiro secreto sobre agentes infiltrados em território americano. Depois de mais alguns cliques, tudo aquilo que para ela é importante - o trabalho, o marido e até os quatro filhos - se encontra ameaçado.

Karen Cleveland, a autora do fenómeno editorial do momento, trabalhou para a CIA como analista durante oito anos, os últimos seis ligados ao contraterrorismo.

Cris

sábado, 23 de junho de 2018

Na minha caixa de correio

  

 

Ofertados pelas editoras parceiras:
- 999+1 Piadas Secas, Manuscrito
- Chama-me Pelo Reu Nome, Clube do Autor,
- Os Crimes Inocentes, Planeta,
- Três Filhas de Eva, Quetzal
- Confia, Matéria Prima

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A Escolha do Jorge: "Fuga Sem Fim"



“Fuga Sem Fim”
Joseph Roth
(Sistema Solar)

“Neste mundo, a pobreza constituía desumanidade, fraqueza, loucura, cobardia e vício” (p. 132)
Uma das alegrias em 2018 é o facto de as obras de Joseph Roth (1894-1939) se encontrarem nas apostas de algumas editoras, tais como “Confissão de um Assassino” (Cavalo de Ferro, em Janeiro), “A Marcha de Radetzky” (Nova Vega, em Abril) e “Fuga Sem Fim” (Sistema Solar, em Maio), obra relativamente à qual tentaremos registar algumas ideias.
Natural da Galícia Oriental, Joseph Roth contou com uma vida curta e sempre a debater-se com as questões relacionadas com o desenraizamento, bem como a influência da cultura judaica na Europa Central e de Leste e também a própria identidade europeia.
O autor ficou conhecido pelos seus contos, novelas, romances e ensaios e em nenhum dos registos se pode dizer que se tratasse de um autor menor, bem pelo contrário. Mergulhar na escrita de Joseph Roth é vivermos o que de melhor a literatura produziu no século XX, não esquecendo o reviver ou o reacender a importância de uma cultura que constituiu parte da identidade europeia.
Herdeiro da tradição e cultura judaicas, as obras de Joseph Roth decorrem num perpétuo limbo entre a realidade e a fantasia, tendo uma forte orientação ético-moral nas suas histórias. Poderíamos até afirmar que algumas das narrativas do autor reflectem em certa medida um carácter profético, não só no rumo que a Europa tomou após a 1ª Grande Guerra (1914-1918), mas também a sua própria vida. Em última instância, algumas das interrogações que colocamos actualmente em matéria de políticas que são levadas a cabo, encontram-se de forma bem visível e até marcante nesta “Fuga Sem Fim”.
Franz Tunda é a figura central de “Fuga Sem Fim”, apresentando-se como um personagem camaleónico atendendo à sua capacidade de sobrevivência numa Europa assolada pela guerra. Primeiro-tenente do exército austríaco, Franz Tunda é feito prisioneiro pelos Russos, em 1916, conseguindo fugir, em 1919, com a ajuda de um polaco, forjando a sua identidade com o nome de Baranowicz.
A partir de então, Franz Tunda, com a ajuda do polaco, consegue infiltrar-se na Rússia que, à data de debatia com a guerra civil, sangrenta, que opunha burgueses (brancos) a bolcheviques (vermelhos), numa época em que a revolução recebia as orientações e o comando de Lenine.
Franz Tunda envolve-se com a facção bolchevique e vê-se a defender uma ideologia como nunca o fizera em Viena antes da guerra. Debate-se pelo proletariado miserável que é continuamente esmagado pelos burgueses. Tunda envolve-se com Natacha, uma mulher que vive a revolução e a guerra civil de uma forma que transpõe os princípios para a relação. “Como Tunda não lhe interessava como marido, era escusado desprezá-lo. Não era outra coisa se não um camarada com igualdade de direitos.” (p. 42) A par desta relação atípica, Tunda deslocou-se para Baku, no Azerbaijão, a fim de exercer funções num instituto científico.
Apesar de os seus discursos serem inflamados e ser detentor de uma capacidade persuasiva, Tunda “possuía mais energia vital do que a revolução necessitava na altura.” (p. 67), talvez, em função disso, tenha acabado por abandonar a Rússia. “No fundo, era um europeu, um «individualista», como dizem as pessoas cultas. Ele necessitava de relações complexas para viver a vida. Ele precisava de uma atmosfera de mentiras intrincadas, de ideais falsos, de saúde aparente, de mofo duradouro, de fantasmas pintados de vermelho, da atmosfera dos cemitérios, que aparentam salões de baile, ou fábricas, ou castelos, ou escolas, ou salões. Ele necessitava da proximidade dos arranha-céus, cujo desmoronamento se adivinha e cuja estabilidade está garantida para durar séculos. Ele era um «homem moderno».” (p. 67)
Tunda regressa à Europa, passando por Viena, Berlim e Paris, numa época de crescimento económico, no pós-guerra, e com uma sociedade que procura viver intensamente o tempo perdido, aproveitando as novas tendências, fomentando, uma vez mais, a sociedade de consumo. É neste intermezzo que Tunda se apercebe do oco que lhe pareceu a ideologia por que se debateu, anteriormente, na Rússia, durante um ano e meio. “Há uns dias, conheci uma mulher. É uma escritora e comunista. Casou-se com um comunista romeno, igualmente um escritor, que me dá a impressão de ser um indivíduo sem talento e estúpido, mas que é suficientemente esperto para esconder a sua estupidez na ideologia comunista e justificar a sua preguiça com a política. Este casal vive de subsídios de um tio capitalista, um banqueiro, e de artigos que escreve para jornais radicais. A mulher usa sapatos de salto baixo e escarnece da sociedade que a alimenta.” (p. 105)
O outro ponto com que Tunda se debate é o facto de não ter trabalho e como tal, tem fracos rendimentos, mas a questão tem mais que ver com a forma com que a sociedade se passou a organizar que nem sempre o dinheiro advém do fruto do trabalho e, então, poderia ser um parasita da sociedade porque poderia auferir uma boa maquia sem ter necessidade de trabalhar em vez de passar a ser encarado como um fantasma da sociedade. A passagem a este respeito é lapidar, mantendo-se actual, à luz da sociedade que evoluiu até aos nossos dias, passado quase um século após a edição do livro. “Além disso, já é altura de eu ganhar alguma coisa. Nesta ordem mundial, não é importante que eu trabalhe, mas é tanto mais necessário que eu ganhe dinheiro. Um homem sem rendimento é como se fosse um homem sem nome ou uma sombra sem corpo. É como se fosse um fantasma. Não é nenhuma contradição ao que eu disse anteriormente. Não tenho nenhum sentimento de culpa da minha inactividade, mas sim do facto de a minha inactividade não me dar dinheiro, enquanto que a inactividade de todos os outros é bem paga. O dinheiro em si concede o direito de existir.” (p. 106)
Mas o absurdo dos absurdos, é quando Tunda se apercebe, em Paris, no seu regresso da Rússia, que ao contrário da ditadura do proletariado que gradualmente se impunha naquela região do mundo, naquela que é a capital do mundo civilizado, assiste-se precisamente ao contrário, perseguem-se os trabalhadores, apercebendo-se que a riqueza se encontra, afinal de contas, mal repartida. “Tunda ainda não conhecia a Europa. Durante um ano e meio lutou por uma grande revolução. Mas só aqui é que se lhe tornou claro que não se faziam revoluções contra uma «bourgeoisie», mas sim contra padeiros, empregados de mesa, contra pequenos comerciantes de hortaliça, minúsculos talhantes e empregados de hotel sem poder.
Nunca temera a pobreza, pois mal a sentira na pele. Mas na capital do mundo europeu, donde emanam os pensamentos da liberdade e os seus cânticos, viu que não se consegue nem sequer uma côdea do pão de borla. Os mendigos têm os seus benfeitores muito bem determinados e de cada coração caridoso a cuja porta batemos vem a resposta que é: Está já ocupado!” (p. 130)
Mas Joseph Roth vai mais longe no que concerne à sua visão ou antevisão daquilo que se tornou a Europa, muito depois da 2ª Guerra Mundial, até aos nossos dias. As ideias existem, muitas até, mas o que é afinal a “cultura europeia” e a “comunidade europeia”? Quais são os valores que subjazem à construção da Europa que, atendendo a “Fuga Sem Fim” se reportaria ao 1º após-guerra? Mas podemos colocar estas mesmas questões depois da experiência da constituição da CEE/UE, no 2º após-guerra? Joseph Roth responde através de Franz Tunda, com as seguintes palavras: “Os senhores querem (…) manter uma comunidade europeia, mas para isso têm primeiro de criá-la. Pois, essa comunidade não existe, caso contrário, ela saberia por si só como manter-se. Parece-me duvidoso que seja possível criar-se o que quer que seja.” (p. 125)
Em jeito de conclusão, Franz Tunda conheceu de perto as duas realidades que se opõem entre si, tendo ficado o mundo dividido política e economicamente durante décadas. Franz Tunda acabou por não se identificar com nenhuma das ideologias. “Não havia ninguém no mundo inteiro que fosse tão supérfluo como ele.” (p. 151)
Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 19 de junho de 2018

A Convidada Escolhe: As Vinhas de La Templanza

Não são muitas as vezes que fico sem palavras com um livro. Um livro que supera todas as minhas mais auspiciosas expectativas numa semana de férias planeada para algumas leituras e dou por mim enredada apenas numa. E completamente envolvida. Rendida a uma personagem que me arrebatou. Um mineiro duro, audaz e temerário. Um aventureiro que procura noutras latitudes recuperar a sua fortuna. "Para o Oriente, as Antípodas, a Terra do Fogo, os mares do Sul." (pag. 483) México, Cuba e Espanha. Locais dispares que deixaram de existir e que foram reconstituidos com precisão e encanto. Uma piscadela de olho ao passado num jogo crucial (de bilhar) de mentiras e verdades, de paixões, derrotas, maquinações e amores frustados, em que intervêm duas mulheres prodigiosas e rivais. Corajosas, arrogantes e descaradas, assim são Carola e Soledad. As personagens ganham vida neste grande romance que lembra os grandes clássicos de outros tempos num tributo aos mineiros e adegueiros.

Muito mais poderia acrescentar sobre os cenários com atmosferas e ambientes que segui ávida ou sobre a movimentada e vigorosa trama que na magistral prosa fluí com graça e sensibilidade, sem quebras, até que no final deixa um vazio na alma. Um romance que me deixa a clamar por mais romances assim, pelo que tenho de procurar ler "O Tempo Entre Costuras".

Posto isto, não deixem de ler!

Vera Sopa

segunda-feira, 18 de junho de 2018

"A Carruagem Dos Orfãos" de Pam Jenoff

Há livros que nos preenchem. A capa, o título e a sinopse deste livro fizeram-me ter a certeza que o leria em breve e com muito gosto, tendo quase a certeza que me encheria o coração, pese embora tenha sentido que o tema não seria fácil. Esta história, mesmo sendo ficcionada, acrescentou algo aos relatos que li anteriormente acerca do Holocausto, o que me muito me apraz sempre. No final da leitura, saber qual ou quais factos inspiraram a autora e os que aconteceram na realidade, constituiu uma surpresa que não quero revelar nem fazer-vos perder, ao contá-la aqui. Foi um factor que me deu a sensação de saciedade ao terminar o livro, o saber que aspectos desta história ficcionada foram, de facto, verdade.

A história aconpanha uma "família" circence na sua luta por caminhar entre a Segunda Guerra, sobreviver e continuar com os espectáculos. Pode parecer que, no meio do caos em que se vivia, o circo não tinha o seu lugar, mas não foi bem assim. O circo servia para distrair, para acreditar que um dia a vida ainda poderia ser possível e também... para esconder pessoas, neste caso judeus.

Um livro que recomendo sem reservas, que me comoveu e preencheu algumas horas com uma leitura absorvente e (não fosse o tema tão pesado) feliz!

Terminado em 13 de Junho de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
A Carruagem dos Órfãos é um romance poderoso sobre a amizade, tendo como pano de fundo um circo durante a Segunda Guerra Mundial.

Duas mulheres extraordinárias e as suas histórias angustiantes, de sacrifício e sobrevivência.

Noa, de 16 anos, fica grávida de um soldado do exército nazi e é forçada a desistir do seu bebé recém-nascido. Vive no piso superior de uma pequena estação ferroviária, a troco de limpezas... Quando descobre dezenas de crianças judias amontoadas num vagão cujo destino é um campo de concentração, ela não consegue deixar de pensar no filho que lhe foi retirado.

E, num momento que mudará a sua vida para sempre, agarra numa das crianças e foge com ela pela noite fora sob um forte nevão.

Acaba por encontrar refúgio num circo alemão, onde tem de aprender números de trapézio para poder passar despercebida, não obstante o azedume de Astrid, a trapezista principal. A princípio rivais, Noa e Astrid em breve criam poderosos laços de afecto entre si. Mas como a fachada que as protege se torna cada vez mais ténue, elas têm de decidir se a amizade entre ambas é suficiente para se salvarem uma à outra - ou se os segredos que guardam deitarão tudo por terra.


Para saber mais sobre este livro, aceda ao site da Editorial Presença aqui.

Cris

sábado, 16 de junho de 2018

Na minha caixa de correio

  

  

  

  

    


Comprado na Livraria Barata, em saldos: Três Chávenas de Chá;
Comprados na FLL: Na Boca do Lobo, A Denúncia, O Samurai Negro, Stalker, Não te Mexas, A Amante Holandesa e Rakushisha. Livros do Dia e Hora H.
Dos passatempos do JN: Submersos, Guerra Americana,
Oferecidos pelas editoras parceiras:
-Uma Herança de Amor, Marcador Editora,
-A Mulher de Einstein, TopSeller;
-O Anjo da Guarda, Planeta;
-A Seguir, Porto Editora;
- Os Princípios da Medicina Tradicional Chinesa, Arena

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Escolha do Jorge: “A Senhora Koula”


“A Senhora Koula” – Ménis Koumandaréas (Vega)

“Via-se a si mesma como uma vítima da auto-ilusão, tinha-se deixado levar pela sua imaginação, no seu espírito tinha construído uma pura imagem ficcional do jovem.” (p. 61)

A escolha “A Senhora Koulas” do grego Ménis Koumandaréas (1931-2014) surge na sequência da realização da Noite da Literatura Europeia que teve lugar, em Lisboa, no passado Sábado. Trata-se de uma narrativa breve que traz ao leitor o confronto entre uma ordem social cristalizada no tempo sedimentada por anos de ditadura e a nova realidade que então espreitava, com a instauração do regime democrático, na Grécia, em 1975.

A narrativa não faz alusões a questões de ordem política, no entanto, tendo em consideração que foi escrita, em 1975, permite ao leitor perceber as tentativas de libertação da personagem principal, sobretudo, no que concerne à emancipação feminina, mais não seja como forma de viver intensamente uma relação de carácter físico em detrimento de um casamento infeliz, representando, ao mesmo tempo, todo um quadro mental da sociedade ateniense dos anos 70.

Esta novela ou este conto de Ménis Koumandaréas resume-se essencialmente a dois personagens: a senhora Koula, uma mulher casada com cerca de 40 anos, com duas filhas, um estatuto social que permitia ter uma qualidade de vida acima da média, e Mímis, um jovem universitário de 21 anos que aguardava uma bolsa de estudos para ir estudar para Inglaterra.

É no metro que diariamente a senhora Koula e Mímis se conhecem, por mero acaso, sempre no comboio das vinte horas, quando um regressava do trabalho e o outro do curso de inglês. Numa época em que não havia internet, nem smartphones, nem outro género de recursos tecnológicos, são os jogos sedutores com os olhos através do reflexo da janela, os sorrisos, a coragem para dizer olá e adeus que ganham expressão na narrativa. O leitor é rapidamente seduzido pelo jogo linguístico de Ménis Koumandaréas que nos envolve nesta relação entre uma mulher casada e um rapaz muito mais jovem.

A senhora Koula vai gradualmente fazendo o balanço da sua vida, sentindo que nada tem a perder face a um casamento sem sentido, no qual embarcou e do qual acabou por ignorar e reprimir a fonte de desejo e impulso sexual, acabando por manter o casamento e as aparências pelo facto de ter duas filhas menores. No seu entender, esta possível relação “seria como uma conspiração secreta, uma pequena revolução contra os hábitos e as convenções.” (p. 32)

Sempre muito preocupada com Mímis, a senhora Koula estabelece com este uma relação íntima durante vários meses, mas sentindo uma necessidade imensa de o proteger, como se fosse uma das suas filhas. Completamente atraída por Mímis, a senhora Koula embarca numa viagem em que se deixa seduzir pela beleza de Mímis ao ponto de misturar o coração com a racionalidade. “Sou belo, diz-me que me achas belo, suplicou-lhe como uma criança. Muito, disse a senhora Koula, mais do que devias, cada vez que te vejo nem sei onde ponho os pés; perco-me, tudo em meu redor se dissipa…” (p. 56)

E eis que a senhora Koula chega a uma encruzilhada. O que vai acontecer a partir desta relação física avassaladora nunca vivida anteriormente? Que futuro terá? O que poderá esperar?

Mímis aguarda a qualquer momento a bolsa de estudos que o levará para Inglaterra. A simples ideia da sua partida deixa a senhora Koula num premente estado de inquietação, voltando a recordar que, pouco tempo depois de se ter casado solicitou a ajuda de um amigo advogado para que, conjuntamente, tratassem do divórcio, porém, acabou por resistir quando lhe é dito “Ora Koula, estás a portar-te como uma menina de escola, ninguém é suposto estar apaixonado pelo marido ou pela mulher, o casamento é apenas uma questão de hábito, e é melhor que te acostumes à ideia; a felicidade é isso, ainda não percebeste, minha parvinha, ainda não aprendeste?” (p. 48)

Mas a diferença de idade faz a senhora Koula olhar com os olhos da razão, sentir o amor e o prazer de uma forma que os jovens ainda não têm capacidade face à necessidade permanente dos jogos da carne e será aí que a senhora Koula encarará Mímis e esta relação com outros olhos.

“Muitas vezes tinha mais prazer em esperar pelo Mímis do que propriamente o encontrar no comboio. E a visão dele, reclinado de um modo descuidado no assento, com as suas calças familiares de botões de metal, excitava-a mais do que as horas passadas na cama de casal, no quarto da cave. Deste modo, os intervalos entre os seus encontros estavam repletos de um contentamento muito mais intenso do que tudo o que ela sentia durante o tempo que passavam juntos. Expectativa e recordação, o futuro e o passado investidos pela mesma fascinante aura. Já não era capaz de desfrutar do presente. E a sua vida decorria assim, prisioneira deste ritmo quebrado e angustiado.” (pp. 62-63)

“A Senhora Koula” é, pois, uma obra que do ponto de vista político, social e o quadro mental, em tudo se aproxima da Lisboa dos anos 70. Este livro publicado no Portugal de então provocaria um certo desconforto e repúdio face ao forte conservadorismo ainda latente na forma de pensar dos portugueses. Em todo o caso, “A Senhora Koula” constitui um hino à emancipação feminina no que concerne ao amor e à sociedade em geral, tentando gerir com sensatez o coração e a razão e mesmo que o coração fale mais alto, a razão será, na medida do possível, um farol na libertação, como no encontrar-se a si mesmo ainda que o regressar a casa seja sinónimo de não chegar a lado nenhum…
“A viagem para casa parecia-lhe interminável. Uma longa e árdua Odisseia. Seria sempre assim, todas as noites, a partir de agora?” (p. 76)

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 12 de junho de 2018

"A Trança" de Laetitia Colombani

Esta leitura constituiu para mim, sem sombra de dúvidas, um imenso prazer! Fui atraída primeiro pela capa (uma rapariga indiana?) e depois pela sinopse. Com isso passei este livro para primeiro lugar porque fui convidada para o Meet & Greet com a autora no espaço da Porto Editora, na FLL (sobre o qual já fiz um post)  e queria ir já com a leitura adiantada...

Li-o num ápice, este livro. Aborda a vida de três mulheres que vivem em continentes diferentes, com histórias de vida que de tão diferentes entre si despertam automaticamente o interesse do leitor. Smita, Giulia e Sarah. Índia, Sicília e Canadá, respectivamente.

Creio que a história de Smita foi a que mais me impressionou, pela diferença de costumes, pela discriminação a que as mulheres das castas mais baixas são sujeitas. Não foi por desconhecer tais factos, mas porque ler de novo, doi como se fosse a primeira vez! Como são diferentes as suas histórias e, no entanto, como se tocam na coragem, na força e no amor que sentem por elas próprias e pelos seus filhos/familiares mais próximos!

São histórias que decorrem em paralelo, vidas que não se cruzam. Pelo menos conscientemente elas não dão conta disso. Que ligação existirá entre elas? 

Um livro fabuloso que adorei ler! Recomendo sem reservas!

Terminado em 8 de Junho de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
Smita, Índia. Intocável, Smita vive uma existência miserável, ostracizada por toda a sociedade. Mas Smita sonha com uma vida melhor para a sua filha e, num gesto de coragem e esperança, oferece o que de mais valioso tem em troca de dinheiro e da possibilidade de melhorar a sua vida.

Giulia, Sicília. O pai de Giulia acabou de morrer deixando-a com a terrível decisão de vender ou modernizar a loja de perucas que ele geria. Giulia decide-se pela segunda opção e irá investir em cabelo verdadeiro para as suas perucas.

Sarah, Canadá. Advogada de meia-idade, Sarah descobriu que sofre de cancro da mama e perde o cabelo durante os tratamentos. Finalmente, decide que precisa de uma peruca para reconquistar a autoconfiança.

Cris

segunda-feira, 11 de junho de 2018

A Escolha do Jorge: “O Mar”



“O Mar” – John Banville (Sextante)

"Na realidade, uma pessoa quase podia reviver a sua vida desde que fosse capaz de fazer o esforço necessário para convocar as recordações."

Premiado com o Man Booker, em 2005, “O Mar” do irlandês John Banville (n. 1945) regressa novamente às livrarias através da edição recente da Sextante, cuja linha editorial conhece neste momento um novo fôlego.

“O Mar” é um romance extraordinário, profundo, denso e de uma complexidade que nos abala desde as primeiras páginas. A escrita elegante e intimista de John Banville traduz-se nesta obra singular e de referência da literatura contemporânea.

Logo nas primeiras páginas, o leitor mergulha num mar de vivências e recordações de Max Morden, o personagem principal, e percebe que está perante uma obra à qual não ficará indiferente.

Passado e presente ligam-se de uma forma intensa neste romance que tem o mar como pano de fundo da narrativa. O mar que apreciamos e que nos extasia nas férias de Verão, mas também a tragédia associada ao mar que também está presente no romance. É esta dualidade prazer-dor que é transversal em todo o romance de John Banville.

Após a morte da sua esposa, Max Morden regressa à pequena localidade onde passou férias com a sua mãe quando era criança e aí vão desfiando as memórias de outros tempos, lugares e pessoas que o marcaram. Anne, a sua esposa, definhou ao longo de um ano, sendo agora recordada, desde quando lhe foi diagnosticada a doença até ao seu falecimento, o acompanhamento da doença, o começar a deixar ser, o começar a ir e o derradeiro final.

É a morte que conduz Max Morden à pequena localidade onde passou as férias na sua infância. É a repetição de algo tenebroso, trágico que vivenciou em tenra idade que o marcou para sempre que o faz regressar ao passado como tentativa de encontrar a redenção ou de compreender a complexidade da vida.

Em criança, Max Morden conheceu a família Grace, pertencente a outro estatuto social, tema, na verdade, muito desenvolvido nesta obra, quase transportando a ideia de que cada pessoa sabe exactamente a que universo social pertence, sendo quase impossível a articulação entre esferas sociais diferentes.

Seduzido pela vida desta família, não só pelas posses, mas também pela sua excentricidade, Max Morden, ainda na pré-adolescência, sente-se duplamente seduzido, por Chloe, a menina da família, com idade próxima da sua, mas também pela mãe desta, Connie, uma mulher deslumbrante e sedutora. O despertar da sexualidade torna Max Morden num vouyerista como forma de dominar e controlar o objecto sexual proibido ao contrário dos beijos e carícias inocentes que troca com Chloe no cinema e na praia. "Olhar com lascívia, com inveja ou com ódio é o mesmo que cobiçar, invejar ou odiar. O desejo não concretizado deixa na alma uma mancha igualmente indelével."

São estes jogos sexuais percebidos pelos vários intervenientes que tornam esta obra igualmente sedutora através do recurso a uma linguagem de rara beleza.

É neste universo tão diferente da vida de Max Morden que toda a narrativa se vai desenvolver. Foi um Verão marcante para este jovem, não só porque está associada a descoberta da sexualidade, os seus jogos, a sensualidade, as carícias, para logo a seguir culminar com a tragédia.

É, pois, a morte da sua esposa Anne que traz Max Morden, novamente, para junto do mar, onde recorda o mar que traz alegria, mas que também provoca dor.

Compreendemos neste romance o quanto uma recordação do passado pode condicionar toda a vida presente. É a ideia de perda que nos faz repensar a vida, a relação que tivemos com aqueles que amámos e aqueles que vivem connosco. Ao longo de “O Mar”, Max Morden reflecte sobre a relação que tem com a filha Claire. Nenhum dos dois é uma pessoa muito presente, contudo, ambos compreendem da necessidade e urgência em estreitar os laços.

Mais do que as recordações do passado e a morte, “O Mar” é um romance sobre a vida e os laços que estabelecemos com os outros. A importância e a necessidade de viver, de agarrar a vida estão igualmente presentes nesta obra singular com sabor agridoce que nos acalenta uma certa melancolia.

Excertos:
“Ali parado naquele cubíbulo de luz branca, vejo-me transportado por momentos para uma praia distante, real ou imaginada, não sei bem, embora os detalhes possuam uma definição onírica precisa, estou sentado ao sol num rebordo duro de areia xistosa e seguro nas mãos uma grande pedra azul, lisa e macia. A pedra é seca e quente, pressiono-a contra os lábios, possui um sabor salgado evocativo do fundo do mar, de ilhas distantes, de lugares perdidos sob folhagens imensas, de frágeis esqueletos de peixes, de destroços e de restos em decomposição. A leve ondulação à minha frente junto à linha de água sussurra numa voz animada, segredando impetuosa uma catástrofe antiga, o saque de Tróia, talvez, ou o desaparecimento da Atlântida. As margens são salgadas e brilhantes. Pérolas de água desfazem-se numa corrente prateada na pá de um remo. Vejo ao longe o barco negro a aproximar-se imperceptivelmente a cada instante que passa. Eu estou lá. Ouço o silvo da vossa sirene. Estou lá, estou quase lá.”

"O que me desagradava não era aquilo que eu era, refiro-me ao meu eu singular e essencial — embora conceda que a própria noção de um eu singular e essencial é controversa —, mas a acumulação de afectos, de inclinações, de ideias feitas, de tiques de classe, que o meu nascimento e a minha educação me tinham inculcado em vez de uma personalidade. Em vez de, digo bem. Nunca tive uma personalidade no sentido em que os outros têm ou julgam ter. Sempre fui um evidente zé-ninguém, cujo maior anseio era ser um não tão evidente alguém. Sei o que digo."

Texto da autoria de Jorge Navarro