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quarta-feira, 8 de abril de 2026

"História do rei Transparente" de Rosa Montero

Fui para a Idade Média numa viagem maravilhosa com este livro! E que viagem esta!

A história é fantástica e com um começo brilhante que me agarrou logo no primeiro parágrafo. Senão vejam (coloco aqui só um pouquito):

"Sou mulher e escrevo. Sou plebeia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi na minha vida coisas maravilhosas. Fiz na minha vida coisas maravilhosas. Durante algum tempo o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou. A pena estremece entre os meus dedos cada vez que o arìete investe contra a porta. Um portão sólido de metal e madeira que não tardará em ficar em pedaços. Pesados e suados homens de ferro amontoam-se à entrada. Vêm buscar-nos."

E começamos assim a inteirarmo-nos da história de vida desta mulher (Leola) que adivinhamos cheia de carácter e força numa época em que as mulheres não tinham voz activa em nada. Com uma escrita fluída, intensa, a autora mistura ficção com a realidade histórica dessa época  e uma pitada de fantasia, tão leve que me pareceu plausível. Adorei tudo na verdade!

Leola faz-se passar por homem, disfarce mais ou menos conseguido consoante as situações por que passa. A sua vida sofre alterações tais que o leitor não se entedia mesmo quando as descrições sobre as guerras, lutas e confrontos o poderiam fazer.

Este livro é, também, sobre a liberdade, o papel da mulher, a intolerância, os vicíos que comandam as acções, sobre identidade. A personagem principal não é estática vai crescendo e é com gosto que vamos verificando que a sua personalidade sofre modificações.

O ritmo de leitura não é constante sendo que há partes lidas freneticamente e outras em que o leitor pode "descansar" porque são mais lentas. Embora possa parecer estranho, gostei disso também.

Recomendo muito esta leitura caso encontrem o livro porque creio estar esgotado. Há sempre a optima opção de ir dar um passeio a uma biblioteca...

Terminado em 23 de Fevereiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Considerado pela revista Qué Leer como o melhor romance espanhol de 2005.

Sob uma pele de ferro, o coração de Leola palpita por aventura, e a sua coragem leva-a numa turbulenta viagem rumo à liberdade.

Num tumultuoso século XII, Leola, uma camponesa adolescente, despe um guerreiro morto num campo de batalha e veste as suas roupas para se proteger sob um disfarce viril. Assim começa o vertiginoso e emocionante relato da sua vida, uma peripécia existencial que não é apenas de Leola mas também nossa, porque este romance de aventuras com ingredientes de fantástico fala-nos, na verdade, do mundo actual e do que todos nós somos.

A História do Rei Transparente é uma insólita viagem a uma Idade Média desconhecida, relatada de uma forma tão vívida que quase se consegue sentir na pele, uma fábula que comove pela sua grandeza épica. Original e poderoso, o novo romance de Rosa Montero tem essa força transbordante dos livros destinados a converterem-se em clássicos.

Cris

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

"A Boa Sorte" de Rosa Montero

É tão bom terminar um livro com um sorriso no coração. Sentir que tudo se enquadrou e encaixou, que as personagens tiveram uma vida "real" enquanto estavam a ser lidas e que vão continuar por mais tempo a fazer parte de mim, que estive envolvida na história, que os acontecimentos narrados fizeram parte da vida dessas personagens mas fizeram também parte da minha. Sentir que estive lá é um dos maiores prazeres que a leitura me dá!

Este livro é fantástico. Adorei este homem de meia idade, cheio de mistérios, com quem sentimos imediata empatia mas que, e talvez por isso mesmo, é cheio de contradições e problemas por resolver. A sua vida, descobrimos com o decorrer da leitura, é um caos a que não sabe dar ordem nem sentido. Mas mesmo assim não deixamos de gostar das suas imperfeições mesmo que elas nos surjam como "defeitos", erros que o levam a atropelar quem o rodeia.

Muito bem escrito, com as palavras certas para nos demorarmos nelas e saborearmos bem os pormenores descritos. A riqueza das personagens, mesmo as secundárias, é fabulosa. Os capítulos curtos, quase sempre, são q. b., e as entradas feitas pelos diversos personagens dão um ritmo próprio que gostei particularmente. Sabemos sempre quem é a voz por detrás do pensamento e essa clareza na escrita agradou-me sobremaneira. O discurso tanto é efetuado na primeira como na terceira pessoa. Esse facto dá movimento à acção, ritmo e mexe com o leitor.

Não foi o primeiro livro que li de Rosa Montero e ja lhe conhecia a queda para estas coisas da escrita mas este livro ficará retido na minha memória. Se me esquecer da história basta falarem-me de um certo arquitecto...

Adorei!

Terminado em 11 de Janeiro de 2022

Estrelas: 6*

Sinopse

O que leva um homem a descer de um comboio antes do fim da viagem e ir esconder-se numa cidadezinha decadente? Um desejo de recomeço ou a necessidade de acabar de vez com a vida? Pablo, o protagonista em fuga, é conduzido pelo destino a Pozonegro, um antigo centro de extração de carvão que é hoje uma localidade moribunda. No entanto, há humor nesta cidade triste e maldita, porque a vida é feita de alegria. E de segredos, claro. Todos os habitantes de Pozonegro possuem o seu. Alguns são apenas ridículos. Outros, sombrios e muito perigosos. Há gente que finge ser quem não é ou que esconde a sua verdadeira motivação, num intrincado jogo de espelhos; e há também a luminosa, imperfeita e um pouco louca Raluca, que pinta quadros e cuja vida se cruza com a de Pablo. Um romance sobre o bem e o mal, uma radiografia dos anseios humanos medo e serenidade, culpa e redenção, ódio e desejo , uma história de um amor terno e febril, A Boa Sorte espelha, sobretudo, um profundo amor à vida. No fim de contas, depois de cada perda, pode haver um recomeço. Porque a sorte só é boa se assim o decidirmos. 

Cris

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Convidada escolhe: "A Louca da Casa"

A Louca da Casa, Rosa Montero, 2003

Este é o quarto livro que leio desta escritora e jornalista madrilena. Posso dizer que é uma escritora que me enche as medidas, leio-a com muito agrado e este é mais um livro surpreendente. É um livro repleto de citações, de referências a autores e às suas vidas, um livro que apetece sublinhar, copiar frases…
É uma reflexão sobre a literatura, a vida, a morte, as vidas que se vivem/ocultam dentro do narrador, sobre a imaginação, a loucura, a paixão, o poder, a vaidade, o mercado… em suma, a diversidade de temas que as vidas da escrita implicam e que ela tão bem conhece enquanto pessoa para quem, escrever e ler é como respirar.

Se em “Histórias de Mulheres”, Rosa Montero nos dera a conhecer histórias pouco ou nada conhecidas de mulheres, a partir da leitura de biografias ou diários, em “A Ridícula Ideia de não voltar a ver-te” desvenda-nos o diário que Marie Curie escreveu no ano a seguir à morte de Pierre Curie, em “A Louca da Casa” revela-nos detalhes curiosos e inusitados de vários escritores célebres como Rimbaud, Paul Verlaine, Hemingway, Tolstoi, Goethe, Melville, Truman Capote, Joseph Conrad, Oscar Wilde, García Márquez e tantos outros, ilustrando com as suas vidas, defeitos e qualidades os temas que aborda ao longo do livro. Dos portugueses faz referência a José Luís Peixoto (ps. 16 e 17) – “… estas agruras são compensadas com a fabulação criativa, com as outras vidas que os romancistas vivem na intimidade das suas cabeças. José Peixoto, um jovem narrador português, batizou estes propósitos de existência como os «e se…». E tem razão, a realidade interior multiplica-se e excede-se assim que nos apoiamos num «e se…»” – para introduzir o tema da imaginação (a louca da casa como lhe chamava Santa Teresa de Jesus), aquela que salta fora da rigidez e lucidez escrupulosa da razão.
Neste livro que é quase um diálogo com o leitor/a, a autora questiona-se, por exemplo, sobre o destino de algumas personagens reais que deram origem a personagens literárias; refere os fantasmas inconscientes que a perseguem e que são recorrentes nos seus textos; a insatisfação do escritor/a que quer sempre ser nomeado e, em última instância, aspira à eternidade não é senão um sinal de vaidade; num mundo dominado pelo mercado promovem-se os bestsellers tantas vezes sucessos de momento que não ficarão para a história e é sabido que um livro, que tenha poucas vendas e seja considerado um fracasso editorial, terá a guilhotina como destino.
Rosa Montero também fala de si como escritora e, embora deteste a tendência para se arrumar e catalogar a literaura e os/as escritores/as, identifica-se como “raposa a 100%” em oposição a autora-ouriço, pois tenta não se conformar, nem repetir. “Nunca se contentou com o que sabia” seriam as palavras que gostaria que um dia escrevessem na sua crenologia! E diz-nos como detesta aquelas perguntas que lhe fazem com imensa frequência sobre se há uma escrita de mulheres e sobre se ela se sente como escritora ou como jornalista… Ela que é antissexista e escritora e também jornalista aproveita para falar daquelas grandes escritoras que tiveram de se esconder debaixo dum nome de um homem para escrever e das muitas mulheres de escritores que tantas vezes foram tidas como musas… mas que não poucas vezes foram verdadeiras criadas e secretárias insubstituíveis para que os maridos viessem a brilhar como grandes escritores!
A certa altura Rosa Montero confia-nos um episódio que ela, jovem jornalista e um famoso actor de cinema,  protagonizaram há muitos anos. Talvez para nos recordar que a louca da casa anda à solta e que não podemos esquecer “… as quantidades de vidas diferentes que podem existir numa só vida…”, essa mesma história do tempo em que Rosa era uma jovem jornalista hippy em princípio de carreira vai surgir em dois momentos distintos do livro, baralhando-nos com desenvolvimentos e finais completamente diferentes e hilariantes.
“E se…” como diria José Luís Peixoto, Martina a “obscura irmã gémea” de Rosa que surge amiúde no livro não passar de uma personagem criada por Rosa Montero para nos recordar que autor e narrador são duas figuras distintas?
Quando acabo um livro gosto sempre de voltar ao princípio. Lê-se na dedicatória:

Para Martina, que é e não é.
E que não sendo, me ensinou muito.”

Outubro 2017
Almerinda Bento

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A Escolha do Jorge: "A Louca da Casa"

     
Ensaio, romance ou autobiografia? É a questão que se impõe no decurso da leitura de “A Louca da Casa” de Rosa Montero (n. 1951). Um misto dos três géneros é possivelmente a melhor resposta na medida em que na obra em questão é difícil estabelecer os limites e as fronteiras de cada um.
      Numa obra bem conseguida e profundamente intimista, Rosa Montero, remete o leitor para os misteriosos e insondáveis caminhos da imaginação e da criatividade com que o escritor se debate ao longo da vida. A esta constante presença, Rosa Montero atribui-lhe a metáfora “A Louca da Casa”. Num trabalho solitário, o escritor debate-se com a presença de inúmeros personagens que pululam a sua imaginação e que, a todo o custo, se debatem em ser transpostos para o mundo da escrita, chegando, dessa forma, ao universo dos leitores, conquistando em tantas histórias que conhecemos, legiões de admiradores que atravessam o próprio rio do tempo, perdurando, personagens e escritores, como fazendo parte de uma cultura específica de um país ou, em tantos casos, extravasando fronteiras, tornando-se universais.
      Rosa Montero recorre também a muitos exemplos de escritores conhecidos,
enriquecendo esta narrativa com aspectos particulares da vida de alguns escritores, nomeadamente Italo Calvino, Goethe, Tolstoi, Robert Walser, Rimbaud, entre outros. Mas são precisamente as páginas dedicadas ao suíço Robert Walser e ao francês Rimbaud, as mais impressionantes, na minha opinião. No primeiro caso, com Robert Walser, por se tratar de um escritor que não conheceu o sucesso e o reconhecimento em vida e, no segundo caso, com Rimbaud, o jovem, cuja veia de inspiração estava de tal modo ao rubro que tudo o que publicou foi na adolescência e no final desta.
      Rosa Montero humaniza todos estes escritores que, na maior parte dos casos, os leitores apenas conhecem as suas obras e pouco mais. A escritora ao partilhar referências das suas biografias com alusão à literatura e seus contributos, devolve-lhes, em certa medida, a ideia de que estes indivíduos também foram seres humanos com todas as suas circunstâncias, desejos, ambições, fraquezas e devaneios.
      A este respeito, e no decurso do desfile desta gala de escritores apresentados por Rosa Montero, a escritora integra também inúmeros aspectos e episódios da sua vida pessoal, desde a sua juventude até ao presente. Uma clara exposição, é certo, dado que a escritora viveu os tempos do franquismo e a passagem à vida democrática, as tendências que chegavam de fora a um país fortemente vigiado, assim como as mudanças na mentalidade e nos comportamentos da sociedade espanhola pós-Franco.
      Escrever é um acto de amor, isso é sabido. O escritor tem necessidade de escrever primeiro para si, mais não seja porque todos os personagens que habitam a sua imaginação ocupam de forma permanente o palco da sua mente, fazendo uma espécie de fila indiana para surgirem nas obras passadas a escrito. Mas este acto de amor, o escrever, remete também para os amores e desamores que, não raras vezes, reflectem também o próprio estado de espírito do escritor e a sua ansiedade, angústia, ilusão, experiências amorosas deste.
      A este respeito, Rosa Montero presenteia o leitor com um episódio da sua juventude, quando esta se apaixonou e se envolveu com um conhecido actor de cinema. Não só o leitor fica surpreendido com a revelação da escritora, mas próximo do final da obra, rapidamente percebe que Rosa Montero lhe troca as voltas apresentando-lhe, essa mesma história, a desse envolvimento e paixão por esse actor de cinema, não a história real, mas como a mesma verdadeiramente aconteceu ou, nunca fiando no escritor, como a autora gostaria que essa mesma história tivesse acontecido.
      É neste misto de realidade versus ficção que a verdade dos factos (ou pelo menos de alguns factos) teve lugar. A verdade, aquela que aconteceu mesmo situar-se-á algures, entre a realidade e a ficção, um meio-termo aristotélico, quiçá.
Mas mais do que saber e compreender a realidade dos factos, é precisamente quando o leitor percebe que foi “apanhado” pelo escritor e, mais, de que isso fez parte de um plano projectado, arquitectado, muito tempo antes, quando ainda esta obra se encontrava literalmente na “louca da casa”, que o leitor se deleita com esta que é uma das delícias da literatura, que é o gozo que a leitura proporciona e, mais, o de ser apanhado, conquistado, como num amor, uma paixão em que não se vê nada à frente ainda que, tantas vezes não passe de uma ilusão. Como na literatura, a capacidade de construir ilusões e de conquistar leitores.
      Uma obra notável, inspiradora, desafiante e profundamente humana!

Excertos:
“(…) Falar de literatura é falar da vida; da vida própria e da vida dos outros, da felicidade e da dor. E é também falar do amor, porque a paixão é a maior invenção das nossas existências inventadas, a sombra de uma sombra, o adormecido que sonha que está a sonhar. E no fundo de tudo, para além das nossas fantasmagorias e dos nossos delírios, momentaneamente detida por este punhado de palavras, tal como o dique de areia de uma criança detém as ondas na praia, espreita a Morte, tão real, revelando as suas orelhas amarelas.” (pp. 12-13)

“Regressamos assim à imaginação. A essa louca às vezes fascinante e às vezes furiosa que mora no sótão. Ser romancista é conviver harmoniosamente com a louca de cima. É não ter medo de visitar todos os mundos possíveis e alguns impossíveis. Tenho outra teoria (tenho muitas, resultado da laboração frenética da minha razão), segundo a qual os narradores são seres mais dissociados ou talvez mais conscientes da dissociação do que os restantes. Isto é, sabemos que dentro de nós somos muitos.” (p. 23)

“Estou convencida de que, à noite, quando adormecemos e começamos a sonhar, na realidade entramos noutra vida, numa existência paralela que preserva a sua própria memória, a sua continuidade, a sua causalidade arrevesada. Por exemplo, eu sei que no mundo das minhas noites e dos meus sonhos tenho um irmão que se chama Pascual, embora nesta vida real não tenha outra irmã além de Martina.” (p. 96)

“O escritor, tal como qualquer outro artista, tenta dar uma vista de olhos para fora das fronteiras dos seus conhecimentos, da sua cultura, das convenções sociais; tenta explorar aquilo que é disforme e ilimitado e, esse território desconhecido assemelha-se muito à loucura. Em criança, estamos todos loucos; isto é, estamos todos possuídos por uma imaginação indomesticada e vivemos numa zona crepuscular da realidade na qual tudo é possível. Educar uma criança implica limitar o seu campo visual, diminuir o seu mundo e dar-lhe uma forma determinada, para que se adapte às normas específicas de cada cultura.” (p. 155)

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 21 de junho de 2016

A Convidada Escolhe: A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te

"A Ridícula Ideia de não voltar a ver-te", Rosa Montero, 2013
Um dos livros que comprei nesta Feira do Livro e o terceiro que leio desta autora madrilena nascida no mesmo ano em que nasci e por quem tenho muita empatia. A leitura de "A Ridícula Ideia de não voltar a ver-te" que é um livro fascinante e comovente reforçou essa proximidade afectiva e ideológica com Rosa Montero. Um daqueles livros que nos ajudam a reforçar a convicção da indispensabilidade da luta feminista qundo se anseia por um mundo mais justo e melhor para todos.
Logo no início, ela alerta que "este não é um livro sobre a morte". Em minha opinião é um livro sobre a forma de enfrentar o luto por uma morte de alguém muito querido, um exercício de superação das limitações da vida que só a arte e a literatura têm a capacidade de fazer. Ela cita Fernando Pessoa "A literatura, como a arte em geral, é a demonstração de que a vida não basta."
A vida literária e não só, está cheia de coincidências, um dos vários hashtags para que Rosa Montero nos remete ao longo do livro; foi no processo da doença de Pablo, marido de Rosa Montero, que lhe chegou às mãos o diário que Marie Curie escreveu ao longo do ano que se seguiu ao falecimento repentino de Pierre Curie. Assim, o centro desta obra de Rosa Montero é a personalidade extraordinária de Marie Curie (1867-1934). Rosa chama-a de "Mutante". Ela foi uma pioneira absoluta: a única mulher que recebeu dois prémios Nobel em áreas diferentes (Física e Química), a única mulher no Panteão dos Homens Ilustres em Paris, a primeira mulher a licenciar-se em Ciências na Sorbonne, a primeira mulher a doutorar-se em Ciências em França, a primeira mulher a leccionar na Sorbonne… uma polaca que lutou de forma ímpar contra inúmeras adversidades – dificuldades económicas, inveja da comunidade científica, estranheza da sociedade pelo seu pioneirismo, conciliação da intensa vida profissional e familiar, problemas de saúde, verdadeiro linchamento público pelo seu relacionamento com Paul Langevin – nunca aceitando assumir o papel de vítima, antes rompendo e fazendo um caminho impressionante numa "época em que às mulheres quase nada era permitido". Talvez por temperamento, certamente pela personalidade tenaz e pela sua postura face à vida e à sociedade, há em Marie Curie um desdenhar da sua feminilidade, pelo que nunca quis dar parte de fraca nem mesmo quando passava mal durante os períodos de gravidez, nunca fez referência aos problemas que teve de enfrentar por ser uma pioneira e única num mundo de homens nomeadamente quando foi candidata e quando recebeu o prémio Nobel, nem nunca associou os seus problemas de saúde e do marido aos trabalhos de investigação e de produção de rádio e de polónio. Quando o talento das mulheres tinha de ser escondido atrás de nomes masculinos ou elas tinham de se travestir de homens, sendo dados vários exemplos e até o caso da papisa Joana, e quando até ao século XX as mulheres não tinham saídas profissionais para além de operárias ou damas de companhia, como aceitar a ambição de uma mulher a querer ascender ao conhecimento e ter uma carreira? Daí ter sido alvo de campanhas sujas e ferozes contra ela, por inveja, por preconceito, porque se a ambição é natural num homem é impensável que possa ser assumida por mulheres! A culpa sim, ou o apagamento! Mas ambição não; não é coisa de mulheres!
Rosa Montero aproveita para nomear algumas cientistas e investigadoras que foram pioneiras, que abriram caminhos para grandes descobertas contemporâneas – Lise Meitner, Rosalind Franklin, Henrietta Swan Leavitt ou Jocelyn Bell - que mais tarde foram alvo de reconhecimento através da entrega dos "Nobel" a homens que, ou usurparam o trabalho delas ou nem sequer as nomearam quando receberam os galardões. O contrário do que aconteceu aquando da atribuição do primeiro Prémio Nobel da Física para Pierre Curie e Henri Becquerel pela descoberta do polónio e do rádio, que Pierre se recusou a receber caso o nome de Marie não fosse incluído. Um caso muito bicudo para a época que acabou com a inclusão do nome de Marie, mas com a atribuição do valor em dinheiro apenas aos dois homens, como se Marie não contasse! Coube a Pierre subir ao palco e fazer o discurso de agradecimento, tendo aproveitado para atribuir a Marie Curie todo o mérito pela descoberta. O palco para ele; o apagamento dela, sentada no meio da audiência. Talvez por isso a relação de laureados com o Nobel até 2011 seja de 786 homens para 44 mulheres. Quantas terão sido preteridas, esquecidas, apagadas?
Por fim, este belo livro, fruto de um profundo trabalho de investigação e consulta de documentos sobre a vida e obra de Marie Curie, é valorizado com diversas fotografias de Marie Curie, do marido Pierre Curie, das filhas Irène e Ève e também de outras personagens e lugares que Rosa Montero convoca ao longo da obra. Encerra com o diário de Marie Curie, um sentido e sofrido testemunho da ainda jovem cientista entre Abril de 1906 a Abril de 1907, de onde é retirada a frase escolhida por Rosa Montero para título deste livro.

Almerinda Bento

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te" de Rosa Montero

Adorei este título! Sugestivo e imaginativivo q.b. Mas também revelador da temática do livro. A perda, a ausência permanente, a morte, essa palavra difícil de pronunciar quando se trata de um ente querido.

No entanto, ela não é tratada de uma forma penosa e chocante mas sim como um tributo à vida. Porque se viveu bem, porque se viveu completamente, porque todos temos de partir.

Sabemos que a autora estava a passar por uma perda, dois anos passados sobre a morte do seu marido, e a escrita desta obra foi como que um catalisador do seu estado de espírito. Uma catarse. Ler o diário de Marie Curie, duas vezes prémio Nobel, redigido no ano seguinte à perda do marido, Pierre Curie, ajudou-a. Reviu-se nela, compreendeu-a.

E este livro não é só sobre Marie Curie, a sua vida, os momentos passados e a sua luta pelos seus sonhos e projectos numa época que as mulheres tinham o dever de estar enfiadas na cozinha e quase nada mais... Este livro é sobre a vida, sobre a luta. Sobre VIVER. Sobreviver.

Num estilo coloquial, onde muitas vezes somos questionados e tratados por "tu", Rosa Montero deixa marcas no leitor. Não é uma leitura leve, mas aconselho-vos a terem um papel e um lápis à mão. Tantas pequenas frases para anotar, tantos pensamentos...

Terminado em 7 de Fevereiro de 2015

Estrelas: 4*+

Sinopse

Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso.
São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.
Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Soltas... O coração do Tártaro.

"A infância é o lugar onde se habita para o resto da vida, pensou Zarza: em adultos as crianças batidas batem noutras crianças, os filhos de bêbados alcoolizam-se, os descendentes de suicidas matam-se, os que têm pais loucos enlouquecem."

"Tinha suportado os últimos sete anos a construir uma vida meticulosamente vazia de recordações, e agora o passado começava a revolver-se no seu sepulcro, como um morto-vivo, ameaçando sair e estragar tudo."

"Zarza assombrou-se uma vez mais com o carácter de Urbano, que não sabia definir se como imensamente generoso ou imensamente estúpido pois estamos tão pouco habituados à bondade que costumamos confundi-la com idiotice."

"O mundo estava cheio de histórias tártaras, de realidades atrozes e dolorosas, de horrores tão rotundos e completos que não cabiam na cabeça de ninguém. Porque os infernos que podemos imaginar são sempre menos cruéis do que os  autênticos."

"Porque nós fizemos coisas más. Escolhemos fazê-las. Fomos cobardes, tu e eu; acomodámo-nos dentro do nosso desgosto, julgámo-nos moralmente justificados. Agora peço-te que nos dêmos uma nova oportunidade, que escolhamos melhor. Para quê continuarmos a odiar-nos e a odiar? Tentemos viver."

terça-feira, 22 de março de 2011

O Coração do Tártaro de Rosa Montero


Edição/reimpressão: 2003
Páginas: 212
Editor: Editorial Presença
ISBN: 9789722329309
Coleção: Grandes Narrativas

Há livros que me deixam sem palavras de tão pesados que são! O tema de que trata esta história é daqueles que, na vida real, é melhor não nos depararmos com ele... Vou explicar melhor, já que sinto que me estou a enrodilhar toda: lá no fundinho de nós todos, temos medos que custamos aceitar, e este tema, para mim, fala de um assunto do qual tenho pavor - a droga - pois sei o quanto ela pode destruir alguém e o quanto deve ser difícil sair da sua dependência ou mesmo, viver perto de alguém subjugado por esse mal.

Não vou contar esta história. Impressionou-me porque poderia ser real e porque relata acontecimentos de que ouvimos falar nosso dia-a-dia: os abusos de que são alvo tantas crianças, os problemas da dependência, as recaídas, a luta necessária para superar traumas de infância e dependências várias.

A linguagem é crua. Magoa, fere, porque sentimos verdadeira. A escrita prende-nos a atenção pois mantém-nos em suspense desde as primeiras páginas. Gostei. 
(Teresa, para a próxima, recomenda-me uma leitura light...)

Terminado em 21 de Março de 2011

Estrelas: 4*

Sinopse

Sofia Zarzamala, uma jovem editora de livros medievais, desperta com uma chamada inesperada. Do outro lado do telefone uma voz masculina articula «Encontrei-te». Assustada, veste-se rapidamente e foge do seu apartamento com a sensação de estar a ser perseguida por algo ou alguém que inesperadamente regressou do seu passado oculto. Forçada a recordar, Sofia revive os anos que passou nos bairros corruptos da cidade nocturna, junto da miséria e crueldade e relembra a traumática relação com o pai e o irmão gémeo, que tanto quis esquecer. A força esmagadora do passado retorna e invade brutalmente a sua existência até à revelação final que mudará para sempre a sua vida.