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quinta-feira, 25 de junho de 2026

A Convidada escolhe: Inyenzi ou As Baratas

“Inyenzi ou As Baratas” – Scholastique Mukasonga, 2006

Quando li num blogue que sigo uma apreciação sobre “Inyenzi ou As Baratas” e percebi que se tratava de um relato de uma sobrevivente do genocídio do Ruanda, logo o pus na lista de livros a ler. Tive uma ligação ao Ruanda breve, mas inesquecível. Em 2004, a Marcha Mundial das Mulheres a cuja coordenação nacional pertencia, escolheu o Ruanda para aí se realizar o 5º Encontro Internacional, com o objectivo de preparar a 2ª Acção Global e, sobretudo, concluir a discussão e aprovação do texto final da Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade. O local teria de ser marcante e assim, foi escolhida Kigali a capital do Ruanda, no ano em que se assinalavam os dez anos do genocídio que matou perto de um milhão de ruandeses de etnia tútsi. Para além de querermos conhecer mulheres que tinham sobrevivido àquele tempo tão atroz, queríamos estar perto de associações que se tinham formado para apoiar na reconstituição e na cura das feridas deixadas pela luta fratricida entre etnias. E também, mostrar a solidariedade de mulheres de todo o mundo para com o imenso esforço que as ruandesas estavam a fazer para se levantar e levantar o país dos escombros do genocídio. 

“Inyenzi ou As Baratas” é um livro duríssimo que me obrigou várias vezes a parar, respirar fundo e deixar a leitura. Aproveitei para ir buscar o álbum e rever algumas fotografias que fiz em Kigali, nomeadamente do Memorial do Genocídio que visitei e que é impossível esquecer. Tal como os nazis achavam que os judeus eram untermensch (infra-humanos), os sionistas acham que os palestinianos não são gente, os hútus consideravam os tútsis baratas (inyenzi), uma etnia que tinha de ser esmagada. O genocídio que aconteceu no espaço de três meses em 1994, como nos é contado neste livro, tinha começado há muitos anos a ser preparado. É sobre isso que escreve Scholastique Mukasonga, nomeando toda a sua família morta e muitos dos habitantes e vizinhos apanhados na fúria assassina daqueles cerca de cem dias. Ela quis nomeá-los repetidamente, começando logo na dedicatória, lembrá-los, já que não há uma lápide que os lembre, podendo as suas ossadas estar na cripta da igreja de Nyamata, ou terem sido atirados para uma vala comum, ou mesmo terem sido comidos pelos cães ou pelas feras. 

Scholastique Mukasonga vive em França. Tinha apenas 3 anos quando ela, irmãos, irmãs e pais foram forçados a um primeiro exílio em 1959, enviados compulsivamente para Gitwe, um lugar inóspito no mato, onde passaram imensas privações, desde fome, falta de água e constante receio dos animais selvagens, embora ela refira que descobriu que a crueldade dos humanos supera o perigo dos animais selvagens. Em 1962, aquando da independência do Ruanda, mais de 150 mil tútsis tiveram de fugir para países vizinhos, tendo nessa altura ocorrido milhares de mortos. As tensões entre hútus e tútsis, instigadas desde sempre pelo poder colonial belga, acentuaram-se após a independência e o mundo fingiu não ver. Destacou-se em 1964 a voz solitária de Bertrand Russell a denunciar o genocídio e a lembrar o que os nazis tinham feito aos judeus. Os pais de Scholastique Mukasonga fugiram com a família para Gitagata, sua última morada, lugar onde iriam ser assassinados em 1994. “Não havia dias tranquilos em Nyamata. Os militares do campo de Gako faziam questão de nos recordar constantemente o que éramos: serpentes, Inyenzi, essas baratas que nada tinham de humano e um dia seria preciso dizimar. Enquanto isso não acontecia, o terror era sistematicamente organizado.” (pág. 65). O único lugar seguro era a igreja da missão, hoje transformada em memorial do genocídio, onde foram depositados milhares de ossadas.  No entanto, a narradora não deixa de referir os dias felizes da sua infância quando ficava com a mãe, que lhe contava histórias. A criação do partido único e a organização da juventude partidária vão fazer aumentar significativamente a violência e as tensões. As violações das meninas são uma constante. 

A educação e o acesso aos graus superiores do ensino eram uma miragem para a etnia tútsi, mas foi o sucesso na escola que lhe permitiu ser uma sobrevivente. O exame nacional de acesso ao ensino secundário era uma das mais importantes barreiras, tanto mais que a quota de acesso aos tútsis se ficava nos 10%.  No entanto, Scholastique Mukasonga conseguiu ser a única na sua aldeia que passou no exame e teve acesso ao melhor liceu de Kigali, onde resistiu durante 3 anos, sujeita a humilhações e a uma rejeição constante por parte das colegas e das professoras. Só no terceiro ano conseguiu deixar de andar descalça e os seus traços fisionómicos e cabelo volumoso eram para ela motivo de frequentes humilhações. Seguiu-se o acesso à Escola de Assistentes Sociais em Butare, uma experiência mais aberta e menos excludente que só durou dois anos e que teve de ser interrompida abruptamente com a mudança da direcção da escola. Os pais, cientes da tragédia que os perseguia, escolheram que para sobreviverem, Mukasonga e André teriam de partir para o Burundi para continuarem os seus estudos. Refugiados no Burundi, Scholastique Mukasonga obtém o seu diploma de Assistente Social e André vai estudar Medicina. 

É em 1986 que Mukasonga vê os pais pela última vez. Nessa altura ela já tinha a cidadania francesa, era casada com um francês e tinha 2 filhos. Os projectos de desenvolvimento rural da UNICEF e outros tinham levado o casal do Burundi, para o Djibuti. André era médico num hospital no Senegal. Das cinco raparigas e dois rapazes que Cosma e Sefania tinham tido, só André e Mukasonga foram poupados ao genocídio. Mukasonga, na sua casa em França, tem pesadelos constantes. Impossível esquecer o que passou e deixar de imaginar o que terá sido o horror vivido pelos 37 familiares que se encontram na fotografia do casamento de Jeanne, a irmã mais nova, todos eles mortos. André e ela são os sobreviventes. Ou não serão antes os “subviventes” como ela própria diz?

Da comuna de Nyamata, dos 60 mil tútsis recenseados em Janeiro de 1994, sobreviveram 5348. O genocídio foi o corte das amizades, das relações, algumas com muitos anos. O que aconteceu foi puro sadismo, loucura, fria crueldade. Foi com extrema dificuldade que Scholastique Mukasonga voltou a Nyamata, dez anos depois, para tentar encontrar vestígios dos sítios onde ela tinha vivido com os pais. Apenas descobriu ali “o país dos mortos” (pág, 149). “Comecei a sentir um ódio violento por aquela vegetação descontrolada que tão bem finalizara o «trabalho» dos assassinos, que transformara a minha casa num matagal hostil”. (pág. 162). Os poucos habitantes que encontra refugiam-se num discurso de negação, falam em “acontecimentos infelizes” (pág. 17), incapazes de usar a palavra genocídio. “A memória de todos aqueles mortos ficava a meu cargo: eles acompanhar-me-iam até à minha própria morte” (pág. 122). “Os assassinos quiseram apagar-lhes até a memória, mas, no caderno escolar que me acompanha sempre, inscrevi os seus nomes, e não tenho para os meus e todos os que tombaram em Nyamata senão este túmulo de papel”. (pág. 166)

Termino, citando do Posfácio, as palavras de Boniface Mongo Mboussa, congolês, académico e professor de literatura: “Em “Inyenzi ou As Baratas” Scholastique Mukasonga oferece-nos um relato autobiográfico valioso, um documento que nos permite ver por dentro o Ruanda pós-colonial (…) que nos mostra, a partir de uma sucessão de factos, porque é que o genocídio era – infelizmente, tão infelizmente – inevitável”. (pág. 173).

5 de Janeiro de 2026 

Almerinda Bento





quarta-feira, 3 de junho de 2026

"Tudo na Natureza Apenas Continua" de Yiyun Li

Que livro este! Só a premissa, caso fosse ficção, é terrivel e afastaria muitos leitores! Sendo não-ficção, quem se atreve a lê-lo começa as primeiras páginas com uma sensação de desconforto e com a pergunta "como é que ela sobreviveu e sobrevive a esta situação toda?"

A autora perdeu os seus dois filhos num intervalo de sete anos, o Vincent com 16 anos em 2017 e o James com 19 em 2024. Suicidaram-se ambos.

E no entanto este livro não é nada lamechas (teria todo o direito de o ser!) e é aparentemente escrito de uma forma fria, analítica. Mesmo assim senti-me mais confortável em meter outras leituras pelo meio. Posso afirmar, sem receio de estar a enganar-me, que este foi o livro que mais sublinhei. Neste caso, lido em ebook, as frases sublinhadas e guardadas ajudaram-me nesta partilha que aqui faço. Deixo aqui apenas algumas.

Quero referir também que a vida desta autora premiada, que ela tembém aborda aqui no livro, é por si só um filme de violência, de dor.

"O meu coração já começava a ter uma sensação para a qual não há nome. Podemos chamar-lhe dor, tormento, suplício, mas nenhuma destas palavras serve tão usadas são, que se tornam inuteis" pág 8

"Mesmo fazendo tudo o que é humanamente possível e sensato por um filho, uma mãe não consegue obrigá-lo a viver - com este facto teria eu própria de viver, refleti, todos os dias, sem exceção, até ao fim da minha vida". pag 55

"Muito raramento contamos a passagem do tempo tão atentamente como no início da vida de um recém nascido; um dia, três dias, sete dias, duas semanans, três semanas de idade. Pela minha experiência, só voltamos a contar com tanto cuidado e atenção depois da morte de um filho; passou um dia, passaram três, uma semana, três meses." pag 73

"Imagino que, perante a minha vida, muitas pessoas façam esta pergunta, ou uma variação dela, em voz alta ou de si para consigo: Como pôde isto acontecer? Todos os dias, sem exceção, quando páro de escrever no computador, ou enquanto cozinho, leio, toco piano, ou faço uma pausa nas escadas, ao subir ou descer, ouço-me perguntar: Como pôde isto acontecer? Como é possível? Como acabei nesta situação-limite a que chamo a minha vida?" pag 127

"Como se vive no fundo do abismo? Marcando passo. De que outro modo se pode viver?" pag 128

"Não sou uma mãe em luto. Sou uma mãe que viverá, todos os dias sem exceção, até ao fim da vida, com a mágoa de ter perdido o Vincent e o James, e com a memória de os ter criado." pag159

E muitas mais citações ficaram anotadas. Um livro a ler. Mesmo assim, essa dor é, para a grande maioria, inimaginável!

Terminado em 4 de Maio de 2026

Estrelas: 5

Sinopse
«Escrever, ensinar, jardinar, ir ao supermercado, cozinhar, tratar da roupa — são atividades que, situando-se no tempo, não rivalizam com os meus filhos, porque eles se tornaram intemporais.»

Vincent morreu com 16 anos. James morreu com 19 anos. Num intervalo de sete anos, os dois filhos de Yiyun Li escolheram o suicídio, a meio caminho entre a escola e a casa de família. Tudo na natureza apenas continua é um testemunho delicado, revolucionário, que tem origem no «abismo», o novo habitat de uma escritora que escolhe professar a «aceitação radical» destas mortes trágicas.

Indefetível na eterna condição de mãe, eternamente ligada aos seus filhos, Yiyun Li faz germinar neste livro uma gramática só sua: austera, íntima, capaz de descrever uma das mais extremas experiências humanas, no ponto exato em que a linguagem costuma falhar.

Num exercício literário inigualável, Yiyun Li fixa para sempre o lugar dos seus filhos no mundo, porque «não há agora e outrora, agora e mais tarde; só agora e agora e agora e agora», mas somente agora e agora e agora e agora», como um tempo que nunca termina, apesar da tragédia.

Cris


segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Quem Diz e Quem Cala" de Chiara Valerio

Após o término deste livro fiquei com uma sensação mista de prazer e confusão. Explico porquê.

A acção passa-se numa pequena vila italiana ("Uma vila é um lugar onde todos sabem tudo sobre todos", pag 54) e a narradora é uma jovem advogada, Lea  Russo. É através dela que entramos nessa pequena vila onde os segredos, aparentemente, são do conhecimento geral de todos os habitantes...

No entanto, a morte de Vittoria, uma senhora já com alguma idade e que todos achavam de convivência agradável vem mostrar que nada é o que parecia ser. A morte, aparentemente :) foi acidental mas Lea, um pouco com o conhecimento que tem de Vittoria e com alguma investigação, vai pondo isso em causa. Quem é afinal, Vittoria? 

Até aqui o livro foi despertando em mim um interesse crescente tanto mais que somos levados pela autora a duvidar e a querer saber mais sobre os segredos que fizeram parte da vida de Vittoria. A análise psicológica das personagens está muito bem conseguida e fiquei presa rapidamente a esta leitura.

Aquilo que as pessoas revelam de si e aquilo que elas preferem calar aos outros, eis-nos chegado ao título do livro. Até que ponto conhecemos verdadeiramente alguém? Conhecemos apenas fragmentos da vida das pessoas.

Referi anteriormente que tinha ficado confusa também e esse sentimento está relacionado com o final do livro que achei abrupto e não conpreendi. Percebi que a intenção do livro está precisamente no título do livro e a explicação da causa da morte não é o objectivo final (este livro não é um policial ou thriller!) mas achei o final demasiado rápido.

Terminado em 25 de Abril de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
Quando a morte de alguém numa aldeia pacata traz consigo a revelação de um passado silencioso, começa a revelar-se quem diz e quem cala segredos alheios…
Scauri, no mar Tirreno, a menos de duas horas de Nápoles e de Roma, é o destino habitual de mais de cem mil veraneantes; mas no inverno é uma aldeia pacata, nem bonita nem feia, onde vive a jovem advogada Lea Russo que, apesar de tudo, talvez preferisse morar num lugar mais sofisticado. Mesmo assim, a chegada de Vittoria, uma mulher citadina de meia-idade que veio acompanhada de Mara – uma rapariga que não se sabe se é sua filha adotiva, protegida ou amante –, acabou por animar as hostes daquele lugar, sobretudo porque Vittoria é muitíssimo interessante e comunicativa (embora nunca deixe saber mais de si própria do que realmente quer) e por ali prometeu ficar, dado que comprou casa em Scauri. Como seria de esperar, Lea e Vittoria tornam-se, com o tempo, grandes amigas.
Depois de um fim de semana fora, em casa de amigos, a notícia que Lea e o marido recebem no regresso é terrível: Vittoria foi vítima de um estúpido acidente na banheira e morreu.
Lea fica incrédula e, quando fala com Mara sobre o assunto, não se convence do que esta lhe conta; e menos convencida fica de que se tratou de um mero acidente quando aparece na aldeia para tratar de testamentos e heranças o distinto marido de Vittoria… Este é um romance extremamente original entre o policial, a história do meio pequeno e a narrativa psicológica, em que a revelação de um passado silencioso se opõe diante de um presente estridente. Em Quem Diz e Quem Cala, cada página é uma surpresa, tudo pode sempre mudar.

Cris