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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

"Luanda Lisboa Paraíso" de Djaimilia P. Almeida

Com uma escrita algo poética este é um livro perfeito para quem quer tomar conhecimento de uma história de uma forma suave e delicada, mesmo que por vezes ela, a história, tenha contornos de uma certa violência e agressividade. 

Para mim este tipo de escrita tem efeitos opostos. Se por um lado faz-me sonhar, por outro tendo a dispersar-me e requer uma atençāo mais reforçada da minha parte. A sensaçāo que fica em mim é um pouco agridoce, pois gosto muito de ler livros com uma escrita escorreita e, aqui, isso nāo me foi possível. Contudo, o prazer final é recompensador do esforço feito, da atençāo redobrada. 

Mas esta é uma história triste, eu achei. Marcada por acontecimentos fortes e algo trágicos, a história de Cartola e Aquiles, pai e filho, nascidos em Luanda e vindos para Lisboa devido ao estranho calcanhar deste último, é uma história de solidāo, de pobreza mas também de uma amizade que nasce destas duas condiçōes. Uma história triste contada por palavras doces e suaves.

Nāo li a obra anterior de Djaimilia, "Esse Cabelo", mas ouvi falar bem dela no meu grupo de leitura, A Roda dos Livros, e com a leitura deste livro fiquei ainda mais curiosa... 

Terminado em 6 de Dezembro de 2018

Estrelas: 4*

Sinopse
Chegados a Lisboa, Cartola e Aquiles descobrem-se pai e filho na desventura. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo. Será esta amizade capaz de os salvar?

«Se o entendimento entre duas almas não muda o mundo, nenhuma ínfima parte do mundo é exactamente a mesma depois de duas almas se entenderem.»

Luanda, Lisboa, Paraíso, o segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida, é o balanço tocante de três vidas obscuras, em que esperança e pessimismo, desperdício e redenção, surgem lado a lado.

Cris

sábado, 8 de dezembro de 2018

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A Convidada Escolhe: "A Saga de Selma Lagerlöf"

A Saga de Selma Lagerlöf, Cristina Carvalho, 2018 

Cristina Carvalho é uma escritora portuguesa que eu desconhecia. Selma Lagerlöf, ao contrário, conheci-a de trechos lidos aos meus alunos de Português e posteriormente quando comprei e ofereci “A Viagem Maravilhosa de Nils Holgerson” ao meu filho quando era pequeno.

Mas Selma Lagerlöf é, com efeito, uma escritora muito pouco conhecida em Portugal, apesar de a sua obra estar largamente difundida e traduzida em dezenas de línguas. E teve a felicidade de a sua obra ter sido profusamente lida e divulgada no seu país enquanto foi viva. Teve a felicidade de ter sido a primeira mulher laureada com o Prémio Nobel de Literartura em 1909 e foi a primeira mulher admitida na Real Academia Sueca, um lugar até então exclusivamente destinado a homens. Mulher invulgar, feminista, activista da paz, divulgou de forma intensa a causa dos direitos das mulheres, foi professora, amou a Natureza e conseguiu divulgar de forma pedagógica e acessível a história e a geografia da sua amada Suécia.

Neste livro, Cristina Carvalho consegue transmitir-nos o fascínio que a obra e a forte personalidade de Selma a impeliram a escrever este romance biográfico, em que interage com a escritora sueca, chegando a haver diálogos entre as duas como se ambas estivessem vivas. Não é um romance qualquer. É uma prova de amor. Uma paixão. Logo na nota introdutória, Cristina Carvalho avisa “Este romance biográfico foi escrito a horas imprecisas do dia ou da noite; não obedeceu a nenhuma rotina disciplinada. Como em todos os actos de paixão, fui sobrevivendo em equilíbrios improváveis.” E na nota final escreve “É com muito desgosto e com saudades transcendentes que termino a escrita deste livro… Para Selma Lagerlöf, com amor.”. Sendo uma obra de ficção, há, no entanto, uma grande precisão nas datas e todo um cuidado muito grande nas descrições e nos detalhes que levaram a que a autora se deslocasse à terra de Selma no início da escrita do romance e mais perto do final, para confirmar dados e informações.

É um livro para ser lido e saboreado. É muito detalhado nos pormenores da vida de Selma, desde que nasceu, quando a velha vidente, a tia Wennervik enunciou uma série de previsões que viriam a concretizar-se ao longo da vida – o defeito físico na perna, uma vida longa, viagens e papéis, muitos papéis e livros – a infância solitária muito marcada pela presença alegre do “querido pai” e das leituras, a casa Marback que será vendida e que ela irá comprar, recuperar e reconstruir mais tarde, o prazer que a experiência como professora lhe proporciona, mas que irá abandonar para se dedicar inteiramente à escrita e à defesa dos seus ideais de feminista como outras mulheres suecas do final do século XIX destacadas na luta pelo direito ao voto e pelo direito ao estudo para todas as mulheres. E o fim da vida, aos 81 anos em casa, frente à janela naquele Março agreste e fitando a fotografia da sua querida Sophie Elkan.

Foi uma vida longa e cheia como a tia Wennervik tinha previsto. Em contraciclo com o que a tradição e o “destino” reservava às mulheres: não se casou,  mas teve uma relação apaixonada por duas mulheres – Sophie e  Valborg – quando na Suécia a homossexualidade ainda era reprimida. Foi professora usando uma pedagogia e metodologias nada convencionais com as suas alunas e conseguiu criar um livro, uma lição da história, da cultura e da geografia da Suécia, que é uma viagem da Escândia até à Lapónia, seguindo as migrações dos gansos bravos dirigidos por Akka de Kebnekaise e em que Nils é o herói intérprete dessa viagem maravilhosa, que foi vivida por milhares de crianças suecas e de outros países onde o livro foi traduzido e divulgado. Selma teve sempre da educação e do conhecimento uma perspectiva emancipadora que a levou a abraçar os ideais feministas e mais tarde, quando instalada na sua casa restaurada e na grande quinta onde dirigia muitos trabalhadores, oferecia-lhes jornais e proporcionava-lhes a audição das notícias na rádio, para que estivessem a par do que se passava fora dos limites estreitos do trabalho diário. A cena do corte da sua magnífica trança representa o corte com o atavismo e um sinal de afirmação, de coragem e de revolta contra o imobilismo.

É um livro com muita luz, onde se respira liberdade, em que a Natureza é omnipresente. Selma amava a Natureza, as florestas de bétulas, as macieiras, as flores, a neve, os lagos. Para ela a natureza palpitava de vida, de seres com vida própria, tinha-lhe amor e respeito. Mas não só as vidas vegetais, também os alces, os lobos, os gansos, os corvos e os seres não palpáveis, mas em que acreditava piamente como os gnomos, os duendes, os fantasmas, as bruxas e os trolls. Não só a enfermidade que a paralisou durante muito tempo foi responsável por essa sensibilidade especial pela natureza, mas também o carinho das pessoas que lhe adoçaram a solidão dos dias ensinando-a a ler e a escrever – a governanta Aline Laurell – ou quem a ensinou a sonhar e a enveredar pelo mundo da fantasia – Backa-Kajsa – e também o pai cuja morte foi um desgosto profundo para ela.

A escrita foi intensa desde sempre e também, antes do primeiro romance, lhe provocou as dores da dúvida da aceitação e do reconhecimento, as dores da solidão da ausência de com quem partilhar. Foi assim até ao primeiro romance. Mas depois tornou-se-lhe claro que a sua vida seguiria o caminho da escrita. Intensa.

Independentemente de a casa Marback onde cresceu, de a sua compra e recuperação mais tarde terem sido dos maiores sonhos concretizados, e onde viveu muitos anos, as viagens dentro do país e no estrangeiro tiveram sempre um papel muito importante no seu desenvolvimento intelectual e emocional. Cristina Carvalho descreve-nos a casa, imaginamo-la com vida, com a vida quando os pais eram vivos e os irmãos e irmãs ainda lá viviam, nos dias das caçadas ao alce, com os sons e os cheiros vindos da cozinha, com o medo e a atracção que o sótão despertava em Selma, vemos o jardim com o lago e as macieiras, vemos Selma mais velha no escritório a ler e a escrever cartas, poemas, contos, livros. Papéis, muitos papéis. Vemos o quarto com a mobília que Sophie deixou a Selma quando morreu. E na entrada, o ganso empalhado a recordar Akka de Kebnekaise.

Estou certa que a leitura de “A Saga de Selma Lagerlöf” vai despertar em muitos de nós a vontade de ler Selma Lagerlöf. Certamente uma escrita luminosa. Obrigada Cristina Carvalho pelo belíssimo romance biográfico.

4 de Dezembro de 2018

Almerinda Bento

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

"Entāo, Boa Noite" de Mário Zambujal

Depois de uma leitura pesada nada melhor que umas horas de entretenimento com a escrita sempre bem disposta de Mário Zambujal. Correndo o risco de me plagiar, repetidamente, aqui vai o que achei deste livro...

Este autor tem uma escrita muito sui generis. Creio que a reconheceria mesmo de olhos fechados, caso conseguisse eu ler assim... Os personagens entāo, sāo, de sobremaneira, divertidos e excêntricos, alguns, marialvas e com características ..... É uma escrita que nāo cansa, que nos faz sorrir e que é perfeita para passarmos alguns momentos divertivos!

Este livro nāo foge à regra. Devido a um facto que o personagem principal, Afonso, chama de "plasticidade dos neuróneos", ele nāo tem sono de noite e passou, assim, a dormir durante o dia. Ora, isso complica um pouquito as suas relaçōes com as mulheres da sua vida! 

Garanto-vos que vão-se divertir com esta leitura e termina-la-ão com um sorriso nos lábios! Mário Zambujal no seu melhor!

Terminado em 3 Dezembro de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
"Gostei de muitas mulheres mas de nenhuma o suficiente para ser a última."

Fiel ao registo a que já habituou os seus leitores, Mário Zambujal regressa às livrarias nacionais com mais um romance pleno de humor e peripécias, aventuras protagonizadas por um sedutor que só consegue estar acordado durante a noite. Além dos inconvenientes de tal desordem, a vida deste rapaz vê-se ainda mais complicada quando inesperadamente recebe uma herança especial.

Então, Boa Noite relata as aventuras de Afonso Júlio, quase sempre fora de horas, na tentativa de cumprir o último desejo do seu padrinho: encontrar uma mulher, de quem só sabe o nome, e casar-se com ela. Nada impossível, pensarão alguns, mas Afonso Júlio vive com uma mulher e, como se isso fosse pouco, está enamorado por outra mulher. O que lhe vale é o destino.

"Cumpre-me respeitar a sua vontade (...) Pena que não me tivesse fornecido um único contacto para chegar à fala com essa menina. (...) Penosa investigação me espera mas sossegue, padrinho Josué, hei-de enfiar uma aliança no dedinho da Renata Jacinta. Embora pensando noutra."

Cris

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Para os Mais Pequeninos: "Juliāo, o Melro Poeta"

O que pode acontecer quando Juliāo, o melro, Edgar, o sapo, e mosca Zé-Zé se encontram e se tornam amigos? E quando Juliāo se acha poeta mas ofende a quem dirije a poesia, Edgar acredita que precisa de uma namorada que lhe dê um beijo para deixar de ser sapo e a Zé-Zé adormece em pleno voo e cai desamparada? 

Estas sāo algumas das peripécias que estes amigos passam na floresta a caminho do festival de poesia que decorre perto do Cromeleque dos Almendres (boa oportunidade de falar/explicar aos mais pequenos e, também, de programar uma visita).

Reparem então aqui nalgumas imagens:







Cris

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

"Sob um Céu Escarlate" de Mark Sullivan

Esta obra foi escrita tendo como pano de fundo o céu de Milāo numa época onde céu e terra se encheram de um tom escarlate sim, fruto da vergonhosa acçāo humana. Decorre entre Junho de 1943 e Maio de 45. É narrado pelo autor e surge depois de várias conversas com Pino Lella, o protagonista desta história, com outros historiadores e bastantes viagens aos locais narrados e a centros dedicados ao Holocausto, entre os quais o famoso Yad Vashem, em Israel. É uma história o mais verídica possível, dada a distância que separa os acontecimentos e por ter sido contada por outrém, que nāo viveu na pele o sucedido. É uma história o mais verídico possível... antes nāo o fosse. Gostava de vos poder dizer que este livro é um livro de ficçāo. Mas nāo é. Nem se consegue lê-lo como tal.

Confesso que no início os diálogos nāo me convenceram e lembro-me de ter pensado que teria sido melhor que o próprio protagonista, Pino, tivesse narrado os acontecimentos vividos por ele. Mas, a pouco e pouco, a história começou a fazer sentido e a entranhar-se em mim. De tal forma que acabei por dar as estrelas correspondentes ao que senti: revolta, medo, horror, esperança e desilusāo. A justiça, mais vezes do que seria desejável, nāo é uma realidade.

Adorei esta leitura. Uma história verídica, contada de uma forma muito realista mas ao mesmo tempo com uma sensibilidade extrema. Colocamo-nos de imediato no ambiente da época, sentimos na pele um pouquinho do terror em que viviam os habitantes que se opunham ao regime, experienciamos também o que era viver na clandestinidade, o estar vivo num minuto e a sorte de estar vivo no minuto seguinte...

Passado o horror, Pino nunca contou o que viveu nesses meses, o que fez para salvar alguns judeus, como se tornou espiāo. No pós-guerra encontrava-ve muito debilitado psicologicamente (como todos aqueles que sobreviveram) e tentou viver, ser feliz, escondendo no fundo de si mesmo tudo o que passou, carregando a culpa dos seus actos e abafando-a. Abriu-se com o autor do livro quando tinha já quase noventa anos. Porque como Pino disse: "Alguém muito sábio disse-me uma vez que ao abrirmos o nosso coraçāo, revelando as nossas cicatrizes, tornamo-nos humanos e imperfeitos e inteiros." E isso nāo é algo fácil, pois nāo?

Um livro que adorei ler. Que me comoveu muitíssimo. Nota máxima.

Terminado a 2 de Dezembro de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
Pino Lella não quer nada com a guerra ou com os nazistas. Ele é um adolescente italiano normal - obcecado por música, comida e miúdas, mas os seus dias de inocência estão contados. Quando a sua casa em Milão é destruída pelas bombas dos Aliados, Pino junta-se a uma via-férrea subterrânea ajudando judeus a escapar dos Alpes e apaixona-se por Anna, uma bela viúva seis anos mais velha do que ele.
Numa tentativa de protegê-lo, os pais de Pino forçam-no a alistar-se como soldado alemão - julgando que assim o manteriam longe de combate. Mas Pino é ferido e depois recrutado, aos dezoito anos, como motorista pessoal do general Hans Leyers, o caudilho de Adolf Hitler na Itália, e um dos comandantes mais misteriosos e poderosos do Terceiro Reich.
Agora, com a oportunidade de espiar o Alto-Comando Alemão, Pino luta em segredo, suportando os horrores da guerra e da ocupação, tendo a sua coragem reforçada pelo seu amor por Anna e pela vida que ele sonha que um dia compartilhar.

Cris

sábado, 1 de dezembro de 2018

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A Convidada Escolhe: Bestiário de Kafka


Bestiário, Franz Kafka, 1912, 1915, 1917, 1918, 1920, 1921, 1922, 1923, 1924

Antes de mais, quero dizer que não tenho uma relação fácil com Kafka. Há tempos iniciei a leitura de “O Castelo” que se arrastou penosamente e que acabei por deixar a mais de meio, com um marcador que assinala o momento em que achei que já bastava! Eu sei que Kafka é considerado um dos mais importantes autores do século XIX e cito a informação da contracapa do exemplar da colecção “Autores Premiados pelo Tempo”, exactamente o volume 12 – “ O Castelo” – de “Grandes autores que nunca ganharam o Prémio Nobel reunidos numa colecção única e irreverente”: “Franz Kafka não ganhou o prémio Nobel por não ser um autor consagrado quando a morte o levou. Algumas das suas principais obras, como “O Processo”, “O Castelo” ou “América” só foram publicados postumamente pelo seu amigo Max Brod, que não respeitou o pedido de Kafka para que estas fossem destruídas.”

É muito raro não levar um livro até ao fim, mas revejo-me completamente senão em todos  “Os Direitos Inalienáveis do Leitor” de Daniel Pennac pelo menos no 3º direito “O Direito de não acabar um livro”! Há tanto para ler e independentemente da justeza e da pertinência dos temas de Kafka, a sua leitura deixou-me cansada, deprimida mesmo. Na minha opinião, ler Kafka, entrar no seu mundo é perceber que para ele o mundo lhe era insuportável e que a vida foi algo de muito penoso.

Mas como gosto de me questionar e fui/fomos como participantes do Clube de Leitura da Bertrand do Chiado convidados a aventurar-nos nos “Diários” e no “Bestiário” de Kafka, escolhi este último, uma colectânea de contos em que os animais são narradores ou personagens principais.

Se nestes contos há temas que me parecem evidentes, noutros as próprias personagens podem ser sujeitos de leituras muito diversas e de interpretações bem diferentes. Nada em Kafka é linear ou unívoco. Kafka é suficientemente ambíguo e perturbador para deixar em aberto as muitas acepções dos seus livros, das suas propostas, permitindo múltiplas leituras e interpretações das suas obras.

Em “A Transformação” ou “ A Metamorfose” face à transformação de Gregor Samsa num “monstruoso insecto”, a família considera que foi atingida por uma desgraça e rejeita-o, esconde-o, despreza-o, agride-o. Como ninguém o aceita como ele é, Samsa percebe que não tem outra coisa a fazer senão desaparecer e morre, o que constitui um alívio para os pais e irmã e a possibilidade de um futuro sorridente para eles, libertos daquele estorvo. A metáfora do insecto monstruoso é o medo e a não aceitação da diferença, que pode ser a doença, a deficiência, a deformidade física ou a escolha de um caminho fora da norma socialmente estabelecida.

Em “Relatório a uma Academia” é pedido a um macaco que faça um relatório da sua anterior vida, antes de ter sido capturado na Costa do Ouro. Difícil este relatório, na medida em que o macaco foi adestrado e já mal se lembra como era. Primeiro aprendeu a dar um aperto de mão e depois aprendeu a palavra. Para sobreviver ao cativeiro, consciente de que jamais poderia ansiar à liberdade, aquilo por que todos os humanos aspiram sem nunca conseguirem alcançar, o símio percebeu que precisava de uma “saída” e para tal só tinha de imitar os humanos. Embora sendo-lhe insuportável a domesticação, essa foi afinal a única saída possível. Creio estarmos aqui perante uma reflexão sobre os limites da liberdade e sobre os limites que a sociedade impõe a todos os humanos que julgando-se livres, não o são de facto. Este tema da liberdade está também presente na “Fábula Breve” em que o rato se apercebe de que o seu mundo se vai estreitando cada vez mais, acabando por ser devorado pelo gato, quando foge da ratoeira. E se em “Investigação de um Cão” o cão iniciou as suas investigações quando ainda era cachorro e agora já é velho, para saber “que erro decisivo e determinante cometeu” sem encontrar respostas, passa o tempo a fazer perguntas sobre a ciência, sobre a alimentação e sobre a experiência, para concluir que a liberdade é o mais importante. “A liberdade! Certamente a liberdade, tal como ela é possível hoje em dia, é uma miserável excrecência. Mas ainda assim é a liberdade, ainda assim uma posse.”

“A Toca” foi construída por um animal que não sabemos identificar. A toca é “um grande buraco que não conduz a parte nenhuma”. É um labirinto, com túneis, galerias e uma praça-forte onde armazena presas que vai capturando. Sente-se seguro, tem alimentos suficientes para viver, tem silêncio e paz. Aquele é o seu “castelo”. Mas aquela segurança não lhe basta e aventura-se para o exterior para observar e para se assegurar da sua inexpugnabilidade. Quando de volta ao seu “castelo” transportando mais uma presa, começa a ouvir um ruído, o que põe em dúvida todas as certezas de segurança e invencibilidade que o seu esconderijo cheio de comida lhe dava. Como muitas pessoas que armazenam fortunas e bens e se entrincheiram num falso casulo de segurança, mas que um dia, perto da velhice e da morte se confrontam com a certeza da morte e com a sua própria fragilidade. Um texto também ele labiríntico e que ficou inacabado, como aconteceu com muitos dos romances de Kafka.

Por fim, “Josefina, a Cantora ou o Povo dos Ratos”. Josefina aparece como uma cantora, mas poderá representar um herói ou uma pessoa ilustre, alguém que num determinado período teve um papel agregador dum povo ou duma comunidade. Mesmo que esse povo, pouco dado à música, se sentisse atraído por ela. É um conto cheio de adversativas. Para mim, cheio de questões que ficaram em aberto.

Finalmente, quero valorizar o livro físico, com uma capa dura com desenhos e separadores muito interessantes.

22 de novembro de 18

Almerinda Bento

terça-feira, 27 de novembro de 2018

"Meu" de Susi Fox

Gostei muito desta leitura. Achei-a credível e senti uma imediata empatia com a narradora e principal personagem, Sasha, uma médica patologista que acabou de dar à luz depois de anos de tentativas falhadas. 

Envolvi-me de imediato com a escrita da autora. É real, cheia de palavras urgentes que nos impelem para uma leitura compulsiva. Os termos exactos, as sensaçōes contraditórias após um parto inesperado antes do termo por cesariana, a necessidade de sentir amor por um ser que é apresentado como sendo "nosso" no final de uma anestesia geral, tudo achei verosímil no discurso de Sasha. Tanto que acreditamos nas suas sensaçōes, nas suas desconfianças quando afirma que aquele bébé nāo é o seu.

Foi um livro de leitura muito rápida, com a minha mente a formular mil ideias do que poderia ter acontecido dadas as voltas e reviravoltas que a própria Sasha transmite ao colocar para si própria as várias hipótese e as suas desconfianças. Chegamos a desconfiar de tudo e de todos, inclusivé da sanidade mental da protagonista. Sasha sofrerá de alguma patologia?

Adorei este tumulto de hipóteses, este nāo saber o que contar e tive uma frenética vontade de saltar frases, páginas para chegar ao fim. Adorei o final. Uma desconfiança, um pequeno alerta, vai ficar-vos presente mesmo após o términus do livro. Achei isso espectacular! Como é evidente nāo posso falar-vos de como termina esta história nem tampouco dessa dúvida que a autora deixou em aberto e que achei uma ideia fantástica. 

E nāo, nāo descobri nada do final. Serei muito básica nesta coisa de trillers dado a autora ter-me enganado constantemente durante esta leitura?

Terminado em 23 de Novembro de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Uma mãe diz que o recém-nascido que lhe trazem não é seu. Depressão pós-parto? Ou um dos piores pesadelos de uma mãe? Sasha vê-se obrigada a um parto prematuro, por cesariana. Mas quando o bebé nasce, ela diz que não é seu. Todos interpretam aquilo como um caso grave de depressão pós-parto, mas a situação piora. Sasha torna-se amiga de Brigitte e fica horrorizada ao descobrir que o filho dela é de facto o seu.

O bebé acaba por morrer de uma infeção e Sasha dá tudo por tudo para ficar com o seu «filho» Toby.

Cris

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

"Wonderstruck, o Museu das Maravilhas" de Brian Selznick

Este livro é um livro de peso. Muito peso mesmo! E nāo falo só em sentido literal porque, de facto, ele deve ser um dos livros mais pesados da minha estante, mas em sentido figurado também! É de "peso" sim porque é uma pequena maravilha da literatura. 

Fisicamente é um livro lindíssimo! Autor e ilustrador reunidos numa só pessoa fazem com que a complementariedade entre a escrita e a ilustraçāo resulte num livro belíssimo. Duas histórias separadas por meio século sāo contadas, uma por texto, outra por ilustrações. E como nāo podia deixar de ser acabam por casar-se no final, fazendo sentido e explicando as pontas deixadas a meio das histórias. E que engraçado foi sentir-me impaciente e tentar passar depressa as folhas com as ilustraçōes para pôr-me ao corrente mais depressa do enredo...

Adorei! Um livro para miúdos e graúdos! Uma belíssima prenda de Natal.

Estrelas: 6*

E nāo podia deixar de vos mostrar algumas ilustraçōes para que possam imaginar as restantes:







Cris

sábado, 24 de novembro de 2018

Na minha caixa de correio

  

  

L
  


Todos estes livros foram ofertados pelas editoras parceiras do blogue. Obrigada Coolbooks, Planeta, Porto Editora, Companhia das Letras, Quinta Essência, Clube do Autor , Alfaguara e Cultura. Fizeram desta semana o meu Natal!

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Para os Mais Pequeninos: "O Livro Dos Erros"

Que livrinho engraçado este! É certo que o "li" num ápice, quase a voar, porque fiquei curiosa com o desenrolar do "erro" de desenho por onde começa esta história... mas, vocês, quando estiverem com uma criança por perto nāo sejam tāo gulosos como eu fui e prolonguem o tempo em que estāo em cada página porque é dos pequenos pormenores que vive esta história.

Ver com atençāo é a leitura proposta por esta obra. Achei-a tāo engraçada que vos desvendo um pouquito do véu...

Ora vejam:






Cris

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

"Mindhunter" de John Douglas e Mark Olshaker

Para além de um "Māe, este livro é de uma série da Netflix!", pouco sabia sobre ele. Qualquer coisa sobre "assassinos" mas nāo fazia ideia que era de "nāo ficçāo".

O livro é quase uma auto-biografia de John Douglas (creio ter sido escrito por Mark Olshaker) e, na primeira pessoa, conta-nos o seu percurso profissional, de como um aluno mediano passou a um excelente "caçador de mentes". Já explico melhor...

Preparem-se para ouvir falar de vários assassinos, a maior parte deles, assassinos em série, dos mais macabros e horriveis que possam ter ouvido. O pior é que se trataram de casos verídicos passados dos EUA e felizmente, quase todos, terminaram com a captura do criminoso. Ao mesmo tempo vamos acompanhando a vida pessoal e a progressāo profissional de Mark. 

O estudo da Ciência do Comportamento, negociaçāo de reféns, as técnicas de elaboraçāo de perfis, a análise do comportamento e psicologia criminal, as técnicas pro-activas elaboradas para atrair os criminosos, sāo temas que vāo ser abordados no decorrer da leitura e que achei deveras interessantes.

Mas nāo pensem que se trata um "manual do assassino" onde se podem encontrar as fórmulas usadas pelo FBI para elaborar, com base nas fotos e relatos dos acontecimentos, perfis dos assassinos. Sāo muito surpreendentes esses perfis e, muitas vezes, foi com eles que conseguiram alcançar os verdadeiros criminosos. 

Uma vida muito interessante de se conhecer, embora o preço a pagar, da intensa dedicaçāo ao trabalho, fosse, na minha opiniāo, muito elevado.

Acho que quem gosta de saber mais sobre o tema deve ler esta obra. Eu gostei muito de o fazer. 

Terminado em 18 de Novembro de 2018

Estrelas: 5* 

Sinopse
Os bastidores de alguns dos casos mais terríveis, mais impressionantes e desafiadores investigados pelo FBI .

Ao longo de mais de duas décadas ao serviço desta instituição, o agente especial John Douglas tornou-se uma figura lendária, com uma ação exemplar na aplicação da lei e na perseguição aos mais sádicos e violentos homicidas do nosso tempo.

Tal como John Crawford em O Silêncio dos Inocentes, Douglas confrontou, entrevistou e estudou muitos assassinos em série, entre os quais Charles Manson, autor dos macabros crimes de Los Angeles no final da década de 1960. Com uma extraordinária habilidade para se colocar quer no lugar da vítima quer na do criminoso, Douglas analisa cada cena do crime, revivendo mentalmente as ações de um e de outro, definindo os seus perfis, descrevendo os seus hábitos, antevendo os passos seguintes.

Um fascinante relato de vida de um agente especial do FBI e da mente dos mais perturbados assassinos em série que ele perseguiu.

Escrito com a força de um thriller, embora assustadoramente real, Mindhunter é um clássico do género. Um livro que serviu de inspiração à série homónima da Netflix.

Cris

sábado, 17 de novembro de 2018

Na minha caixa de correio

  

 
O Desculpe Sr Nobel  comorei num alfarrabista juntamente com Os Segredos da Fermentaçāo.
Ofertados pelas editoras parceiras chegaram:
- A Provadora e Um Bom Partido pela Saída de Emergência
- Foi Sem Querer Que Te Quis pela Manuscrito

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Para os Mais Pequeninos: "Mortina, Uma História de Morrer a Rir"

A capa e o título deste livro podem parecer um pouco macabros visto que se trata de contar uma história para a criançada mas esqueçam lá isso! A Mortina, uma menina sem amigos que por acaso está morta é deliciosa! Endiabrada e bastante solitária ela só tem um desejo: brincar com os meninos que observa às escondidas! O Halloween é o pretexto para sair à socapa, sem a tia ver, e misturar-se com a miudagem!

Será que ela vai conseguir manter o seu segredo?

Um livro divertido, cheio de pormenores, com desenhos muito criativos e uma história amorosa onde a amizade ultrapassa todas as barreiras... Afinal, as crianças veem as coisas de outra forma, nāo é?

Ora espreitem lá...






Cris

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A Escolha do Jorge: "A Saga de Selma Lagerlöf"



“Tive sempre presente em mim a ideia e a certeza de que toda a literatura deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.” (p. 103)

A edição de “A Saga de Selma Lagerlöf” de Cristina Carvalho constitui uma agradável surpresa no contexto das publicações neste final de ano. Para quem segue a escritora através da sua página do Facebook, pôde acompanhar a sua recente viagem à Suécia a fim de recolher informação sobre Selma Lagerlöf, a grande e amada escritora sueca, com a finalidade de escrever este romance biográfico.

Escrito num discurso intimista em que por vezes se confundem as vozes de ambas as escritoras, é notável e até comovente a homenagem que é feita a Selma Lagerlöf (1858-1940) por parte de Cristina Carvalho.

Embarcamos nesta viagem literária e não raras vezes ouvimos os barulhos das criaturas da floresta com toda a magia que a imaginação pode criar e transportar. Várias são igualmente as vezes em que nos parece ouvir a própria Selma Lagerlöf no meio de tanta magia e seres fantásticos, mas também junto de personagens maravilhosos e inesquecíveis dos seus romances.

Ler Selma Lagerlöf é descobrir um amor duradouro porque desperta em cada um de nós a vida e o
fantástico, alimenta em nós a ideia fervilhante da vida em que a imaginação e a criatividade precisam de ser estimuladas, fomentando a arte e os valores, no fundo.

Natural da província de Värmland, Selma Lagerlöf transpôs para as suas obras a essência primordial da cultura sueca. Värmland é “a região povoada por seres da mais requintada fantasia: feiticeiras, trolls, gnomos de todas as espécies, duendes, anões e fadas. Em todas a vasta Suécia, é este o território de todas as grandes fantasias.” (p. 34)

Através de uma escrita simples e de fácil compreensão para todos, Selma Lagerlöf rompeu com as correntes literárias de então, o realismo e o romantismo, sendo bastante criticada pelos seus pares, principalmente por August Strindberg. Talvez tenha sido essa ideia de fantástico que tenha despertado a imaginação dos leitores das obras de Selma Lagerlöf e, em função disso, os tenha remetido, para a ancestralidade da sua cultura e esse fantástico que de alguma forma nos desperta.

Selma Lagerlöf desde criança conviveu com a ideia permanente de magia e de fantástico desde as prédicas da velha tia Wennervik que lhe vaticinou o futuro, desde a deficiência numa perna à sua relação com os livros.

O problema físico que paralisou Selma Lagerlöf durante alguns anos obrigou-a a ficar muito tempo em casa, na grande propriedade em Mårbacka, onde nasceu e viria a falecer. Selma Lagerlöf tentava perceber à distância os barulhos e ruídos das rotinas caseiras, da floresta envolvente e de grandes eventos como as caçadas que envolviam vários homens num conjunto de rituais que, no final, esquartejavam os animais, dividindo a carne para as várias famílias envolvidas na caçada.

A par de todos estes momentos e episódios que decorriam ao longo dos anos ao sabor das estações do ano, Selma Lagerlöf contou ainda com a presença de Backa-Kajsa, uma empregada ao serviço da família, que lhe contava histórias repletas de fantasia e mistério sendo reforçadas com uma linguagem corporal adequada. “Com Backa-Kajsa, descrevi grande parte da infância em muitos dos livros que escrevi. Em todos os cenários de festa, de tristeza, de mistério, fantasias, bruxedos e aventuras, de alguma forma, Backa-Kajsa está presente. Tão presente quanto uma imagem e uma lembrança de infância conseguem ser retidas ao longo de toda uma vida.” (p. 68)

Os anos foram passando e Selma Lagerlöf tornou-se professora de História e Literatura numa escola para raparigas. Os seus métodos de ensino tornaram-na bastante popular e acarinhada pelas alunas. A par da sua actividade como professora, Selma Lagerlöf tornou-se numa acérrima defensora do feminismo e dos direitos das mulheres.

Na sequência de um concurso na revista literária “Idun”, em 1890, Selma Lagerlöf publica o seu primeiro romance “A Saga de Gösta Berling”, no ano seguinte, chamando a atenção do grande público. Mais tarde, em 1907, seria publicado o livro que levaria a escritora a conquistar leitores de todas as idades com “A Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson através da Suécia”. Estas são as obras mais vendidas de Selma Lagerlöf na Suécia e das mais traduzidas em todo o mundo na sequência da autora ter sido galardoada com o Prémio Nobel de Literatura, em 1909, tendo sido a primeira mulher a receber semelhante prémio. De referir ainda que, em 1914, Selma Lagerlöf tornou-se também na primeira mulher a integrar a Academia Sueca numa época em que só homens eram admitidos.

No que concerne à vida amorosa, a escritora sueca mostrou-se também uma mulher à frente do seu tempo. Tendo como suporte o feminismo e a luta pela emancipação das mulheres, Selma Lagerlöf teve dois relacionamentos amorosos duradouros com duas mulheres, a judia Sophie Elkan e Valborg Olander. “Eu amei duas mulheres, aliás, amei três assuntos femininos, Mårbacka, Sophie e Valborg. Dei-lhes todos os meus melhores sentimentos, sofri e alegrei-me com elas. E o meu sentir apaixonado foi sempre o que tive de melhor na minha vida. Quero lá saber o que pensam de mim! Eu quis amar, dar o meu sangue interior. O meu pai percebeu-me sempre muito bem. Ele sabia o sentia tudo o que está no interior das florestas. Eu fui uma floresta.” (p. 137)

Muito se poderia dizer sobre a vida e a obra Selma Lagerlöf e, na verdade, a autora Cristina Carvalho faz essa chamada de atenção no final deste romance biográfico, no entanto, esta obra constitui um marco na revitalização das obras de Selma Lagerlöf, assim como, reposicionar o lugar da escritora sueca no contexto dos grandes escritores intemporais que deixam marcas indeléveis nos seus leitores. O mesmo se pode dizer deste romance biográfico que nos aproxima ainda mais de Selma Lagerlöf,
aproximando-nos do seu mundo, da sua floresta.

Compreendemos, desta forma, a razão de tantos e tão notáveis escritores oriundos dos países do Norte da Europa serem considerados “propriedade cultural” de toda a região e não somente do país de nascimento de cada um. A universalidade dos temas tratados, a par do amor que lhes é conferido, fazem de escritores como Selma Lagerlöf um dos nomes que mais contribuiu para a grandeza da Literatura.

Excerto:
“No fundo, nada interessa. O que restará? Quem pode dar alguma importância, a quem pode interessar a descrição do interior de uma casa? Só mesmo a ti, minha amiga Cristina Carvalho, que te apaixonaste por mim de uma maneira tão intensa e desinteressada, que te apaixonaste por uma pessoa que aí para os teus sítios de vida poucas pessoas conhecem. Pretendes alguma coisa, realmente, ao escrever, nesta forma de romance biográfico, a minha vida? Desejas que todos fiquem a conhecer-me e a gostar dos meus livros? Não penses nisso! Se quisessem conhecer-me já tinham tentado, já teriam lido, pelo menos “A Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson através da Suécia”, esses livros que, a seguir a “A Saga de Gösta Berling”, me tornou famosa no mundo inteiro! Queres render-me homenagem? E quando viajas pela velha Suécia, pelo seu interior, quando vagueias pelas florestas ou quando admiras os lagos e as paisagens planas e ouves o uivo do lobo e o rosnar do urso? Achas que alguém se interessa por ti ou por mim quando, na margem de um lago qualquer, quase a tocar o céu iluminado pelo sol da meia-noite, te sentas e emudeces por tanta beleza? Queres vislumbrar a minha alma, eu sei, mas essa, nem essa já existe. Transformei-me. Morri há muito, mais exactamente em 1940, e saí daqui para sempre. Se é que – para sempre – quer dizer alguma coisa no todo da eternidade.
Continua, então, a descrever agora o interior da minha casa do modo mais terno e amável que conseguires. Imagina-me! Solta-me! Prende-me!” (pp. 153-154)

Texto da autoria de Jorge Navarro