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sábado, 22 de setembro de 2018

Na minha caixa de correio

  

   

  


Oferecidos pelas editoras parceiras:

O Legado, Quetzal
Meu, Bertrand Editora
A Bailarina de Auschwitz, Saída de Emergência
Uma História Negra, Suma de Letras
Isto Vai Doer, Cultura
A Ansiedade nos Nossos Dias, Bertrand Editora
Comer, Crescer, Treinar, Matéria Prima
A Menina Que Crescia Contos, Objectiva
Está Uma Cobra na Minha Escola, Porto Editora

O meu mais sincero obrigada!

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A Convidada escolhe: "A Carne"

Demorei a conseguir ler este romance que pela sinopse me pareceu promissor. Apesar da fase atribulada que me levou a lê-lo com interrupções, com este romance, a escritora/jornalista entrou definitivamente na minha lista do autores que não dispenso de ler.

A necessidade de amor, o abismo do desamor, a raiva e glória da paixão, contemplados na exposição sobre Escritores Malditos que a curadora de arte se preparava para apresentar ao mundo e que intercala em pequenos curiosos excertos na narrativa vibrante e mordaz do seu relacionamento com Adam, o gigolo, também eles malditos.

Soledad sente a inexpugnável passagem do tempo e o apelo da carne de uma forma que não pode deixar de exteriorizar com humor e mágoa. A parafernália de truques e produtos para retardar o envelhecimento e combater as maleitas que por medo ou debilidade se ganham muito me divertiu. Soledad é uma mulher como tantas outras e certamente este romance tem um pouco de autobiográfico, no que concerne à pressão social, o isolamento e a solidão de certas mulheres, nomeadamente mulheres de carreira. Adam, o gigolo não é o tipo de personagem que eu esperava encontrar. Surpreende e desarma mas não cativa. O apelo e a empatia/ antipatia com este livro depende exclusivamente de Soledad.

Rosa Montero aparece como personagem secundária (com algum relevo) na trama de Soledad Alegre, que bem se poderia chamar Crónica do Desamor.

Trepidante, e lúcido, numa escrita desarmante e envolvente é profundamente sentido, pelo menos para mim. Recomendo sem reservas.

Vera Sopa

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

"Quarenta Dias Sem Sombra" de Olivier Truc

O roubo de um tambor Sami nas regiões geladas da Lapónia Central, seguido de um assassinato de um criador de renas, leva ao desenrolar de uma investigação por parte de Nina e klemet, polícias das renas (departamento que nem sabia que poder existir).

Desconhecia tembém tantos mas tantos pormenores sobre essa região do nosso planeta que foi um gosto aprender no decorrer desta leitura. As decrições são muitas mas inseridas sabiamente nas histórias das personagens, o que faz deste livro uma leitura muito aprasível. A noite polar, o frio gélido com temperaturas abaixo dos 20/40 graus, o tipo de vida duro e implacável que os habitantes, sobretudo os criadores de renas, possuem, a aurora boreal, tudo reflete o meio ambiente em que decorre o enredo. No entanto, este livro não é para quem quer fazer uma leitura rápida e sôfrega. 

Eu fiquei indecisa. Ora tanto queria apreciar os detalhes, o ambiente descrito com requinte e pormenorizadamente, como queria que o livro avançasse depressa para saber quem fez o quê e qual as razões... Um misto de sentimentos que me levaram a quer impacientar-me, quer a saborear esta obra.

Por isto tudo, demorei dias a lê-lo já que o ambiente é morosamente descrito, mas não de uma forma aborrecida, isso não! Parecia que o mundo lá, onde a noite de quase 24 horas faz parte de um dia normal, decorre devagar, lentamente. Como se a noite e a neve fizessem retardar os movimentos e, por isso mesmo, a história. Para quem goste de apreciar detalhes, conhecer a cultura de um povo sui generis, as suas formas de pensar e agir tão ligadas ao clima (eu não conseguiria viver assim, quase sempre noite cerrada!), é um livro perfeito. Para desfrutar o ambiente pese embora os pormenores do assassinato possam ser macabros.

Gostei desta leitura, embora a tivesse interrompido por diversas vezes para me mexer, e depois, a tivesse retomado logo de seguida, como se esse acto, esse movimento, pudesse de alguma forma acelerar a acção. Um enredo cuidado, que faz transparecer o profundo conhecimento do escritor da zona retratada.

Mas a meio do livro a leitura flui mais depressa porque o ritmo da investigação também se torna mais rápido. Deste modo, a vontade de avançar na leitura intensifica-se.

Uma leitura que se quer lenta e cuidada. Para saborear devagar.

Tive bastante pena de não ter podido comparecer no encontro promovido pela editora para conhecer o autor. Tantas coisas para lhe perguntar! Como será a personalidade dele? Calmo e detalhado ou, pelo contrário, agitado e inquieto? Porque foram esses sentimentos que este livro me fez sentir...

Terminado em 15 de Setembro de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Um policial étnico fascinante que nos leva a uma terra misteriosa e a conhecer uma cultura lapã incrível, infelizmente quase desconhecida.
Lapónia vai seduzi-Lo e o estilo deste novo autor também.

O pano de fundo deste fantástico policial é um lugar aparentemente tranquilo perto do Ártico, mas que se revelará uma terra de conflitos, mistérios e ódios ancestrais. Um romance fora do convencional que os Leitores de policial nórdico vão adorar.
Um mistério rico e intenso que o autor vai revelando, lentamente ao longo do livro, com um bom fundo social «comprometido» com as minorias e que vai mostrar-nos também o papel que países como a Noruega e a Suécia tiveram durante o nazismo, com numerosos colaboradores infiltrados.

Cris

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Escolha do Jorge: “As Pequenas Histórias”

O volume “As Pequenas Histórias” é uma antologia de contos hispânicos do século XX que foi
trazida à luz no âmbito do Clube UNESCO Literatura-Mundo, com sede no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A organização da presente antologia tem a responsabilidade de Ângela Fernandes, Cristina Almeida Ribeiro e Miguel Filipe Mochila.

Tratando-se de uma antologia, colocam-se as habituais questões sobre a pertinência e relevância dos autores e contos seleccionados, no entanto, os dezassete contos que integram o presente volume reflectem um pouco do melhor que foi publicado ao longo do século passado no que concerne à literatura hispânica.

Entre autores já conhecidos e anteriormente publicados em Portugal, esta antologia cumpre também a missão de dar a conhecer aos leitores portugueses alguns nomes maiores das letras hispânicas nunca antes traduzidos.

Os contos apresentam temáticas bastante variadas, ricos em conteúdo, mas ganhando, nalguns casos pertinência pela forma, pela arte de contar um conto.

Lendo os primeiros contos, rapidamente percebemos que estamos perante literatura de grande qualidade, não somente por já termos lido obras de autores como José Donoso (Chile), Adolfo Bioy Casares (Argentina), Roberto Arlt (Argentina), Horacio Quiroga (Uruguai) e Miguel de Unamuno (Espanha), mas porque de conto para conto, percebemos da riqueza e da forma como todas estas propostas contribuem para a importância da literatura hispânica.

É interessante analisar, nesta viagem literária, as várias formas de escrita, os assuntos em análise, as preocupações políticas e sociais dos vários autores, mediante o período em que viveram, mas sobretudo a apropriação da linguagem ao longo do século XX, espelhando também um certo traço de intemporalidade, algo que, em certa medida, une os contos entre si.

“As Pequenas Histórias” são contos mais ou menos breves que reflectem o contributo dos seus autores na forma como valorizam e engrandecem o conto enquanto género literário.

A edição de “As Pequenas Histórias” corresponde a uma atitude arrojada tendo em consideração um país que tanto tem desvalorizado o conto enquanto género literário. Neste volume, reencontramos autores já do nosso conhecimento e agrado, sendo interessante identificar o estilo de cada um deles nestes contos em comparação com os seus romances.

O presente volume aguça-nos o desejo de descobrir as obras de autores que somente agora surgem traduzidos em português pela primeira vez, sendo que esse constitui, de certa forma, um dos objectivos deste género de antologias que congregam vários autores.

A edição de “As Pequenas Histórias” pela Cavalo de Ferro surge em contra-ciclo face à tendência do que é publicado em Portugal nos últimos anos, apostando, assim, na literatura de referência.

Excertos:
"— Eu vim cumprir uma alta missão filantrópica!... E é necessário que a Elsa me dê um beijo para que eu perdoe à humanidade a minha corcunda! Por conta do beijo, sirvam-me um chá com conhaque. É uma vergonha como recebem as visitas! Não torça o nariz, minha senhora, que eu perfumei-me! E traga-me o chá!"
ROBERTO ARLT (Argentina) in "O Corcundinha", p. 128

“Fala-se demasiado. O mundo está envenenado pelas palavras. São elas a fonte da maior parte dos nossos actos reflexos, das nossas frustrações. A palavra é a grande armadilha, a palavra velha, a palavra gasta. É muito certo isso de começarmos a morrer pela boca como os peixes. Eu próprio falo e falo. Para quê?” 
AUGUSTO ROA BASTOS (Paraguai) in “Contar um Conto”, p. 162

“Sempre desejei morrer de prazer e por pouco conseguia, graças a ti. Quando senti que o coração me falhava, tive mais felicidade de que dor, juro, como se estivesse a entrar no céu a cavalo. Mas no último instante agarrei-me à vida, e sabes porquê? Não quis morrer sem ti. Como posso deixar ali sozinha a minha rainha adorada?, pensei. Fica mal dizê-lo, mas desejava com toda a alma que morresses comigo. E a pura da verdade é que ainda o desejo.”
ENRIQUE SERNA (México) in “Enterro Maia”, p. 221

Texto da autoria de Jorge Navarro

sábado, 15 de setembro de 2018

Na minha caixa de correio

   

  

Oferecido pelas editoras:
A Sereia de Brighton, Porto Editora
Óleos Essenciais, Pergaminho
A Rapatiga do Gelo, Alma dos Livros

Comprado num alfarrabista:
O Desaparecimento de Stephanie Mailer, Suma de Letras
Fim de Turno, Bertrand

Livro da biblioteca - numa mesa para oferecer aos utentes da biblio.
A Biblioteca do Geógrafo, Circulo dos Leitores

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

"The Kitchen Boy - Os Últimos Dias dos Romanov" de Robert Alexander

Peguei neste livro para um projecto de leitura conjunta com umas meninas. Que bom tê-lo feito! Ele é simplesmente espectacular!

É um romance de ficção baseado em factos históricos. É uma leitura muito empolgante, com uma narrativa que, num crescendo, envolve rapidamente o leitor e o leva a questionar sobre os acontecimentos que determinaram a morte da família do Kzar da Rússia e sua família.

Conhecia pouco sobre essa época onde Brancos (defensores da autocracia) e Vermelhos (bolcheviques) lutaram entre si e de quando Nicolau II foi assassinado junto com sua esposa e filhos no portão da casa Ipatiev na cidade de Ecaterimburgo, em julho de 1918 e por isso adorei os twistes que a narrativa possui e como descobrimos no enredo que nada aconteceu como pensamos ter acontecido. Mesmo até ao final são surpresas atrás de surpresas!

Uma ficção que dá gosto ler porque se aprende História com esta história, muito embora o autor tenha optado por ficcionar uma boa parte da narrativa, facto que a tornou muito especial. Em boa verdade os boatos que se sucederam sobre possíveis sobreviventes do massacre, deram aso a históras mirabolantes que não se conseguiram provar.

Um livro que recomento sem qualquer dúvida! Muito bom!

Terminado em 9 de Setembro de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
Um romance fascinante onde os segredos da família imperial russa são finalmente revelados. «A 16 de Julho de 1918, o curso da história da Rússia mudou para sempre. Nessa noite, o czar Nicolau II e a sua família foram brutalmente executados pelos bolcheviques. Houve apenas uma testemunha - o ajudante de cozinha. Ele é a única pessoa viva que realmente sabe o que se passou. Que segredos nos serão revelados sobre os últimos dias dos czares? É que, apesar de já ter passado quase um século, a prisão e execução do czar Nicolau e da sua família continuam envoltas em mistério e fascínio.»

Cris

terça-feira, 11 de setembro de 2018

"Desafios Matemáticos Que Te Vão Enlouquecer" de Inês Guimarães

Nunca tinha ouvido falar da Inês. Tal não é de estranhar porque sou da área das "letras" e, embora gostando de matemática, fugi das ciências porque Fisica e Química eram, para mim, algo de intragável... Quando peguei neste livro, apercebi-me que a autora tem um canal no Youtube e fui cuscar.

Confesso que alguns videos foram difíceis de entender sequer o que a Inês se estava a referir... mas o seu entusiasmo, a sua forma de comunicar tão entusiasta e natural e os problemas que ela coloca fizeram-me subscreve o seu canal!

O livro tem uma capa apelativa e está elaborado com muito gosto e atenção. Achei engraçado e oportuno as suas páginas lembrarem um caderno quadriculado! Divertido e colorido. Talvez, se houver mais iniciativas como esta, se consiga desmistificar a matemática e anular o bicho papão que toma conta das crianças quando ouvem falar desta disciplina! Para isso há que ensinar de uma forma descomplicada e se possível divertida e interessate.

Verificar que o nosso dia a dia está cheio de "matemática" e que ela pode ser divertida é o que a autora se propõe com este livro. É dirigido a uma faixa etária muito variada e está escrito de uma forma o mais simples possível, com exemplos de alguns acontecimentos diários onde a matemática está presente sem darmos conta disso...

Está escrito de forma a que possamos abrir uma página e escolher um capítulo e isso agradou-me. Dá para relaxar, divertir e aprender. Descomplicar a matemática. O livro ainda se encontra na minha mesa de cabeceira porque alguns capítulos ainda estão por ler pois tenho feito uma escolha aleatória... Mas já dá para formar a minha opinião!

O livro complementa muito bem o canal do youtube e é realmente muito interessante. Uma boa leitura que recomendo se gostarem de se divertir e aprender!


Sinopse
Vamos aplicar o teorema de Pitágoras ao voleibol de praia? Queres adivinhar o número do cartão de crédito do teu amigo com a ajuda da teoria de números? Descobrir o dia da semana de uma determinada data, ou a idade da vizinha através de um simples cálculo? Queres ajudar a tua avô a fazer um bolo delicioso? Perceber finalmente o que significa o fator dos protetores solares? E chegar à percentagem do amor? Ou resolver o dilema das bolas de gelado? Aprender a dividir uma limonada entre amigos? Pode vir a dar jeito…

Neste livro a youtuber Inês Guimarães, mais conhecida como MathGurl mostra-te como a matemática não é só para os cromos, nem fica fechada na escola. Esta ciência faz parte do teu dia a dia, pode ajudar-te a resolver valentes quebra-cabeças, a fazer um figurão entre amigos e familiares e, claro, é super divertida! Tenta lá resolver estes 51 problemas sem enlouquecer!


Cris

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Experiências na Cozinha: Pataniscas de Legumes

Fui à apresentação deste livro da Gabriela ("Cozinha Vegetariana à Portuguesa") já há bastante tempoe, marquei as receitas que queria experimentar deste então. No entanto, o livro ficou na estante até este fim de semana que, sem saber o que fazer, o abri ao calhas! A receita que me calhou em sorte foi esta que passo a mostrar nas fotos que tirei: Pataniscas de Legumes. 

São fáceis de fazer e não requerem nenhum conhecimento especial. Alterei a farinha para a de trigo sarraceno e coloquei (creio) o dobro da água. Ah só não meti ervilhas pois não tinha cá em casa (para alegria do meu mais novo que não é grande apreciador destas bolinhas verdes!).

Fritei-as porque eram mais rápido mas para a próxima vou experimentar no forno. Todos gostaram e renderam doze! Amanhã já tenho almoço porque guardei duas... Caso contrário estes gulosos tinham-nas devorado! Acompanhei com bróculos e couves de Bruxelas, cozidos a vapor. Para quem quis ainda havia arroz de feijão.

Aprovadas! Vejam as fotos!



Cris

sábado, 8 de setembro de 2018

Na minha caixa de correio

  

  

  

  

   


Livros oferecidos pelas editoras parceiras:

- Quarenta Dias Sem Sombra, Planeta
- O Castigo dos Ignorantes, Suma de Letras
- A História Secreta do Vaticano,  Matéria Prima
- Desafios Matemáticos Que Te Vão Enlouquecer,  Manuscrito
- Agenda Caminhos, Arte Plural
- Se Esta Rua Falasse, Alfaguara

Livros adquiridos a preços fantásticos:
Estuário, Não Adormeças, Ioga Sem Blá Blás, Perdido e Achado,
Mr Mercedes, 

Livros oferecidos (só pageui os portes)
Afirma Pereira e Noturso Indiano

Livros ganhos nos passatempos do J.N.
Ser Bloguer, Cronovelemas, Margo, Fortaleza Impossível, Do Outro Lado, O Paraíso São os Outros


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Escolha do Jorge: “Tudo o que eu tenho trago comigo”


“Gosto tanto de comer que não quero morrer, porque depois nunca mais como.” (p. 241)

Dos Prémios Nobel de Literatura atribuídos na última década, Herta Müller (n. 1953) é um dos nomes que mais retenho e que mais me inquieta tendo em consideração a sua história de vida, mas também pelo valor literário das suas obras.

O Nobel de Literatura foi atribuído a Herta Müller em 2009 e recordo-me de procurar que livros
estariam publicados da escritora à data, tendo ainda conseguido encontrar “O Homem é um Grande Faisão sobre a Terra” (Cotovia). Escrita difícil, diferente daquilo que eu estava habituado, por vezes hermética tanto quanto cirúrgica nas imagens que projecta face a contextos sombrios, onde o drama e até o horror são os principais personagens.

Tive a oportunidade de conhecer a escritora em 2012, aquando da comemoração dos 50 anos do Goethe Institut de Lisboa que coincidiu com a publicação de “Já então a Raposa era o Caçador” (Dom Quixote) e recordo-me com frequência da sessão, no auditório, na medida em que me remetem para o seu universo literário, os temas que aborda, os horrores que procura expiar através da escrita, pelo que viveu na Roménia durante a ditadura, ou através dos personagens que (re)cria.

Recordo-me que face à questão que lhe foi colocada sobre se considera a possibilidade de escrever sobre a Roménia na actualidade, a escritora respondeu que não vivendo no país, haverá outros escritores que terão essa capacidade de o fazer melhor que ela. A outra questão que lhe foi endereçada tinha que ver com o facto de a escritora equacionar a possibilidade de escrever sobre outras temáticas para além da Roménia do período de Ceausescu. Herta Müller respondeu qualquer coisa como “Eu escrevo sobre aquilo que me agride e me magoa.”

Nunca mais me esqueci daquele momento e à medida que fui explorando as obras de Herta Müller fui percebendo a forma incisiva como aborda os vários assuntos. Detentora de uma capacidade de síntese, a escritora recorre de um modo geral a frases curtas, certeiras, que, muitas vezes ao longo de cada narrativa, seja qual for a obra, deixa o leitor incomodado, “agredindo-o” em certa medida, deixando-o mesmo vazio.

Creio que o objectivo de Herta Müller é mesmo esse, transferir a agressão e a mágoa para o leitor, permitindo que este reflicta sobre um assunto sério, fazendo também, em certa medida, o papel da historiografia no sentido de que é necessário preservar a memória de um país, mesmo quando se trata da memória do mal.

Parece-me sensato afirmar que autores como Herta Müller e o seu contributo para a literatura contemporânea anda de mãos dadas com a historiografia na medida em que através do registo literário, a narração de acontecimentos, circunstâncias e quotidianos promove o desenvolvimento de uma ideia ou mesmo fotografia, um filme, quiçá, em oposição ao registo de carácter científico que nos é facultado pela História.

“Tudo o que eu tenho trago comigo” (Dom Quixote, 2010) tem a particularidade de ser uma das obras de Herta Müller que não tem como pano de fundo a Roménia de Ceausescu. A narrativa começa em 1945, no final da 2ª Guerra Mundial, com o recrutamento de Leopold Auberg, um jovem de dezassete anos, que vai para um campo de trabalho forçado, na Rússia (Gulag), onde permanece durante cinco anos, lutando contra a fome.

A frase que seleccionei antes do início do presente texto poderia remeter, talvez, para outras temáticas, dado que se trata de uma frase que surge completamente desgarrada no contexto da narrativa, no entanto, essa é a frase salvífica de toda a obra, a única alegria, a de poder comer.
O anjo da fome acompanha Leopold Auberg ao longo de toda a obra, é um demónio tentador, para o bem e para o mal. Herta Müller é perspicaz como faz piadas em contextos marcados pelo horror, mas totalmente propositadas, porque são sempre certeiras. “As receitas culinárias são as piadas do anjo da fome.” (p. 113); “Uma vezes é o pato recheado à evangélica que ganha, outras, o recheado à católica.” (p. 112)

Mas o anjo da fome está sempre presente na vida dos prisioneiros e, mesmo aqueles que sobrevivem ao suplício, o anjo da fome acompanha-os durante toda a vida até morrerem. “Todos os dias o anjo da fome me devorava o juízo.” (p. 108); “A pior armadilha do anjo da fome é a armadilha da firmeza: ter fome e ter pão, mas não o comer. Ser mais duro contra si mesmo do que a terra enregelada. Todas as manhãs, o anjo da fome diz: Pensa em logo à noite.” (p. 117)

É esta ideia do guardar um pouco da parca dose diária de comida atribuída para ter um extra de comida para a noite que mina qualquer consciência. Só a ideia constitui em si mesma um contra-senso, mas, entre os prisioneiros, funcionava como uma tentativa de sobrevivência, enganando os estômagos sempre vazios.

É neste contexto que surge a “justiça do pão” quando algum dos reclusos rouba a dose extra de pão de outro recluso. “A questão do pão ficara resolvida, todos se comportavam como sempre. Nós não repreendemos o Karli Halmen pelo roubo, ele não nos recriminou pelo castigo. Sabia que o tinha merecido. O tribunal do pão não processa, castiga. A fronteira zero não reconhece artigos, não carece de leis. Ela é a lei, porque o anjo da fome também é um ladrão, que nos rouba o juízo. A justiça do pão não tem prólogo nem epílogo, é só presente. Totalmente transparente ou totalmente secreta. Seja como for, a justiça do pão é violenta, mas de forma diversa da violência dos que não têm fome. À justiça do pão não se pode vir com a moral corrente.” (p. 110)

“Tudo o que eu tenho trago comigo” de Herta Müller entra na esfera de romances que nos inquietam e mexem com as estruturas emocionais dos leitores. Este romance equipara-se a obras como “Fome” de Knut Hamsun (Cavalo de Ferro, 2008) e “O Sol dos Mortos” de Ivan Chmeliov (Relógio d’Água, 2015) em que o leitor já não é a mesma pessoa depois de passar pelo filme tenebroso da fome que, nas palavras de Herta Müller, “A fome é um objecto.” (p. 140)

Muito mais poderia ser dito a par da partilha de outros excertos desta obra sobre a fome nos campos de trabalhos forçados, na Rússia, mas termino com a ideia de fome de Leopold Auberg quando faz alusão às saudades de casa na sua Roménia natal. “Depois, a minha saudade de casa será somente a fome de um lugar onde um dia, outrora, não tive fome.” (p. 186)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A convidada escolhe: "Trânsito" de Rachel Cusk

Mais uma estreia. Não comecei pelo primeiro - A Contraluz, mas antes pelo segundo desta trilogia, atraída pela sinopse e pelo título.

Quando algo não foi concluído ou está a decorrer, digo em tom de brincadeira que está em Trânsito. Por isso, este título faz todo o sentido tratando-se de uma mudança de vida após um divórcio em que a personagem/ narradora sai do campo para a cidade de Londres, decide comprar uma casa má num lugar bom e descobre o mal nos vizinhos. A premissa começa com um email de uma astróloga que alega saber da sua situação e pode ajudá-la a tirar proveito.

A análise das circunstâncias banais do quotidiano e de si mesma como se contemplada à distância, sem grandes rasgos emocionais, é fascinante, e dei por mim absorta num romance que não tem muita ação, nem enquadramento ou previsível desfecho. Decorre e pronto. Simples assim mas muito eficaz de tão bem escrito. Elegante introspeção que nos leva à reflexão. Gosto disso. Recordou-me alguns romances que li de Julian Barnes.

Fiquei com muita vontade de ler o romance que se segue e espero que não demore muito porque Faye ficou na minha cabeça. Uma mulher só. Retrato atual e acutilante. Uma vida sem história. Narrativa forte e perturbadora em que "observamos" gestos e maneirismos, competitividade, ansiedade, raiva e alegrias, sobretudo em necessidades tanto físicas como emocionais. Padrões de comportamento.

Muito bom mas não para todos ou em qualquer momento. Um livro que requer disponibilidade.

Vera Sopa

terça-feira, 4 de setembro de 2018

"A Cadeira Preta" de Sarah Lemonnier

Escolhi este livro pela capa. Pois, é verdade, isso acontece-me de vez em quando. Achei-a sóbria e elegante. Atractiva e apelativa. Com gosto e requinte. Talvez a capa possuisse alguns sinais que não atentei, tais como o contraste entre o preto e o vermelho... Mas li a sinopse e gostei. Definitivamente era um livro para mim. Nada na sinopse me alertou para o tipo de linguagem usada pela autora e foi uma surpresa que não gostei particularmente. Esperava qualquer outra coisa diferente e, não me considerando puritana, gosto de estar preparada para estas leituras mais picantes...

De qualquer forma considero que a história é bastante interessante. A instabilidade emocional da personagem principal, que a própria sente e aponta em si, é objecto de uma desconstrução quando se encontra presente no gabinete da psicóloga. Assim, vamos assistindo quer a aspectos da sua vida sexual conturbada e confusa quer à sua própria análise da mesma. Esse foi o aspecto que mais gostei nesta história: a auto-análise feita pela personagem principal, ajudada pela sua psicóloga.

Beatriz tem aproximadamente 25 anos e apercebemo-nos que possui uma personalidade esplendorosa . No entanto, a sua insegurança revela-se nos seus relacionamentos e acerca do que conta deles. Profissionalmente é imbatível, fazendo da escrita o seu modo de vida. Possui dois blogues e é ghostwriter de  blogues de pessoas célebres (coisa que nunca sequer me passou pela cabeça que existisse!).

O livro é escrito na primeira pessoa e a escrita/linguagem utilizada condiz com o carácter de Beatriz: é uma mulher que enfrenta o touro, sem papas na língua. Que o leitor se prepare para tal!

A autora tem uma escrita simples, nada rebuscada, concisa e clara que gostei bastante. Fico à espera de um novo romance seu, mas que opte por um caminho diferente colocando à prova a sua versatilidade. Não sendo a minha praia, confesso que achei algumas partes da linguagem um pouco atrevida demais. Mas para quem gosta de literatura erótica pode avançar sem medos. 

Terminado em 1 de Setembro de 2018

Estrelas: 4*-

Sinopse
Não minto, não engano, sou o que sou.
Pode parecer arrogância, mas é verdade.

Sou a Beatriz e ganho a vida a escrever. Transformo facilmente uma conta bancária razoável em álcool e más decisões. Sou depressiva, analítica, estupidamente inteligente e sufoco com o compromisso. Não sou uma mulher normal, nem pretendo ser.

O meu objectivo é bem mais simples: ser feliz. Numa tentativa de autodescoberta, com uma leve pitada de masoquismo, comecei a consultar uma psicóloga. Semana após semana, fui forçada a falar sobre o Marcelo (por quem sou apaixonada), o Henrique (com quem vou para a cama) e o Paulo (o meu apoio emocional e, por vezes, físico também).

São estes os três homens que arruinaram a minha vida e a quem sou completamente devota.

Cris

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

"Águas Profundas" de Robert Bryndza

Tenho mesmo que ler "A Rapariga no Gelo", que creio ser o primeiro livro deste autor publicado cá porque gostei mesmo muito deste "Águas Profundas"! Rapidamente entramos na trama, conhecemos os personagens, que estão muito bem caracterizados por sinal, e ficamos presos aos acontecimentos que decorrem a um ritmo cada vez mais alucinante.

Senti empatia imediata pela detective Erika Foster e embora houvesse referências a factos passados na sua vida, referentes certamente ao livro anterior, a trama é seguida sem que se perca nada. Gostei das características paicológicas desta personagem, que é bastante humana, comprometida com o seu trabalho e  rápida de raciocínio. Um assunto que fica pendente, que deduzi tratar-se de algo que já vem dos livros anteriores, é a sua vida amorosa e esse facto agarra e alerta o leitor para uma próxima aventura.

O caso da menina desaparecida fica resolvido não sem ter existido antes vários "twistes" que me agradaram particularmente: algumas suspeitas infundadas e muitas surpresas!

Por todas estas razões as minhas cinco estrelas!

Terminado em 29 de Agosto de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Debaixo de água, o corpo afundou-se rapidamente. Ali permaneceu, imóvel e imperturbável durante muitos anos, mas, lá em cima, fora de água, o pesadelo estava apenas a começar.
Quando a detetive Erika Foster recebe uma denúncia anónima informando que uma prova fundamental relacionada com um caso de narcóticos estava escondida numa pedreira abandonada nos arredores de Londres, ela manda investigar a pista. No espesso lodo das águas encontram as drogas que procuravam, mas também os restos mortais de uma criança pequena. O esqueleto é rapidamente identificado como Jessica Collins, a menina de sete anos que fizera as manchetes das notícias vinte e seis anos antes.

Ao mesmo tempo que tenta juntar provas novas à investigação, Erika depara-se com uma família que guarda muitos segredos, uma detetive atormentada pelo fracasso e a morte misteriosa de um homem que vivia junto à pedreira.

Será o assassino alguém dos elementos mais próximos da menina? Há quem não deseje ver o caso resolvido. E tudo fará para impedir Erika de descobrir a verdade.

Cris

sábado, 1 de setembro de 2018

Na minha caixa de correio


Estes livros foram ofertados pelas editoras parceiras: Oficina do Livro, Arena e Planeta, respectivamente. O meu obrigada!