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quinta-feira, 21 de junho de 2018

A Escolha do Jorge: "Fuga Sem Fim"



“Fuga Sem Fim”
Joseph Roth
(Sistema Solar)

“Neste mundo, a pobreza constituía desumanidade, fraqueza, loucura, cobardia e vício” (p. 132)
Uma das alegrias em 2018 é o facto de as obras de Joseph Roth (1894-1939) se encontrarem nas apostas de algumas editoras, tais como “Confissão de um Assassino” (Cavalo de Ferro, em Janeiro), “A Marcha de Radetzky” (Nova Vega, em Abril) e “Fuga Sem Fim” (Sistema Solar, em Maio), obra relativamente à qual tentaremos registar algumas ideias.
Natural da Galícia Oriental, Joseph Roth contou com uma vida curta e sempre a debater-se com as questões relacionadas com o desenraizamento, bem como a influência da cultura judaica na Europa Central e de Leste e também a própria identidade europeia.
O autor ficou conhecido pelos seus contos, novelas, romances e ensaios e em nenhum dos registos se pode dizer que se tratasse de um autor menor, bem pelo contrário. Mergulhar na escrita de Joseph Roth é vivermos o que de melhor a literatura produziu no século XX, não esquecendo o reviver ou o reacender a importância de uma cultura que constituiu parte da identidade europeia.
Herdeiro da tradição e cultura judaicas, as obras de Joseph Roth decorrem num perpétuo limbo entre a realidade e a fantasia, tendo uma forte orientação ético-moral nas suas histórias. Poderíamos até afirmar que algumas das narrativas do autor reflectem em certa medida um carácter profético, não só no rumo que a Europa tomou após a 1ª Grande Guerra (1914-1918), mas também a sua própria vida. Em última instância, algumas das interrogações que colocamos actualmente em matéria de políticas que são levadas a cabo, encontram-se de forma bem visível e até marcante nesta “Fuga Sem Fim”.
Franz Tunda é a figura central de “Fuga Sem Fim”, apresentando-se como um personagem camaleónico atendendo à sua capacidade de sobrevivência numa Europa assolada pela guerra. Primeiro-tenente do exército austríaco, Franz Tunda é feito prisioneiro pelos Russos, em 1916, conseguindo fugir, em 1919, com a ajuda de um polaco, forjando a sua identidade com o nome de Baranowicz.
A partir de então, Franz Tunda, com a ajuda do polaco, consegue infiltrar-se na Rússia que, à data de debatia com a guerra civil, sangrenta, que opunha burgueses (brancos) a bolcheviques (vermelhos), numa época em que a revolução recebia as orientações e o comando de Lenine.
Franz Tunda envolve-se com a facção bolchevique e vê-se a defender uma ideologia como nunca o fizera em Viena antes da guerra. Debate-se pelo proletariado miserável que é continuamente esmagado pelos burgueses. Tunda envolve-se com Natacha, uma mulher que vive a revolução e a guerra civil de uma forma que transpõe os princípios para a relação. “Como Tunda não lhe interessava como marido, era escusado desprezá-lo. Não era outra coisa se não um camarada com igualdade de direitos.” (p. 42) A par desta relação atípica, Tunda deslocou-se para Baku, no Azerbaijão, a fim de exercer funções num instituto científico.
Apesar de os seus discursos serem inflamados e ser detentor de uma capacidade persuasiva, Tunda “possuía mais energia vital do que a revolução necessitava na altura.” (p. 67), talvez, em função disso, tenha acabado por abandonar a Rússia. “No fundo, era um europeu, um «individualista», como dizem as pessoas cultas. Ele necessitava de relações complexas para viver a vida. Ele precisava de uma atmosfera de mentiras intrincadas, de ideais falsos, de saúde aparente, de mofo duradouro, de fantasmas pintados de vermelho, da atmosfera dos cemitérios, que aparentam salões de baile, ou fábricas, ou castelos, ou escolas, ou salões. Ele necessitava da proximidade dos arranha-céus, cujo desmoronamento se adivinha e cuja estabilidade está garantida para durar séculos. Ele era um «homem moderno».” (p. 67)
Tunda regressa à Europa, passando por Viena, Berlim e Paris, numa época de crescimento económico, no pós-guerra, e com uma sociedade que procura viver intensamente o tempo perdido, aproveitando as novas tendências, fomentando, uma vez mais, a sociedade de consumo. É neste intermezzo que Tunda se apercebe do oco que lhe pareceu a ideologia por que se debateu, anteriormente, na Rússia, durante um ano e meio. “Há uns dias, conheci uma mulher. É uma escritora e comunista. Casou-se com um comunista romeno, igualmente um escritor, que me dá a impressão de ser um indivíduo sem talento e estúpido, mas que é suficientemente esperto para esconder a sua estupidez na ideologia comunista e justificar a sua preguiça com a política. Este casal vive de subsídios de um tio capitalista, um banqueiro, e de artigos que escreve para jornais radicais. A mulher usa sapatos de salto baixo e escarnece da sociedade que a alimenta.” (p. 105)
O outro ponto com que Tunda se debate é o facto de não ter trabalho e como tal, tem fracos rendimentos, mas a questão tem mais que ver com a forma com que a sociedade se passou a organizar que nem sempre o dinheiro advém do fruto do trabalho e, então, poderia ser um parasita da sociedade porque poderia auferir uma boa maquia sem ter necessidade de trabalhar em vez de passar a ser encarado como um fantasma da sociedade. A passagem a este respeito é lapidar, mantendo-se actual, à luz da sociedade que evoluiu até aos nossos dias, passado quase um século após a edição do livro. “Além disso, já é altura de eu ganhar alguma coisa. Nesta ordem mundial, não é importante que eu trabalhe, mas é tanto mais necessário que eu ganhe dinheiro. Um homem sem rendimento é como se fosse um homem sem nome ou uma sombra sem corpo. É como se fosse um fantasma. Não é nenhuma contradição ao que eu disse anteriormente. Não tenho nenhum sentimento de culpa da minha inactividade, mas sim do facto de a minha inactividade não me dar dinheiro, enquanto que a inactividade de todos os outros é bem paga. O dinheiro em si concede o direito de existir.” (p. 106)
Mas o absurdo dos absurdos, é quando Tunda se apercebe, em Paris, no seu regresso da Rússia, que ao contrário da ditadura do proletariado que gradualmente se impunha naquela região do mundo, naquela que é a capital do mundo civilizado, assiste-se precisamente ao contrário, perseguem-se os trabalhadores, apercebendo-se que a riqueza se encontra, afinal de contas, mal repartida. “Tunda ainda não conhecia a Europa. Durante um ano e meio lutou por uma grande revolução. Mas só aqui é que se lhe tornou claro que não se faziam revoluções contra uma «bourgeoisie», mas sim contra padeiros, empregados de mesa, contra pequenos comerciantes de hortaliça, minúsculos talhantes e empregados de hotel sem poder.
Nunca temera a pobreza, pois mal a sentira na pele. Mas na capital do mundo europeu, donde emanam os pensamentos da liberdade e os seus cânticos, viu que não se consegue nem sequer uma côdea do pão de borla. Os mendigos têm os seus benfeitores muito bem determinados e de cada coração caridoso a cuja porta batemos vem a resposta que é: Está já ocupado!” (p. 130)
Mas Joseph Roth vai mais longe no que concerne à sua visão ou antevisão daquilo que se tornou a Europa, muito depois da 2ª Guerra Mundial, até aos nossos dias. As ideias existem, muitas até, mas o que é afinal a “cultura europeia” e a “comunidade europeia”? Quais são os valores que subjazem à construção da Europa que, atendendo a “Fuga Sem Fim” se reportaria ao 1º após-guerra? Mas podemos colocar estas mesmas questões depois da experiência da constituição da CEE/UE, no 2º após-guerra? Joseph Roth responde através de Franz Tunda, com as seguintes palavras: “Os senhores querem (…) manter uma comunidade europeia, mas para isso têm primeiro de criá-la. Pois, essa comunidade não existe, caso contrário, ela saberia por si só como manter-se. Parece-me duvidoso que seja possível criar-se o que quer que seja.” (p. 125)
Em jeito de conclusão, Franz Tunda conheceu de perto as duas realidades que se opõem entre si, tendo ficado o mundo dividido política e economicamente durante décadas. Franz Tunda acabou por não se identificar com nenhuma das ideologias. “Não havia ninguém no mundo inteiro que fosse tão supérfluo como ele.” (p. 151)
Texto da autoria de Jorge Navarro

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