Durante esta leitura tive sentimentos variados. Logo após o prefácio achei que este livro não seria para mim. Isto porque, na minha opinião, ele começa lindamente sendo a minha atenção captada rapidamente mas depois, Jeremy, o narrador, segue por um caminho que não esperava.
Um mini spoiler: a sua ligação com a sua pequena sobrinha, Sally, perdeu-se e achei que podia ter sido mais explorada. Mas na vida acontece muito isso, as separações voluntárias ou involuntárias dão-se. Ele próprio mostra, durante a narrativa, sentir algum remorso por não ter conseguido acompanhá-la na sua vida. Quem não tem, dificilmente dá. Alterar padrões de comportamento não é fácil. E Jeremy, com a morte dos pais aos oito anos, teve emocionalmente muito pouco. Estas observações são fruto das reflexões que este livro, depois de o terminar, me levou a fazer.
E, aos poucos, fui mergulhando nesta obra em que Jeremy, saltitando temporalmente, vai-nos contando o passado dos seus sogros, June e Bernard, fazendo também referência à sua infãncia (que explica a razão do seu interesse pelas pessoas "mais idosas"), à sua juventude errática e ao seu casamento aos 35 anos.
Vai questionando os sogros, separadamente, e tentando perceber como duas pessoas que se amaram (e amam) não conseguiram seguir um caminho juntos. Tenta reconstruir a vida do casal sem o conseguir totalmente. Uma história contada de forma diferente pelos seus protagonistas. Jeremy quer perceber o que de facto aconteceu, a causa da sua separação ideológica que implicou a separação física. Pelo meio, põe-nos ao corrente da situação no pós-guerra, vivenciada pelos sogros e pais e, numa fase temporal posterior, da queda do muro de Berlim.
O título surge do encontro traumático que June viveu no pós guerra e que marcou a divergência do casal. Refiro que esse encontro com uns cães pretos (sabemos ter existido mas que não conhecemos as circunstâncias em que ocorreu), só nas últimas páginas tem o seu despoletar e é verdadeiramente memorável. O leitor tem de se conter para não saltar palavras tal a ânsia de saber o que aconteceu!!! A interpretação que June e Bernard fazem desse encontro é radicalmente oposta e é interessante verificar como ambos a interpretam e as consequências que daí advêem.
A história aparentemente simples é o mote para reflexões filosóficas quer de Jeremy, June e Bernard, quer do próprio leitor. Foi isso que me agradou sobremaneira e daí as 5*. Leiam que vale a pena!
Terminado em 15 de Março de 2026
Estrelas: 5*
Sinopse
Dois jovens membros do Partido Comunista, June e Bernard, conhecem-se em Londres em 1946. Apaixonam-se perdidamente e casam-se. Durante a lua-de-mel em França, June sofre uma experiência que altera a sua vida: descobre a religião e acaba por renunciar ao partido. Cinco anos depois, June e Bernard Tremaine separam-se. Nunca chegam a divorciar-se nem a envolver-se romanticamente com outras pessoas.
Embora as convicções vão enfraquecendo lentamente, Bernard mantém-se no partido até 1956. June e Bernard voltam a aparecer na história 40 anos mais tarde, quando o seu genro Jeremy investiga a história pessoal e intelectual de ambos. Religião versus razão. A memória de um versus a memória de outro. Amor versus existência diária. Sacrificar o individual pelo bem das massas.
É disto de que nos fala Cães Pretos. Tendo como cenário a queda do Muro de Berlim, Cães Pretos recua no tempo até à Europa do pós-guerra e mostra como a guerra e os seus demónios mudaram o destino de uma família. Metafórica e literalmente, os cães pretos do título percorrem a paisagem deste romance – a Europa e a família Tremaine.
Cães Pretos mostra o talento literário excepcional de Ian McEwan, que desenvolve improváveis e invulgares combinações de suspense, ética, filosofia e ideologia política e religiosa. Noutras mãos, semelhante mistura poderia tornar-se letal, nas mãos de Ian McEwan é simplesmente inebriante.
Cris

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