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sábado, 22 de julho de 2023
sexta-feira, 21 de julho de 2023
"Amor Estragado" de Ana Bárbara Pedrosa
A trama decorre em Vizela, em 1982, no seio de uma família típica portuguesa, um casal e quatro filhos. Os narradores são dois dos irmãos, o Manel e o Zé. Se ficamos com péssima impressão de um, do outro fica-se com a ideia de pessoa perfeita, a quem a vida magoa e que tem o motivo perfeito para não se envolver no drama que vai acontecendo aos poucos, lentamente. Seremos nós aqueles que passam ao lado das coisas sem as ver porque não nos dizem diretamente respeito?
O alcoolismo, os maus tratos e a violência doméstica são alguns dos problemas que afligem aquela família.
É impressionante como a autora consegue transmitir na perfeição os pensamentos do Manel, a deturpação da realidade a que ele se agarra para justificar os seus vícios e erros, a forma como se sente injustiçado e culpabiliza os que o rodeiam.
E de que forma os laços de sangue nos impedem de ver quando um coração está estragado? Porque se o Manel é o autor material do que se passou naquela família, quem está ao seu lado, e nada fez, que responsabilidades possui?
É para ler, meninos, é para ler! Muito bom! Desejosa de ler o próximo...
Terminado em 3 de Julho de 2023
Estrelas: 6*
Sinopse
«Matei a minha mulher. Não fiz de propósito, mas é daquelas coisas que, depois de feitas, já não deixam volta a dar.» Dois irmãos contam a dissolução de uma família. Manel casou com Ema, e foi até que a morte os separasse como enfim os separou – pelas mãos dele. Habituado ao álcool e incapaz de lidar com as frustrações, não era a ele que mãe e irmãos deviam o amor sem reservas? Zé, casado, agora com três filhos, não vê no sangue uma desculpa para a vida do irmão. Pela mão da violência, que é pedra de toque, assistimos a uma família cujos laços se desfazem. E à vida transformada noutra coisa. Com uma linguagem crua e destemida, que não raras vezes desarma o leitor, Amor Estragado é um romance sobre a família enquanto território a proteger, a traição da vida adulta face às certezas da infância, a inveja, o desgosto, a degradação que o vício impõe e o que custa perder um lugar de honra. E inevitavelmente sobre a culpa – do homem que mata e de quem não o impede. «Este livro é uma lufada de juventude, no meio da mesmice da nossa literatura contemporânea.» Itamar Vieira Junior «Uma escrita singular que impressiona pelo arrojo e versatilidade, pelo tom coloquial que nunca se perde.» José Riço Direitinho, Público «É coisa séria, sensual, bem escrita.» Francisco José Viegas, Correio da Manhã
Cris
quarta-feira, 19 de julho de 2023
A Convidada Escolhe:"Diário de um Médico no Combate à Pandemia"
Diário de um Médico no Combate à Pandemia, Gustavo Carona, 2021
Passados que são 3 anos que nos vimos confrontados com uma pandemia terrível, achei interessante ler este livro da autoria de um jovem médico que ficámos a conhecer da televisão e da rádio e cujo discurso saía um pouco do registo rotineiro. O livro tem um subtítulo – A missão mais difícil da minha vida – que atesta bem a gravidade do período que vivemos enquanto não havia medicamentos nem vacina, embora este médico intensivista revele na introdução que antes da pandemia já tinha feito 13 missões humanitárias em países onde ninguém quer ir, tratados como “esgotos da humanidade” (pág. 50), tal é a adversidade da vida daqueles povos.
O livro tem dois tempos. O primeiro tem a ver com o período da 1ª vaga, 2º e 3º vagas e é um diário, como tantas pessoas fizeram nessa altura sobretudo no período em que estiveram confinadas, mas este é o diário de um médico a trabalhar em UCI, ou seja, alguém que esteve bem no olho do furacão; e depois um segundo tempo escrito no primeiro trimestre de 2021, sendo uma reflexão sobre os textos escritos ao longo da pandemia.
Gosto de ler estes livros-testemunho, que nos põem em relação com situações muito específicas e que não correspondem ao comum das nossas vidas “normais” ou “padrão”, o que quer que isso seja! Neste caso, um jovem médico que totalmente se revela, expondo os seus sentimentos, os seus medos, as suas dores espirituais e físicas. Forte e frágil, crítico e abnegado, consegue com o seu exemplo dar-nos um retrato muito fiel da dureza e muitas vezes da solidão e incompreensão de quantos aguentaram o Serviço Nacional de Saúde, como a única âncora a que nos podíamos agarrar num período de incerteza, medo, confusão e cansaço extremos.
O livro começa justamente com a intervenção que Gustavo Carona fez no dia 26 de Janeiro de 2020 numa sessão no palácio de Belém, no âmbito do Grupo de Reflexão sobre o Futuro de Portugal, quatro dias antes de a OMS ter declarado “o surto pelo coronavírus uma emergência de saúde pública de preocupação internacional, o mais alto nível de alarme”. Na sua intervenção de quatro minutos, frente a frente com o presidente da República, com o título “ A minha visão da saúde em Portugal”, referia a sua profissão como aquela “onde há mais burnout” (pág. 27) e referia “A perversão dos privados. Onde se deixa de ser doente e se passa a ser cliente.” (pág. 28). Poucos dias depois, a OMS anunciava que a doença causada pelo SARS-CoV2 seria designada por covid-19. Gustavo Carona, médico intensivista num hospital público do Norte, onde a pandemia teve um grande impacto logo na fase inicial da doença, estava longe de imaginar como os meses que se iam seguir iriam comprovar com toda a justeza aquilo que já se sentia entre os profissionais do SNS.
Ao lermos este diário relembramos o que foram aqueles meses, o que sabíamos através da comunicação social, como estava a evoluir a pandemia no nosso país e lá fora, quando ficámos todos vulneráveis a um vírus, que inicialmente desvalorizámos porque achávamos que era uma coisa lá longe na China, que não iria cá chegar. Na sua reflexão crítica sobre um ano de pandemia, Gustavo Carona escreve “As pessoas esquecem-se rápido” (pág. 268) e é bem verdade. Mas as fronteiras fecharam, as máscaras e o gel que inicialmente foram um negócio rapidamente passaram a ser rotinas, as charlatanices naturalistas e os falsos profetas pulularam, os negacionistas e os relativistas abundaram nas redes sociais e, ao mesmo tempo que se investia na ciência para a descoberta de um tratamento e uma vacina, nunca como então a ciência foi posta em causa. Sendo ele um de muitos e muitas que no SNS fizeram os impossíveis, a estranheza que era chegar ao hospital sem ninguém nas urgências, porque tudo estava focado no combate à covid, leva-o ao longo do livro a afligir-se pelas outras intervenções médicas que se adiaram, pelas cirurgias que não se fizeram e por todas as outras patologias que se “esqueceram”, ao mesmo tempo que pensava no desemprego, na saúde mental, e naqueles outros tantos países onde fizera missões humanitárias e que estavam completamente desprotegidos.).
Ao mesmo tempo que relata casos que o marcaram para a vida nas suas missões no Sudão do Sul, no Iémen e noutros países, transmite-nos o que foi esta sua experiência em Portugal, no hospital, nos primeiros contactos com doentes covid, a primeira pessoa que teve alta na sua UCI, a ternura de uma colega enfermeira a falar com uma doente de 21 anos, os telefonemas para os familiares com boas ou más notícias, as videochamadas – “As primeiras de que me lembro sabiam a Euromilhões, porque correspondiam ao ponto em que o doente já estava melhor e capaz de interagir em frente ao telefone e comunicar com o seu familiar.” (pág. 77) – os números com que éramos diariamente bombardeados em contraponto às caras, aos nomes e às histórias de vida dos doentes que trataram. Ao longo do livro, Gustavo usa repetidamente o adjectivo “bonito”, para falar do SNS, do espírito de equipa, da abnegação dos colegas que puseram os outros à frente de si e das suas famílias, dos gestos de gratidão que receberam … Quero aqui lembrar uma entrada do diário de Novembro de 2020, com o título “Ricardo Quaresma”, em que lhe agradece por ter usado tão sabiamente a sua posição de grande desportista para ajudar o esforço que o SNS e os seus profissionais estavam a usar no combate à pandemia. E com o passar do tempo veio o cansaço das pessoas, o baixar a guarda, a 2ª vaga, a primeira pessoa vacinada e a extraordinária experiência da vacinação em massa e a terrível 3ª vaga que pôs Portugal no topo do ranking dos piores.
Quem não se lembra da desumanidade que foi a morte de George Floyd? Ou o desastre imenso no porto de Beirute no Líbano, em Agosto de 2020 e o espectáculo da notícia, com consequências dramáticas para um país a necessitar de uma ajuda gigantesca. Mas passada a notícia e decorridos alguns dias, não mais se irá falar disso, porque já não é espectacular! Esta reflexão percorre todo o livro, feito por alguém que precisou de parar, de pedir ajuda psicológica, mesmo confessando que o fez tardiamente porque tinha vergonha, que sofreu burnout, dores físicas intensas que só passavam quando deitado…
Um livro em que o autor tem a humildade de confessar a sua ignorância e arrogância em certos momentos, mas em que se descobre um ser humano muito bonito, com uma dedicação inexcedível aos outros e uma paixão pela sua profissão e pelo SNS.
Longa vida, com saúde para Gustavo Carona.
6 de Julho de 2023
Almerinda Bento
terça-feira, 18 de julho de 2023
"O Diário de Rutka" de Rutka Laskier
Já não sei como é que este livro veio cá parar a casa, mas o selo vermelho que possui na capa referindo que Rutka foi morta em Auschwitz com 14 anos e que este livro se trata do seu diário, revelado muitos anos depois, fez-me pegar nele.
São poucas páginas de um diário, escritas por uma menina de Janeiro a Abril de 1943 que, como tantas outras, confiava nessas folhas os seus medos e angústias mas também as suas esperanças e desejos.
O início do livro é escrito pela sua meia irmã, Zahava, onde nos conta como é que só com 14 anos teve conhecimento da família do pai, falecida no campo de concentração. Tendo encontrado um álbum escondido com umas fotos de uma menina e um rapazinho mais novo, questionou o pai. Tinha precisamente 14 anos quando este lhe contou o que se passara com a sua primeira família. Vinte e oito anos mais tarde tomou conhecimento da existência de um diário que esteve escondido sessenta e dois anos!
As primeiras páginas relatam-nos, um pouco, como é que este diário apareceu ao fim de mais de sessenta anos e como foi escondido por uma amiga, de como o pai foi o único sobrevivente de uma família de quatro pessoas. Algumas páginas não são já legíveis mas o relato não deixa de ser impressionante se imaginarmos o que depois se terá passado.
Rutka combinou com a amiga que, se algo acontecesse, ela deixaria o diário de baixo das tábuas soltas do soalho da casa onde vivia com a família no gueto. Foi assim que estas páginas foram salvas. Algumas fotos, aquelas enviadas para familiares no estrangeiro, ficaram para confirmar que Rutka era real, uma menina cheia de sonhos que não os pode concretizar. Como tantos!
Recomendo!
Terminado em 30 de Junho de 2023
Estrelas: não classificável
Sinopse
«Em 1943, Rutka, uma judia de 14 anos, foi levada para Auschwitz, onde morreu. Deixou um diário escondido sob as tábuas da escada, em casa, escrito em 1943. Uma amiga guardou-o, até recentemente o divulgar. Acaba de ser publicado em Portugal pela Sextante. Zahava (Laskier) a irmã de Rutka e contou ao P2 a história do diário e a sua descoberta de Rutka. Nascida em 1949, em Israel, Zahava tinha 14 anos quando soube dessa irmã perdida no Holocausto. »
Por Alexandra Lucas Coelho
« O diário foi publicado em Israel há sete meses, e gente de todo o mundo contacta-me. As crianças agora vão à Polónia e fazem peças na escola sobre o diário de Rutka.»
Zahava
Cris
segunda-feira, 17 de julho de 2023
"À Espera da Subida das Águas" de Maryse Condé
Babakar é médico e vive sozinho em Guadalupe. Sozinho com o fantasma da sua mãe, que lhe aparece nos seus sonhos e lhe comanda a vida, dando-lhe ordens e comentando as suas escolhas, os seus medos, as suas incertezas. A ligação entre os dois, em vida, era muito forte e, depois da sua morte, também. Do nada, por uma coincidência da vida, que o próprio considera feliz, uma menina cai-lhe nos braços e passa a fazer parte da sua vida.
Aos poucos, a sua vida vai sendo preenchida por alguns amigos cujas vidas a narrativa vai desvendando aos leitores, aos poucos, com as suas histórias de abuso, dor, mistério. Mal comparando, fez-me lembrar uma viagem num meio de transporte em que vão entrando viajantes com as suas bagagens que mais não são que as suas vivências, que se vão somar às dos que já lá se encontram.
A viagem neste livro decorre maioritariamente no Haiti, para onde Babakar decide levar a menina, cuja ascendência é de lá, mas como pano de fundo está a História desse país liberto do jugo colonial mas ainda cheio de danos que o colonialismo provocou, cheio de ódio, violência, corrupção, racismo. Mas onde a amizade e o amor fazem de Babakar um privilegiado também.
Geograficamente recorri ao mapa para que as distâncias/países referidos se façam perto dado que cada personagem tem origens diferentes e, quando assim é, gosto de me situar visualmente. Foi sobretudo essa dificuldade que senti no decorrer desta leitura.
Terminado em 29 de Junho de 2023
Estrelas: 4*
SinopseCris
Uma história sobre a reconstrução do mundo.
Babakar Traoré estudou no Canadá, é médico e vive sozinho em Guadalupe, onde estão as origens da sua família materna – mas também a sua solidão, os seus fantasmas, bem como a recordação de uma infância africana, de uma mãe de olhos azuis que vem visitá-lo em sonhos, de um antigo amor, Azélia, também desaparecida, e de outras ilusões juvenis antes do seu exílio e da idade adulta. Quando, a meio de uma noite de temporal, é chamado para assistir um parto, Babakar não sabe que a sua vida está prestes a mudar por causa dessa criança que vai nascer; a mãe, Reinette, uma refugiada haitiana, morre ao dar à luz – e a pequena Anaïs fica a seu cargo. O desejo de Reinette era que a filha fosse criada no Haiti, e Babakar muda-se para a ilha, à procura de quem pudesse ensinar a Anaïs de onde ela vem. Através da história dessa dupla improvável, Babakar e Anaïs, dos amigos Movar e Fouad, que os acompanham, e dos que foram encontrando naquela ilha martirizada por violência, governos corruptos e gangues rebeldes, mas tão bela e fascinante, irá reconstruir-se um novo mapa ligado pelos danos do colonialismo, bem como as raízes do amor, da amizade, da comunhão com os outros – e o lugar de cada um no Mundo.
Cris
sábado, 15 de julho de 2023
quinta-feira, 13 de julho de 2023
"A Cura da Cicuta" de Joanne Burn
Este livro envolveu-me de imediato. Gosto tanto quando isso acontece! A minha atenção é algo irrequieta e muitas vezes chego ao fim de uma página e tenho de voltar ao início porque andei a divagar, muito para lá das páginas e da história do livro que tenho em mãos... Isto acontece-me, sobretudo, nas primeiras páginas.
Por isso, quando um livro me agarra logo, fico muito satisfeita. É isso que procuro nas páginas que leio: outros mundos, outras vidas, aprender com elas. Uma das coisas a que recorri com frequência durante a leitura e que ajuda muito o leitor a situar-se, é uma página inicial com as personagens e suas ligações familiares. Fui acrescentando a lápis alguns pormenores que me pareceram relevantes e que me ajudaram a entrar mais rapidamente neste mundo "mágico" destas três amigas com uma forte ligação com a natureza.
Inglaterra, Eyam, uma pequena aldeia, 1665. A Peste Negra ganha cada vez mais espaço e os rumores de que em Londres a situação está caótica chegam a esta aldeia que ainda mantém a esperança de ser poupada.
Isabel, Elizabeth e Mae. Laços de amizade unem estas mulheres e partilham segredos. Isabel é parteira e não pode ser mais do que isso, dado que se competir com o boticário local, pai de Mae, na feitura de mezinhas pode bem ser considerada bruxa e tratada como tal. Elizabeth é uma mulher de posses e é na sua propriedade que se reunem as condições para a realização dos remédios que fazem. Mae tem apenas 14 anos, vive sozinha com o pai e, também ela esconde alguns segredos. A morte da mãe, amiga de Isabel e Elizabeth, e da sua irmã possui contornos estranhos de que desconfia mas em que não quer acreditar. Em segredo, reunem-se para fazer mezinhas e remédios e aprender umas com as outras. Mae, às escondidas do pai, aprende com os seus livros as propriedades das plantas e como transformá-las.
Um mundo que referi como "mágico" mas que de magia só tem a verdadeira amizade que acontece quando três mulheres lutam pelos seus sonhos, já que o papel das mulheres, nessa época, estava muito restrito a certas profissões! Gostei verdadeiramente deste mundo, que nos é contado por um narrador especial de quem não revelo a identidade porque descobri-la foi uma das surpresas boas que tive nesta leitura.
De quando em quando, umas páginas do diário de Wulfric, o boticário e pai de Mae, escrito vinte anos antes, surgem para adensar o mistério. Bem escrito e muito cativante, este livro foi uma maravilhosa descoberta que mistura factos reais com ficção.
Recomendo muito!
Terminado em 21 Junho 2023
Estrelas: 6*
Sinopse
Há venenos que não podem ser contidos para sempre… e segredos que não podem permanecer guardados.
O ano é o de 1665, e as mulheres da vila de Eyam guardam muitos segredos… Isabel, a parteira, trilha um caminho perigoso, com as suas ervas e preparados. Há na aldeia homens que falam em bruxaria, e Isabel tem um passado a esconder. É também por isso que não partilha com ninguém os seus receios a propósito de Wulfric, o devoto e enclausurado boticário da povoação.
Mae, a filha mais nova de Wulfric, teme a fúria do pai, se este descobrir o que também ela esconde dele. Os sentimentos que nutre por Rafe, por exemplo, jovem que está à guarda de Isabel, ou o facto de que estuda, à luz da vela, pelos livros proibidos do pai. Mas outros mais guardam segredos, e mais sombrios do que qualquer uma delas possa imaginar.
Quando Mae faz uma descoberta aterradora, Isabel é a única pessoa que a vai poder ajudar, mas ajudar Mae significará colocar ambas em grave perigo. E está a caminho, vinda de Londres, outra ameaça, um manto que ameaça cobri-los a todos…
Cris
quarta-feira, 12 de julho de 2023
Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Junho
Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.
Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:
Cidália Ferreira
Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 25, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:
sábado, 8 de julho de 2023
segunda-feira, 3 de julho de 2023
A Convidada Escolhe: "Como um marinheiro eu partirei"
Brel”, Nuno Costa Santos, 2023
Uma verdadeira revelação este livro. Chegada à Horta, na ilha do Faial, a caminho da marina, encontrei na montra da loja que fica ao lado do Café Sport Peter este livro, acabado de ser publicado. Não só porque era o primeiro dia de um passeio que iria incluir cinco ilhas do arquipélago dos Açores, mas porque sou da geração que ouviu e conhecia muitas das canções de Jacques Brel, aquele livro era irresistível. Comecei a lê-lo logo no primeiro dia da viagem e terminei-o dias depois já na ilha das Flores e com a intenção de o reler no continente a ouvir os poemas de Brel com alguns versos traduzidos ao longo da narrativa.
Há uma grande ternura na escrita desta história de um homem com um talento gigante, que um dia decidiu cortar radicalmente com uma vida pública em que os holofotes e a fama estavam no auge. Tal como uma relação que termina e em que as pessoas se afastam, a sua relação de amor com o público terminou, tendo o palco e os aplausos sido substituídos pelo mar. Brel foi “um homem de instintos e decisões inequívocas” (pág.33), alguém que não aceitava sentimentos pela metade, que “viveu do modo que quis, como quis, com quem quis.” (pág.143). Uma personagem complexa, impossível de ser caracterizada ou catalogada.
Esta “viagem com Jacques Brel”, como surge no título do livro de Nuno Costa Santos, é uma biografia de Brel, em que as vidas do biografado e do biógrafo se entrelaçam, se cruzam, tanto mais que “o ímpeto da comparação é inevitável” (pág.25). O narrador, logo no início da narrativa mostra a sua intenção de querer partir como um marinheiro, acompanhar Brel na sua viagem por mar até às ilhas Marquesas, onde se encontra sepultado Paul Gauguin. Estabelece diálogos e semelhanças com o poeta, fala das suas mágoas por ser um pai distante e ausente, mostra o desconforto quando vivendo no continente se sentia como um emigrante.
A estrutura desta “viagem” segue um roteiro com capítulos curtos em que as vidas de Brel e do narrador vão surgindo. Os títulos dos capítulos são como que o guião dessa viagem com algumas personagens decisivas. Sérgio Paixão, açoriano e autor do blogue “O Canto de Brel” é decisivo na construção desta biografia, pelo profundo conhecimento da obra de Brel e da passagem do poeta pela ilha do Faial no ano de 1974. De entre tantas mulheres e homens que passaram pela vida de Brel, uma referência especial a Jojo, o maior amigo e confidente de Brel, “o homem da sua vida”(págAlmerinda Bento. 93) e Delphine, a prostituta que “desconhecia que Jacques era o artista que actuava para plateias cheias de fãs à procura nas suas canções de um aconchego para as suas mazelas sentimentais.” (pág.62). O dr. Decq Mota, uma das amizades desinteressadas mas verdadeiras, que o tratou no curto período em que Brel passou pela ilha. Dinarte Branco, o actor que aceitou sem hesitação o convite para fazer o papel de Brel numa apresentação no Teatro Micaelense, o pescador Genuíno Madruga e o mestre na arte de scrimshaw Othan Rosa da Silveira.
O último capítulo “Estrelas Inacessíveis” é uma reflexão sobre o valor da amizade. Aquelas amizades que ocorreram num período tão curto da vida de Brel nos poucos dias em que ele esteve na ilha do Faial, foram momentos, acontecimentos, não planeados, desinteressados, afinal o que de melhor há num mundo tantas vezes dominado pela superficialidade das relações movidas por interesses não genuínos.
Um livro maravilhoso que irei sempre associar a Brel, à energia das suas canções e à maravilhosa viagem que fiz ao arquipélago açoriano. Depois de ter visitado a ilha do Faial e a região onde ocorreu a erupção do vulcão dos Capelinhos, torna-se inesquecível o diálogo imaginário entre os Capelinhos e Brel, dois vulcões em repouso.
24 de Junho de 2023
Almerinda Bento
sexta-feira, 30 de junho de 2023
Para os mais pequeninos: "As Penas Mágicas do Pavão" e "A Tartaruga Engessada"
A Beatriz e o Guilherme queriam muito ter um animal de estimação. Mas a mãe, que não tinha tempo para tal, teve uma ideia que os deixou contentes também...
Inscreveu-os num programa de voluntariado num parque, onde teriam contacto com muitos e diversos animais.
Eles e o Panda vão ter muitas aventuras, como gosta a pequenada, e vão formar os Super Vets - uns veterinários com uma ajuda preciosa: umas penas de pavão mágicas!
Divertidos coloridos e cheios de aventuras estes livros vão fazer as delícias da pequenada!
Cris
sábado, 24 de junho de 2023
sexta-feira, 23 de junho de 2023
"A Criada" de Freida McFadden
Este é um thriller que anda aí a correr nas bocas do mundo e, a meu ver, com razão. Não leio muitos thrillers e, por essa razão, não sou perita em desvendar os segredos que se escondem neste género de livros. Mas gosto muito quando um livro me prende nas suas teias e me faz devorar o seu interior. Foi isso que aconteceu nesta leitura.
Mais de metade deste livro, a primeira parte, representa o discurso direto de Millie que é aceite como criada interna de uma mansão de uma família rica. Aparentemente parece que a sorte lhe bateu à porta atendendo ao seu passado negro que vamos conhecendo aos poucos. Mas será assim mesmo? Nem tudo é o que parece.
A mais de meio desta leitura, a autora altera o narrador. Desta feita é Nina, a sua patroa, que nos conta a sua versão da história. E o leitor é surpreendido com o volte face que se dá! É a partir daqui que pensamos que sabemos como vai decorrer o enredo...
Surpreendente e viciante, este livro é para ser lido num ápice, tal é a velocidade com que os acontecimentos sucedem e tal a escrita fluida da autora que nos cativa de imediato!
Gostei muito e recomendo para quem gosta deste género literário e de uma leitura sôfrega!
Terminado em 10 de Junho de 2023
Estrela: 5*
Sinopse
Por trás de cada porta, ela consegue ver tudo.
«Bem-vinda à família», diz Nina Winchester enquanto me cumprimenta com a
sua mão elegante e bem cuidada. Sorrio educadamente e olho para o longo
corredor de mármore.
Este emprego caiu-me do céu. Talvez seja a minha última oportunidade
para mudar de vida. E o melhor de tudo é que aqui ninguém sabe nada
acerca do meu passado. Posso esconder-me e fingir ser aquilo que eu
quiser. Infelizmente, não tardo a descobrir que os segredos dos
Winchester são muito mais perigosos do que os meus…
Todos os dias limpo a bela casa dos Winchester de cima a baixo, vou
buscar a filha deles à escola e cozinho uma deliciosa refeição para toda
a família antes de subir e comer sozinha no meu quarto minúsculo no
sótão.
Tento ignorar a forma como Nina gera o caos só para me ver limpar. Como
conta histórias inverosímeis sobre a filha. E como o seu marido, Andrew,
parece cada dia mais destroçado. Quando o vejo, e àqueles belos olhos
castanhos tão tristes, é difícil não me imaginar no lugar de Nina. Com o
marido perfeito, a roupa chique, o carro de luxo. Um dia, experimentei
um dos seus vestidos só para ver como me ficava. Mas ela percebeu... e
foi aí que descobri porque é que a porta do meu quarto só trancava pelo
lado de fora...
Se sair desta casa, será algemada.
Devia ter fugido enquanto podia. Agora, a minha oportunidade
desapareceu. Agora que os polícias estão na casa e descobriram o que
está no andar de cima, não há volta atrás.
Estão a cerca de cinco segundos de me ler os direitos. Não sei muito bem
porque não o fizeram ainda. Talvez esperem induzir-me a dizer-lhes algo
que não devia.
Boa sorte com isso.
O polícia com o cabelo preto raiado de grisalho está sentado ao meu lado
no sofá. Muda a posição do seu corpo entroncado sobre o cabedal
italiano cor de caramelo queimado. Pergunto-me que tipo de sofá terá em
casa. Não um, certamente, com um preço de cinco dígitos como este.
Provavelmente de uma cor foleira como laranja, coberto de pelo de
animais de estimação e com mais do que um rasgão nas costuras.
Pergunto-me se estará a pensar no seu sofá em casa e a desejar ter um
como este.Ou, mais provavelmente, está a pensar no cadáver lá em cima no
sótão.
Cris
quinta-feira, 22 de junho de 2023
"No Sítio Errado, à Hora Errada" de Gillian McAlister
Comecei esta leitura sem saber para o que ia, pensando que se trataria de um thriller convencional. Fiquei pois, surpreendida quando a premissa principal, que surge logo nas primeiras páginas, me foi apresentada. É fora do habitual e contém uma pitada de "sobrenatural". Após uma agressão em que há uma vítima mortal, Jen assiste estupefacta à prisão de seu filho que acaba de fazer 18 anos.
No dia seguinte, ela acorda no dia anterior! E assim se vão conhecendo, juntamente com a própria Jen, os aspectos que deram lugar a esse episódio, conforme o tempo recua. Jen é a única que não perde a percepção das coisas mas pouco pode contar com o apoio ďo marido, filho e amigos porque, passada uma noite, eles não se recordam de nada.
Parece um pouco estranho mas o leitor sente que, juntamente com Jen, vai descobrindo os mistérios que levaram a esse final. Nada é o que parece, as revelações são muitas e tudo nos leva a pensar que, muitas vezes, pequenos detalhes nos passam despercebidos e são de total relevância!
Surpreendente até ao final! Um thriller diferente e muito original que gostei muito de ler!
Terminado em 7 de Junho de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
Outubro está a acabar. Já passa da meia-noite.
Jen espera que o filho de 18 anos chegue a casa. Da janela, vê-o
aproximar-se e percebe que Todd não está sozinho: o jovem caminha na
direção de um homem armado.
Jen duvida do que os seus olhos veem: o filho adolescente, um jovem
equilibrado e feliz, acaba de assassinar um estranho, ali mesmo no meio
da rua onde mora. Sem saber quem é a vítima nem a razão de tudo aquilo, a
única certeza de Jen é que o filho de 18 anos foi levado pelas
autoridades e está agora detido.
Jen nem quer acreditar no que está a acontecer.
O futuro de um jovem brilhante comprometido. Tudo parece um pesadelo.
Por fim, exausta, adormece.
E quando acorda… está no dia anterior.
Confusa, Jen só tem um pensamento: será que ainda pode evitar que o filho se torne um assassino?
Cris
sábado, 17 de junho de 2023
sexta-feira, 16 de junho de 2023
A Convidada Escolhe: "O Hóspede de Job"
“O Hóspede de Job”, José Cardoso Pires, 1963
Quando em 2022 li “Integrado Marginal” de Bruno Vieira Amaral, uma completa e excelente biografia sobre José Cardoso Pires, senti necessidade de ler ou reler alguns livros deste autor. Na altura, soube que “O Hóspede de Job” dedicado à memória do irmão “Nheca” que morreu durante o serviço militar em 1953, só em 1963 teve a sua edição final, embora tenha começado a ser escrito dez anos antes. O livro foi bem acolhido pela crítica, tendo em 1964 ganho o Prémio Camilo Castelo Branco.
Numa clara crítica à NATO e aos senhores da guerra, ao serviço militar que precisa dos jovens camponeses, operários e trabalhadores para sobreviver, o livro saiu no tempo da guerra colonial e das lutas estudantis que antecederam a revolução de Abril. “O Hóspede de Job” é, nas palavras de José Cardoso Pires, escritas no posfácio de Novembro de 1963, “uma história de proveito e exemplo – um romance, no sentido tradicional do termo, destinado unicamente a ilustrar uma legenda, uma moral ou um clima humano, para lá de qualquer imediatismo de tempo e de lugar histórico.”
É o tempo da fome e da repressão no Alentejo. O trabalho é mal pago e disputado pelos “ranchos de fora” que já partiram mal acabaram as ceifas “ os gaibéus e os ratinhos, em direcção ao norte, outros, os algarvios, em direcção ao sul. E todos eles insultados, à despedida, pelos olhares que os alentejanos lhes deitavam” (pág. 24). Para a GNR, que é chamada sempre que há revolta, só há uma conclusão dita à boca pequena. “Temos política”. “Na véspera, as mulheres tinham marchado sobre a Vila e, todas em coro, apresentaram-se na Câmara. Pediam pão para casa, trabalho para os maridos.” (pág. 25).
Os sonhos de uma vida melhor que os livrem da miséria e da doença podem estar em Lisboa em cima de um andaime, ou nas fábricas do Barreiro com as suas chaminés, ou na venda de um pedaço de ferro de uma granada que já tenha explodido. Velhos, crianças, velhas, jovens, homens, mulheres todos participam nesta luta pela sobrevivência, vigiados pela guarda sempre que os direitos dos senhores da terra são questionados. Para o capitão americano que coordena os exercícios militares “Este pequeno país é uma verdadeira praia a todo o comprimento, como podes verificar por um bom mapa. Basta que te diga que, de norte a sul, são mais de quinhentas milhas de costa e de areia fina como não conheço outra que se lhe compare, nem sequer na Itália. A vida é barata e tranquila, e os portugueses, embora tristes, são acolhedores.” (pág. 169). Assim descreve ele este país, na carta que escreve para a mulher, no Michigan. Mas o sonho das praias irresistíveis pode ficar toldado por duas simples palavras numa parede na estrada ou mesmo do hotel: “Go home!”
“O Hóspede de Job” permite-nos, através de uma linguagem rigorosa e clara, acompanhar diferentes personagens que criam um ambiente em tudo contrastante com o país das praias ininterruptas a que se referia o oficial americano da barbicha.
8 de Junho de 2023
Almerinda Bento
quarta-feira, 14 de junho de 2023
Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Maio
Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.
Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:
Claudia Marisa Santos
Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 25, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:
terça-feira, 13 de junho de 2023
"Tempo de Mulheres" de Carmen Korn
Terminado o segundo volume desta saga (Filhas de Uma Nova Era). Que dizer mais que não tenha referido quando acabei o primeiro volume?
Muitos personagens, que já são "meus", sofrem uma modificação que advém do crescimento e amadurecimento que se adquire com o decorrer dos anos, outros entram na vida destas quatro amigas provocando nela algumas alterações, amigas que são tão diferentes nos seus aspectos físicos e de personalidade!
A acção decorre de Março de 1949 até Novembro de 1969. Com o terminus da guerra foi tempo de Hamburgo se reconstruir. Nas pessoas, neste caso, nos seus habitantes, as marcas da guerra também se fizeram sentir e os destroços não se limitaram às perdas de objectos físicos. Os que não se vêem são os mais difíceis de sarar e reconstruir.
Ficamos presos aos laços familiares entre elas, laços que se quebram, que se mantêm mas que se reconstroem também. Os filhos e as dificuldades no seu crescimento, as relações que se devem manter em sigilo porque constituem um delito punido pelas leis da época, as pequenas e grandes vicissitudes da vida. Tudo nos leva a virar as páginas com vontade!
Se gostam de sagas familiares que se vão desenrolando e desenvolvendo com o decorrer dos acontecimentos históricos que marcaram esta época, esta trilogia é perfeita!
O último livro já cá mora em casa e em breve será lido!
Terminado em 31 de Maio de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
1949. A guerra terminou. Os nazis foram derrotados. A cidade de Hamburgo ficou reduzida a cinzas, muitos ficaram sem uma casa para a qual regressar. É preciso reerguerem-se dos escombros. É o que tenta fazer Henny, incapaz de esquecer o olhar da sua amiga Käthe naquele elétrico… Se Käthe sobreviveu à guerra, porque não entrou em contacto com ela? Lina abriu uma livraria e luta por levar o seu negócio adiante. Ida está desiludida com a sua relação com Tian, apesar de tudo o que viveram juntos.
Durante décadas, as quatro amigas partilharam a felicidade e a tristeza, as pequenas alegrias, bem como os momentos mais sombrios. Agora, os seus filhos crescem num mundo novo e também eles têm histórias para contar.
Começam, finalmente, os anos do milagre económico e das revoluções sociais, que marcaram as décadas de 1950 e de 1960: a construção do Muro de Berlim, o aparecimento da pílula contracetiva e da televisão, o início dos movimentos estudantis e a música dos Beatles. Mas ainda há um longo caminho a percorrer...
Cris
segunda-feira, 12 de junho de 2023
"O Quarto do Bebé" de Anabela Mota Ribeiro
Casa cheia para a apresentação deste livro na biblioteca do belíssimo Palácio das Galveias que vos convido a conhecer e a admirar. Uma apresentação cuidada, com leituras de partes do livro muito bem lidas e que por si só despertaram a curiosidade de quem lá se encontrava, de certeza! Eu já ia com o livro a meio e com a minha opinião quase formada!
Percebi que muitos aspectos da narrativa se mesclavam com a vida da autora. Este sentir tão forte que nos é relatado num presumido diário, veio de certeza de fortes vivências da autora. O quê ao certo não importa, referiu ela na apresentação, e, afastando a minha curiosidade, concordei eu.
O tempo é/foi o da pandemia. O relato é feito na primeira pessoa pela Ana Ester que se vê isolada na sua doença, um isolamento que mais do que físico, a que todos nesse tempo fomos obrigados, é também emocional. Discurso muito duro, cru, que senti verdadeiro. Não é para corações moles este livro!
Primeiro romance desta jornalista/apresentadora que, mais uma vez, veio dar provas da sua versatilidade e sentido apurado, carregado de uma escrita sensível e de um forte peso que leva o leitor para mundos sofridos.
Gostei muito. Duro mas belo!
Terminado em 27 de Maio de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
Escrito em grande parte durante o confinamento e a doença, e concluído após uma longa gestação, O Quarto do Bebé é um romance autoficcional em forma de diário íntimo.
Depois da morte de um conhecido psicanalista, a filha, sua única herdeira, encontra entre os papéis que ele deixou o diário de uma paciente. Tem título – Fala Orgânica – e está assinado: Ester do Rio Arco. O que começou por ser uma curiosidade transformou-se numa obsessão e objeto de leitura compulsiva. Neste manuscrito, a filha do psicanalista vai encontrar não apenas uma forma de conviver com o pai, como também inúmeros pontos de identificação com a paciente dele.
Os temas são os do dia a dia do isolamento e da doença, a escrita, o corpo, a mutilação, a relação com a mãe e com as origens, a ligação profunda a uma amiga (figura tutelar e espécie de mãe de Ester) e a morte dela. Em suma, a perda, a infertilidade, maternidade e filiação, nascimento e morte. O arco narrativo desenha-se a partir do que poderia vir a ser um quarto de bebé, mas que nunca albergará uma criança, até à transformação desse quarto num lugar físico e mental de criação, nomeadamente da escrita. Daqui emerge ainda um retrato antropológico do país em que os pais estiveram na guerra e as mães escreveram aerogramas, e é exposta a violência que a sociedade patriarcal exerce sobre as mulheres.
Com ecos do universo literário da recentemente nobelizada Annie Ernaux, uma das grandes referências da autora, O Quarto do Bebé é um relato cru e corajoso que revela uma nova e envolvente faceta de Anabela Mota Ribeiro.
Cris
sábado, 10 de junho de 2023
sexta-feira, 9 de junho de 2023
"Natureza Urbana" de Joana Bértholo
A escrita é soberba. Confesso que algumas palavras inexistiam no meu vocabulário (mas tive sempre a sensação que elas pertenciam ao texto e que não foram ali coladas para bem parecer!) e achei muito interessante a dicotomia que encontrei entre o discurso da personagem, escrito na primeira pessoa, muito rico e elaborado versus as características com que a própria se define de si própria: ignorante, burra. E este contraste propositado fez-me logo pensar que aquela mulher se tinha modificado e evoluído. Ver esse reflexo de mudança durante esta pequena história foi ma-ra-vi-lho-so!
A sua baixa auto-estima é gritante, fruto em grande parte da sua relação com a mãe. Aquando da morte desta, que coincidiu com o seu despedimento num salão de cabeleireiro, a narradora começa a viver (narradora cujo nome fiquei com a impressão que não é referido ou, se o foi, das poucas vezes que foi mencionado, estava demasiado embrenhada na história para reparar nele!). Começa a viver aos poucos! Descobre a sua ligação com a natureza que pulula na cidade e de que nunca tinha dado conta, o seu amor pelos livros que a ligam à terra e aos bichos, a forma de subsistir sem trabalhar para melhor apreciar o que a rodeia e por consequência, a descoberta do “Tempo”: “Conseguir caminhar cada vez mais devagar”. Descobre, também, o amor e o desamor.
Referência gritante no texto a Olga Tocarkzuk, Nobel em 2018. Se ainda não a leram, devem fazê-lo o mais breve possível!
Nestes tempos em que sentimos o tempo voar, este livro é uma ode à natureza, ao prazer de descobrir o tempo passar devagar, observando o que nos rodeia e que não vemos num olhar apressado. Gostei tanto! E logo eu que não sou menina de contos. Fiquei fã! Deste, claro. É livro para reler mal se acabe.
Queria agradecer o empréstimo deste livro a uma amiga livrólica. Ler por cima das suas anotações foi uma experiência da qual gostei muito!
Terminado a 21 de maio de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
«Eu era uma pessoa simples urbana, uma planta que insistiu em crescer entre os paralelepípedos do passeio, na rua mais concorrida da metrópole, cujo destino é conhecer a sola dos sapatos de milhares de turistas e transeuntes e respirar violentas concentrações de dióxido de carbono. Eu sabia chamar um táxi, mas não o rebanho; sabia levar uma muda de roupa à lavandaria self-service e trazê-la limpa, mas não sabia levar um cântaro à teta da vaca e trazê-lo cheio.
Não sabia atear fogo, construir um abrigo, nem situar-me olhando as estrelas. Não conhecia o significado dos ventos nem descodificava as nuvens, quando antecipam temporal. Os elementos do mundo em meu redor que eu considerava naturais eram indecifráveis.»
Cris
quarta-feira, 7 de junho de 2023
"Sonechka" de Ludmila Ulitskaya
Antes de mais, quero dizer-vos que gostei muito desta história, desta menina que se faz mulher, que adora ler e se perde no meio das suas leituras e dos "seus" personagens!
A história é envolvente, as personagens pouco habituais, pouco parecidas com as que surgem nos livros que leio, o que fez com que depressa ficasse ligada a esta Sonechka/Sónia/Sofia. A escrita é límpida, directa e ao mesmo tempo forte, impactante. Gostei muito disso! Não são precisos floreados para se chegar ao leitor. Em menos de 120 páginas, uma vida inteira! Tudo faz sentido, tudo tem razão de ser nesta estória tão bem contada!
No entanto quero alertar-vos para um pormenor que, para mim, fez toda a diferença no terminus desta leitura! Um pormenor que não reparei e que vi somente agora ao pegar de novo no livro para dar a minha opinião. Leiam com atenção a nota de rodapé feita pela tradutora e que se encontra na primeira página. Os nomes que escrevi em cima mais não são que diminutivos de Sofia. Porque durante a leitura Sonechka e Sónia surgem sempre mas quase no final é referido Sofia. Fiquei a dar voltas e voltas a pensar quem era a Sofia, se algo me tinha escapado porque não conseguia entender esse final... Perguntei a uma amiga que me explicou que dois nomes mais não eram que diminutivos. Confesso que fiquei a pensar que a tradutora não tinha feito o seu trabalho em condições 😞!
Coisas parvas de uma leitora desatenta que tem dificuldade em começar leituras. Daí o meu desamor pelos contos...
Mas, retratando-me, recomendo-vos muito esta leitura!
Terminado em 13 de Maio de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
Livro vencedor do Prémio Médicis Étranger do Russian Booker Prize e do Prémio Literário Giuseppe Acerbi
Desde a mais tenra idade que Sonechka, uma rapariga invulgar e pouco atraente, se refugia obsessivamente na leitura, a ponto de tratar personagens inventadas como pessoas reais. Com o início da guerra, Sonechka parte para Sverdlovsk, onde encontra trabalho como bibliotecária. Aí conhece Robert Viktorovich, um artista recém-libertado de um campo de trabalho forçado soviético, que, de rompante, lhe pede em casamento. Seguem-se anos de satisfação, em que o amor conjugal, a maternidade e os cuidados do lar passam a ocupar o centro da vida de Sonechka, trazendo-lhe uma felicidade que ela nuncasonhou merecer e que sobreviverá ao período difícil do pós-guerra e ao surgimento de um surpreendente triângulo amoroso.
Publicado em 1995 e amplamente traduzido e premiado, Sonechka é o primeiro romance de Ludmila Ulitskaya e o início de uma fulgurante carreira que a consagrou como um dos nomes cimeiros da Literatura contemporânea internacional. Uma história subtil e inteligente sobre o destino de uma mulher, tendo como pano de fundo a História da Rússia no século XX — o regime soviético e o seu desmoronamento.
segunda-feira, 5 de junho de 2023
"A Última Solidão" de Carmen Garcia
Ouvi falar bem deste livro. Os temas que lhe dão sustento têm por base a solidão e a velhice. Ambos caminham, a maior parte das vezes, em sintonia, como se um tivesse de se apoiar no outro para serem... infelizes.
Sinto sempre que ser velhinho, aqui em Portugal, é estar só, muitas vezes rodeado de gente desconhecida. Tanto para contar/ouvir, tanta experiência desperdiçada! E quando à velhice e à solidão se junta a doença, o panorama não é bonito.
É isto que nos espera, no fim de vida?
Bom, o que este livro faz é mostrar-nos histórias de quem se encontra em situações semelhantes e de quem os rodeia.
Terminado em 9 de Maio de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
O mundo está cheio de velhos. Dos que já o são e dos que o seremos um dia. E nós aqui andamos fazendo de conta que ali, do outro lado do muro, a velhice não nos espreita enquanto se esforça por driblar a morte. Mas sabem o que é que nos rebenta de verdade?
A certeza de que a mesma velhice que repudiamos é a nossa maior esperança. A certeza de que a pele de agora, mais ou menos lisa, gritará vitória se chegar a ser marcada pelas rugas que não são mais do que linhas do tempo. Do que já vivemos e do que nos resta.
Através de personagens ficcionadas, como a Margarida, o Custódio, a Maria do Rosário ou o Zezinho, e à luz da sua experiência em lares, Carmen Garcia escreve sobre velhos, que são os nossos, ou que um dia, se tivermos sorte, seremos nós, com um amor, uma ternura e uma crueza que por vezes nos choca, nos enternece e que nos obriga a pensar no fim da vida e na forma como tratamos e pensamos os nossos velhos.
Um livro que prende do princípio ao fim, pelo relato sincero e honesto, visto pelos olhos de uma enfermeira, que embora jovem, revela uma grande maturidade e uma paixão num assunto vital e tão menosprezado em Portugal.
Cris
















































