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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

"Sem Culpa" de Cara Hunter

Primeiro livro que li desta série do Inspector Fawley. Fiquei com pena de não ter lido os livros anteriores. Não que não se possa ler separadamente mas o  conhecimento de certas particularidades das personagens que são comuns a esta série pode enriquecer a leitura. Mas nada há que me impeça de ler os anteriores que ficaram já anotados como livros a ler...

Gostei de este este policial/thriller porque um acontecimento que ocorre logo no início e que parece ser o cerne da questão e de onde, à partida, partiriam todos os mistérios é, na verdade, só o início de uma grande trama onde nada é o que parece. 

A partir de um assassinato de um aparente ladrão que entrou numa quinta isolada, é aberta uma porta onde acontecimentos do passado, já há muito esquecidos, são desenterrados. 

Contar mais seria desvendar e abrir a porta, coisa que não pretendo fazer de todo. Leitura rápida que prende e sem momentos mortos, com muitas surpresas! Se gostarem do género, façam o favor de pegar nele. Eu gosto de variar!

Terminado a 17 de Agosto de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

É meia-noite. Uma chamada para a polícia dá o alerta: algo de errado se passa numa quinta isolada, nos arredores de Oxford. Na cozinha, é encontrado um corpo baleado à queima-roupa. Tudo aponta para um assalto que correu mal, mas o inspetor Adam Fawley suspeita que há algo mais a contar nesta história. Quando a polícia descobre a ligação com um caso antigo de grande repercussão, que envolveu o homicídio de uma criança e um alegado erro judiciário, a imprensa fica ao rubro. De repente, a equipa de Fawley está sob o maior escrutínio de sempre. E, quando se desenterra o passado, muitos esqueletos começam a aparecer. 

Cris

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

"O Quarto de Giovanni" de James Baldwin

Ouvi falar muito bem deste livro. Em linhas gerais sabia ao que ia e, por isso, não me surpreendeu, pese embora tenha gostado. 

Sentimentos contraditórios os meus. Já explico.

Esta história decorre em Paris por volta dos anos 50 e o protagonista é David, um jovem norte-americano que aí vive temporariamente. A noiva encontra-se em Espanha, em passeio. Conhece Giovanni, barman num bar gay, e a relação que se estabelece entre os dois tem quase tudo para não dar certo. Aliás, sabemos no início do livro que essa trágica relação tem os dias contados, só não sabemos as razões e como termina na realidade.

David aceita passivamente o amor tempestuoso de Giovanni e, por falta de dinheiro, vai morar para o quarto onde este vive. Não se sente resolvido em termos da sua identidade sexual e nunca põe a hipótese de terminar com a sua noiva.

Relato bem narrado, muito cru e seco, tocando em pontos fulcrais no que concerne às questões de identidade, a explanação real de sentimentos intensos de culpa, medo, desejo e remorso. Não senti, contudo, empatia pelas personagens principais. Foi como se lesse uma história com interesse mas ela não tocasse nos meus sentimentos. 

Há uma questão que se coloca, por detrás destas páginas: como decidimos nós viver as nossas vidas? Assumimos quem somos? 

Apesar desta minha falta de empatia, o livro tem todo o mérito possível. Foi escrito na América dos anos 50, retratando uma relação entre dois homens brancos e escrita por um autor negro. Parece pouco hoje em dia, mas não era na altura. 

Terminado em 12 de Agosto de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

Impregnada de paixão, arrependimento e desejo, esta é a história de um trágico triângulo amoroso. E uma obra de culto merecido, que questiona a identidade de vários ângulos. Ao publicá-la em 1956, Baldwin quebrou mais do que um tabu: era um escritor negro a escrever sobre o amor entre dois homens brancos. O seu editor aconselhou-o a queimar o manuscrito, mas volvido este tempo O quarto de Giovanni é uma das obras mais célebres de Baldwin. 

Cris

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

"O Vento Conhece O Meu Nome" de Isabel Allende

Sei que lerei qualquer livro de Isabel Allende. São livros muito reais, pese embora alguns possam não ser baseados em histórias verídicas. Sinto que representam a história de alguém tanto mais que, os que li e se bem me lembro, são baseados em acontecimentos históricos. Normalmente guerras. Absurdas, como o são todas!

Aqui são-nos contadas algumas histórias em espaços temporais diferentes. A forma como elas se vão interligar prende-nos à leitura e tudo encaixa e faz sentido no final.

Em 1938 começamos a seguir a história de Samuel, cujo pai, médico, desaparece na tão triste e conhecida Noite de Cristal, em Viena de Áustria. Como muitas outras crianças, Samuel é enviado para fora do país na esperança que se consiga, ao menos ele, salvar. No seu caminho solitário pela vida fora terá um companheiro sempre presente, o seu violino.

1981/2000. Leticia possui passaporte e cidadania dos Estados Unidos mas era natural de El Salvador. Ela e seu pai foram dos poucos sobreviventes ao massacre de El Mozote, porque não se encontravam lá aquando desse acontecimento. Vejam na Wikipédia informações sobre este terrível massacre.

Selena, mais uma personagem fantástica desta trama, trabalha para um projecto que ajuda refugiados e imigrantes devido à crise humanitária e existente na fronteira com o México. Crianças são separadas dos seus pais e o projecto tem como finalidade reuni-las. Anita é uma dessas crianças, que se viu separada da mãe ao tentar fugir de El Salvador e entrar nos EUA. As suas histórias retratam um pouco da razão pela qual as pessoas tentam emigrar a todo o custo, mesmo quando põem em risco as suas vidas.

A forma genial como a autora interliga estas histórias, prende totalmente o leitor levando-o rapidamente a uma leitura sôfrega! Gostei muito.

Terminado em 10 de Agosto de 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

Viena, 1938. Samuel Adler tem apenas 5 anos quando o pai desaparece, na infame Noite de Cristal – a noite em que a sua família perde tudo. Procurando garantir a segurança do filho, a mãe consegue-lhe lugar num comboio que transporta crianças judias para fora do país, agora ocupado pelo regime nazi. Samuel embarca sozinho, deixando a família para trás, tendo o seu violino como única companhia.

Arizona, 2019. Anita Díaz e a mãe tentam entrar nos EUA, fugindo à violência que reina no seu país, El Salvador. No entanto, são separadas na fronteira, ao abrigo de uma nova lei que regulamenta a imigração, forçando à separação das famílias. A mãe desaparece sem deixar rasto, e Anita é colocada em sombrias instituições de acolhimento. O caso desperta a atenção de Selena Durán, uma californiana de ascendência latina, e de Frank Angileri, um promissor advogado, que tudo farão para reunir de novo mãe e filha. Juntos, vão conhecer de perto a violência que muitas mulheres sofrem em silêncio, sem que dela consigam escapar.

Entrelaçando passado e presente, O vento conhece o meu nome conta-nos a história destas duas personagens inesquecíveis, ambas em busca da família e de um lar. É uma sentida homenagem aos sacrifícios que fazemos em nome dos filhos e uma carta de amor às crianças que sobrevivem a perigos inimagináveis – sem nunca deixarem de sonhar. 

Cris

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Agosto

Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Agosto.
 

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Os Olhares da Gracinha

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 25, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:

 


Cris

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

A Convidada escolhe: "Memória de Elefante"

Memória de Elefante, António Lobo Antunes, 1979

Um dos muitos livros que pensei que ainda não tinha lido, mas a verdade é que o folheio e descubro anotações, marcas de leitura antiga. A memória apagou-se; não tenho memória de elefante… mas reparo que, quer as anotações, quer os sublinhados não passaram um quarto do livro, pelo que não o devo ter concluído na altura. Na badana desta edição do Círculo de Leitores, leio que este foi o primeiro romance de António Lobo Antunes.

O narrador é um psiquiatra “vazio de tudo” (pág. 76) a viver um período negro na sua vida. A juntar ao total desprazer pelo sítio onde trabalha ”a inumana máquina concentracionária do hospital” (pág. 49), pelas pessoas com quem trabalha, é crítico do sistema que gera a doença mental e também crítico da própria psiquiatria”aqui estou eu a colaborar não colaborando com a continuação sito, com a pavorosa máquina doente da Saúde Mental trituradora npo ovo dos germenzinhos de liberdade que em nós nascem sob a forma canhestra de um protesto inquieto, pactuando mediante o meu silêncio o ordenado que recebo, a carreira que me oferece; como resistir por dentro , quase sem ajuda, à inércia eficaz e mole da psiquiatria institucional, inventora da grande linha branca de separar a «normalidade» da «loucura»(pág. 46), não consegue suportar a solidão pelo fim do casamento recente que o afastou das filhas e da mulher, que no entanto continua a amar, e as persistentes lembranças da guerra de África onde combateu.

Este é também um romance de Lisboa, das ruas por onde o psiquiatra conduz na sua deslocação ao fim do dia de trabalho, quando vai ao dentista, à sessão de análise de grupo e ao restaurante, antes de se dirigir pela marginal a caminho do seu apartamento no Monte Estoril “uma ilha estrangeira a que se achava incapaz de se adaptar, longe dos ruídos e dos cheiros da sua floresta natal.” (pág. 162)

Agora que o termino acho que percebo por que não o li até ao fim, numa altura em que deveria ainda nem ter quarenta anos. É deveras um livro pesado, carregado de angústia e solidão, profundamente pessimista, numa escrita densa e carregada de metáforas nem sempre fáceis ou acessíveis. Períodos longos, que obrigam a que se volte atrás para se apanhar o fio à meada da ideia principal, não foi um livro de leitura fácil, sobretudo porque o pessimismo é demasiado pesado e por vezes, até asfixiante.

Almerinda Bento





quinta-feira, 7 de setembro de 2023

"Dor Fantasma" de Rafael Gallo

Fui assistir à apresentação deste livro na Casa José Saramago e no geral foi um evento a que assisti com prazer e atenção. Gostei de ouvir o autor e foi num tom coloquial que Luís Caetano, da Antena 2, além de ter lido algumas partes do livro, moderou a simpática e interessante conversa. A minha curiosidade aumentou e só não a atendi mais cedo porque, infelizmente, um outro autor convidado relatou um facto importante que considero spoiler e... 🤐

Que dizer? 

Rafael Gallo construiu um personagem sublime. Frio, determinado, duro. Pianista exímio, professor. Um acidente incapacita-o grandemente mas mesmo assim, Rômulo Castelo não quebra. Não é uma personagem que atrai o leitor pela sua bondade, pela sua forma de estar na vida. Pelo contrário. Age sem escrúpulos, a única meta que possui na vida está relacionada com o seu amor, o piano. Nada mais importa. Como se gosta de um personagem assim? Ou melhor, o que nos leva a não largar o livro? 

A escrita. Sublime. Prende. A necessidade de saber o que vai acontecer, até onde Rômulo vai continuar a ser assim, o que o fará mudar?

Não deixem para amanhã. Leiam este livro. Prémio merecido!

Terminado em 6 de Agosto de 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

Rômulo Castelo, um pianista virtuoso, dedica-se inteiramente a buscar a perfeição na sua arte e, todas as manhãs, ao acordar, fecha-se na sua sala de estudos. Por trás da porta blindada, que também o distancia de um casamento problemático e de um filho que jamais corresponderá aos seus ideais de excelência, ensaia aquela que é considerada a peça intocável de Liszt, o Rondeau Fantastique. Em breve, Rômulo irá oferecer a sua genialidade ao mundo, numa tournée pela Europa que o sagrará como o maior intérprete daquele compositor. A vida, porém, tem outros planos e, de um dia para o outro, incapaz de se reinventar na adversidade, Rómulo vê fugir-lhe aquele que julgava ser o seu lugar por direito no pódio do mundo.
Partitura de dor, este romance de Rafael Gallo, vencedor do Prémio Literário José Saramago 2022, vem dar a conhecer ao público português um autor que promete deixar a sua marca na literatura contemporânea.

Cris

 

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

"A Casa de Bernarda Alba" de Federico García Lorca

Confesso que peguei neste livro para concluir uma das partes de um passatempo, o Bingo Dona Leitura, para a categoria "Levanta o pano" (peça de teatro). Não o leria se não fosse isso e sair da minha zona de conforto (às vezes!) foi bom! 

Peça de teatro escrita pouco tempo antes da morte do autor por volta de 1936, fuzilado em Granada na Guerra civil espanhola às mãos de nacionalistas espanhóis, que retrata um ambiente muito tenso e repressivo criado sobretudo pela matriarca de uma família, Bernarda Alba, constituída somente por mulheres que submete as suas filhas a um luto forçado (oito anos) após a morte do seu segundo marido e pai de quatro das suas cinco filhas. Ambiente repressor no que diz respeito ao papel da mulher na sociedade.

Um livro de mulheres sobre mulheres. Estalam conflitos familiares intensos quando a filha mais nova se apaixona pelo noivo da mais velha, quebrando e rompendo totalmente as regras impostas pela mãe e, também, pela sociedade espanhola de então. Destino trágico que Bernarda Alba pretende controlar.

Muito visual. O leitor imagina completamente o cenário e o que lá se sucede. Estranhei no princípio mas depois "entranhei" completamente! 

Terminado em 31 de Julho de 2023

Estrelas: 4*+

Sinopse

A Casa de Bernarda Alba é uma tragédia, severa e simples, como a classificou o próprio Lorca: a tragédia das mulheres das aldeias espanholas, acorrentadas a preconceitos e mitos que um convencionalismo social, tão cruel como vazio de valores, defende a todo o transe, mesmo à custa do aniquilamento das pessoas.
É o que efectivamente acontece aqui, nesta peça trágica, impregnada simultaneamente pelo lirismo característico de Lorca e pelo sopro fatalista que o poeta bebeu na Andaluzia da sua infância.
Federico García Lorca, um dos maiores nomes da literatura espanhola do século XX, nasceu em Fuentevaqueros em 1899. Depois de uma infância vivida no campo, frequentou o Colégio de Almeria e as Faculdades de Direito e de Letras de Granada. O teatro foi a sua paixão, a ele devendo, e à poesia, o lugar que conquistou no mundo das letras. A consagração definitiva como autor advém-lhe com a trilogia Bodas de Sangue, Yerma e A Casa de Bernarda Alba. Federico García Lorca morreu em 1936, fuzilado pela Guarda Civil franquista.

Cris

terça-feira, 5 de setembro de 2023

"Depois a Louca Sou Eu" de Tati Bernardi

A sinopse deste livro interessou-me sobremaneira porque, algures no tempo, sofri de ataques de pânico e sei um pouco o que é estar aterrada sem razão aparente. Fiquei curiosa ao saber que a autora quis colocar no papel os seus sentimentos e acontecimentos que a a marcaram durante muitos anos da sua vida.

No entanto, não me prendeu como supunha. A razão? Não consigo explanar concretamente. A forma como está escrito, decerto, levou a que não sentisse a empatia que esperava. Expectativas demasiado altas, muito certamente!

As suas crises de ansiedade, os ataques de pânico, o uso de medicamentos e como deles ficou dependente, contados com algum humor.

Li, não pensei em desistir porque mantive o interesse com o intuito de saber como acabaria, mas esperava mais. Experimentem e digam coisas...

Terminado em 29 de Julho de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

Sentido de humor para combater a ansiedade, na primeira pessoa. O primeiro ataque de pânico de Tati Bernardi foi num aeroporto em Paris? Ou foi deitada debaixo da cama dos pais da amiga Daniela, quando tinha seis anos? Também pode ter sido no supermercado, no desespero de não conseguir escolher um melão. Talvez não seja possível determinar quando começou, mas a autora foi aprendendo a viver com a ansiedade – com recurso a terapia, vários comprimidos, mantendo-se perto de lugares seguros ou, como acontece em "Depois a Louca Sou Eu" (livro que decidiu escrever num dia em que se convenceu mesmo de que o avião ia cair), através do humor. No Brasil, ficou conhecida primeiro pelas espirituosas crónicas de jornal e pelos seus divertidos guiões para cinema e televisão. Só depois espantou os leitores com a honestidade frenética deste desabafo autobiográfico sobre medos, manias, taquicardias e desesperos que, contra tudo e por vontade da autora, ainda deixa espaço para uma gargalhada. 

Cris


segunda-feira, 4 de setembro de 2023

A Convidada escolhe: "Rebeldia"

 
Rebeldia”, Cristina Carvalho, 2017

Acabo de ler “Rebeldia” de Cristina Carvalho e penso: quantas Leninhas existem? Quantas vezes não nos sentimos como a Leninha? Até que ponto não nos revemos também na Leninha, por muito que isso nos custe aceitar?

Tirei poucas notas à medida que fui lendo, mas sublinhei e vivi muito este livro. Só conhecia a escrita de Cristina Carvalho de alguns romances biográficos, diferentes deste romance da vida de uma mulher que desde jovem ambiciona outros horizontes que a afastem da vida rotineira da infância e da Pensão Popular dos seus pais. “Sou uma mulher de repentes e de vontades e de cheiros e de apetites, uns dias mais do que outros, é certo, mas sem nunca abandonar estes repentes que, por vezes, fazem com que eu chegue a cambalear de emoções” (pág. 78).

Almerinda Bento 


sexta-feira, 1 de setembro de 2023

A Convidada escolhe: "As Primas"

As Primas, Aurora Venturini, 2007

Aurora Venturini foi uma escritora argentina que, aos 85 anos, depois de uma carreira com mais de trinta livros pouco divulgados, acabou por ter os holofotes do reconhecimento literário com este “As Primas” com o qual recebeu o Premio Nueva Novela (Argentina) e o Premio Otras Voces (Espanha). Impossível ficar-se indiferente e mesmo perplexo ao ler este livro, como aliás aconteceu com Mariana Enríquez, que escreve o prólogo ao romance e que foi uma das pessoas que trabalhou em 2007 na pré-selecção das obras a concurso ao Prémio Nueva Novela. Tudo saía fora da norma, até o facto de o original ter sido escrito numa máquina de escrever e de os erros ortográficos terem sido corrigidos com corrector líquido.

Um livro delirante mas muito sério, em que não se consegue deixar de rir pelo insólito e crueza das descrições. Vai ser difícil esquecer este livro e Yuna, a narradora, as primas Petra e Carina, a irmã Betina, as tias Nené e Ingrazia e a mãe “professora de ponteiro e bata branca, muito severa, mas ensinava bem…” (pág. 21). Um livro de e com mulheres, mas onde não falta o vizinho, o professor e outros personagens do sexo masculino.

Mas foquemo-nos em Yuna. Logo no início, Yuna diz da sua família “Não éramos comuns, ou seja, não éramos normais.” (pág. 22). Sempre que algo acontecia na sua vida que a emocionava, transpunha esses sentimentos para cartões e mais tarde para telas, uma terapia que a apaziguava. O professor de Belas Artes aposta nela. Ele diz que ela é “a menina da gravata”pela parecença com “a jovenzinha melancólica de Modigliani” (pág. 79) e não a considera uma deficiente, mas sim uma “artista plástica ensimesmada” (pág. 37). Ela luta com as palavras, com a sua dificuldade ao nível da linguagem verbal e, quando escreve, não usa pontos nem vírgulas nem maiúsculas. “Já disse que dentro da minha psique conhecia detalhes e formas, que era muito diferente da tonta de fora que falava sem ponto nem vírgula porque se punha ponto ou vírgula perdia a palavra falada. Às vezes punha ponto ou vírgula para respirar mas convinha-me comunicar de viva voz rapidamente para que me entendessem e evitar lacunas silenciosas que revelassem a minha incapacidade de comunicação verbal porque ao ouvir os barulhos dentro da minha cabeça e o fluir sibilante das palavras ficava confusa e boquiaberta a pensar que existiam palavras gordas e palavras magras, palavras negras e brancas, palavras loucas e criteriosas, palavras que dormiam nos dicionários e que ninguém usava. Aqui por exemplo usei vírgulas. E pontos.” (pág. 64). Explica-se quando dialoga com o/a leitor/a, pede-lhe desculpa quando se repete e faz ironia com isso: “… não repetirei para não cansar quem tiver oportunidade de me ler e digo repetindo a quem tiver oportunidade de me ler e paciência ao mesmo tempo porque eu própria me ouço e se as palavras que escrevo são tão cansativamente patetas como as que digo de mim para mim, quem terminar esta melopeia absurda amaldiçoar-me-á pelo tempo que perdeu comigo sem poder negar que não conseguiu pôr-me de lado porque encontrou entre as minhas estúpidas amarguras de amor e morte muitas das que ele próprio viveu, ou ela caso se trate de uma senhora.” (pág. 74). E algumas páginas mais à frente “Já não vou dizer que me cansam os pontos finais e as vírgulas porque senão pareço ridícula e os bons leitores que simpatizarem comigo deixarão de me ler.” (pág. 89). Sempre que usa uma nova palavra que descobriu no dicionário, põe a palavra dicionário entre parêntesis ou então (idem), esclarecendo “que idem significa dicionário mas por ser um vocábulo mais curto convém-me mais e como nunca fico com nada pendente digo que esse vocábulo corresponde às minhas averiguações da cultura do dicionário que me ajuda a sair da minha deficiência herdada.” (pág. 121). E quando há uma palavra que ela não encontra no dicionário, é à prima Petra que recorre.

Este é também um romance sobre os corpos e sobre os tabús dos corpos disformes ou não. Neste romance há pipis, pénis, maminhas, puns, chichi, vómito, sangrar, nojo, aborto, preservativo, violação, gravidez. Na sua linguagem directa e simples, Yuna desconstrói o mundo dos adultos, dos ditos normais, da sociedade organizada e dos psicólogos. “Eu cresci com má opinião do casamento e da família organizada. Jurei não casar. Jurei viver para pintar. Jurei muitas coisas até que me apercebi de que jurar era pecado e nunca mais jurei.” (pág. 50).

Yuna é um caso de superação, de alguém que, conhecendo as suas limitações, não deixa de tentar ultrapassá-las. Pelas palavras e pela arte.

Sentia-me acabada de nascer, consegui equilibrar-me, expor. Viajar.

Apaguei. Apaguei. Apaguei tudo.

Uma enorme melancolia invadiu as minhas pinturas e valorizou-as porque as pessoas quando se vêem refletidas na dor conseguem consolar-se um pouco.” (pág. 203).


Um livro desconcertante, que consegue oferecer-nos o poder extraordinário da Literatura e da Arte. Escrito por uma jovem de 85 anos!

21 de Agosto de 2023

Almerinda Bento





quinta-feira, 31 de agosto de 2023

"Lugar Para Dois" de Miguel Jesus

Quando serves de intermediária na passagem de um livro de uma amiga para outra, quando as cores quentes da capa te chamam a atenção e a sinopse te aguça o apetite porque afinal aquelas cores te fazem lembrar a infância, o que fazes? Lês o livro de enfiada, pois claro! 

Escrita cuidada, algo poética, trama que desperta interesse passada em três épocas temporais diferentes - 1959 em Lisboa, 1964 em Moçambique e 1991 entre Lisboa e Moçambique. Atrevo-me a dizer que a linguagem utilizada tem as cores e sons dessa terra africana, de quem lá viveu. Capa que traduz na perfeição o texto do seu interior.

O livro fala-nos dos erros que cometemos e da melhor ou pior forma como lidamos com eles. Daniel culpa-se de desatenção e do acidente que provocou a morte de sua filha. Depois de muita dor, de disparate atrás de disparate, foge para um lugar recôndito em Moçambique. Tudo lhe passa ao lado, nada o faz voltar à vida. A vida encarrega-se de lhe povoar os dias com gente boa e com amor que não sabe reconhecer. 

Em relação aos sons que transbordam das palavras, este livro possui outra particularidade que o faz ainda mais musical: o autor é pioneiro na junção da literatura com a música. Os seus livros possuem um QR Code e o leitor vai ouvindo os temas que o músico/escritor compôs para esse efeito.

Um twist inesperado surpreende o leitor, embora outro aspecto da trama nos indique o final.

Fiquei muito curiosa e vou ler o seu livro mais recente, "Os flamingos também sonham".

Frase escolhida: "Tentei dizer-lhe que o inferno não está no mal que nos acontece, mas no mal que fazemos com ele."

Terminado em 25 de Julho de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

Depois do sucesso da inauguração do Metropolitano de Lisboa, Daniel Stoffel, responsável financeiro do projeto, parece poder escolher o futuro que quiser. Porém, a morte da filha num acidente estúpido enche-o de uma culpa que de não se consegue libertar. Desfeito o casamento, começa a afundar-se na bebida, até que um amigo lhe sugere que deixe Portugal, onde tudo aconteceu, e tente recomeçar a vida noutro lugar. Instala-se, então, num lugar recôndito de Moçambique, onde uma velha negra o ajuda nas tarefas domésticas e lhe leva jornais que o põem a par dos movimentos independentistas das Colónias e das mudanças por que a Metrópole vai passando.

Apesar da vontade de ficar sozinho, o frondoso embondeiro que o protege da curiosidade alheia tem uma frase riscada no tronco que parece traçar-lhe um destino diferente, insistindo na paternidade que lhe estava destinada. E, por mais que Daniel a renegue, é nesse caminho que poderá encontrar o próprio perdão.

Belo, duro, mágico e ternurento – com uma banda sonora exclusiva e um toque africano no colorido das palavras e das paisagens –, Lugar para Dois é um romance excecional sobre a culpa, o amor e aquilo que ainda tem para dar quem julga que, afinal, já perdeu tudo.

Cris

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

"1984 A Novela Gráfica" de George Orwell (Autor) e Fido Nesti (Ilustração)

Demorei mais tempo a ler esta graphic novel do que pretendia e não dou mais estrelas precisamente pela dificuldade que me levou a demorar a lê-la... A mancha gráfica é compacta, escrita num fundo escuro. Não é GN para ser lida a correr se quisermos apreciá-la devidamente.

O que quero analisar aqui é a graphic novel em si mas não posso deixar de referir a história em que ela se baseia, escrita em 1948, repleta de imaginação e que revela um sentido crítico apurado de George Orwell. Uma distopia que, naquela altura, poderia parecer um mundo sem sentido mas que continua a constituir os piores receios do mundo actual. 

Londres, 1984. A manipulação extrema das mentalidades por parte de um regime político totalitário (existia uma Polícia do Pensamento), onde a guerra é mantida perpetuamente (de forma a que a população viva perpectuamente amedrontada), os membros do partido são vigiados continuamente e onde é reprimida qualquer atitude que não se coadune com as diretivas dadas. Uma nova língua vai sendo apresentada e introduzida (Novilíngua) sendo que algumas palavras e sentidos vão sendo eliminados. A História vai sendo apagada conforme as intenções do partido. Pensar não é permitido. Há desaparecimentos de indivíduos com frequência. Para que direcção caminha esta sociedade?

Winston é o personagem central. Trabalha para o partido, nada vê para além do que lhe mandam, é obediente. Até que...

A GN é volumosa em termos de páginas e de informação e retrata bem o conteúdo do livro.

Terminado em 26 de Julho de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

No ano 1984, Londres é uma cidade lúgubre, em que a Polícia do Pensamento vigia de forma asfixiante a vida dos cidadãos. O mais grave dos crimes é ter uma mente livre. Publicada originalmente em 1949, a obra mais poderosa de George Orwell é, pela primeira vez, adaptada a novela gráfica, no traço do artista brasileiro Fido Nesti, que capta magistralmente os rostos, corpos e cenários de um mundo que, cada dia, é menos difícil de imaginar.

Cris

terça-feira, 29 de agosto de 2023

"Assombro" de Richard Powers

Não costumo ler ficção científica e, sinceramente, tenho algumas dúvidas se este livro poderá ser incluído nessa categoria, mas, alturas houve durante a minha leitura, que achei que sim. O que é certo é que me apanhou no seu enredo e quero ler mais livros deste autor. Sei que está traduzido pela Editorial Presença o livro "Sobre o Céu" e já o coloquei na wishlist. Vou querer lê-lo!

Theo é um jovem cientista, um exobiólogo (ou astrobiólogo) que descobriu como procurar vida em outros planetas, viúvo e que vive com o seu filho de nove anos, Robin. Ambos sentem muito a falta de Alyssa, esposa e mãe. Os dois. Muito. Este aspecto é central na trama dado que condiciona sobremaneira estes dois personagens, ligados pelo amor que sentiam por Aly.

Outro aspecto que marca o leitor é o amor deste pai que tudo faz para que o seu filho tenha uma vida o mais "normal" possível. O diagnóstico incerto que lhe é atribuído (como Theo refere com "dois votos favoráveis à síndrome de Asperger, um favorável a uma provável perturbação obsessivo-compulsiva e um favorável a uma possível perturbação de hiperatividade e défice de atenção"), os medicamentos que querem que tome que o fazem parecer um zombie, fazem com que Theo resista em aceitar os diversos e contraditórios tratamentos e medicamentos que lhe receitam.

Há histórias que queremos que acabem bem. Esta é uma delas!

A capa é de uma beleza simples e profunda, que traduz muito bem o ambiente descrito nestas páginas. A ligação que Theo e Robin possuem com a natureza, o respeito que lhe têm, faz-nos apreciar melhor esta capa e repensar esse assunto. Adorei!

Terminado em 20 de Julho de 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

Theo Byrne é um jovem cientista promissor que descobriu como procurar vida noutros planetas a dezenas de anos-luz. Viúvo,Theo é também pai de um menino de nove anos muito peculiar. Robin, o seu fi­lho, é divertido, amoroso e tem mil planos para concretizar. Tudo o que pensa e sente tem enorme profundidade, adora animais e passa horas in­finitas a fazer desenhos muito elaborados. Robin é também a criança que está prestes a ser expulsa da escola por ter agredido um amigo.

Que pode um pai fazer quando a única solução que lhe dão é medicar aquele menino tão raro quanto problemático? Como pode Theo explicar a Robin este mundo em que vivemos, um mundo que parece estar claramente a destruir-se a si próprio? O único caminho para este pai é levar o fi­lho para outros planetas, enquanto acarinha e encoraja a vontade enorme que ele tem de salvar o planeta Terra.

Como poderemos, todos e cada um de nós, dizer a verdade sobre este maravilhoso e ameaçado planeta aos nossos fi­lhos? No mais íntimo de cada um, ecoa a pergunta: porquê este mundo?

Cris

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

A Convidada escolhe: "Maria Antonieta"

Maria Antonieta, Stefan Zweig, 1932

Quando há um ano li “Maria Stuart” decidi que queria ler “Maria Antonieta” uma das diversas biografias que o incansável Stefan Zweig escreveu ao longo da vida. Tal como “Maria Stuart”, “Maria Antonieta” é o resultado de um profundo trabalho de pesquisa, aliado a uma escrita irrepreensível e a uma reflexão pessoal sobre a personagem, a história e todo o ambiente na Europa e na corte francesa nos finais do século XVIII. Esta edição do Círculo de Leitores foi traduzida por Alice Ogando, tal como acontecera na biografia de “Maria Stuart”.

Maria Antonieta é uma personagem trágica, usada na infância como moeda para alianças entre famílias reais através de um casamento de conveniência, sem possibilidade de brincar e crescer num ambiente que não fosse regido pela etiqueta e pelas intrigas, fascinada pelo papel que lhe é atribuído, apesar de nem ela nem o jovem marido Luís XVI estarem à altura desse papel – ele mole e indeciso, ela fútil e superficial. São vinte anos de vida estouvada, com gastos exorbitantes e sem limites que geram uma reviravolta na atitude do povo que deixa de lhe ter o respeito e a estima que antes tivera, para a odiar, caluniar e desprezar. Quando o povo desperta, já é tarde demais para a rainha e para a os nobres que viviam na órbita desta jovem rainha que nuca quis ouvir os conselhos da sua mãe Maria Teresa, a imperatriz da Áustria. Aliás, ninguém tinha a noção da amplitude da revolta popular, uma verdadeira revolução. A rainha fica sozinha, todos os amigos desaparecem, excepto Hans Axel von Fersen, o único que tudo fez até ao fim para tentar salvá-la da justiça popular. Após a tomada da Bastilha a 14 de Julho, os acontecimentos precipitam-se e a roda da História nunca mais sorrirá a Luís XVI e a Maria Antonieta. Acaba Trianon, o palácio da evasão e da futilidade da rainha, a última noite em Versailles será a 5 de Outubro, para nunca mais voltarem. Numa viagem de seis horas para Paris, seguidos pela multidão em fúria, vão ficar presos nas Tulherias, desabitadas há mais de cem anos, desde os tempos de Luis XIV. A tentativa de fuga para Varennes, a constituição da Comuna a 10 de Agosto de 1792, o aprisionamento dos reis no Templo e a abolição da realeza com a decapitação do rei são a sequência de um momento histórico decisivo para a França e com reflexos na Europa. Maria Antonieta está completamente só, “todos a abandonaram” (pág. 370); inclusivamente, o imperador Francisco, sobrinho de Maria Antonieta não mexe uma palha para a ajudar. Só mesmo o embaixador Mercy e Fersen, tentam, no exterior, impedir que Maria Antonieta suba ao cadafalso. Mesmo na Conciergerie “a antecâmara da morte” (pág. 399), onde os carcereiros estabelecem relações de simpatia e amizade com a presa, o medo das represálias da Comuna e da Junta de Salvação Pública falam mais forte.

A mudança na vida de Maria Antonieta operou uma transformação radical na sua atitude e é essa capacidade da escrita que torna este livro tão extraordinário e a personagem de Maria Antonieta tão dramática. “Desde a tomada da Bastilha até ao cadafalso, não cessa de se sentir completamente senhora dos seus direitos” (pág. 211) e, tal como me surpreendeu a descrição da morte de Maria Stuart, nesta biografia, a fibra de uma mulher que quis morrer com dignidade sem dar quaisquer trunfos aos que a acossaram e traíram e aos que a julgaram, mesmo sem terem documentos comprovativos, torna as últimas páginas deste livro verdadeiramente inesquecíveis. “ «Quando te resolves a ser quem és?», escrevia-lhe vinte anos antes, Maria Teresa, desesperada. Agora, a dois passos da morte, começa a encontrar em si mesma essa grandeza que só possuía exteriormente. Quando lhe perguntaram o seu nome, responde em voz alta e clara: «Maria Antonieta de Áustria Lorena, trinta e oito anos, viúva do rei de França.»” (pág. 417) Como num filme, Stefan Zweig é exímio na descrição da atitude e dos sentimentos da rainha e na descrição de toda a envolvência no percurso desde a cela na Conciergerie até ao cadafalso na Praça da Revolução, hoje Praça da Concórdia.

18 de Agosto de 2023

Almerinda Bento

Nota: Ao ler este livro sobre a rainha Maria Antonieta, não pude deixar de me lembrar da minha leitura de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta. Lembro-me que D. Leonor de Almeida Portugal, 4ª Marquesa de Alorna estava em França, em Marselha e que partiu para Paris, porque queria viver de perto a revolução francesa que a fascina e atemoriza, porque a questiona sobre o mundo em que sempre viveu. Vai conhecer mulheres fascinantes, mulheres do povo que falam em liberdade e igualdade, em direitos. São tempos de grandes questionamentos, mas que a atraem imenso e nessa altura conhece Olympe de Gouges.

Leonor associa Paris à Roma incendiada por Nero. Sente-se deslocada entre os revolucionários e as amazonas, mas não quer partir. As mulheres encabeçam o cerco a Versalhes. Leonor não toma posição sobre a revolução e considera que nada será como dantes; é uma mera testemunha e regressa a Marselha.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Julho

 Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Julho.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Alexandra Guimarães

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 25, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:




Cris


terça-feira, 8 de agosto de 2023

"Viver Depressa" de Brigitte Giraud

Relato autobiográfico desta escritora que possui já dez romances publicados em França mas de quem nada tinha lido, sequer ouvido falar. É um relato confessional sobre os seus últimos vinte anos, altura em que o  seu marido morreu num acidente de moto e que alterou completamente a sua vida. 

Recordações que busca na memória sobre o seu passado em conjunto com um tempo em que era feliz e, sobretudo, a reviver os momentos anteriores ao acidente. Acaso teria ocorrido se?... e são muitos os "ses" que ela questiona e para poucos obtém a resposta pretendida. 

Um exercício de catarse feito muitos anos depois que, creio ter sido importante para a autora arrumar alguns fantasmas que a atormentaram e que levam o leitor a analisar, por comparação, alguns aspectos da sua própria vida.

Escrita segura, simples e direta. Gostei.

Terminado em 13 de Julho de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

«Estava obcecada com aquela dupla missão impossível. Comprar a casa e encontrar as armas escondidas. Era inesperado e eu não pressenti a engrenagem que iria fazer a nossa vida dar um tombo. Porque a casa está no cerne do que provocou o acidente.»

Num relato tenso que é apresentado como uma verdadeira contagem decrescente, Brigitte Giraud tenta compreender o que conduziu ao acidente de mota que custou a vida ao marido no dia 22 de junho de 1999.

Vinte anos depois, faz por assim dizer o ponto da situação e ataca uma última vez as perguntas que ficaram sem resposta. Acaso, destino, coincidências? Regressa àqueles dias que se precipitaram numa série de perturbações imprevisíveis até desembocarem no inelutável. de tal modo empolgado com a perspetiva da mudança de casa, de tal modo desejoso de dar início aos trabalhos de remodelação, o casal tinha-se esquecido de que viver é perigoso. Brigitte Giraud conduz a investigação e põe em cena a vida de Claude e a vida deles, ambas miraculosamente ressuscitadas.

Cris

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

"Café Kanimambo" de Fernando Ribeiro

Este foi um livro que me surpreendeu. Pela história em si e também pela dureza das palavras bem escritas.

Com personagens bastante sui generis, a trama deste livro é passada maioritariamente na Lagoa de Albufeira, com ligações entre Lisboa e Setúbal. Com capítulos pequenos e com pouco mais de cem páginas, o livro lê-se num ápice numa tarde de férias ou fim de semana porque a história prende bastante, saltitando entre esses personagens tão crus e reais. 

Dr. Paulo, deputado, e o Sr Braz, dono de uma loja de brinquedos, amigos que escondem um segredo sujo e indecoroso, o Raça, operador/condutor de máquinas de limpeza nas praias e Vitor Batista, ex-futebolista e alcoólico. Estes quatro homens são os protagonistas de uma história triste, bastante suja e demonstrativa do que pode ser o comportamento humano e que, infelizmente, tem parecenças com muitas que verdadeiramente se passam nos nossos dias. Suspense q.b. para um tema pesado, duro. 

Gostei do final, do facto do autor ter relatado aquilo que poderia ter acontecido num mundo melhor e do que realmente ocorreu. Original.

Tenho o livro de estreia de Fernando Ribeiro, vocalista do grupo Moonspell, (Bairro sem Saída) por ler e vou tentar lê-lo brevemente porque fiquei curiosa em saber se o registo da escrita sofreu alterações ou se já era o mesmo.

Terminado em 11 de Julho de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

TUDO É KANIMAMBO

Num verão de que não há memória na Lagoa de Albufeira, Vítor Batista (ex-futebolista caído em desgraça e alcoólico), o Doutor Paulo (um deputado da nação que tenta esconder um segredo obscuro), o Senhor Braz (dono de uma loja de brinquedos em Benfica, que podia ser feliz, mas não consegue) e o Raça (um operador de máquinas com um sonho simples), quatro homens com pouco em comum, veem-se, contra todas as expectativas, subitamente envolvidos numa espiral de sexo, vergonha, castigo, justiça popular, crimes sexuais, homens e demónios.

Entre o thriller e a narrativa hardcore, Café Kanimambo, segundo romance de Fernando Ribeiro, é a confirmação do autor como uma das vozes mais acutilantes e provocadoras da nova ficção nacional, num livro perturbante que não deixará ninguém indiferente.

Cris

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

"A Maldição de Rosas" de Diana Pinguicha


Não sei qual a razão que me levou a pegar neste livro. É certo que fiquei curiosa em saber como é que a autora pegou no conhecido "milagre das rosas" e numa lenda de uma moura encantada (pesquisem lenda da Moura Salúquia) e recontou a história de Isabel de Aragão. Com um misto de magia/fantasia, a autora prendeu a minha atenção e conseguiu que ficasse surpreendida com o decorrer da trama, tanto mais que neste género literário não me sinto "em casa".

É o romance de estreia de Diana Pinguicha e, por essa razão, estou sempre pronta, como leitora, a relevar qualquer coisinha mas, na verdade, nada tenho a apontar. Pelo contrário, uma história contada com sentido, focando e falando em temas oportunos e muito bem escrita.

Como a autora explica nas notas iniciais, este romanc tem muito de si, de como a cidade pequena onde nasceu, pequena sobretudo em termos de aceitação, e grande em preconceitos, marcou profundamente o seu crescimento, sentindo-se excluída, diferente dos demais. 

Achei brilhante a forma como a autora tocou em temas pesados como a autoflagelação, a homofobia e até distúrbios alimentares mas também nos fala sobre solidariedade, compaixão e a força necessária para mudar mentalidades, principalmente pelas mulheres e, de forma astuta nos transportou para esta história "encantada", mesclando-a com a História de Portugal. É uma viagem ao Portugal de 1288, onde a fome e a peste grassam no país. D. Dinis e a princesa Isabel de Aragão estão prometidos em casamento. Isabel tem 17 anos e vive no reino português, aprende hábitos e costumes de forma a que se torne uma verdadeira rainha! Mas Isabel esconde um segredo. É aqui que a magia de Diana Pinguicha faz acontecer uma história surpreendente!

Um "reconto" com sentido, cheio de imaginação, com vários temas acutilantes, uma história com pés e cabeça no meio de uma doce magia! Gostei muito!

Este livro foi inicialmente publicado em Nova Iorque.

Terminado em 9 de Julho de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

Uma futura rainha não se deveria apaixonar por uma mulher.

Mas o verdadeiro amor não conhece regras.

Em 1288, a fome e a peste estão a devastar o reino de Portugal. com apenas 17 anos, a princesa Isabel de Aragão quer salvar o seu povo, mas também ela está à beira da morte: vítima de uma terrível maldição, tudo o que a futura rainha tenta comer transforma-se em flores.

Às escondidas do seu noivo controlador, o rei D. Dinis, Isabel descobre a existência de uma Moura Encantada que concede desejos. Aprisionada há mais de cem anos numa pedra, ela pode ser a salvação de Isabel - e talvez até do próprio reino. em troca, tudo o que Fatyan, a Moura, lhe pede é um beijo que coloque de uma vez fim à sua penitência.

Com apenas um beijo, Fatyan é libertada. e com apenas um beijo, o amor acontece.

Neste romance de estreia arrebatador que apaixonou os norte-americanos, a autora portuguesa Diana Pinguicha oferece-nos um retelling apaixonante da lenda do milagre das rosas, que eternizou Isabel de Aragão como a Rainha Santa Isabel. Uma história única de mistério e magia, e a escolha, quase sempre impossível, entre o amor e o cumprimento do dever.

Cris


sexta-feira, 28 de julho de 2023

A Convidada Escolhe: "Silêncio da Casa do Barulho"


 Silêncio na Casa do Barulho, Margarida Carpinteiro, 1986

Este é um daqueles livros “fininhos” que acabam às vezes por ficar espalmados no meio de outros mais volumosos e demasiado tempo esquecidos sem serem lidos. “Silêncio na Casa do Barulho” é o terceiro livro desta escritora, que é mais conhecida do público pelo seu trabalho como actriz de teatro e de televisão. Para mim, este é o primeiro livro que leio de Margarida Carpinteiro. 

Lisboa do início dos anos 50 do século passado, pela referência ao enterro do general Óscar Carmona. A Lisboa operária, um bairro de gente pobre, de gente que trabalha. Sente-se que as pessoas são tristes; são felizes quando sonham (Licas e Sanefa). Para os mais pobres há a “sopa do Sidónio” cujo nome resistiu e se manteve durante o tempo de Salazar. As fábricas que se construíram – a dos Tabacos e a das Armas – atraíram à cidade homens, que até então nunca tinham calçado sapatos. Cheira a pobreza. As mulheres têm muitos filhos, trabalham sem descanso, fazem a comida, abortam, as bofetadas e os sopapos são a linguagem com os filhos quando fazem alguma coisa mal feita. Os miúdos fazem gazeta na escola e sabem que a fábrica é o castigo certo para quem não consegue ter sucesso na escola. “Pensas que és fina como a de cá de baixo?” (pág. 38) E quando o marido da Adelina Padeira é preso depois da greve na fábrica dos Tabacos, “as crianças compreenderam que as pessoas grandes também apanham quando não obedecem” (pág. 57). 

Os casamentos e os funerais são os momentos sociais que quebram o cinzento dos dias, para além das histórias que se contam à soleira da porta nas noites quentes de Verão. A PIDE é uma ave negra poisada num carro preto. Como a PIDE, a Igreja também vigia e pune quando o rebanho se tresmalha. A farsa das eleições é montada e o cenário é feito de homens de escuro, tristes, que deitam “um papel branco e dobradinho dentro de uma caixa de madeira” (pág. 90). E “porque não estava lá nenhuma mulher?”… “ficaram a fazer o almoço.” (pág. 91). 

Um livro muito bem escrito, muito visual, embora muitas vezes a autora faça uso de uma técnica narrativa não explícita que implica uma maior atenção e reflexão por parte do/a leitora/a. Além disso, é muito marcado pela oralidade; faltam as vírgulas que são dispensáveis.

Tenho de verificar se não terei mais nenhum livro “delgadinho” de Margarida Carpinteiro escondido no meio de dois livros de lombada gorda e anafada.

18 de Julho de 2023 

Almerinda Bento


terça-feira, 25 de julho de 2023

A Convidada Escolhe: "Galileu em Pádua"

Galileu em Pádua, Alessandro De Angelis, 2021

Alessandro De Angelis é cientista, professor em Pádua e Lisboa e escreveu, entre outros, ensaios sobre a obra de Galileu. Este “Galileu em Pádua” conta “em forma romanceada os dezoito anos passados por Galileu em Pádua”, aqueles que Galileu considerou “os dezoito melhores anos da minha vida”. Na Premissa do livro, o autor revela que consultou vasta documentação e, sobretudo, correspondência que Galileu recebeu e que guardou, sendo o resultado um trabalho rigoroso do ponto de vista histórico, com personagens que existiram, embora o autor tenha feito “suposições – tanto quanto possível plausíveis – no que respeita à esfera das relações pessoais, das quais Galileu fala com parcimónia.” Com tradução de Bárbara Villalobos, este livro tem revisão científica de Carlos Fiolhais.

Galileu viera de Pisa onde foi leitor. Em Pádua onde chegou em 1592 com 28 anos, era já um homem com muita fama tendo sido escolhido para a cátedra de Matemática. A sua aula inaugural foi um sucesso e ao longo dos 18 anos na Universidade de Pádua, as suas aulas vão ser seguidas por alunos juristas e de outras disciplinas, impressionados pelo seu saber e pela capacidade de manter a atenção e o interesse. O ordenado era reduzido e Galileu precisava consolidar prestígio e reconhecimento, pois precisava de ganhar dinheiro para fazer face às dívidas contraídas pela família com o dote da sua irmã mais velha. 

Galileu viveu numa época em que fervilhava o pensamento novo, o espírito de descoberta e da procura de respostas a fenómenos ainda não explicados. A teoria de Ptolomeu de a Terra ser o centro do Universo tinha começado a ser posta em causa cinquenta anos antes pela teoria heliocêntrica de Copérnico que antevira a rotação da Terra e por outros homens da ciência como Kepler, mas estas ideias circulavam através da troca de correspondência, ainda sem serem publicadas ou divulgadas abertamente, pois punham em causa a doutrina da Igreja. Através do Tribunal do Santo Ofício, a Igreja exercia o seu poder pelo terror e pela influência que tinha sobre a chusma ignorante. Giordano Bruno tinha sido queimado vivo e o amigo frei Tommaso Campanella foi preso por heresia e só conseguiu escapar à morte porque se fez passar por louco. Galileu apaixonado pela geometria, pela mecânica, pela observação das marés e pela astronomia, observa, partilha ideias, questiona, constrói instrumentos como o “compasso geométrico e militar” e mais tarde o “cannocchiale” que vai aperfeiçoar cada vez mais com ajuda dos vidreiros venezianos, e lhe vai permitir observar a Lua, as estrelas, a Via Láctea, Saturno e os seus satélites. 

Num ambiente de rivalidade entre o doge da república veneziana, o papado de Roma e o ducado da Toscana, Galileu é denunciado ao Santo Ofício porque “em vez de santificar a fé, se dedica à libertinagem e à fornicação, e acrescente-se que pratica horóscopos e exercita a arte da divinação.” (pág. 160). No entanto, devido à intervenção de Venier, reitor da Universidade de Pádua, não foi dado seguimento para Roma à denúncia feita pelo amanuense de Galileu. O destaque que Galileu dá aos Médici e ao príncipe Cosme, ou seja, a Florença, através dos louvores e da dedicatória sobre as “Estrelas Mediceias” gera um afastamento de alguns dos seus grandes amigos e companheiros, que lamentam a ingratidão demonstrada por Galileu quando dedica a publicação desta tão importante descoberta a Florença e se esquece de Pádua e do doge de Veneza que sempre lhe deram todo o apoio ao longo daqueles 18 anos.

Foram anos de trabalho aturado na preparação das suas aulas, de acompanhamento dos seus alunos, de descobertas e teorização, de grandes amizades com Sagredo e Venier, de cumplicidades, de mulheres, de afamados vinhos italianos que terminaram repentinamente. Foi também em Pádua que teve duas filhas e um filho do seu relacionamento com uma jovem que conhecera em Veneza e com a qual nunca casou. Galileu prepara a sua despedida de Pádua, a que nunca mais voltará, regressando à sua Toscana natal. 

Este livro é só sobre “os dezoito melhores anos” dos 77 anos de vida de Galileu Galilei, conhecido pela defesa da teoria heliocêntrica até ao fim dos seus dias, nunca se retratando como a Inquisição queria.

16 de Julho de 2023

Almerinda Bento