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segunda-feira, 21 de agosto de 2023

A Convidada escolhe: "Maria Antonieta"

Maria Antonieta, Stefan Zweig, 1932

Quando há um ano li “Maria Stuart” decidi que queria ler “Maria Antonieta” uma das diversas biografias que o incansável Stefan Zweig escreveu ao longo da vida. Tal como “Maria Stuart”, “Maria Antonieta” é o resultado de um profundo trabalho de pesquisa, aliado a uma escrita irrepreensível e a uma reflexão pessoal sobre a personagem, a história e todo o ambiente na Europa e na corte francesa nos finais do século XVIII. Esta edição do Círculo de Leitores foi traduzida por Alice Ogando, tal como acontecera na biografia de “Maria Stuart”.

Maria Antonieta é uma personagem trágica, usada na infância como moeda para alianças entre famílias reais através de um casamento de conveniência, sem possibilidade de brincar e crescer num ambiente que não fosse regido pela etiqueta e pelas intrigas, fascinada pelo papel que lhe é atribuído, apesar de nem ela nem o jovem marido Luís XVI estarem à altura desse papel – ele mole e indeciso, ela fútil e superficial. São vinte anos de vida estouvada, com gastos exorbitantes e sem limites que geram uma reviravolta na atitude do povo que deixa de lhe ter o respeito e a estima que antes tivera, para a odiar, caluniar e desprezar. Quando o povo desperta, já é tarde demais para a rainha e para a os nobres que viviam na órbita desta jovem rainha que nuca quis ouvir os conselhos da sua mãe Maria Teresa, a imperatriz da Áustria. Aliás, ninguém tinha a noção da amplitude da revolta popular, uma verdadeira revolução. A rainha fica sozinha, todos os amigos desaparecem, excepto Hans Axel von Fersen, o único que tudo fez até ao fim para tentar salvá-la da justiça popular. Após a tomada da Bastilha a 14 de Julho, os acontecimentos precipitam-se e a roda da História nunca mais sorrirá a Luís XVI e a Maria Antonieta. Acaba Trianon, o palácio da evasão e da futilidade da rainha, a última noite em Versailles será a 5 de Outubro, para nunca mais voltarem. Numa viagem de seis horas para Paris, seguidos pela multidão em fúria, vão ficar presos nas Tulherias, desabitadas há mais de cem anos, desde os tempos de Luis XIV. A tentativa de fuga para Varennes, a constituição da Comuna a 10 de Agosto de 1792, o aprisionamento dos reis no Templo e a abolição da realeza com a decapitação do rei são a sequência de um momento histórico decisivo para a França e com reflexos na Europa. Maria Antonieta está completamente só, “todos a abandonaram” (pág. 370); inclusivamente, o imperador Francisco, sobrinho de Maria Antonieta não mexe uma palha para a ajudar. Só mesmo o embaixador Mercy e Fersen, tentam, no exterior, impedir que Maria Antonieta suba ao cadafalso. Mesmo na Conciergerie “a antecâmara da morte” (pág. 399), onde os carcereiros estabelecem relações de simpatia e amizade com a presa, o medo das represálias da Comuna e da Junta de Salvação Pública falam mais forte.

A mudança na vida de Maria Antonieta operou uma transformação radical na sua atitude e é essa capacidade da escrita que torna este livro tão extraordinário e a personagem de Maria Antonieta tão dramática. “Desde a tomada da Bastilha até ao cadafalso, não cessa de se sentir completamente senhora dos seus direitos” (pág. 211) e, tal como me surpreendeu a descrição da morte de Maria Stuart, nesta biografia, a fibra de uma mulher que quis morrer com dignidade sem dar quaisquer trunfos aos que a acossaram e traíram e aos que a julgaram, mesmo sem terem documentos comprovativos, torna as últimas páginas deste livro verdadeiramente inesquecíveis. “ «Quando te resolves a ser quem és?», escrevia-lhe vinte anos antes, Maria Teresa, desesperada. Agora, a dois passos da morte, começa a encontrar em si mesma essa grandeza que só possuía exteriormente. Quando lhe perguntaram o seu nome, responde em voz alta e clara: «Maria Antonieta de Áustria Lorena, trinta e oito anos, viúva do rei de França.»” (pág. 417) Como num filme, Stefan Zweig é exímio na descrição da atitude e dos sentimentos da rainha e na descrição de toda a envolvência no percurso desde a cela na Conciergerie até ao cadafalso na Praça da Revolução, hoje Praça da Concórdia.

18 de Agosto de 2023

Almerinda Bento

Nota: Ao ler este livro sobre a rainha Maria Antonieta, não pude deixar de me lembrar da minha leitura de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta. Lembro-me que D. Leonor de Almeida Portugal, 4ª Marquesa de Alorna estava em França, em Marselha e que partiu para Paris, porque queria viver de perto a revolução francesa que a fascina e atemoriza, porque a questiona sobre o mundo em que sempre viveu. Vai conhecer mulheres fascinantes, mulheres do povo que falam em liberdade e igualdade, em direitos. São tempos de grandes questionamentos, mas que a atraem imenso e nessa altura conhece Olympe de Gouges.

Leonor associa Paris à Roma incendiada por Nero. Sente-se deslocada entre os revolucionários e as amazonas, mas não quer partir. As mulheres encabeçam o cerco a Versalhes. Leonor não toma posição sobre a revolução e considera que nada será como dantes; é uma mera testemunha e regressa a Marselha.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Julho

 Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Julho.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Alexandra Guimarães

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 25, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:




Cris


terça-feira, 8 de agosto de 2023

"Viver Depressa" de Brigitte Giraud

Relato autobiográfico desta escritora que possui já dez romances publicados em França mas de quem nada tinha lido, sequer ouvido falar. É um relato confessional sobre os seus últimos vinte anos, altura em que o  seu marido morreu num acidente de moto e que alterou completamente a sua vida. 

Recordações que busca na memória sobre o seu passado em conjunto com um tempo em que era feliz e, sobretudo, a reviver os momentos anteriores ao acidente. Acaso teria ocorrido se?... e são muitos os "ses" que ela questiona e para poucos obtém a resposta pretendida. 

Um exercício de catarse feito muitos anos depois que, creio ter sido importante para a autora arrumar alguns fantasmas que a atormentaram e que levam o leitor a analisar, por comparação, alguns aspectos da sua própria vida.

Escrita segura, simples e direta. Gostei.

Terminado em 13 de Julho de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

«Estava obcecada com aquela dupla missão impossível. Comprar a casa e encontrar as armas escondidas. Era inesperado e eu não pressenti a engrenagem que iria fazer a nossa vida dar um tombo. Porque a casa está no cerne do que provocou o acidente.»

Num relato tenso que é apresentado como uma verdadeira contagem decrescente, Brigitte Giraud tenta compreender o que conduziu ao acidente de mota que custou a vida ao marido no dia 22 de junho de 1999.

Vinte anos depois, faz por assim dizer o ponto da situação e ataca uma última vez as perguntas que ficaram sem resposta. Acaso, destino, coincidências? Regressa àqueles dias que se precipitaram numa série de perturbações imprevisíveis até desembocarem no inelutável. de tal modo empolgado com a perspetiva da mudança de casa, de tal modo desejoso de dar início aos trabalhos de remodelação, o casal tinha-se esquecido de que viver é perigoso. Brigitte Giraud conduz a investigação e põe em cena a vida de Claude e a vida deles, ambas miraculosamente ressuscitadas.

Cris

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

"Café Kanimambo" de Fernando Ribeiro

Este foi um livro que me surpreendeu. Pela história em si e também pela dureza das palavras bem escritas.

Com personagens bastante sui generis, a trama deste livro é passada maioritariamente na Lagoa de Albufeira, com ligações entre Lisboa e Setúbal. Com capítulos pequenos e com pouco mais de cem páginas, o livro lê-se num ápice numa tarde de férias ou fim de semana porque a história prende bastante, saltitando entre esses personagens tão crus e reais. 

Dr. Paulo, deputado, e o Sr Braz, dono de uma loja de brinquedos, amigos que escondem um segredo sujo e indecoroso, o Raça, operador/condutor de máquinas de limpeza nas praias e Vitor Batista, ex-futebolista e alcoólico. Estes quatro homens são os protagonistas de uma história triste, bastante suja e demonstrativa do que pode ser o comportamento humano e que, infelizmente, tem parecenças com muitas que verdadeiramente se passam nos nossos dias. Suspense q.b. para um tema pesado, duro. 

Gostei do final, do facto do autor ter relatado aquilo que poderia ter acontecido num mundo melhor e do que realmente ocorreu. Original.

Tenho o livro de estreia de Fernando Ribeiro, vocalista do grupo Moonspell, (Bairro sem Saída) por ler e vou tentar lê-lo brevemente porque fiquei curiosa em saber se o registo da escrita sofreu alterações ou se já era o mesmo.

Terminado em 11 de Julho de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

TUDO É KANIMAMBO

Num verão de que não há memória na Lagoa de Albufeira, Vítor Batista (ex-futebolista caído em desgraça e alcoólico), o Doutor Paulo (um deputado da nação que tenta esconder um segredo obscuro), o Senhor Braz (dono de uma loja de brinquedos em Benfica, que podia ser feliz, mas não consegue) e o Raça (um operador de máquinas com um sonho simples), quatro homens com pouco em comum, veem-se, contra todas as expectativas, subitamente envolvidos numa espiral de sexo, vergonha, castigo, justiça popular, crimes sexuais, homens e demónios.

Entre o thriller e a narrativa hardcore, Café Kanimambo, segundo romance de Fernando Ribeiro, é a confirmação do autor como uma das vozes mais acutilantes e provocadoras da nova ficção nacional, num livro perturbante que não deixará ninguém indiferente.

Cris

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

"A Maldição de Rosas" de Diana Pinguicha


Não sei qual a razão que me levou a pegar neste livro. É certo que fiquei curiosa em saber como é que a autora pegou no conhecido "milagre das rosas" e numa lenda de uma moura encantada (pesquisem lenda da Moura Salúquia) e recontou a história de Isabel de Aragão. Com um misto de magia/fantasia, a autora prendeu a minha atenção e conseguiu que ficasse surpreendida com o decorrer da trama, tanto mais que neste género literário não me sinto "em casa".

É o romance de estreia de Diana Pinguicha e, por essa razão, estou sempre pronta, como leitora, a relevar qualquer coisinha mas, na verdade, nada tenho a apontar. Pelo contrário, uma história contada com sentido, focando e falando em temas oportunos e muito bem escrita.

Como a autora explica nas notas iniciais, este romanc tem muito de si, de como a cidade pequena onde nasceu, pequena sobretudo em termos de aceitação, e grande em preconceitos, marcou profundamente o seu crescimento, sentindo-se excluída, diferente dos demais. 

Achei brilhante a forma como a autora tocou em temas pesados como a autoflagelação, a homofobia e até distúrbios alimentares mas também nos fala sobre solidariedade, compaixão e a força necessária para mudar mentalidades, principalmente pelas mulheres e, de forma astuta nos transportou para esta história "encantada", mesclando-a com a História de Portugal. É uma viagem ao Portugal de 1288, onde a fome e a peste grassam no país. D. Dinis e a princesa Isabel de Aragão estão prometidos em casamento. Isabel tem 17 anos e vive no reino português, aprende hábitos e costumes de forma a que se torne uma verdadeira rainha! Mas Isabel esconde um segredo. É aqui que a magia de Diana Pinguicha faz acontecer uma história surpreendente!

Um "reconto" com sentido, cheio de imaginação, com vários temas acutilantes, uma história com pés e cabeça no meio de uma doce magia! Gostei muito!

Este livro foi inicialmente publicado em Nova Iorque.

Terminado em 9 de Julho de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

Uma futura rainha não se deveria apaixonar por uma mulher.

Mas o verdadeiro amor não conhece regras.

Em 1288, a fome e a peste estão a devastar o reino de Portugal. com apenas 17 anos, a princesa Isabel de Aragão quer salvar o seu povo, mas também ela está à beira da morte: vítima de uma terrível maldição, tudo o que a futura rainha tenta comer transforma-se em flores.

Às escondidas do seu noivo controlador, o rei D. Dinis, Isabel descobre a existência de uma Moura Encantada que concede desejos. Aprisionada há mais de cem anos numa pedra, ela pode ser a salvação de Isabel - e talvez até do próprio reino. em troca, tudo o que Fatyan, a Moura, lhe pede é um beijo que coloque de uma vez fim à sua penitência.

Com apenas um beijo, Fatyan é libertada. e com apenas um beijo, o amor acontece.

Neste romance de estreia arrebatador que apaixonou os norte-americanos, a autora portuguesa Diana Pinguicha oferece-nos um retelling apaixonante da lenda do milagre das rosas, que eternizou Isabel de Aragão como a Rainha Santa Isabel. Uma história única de mistério e magia, e a escolha, quase sempre impossível, entre o amor e o cumprimento do dever.

Cris


sexta-feira, 28 de julho de 2023

A Convidada Escolhe: "Silêncio da Casa do Barulho"


 Silêncio na Casa do Barulho, Margarida Carpinteiro, 1986

Este é um daqueles livros “fininhos” que acabam às vezes por ficar espalmados no meio de outros mais volumosos e demasiado tempo esquecidos sem serem lidos. “Silêncio na Casa do Barulho” é o terceiro livro desta escritora, que é mais conhecida do público pelo seu trabalho como actriz de teatro e de televisão. Para mim, este é o primeiro livro que leio de Margarida Carpinteiro. 

Lisboa do início dos anos 50 do século passado, pela referência ao enterro do general Óscar Carmona. A Lisboa operária, um bairro de gente pobre, de gente que trabalha. Sente-se que as pessoas são tristes; são felizes quando sonham (Licas e Sanefa). Para os mais pobres há a “sopa do Sidónio” cujo nome resistiu e se manteve durante o tempo de Salazar. As fábricas que se construíram – a dos Tabacos e a das Armas – atraíram à cidade homens, que até então nunca tinham calçado sapatos. Cheira a pobreza. As mulheres têm muitos filhos, trabalham sem descanso, fazem a comida, abortam, as bofetadas e os sopapos são a linguagem com os filhos quando fazem alguma coisa mal feita. Os miúdos fazem gazeta na escola e sabem que a fábrica é o castigo certo para quem não consegue ter sucesso na escola. “Pensas que és fina como a de cá de baixo?” (pág. 38) E quando o marido da Adelina Padeira é preso depois da greve na fábrica dos Tabacos, “as crianças compreenderam que as pessoas grandes também apanham quando não obedecem” (pág. 57). 

Os casamentos e os funerais são os momentos sociais que quebram o cinzento dos dias, para além das histórias que se contam à soleira da porta nas noites quentes de Verão. A PIDE é uma ave negra poisada num carro preto. Como a PIDE, a Igreja também vigia e pune quando o rebanho se tresmalha. A farsa das eleições é montada e o cenário é feito de homens de escuro, tristes, que deitam “um papel branco e dobradinho dentro de uma caixa de madeira” (pág. 90). E “porque não estava lá nenhuma mulher?”… “ficaram a fazer o almoço.” (pág. 91). 

Um livro muito bem escrito, muito visual, embora muitas vezes a autora faça uso de uma técnica narrativa não explícita que implica uma maior atenção e reflexão por parte do/a leitora/a. Além disso, é muito marcado pela oralidade; faltam as vírgulas que são dispensáveis.

Tenho de verificar se não terei mais nenhum livro “delgadinho” de Margarida Carpinteiro escondido no meio de dois livros de lombada gorda e anafada.

18 de Julho de 2023 

Almerinda Bento


terça-feira, 25 de julho de 2023

A Convidada Escolhe: "Galileu em Pádua"

Galileu em Pádua, Alessandro De Angelis, 2021

Alessandro De Angelis é cientista, professor em Pádua e Lisboa e escreveu, entre outros, ensaios sobre a obra de Galileu. Este “Galileu em Pádua” conta “em forma romanceada os dezoito anos passados por Galileu em Pádua”, aqueles que Galileu considerou “os dezoito melhores anos da minha vida”. Na Premissa do livro, o autor revela que consultou vasta documentação e, sobretudo, correspondência que Galileu recebeu e que guardou, sendo o resultado um trabalho rigoroso do ponto de vista histórico, com personagens que existiram, embora o autor tenha feito “suposições – tanto quanto possível plausíveis – no que respeita à esfera das relações pessoais, das quais Galileu fala com parcimónia.” Com tradução de Bárbara Villalobos, este livro tem revisão científica de Carlos Fiolhais.

Galileu viera de Pisa onde foi leitor. Em Pádua onde chegou em 1592 com 28 anos, era já um homem com muita fama tendo sido escolhido para a cátedra de Matemática. A sua aula inaugural foi um sucesso e ao longo dos 18 anos na Universidade de Pádua, as suas aulas vão ser seguidas por alunos juristas e de outras disciplinas, impressionados pelo seu saber e pela capacidade de manter a atenção e o interesse. O ordenado era reduzido e Galileu precisava consolidar prestígio e reconhecimento, pois precisava de ganhar dinheiro para fazer face às dívidas contraídas pela família com o dote da sua irmã mais velha. 

Galileu viveu numa época em que fervilhava o pensamento novo, o espírito de descoberta e da procura de respostas a fenómenos ainda não explicados. A teoria de Ptolomeu de a Terra ser o centro do Universo tinha começado a ser posta em causa cinquenta anos antes pela teoria heliocêntrica de Copérnico que antevira a rotação da Terra e por outros homens da ciência como Kepler, mas estas ideias circulavam através da troca de correspondência, ainda sem serem publicadas ou divulgadas abertamente, pois punham em causa a doutrina da Igreja. Através do Tribunal do Santo Ofício, a Igreja exercia o seu poder pelo terror e pela influência que tinha sobre a chusma ignorante. Giordano Bruno tinha sido queimado vivo e o amigo frei Tommaso Campanella foi preso por heresia e só conseguiu escapar à morte porque se fez passar por louco. Galileu apaixonado pela geometria, pela mecânica, pela observação das marés e pela astronomia, observa, partilha ideias, questiona, constrói instrumentos como o “compasso geométrico e militar” e mais tarde o “cannocchiale” que vai aperfeiçoar cada vez mais com ajuda dos vidreiros venezianos, e lhe vai permitir observar a Lua, as estrelas, a Via Láctea, Saturno e os seus satélites. 

Num ambiente de rivalidade entre o doge da república veneziana, o papado de Roma e o ducado da Toscana, Galileu é denunciado ao Santo Ofício porque “em vez de santificar a fé, se dedica à libertinagem e à fornicação, e acrescente-se que pratica horóscopos e exercita a arte da divinação.” (pág. 160). No entanto, devido à intervenção de Venier, reitor da Universidade de Pádua, não foi dado seguimento para Roma à denúncia feita pelo amanuense de Galileu. O destaque que Galileu dá aos Médici e ao príncipe Cosme, ou seja, a Florença, através dos louvores e da dedicatória sobre as “Estrelas Mediceias” gera um afastamento de alguns dos seus grandes amigos e companheiros, que lamentam a ingratidão demonstrada por Galileu quando dedica a publicação desta tão importante descoberta a Florença e se esquece de Pádua e do doge de Veneza que sempre lhe deram todo o apoio ao longo daqueles 18 anos.

Foram anos de trabalho aturado na preparação das suas aulas, de acompanhamento dos seus alunos, de descobertas e teorização, de grandes amizades com Sagredo e Venier, de cumplicidades, de mulheres, de afamados vinhos italianos que terminaram repentinamente. Foi também em Pádua que teve duas filhas e um filho do seu relacionamento com uma jovem que conhecera em Veneza e com a qual nunca casou. Galileu prepara a sua despedida de Pádua, a que nunca mais voltará, regressando à sua Toscana natal. 

Este livro é só sobre “os dezoito melhores anos” dos 77 anos de vida de Galileu Galilei, conhecido pela defesa da teoria heliocêntrica até ao fim dos seus dias, nunca se retratando como a Inquisição queria.

16 de Julho de 2023

Almerinda Bento

sexta-feira, 21 de julho de 2023

"Amor Estragado" de Ana Bárbara Pedrosa

Não foi o primeiro livro de Ana Bárbara que li e sabia ao que ia. Escrita forte, histórias envolventes, marcantes. Não me enganei. Logo na primeira frase, um choque que nos previne que o narrador é alguém em quem não podemos confiar. E ficamos também a saber o que se vai passar mais adiante, quiçá no final.

A trama decorre em Vizela, em 1982, no seio de uma família típica portuguesa, um casal e quatro filhos. Os narradores são dois dos irmãos, o Manel e o Zé. Se ficamos com péssima impressão de um, do outro fica-se com a ideia de pessoa perfeita, a quem a vida magoa e que tem o motivo perfeito  para não se envolver no drama que vai acontecendo aos poucos, lentamente. Seremos nós aqueles que passam ao lado das coisas sem as ver porque não nos dizem diretamente respeito?

O alcoolismo, os maus tratos e a violência doméstica são alguns dos problemas que afligem aquela família. 

É impressionante como a autora consegue transmitir na perfeição os pensamentos do Manel, a deturpação da realidade a que ele se agarra para justificar os seus vícios e erros, a forma como se sente injustiçado e culpabiliza os que o rodeiam. 

E de que forma os laços de sangue nos impedem de ver quando um coração está estragado? Porque se o Manel é o autor material do que se passou naquela família, quem está ao seu lado, e nada fez, que responsabilidades possui?

É para ler, meninos, é para ler! Muito bom! Desejosa de ler o próximo...

Terminado em 3 de Julho de 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

«Matei a minha mulher. Não fiz de propósito, mas é daquelas coisas que, depois de feitas, já não deixam volta a dar.» Dois irmãos contam a dissolução de uma família. Manel casou com Ema, e foi até que a morte os separasse como enfim os separou – pelas mãos dele. Habituado ao álcool e incapaz de lidar com as frustrações, não era a ele que mãe e irmãos deviam o amor sem reservas? Zé, casado, agora com três filhos, não vê no sangue uma desculpa para a vida do irmão. Pela mão da violência, que é pedra de toque, assistimos a uma família cujos laços se desfazem. E à vida transformada noutra coisa. Com uma linguagem crua e destemida, que não raras vezes desarma o leitor, Amor Estragado é um romance sobre a família enquanto território a proteger, a traição da vida adulta face às certezas da infância, a inveja, o desgosto, a degradação que o vício impõe e o que custa perder um lugar de honra. E inevitavelmente sobre a culpa – do homem que mata e de quem não o impede. «Este livro é uma lufada de juventude, no meio da mesmice da nossa literatura contemporânea.» Itamar Vieira Junior «Uma escrita singular que impressiona pelo arrojo e versatilidade, pelo tom coloquial que nunca se perde.» José Riço Direitinho, Público «É coisa séria, sensual, bem escrita.» Francisco José Viegas, Correio da Manhã

Cris

quarta-feira, 19 de julho de 2023

A Convidada Escolhe:"Diário de um Médico no Combate à Pandemia"

Diário de um Médico no Combate à Pandemia, Gustavo Carona, 2021

Passados que são 3 anos que nos vimos confrontados com uma pandemia terrível, achei interessante ler este livro da autoria de um jovem médico que ficámos a conhecer da televisão e da rádio e cujo discurso saía um pouco do registo rotineiro. O livro tem um subtítulo – A missão mais difícil da minha vida – que atesta bem a gravidade do período que vivemos enquanto não havia medicamentos nem vacina, embora este médico intensivista revele na introdução que antes da pandemia já tinha feito 13 missões humanitárias em países onde ninguém quer ir, tratados como “esgotos da humanidade” (pág. 50), tal é a adversidade da vida daqueles povos. 

O livro tem dois tempos. O primeiro tem a ver com o período da 1ª vaga, 2º e 3º vagas e é um diário, como tantas pessoas fizeram nessa altura sobretudo no período em que estiveram confinadas, mas este é o diário de um médico a trabalhar em UCI, ou seja, alguém que esteve bem no olho do furacão; e depois um segundo tempo escrito no primeiro trimestre de 2021, sendo uma reflexão sobre os textos escritos ao longo da pandemia. 

Gosto de ler estes livros-testemunho, que nos põem em relação com situações muito específicas e que não correspondem ao comum das nossas vidas “normais” ou “padrão”, o que quer que isso seja! Neste caso, um jovem médico que totalmente se revela, expondo os seus sentimentos, os seus medos, as suas dores espirituais e físicas. Forte e frágil, crítico e abnegado, consegue com o seu exemplo dar-nos um retrato muito fiel da dureza e muitas vezes da solidão e incompreensão de quantos aguentaram o Serviço Nacional de Saúde, como a única âncora a que nos podíamos agarrar num período de incerteza, medo, confusão e cansaço extremos. 

O livro começa justamente com a intervenção que Gustavo Carona fez no dia 26 de Janeiro de 2020 numa sessão no palácio de Belém, no âmbito do Grupo de Reflexão sobre o Futuro de Portugal, quatro dias antes de a OMS ter declarado “o surto pelo coronavírus uma emergência de saúde pública de preocupação internacional, o mais alto nível de alarme”. Na sua intervenção de quatro minutos, frente a frente com o presidente da República, com o título “ A minha visão da saúde em Portugal”, referia a sua profissão como aquela “onde há mais burnout” (pág. 27) e referia “A perversão dos privados. Onde se deixa de ser doente e se passa a ser cliente.” (pág. 28). Poucos dias depois, a OMS anunciava que a doença causada pelo SARS-CoV2 seria designada por covid-19. Gustavo Carona, médico intensivista num hospital público do Norte, onde a pandemia teve um grande impacto logo na fase inicial da doença, estava longe de imaginar como os meses que se iam seguir iriam comprovar com toda a justeza aquilo que já se sentia entre os profissionais do SNS.

Ao lermos este diário relembramos o que foram aqueles meses, o que sabíamos através da comunicação social, como estava a evoluir a pandemia no nosso país e lá fora, quando ficámos todos vulneráveis a um vírus, que inicialmente desvalorizámos porque achávamos que era uma coisa lá longe na China, que não iria cá chegar. Na sua reflexão crítica sobre um ano de pandemia, Gustavo Carona escreve “As pessoas esquecem-se rápido” (pág. 268) e é bem verdade. Mas as fronteiras fecharam, as máscaras e o gel que inicialmente foram um negócio rapidamente passaram a ser rotinas, as charlatanices naturalistas e os falsos profetas pulularam, os negacionistas e os relativistas abundaram nas redes sociais e, ao mesmo tempo que se investia na ciência para a descoberta de um tratamento e uma vacina, nunca como então a ciência foi posta em causa. Sendo ele um de muitos e muitas que no SNS fizeram os impossíveis, a estranheza que era chegar ao hospital sem ninguém nas urgências, porque tudo estava focado no combate à covid, leva-o ao longo do livro a afligir-se pelas outras intervenções médicas que se adiaram, pelas cirurgias que não se fizeram e por todas as outras patologias que se “esqueceram”, ao mesmo tempo que pensava no desemprego, na saúde mental, e naqueles outros tantos países onde fizera missões humanitárias e que estavam completamente desprotegidos.). 

Ao mesmo tempo que relata casos que o marcaram para a vida nas suas missões no Sudão do Sul, no Iémen e noutros países, transmite-nos o que foi esta sua experiência em Portugal, no hospital, nos primeiros contactos com doentes covid, a primeira pessoa que teve alta na sua UCI, a ternura de uma colega enfermeira a falar com uma doente de 21 anos, os telefonemas para os familiares com boas ou más notícias, as videochamadas – “As primeiras de que me lembro sabiam a Euromilhões, porque correspondiam ao ponto em que o doente já estava melhor e capaz de interagir em frente ao telefone e comunicar com o seu familiar.” (pág. 77) – os números com que éramos diariamente bombardeados em contraponto às caras, aos nomes e às histórias de vida dos doentes que trataram. Ao longo do livro, Gustavo usa repetidamente o adjectivo “bonito”, para falar do SNS, do espírito de equipa, da abnegação dos colegas que puseram os outros à frente de si e das suas famílias, dos gestos de gratidão que receberam … Quero aqui lembrar uma entrada do diário de Novembro de 2020, com o título “Ricardo Quaresma”, em que lhe agradece por ter usado tão sabiamente a sua posição de grande desportista para ajudar o esforço que o SNS e os seus profissionais estavam a usar no combate à pandemia. E com o passar do tempo veio o cansaço das pessoas, o baixar a guarda, a 2ª vaga, a primeira pessoa vacinada e a extraordinária experiência da vacinação em massa e a terrível 3ª vaga que pôs Portugal no topo do ranking dos piores. 

Quem não se lembra da desumanidade que foi a morte de George Floyd? Ou o desastre imenso no porto de Beirute no Líbano, em Agosto de 2020 e o espectáculo da notícia, com consequências dramáticas para um país a necessitar de uma ajuda gigantesca. Mas passada a notícia e decorridos alguns dias, não mais se irá falar disso, porque já não é espectacular! Esta reflexão percorre todo o livro, feito por alguém que precisou de parar, de pedir ajuda psicológica, mesmo confessando que o fez tardiamente porque tinha vergonha, que sofreu burnout, dores físicas intensas que só passavam quando deitado…

Um livro em que o autor tem a humildade de confessar a sua ignorância e arrogância em certos momentos, mas em que se descobre um ser humano muito bonito, com uma dedicação inexcedível aos outros e uma paixão pela sua profissão e pelo SNS.

Longa vida, com saúde para Gustavo Carona.

6 de Julho de 2023 

Almerinda Bento



terça-feira, 18 de julho de 2023

"O Diário de Rutka" de Rutka Laskier

Já não sei como é que este livro veio cá parar a casa, mas o selo vermelho que possui na capa referindo que Rutka foi morta em Auschwitz com 14 anos e que este livro se trata do seu diário, revelado muitos anos depois, fez-me pegar nele. 

São poucas páginas de um diário, escritas por uma menina de Janeiro a Abril de 1943 que, como tantas outras, confiava nessas folhas os seus medos e angústias mas também as suas esperanças e desejos.

O início do livro é escrito pela sua meia irmã, Zahava, onde nos conta como é que só com 14 anos teve conhecimento da família do pai, falecida no campo de concentração. Tendo encontrado um álbum escondido com umas fotos de uma menina e um rapazinho mais novo, questionou o pai. Tinha precisamente 14 anos quando este lhe contou o que se passara com a sua primeira família. Vinte e oito anos mais tarde tomou conhecimento da existência de um diário que esteve escondido sessenta e dois anos! 

As primeiras páginas relatam-nos, um pouco, como é que este diário apareceu ao fim de mais de sessenta anos e como foi escondido por uma amiga, de como o pai foi o único sobrevivente de uma família de quatro pessoas. Algumas páginas não são já legíveis mas o relato não deixa de ser impressionante se imaginarmos o que depois se terá passado.

Rutka combinou com a amiga que, se algo acontecesse, ela deixaria o diário de baixo das tábuas soltas do soalho da casa onde vivia com a família no gueto. Foi assim que estas páginas foram salvas. Algumas fotos, aquelas enviadas para familiares no estrangeiro, ficaram para confirmar que Rutka era real, uma menina cheia de sonhos que não os pode concretizar. Como tantos!

Recomendo!

Terminado em 30 de Junho de 2023

Estrelas: não classificável

Sinopse

«Em 1943, Rutka, uma judia de 14 anos, foi levada para Auschwitz, onde morreu. Deixou um diário escondido sob as tábuas da escada, em casa, escrito em 1943. Uma amiga guardou-o, até recentemente o divulgar. Acaba de ser publicado em Portugal pela Sextante. Zahava (Laskier) a irmã de Rutka e contou ao P2 a história do diário e a sua descoberta de Rutka. Nascida em 1949, em Israel, Zahava tinha 14 anos quando soube dessa irmã perdida no Holocausto. »

Por Alexandra Lucas Coelho

« O diário foi publicado em Israel há sete meses, e gente de todo o mundo contacta-me. As crianças agora vão à Polónia e fazem peças na escola sobre o diário de Rutka.»

Zahava

Cris

segunda-feira, 17 de julho de 2023

"À Espera da Subida das Águas" de Maryse Condé

Babakar é médico e vive sozinho em Guadalupe. Sozinho com o fantasma da sua mãe, que lhe aparece nos seus sonhos e lhe comanda a vida, dando-lhe ordens e comentando as suas escolhas, os seus medos, as suas incertezas. A ligação entre os dois, em vida, era muito forte e, depois da sua morte, também. Do nada, por uma coincidência da vida, que o próprio considera feliz, uma menina cai-lhe nos braços e passa a fazer parte da sua vida.

Aos poucos, a sua vida vai sendo preenchida por alguns amigos cujas vidas a narrativa vai desvendando aos leitores, aos poucos, com as suas histórias de abuso, dor, mistério. Mal comparando, fez-me lembrar uma viagem num meio de transporte em que vão entrando viajantes com as suas bagagens que mais não são que as suas vivências, que se vão somar às dos que já lá se encontram. 

A viagem neste livro decorre maioritariamente no Haiti, para onde Babakar decide levar a menina, cuja ascendência é de lá, mas como pano de fundo está a História desse país liberto do jugo colonial mas ainda cheio de danos que o colonialismo provocou, cheio de ódio, violência, corrupção, racismo. Mas onde a amizade e o amor fazem de Babakar um privilegiado também.

Geograficamente recorri ao mapa para que as distâncias/países referidos se façam perto dado que cada personagem tem origens diferentes e, quando assim é, gosto de me situar visualmente. Foi sobretudo essa dificuldade que senti no decorrer desta leitura.

Terminado em 29 de Junho de 2023

Estrelas: 4*

SinopseCris

Uma história sobre a reconstrução do mundo.

Babakar Traoré estudou no Canadá, é médico e vive sozinho em Guadalupe, onde estão as origens da sua família materna – mas também a sua solidão, os seus fantasmas, bem como a recordação de uma infância africana, de uma mãe de olhos azuis que vem visitá-lo em sonhos, de um antigo amor, Azélia, também desaparecida, e de outras ilusões juvenis antes do seu exílio e da idade adulta. Quando, a meio de uma noite de temporal, é chamado para assistir um parto, Babakar não sabe que a sua vida está prestes a mudar por causa dessa criança que vai nascer; a mãe, Reinette, uma refugiada haitiana, morre ao dar à luz – e a pequena Anaïs fica a seu cargo. O desejo de Reinette era que a filha fosse criada no Haiti, e Babakar muda-se para a ilha, à procura de quem pudesse ensinar a Anaïs de onde ela vem. Através da história dessa dupla improvável, Babakar e Anaïs, dos amigos Movar e Fouad, que os acompanham, e dos que foram encontrando naquela ilha martirizada por violência, governos corruptos e gangues rebeldes, mas tão bela e fascinante, irá reconstruir-se um novo mapa ligado pelos danos do colonialismo, bem como as raízes do amor, da amizade, da comunhão com os outros – e o lugar de cada um no Mundo.

Cris

quinta-feira, 13 de julho de 2023

"A Cura da Cicuta" de Joanne Burn

Este livro envolveu-me de imediato. Gosto tanto quando isso acontece! A minha atenção é algo irrequieta e muitas vezes chego ao fim de uma página e tenho de voltar ao início porque andei a divagar, muito para lá das páginas e da história do livro que tenho em mãos... Isto acontece-me, sobretudo, nas primeiras páginas.

Por isso, quando um livro me agarra logo, fico muito satisfeita. É isso que procuro nas páginas que leio: outros mundos, outras vidas, aprender com elas. Uma das coisas a que recorri com frequência durante a leitura e que ajuda muito o leitor a situar-se, é uma página inicial com as personagens e suas ligações familiares. Fui acrescentando a lápis alguns pormenores que me pareceram relevantes e que me ajudaram a entrar mais rapidamente neste mundo "mágico" destas três amigas com uma forte ligação com a natureza.

Inglaterra, Eyam, uma pequena aldeia, 1665. A Peste Negra ganha cada vez mais espaço e os rumores de que em Londres a situação está caótica chegam a esta aldeia que ainda mantém a esperança de ser poupada. 

Isabel, Elizabeth e Mae. Laços de amizade unem estas mulheres e partilham segredos. Isabel é parteira e não pode ser mais do que isso, dado que se competir com o boticário local, pai de Mae, na feitura de mezinhas pode bem ser considerada bruxa e tratada como tal. Elizabeth é uma mulher de posses e é na sua propriedade que se reunem as condições para a realização dos remédios que fazem. Mae tem apenas 14 anos, vive sozinha com o pai e, também ela esconde alguns segredos. A morte da mãe, amiga de Isabel e Elizabeth,  e da sua irmã possui contornos estranhos de que desconfia mas em que não quer acreditar. Em segredo, reunem-se para fazer mezinhas e remédios e aprender umas com as outras. Mae, às escondidas do pai, aprende com os seus livros as propriedades das plantas e como transformá-las.

Um mundo que referi como "mágico" mas que de magia só tem a verdadeira amizade que acontece quando três mulheres lutam pelos seus sonhos, já que o papel das mulheres, nessa época, estava muito restrito a certas profissões! Gostei verdadeiramente deste mundo, que nos é contado por um narrador especial de quem não revelo a identidade porque descobri-la foi uma das surpresas boas que tive nesta leitura.

De quando em quando, umas páginas do diário de Wulfric, o boticário e pai de Mae, escrito vinte anos antes, surgem para adensar o mistério. Bem escrito e muito cativante, este livro foi uma maravilhosa descoberta que mistura factos reais com ficção.

Recomendo muito!

Terminado em 21 Junho 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

Há venenos que não podem ser contidos para sempre… e segredos que não podem permanecer guardados.

O ano é o de 1665, e as mulheres da vila de Eyam guardam muitos segredos… Isabel, a parteira, trilha um caminho perigoso, com as suas ervas e preparados. Há na aldeia homens que falam em bruxaria, e Isabel tem um passado a esconder. É também por isso que não partilha com ninguém os seus receios a propósito de Wulfric, o devoto e enclausurado boticário da povoação.

Mae, a filha mais nova de Wulfric, teme a fúria do pai, se este descobrir o que também ela esconde dele. Os sentimentos que nutre por Rafe, por exemplo, jovem que está à guarda de Isabel, ou o facto de que estuda, à luz da vela, pelos livros proibidos do pai. Mas outros mais guardam segredos, e mais sombrios do que qualquer uma delas possa imaginar.

Quando Mae faz uma descoberta aterradora, Isabel é a única pessoa que a vai poder ajudar, mas ajudar Mae significará colocar ambas em grave perigo. E está a caminho, vinda de Londres, outra ameaça, um manto que ameaça cobri-los a todos…

Cris

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Junho

Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Junho.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Cidália Ferreira

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 25, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:


Cris


segunda-feira, 3 de julho de 2023

A Convidada Escolhe: "Como um marinheiro eu partirei"


“Como um Marinheiro eu Partirei – Uma Viagem com Jacques
Brel”, Nuno Costa Santos, 2023 

Uma verdadeira revelação este livro. Chegada à Horta, na ilha do Faial, a caminho da marina, encontrei na montra da loja que fica ao lado do Café Sport Peter este livro, acabado de ser publicado. Não só porque era o primeiro dia de um passeio que iria incluir cinco ilhas do arquipélago dos Açores, mas porque sou da geração que ouviu e conhecia muitas das canções de Jacques Brel, aquele livro era irresistível. Comecei a lê-lo logo no primeiro dia da viagem e terminei-o dias depois já na ilha das Flores e com a intenção de o reler no continente a ouvir os poemas de Brel com alguns versos traduzidos ao longo da narrativa.

Há uma grande ternura na escrita desta história de um homem com um talento gigante, que um dia decidiu cortar radicalmente com uma vida pública em que os holofotes e a fama estavam no auge. Tal como uma relação que termina e em que as pessoas se afastam, a sua relação de amor com o público terminou, tendo o palco e os aplausos sido substituídos pelo mar. Brel foi “um homem de instintos e decisões inequívocas” (pág.33), alguém que não aceitava sentimentos pela metade, que “viveu do modo que quis, como quis, com quem quis.” (pág.143). Uma personagem complexa, impossível de ser caracterizada ou catalogada.

Esta “viagem com Jacques Brel”, como surge no título do livro de Nuno Costa Santos, é uma biografia de Brel, em que as vidas do biografado e do biógrafo se entrelaçam, se cruzam, tanto mais que “o ímpeto da comparação é inevitável” (pág.25). O narrador, logo no início da narrativa mostra a sua intenção de querer partir como um marinheiro, acompanhar Brel na sua viagem por mar até às ilhas Marquesas, onde se encontra sepultado Paul Gauguin. Estabelece diálogos e semelhanças com o poeta, fala das suas mágoas por ser um pai distante e ausente, mostra o desconforto quando vivendo no continente se sentia como um emigrante.

A estrutura desta “viagem” segue um roteiro com capítulos curtos em que as vidas de Brel e do narrador vão surgindo. Os títulos dos capítulos são como que o guião dessa viagem com algumas personagens decisivas. Sérgio Paixão, açoriano e autor do blogue “O Canto de Brel” é decisivo na construção desta biografia, pelo profundo conhecimento da obra de Brel e da passagem do poeta pela ilha do Faial no ano de 1974. De entre tantas mulheres e homens que passaram pela vida de Brel, uma referência especial a Jojo, o maior amigo e confidente de Brel, “o homem da sua vida”(págAlmerinda Bento. 93) e Delphine, a prostituta que “desconhecia que Jacques era o artista que actuava para plateias cheias de fãs à procura nas suas canções de um aconchego para as suas mazelas sentimentais.” (pág.62). O dr. Decq Mota, uma das amizades desinteressadas mas verdadeiras, que o tratou no curto período em que Brel passou pela ilha. Dinarte Branco, o actor que aceitou sem hesitação o convite para fazer o papel de Brel numa apresentação no Teatro Micaelense, o pescador Genuíno Madruga e o mestre na arte de scrimshaw Othan Rosa da Silveira.

O último capítulo “Estrelas Inacessíveis” é uma reflexão sobre o valor da amizade. Aquelas amizades que ocorreram num período tão curto da vida de Brel nos poucos dias em que ele esteve na ilha do Faial, foram momentos, acontecimentos, não planeados, desinteressados, afinal o que de melhor há num mundo tantas vezes dominado pela superficialidade das relações movidas por interesses não genuínos. 

Um livro maravilhoso que irei sempre associar a Brel, à energia das suas canções e à maravilhosa viagem que fiz ao arquipélago açoriano. Depois de ter visitado a ilha do Faial e a região onde ocorreu a erupção do vulcão dos Capelinhos, torna-se inesquecível o diálogo imaginário entre os Capelinhos e Brel, dois vulcões em repouso. 

24 de Junho de 2023 

Almerinda Bento

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Na Minha Caixa de Correio

 


Cris

Para os mais pequeninos: "As Penas Mágicas do Pavão" e "A Tartaruga Engessada"

A Beatriz e o Guilherme queriam muito ter um animal de estimação. Mas a mãe, que não tinha tempo para tal, teve uma ideia que os deixou contentes também...

Inscreveu-os num programa de voluntariado num parque, onde teriam contacto com muitos e diversos animais.

Eles e o Panda vão ter muitas aventuras, como gosta a pequenada, e vão formar os Super Vets - uns veterinários com uma ajuda preciosa: umas penas de pavão mágicas!

Divertidos coloridos e cheios de aventuras estes livros vão fazer as delícias da pequenada!




Cris

sexta-feira, 23 de junho de 2023

"A Criada" de Freida McFadden

Este é um thriller que anda aí a correr nas bocas do mundo e, a meu ver, com razão. Não leio muitos thrillers e, por essa razão, não sou perita em desvendar os segredos que se escondem neste género de livros. Mas gosto muito quando um livro me prende nas suas teias e me faz devorar o seu interior. Foi isso que aconteceu nesta leitura.

Mais de metade deste livro, a primeira parte, representa o discurso direto de Millie que é aceite como criada interna de uma mansão de uma família rica. Aparentemente parece que a sorte lhe bateu à porta atendendo ao seu passado negro que vamos conhecendo aos poucos. Mas será assim mesmo? Nem tudo é o que parece.

A mais de meio desta leitura, a autora altera o narrador. Desta feita é Nina, a sua patroa, que nos conta a sua versão da história.  E o leitor é surpreendido com o volte face que se dá! É a partir daqui que pensamos que sabemos como vai decorrer o enredo... 

Surpreendente e viciante, este livro é para ser lido num ápice, tal é a velocidade com que os acontecimentos sucedem e tal a escrita fluida da autora que nos cativa de imediato!

Gostei muito e recomendo para quem gosta deste género literário e de uma leitura sôfrega! 

Terminado em 10 de Junho de 2023

Estrela: 5*

Sinopse

Por trás de cada porta, ela consegue ver tudo.

«Bem-vinda à família», diz Nina Winchester enquanto me cumprimenta com a sua mão elegante e bem cuidada. Sorrio educadamente e olho para o longo corredor de mármore.

Este emprego caiu-me do céu. Talvez seja a minha última oportunidade para mudar de vida. E o melhor de tudo é que aqui ninguém sabe nada acerca do meu passado. Posso esconder-me e fingir ser aquilo que eu quiser. Infelizmente, não tardo a descobrir que os segredos dos Winchester são muito mais perigosos do que os meus…

Todos os dias limpo a bela casa dos Winchester de cima a baixo, vou buscar a filha deles à escola e cozinho uma deliciosa refeição para toda a família antes de subir e comer sozinha no meu quarto minúsculo no sótão.

Tento ignorar a forma como Nina gera o caos só para me ver limpar. Como conta histórias inverosímeis sobre a filha. E como o seu marido, Andrew, parece cada dia mais destroçado. Quando o vejo, e àqueles belos olhos castanhos tão tristes, é difícil não me imaginar no lugar de Nina. Com o marido perfeito, a roupa chique, o carro de luxo. Um dia, experimentei um dos seus vestidos só para ver como me ficava. Mas ela percebeu... e foi aí que descobri porque é que a porta do meu quarto só trancava pelo lado de fora...

Se sair desta casa, será algemada.
Devia ter fugido enquanto podia. Agora, a minha oportunidade desapareceu. Agora que os polícias estão na casa e descobriram o que está no andar de cima, não há volta atrás.
Estão a cerca de cinco segundos de me ler os direitos. Não sei muito bem porque não o fizeram ainda. Talvez esperem induzir-me a dizer-lhes algo que não devia.
Boa sorte com isso.

O polícia com o cabelo preto raiado de grisalho está sentado ao meu lado no sofá. Muda a posição do seu corpo entroncado sobre o cabedal italiano cor de caramelo queimado. Pergunto-me que tipo de sofá terá em casa. Não um, certamente, com um preço de cinco dígitos como este. Provavelmente de uma cor foleira como laranja, coberto de pelo de animais de estimação e com mais do que um rasgão nas costuras. Pergunto-me se estará a pensar no seu sofá em casa e a desejar ter um como este.Ou, mais provavelmente, está a pensar no cadáver lá em cima no sótão. 

Cris

quinta-feira, 22 de junho de 2023

"No Sítio Errado, à Hora Errada" de Gillian McAlister

Comecei esta leitura sem saber para o que ia, pensando que se trataria de um thriller convencional. Fiquei pois, surpreendida quando a premissa principal, que surge logo nas primeiras páginas, me foi apresentada. É fora do habitual e contém uma pitada de "sobrenatural". Após uma agressão em que há uma vítima mortal, Jen assiste estupefacta à prisão de seu filho que acaba de fazer 18 anos. 

No dia seguinte, ela acorda no dia anterior! E assim se vão conhecendo, juntamente com a própria Jen, os aspectos que deram lugar a esse episódio,  conforme o tempo recua. Jen é a única que não perde a percepção das coisas mas pouco pode contar com o apoio ďo marido, filho e amigos porque, passada uma noite, eles não se recordam de nada. 

Parece um pouco estranho mas o leitor sente que, juntamente com Jen, vai descobrindo os mistérios que levaram a esse final. Nada é o que parece, as revelações são muitas e tudo nos leva a pensar que, muitas vezes, pequenos detalhes nos passam despercebidos e são de total relevância! 

Surpreendente até ao final!  Um thriller diferente e muito original que gostei muito de ler!

Terminado em 7 de Junho de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

Outubro está a acabar. Já passa da meia-noite.
Jen espera que o filho de 18 anos chegue a casa. Da janela, vê-o aproximar-se e percebe que Todd não está sozinho: o jovem caminha na direção de um homem armado.
Jen duvida do que os seus olhos veem: o filho adolescente, um jovem equilibrado e feliz, acaba de assassinar um estranho, ali mesmo no meio da rua onde mora. Sem saber quem é a vítima nem a razão de tudo aquilo, a única certeza de Jen é que o filho de 18 anos foi levado pelas autoridades e está agora detido.
Jen nem quer acreditar no que está a acontecer.
O futuro de um jovem brilhante comprometido. Tudo parece um pesadelo.
Por fim, exausta, adormece.
E quando acorda… está no dia anterior.
Confusa, Jen só tem um pensamento: será que ainda pode evitar que o filho se torne um assassino?

Cris