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sexta-feira, 20 de agosto de 2021

"Nós, os Romanov" de Aleksandr Mikhailovich

Aprendemos sempre alguma coisa com um livro. Este em particular é um livro de memórias do Grão-Duque Aleksandr Mikhailovich, primo e cunhado do Czar Nicolai II, e é um tratado de História sobre a vida dos Romanov, dada a sua proximidade física e os laços de sangue com os czares.

É um livro de não ficção que se lê tão bem como se não o fosse. Mantém o interesse do leitor durante toda a leitura até porque a vida deste Grão Duque foi, à semelhança das vidas dos elementos desta família, muito interessante. Através da sua narrativa fiquei a conhecer uma pouco mais sobre esta época conturbada e negra da Rússia, sem pretender contudo, ter a pretensão de me conseguir situar cronologicamente com todos os elementos desta vasta família. Uma árvore genealógica tinha-me feito um jeitão. Peguem num lápis e numa folha...

Se gostarem desta temática avancem sem medos. Vão gostar!

Terminado em 25 de Julho de 2021

Estrelas: 4*

Sinopse

A mais poderosa e polémica família imperial dos tempos modernos deixou de governar a Rússia há mais de um século. Ao compilar as suas memórias das cinco décadas que antecederam a fatídica revolução de fevereiro de 1917, o Grão-Duque Aleksandr Mikhailovich, membro da poderosa família Romanov, oferece-nos um olhar privilegiado sobre os derradeiros dias do Império Russo e sobre a tragédia que envolveu a família.

Aleksandr era primo, cunhado, conselheiro e amigo íntimo do Czar Nikolai II (cresceram juntos). Partilhou com ele alguns dos momentos mais decisivos da História. Nós, Os Romanov é um relato fascinante, um testemunho em primeira mão dos últimos dias do império. O grão-duque, homem inteligente e equilibrado, foi capaz de descrever um pedaço da História extremamente importante de uma perspetiva honesta e privilegiada que, de outra forma, teria sido perdida.

Cris

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Para os Mais Pequeninos: "Um Passeio no Lago"


Este é um livro que abrange várias idades. Primeiro porque é um livro de capa e folhas duras, cartonadas, podendo ser manuseado por mãos mais desastradas e desatentas, que esperam que nós possamos ler a "histoia", depois porque pode e deve ser lido por quem dá os primeiros passos na leitura.

Com imagens lindíssimas, que me fazem lembrar alguns dos livros infantis dos meus filhos, este livro conta-nos a história de Pedrito Coelho que vai fazer um pic-nic com a família e decide fazer sozinho uma jangada, negando a ajuda da família. Como pano de fundo está a importância de sabermos aceitar a ajuda dos outros e dessa união resultar mais força do que fraqueza.

Em tons suaves, as imagens utilizadas parecem pequenos quadros pintados da nossa infância! Deêm uma olhada:




Cris

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Experiências na Cozinha: "Eu decido Cozinhar sem Açúcar"


Escolhi esta receita porque já tinha todos os ingredientes em casa e, também, porque muito rápida de se fazer. Desta feita não alterei nadica da receita.

Há muitas variantes destas bolinhas energéticas mas as que costumo fazer usam sempre tâmaras para adoçar. As tâmaras contêm muita fibra o que modera o efeito do açúcar que elas contêm. 

Este livro para além das óptimas receitas de doces e afins que, mesmo assim, se devem comer com moderação, tem várias páginas que desenvolvem toda uma panóplia de assuntos acerca do(s) açúcar(es): como podemos ir reduzindo a sua ingestão, que benefícios essa redução, em que alimentos se escondem, como podem ser substituídos e os vários tipos de açúcar que existem.

Lembro-me bem de como era intragável para mim um chocolate com mais de 80% e como o acho bom agora... O palato altera-se. Haja vontade!

Vamos à receita e às fotos!




Palmira e Cris

terça-feira, 17 de agosto de 2021

"Deste Silêncio em Mim" de Rui Conceição Silva

Temos cá bons escritores e não sabemos! Este livro foi uma grata surpresa e é prova disso! Foi-me enviado pelo autor e aguardava a sua vez na estante que é como quem diz, aguardava vontade minha. Não leio por obrigação. Quando assim é, nunca resulta e já sei que a leitura se vai arrastar. Por isso prefiro sentir este apetite e deixar que a vontade seja dona e senhora das minhas leituras. Por vezes nada leio da sinopse e nada espero. Assim, deixo-me surpreender e, neste caso, foi com muita satisfação que me  envolvi na escrita e na história narrada por este autor.  

É pela voz do narrador que, ainda em criança, nos conta como foi a sua infância no meio da serra, bastante longe da aldeia mais próxima, no Portugal de Salazar. Muito perspicaz mas também muito inocente, Rodrigo vive muito a solidão e o isolamento, mas faz-nos sorrir amiúde com as suas "descobertas" ou suposições que explicam o mundo segundo os seus olhos. Uma ironia fina, um toque de mestre numa escrita que faz o leitor sentir-se em casa mesmo quando as experiências vividas pelo pequeno narrador não correspondem às suas, nem são, tampouco, similares às recordações que possuímos. 

O retrato de Portugal dessa época está muito bem conseguido. A pouca literacidade, a pobreza extrema, a ignorância e as baixas expectativas de todo um povo estão espelhados nas palavras do autor. O "salto" para França ou a ida para uma grande cidade portuguesa na busca de uma vida melhor de tantos portugueses. O retrato de um Portugal que muitos desconhecem (e ainda bem!) que me deu muito prazer em visitar e relembrar. 

Depois, a tristeza de todo um povo quase que se pega ao leitor numa segunda parte em que essa criança é obrigada a crescer (mais depressa que o que é habitual hoje em dia) e sente-se essa melancolia nas palavras do autor.

Recomendo muitíssimo.

Terminado em 18 de Julho de 2021

Estrelas: 5*

Sinopse

Quantos silêncios e quantos sonhos cabem no peito de um homem?

Nascido para ser pastor, Rodrigo viveu a infância com os seus pais e irmãos numa velha cabana isolada na montanha, tendo desde cedo aprendido o silêncio, bem como a dor e a saudade, pela morte do irmão mais velho na guerra do ultramar. Os seus melhores dias foram passados na montanha com o avô Josué, a quem chamavam Celtibero, e na escola primária, onde conheceu os primeiros amigos e se deixou enfeitiçar por uma moira encantada. Rodrigo sonhava para si uma vida diferente, o avô incentivava-o a contrariar um destino que parecia certo, incitava-o a partir e correr mundo. Ouviu palavras idênticas a um homem que apareceu na montanha a tocar um tambor para os ancestrais.

Um homem que se viria a revelar primordial na sua vida, quando dilacerado pela angústia de ter de tomar uma decisão, foge de casa para viver na cidade grande, sem nunca mais dar notícias à família. Num mundo de cimento e rostos fechados, Rodrigo aprende que a solidão pode estar em todos os lugares, ainda que rodeado de gente. É salvo pelo amor que encontrou junto da rapariga que guardava no seu coração desde a infância. Volta à sua montanha, muitos anos depois, aquando da morte da sua mãe.

Voltará a tempo do tão desejado perdão? Saberá a sua montanha dar-lhe a paz que tanto procurou?

Num tom poético e intimista, este é um romance com personagens inesquecíveis, que nos fala diretamente à criança que já todos fomos, relembrando-nos verdades simples e preciosas.

Cris

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

"A Face Norte do Coração" de Dolores Redondo

Leitura conjunta efetuada com amigas livrólicas. Etapas que muitas acabaram por não cumprir tal era a sofreguidão com que quisemos avançar na leitura. Mas as leituras conjuntas são assim mesmo. O ritmo é marcado pelo enredo do livro que se lê no momento. Às vezes, impõe-se um ritmo mais compulsivo e que bom que é quando isso acontece!

Esta obra é uma prequela da trilogia que já foi editada cá (e que ainda não li), a saga Baztán. Conto lê-la em breve porque gostei muito da sub-inspectora Amaia Salazar, da sua perspicácia e de como o seu passado - que vamos desvendando aos poucos - se intromete nos seus pensamentos, e até acções. Amaia está a ajudar o FBI a encontrar um assassino em série responsável pela morte de famílias com características específicas. O assassino procura locais devastados por intempéries para escolher as suas vítimas.

O presente sangrento e aterrador, vivido pelas gentes locais (aqui tão bem descrito) aquando do furacão Katrina, em Nova Orleães, mescla-se com alguns fantasmas do passado que atormentam algumas personagens, conduzindo o leitor para uma leitura frenética de que muito gostei.

Recomendo!

Terminado em 16 de Julho de 2021

Estrelas: 5*

Sinopse

«Quando Amaia Salazar tinha doze anos esteve perdida no bosque durante dezasseis horas. Era de madrugada quando a encontraram, trinta quilómetros a norte do lugar onde se havia desviado do trilho. Desmaiada debaixo da chuva intensa, a roupa enegrecida e chamuscada como a de uma bruxa medieval resgatada de uma fogueira e, em contraste, a pele branca, limpa e gelada como se acabasse de surgir do gelo.»

Um thriller trepidante e intenso, prequela da "Trilogia do Baztán", que foi adaptada para cinema e está disponível na Netflix.

Cris

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Para os mais Pequeninos: " Os Meus Amigos Invisíveis"


Todos sabemos que, por vezes, a gente miúda tem amigos invisíveis! Esta é uma história em que o personagem principal, o Joly, um menino que vivia numa aldeia entre montanhas, tem alguns amigos invisíveis aos olhos dos outros e que não o largam. Os três monstrinhos que sempre o acompanham fazem muitos disparates e é Joly que paga muitas vezes as consequências das suas travessuras!

Falando sério a brincar, este livrinho, cheio de cor, é uma verdadeira obra de arte. Lindo de morrer! É baseado na vida de John Nash, prémio nobel das Ciências Económicas em 1994, que sofria de esquizofrenia paranóica e que, por essa razão, via ou ouvia coisas que não eram reais.

As imagens falam por si...





Cris


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Resultado do Passatempo Mensal "Toca a Comentar"

Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Julho.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Alexandra Guimarães

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 20, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:

 

Cris

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Experiências na Cozinha: "Temperos com Alma"


A Natália é professora no Instituto Macrobiótico e foi lá que a conhecemos. Retirámos o texto que se
segue do seu livro para ficarem a perceber quais as quantidades e os tempos. Todas as receitas deste livro estão misturadas com pensamentos e reflexões sobre a Vida. Apreciem!

Trazemo-vos hoje um arroz doce feito com arroz integral, sem açúcar refinado, laticínios e ovos.

Arroz doce

Alma adorava cozinhar. Juntava os alimentos como se planeasse o tempo, e esperava ansiosa para ver a expressão dos outros ao provar.

Deu uma volta com a colher de pau dentro da água morna e segredou-lhe o seu plano: "Vou fazer arroz doce e hoje tu serás o palco da minha obra".

O arroz que ia ser doce, precisava de uma pitada de sal.

Alma voltou a mexer a água e aproximou o rosto para ouvir mais de perto o seu sussurrar. Juntou-lhe uma pitada de sal na quantidade certa.

Alma tirou o limão da fruteira e cortou cuidadosamente um pedaço da sua casca.

O limão é o perfume do arroz, a sua água de colónia que se sente logo à entrada de casa. 

O pau de canela picante e amargo era a dupla perfeita para este encontro entre o arroz e o palato.

A canela, vaidosa, não se negou a partilhar o seu interior e libertou-se totalmente sem se desfazer.

Alma lavou o arroz e juntou-o ao líquido morno que fervia. O arroz agradeceu, por ter viajado até ao lugar que não esperava encontrar. Sentiu o calor,  emocionou-se e depois entregou-se. Deixou-se transformar e começou a cozinhar.

O arroz absorveu o caldo onde mergulhou. Alma juntou a bebida de aveia e continuou a mexer, criava o tempo que haveria de se provar.

O arroz clamava pelo doce que batizaria o seu nome e nesse urgente pedido, a geleia também feita de arroz, deixou-se cair entre os bagos  que a receberam e abençoaram. O arroz estava quase pronto,  só faltava o tempo certo, para unificar os sabores.

A geleia cozinhou depois de conversar com todos os outros presentes. E perdeu-se no encontro com eles. O arroz estava no ponto e pronto para ser servido, pelos pratos foi repartido.

A canela em pó, esperou sentada. O tempo levou o calor, e o arroz arrefeceu. A canela numa suave dança  desenhou-se, e decorou o arroz que já era doce.

(extracto do livro "Temperos com Alma" de Natália Rodrigues Porto)





Palmira e Cris

terça-feira, 10 de agosto de 2021

A Convidada Escolhe: "Almoço de Domingo"

Almoço de Domingo, José Luís Peixoto, 2021  

Um livro especial, que me foi oferecido no dia de anos. Em dose dupla, por gente querida, que sabe como valorizo os almoços de domingo com a família, os quais nos têm sido vedados nestes tempos de pandemia. 

O romance, repartido em três dias, é um mosaico de momentos que se entrelaçam, da história do nosso país, de recordações da infância, do Rui menino quando ia levar os avios de carne da salsicharia da mãe. O meu Rui, o seu Rui, o senhor Rui, o senhor comendador. A escola e o amigo mais sincero, a tropa, Alice a companheira de toda uma vida, os vários cargos na Câmara, o convite a Marcelo Caetano para as festas de Campo Maior, a marca Delta, a inauguração da ponte sobre o Tejo, o almoço de cozido de grão oferecido a Mário Soares e Felipe González. Timor e Angola onde vai comprar o café que depois será transformado e comercializado, Inglaterra onde irá para tentar salvar a irmã Clarisse, as travessias clandestinas através da fronteira evitando o encontro com os carabineiros, a detenção em Badajoz. 

São retalhos de uma vida que vão surgindo sem ordem cronológica, antes iluminando marcos significativos de nove décadas de existência. Uma vida cheia de peripécias, de muito trabalho, dedicação e engenho. Uma vida em que os alicerces – o tio Joaquim, a mãe, o pai, o irmão António e as irmãs Clarisse e Cremilde – nunca são esquecidos. Eles estão presentes naquele almoço de domingo e perpetuar-se-ão nos filhos, nas noras, nos netos e bisnetos, mesmo quando o senhor Rui já tiver morrido. Porque este romance fala da vida, da morte, das alegrias, dos nascimentos, das perdas, das dores do envelhecimento e também de Campo Maior. Da fronteira entre os vivos e os mortos e da fronteira que separa Portugal de Espanha ou Campo Maior de Badajoz. Dessa linha afinal tão ténue. 

Este “Almoço de Domingo”, memória de tantos almoços de domingo, corresponde ao 28 de Março de 2021, dia do 90º aniversário do senhor Rui. Sendo a última parte deste romance biográfico, é antecedido dos dias 26 e 27 de Março, mas aqui não há pandemia nem qualquer referência a ela. Antes a celebração da amizade, do reconhecimento, da gratidão por uma vida plena, em que a família e toda uma comunidade se juntam para saudar um homem generoso, exemplar. A família e Campo Maior constituem uma unidade. São uma e a mesma coisa. 

“Quando acumulamos suficiente tempo, os domingos transformam-se num período da vida. Recordamos os domingos como uma unidade, anos inteiros só de domingos, estações inteiras compostas apenas por domingos: os domingos do verão, os domingos do outono, todos os domingos do inverno e, de novo, as promessas feitas pelos domingos da primavera. Foram dias separados por semanas, antecedidos por sábados com ilusões próprias, sucedidos por segundas-feiras com agendas precisas, tarefas fatais que exigiam ser feitas, mas tudo se dissipa até ficar apenas uma amálgama de domingos. Ao serem vividos, transformaram-se nessa amálgama, como um almoço de domingo infinito, a crescer permanentemente a partir do seu interior. 

Entra a minha sogra com a sua arte, travessa de bacalhau no forno, prato perfeito para este momento. Logo a seguir, a sua filha, minha mulher, Alice, traz os talheres com que vamos servir-nos. Estamos prontos, habitamos esta hora certa, tentaremos repeti-la muitas vezes ao longo da vida. O nosso contentamento mistura-se sobre a mesa, o meu filho estica o braço para chegar ao pão, a minha filha leva um copo de laranjada aos lábios, a minha mulher organiza-nos, a minha sogra sorri, está submersa neste instante, inspira este ar. 

Somos uma imagem parada. Existe a passagem dos segundos, minutos talvez, existem os gestos, mas somos uma imagem parada, enche todo o tempo que possuímos.”(págs. 106 e 107) 

3 de Agosto de 2021 

Almerinda Bento



segunda-feira, 9 de agosto de 2021

"Gosto de Ti" de Antti Ervasti e Matti Pikkujämsä


O subtítulo deste livro é "100 sessões curtas de terapia". É pouco para definir este livro mas é, ao
mesmo tempo, suficiente e esclarecedor. É constituído por pequenos textos, acompanhados todos eles de imagens rústicas em que os protagonistas são animais parecendo quase uma "banda desenhada".

Escrito por um psico-terapeuta e desenhado por um ilustrador, destina-se, a meu ver, tanto a graúdos como a miúdos com a supervisão de um adulto, em que este lhe possa explicar alguns conceitos ou a importância da mensagem.

O que mais gostei foi abrir uma página "ao calhas" e ler de-va-gar. 

Deixo-vos algumas fotos.





Terminado em 30 de Junho de 2021

Estrelas: 5*

Sinopse

Gosto de Ti é um conceito inovador que se propõe divulgar princípios básicos de saúde mental e bem-estar emocional através de textos curtos e ilustrações evocativas. Os psicoterapeutas Antti Ervasti e Elina Rehmonen juntaram-se ao galardoado ilustrador Matti Pikkujämsä para criar este projeto gráfico de desenvolvimento pessoal. O livro – e os produtos que dele derivaram – encorajam as pessoas a refletir sobre a sua vida e encontrar conforto e alegria em diversas fontes, salientando a importância da comunicação e da autodescoberta. Cup Of Therapy tornou-se uma marca internacionalmente reconhecida, com workshops, eventos e merchandising disponíveis em todo o mundo.

Cris

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

A Convidada Escolhe: "Rua de Paris em Dia de Chuva"

Rua de Paris em Dia de Chuva, Isabel Rio Novo, 2020

Este é o primeiro livro que leio de Isabel Rio Novo, um romance-paixão pelo pintor Gustave Caillebotte, a personagem central. Autora, Helena e Gustave são as três personagens que se encontram, que se fundem, que criam uma cumplicidade com o/a leitor/a, numa construção e numa teia de ligações e questionamentos.  

 A Autora, apaixonada pela figura e pela obra de Gustave Caillebotte, quer saber mais sobre ele. Servindo-se de documentos e da tese de uma historiadora de arte – Helena – vai recriando-os à sua maneira. Tal como António Gedeão escrevera num poema dedicado a Camões “Ao Luís Vaz, recordando o convívio da nossa mocidade”, ou Yourcenar e Adriano que estabelecem “um contacto ininterrupto”, também a Autora sente por Gustave Caillebotte aquilo a que chama “a ligação a alguém com quem nunca nos cruzámos.”

Gustave Caillebotte nasceu em 1848 e faleceu em 1894. Para além de pintor, foi mecenas, coleccionador de arte e de selos, velejador, eleito no Conselho Municipal da comuna onde viveu os seus últimos anos de vida, engenheiro naval, horticultor… Foi excelente em tudo a que se dedicou com paixão, não tendo exercido a carreira de direito correspondente aos estudos que seguiu quando jovem. A Autora faz-nos a genealogia de Gustave, retrocedendo ao bisavô e à Normandia natal. Descreve-nos a França e as suas enormes transformações ao longo da segunda metade do século XIX, fala-nos de Napoleão III, das suas ambições expansionistas com a invasão da Prússia e o desaire que resulta na capitulação, da experiência da Comuna de Paris; e da cidade de Paris que em duas décadas se transformou numa cidade limpa, arejada, ampla e moderna por obra do barão de Haussmann. Desde a construção do Louvre, às amplas avenidas, à Torre Eiffel, todo o progresso e os novos inventos da era industrial estavam patentes nas grandes Exposições Universais. 

A situação privilegiada que herdou resultante do negócio dos têxteis da família, permitiu que o jovem estudante de pintura na Academia de Belas Artes, conseguisse, ao invés de outros pintores da época, ter uma vida desafogada e sem as angústias de não ter dinheiro para alimentar a família. Também na pintura os cânones estavam a ser postos em causa. Os pintores vinham para o exterior, queriam captar o momento, a transitoriedade da vida, as sensações produzidas pelas paisagens. Queriam sair do espartilho e da rigidez dos júris que seleccionavam as telas para o Salão Oficial. Organizam-se, discutem ideias, inovam na maneira de expor. Só no século seguinte os seus nomes passarão a ser conhecidos, mas não deixarão de pintar e de seguir as suas ideias, mesmo que tenham tido prejuízos, desaires, uma imprensa conservadora que os ignorava ou escarnecia apodando-os de “alienados”, ou “um grupo de infelizes atingidos pela loucura da ambição.” Era muito difícil para a elite instalada no Salão Oficial, para os críticos e jornalistas que lhes eram fiéis, verem um grupo de jovens pintores abanar o edifício em que estavam instalados. A persistência venceu, mas a capacidade financeira de Gustave Caillebotte para comprar algumas das suas telas, para pagar as rendas dos espaços alugados para as exposições, para pagar contas e dar dinheiro a alguns desses pintores seus amigos foi imprescindível para que o grupo não se desfizesse logo de início. Renoir, Manet, Monet, Pissarro, Degas, Mary Cassatt ou Berthe Morisot, que só mais tarde vieram a figurar como os grandes mestres do impressionismo, beneficiaram do mecenas Caillebotte, que sendo seu par na pintura, acabou por ficar praticamente esquecido como pintor impressionista com uma imensa quantidade de telas pintadas ao longo de toda a sua curta vida, reflectindo a sua vivência em Paris, em cenas familiares, em Argenteuil ou Petit Genevilliers. 

Mas, como também já tentei aqui dizer, o romance é muito mais do que a vida do pintor. É o entrelaçar da vida de Gustave com a Autora como se os cerca de cento e cinquenta anos de vida que os separam não existissem. “ … é por isso que vale a pena escrever livros, para poder conversar à distância com aqueles que amamos e que não são do nosso tempo. Que triste e pobre seria a vida se as nossas afeições estivessem limitadas àqueles com quem nos cruzamos realmente. Que longos nos pesariam os dias se aqueles que morreram antes de nós estivessem mesmo ausentes.” Mais do que a cumplicidade entre eles, há um paralelismo na Autora que escreve e no pintor que pinta. A Autora escrevia como se tentasse desenhar, “buscando beleza nas ideias, nas construções, na melodia das palavras”. Quanto à figura de Helena é um enigma que fica para ser resolvido por quem ler este romance. 

Este livro foi uma revelação para mim. A escrita de Isabel Rio Novo é bela e cuidada. A vida deste pintor impressionista, personagem multifacetada, que não se consegue encontrar nos livros de arte, como se não tivesse existido. Uma figura obscura, esquecida, invisibilizada e que Isabel Rio Novo nos quis dar a conhecer e a descobrir, talvez numa visita a uma ala dos impressionistas nalgum museu numa cidade da Europa ou dos Estados Unidos. 

13 de Julho de 2021 

Almerinda Bento


quarta-feira, 4 de agosto de 2021

"Vidas por Um Fio" de Luís Francisco

Creio que o título diz bastante sobre este livro mas não conseguimos através dele imaginar o quanto algumas histórias parecem inacreditáveis! Com todas elas houve um final feliz, muito embora não para toda a gente envolvida.

Estas histórias foram divididas pelo autor em capítulos conforme alguns "géneros" de sobrevivência onde foram vividas (no mar, em terra), outras estão relacionados com desastres naturais, ou outras com aventuras mais ou menos perigosas.

Esta compilação é baseada em histórias de resiliência perante o perigo e as adversidades, histórias vividas e reais mas de tal forma inacreditáveis que, por vezes, parecia que estava a ver/ler um filme/livro de ficção. 

Um excelente livro para quem é curioso como eu e gosta de saber que (ainda) há finais felizes! Fui lendo durante uma ou duas histórias por dia, intercalando com outra leitura.

Terminado em 28 de Junho de 2021

Estrelas: 5*

Sinopse

Entramos no século XXI com uma falsa sensação de segurança e de domínio sobre os humores do destino. Mas, na era da Internet, do GPS e do telemóvel, continuam a surgir situações-limite em que pessoas normais se vêem subitamente obrigadas a fazer escolhas que significam a diferença entre a vida e a morte. Desastres naturais, acidentes dramáticos, ataques de animais, aventuras perigosas. Esta é a crónica dos que, contra todas as probabilidades, sobreviveram quando tudo parecia perdido. E também, em muitos casos, dos que operaram verdadeiros milagres para os salvar.

Cris

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A Convidada Escolhe... "O Vício dos Livros"

Afonso Cruz cativou-me desde que li o seu livro Jesus Cristo Bebia Cerveja, que li muito rapidamente
por ser tão divertido, descobri nele um autor talentoso com uma escrita muito original, irónica, quase cáustica. 

O Vício dos Livros é diferente.

É um pequeno livro, de 92 paginas, com belas  ilustrações do próprio autor, é um livro sobre livros, poemas, prosas, sobre ler, sobre escrever.

O que pode significar a literatura para uma pessoa ou para um povo: pode ser a liberdade, a salvação, a força para se encontrar, para se reinventar, a fuga, a viagem a amizade, o companheirismo. 

É  uma história sobre os contadores de histórias, sobre a oralidade como faísca para a leitura vício dos vícios bons!

"Ao contrário de tantos outros vícios, o dos livros é, na verdade, uma virtude. De facto, ter livros não é o mesmo que, por exemplo, ter dinheiro. Ter livros é como ter amigos, ter dinheiro é como ter com que pagar a amigos." (sic)

É um livro sobre o que significou e o que significa a leitura e a escrita na antiguidade e nos dias de hoje, em varias latitudes em várias culturas; sobre as bibliotecas.

"Na biblioteca do faraó Ramsés II estava escrito por cima da porta de entrada: «Casa para terapia da alma.» É o mais antigo mote bibliotecário." (sic)

Um pequeno livro onde quem gosta verdadeiramente de ler como eu gosto se encontra com alguns dos seus próprios pensamentos sobre livros ...eu seguramente encontrei! 

Uma leitura enriquecedora, que recomendo.

Marília Gonçalves 

PS. Dedico este pequeno texto/opinião à minha amiga Cris de quem me lembrei inúmeras vezes nesta leitura, que tanto tem alimentado a minha voracidade de leitora, e que ama os livros como ninguém! 

Beijo Cris!

domingo, 1 de agosto de 2021

Ao Domingo com... Lénia Rufino


Era uma vez uma miúda que, aos 10 anos, decidiu que queria ser escritora. Assim, sem mais nem menos: “quando crescer, quero contar histórias, quero ser escritora de livros a sério”. Há quem sonhe ser astronauta, certo? Ser escritora pareceu-me ligeiramente mais exequível… Mas estamos em Portugal e o sonho demorou 32 anos a ser concretizado.

Perdi a conta das histórias que escrevi ao longo destes anos. Passei pelas fases todas: a das fanfics, por onde comecei (o primeiro “conto” que escrevi foi uma versão de episódios da telenovela Cinzas, que passava na RTP à data do acontecimento), a da poesia (tenho dezenas de cadernos cheios de poemas - a última contagem já tinha passado dos 1000. Algum se aproveita? Duvido muito!), a dos textos com pensamentos e não propriamente com histórias, a dos micro contos, a dos contos e, finalmente, a do romance. 

Olho para trás e sinto que foram todas estas fases que me consolidaram. Aprendi imenso sobre persistência, motivação e… procrastinação. Tenho os medos todos dos escritores em início de carreira: “e se ninguém quiser ler isto?”; “e se ninguém gostar?”; “e se eu não for capaz de escrever uma história consistente, que faça sentido, que tenha sumo e que fique com as pessoas mesmo depois de acabarem de a ler?”. O pavor da página em branco é real. A Síndrome do Impostor também. Mas nada disso me demoveu de escrever o meu livro e de lutar por ele, para lhe dar vida e fazê-lo chegar ao mercado. 

Mais do que ter escrito uma história que está a tocar as pessoas, gostava muito que o meu caso servisse de exemplo para os autores que têm o mesmo sonho que eu: publicar e serem lidos por muita gente. É por isso que mantenho sempre a porta aberta a quem me procura para falar sobre isto: o processo criativo, de revisão e de edição. Sinto que há uma neblina que se mantém densa em torno deste assunto, como se publicar um livro fosse uma coisa reservada a um Olimpo demasiado estrito. Não é. Também não é “bar aberto e vale tudo”. 

Por isso, se fores um autor à procura de uma porta aberta, fala comigo. E se tiveres lido o meu livro, gostava muito de saber a tua opinião! Adoro conversar com os leitores, sinto que consigo ver o meu livro por prismas diferentes e isso é muito, muito enriquecedor!!

Um último pedido: leiam autores nacionais. Dêem oportunidade às novas vozes, a quem está agora a começar e já tem tanto para dizer. Exemplos? A Susana Piedade, a Márcia Balsas, a Ana Bárbara Pedrosa, e, já mais conceituados, os sempre incríveis João Tordo, Hugo Gonçalves, Nuno Amado e João Pinto Coelho, entre tantos, tantos outros. 

(Obrigada, Cristina, pelo convite e pela oportunidade de falar um bocadinho com os teus leitores!) 

Lénia Rufino

terça-feira, 27 de julho de 2021

A Convidada Escolhe: "A Casa da Malta"

Casa da Malta, Fernando Namora, 1945

Em boa hora, decidi, no início deste ano, ir buscar à estante livros que preguiçosamente vão sendo esquecidos e passados à frente pelas novidades. Este foi um livro que me foi oferecido em 1988 e que só agora li. É um livrinho que se lê depressa e que tem a vantagem de ser precedido de um excelente prefácio de uma edição revista pelo autor, escrito em 1961, que nos ajuda a compreender ainda melhor esta novela de Fernando Namora, a segunda obra da sua autoria. Jovem médico, desterrado numa aldeia, “Havia em frente do meu consultório um pequeno adro e nele um casebre meio derruído, sem dono, ou assim poderia imaginá-lo, pois quem o habitava era gente erradia que vinha e partia sem se saber quando…. A malta”. Como ele explica, no seu prefácio, “O livro já existia dentro de mim, naquele gosto intenso de um fruto saboreado antes de o colhermos da árvore, de tanto lhe anteciparmos o paladar, quando, certa tarde (conheceis as sestas imóveis da aldeia, a modorra que, ou nos sepulta, ou nos obriga a fendê-la com um berro de socorro?), a aventura começou: oito dias de trabalho febril, o único livro de ficção que, até hoje, escrevi de rajada. E, todavia, é de todos eles o mais tranquilo.”

Esta novela é constituída por seis capítulos que contam histórias de pessoas que passam por aquela “espécie de saguão” abandonado, onde pernoitam malteses, vagabundos, ciganos. Os de “lá de fora” olhavam-nos com desprezo, “uns leprosos”, “abriam fossos de ódio e de repulsa”, mas afinal quem eram afinal esses “estranhos”? Abílio que um dia partira a correr mundo para fugir à fome e que agora regressava cheio de saudades da sua vila? Um grupo de ratinhos a caminho da ceifa e que repartem a comida que levam para o caminho? A cigana em trabalho de parto? O Ricocas saído da choça para onde a justiça dos ricos o atirou por ter batido num polícia? O Troupas a quem o fogo tudo roubou. O Manel sem raízes e que quer seguir com os ratinhos, como se fossem a família que perdeu? A Carminda que só queria ter o filho em terra firme, longe do areal onde o marido montara o negócio? Ou Graça, a rapariga da mala, diferente de todos eles mas que fugia duma experiência de sedução, ciúme e violência? “Todos ali eram uns desgraçados! A desgraça os solidarizava, naquele calor instintivo e fraterno, como reses de um rebanho acossado pelos lobos. A desgraça os solidarizava, tal como eram, sem fingimentos.” Sentados à volta do lume, partilhando o pouco que tinham, naquela casa havia “uma solidariedade que os confundia e identificava.” Troupas, que ficou sem nada, emociona-se com o nascimento da criança e diz: “Hoje, estou contente com o mundo e não tenho nada na cabeça que seja das coisas feias que eu vivi. Nasceu uma criança e eu posso morrer: ela virá fazer a viagem por mim.”

O narrador, o escritor, o médico desenraizado está no meio daquela gente da casa da malta. É um deles. Solidariza-se com esse povo. Identifica-se com aquele “calor humano”. No prefácio desta edição revista pelo autor, Fernando Namora diz que abomina rótulos e clubismos, mas alude ao neo-realismo com que se identifica, não como moda, nem se submetendo a fórmulas ou cenários específicos. “A minha presença no neo-realismo não é a de quem adere, de quem se arregimentou”. A sua independência não quer dizer individualismo, nem solidão. “Os meus livros representam quase um itinerário de geografia humana, por mim percorrido; as andanças do homem explicam a do escritor.”

O que mais poderei dizer sobre este livro de Fernando Namora para além de o aconselhar? Ao livro e ao prefácio, uma interessante reflexão sobre a vida literária e sobre a profunda ligação da experiência literária com a sua experiência humana. É sempre bom conhecer ou voltar a ler os nossos escritores contemporâneos.

19 de Julho de 2021 

Almerinda Bento

 


segunda-feira, 26 de julho de 2021

"A Guerra de Hedy" de Jenny Lecoat

Uma capa que nos leva imediatamente para um local de guerra (II Guerra, pensei logo eu!) mas onde a história é diferente do habitual pois aborda especificamente algo que não é usual e que me fez pensar. Como eram vistas e tratadas as pessoas que falavam alemão como língua primeira, que falavam inglês com sotaque e que pelo seu aspecto exterior parecessem alemãs?

Hedy é uma judia austríaca de Viena que se encontra na ilha de Jersey, uma das Ilhas do Canal. Chegou antes da anexação da Áustria pela Alemanha mas a ocupação das ilhas apanhou-a em pleno. 

A sua narrativa é envolvente. As tentativas que faz para ser invisível levam-na directamente para a boca do lobo. As dificuldades que passa, juntamente com os habitantes da ilha, que se traduziram pela fome e a descrença no terminus rápido da guerra, levam-na a tentar resistir com os meios que possui. A amizade, que vale ouro nesses tempos, com um compatriota amigo, salvam-na várias vezes de ser capturada ou até de entrar em desespero.

Outra questão, muito bem colocada aqui, é o facto de nos apercebermos da ténue linha que separa um colaboracionista de um resistente. E que espaço tem e onde fica o amor quando ele se encontra no lado inimigo?

Gostei muito de ler este livro. Captou de imediato a minha atenção que não esmoreceu durante toda a leitura. Recomendo!

Terminado em 26 de Junho de 2021

Estrelas: 5*

Sinopse

No fim de junho de 1940, as Ilhas do Canal, ao largo da costa francesa, são ocupadas pelas forças nazis.

A jovem Hedy Bercu, uma judia vienense que chegara a Jersey dois anos antes, fugindo da anexação da Áustria pela Alemanha, encontra-se novamente encurralada. Porém, desta vez, parece não haver como escapar.

Apesar de judia, Hedy encontra trabalho como tradutora junto das autoridades ocupantes e começa a participar em atos de resistência. É então que se apaixona pelo tenente alemão Kurt Neumann, iniciando uma relação proibida da qual rapidamente a sua vida passa a depender.

A Guerra de Hedy acompanha a vida desta jovem mulher e a luta que travou para sobreviver à ocupação nazi e evitar a deportação. Baseada em factos verídicos, esta é uma história de coragem, amor e esperança numa época em que a crueldade imperou: a Segunda Guerra Mundial. 

Cris