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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

"Em Todos os Momentos Estamos Vivos" de Tom Malmquist

Soube que leria este livro mal li a sinopse e vi a sua belíssima capa. O tema é duríssimo, real e muito vivido. O autor fala na primeira pessoa sobre a perda de sua mulher grávida de quase final do tempo. 

Podia parar por aqui. Creio que chega o que escrevi para se aperceberem do conteúdo realista do livro. Ficaria a faltar, no entanto, todo o peso que as palavras de Tom deixam transparecer sem no entanto cair em excessos. A sua sinceridade, a sua dor, marcam as palavras e deixam-nos de coração contrito.

Em poucos dias Tom perde a sua companheira de há mais de 10 anos, Karin, vítima de uma leucemia mieloide aguda. A filha de ambos nasce prematura. A morte e a vida juntas e inesperadas deixam Tom perdido. O passado é intercalado com o presente durante a narrativa e vamos tendo consciência do quanto eles passaram nos dez anos em que estiveram juntos.

Tudo o que possa dizer é pouco. Gostei muito desta obra que, considero, constituiu uma catarse para Tom. Sei que haverá leitores que fugirão a este duro tema. Eu não consegui. Nem queria, tampouco! A vida é isto. É preciso não esquecer que em todos os momentos estamos vivos!

Terminado em 4 de Outubro de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
Tom está a poucas semanas de ser pai, mas o momento que se espera ser de felicidade transforma-se num pesadelo. Karin Lagerlöf, a namorada, entra nas urgências com o que parece ser uma gripe. No entanto, o diagnóstico é muito mais assustador: leucemia aguda. Para poder iniciar os tratamentos, Karin tem de ser submetida a uma cesariana.
É assim que Tom Malmquist, personagem que partilha o nome com o autor, se vê dividido entre a felicidade de ter uma filha e a profunda dor de perder a mulher que ama. Poucos meses depois, ainda não refeito do choque que foi a morte de Karin, Tom assiste aos últimos momentos de vida do pai, vítima de cancro.

Embrulhado em diagnósticos herméticos, desentendimentos familiares, burocracias kafkianas e num profundo estado de cansaço, Tom tem, ainda assim, de aprender a cuidar da pequena Livia. Neste comovente romance autobiográfico, Tom Malmquist partilha com o leitor a história de um homem cujo mundo parece colapsar de um dia para o outro. Dor, raiva, luto, mas também amor e uma enorme resiliência fazem parte desta narrativa, lembrando o leitor que mesmo no meio do caos é sempre preciso continuar a viver.

Cris

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Experiências na Cozinha: "Bíblia dos Segredos das Avós"

Esta semana fomos para a cozinha, é verdade, mas como vos conseguimos falar pormenorizadamente deste livro que é muito mais que um livro de culinária? Possui um capítulo de receitas e dicas culinárias mas já há muito que o livro dorme no meu quarto (também já o fez no da Palmira!), na mesinha de cabeceira, porque não sabíamos bem como incluir numa receita tudo o que o livro contém…

Optámos por fazer a receita do “Pesto de rúcula selvagem”, da pág. 314, uma receita simples e saborosa de um molho que acompanhou uma salada que preparámos. Ficam as fotos.

Mas não podemos deixar passar a oportunidade de vos falar da beleza deste livro “gordo”, que nos fez lembrar o “Pantagruel”, de capa dura, e de uma beleza realmente prodigiosa. Se tiverem oportunidade não deixem de o folhear para verificarem como temos razão! No entanto, a sua beleza é uma pequena parte do seu todo. Possui um índice muito completo e que nos remete para imensos segredos e dicas “da avó” sobre mezinhas de saúde, beleza, limpeza e receitas muitas delas baseadas em plantas e frutos que nos rodeiam.

Um prazer em folhear e descobrir!





 


 



Palmira e Cris

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

"Uma Questão de Conveniência" de Sayaka Murata

Livro pequeno que se lê num dia mas que nos deixa a pensar. Conta-nos a história de uma mulher de 36 anos que desde pequena era diferente nas suas atitudes e vontades próprias. Sempre agiu em conformidade com essa diferença até que "percebeu" que não se enquadrava naquilo que esperavam dela. Passou a observar os comportamentos dos outros e a imitá-los de forma a parecer-se mais com o que dela era esperado. Calada, introspectiva, conseguiu passar despercebida na escola, que era o pretendido.

Furukura tem 36 anos e trabalha há 18 numa loja de conveniência. Gosta do que faz mas o mundo que a rodeia pressiona-a constantemente. Tenta passar despercebida mas as interferências directas ou indirectas começam a deixá-la incomodada. Não é emprego para a sua idade este que ela tem (pois não tem perspectivas de ascenção na carreira) e não deveria ter já um marido? 

Esta personagem, por um lado, fez-me lembrar o protagonista de "Stoner", um livro de que gostei muito. A sua vida é passada num ritmo lento, sem surpresas. Monótona, sem ambição. Mas é a vida que gosta. Até que ponto deverá alterá-la para satisfazer as vontades de outrém?

Gostei muito desta leitura. É um livro com uma forte crítica social, mordaz, que faz-nos refletir sobre as nossas atitudes e preconceitos que todos temos em relação aos outros.

Terminado em 30 de Setembro de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Keiko foi sempre estranha – e os pais perguntam-se onde encaixará ela no mundo real. Por isso, quando a rapariga resolve ir trabalhar para uma loja de conveniência, a notícia é recebida com entusiasmo, até porque na loja ela encontra um mundo bastante previsível, que domina com a ajuda de um manual e copiando os colegas até na forma de falar. Mas aos 36 anos é ainda na mesma loja de conveniência que trabalha, e além disso nunca teve um namorado, frustrando as expectativas da sociedade... Embora Keiko não se importe com isso, sabe que a família e os amigos estão mais ou menos desesperados. Um dia, porém, é contratado para a loja um rapaz com o qual Keiko tem algumas afinididades. Não será então aconselhável para ambos um relacionamento?


Sayaka Murata, uma das vozes mais originais e talentosas da ficção contemporânea japonesa, capta brilhantemente a atmosfera de uma loja de conveniência e satiriza as obsessões que regem a sociedade contemporânea e a pressão exercida sobre as mulheres no sentido de cumprirem expectativas alheias, com o pretexto de terem uma vida «normal». Uma Questão de Conveniência, que venceu o prémio Akutagawa e foi traduzido em mais de vinte países, é o retrato de uma heroína deliciosa que promete ser tão memorável como Amélie Poulain.


Cris

terça-feira, 8 de outubro de 2019

"As Gémeas de Auschwitz" de Eva Mozes Kor com Lisa Rojany Buccieri

Esta leitura faz-se em pouco tempo. O livro é pequeno, a grafia grande. E, no entanto, é uma leitura pesada. Não é escrito com muitos dramatismos e a escrita é simples. Mas chama as coisas pelos nomes e é dura a sua leitura. 

Já li muitos livros sobre este tema. Aprendo em todos eles. Para além de saber como vivenciaram as pessoas essa época de horror, gosto de saber como é que elas conseguiram viver depois da guerra. Porque não foram tempos fáceis, esses de suposta liberdade. Muitos dos que estavam "cá fora" não tinham noção do que se tinha passado nos Campos da Morte e muitos dos que sairam só queriam esquecer e não queriam falar do assunto. Só mais tarde é que tiveram consciência do quão importante era recordar para contar.

Eva era judia, gémea idêntica de Miriam e vivia com os pais e irmãs em Portz, na Transilvânia, Roménia, junto da fronteira com a Hungria. Ainda não tinha 10 anos quando a sua família foi levada para Auschwitz. Depressa percebeu que tinha de se manter, a ela e a Miriam, em estado de alerta total, sem reclamar e vivendo um dia de cada vez. Para sobreviver. Foi uma das "gémeas de Mengele".

O seu relato vale a pena ser lido. E a lição de vida e o testemunho de perdão que deu, no pós-guerra, foi o que mais me impressionou. Deveras. 

Recomendo muitíssimo esta obra!

Terminado em 29 de Setembro de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
TODOS OS SERES HUMANOS TÊM O DIREITO DE VIVER SEM A DOR DO PASSADO

«Se eu tivesse morrido, Mengele teria dado uma injeção letal à minha irmã para fazer uma autópsia dupla. Só me lembro de repetir para mim mesma: tenho de sobreviver, tenho de sobreviver.»
Eva Mozes Kor

As portas do vagão abriram-se pela primeira vez em muitos dias e a luz do dia brilhou sobre nós. Agarrei bem a mão da minha irmã gémea quando nos empurraram para a plataforma.

– Auschwitz? É Auschwitz? Que sítio é este?
– Estamos na Alemanha – foi a resposta.

Na verdade, estávamos na Polónia, mas os Alemães tinham invadido a Polónia. Era na Polónia alemã que se situavam todos os campos de extermínio.

Os cães rosnavam e ladravam. As pessoas do vagão começaram a chorar, a berrar, a gritar todas ao mesmo tempo; todos procuravam os seus familiares à medida que eram afastados uns dos outros. Separavam homens de mulheres, filhos de pais.

Um guarda que ia a passar a correr parou bruscamente à nossa frente. Olhou para Miriam e para mim nas nossas roupas a condizer: «Gémeas! Gémeas!», exclamou. Sem dizer uma palavra, agarrou em nós e separou-nos da nossa mãe. Miriam e eu gritámos e chorámos, suplicámos, as nossas vozes perdidas entre o caos, o barulho e o desespero, tentando chegar à nossa mãe, que, por sua vez, tentava seguir-nos, de braços estendidos, com outro guarda a retê-la.

Miriam e eu tínhamos sido escolhidas. De repente, estávamos sozinhas. Tínhamos apenas dez anos. E nunca mais voltámos a ver nem o nosso pai nem a nossa mãe.

UMA HISTÓRIA NOTÁVEL DE FÉ, SOBREVIVÊNCIA E CORAGEM.

«Este livro notável é um marco para a compreensão do Holocausto e a sua relação com a superação e o triunfo do espírito humano.»
Richard Freedman, diretor nacional da Fundação Sul-Africana do Holocausto

«Conseguir triunfar sobre um mal tão grotesco, e ainda ter a capacidade de celebrar a vida e a bondade, é tanto um mistério quanto uma inspiração. Se este livro não lhe tocar o coração, nada o fará».
Philip Gulley, escritor e orador

«Li dezenas de livros sobre o Holocausto e vi outras dezenas de filmes sobre o assunto, mas este livro teve um impacto em mim como nenhum outro. Após os primeiros capítulos, tive de o baixar para me recompor.»

Goodreads Review Eva Mozes Kor e Miriam Mozes, são gémeas idênticas, que sobreviveram às experiências genéticas conduzidas pelo médico Josef Mengele, em Auschwitz. Os seus pais, avós, irmãs mais velhas, tios, tias e primos não sobreviveram. Cerca de outros 1400 pares de gémeos foram alvo de estudo e tortura por parte de Josef Mengele, também conhecido como o Anjo da Morte.

Cris

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

"As Mulheres do Coro de Chilbury" de Jennifer Ryan

A minha primeira reacção foi atribuír 5 estrelas a esta leitura mas, depois, pensando um pouco melhor, decidi dar-lhe 6. Sim, definitivamente vale as 6*. Tem tudo aquilo que gosto num livro. Uma história bem construida e bastante bem enquadrada numa época da nossa História Mundial. Diálogos que prendem, um enredo que entusiasma, personagens bem fortes e marcantes. 

Não há uma personagem principal. Este livro fala-nos de umas quantas mulheres, umas mais novas, meninas até, e outras mais velhas. Diferentes personalidades que a guerra uniu ainda mais e transformou. 

É um romance epistolar. Através de cartas e diários, quatro destas personagens põem-nos ao corrente da história de uma pequena povoação inglesa - Chilbury. Tudo começa com a hipótese de continuação ou não de um coro misto que se viu, com a II Guerra, sem os elementos masculinos. Estamos em Março de 1940 e a história decorre até Setembro do mesmo ano. Não se trata aqui de ler simples cartas, que às vezes se podem tornar aborrecidas! Esquecemo-nos que o estamos a fazer tais são os diálogos reais e vividos! 

São muitas as histórias destas mulheres que se entrelaçam e que vêm salientar a sua importância numa guerra que começou por ser uma guerra de homens e onde elas passaram de um papel passivo na sociedade para um papel bem diferente e determinante. A união, a coragem, a força, a perda, o luto que tiveram de arranjar e ultrapassar. Bem retratado aqui nestas páginas que se devoram num ápice!

Gostei do final. Um misto de cor-de rosa e de uma cor que signifique o incerteza no amanhã. 

Quanto mais penso neste livro mais razões encontro para o aconselhar! Adorei estas personagens/mulheres com os seus defeitos e qualidades que aprenderam de uma forma dura a crescer, a mudar e a transformar-se. A união contra um mal maior. O retrato elaborado pela autora destas mulheres está espectacular!

Terminado em 28 de Setembro de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
Kent, 1940. Chilbury, uma idílica povoação inglesa, vê os seus homens - maridos, filhos, irmãos - partirem para a guerra. Entregues a si próprias, as mulheres da aldeia confrontam-se com uma outra batalha: salvar o coro local que o pároco decidiu encerrar, para, através do canto, desafiarem o grande conflito que se trava na Europa. e com esse objetivo juntam-se à carismática Miss Primrose Trent, professora de música recém-chegada a Chilbury.

Entre elas, destacam-se Mrs. Tilling, uma viúva tímida; Venetia, a sedutora da aldeia; Silvie, a jovem refugiada judia; Edwina, uma parteira pouco escrupulosa que procura fugir de um passado sórdido. Bisbilhotices, ciúmes, medos, angústias, amores secretos marcam este romance inspirador e profundamente comovente que explora o modo como uma pequena comunidade consegue enfrentar as vicissitudes e os horrores de uma guerra violenta e destruidora.

Entre risos e lágrimas, e inspirando-se nas prodigiosas histórias que lhe contava a avó, que viveu no período da 2ª Guerra Mundial, numa pequena aldeia de Kent, Jennifer Ryan explora as almas deste coro que nenhum leitor jamais irá esquecer.

Um pequeno tesouro, inteligente e com um humor tipicamente britânico. 

Cris

domingo, 6 de outubro de 2019

Ao Domingo com... Patrícia Morais


Sou autora dos livros de ficção sobrenatural «Sombras» e «Chamas» e coautora da antologia paranormal, «Os Monstros que nos Habitam».
Em 2016, depois de passar três meses na América do Sul à procura de aventuras e paz interior, viajei até à China para estudar Kung-Fu a tempo inteiro numa academia de artes marciais, no meio das montanhas. Nesse ano vivi experiências que mudaram a minha vida e deram origem ao meu terceiro livro, «Crónicas de Shaolin».
De momento, é me um pouco difícil descrever quem sou porque sinto que encaixo em muitas caixas, mas não pertenço a nenhuma. Sou escritora, sou ativista e defensora dos direitos humanos e sou praticante de artes marciais, mas também não sou nenhuma dessas coisas porque não exerço nenhuma.
Acabo de concluir os meus estudos e ando à procura do meu lugar no mercado de trabalho. E enquanto isso não acontece, passo os dias a pesquisar sobre programas socioeducativos e de empoderamento das mulheres que incluem artes marciais, pois é do meu interesse dar a conhecer mais sobre os benefícios, para além do desporto, que este tipo de atividade traz.
Se pudesse pedir um desejo pediria a oportunidade de juntar todas estas paixões em algo produtivo e ter uma carreira que inspirasse outras pessoas, e ao mesmo tempo ter a sorte de fazer algo que me dá satisfação.

«Crónicas de Shaolin»
O meu livro «Crónicas de Shaolin» é um relato sobre o ano que passei na China a estudar Kung-Fu. Pelo menos essa é a versão curta. A verdade é que «Crónicas de Shaolin» é também um relato de viagem, um romance e um conto sobre os desafios enfrentados no dia a dia da prática de artes marciais. Este livro é um testemunho desassombrado das inseguranças que me levaram até à academia e explora como as artes marciais, não são apenas um desporto, mas sim um estilo de vida com várias variantes capazes de enriquecer o espírito.
Comecei a escrever «Crónicas de Shaolin» a pedido dos editores da Coolbooks que sugeriram que documentasse a minha experiência, mas quanto mais problemas enfrentava a nível de motivação mais evidente se tornou a necessidade de escrever um livro como este. Paixão e motivação vai para além da disciplina, pois estão também muito ligadas à nossa paz interior. Este livro explora todas estas ligações.
Este livro é ideal para todos os adeptos de viagem, artes marciais, desenvolvimento pessoal, ou simplesmente para os que têm curiosidade em ler sobre experiências diferentes.
Patrícia Morais


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Para os mais pequeninos: "A Aranha Ana"

Este é o segundo livro que leio desta colecção que junta uma história alegre e inspiradora com os princípios base do ioga e alguns movimentos. O primeiro foi este aqui. Recomendo vivamente ambos!

Neste pequeno livro a Ana, uma aranha trabalhadora não tem sequer tempo para si! Trabalha, trabalha, trabalha sem parar. Até que, alguns amiguinhos seus, a ensinam a parar, a respirar e a fazer alguns exercícios que lhe trazem um bem estar que ela não esperava...

Uma história para os mais pequeninos que traz um ensinamento primordial para as suas vidas, hoje em dia, tão atarefadas: é preciso ter atenção aos sinais que a vida nos dá. E, acho, verdadeiramente que os mais velhos só têm de aprender com esta aranha Ana!

Vejam as fotos tão expressivas e bonitas:








Cris

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A Escolha do Jorge: “Jezabel”


“No fim de contas, só há uma realidade, só há uma felicidade no mundo, é a juventude.” 
(p. 69)
Decidir publicar Irène Némirovsky (1903-1942) é reabilitar uma das escritoras mais conceituadas do século XX que não passou despercebida com a edição de “David Golder”, em 1929. A partir daí, seguiram-se vários romances e novelas que captaram a atenção dos leitores constituindo um dos nomes a seguir. A carreira enquanto escritora apesar de intensa, foi curta, na medida em que a escritora de ascendência judaica caiu nas malhas dos nazis, acabando por ser deportada para Auschwitz onde acabaria por falecer com febre tifóide, em 1942.

A descoberta do manuscrito incompleto “Suite Francesa” que veio a ser publicado em 2004 reabilitou a importância de Irène Némirovsky na literatura contemporânea. Herdeira de toda uma geração de escritores russos, Irène Némirovsky articula de forma original os grandes temas da literatura russa com o esplendor e fascínio de Paris, a grande capital europeia onde fervilhavam as cores, a música, os grandes salões de baile que atraíam a burguesia que tanto caracterizavam a “Belle Époque”, no período anterior à 1ª Guerra Mundial (1914-1918).
São várias as obras de Irène Némirovsky que reflectem um forte pendor autobiográfico, nomeadamente no que concerne a ideias que pululam com frequência algumas das suas narrativas, como a questão de famílias ricas judaicas que emigram do Império Russo rumo a Paris, as fortunas que desaparecem e se erguem de novo, a vida faustosa destas mulheres e a sua vida fútil povoada de bailes, jóias e amantes, a difícil relação com a mãe…
“Jezabel” (1936), o romance publicado recentemente pela Cavalo de Ferro reflecte um pouco os temas acima indicados que, juntamente com “O Vinho da Solidão” (1935), constituem duas faces da mesma moeda, publicadas com um ano de diferença.
“Jezabel” é mais um dos romances de Irène Némirovsky que nas primeiras páginas da obra mergulhamos numa narrativa cativante acompanhada pela escrita original e inteligente da autora. Aqui, Irène Némirovsky navega em ambiente que conhece bem, jogando por isso em casa, retratando com rigor o ambiente faustoso e glamoroso de Paris antes da 1ª Guerra Mundial.
Gladys Eysenach é a personagem principal, uma mulher linda, elegante e rica, mas profundamente egocêntrica e com uma obsessão doentia com a sua eterna juventude.
Desde jovem que Gladys Eysenach percebeu qual seria o seu destino, qual seria a sua missão: ser bela e ser amada. Ser amada seria sempre um resultado da sua beleza. Gladys Eysenach não queria, contudo, saber do amor, não queria prisões, queria tão somente ser adorada, amada, ter uma legião de admiradores e bajuladores caídos de amores e de desejo por si para que se sentisse protegida. “Sei perfeitamente que ainda tenho idade para o amor, mas o que quero não é amar, é ser amada, sentir-me pequena, fraca, apertada por braços fortes…” (p. 94)
A sua beleza era o seu escudo. O seu escudo em igual proporção com a sua obsessão, a sua doença. A beleza de Gladys Eysenach irradiava a atenção de tudo e todos. O mundo parava à sua passagem. Fascinante e bela, Gladys Eysenach tinha a missão de permanecer jovem e bela toda a vida. Iria a todo o custo driblar a velhice. “(…) Quando pensava na velhice, parecia-lhe ainda tão longínqua que a olhava de frente sem tremer, acreditando que a morte lhe ocorreria antes do fim do prazer.” (p. 63)
Sempre insaciável tanto quanto pronta para o prazer, Gladys Eysenach “não se saciava, antes lhe era necessário esse doce veneno como o único alimento que a fazia viver.” (p. 63) Ainda adolescente a sua prima Tess “admirava aquela carne delicada que escondia nervos de aço para o prazer” (p. 51) Tess comentava com Gladys: “Compreendo que o baile lhe pareça delicioso, mas é necessário saber deixar o prazer antes que ele a deixe… É tarde. Não se divertiu já que chegue?...” (p. 53)
Ao longo da narrativa são várias as passagens que reflectem a obsessão doentia de Gladys Eysenach com a juventude, passagens que ditam muito da personagem e do seu modo de pensar. “Faça como eu. Não conte os anos passados e eles não a vão marcar com mão pesada.” (p. 69) “Que havia de melhor no mundo, que a volúpia comparável à de agradar?... Esse desejo de agradar, de ser amada, esse prazer banal, comum a todas as mulheres, tornou-se para ela uma paixão (…) que nada, jamais, tinha conseguido saciar completamente.” (p. 77) “Nunca sentira outra coisa que não fosse a sede de ser amada, a paz deliciosa do orgulho satisfeito…” (pp. 83-84) “(…) Tinha necessidade do brilho, do triunfo insolente da verdadeira juventude.” (p. 85) “Não compreende, Tess. Você é diferente. Atravessa calmamente a vida, friamente. Eu quero queimar a minha e desaparecer… (…) Estou ciumenta da minha juventude.” (p. 87) “Quero uma vida que valha a pena viver, ou, então, para que serve viver?... O que me dará a vida quando eu não puder agradar mais?... No que é que me vou tornar…” (p. 126)
Mas ninguém, por mais bela, elegante, rica e fascinante que seja consegue enganar a passagem do tempo. Os anos podem ser vividos como um belo sonho, mas um dia a realidade fala mais alto e a consciência perante o inevitável envelhecimento emerge. O mesmo acontece com a heroína da narrativa. “Os anos passaram para Gladys com a rapidez dos sonhos.” (p. 76) Para pessoas como Gladys Eysenach, a vida é sempre curta e nunca suficiente para concretizar os seus desejos, nunca são amadas o suficiente porque nunca amaram. Mas a passagem do tempo traz a consciência de que o seu tempo passou, a juventude deu lugar à velhice. “Vou ser uma velha maquilhada…” (p. 126) Dir-lhe-ão “Contentem-se, vocês, as velhas, com tudo aquilo que não vos conseguimos tirar.” (p. 203)
A sua frivolidade é uma constante ao longo da narrativa. Vazia e desprovida de sentimentos, Gladys Eysenach toma consciência que chegou a um ponto na sua vida que não tem nada para além do seu dinheiro. “«Foi só isso que amei», pensou. «Amei só o desejo deles, a submissão, a loucura, o meu poder e o meu prazer… (…) É horroroso ter posto o sentido da vida no prazer e ver o prazer fugir, mas que mais há no mundo? Sou apenas uma mulher fraca…»” (p. 127)
Já sexagenária, Gladys Eysenach num baile de Natal não dava qualquer sinal de fraqueza ou de dor perante a sua rival, vinte e cinco mais nova. Gladys aceitava o desafio como uma dura prova que se impunha a si mesma e aos demais que a sua juventude seria eterna. Gladys dizia para si mesma “«Anda, corpo meu, vá, carcaça velha… Obedece-me…»” (p. 196)
Mas até onde e quando consegue Gladys Eysenach enganar a vida e enganar-se a si própria? Há acontecimentos que a personagem desvirtua e sempre com um único propósito: parecer sempre jovem. Mas conseguirá Gladys alterar o passado sem que este a julgue? Sem que a vida a julgue? Até onde vai a obstinação de Gladys com a perseguição da eterna juventude mesmo quando está a ser acusada de homicídio de um jovem tido por seu amante?
“Jezabel” retrata desta forma a obstinação de uma mulher perante a negação da passagem do tempo e do seu envelhecimento. Irène Némirovsky remete-nos para uma narrativa intimista que nos conduz também nessa viagem que tem os seus momentos altos das paixões e dos amores e da percepção clara de que o Outono chegará inevitavelmente perante as primeiras rugas e os primeiros cabelos brancos.
“Gladys, a vida mais cedo ou mais tarde, extingue em nós as paixões mais ardentes.” (p. 81) “Eu era nova, demasiado bonita, mimada pela vida, pelos homens, pelo mundo, mimada pelo amor…” (p. 171)
Texto da autoria de Jorge Navarro


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Experiências na Cozinha: "Os Segredos da Aromaterapia"

Desta vez a nossa cozinha foi palco de algumas experiências diferentes! Eu a a Palmira somos fãs de óleos essenciais (OE) e daquilo de bom que eles nos podem trazer. Não sei se vocês possuem algum conhecimento sobre isso mas quando se aprofunda este assunto verificamos que é um mundo que se abre! Tanto para aprender!

Já fomos a workshops sobre OE mas um livro ajuda a sistematizar as ideias e melhor que isso: ajuda a pôr mãos à obra! 

Os OE podem ser usados para melhorar a nossa saúde, beleza e com eles podemos fazer, também, alguns produtos de limpeza. Quase todos são usados em pequenas porções (gotas) porque são concentrados e devem ser misturados com outros óleos (jojoba, amêndoas doces, graínha de uva, abacate). Actuam através de massagem ou inalação. 

Fizemos 3 sinergias (misturas) muito fáceis para vos mostrar: uma para o acne, outra para a tosse e ainda outra para a dor ciática. É só misturar os OE com cuidado para não caírem mais gotas que o desejado num óleo de base. Em lista de espera ficou por fazer um creme contorno de olhos e um ambientador.

Os frasquinhos utilizados são muito práticos pois têm um roll-on na ponta e são de 10 ml. Para o do acne juntámos no óleo de grainha de uva, 2 gotas de malaleuca (tea tree), 1 de zimbro e 1 de lavanda. Para o da dor ciática, no óleo de amêndoas doces, juntámos 1 gota de hortelã-pimenta, 1 de oregão e 1 de sândalo. Para o da tosse, ao óleo de graínha de uva juntámos 2 gotas de eucalipto, 1 de lavanda e 1 de frankincense. 

Ficam as fotos: 







Palmira e Cris

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Setembro

Este foi o primeiro sorteio deste passatempo em que premeio os seguidores que comentam no blogue.

Assim, através do Random.Org de todos os comentários efetuados no mês passado, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Belinha Fernandes

Parabéns! Terás que enviar um mail até ao próximo Domingo, dia 6,  para otempoentreosmeuslivros@gmail.com, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:

 


Mais uma vez os nossos parabéns! Recordamos que já começou uma nova contagem desta feita para o mês de Outubro! Poderão recordar alguns pormenores do passatempo aqui!

Boa sorte!

Cris

"Um Amor do Passado" de Kristin Hannah

Depois de ter lido "A Grande Solidão" e "O Rouxinol" as minhas expectativas, ao começar este livro, eram muito altas. Se tivesse reparado que foi escrito em 1996 e que os outros dois eram de data posterior, poderia estar preparada para uma leitura boa mas não tão espectacular como as outras foram para mim.

Alguns acontecimentos revelaram-se bastante previsíveis. Gostei do tema abordado mas o "happy end" esteve sempre comigo quando pensava num final e, por isso, não posso considerar este livro como um dos melhores da autora. Não quero com isto dizer que Kristin Hannah deixou de ser uma das minhas escritoras preferidas. A sua escrita evoluiu muitíssimo e, já aqui, mostrava o seu potencial. 

Aborda vários temas, a saber: os problemas da adolescência, o de se ser mãe solteira, os reencontros com os amores do passado, os problemas de saúde graves que precisam de alterações profundas no estilo de vida e uma questão que já nos anos 90 se colocava e que a ciência não pode responder... até que ponto é que as células possuem memória? Com o transplante de um orgão pode-se afirmar com certeza que nenhumas das características do dador não passam para o transplantado? 

Um livro que prende embora possua um final previsível. Gostei! Mas também quem não gosta, às vezes, de um final assim?

Terminado em 22 de Setembro de 2019

Estrelas: 4*+

Sinopse
Quando Mikaela Campbell, esposa e mãe amada, entra em coma, cabe ao seu marido, Liam, manter a família unida e cuidar dos filhos desolados e assustados. Os médicos dizem-lhe que não tenha esperança que ela recupere, mas ele acredita que o amor é capaz de fazer o que a medicina não consegue. Todos os dias, senta-se ao lado dela, conta-lhe histórias da vida preciosa que construíram juntos, na esperança de que ela acorde. Mas depois descobre provas do passado secreto da mulher: um primeiro casamento escondido com a estrela de cinema Julian True. Desesperado por trazer Mikaela de volta a qualquer custo, Liam sabe que tem de pedir ajuda a Julian. Mas irá essa decisão custar-lhe a mulher, a família e tudo o que estima?


Cris

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A Convidada escolhe: "A Noite Passada"


A Noite Passada, Alice Brito, 2018


A escrita de Alice Brito é única, inimitável, brota com uma autenticidade e naturalidade que nos transporta para os anteriores livros da sua autoria. Alice Brito domina o uso de um vocabulário rico, certeiro, onde o vernáculo não é poupado. De novo a cidade de Setúbal, o recurso aos objectos do dia-a-dia, os ambientes sonoros e visuais dos quotidianos cinzentos do salazarismo embalados e adocicados pelos folhetins. Personagens inesquecíveis. Mulheres subjugadas, submissas, que ainda não são sujeito, mas também mulheres fortes e que crescem quando descobrem a força que têm em si. O sexo que ou é virtude ou é “javardice”. As palavras que ainda não foram descobertas como “sexualidade”. Tanto, mas tanto que aqui podia referir.
Alice Brito faz-nos entrar no universo português dos anos 50, 60 e 70 em dois registos: através do romance propriamente dito e através dos comentários de Luís, Luísa e da filha Mafalda que por vezes medeia as conversas dos pais como se fosse um pombo-correio e, que à medida que a leitura avança, os questiona tentando perceber que papel eles tiveram ou não como protagonistas principais do livro que estão a ler e que estão a partilhar connosco, leitores.
A riqueza do relato das vidas das personagens e dos episódios que se sucedem advém do recurso a detalhes da época que pessoas mais velhas recordarão e que ajudam os mais novos a visualizar o que era então aquele Portugal fechado, atávico e amordaçado. Como comenta Gil, amigo de Luís e Luísa que os acompanha na leitura em primeira mão do romance, “As pequeníssimas minudências do dia-a-dia são os pormenores que dão vida ao quadro, que estão lá atrás, que dão perspectiva. Que ninguém diga que não interessam porque elas são o miolo da História. Sem elas nada fará sentido. Os grandes acontecimentos só são importantes quando se repercutem na vida dos povos. (…) A História não depende só de assinaturas de tratados notáveis. De batalhas heróicas ou consulados divinos. A História faz-se também de pequeníssimos factos por que a gente comum passou. Do dia-a-dia comezinho e sem glória.” Exemplos são muitos: a visita a Portugal da Rainha Isabel de Inglaterra, a morte de Cármen Miranda, os feitos do grande velocista Zatopek nos Jogos Olímpicos de Helsínquia, os folhetins radiofónicos seguidos religiosamente nas casas portuguesas, a chegada da televisão a preto e branco que se via no café, a campanha de Humberto Delgado e a repressão, a PIDE e a tortura. As mudanças sociais da década de 60 – os costumes, a música, a juventude – ao mesmo tempo que começa a guerra colonial que se vai arrastar até 74 e os episódios mediáticos e corajosos de resistência como foi o caso do Santa Maria ou o golpe de Beja. Num país onde as centenas de mortos das grandes inundações de 67 foram objecto de censura, onde a morte saiu à rua e ceifou José Dias Coelho ou Ribeiro dos Santos, programas como o Zip Zip eram o sinal de que a mudança estava a chegar. E ao mesmo tempo em que estes acontecimentos vão surgindo na narrativa, vamos conhecendo as personagens, as suas personalidades, as escolhas que fazem, as suas dúvidas e receios: Amélia, Joaquim, António, Elisabete, Bárbara, Lídia, o Rui Corninho e por fim o pide Amadeu Silveira (vulgo Português Martelão, no Brasil).

“Maravilha Maravilha
Venham ver o barco doido
Sem amarras que o segurem
Pela porta entra a maré
Venham ver o barco doido
Água cai pela chaminé.”

É com este poema de José Afonso que começa a segunda parte do romance. O cinzentismo salazarista e marcelista é substituído pelo alvoroço e alegria do 25 de Abril. A cidade de Setúbal vai vivê-lo intensamente. Os partidos existentes e os que se formam, as associações culturais, os cidadãos que se organizam, que lutam, que aspiram a uma vida decente, a política que se aprende dum dia para o outro, as discussões intensas, os vira-casacas, toda essa memória histórica nos é avivada.
Em “A Noite Passada” Alice Brito traz-nos a sua visão desse período particular vivido pela cidade de Setúbal e sente-se que ela também está lá neste seu terceiro romance de amor à liberdade, a Setúbal e de ódio visceral ao fascismo.

19 de Setembro de 2019
Almerinda Bento



domingo, 29 de setembro de 2019

Ao Domingo com... Márcia Balsas


Comecei nos contos.

Uma vida de leitura às costas quando me perdi por eles, os contos. Quanto mais descobria mais tinha vontade de ler, de fazer igual. Os contos fizeram-me dar o salto necessário para começar a escrever.

O meu primeiro romance já voa por aí e eu pensei em partilhar um pequeno conto com os leitores do "Ao domingo com..."

Obrigada ao Tempo entre os meus livros e à Cristina Delgado por esta oportunidade.



Márcia Balsas

sábado, 28 de setembro de 2019

Na minha caixa de correio

  

 
Entre as ofertas das editoras e o que comprei, foram estes os livros que me chegaram esta semana! Obrigada, editoras lindas!

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

"Raparigas Como Nós" de Helena Magalhães

Depois de muito ouvir falar deste livro da Helena, tanto mais que sigo no Instagram o HM Book Gang, lá peguei nele para concluir o desafio do #alervamoschamarmaisverão, um desafio que nos faz procurar nas nossas estantes, livros que comecem por determinadas letras. Precisava de um começado por R. Este foi o escolhido.

Considero-o um YA (young adult), o que não é muito a minha praia, mas, confesso que o livro lê-se num ápice! Pareceu-me que tinha muitas vivências da autora, dos seus amigos, e retrata a adolescência de Isabel, seus amigos e os seus amores. O retrato de uma época, final dos anos 90, bem elaborado, e ainda não tão distante assim, em que se vivia sem a pressão das redes sociais que se verifica hoje. Mas já aí as drogas eram "a vida" de muitos jovens. E a morte também. Isabel, Simão, Afonso, Alice são personagens que nos fazem recordar amigos que tivemos. Alguns permanecem, outros não. Alguns cresceram, outros já cá não estão. 

Referências musicais e literárias são feitas com frequência o que, para quem é mais velho, faz todo o sentido e dá prazer recordar.

É muito fácil ficar preso à escrita da Helena e as páginas voam. Amores da adolescência que nos fazem recordar pormenores da nossa vida. Um livro de verão, leve e pesado ao mesmo tempo mas cativante, lido na praia, para aproveitar os dias de sol que ainda restam deste verão tão incerto.

Terminado em 15 de Setembro de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Uma história de amor irresistível, que é também o retrato de uma geração que cresceu sem redes sociais. Pode uma paixão da adolescência marcar o resto da vida?

Festivais de Verão, tardes na praia, experiências-limite com drogas, traições e festas misturam-se com amores improváveis e velhas amizades. Um romance intemporal nos cenários de Lisboa, Cascais e Madrid, que mostra tudo o que pode esconder-se atrás da vida aparentemente normal de uma rapariga… como tu.

«Beijamo-nos ao som daquela música que ouvia em casa sozinha deitada na minha cama. Durante o resto da vida, não importaria o que estivesse a fazer ou onde, quando ouvisse os primeiros acordes […], recordar-me-ia do olhar do Afonso fixado em mim, da sua mão no meu rosto, do meu coração a tremer e de me sentir a rapariga mais feliz do mundo. Porque Lisboa está cheia de bares a abarrotar de miúdas bonitas que, num piscar de olhos, se colocariam de gatas a ronronar nas suas pernas. Mas ele viu-me a mim.»

«Se algum dia se sentirem sozinhas, estranhas, deslocadas do mundo que vos rodeia, lembrem-se da Isabel, da Alice, da Luísa, da Marina e até da Marisa das argolas… Raparigas como nós.»

Cris

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

A Convidada escolhe: "Pão de Açúcar"


Pão de Açúcar, Afonso Reis Cabral, 2018

Afonso Reis Cabral já me surpreendera aquando do seu primeiro livro “O Meu Irmão”, pela forma séria como tratou a realidade das pessoas com síndrome de Down e os desafios que se colocam às famílias na sua forma de se relacionarem com essa realidade no que respeita aos direitos e necessidades das pessoas que são diferentes.
Em “Pão de Açúcar” Afonso Reis Cabral agarra um acontecimento ocorrido no Porto em 2006 – o assassinato de Gisberta – e transforma-o numa obra de ficção. Na nota prévia, o autor apresenta-nos um rapaz que trabalha numa oficina de bate-chapas, mas que tem o sonho de um dia ser marceneiro – o Rafael Tiago – que o abordou numa sessão de “escritor-caixeiro-viajante”, lhe entregou uma pasta cheia de documentos e lhe pediu que fizesse um romance com aquilo. “Ele esperava que a minha escrita realçasse a beleza, o tal chorar de ternura e não ligar ao que dizem.” Seguiu-se todo o trabalho de organizar aqueles papéis, o trabalho de campo e investigação dos factos e “depois baralhei com ficção, que é como se faz um romance.”
É ficção, mas ajuda-nos a compreender o incompreensível; a perceber os contextos; a desvendar as histórias de vida; a conhecer os percursos da Gi, do Rafa, do Samuel, do Nélson, do Fábio, do Grilo, do Leandro, da Alisa… Das vidas que não são cor-de-rosa nem a preto e branco. De como os estereótipos e os preconceitos nos condicionam e de como a sociedade os inculca em nós, condicionando-nos nas nossas atitudes e nos nossos actos. Em “Pão de Açucar” está lá tudo: o abandono, a segregação, a violência como norma, a miséria, “as famílias de merda”, a marginalidade, a fuga à escola, o andar ao deus dará armado em durão, a institucionalização, a sobrevivência.
No meio de tanto abandono e falta de carinho, para um rapaz que mal tem 12 anos, conseguir manter-se à tona poderá ser tornar-se dono de uma bicicleta sem préstimo que alguém deitou para o lixo e restaurá-la, ou roubar a chave do sótão do internato para desvendar os segredos lá escondidos, ou dizer por desenhos o que não se consegue dizer por palavras, ou servir-se da força física para exercer poder e estabelecer a hierarquia dentro do grupo, ou ter um esconderijo que seja só seu, mesmo que não passe de um lugar sujo. “Em 2006, havia muito que ninguém prestava atenção à ruína que fora um quarteirão do século XIX e que teria sido um hipermercado do Pão de Açúcar.”
E depois são as dores do crescimento, as contradições de quem tem de fazer pela vida, mas não tem chão onde pôr o pé. Quer-se ser amado, mas repudia-se um simples gesto de carinho.
Tem-se nojo, mas depois é-se atraído como por um ímã. Quer-se guardar segredo, mas depois tem que se mostrar que também se é dono de uma raridade.
Afonso Reis Cabral dá-nos isto com mestria, em imagens vivas, em vislumbres subentendidos, em cenas de poesia e beleza, carregadas do vernáculo e expressões do quotidiano de rapazes na adolescência. Numa fase em que se anda à deriva, em que os corpos estão a descobrir que uma tatuagem ou o tocar da pele podem queimar, a descoberta de um corpo esquisito agora muito fraco, mas que já foi poderoso e desejado, com uma história de luta e de afirmação, de resiliência e sobrevivência, como responder a tanto questionamento quando não há ninguém que nos ouça e que nos embale?
Vale a pena ler “Pão de Açúcar” não só para lembrar Gisberta, as Gisbertas, mas para perceber que a luta contra a transfobia e a homofobia não se compadece com vagos encolher de ombros ou assobios para o lado. Requer um processo de educação profundo, um respeitar as diferenças, as identidades, o humano na sua diversidade e beleza.
Termino, com algumas citações retiradas ao longo da leitura de “Pão de Açúcar” e esta notícia do “Observador” de 22 de Fevereiro de 2016: “Dez anos depois, o que é feito daqueles jovens? E da instituição? E do prédio abandonado onde Gisberta morreu? E da família da imigrante? Quem era, afinal, aquela mulher? E o que é que a sua morte deixou?”

(…)

“De certo modo estava-lhe agradecido. Até então, ninguém elogiara uma coisa minha, um trabalho destas mãos. Supus que as mães faziam igual: deixavam bilhetinhos por todo o sítio para os filhos lerem.”(pág. 59)

“… os contos da Gi eram como desenhos com palavras.”(pág. 105)

“Aquilo de querer que os outros vissem como ele, no fundo, é o que toda a gente quer: que os outros nos compreendam. Mas uns podem e outros não.” (pág. 180)

“Engraçado como aos doze anos até circunstâncias de merda permitem camaradagem.” (pág. 201)

Mouriscas, 9 de Agosto de 2019

Almerinda Bento


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Experiências na Cozinha: "Temperos da Argas"

Hoje trazemos uma compota! Fácil de preparar, rápida e saudável porque não possui açúcar refinado. Precisamente por isso deve ser consumida num prazo de cinco dias e conservada no frigorífico. Mas podem-lhe dar mais uso que no habitual "pão com doce". Experimentem juntar um pouco de compota num iogurte natural. Se não consumirem leite ou derivados, juntem-na ao vosso iogurte vegetal preferido.

Nós colocámos os ingredientes na Bimby e ao fim de 25m estava pronta. Agora é usar e abusar! Para a próxima vamos fazer de frutos vermelhos. 

Este livro é composto por receitas sem glúten e com pouco açúcar refinado que a Márcia, a autora, por ter uma doença auto-imune, foi seleccionando e experimentando. Ela viu resultados na sua saúde. Porque não  dar uma olhadela?

Espreitem aqui:









Palmira e Cris