Cris
Um gigante menino que nasceu com pés pequenos e que não cresciam na devida proporção, é alvo de chacota dos seus pares. Tinha pés de princesa e sofria muito com os risos que ouvia quando passava. O pior é que não se ficavam só pelos risos! De tal forma que pensou em desistir!
Contar uma história que parece pertencer a um mundo imaginário para falar com as crianças de um problema actual - o bulling - não é algo inédito mas é necessário. Cada vez mais necessário mostrar como se pode dar a volta à questão, mostrar que há outras formas de resolver o assunto e que podemos pedir ajuda.
Ilustrações supimpas! Espreitem aqui:
Cris
Primeiro porque o enredo conquista logo ao fim das primeiras páginas. É completamente diferente daquilo que já li e foi uma das coisas que me encantou. A sua originalidade.
Depois, a forma delicada como é tratado o tema que serve de pano de fundo (a morte), faz com que o leitor a "entenda", tanto quanto se consegue entender tal fenómeno. Não é tratada de forma melodramática mas a autora consegue com mestria transmitir uma percepção real da dor da perda.
A personagem principal é maravilhosa. A frágil e corajosa Violette.
Analepses constantes poēm-nos a par dos segredos do passado de Violette e das restantes personagens que giram em torno dela tanto mansamente como tempestivamente. Julian, Sacha e Phillipe, os homens da sua vida.
As revelações são feitas com parcimónia. Algumas vezes delicadamente, outras com uma fúria devastadora que nos interrompe a leitura e nos faz voltar atrás. Tudo encaixa e as surpresas vão até ao final. Não há momentos desinteressantes, tudo se completa, tudo mantém o leitor preso.
Para ler obrigatoriamente!
Terminado em 31 de Março de 2022
Estrelas: 6*
Sinopse
Violette Toussaint é guarda de cemitério numa pequena vila da Borgonha. A sua vida é preenchida pelas confidências - comoventes, trágicas, cómicas - dos visitantes do cemitério e pelos seus colegas: três coveiros, três agentes funerários e um padre. E os seus dias pareciam ser assim para sempre. Até à chegada do chefe de polícia Julien Seul, que quer deixar as cinzas da mãe na campa de um desconhecido.
A história de amor clandestino da mãe daquele homem afeta de tal forma Violette, que toda a dor que tentou calar, toda a tristeza pela morte da sua filha vêm ao de cima. É tempo de descobrir o responsável por aquela tragédia.
Atmosférico, tocante e - tantas vezes - hilariante, este é um romance de vida: dos que partiram e vivem em nós, da luz que se pode revelar mesmo na mais plena escuridão. Porque às vezes basta a simplicidade de um gesto, basta a frescura da água viva para nos devolver ao mundo, a nós mesmos e aos outros. «Um romance maravilhoso.»
Cris
De cada vez que leio Valter Hugo Mãe percebo que estou a entrar num mundo muito próprio, em que a língua se transfigura e em que as personagens têm de ser lidas para além da capa exterior que as cobre. Comecei com o Sr. Silva e os companheiros de fim de vida no lar “Feliz Idade” em “a máquina de fazer espanhóis”(2010); seguiu-se Halla nos fiordes da Islândia, a sobreviver à morte da irmã gémea em “A Desumanização”(2013) e depois, o mais perturbador de todos, “o remorso de baltazar serapião” (2006) que lhe valeu o prémio José Saramago e que o Nobel classificou de “tsunami”.
Depois de algum tempo sem ler nenhum romance deste autor – para além das crónicas com o título Autobiografia Imaginária no JL – e porque já três novos livros de Valter Hugo Mãe se amontoavam na pilha dos “a ler/oferecidos”, foi a vez deste “Homens Imprudentemente Poéticos”. E quem são estes homens imprudentemente poéticos? Dois vizinhos num Japão antigo, o artesão Itaro e o oleiro Saburo, que criam uma inimizade incompreensível, como tantas vezes acontece. O artesão na arte de fazer leques é um homem obstinado, obcecado em fazer premonições sobre acontecimentos futuros, a partir da morte de animais/insectos. O oleiro, também ele um homem obstinado, pensando que conseguia salvar a mulher da morte que lhe havia sido profetizada por Itaro, faz crescer o jardim pela floresta adentro. Além destes dois homens que são afinal as personagens principais do romance, as figuras femininas são Matsu “que faz parte das pessoas diferentes” (pág. 47) é a irmã cega de Itaro, cuidada pela criada Kame. A senhora Kame, que tinha sido acolhida pela família do artesão, é a pessoa cuidadora, protectora, que está sempre presente em função dos outros “era um bicho domesticado. Viam-na com o carinho que se dava aos gatos enamorados por seus donos”.(pág. 38). E por fim, a senhora Fuyu, a mulher do oleiro Saburo, cuja presença ele teima em manter mesmo depois de morta, usando o seu quimono como espantalho nos canaviais, para afugentar os pássaros e, se possível, para a fazer voltar.
Como acontece com todos os livros de Valter Hugo Mãe, este é também muito visual. A floresta, lugar mágico povoado de bichos onde os suicidas procuram a sua morada derradeira, as violetas, as cerejeiras em flor, as flores do jardim, o lago Biwa e os seus peixes e, especialmente, o poço. A cena do poço no fundo do qual Itaro vai permanecer “sete sóis e sete luas” vai ser um lugar de descoberta, onde experiencia a mais profunda escuridão igual à cegueira da irmã e onde vence na luta contra o medo. É um dos capítulos mais intensos, assim como os três capítulos sobre a irmã Matsu que constituem a terceira parte do romance e que são duma enorme beleza poética.
Termino com alguns excertos para mim muito significativos:
“Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo. Sentindo-lhe carinho.” (pág. 165)
“… o artesão cerrou os olhos, ainda mal acostumado à abundância da luz, e sentiu-se confortável no escuro. Educara-se para o escuro. De verdade, sentiu nenhum medo da cegueira. Considerou que ficar sem ver era da ordem da limpeza. E o sábio disse: inclui-te naqueles que frequentam a universalidade.” (pág. 166)
“Ela sabia apenas da beleza das palavras porque era com elas que se explicava o mundo.” (pág. 174)
“A cega, mais do que nunca, entendia o que era conhecer alguém e começava a dizer: conheço-te. Era a maneira mais exacta que tinha de afirmar que o via.” (pág. 177)
“Obstinado com pintar um novo leque, na expectativa do que lhe mostraria, tanto quanto outrora ansiava por saber o que veria no morto de algum bicho.” (pág. 183)
“Contava-se que saíra do poço tão imprudente quanto mágico.” (pág. 184)
“E Itaro pintava, demorava-se absurdamente a ver cada leque, e subitamente regressava à necessidade de pintar. Era inesgotável. Ele dizia. Que o deslumbre nunca se eternizava.” (pág. 184)
“… sei pouco, sei que há algo mais para saber. Pressentia que a arte era uma revelação, assentava numa suspeita mas nunca garantiria que resultado teria, afinal. Estava diante de um pressentimento de haver algo para descobrir mas faltava-lhe conhecer o quê. Apenas os leques, leque a leque, o levariam utopicamente mais além”. (pág. 185)
28 de Março de 2022
Almerinda Bento
Fiquei parada a experienciar várias emoções depois de ter terminado este
Mas, apesar do tema forte, achei-o tão bonito! Se não bonito, já que pode ferir susceptibilidades, pelo menos forte. Sem nos apelar à compaixão mas chamando pelos nomes tudo aquilo que uma pessoa passa quando se vê perante um prognóstico de finitude.
Duas estórias são-nos relatadas. Uma professora a quem lhe é detectado um cancro na mama e a história de amor de seus bisavós, Álvaro Amândio e Madalena Brízida, que ela, no decorrer da sua doença vai descobrindo através de uma centena de cartas que vai lendo.
E digo ela porque ja não recordo o nome desta personagem que em jeito de confidência vai falando de si e da descoberta da história de seus bisavós. É importante o seu nome? Não creio (tampouco sei se o foi referido na obra!). O tom é intimista. Em jeito de confidência, nalgumas partes, a narradora vai descobrindo os segredos que encerraram a relação dos seus bisavós e a forma como as atitudes de Madalena foram criticadas pela família.
Gostei muito da história em si e da escrita também. Cuidada sem ser pretensiosa, que se lê muito bem embora tenha ido procurar um ou dois termos ao dicionário, porque quando não sei nada é melhor... Achei engraçado como a autora colocou no meio da narrativa o nome dos seus anteriores livros, facto que pode passar despercebido a quem ainda não os leu. Há um que preciso com urgência de lhe pegar, o "Rua de Paris em Dia de Chuva".
Terminado em 22 de Marco de 2022
Estrelas: 5*
Sinopse
E se?
O mau (e o bom!) deste livro é que João Reis, tendo criado um mundo distópico, ele não é suficientemente longínquo para que consigamos entrar na história sem nos perguntarmos o que poderia acontecer connosco se fossemos afetados pelos mesmos problemas. Sobretudo porque muito do que é referido é assunto recorrente nos nossos dias.
E se?
São várias as personagens que dão voz a esta trama, às vezes apenas brevemente, outras de uma forma um pouco mais longa mas nunca deixando que os capítulos se alonguem muito. Leem-se, pois, de uma rajada. No entanto, a voz de Sara sobrepõe-se às outras. É o elo de ligação entre todas as personagens. Confesso que, pela sua história, foi a que mais me agarrou.
E se?
Neste mundo distópico a seca é extrema, as guerras sucedem-se, o número de refugiados multiplica-se a cada dia. Sara é mãe de Mariana e tenta não se apartar demasiado dela. Depois de algumas dias num terminal de aeroporto sueco, foram para um campo de refugiados. Mariana escreve o que se passa ao seu redor num caderno que possui. Escreve para si embora se dirija a Emanuel. Emanuel, seu companheiro e pai de Mariana, foi feito prisioneiro de Jonas e do seu grupo paramilitar. Não conseguiu apanhar o avião com elas. Dentro do campo, com a escassez de alimentos, de água e de roupas que se faz sentir, as pessoas mostram o seu melhor e o seu pior também.
E se? E se tudo o que estamos a viver se complicar ainda mais?
Gostei muito deste livro. Pela escrita concisa, pela história tão actual. O final não podia ser outro. Quem sabe como, quando e se vai acabar esta guerra dos homens contra os homens e contra a natureza?
Parabéns, João Reis, por esta obra! Espero bem que não acertes em cheio e que o mundo em que vivemos não se transforme numa guerra entre pessoas chefiadas por loucos, porcos e maus.
Terminado em 18 de Março de 2022
Estrelas: 5*
Sinopse
Num romance composto a múltiplas vozes, é feminina a voz que se
sobrepõe, através do fio condutor de um caderno onde regista o seu dia a
dia de refugiada na companhia da filha. O destinatário dos seus
apontamentos é o marido, em parte incerta, e somos nós quem os lemos.
São portugueses estes refugiados.
O Estado português dissolveu-se, e o território está sem lei. Deram-se
as Guerras Meridionais da Água, o Primeiro e o Segundo Eventos, e até
uma pandemia de rex-vírus 3, que se espalhou pela Europa, pelo Médio
Oriente e pelo Norte de África. Os países do Norte fecharam as
fronteiras e interromperam o apoio financeiro que vinham a dar aos
países do Sul da Europa, a «taxa do deserto». A seca é extrema.
Uma narrativa distópica de leitura compulsiva a partir da primeira
linha. Um romance construído com grande mestria e com um desenlace
surpreendente.
Cris
Muitas personagens que guardam segredos de uma vida dupla e que não sabemos a ligação que têm entre si baixou um pouco o meu entusiasmo, nos primeiros capítulos. Os flashes premonitorios também me confundiram um pouco mas o ritmo não quebrou e rapidamente Kadja e Hannah, as duas personagens centrais desta série dominaram mas enquanto Hannah demora a revelar-se, Kadja não perde tempo e a meio do livro já estamos arrebatados com as aptidões e inteligência desta personagem. Nesta fase o suspense e a adrenalina aumentam. Os assassinatos em massa também ajudam. 😆 E estamos num nórdico ao melhor nível, impararável até ao empolgante desfecho em que como não podia deixar de ser ansiamos por continuar a ler no próximo livro.
Vera Sopa
Os clubes de leitura fazem de nós leitores diferentes. Há livros que nos chegam mais rapidamente às mãos porque algum desafio proporcionado pelo clube assim o ditou. Claro que a escolha final é sempre nossa mas abrimos essa porta devido a algumas directivas que o clube sugere e isso é muito bom! Lemos livros que de outra forma não leríamos tão cedo.
Já não me lembro há quanto tempo não lia nada de Agatha Christie! Claro que a leitura se fez célere e foi sem surpresa que cheguei à conclusão que a dita senhora tinha uma imaginação de se lhe tirar o chapéu! Não cheguei nem próximo de descobrir o assassino mas que piada teria se o fizesse, não é assim?
Dez pessoas são convidadas para passarem umas férias numa ilha, a Ilha do Preto. Não conhecem diretamente o proprietário mas as razões são múltiplas para terem aceitado o convite. E aqui começam os "acidentes". Desde o conhecimento que o proprietário está atrasado até à morte de um dos convidados vão poucas horas. E depois mais um e mais um...
O leitor não sabe mais que os personagens e as hipóteses por eles colocadas fazem sentido. Só que não. Para baralhar ainda mais o leitor estão dez figuras negras na mesa da sala que vão desaparecendo conforme os convidados morrem...
E fica aqui uma recomendação de um livro de um género que pouco leio mas que me deu muito prazer porque se devora, entretém muito e, sobretudo, porque me dá a conhecer uma outra hipótese, outra solucão para a resolução do mistério. Porque na vida, muitas vezes, há outras hipóteses, não é?
Terminado em 12 de Março de 2022
Estrelas: 5*
Sinopse
Dez desconhecidos, que aparentemente nada têm em comum, são atraídos pelo enigmático U. N. Owen a uma mansão situada numa ilha da costa de Devon. Durante o jantar, a voz do anfitrião invisível acusa cada um dos convidados de esconder um segredo terrível, e nessa mesma noite um deles é assassinado. A tensão aumenta à medida que os sobreviventes se apercebem de que não só o assassino está entre eles como se prepara para ir atacando uma e outra vez… É uma obra-prima de terror. Restará alguém para um dia contar o que de facto se passou naquela ilha?
Cris
Confesso que nunca tinha ouvido falar desta Novela Gráfica nem do livro que lhe deu origem. Foi num grupo de leitura que falaram dele e da autobiografia de Albertine. Fiquei muito curiosa e pretendo ler o livro. Como na biblioteca tinham disponível esta GN trouxe-a comigo.
Resultado: mais curiosa fiquei e mesmo sabendo agora (e vendo as imagens tão expressivas!) como foi complicada a vida de Albertine, creio que o livro escrito pela própria mão poderá trazer novos desafios de leitura.
Em relação à arte desta GN o facto de ser a duas cores traz, a meu ver, ainda mais força à história de vida tão turbulenta de Albertine. Há imagens verdadeiramente assustadoras que completam vivamente os aspectos da sua vida. Foi uma mulher que viveu muito à frente do seu tempo e que partiu cedo mas desde cedo foi marcada por acontecimentos trágicos que em muito ajudaram na sua ânsia tão intensa de viver.
Ah, e para quem não sabe, "astrágalo" é o nome de um osso da perna que Albertine partiu ao saltar quando fugia da prisão onde se encontrava... e as peripécias não ficam por aqui porque a vida desta autora foi realmente muito atribulada!
Lerei o livro em breve. Ou tentarei, pelo menos! Pesquisando no blogue vejo que o Jorge me presenteou com uma opinião, da qual não me lembrava, e que deixo aqui. Foi para isso que criei este blogue e ao fim de mais de 10 anos ainda serve o objectivo...
Terminado em 7 de Março de 2022
Estrelas 4*
Sinopse
Bonnie encontrou Clyde... Sailor sucumbiu a Lula... e Anne encontrou Julien.
Anne tem 19 anos, e parte um osso do tornozelo
chamado astrágalo, ao saltar a parede da prisão onde está presa por
assalto. Salva por Julien, um ladrão como ela, Anne irá esconder-se,
sofrer, rebelar-se, voltar a fugir, tanto faz, está loucamente
apaixonada por Julien.
Estavam em fuga, são jovens e bonitos, são
livres e totalmente, furiosamente selvagens... E a sociedade autoritária
do pós-guerra da França vai fazer-lhes pagar o preço dessa liberdade.
Cris
Este não foi o primeiro livro que li da autora mas até agora foi o que mais gostei. O tema que aborda é-me familiar e senti alguma empatia e proximidade com alguns aspectos focados. A capa possui os tons quentes de África, os tons que a terra pode adoptar e fiquei logo encantada tanto com ela, como com o título e a frase que o completa. Não era preciso mais nada para o ler!
A história prende. Auto ficção?, perguntei-me. Não é importante saber mas fiquei a pensar que sim. Esta obra conta-nos a história de duas mulheres, mãe e filha, que têm ou tiveram Africa no seu coração ou, pelo menos, nas suas raízes. Porque se muitos factos são ficção, alguns constituem o passa-a-palavra, tão habitual em quem sofreu grandes perdas.
A filha Filomena, de 42 anos, luta com o sentimento de perda do seu companheiro num acidente. Após cinco anos ela própria acha que já devia ter assimilado essa perda e, contudo, os sonhos perseguem-na não lhe dando noites tranquilas. Estamos em 2015. Entre trabalho e cuidar do filho pequeno, os dias passam monótonos. Os pais são a sua bengala.
Ao mesmo tempo, o passado dos pais, Brígida e Alberto, desde 1961, é intercalado na narrativa. Filomena descreve o que sabe e o que não sabe, supõe. Filomena escreve.
Gostei muito desta história. Sem pontas soltas, com personagens credíveis e com aspectos muito jnteressantes da guerra em África que, se não verídicos, pelo menos plausíveis.
Aconselho!
Terminado em 7 de Março de 2022
Estrelas; 5*
Sinopse
ATÉ ONDE TERÁ DE IR UMA MULHER PARA SABER DE QUE É FEITA?
Gente Feita de Terra conta a história de duas mulheres, mãe e filha, dos anos 60 até ao início do século XXI.
A mãe parte jovem de um Alentejo sem futuro, perseguindo um amor na Angola colonial portuguesa, que de princípio a recebe como lhe pertencesse, para depois a expulsar, como a todos, em desespero, mostrando-lhe que a pertença não passara de ilusão.
A filha é uma jovem viúva que habita a Lisboa suburbana do nosso século, rápida e desenraizada, e que na história da mãe tenta perceber a que lugar pertence.
Gente Feita de Terra transforma, num estilo clássico e bem elaborado, as histórias recentes de Portugal e Angola, com as suas violentas atribulações, em sentimentos, sensações, sentidos de uma grande riqueza.
Serão os lugares o que as pessoas deles fazem, ou serão as pessoas o resultado dos lugares?
Cris
Este livro faz uma analogia entre as árvores e as pessoas. E que bela ideia! "Sê uma árvore", lê-se logo na primeira página. Estica os teus braços para o sol, podes chegar bem alto. Podes chegar onde quiseres. E é esta ideia que perdura no livro todo. Podes ser quem tu quiseres, chegar bem alto e ao mesmo tempo, criar raízes fundas que te ajudam a percorrer esse caminho.
Não precisas de ser igual a ninguém, há árvores de todas as formas mas o essencial está lá. E não estás só. "Por isso, sê uma árvore. Porque juntos, somos uma floresta." A breve informação que a autora dá nas suas notas finais foi, na verdade, uma aprendizagem importante. Fiquei curiosa com o referido sobre as árvores, a forma como se ajudam entre si como membros de uma família. Nada ligada às ciências, foi informação que já não possuía nem me lembrava. Fiquei curiosa com o livro referido pela autora sobre esse tema, "A Vida Secreta das Árvores" de Peter Wohlleben.
Gostei muito do mote deste livro e demorei-me nas suas ilustrações tão bem pensadas, tão certeiras na forma de completar o texto.
Cris
Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.
Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionado um vencedora! Foi ela:
Alexandra Guimarães
Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 25, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:
Coincidiu também que a Tânia era convidada da Biblioteca Cosmelli Sant'Anna onde se iría falar sobre esta obra. Estavam reunidas as condições para este livro passar à frente da pilha, daquela pilha, que quase chega ao céu, dos livros que quero ler. Foi um encontro muito bom com leitores muito participativos.
Um livro que retrata a amizade de duas mulheres que o destino separou. Duas famílias distintas separadas por um oceano (Itália e Estados Unidos), por vários desencontros e que tem como pano de fundo a História de Itália no séc XX.
Uma história contada através de analepses várias. Nessas passagens do presente para o passado e vive-versa, não se perde o fio condutor e, sinceramente, não consigo escolher qual desses espaços temporais mais gostei de conhecer. A autora sabe captar e manter a atenção quer com pormenores, quer com descrições mais profundas dos ambientes vividos.
Gostei muito desta obra e recomendo sem reservas!
Terminado em 25 de Fevereiro de 2022
Estrelas: 6*
Sinopse
O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino, 1947
Gosto sempre de ler um livro com um prefácio que me ajude a contextualizá-lo nas suas várias facetas. Em 1964 Italo Calvino fez um prefácio para o seu “O Atalho dos Ninhos de Aranha”de 1947. É um longo prefácio em que por várias vezes retoma a frase inicial “Este romance foi o primeiro que escrevi”. Escrito pouco depois da Libertação e da sua experiência como membro da Resistência à ocupação nazi, Calvino reflecte que o livro resulta da energia e da alegria do fim da guerra, da necessidade de verter para o papel a força da oralidade sem limites naquela época, de não querer pôr-se no papel de narrador que escreve as suas memórias de partigiano, pelo que decidiu que enfrentaria o tema “não de caras mas de esguelha. Devia ser tudo visto pelos olhos de uma criança, num ambiente de garotos e vagabundos. Inventei uma história que ficasse à margem da guerra de resistência, dos seus heroísmos e sacrifícios, mas que ao mesmo tempo nos transmitisse a sua cor, o sabor áspero, o ritmo…” Inconformista, avesso às directivas, cartilhas e imagens formatadas e normativas de conduta e militância, escolheu esse garoto – o pequeno Pin – antítese do herói socialista e do romantismo revolucionário, alguém que estilhaçasse os conceitos de herói e de consciência de classe.
O livro é dedicado a Kim – grande amigo e companheiro da Resistência de Italo Calvino – sendo que no capítulo IX a sua personalidade e características de dirigente político rigoroso e analítico são vertidas, dando um tom ideológico que corta, até certo ponto, o fio da narrativa em que Pin e os partigiani são os protagonistas. Pin é a criança que cresce de forma um tanto ou quanto selvagem, sem regras, sem amor, que mascara a sua solidão e desamparo com provocações aos mais velhos, a sua forma de entrar no mundo dos homens e de se sentir um deles. Ele quer ser acolhido pelos grandes, pelos homens da taberna, pelos partigiani, é coscuvilheiro, desvenda os segredos do bairro pobre, canta canções que os homens gostam de ouvir. Para os homens da taberna, Pin é importante porque é irmão da Morena do Beco Comprido. Para Lupo Rosso, Pin é importante porque tem uma arma, escondida num lugar único, mágico, que só ele conhece – o atalho dos ninhos de aranha – a sua única riqueza. Quando é confrontado com a possibilidade de desvendar onde fica esse atalho que leva à arma escondida, Pin hesita porque “o lugar dos ninhos de aranha é um grande segredo e é necessário que seja um verdadeiro amigo, em tudo e para tudo” (pág. 92)
Só há um homem de entre todos aqueles que olha para Pin como uma criança que precisa de carinho, ele também adulto carente. “Primo o grande, doce e cruel Primo” (pág. 211) é o único que “o leva pela mão, aquela grande mão, macia e quente como pão.” (pág. 226).
No prefácio, Italo Calvino escreve a certa altura “A Resistência representou a fusão entre paisagem e pessoas” (pág. 12) . Na minha memória, os bosques, os esconderijos, as casas abandonadas onde homens sujos se amontoam, o vale, os viveiros de cravos, os campos de rododendros, a preocupação dos homens ao encontro da coluna dos alemães: “É um dia azul como os outros, tão azul que quase faz medo, um dia com cantos de passarinhos que quase faz medo ouvir.” (pág. 189).
Um livro lindíssimo.
3 de Março de 2022
Almerinda Bento