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segunda-feira, 29 de abril de 2019

"Em Queda Livre" de Jennifer Weiner

Adoro quando um livro supera as minhas expectativas! É certo que peguei nesta obra pensando que seria uma leitura leve e fresca para contrabançar as leituras pesadas que tenho feito ultimamente... Por isso achei que ela não me traria mais do que umas boas horas de descontração! 

Digo-vos já que a capa engana, tanto mais que, com as flores que ela tem, não reparei nos comprimidos cor de rosa, um pouco escondidos. Agora que o acabei de ler, consigo achá-la mais apropriada do que quando peguei nele. Teria escolhido algo diferente, isso é ponto assente! Mas creio que os comprimidos simbolizam a adição de que fala o livro e a fina chávena, o ambiente onde ela se difundiu. Mas passo a explicar:

Allison tem uma vida ocupada. A filha, a casa enorme, o blogue de sucesso crescente... A sua vida é um corropio para conseguir chegar a todo o lado. As dificuldades económicas e profissionais pelas quais o marido está a passar acrescentam mais peso nos seus ombros. Até que um comprimido para os seus problemas das costas a deixa mais leve e com mais capacidade de trabalho...

Daí à adição foi um caminho de que ela só tomou consciência muito tempo depois quando o seu foco principal era arranjar formas de comprar mais comprimidos. No entanto, ela era diferente, certo? Conseguia fazer a sua vida sem que ninguém desconfiasse e sem grandes paragens! Conseguia, certo?

A autora, com a sua escrita simples, sincera e descomplicada, fez com que me sentisse perto e, ao mesmo tempo, longe da personagem principal. Que sentisse empatia e compaixão e, por outro lado, que me apetecesse abaná-la. Senti-me no meio daquela família, no meio das suas desculpas e, posteriormente, da sua luta. 

O enredo passa-se na América. Com as devidas diferenças posso afirmar que poderia passar-se aqui ao nosso lado. Achei-o verosímil. Os meus parabéns!

Queria parabenizar a autora, também e sobretudo, por ter conseguido expressar tão bem através de Allison o que devem sentir todos os que sofrem de alguma adição. Expressões como "Estava a planear reduzir o consumo... Mas não agora!", "Eu consigo parar mas não tenho de o fazer neste momento", devem estar presente nos pensamentos de qualquer adito. Creio que a autora soube, com mestria, traduzir por palavras a negação sentida por todos. "Eu sou diferente daqueles que me rodeiam, não sou assim, não desci tão baixo, nunca poria a vida de ninguém em perigo, muito menos a da minha filha."

Um livro que recomendo sem dúvida nenhuma! 

Terminado em 21 de Abril de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Allison Weiss, a protagonista de «Em Queda Livre», poderia ser a nossa mãe, uma amiga, uma mulher que conhecemos ou até nós mesmas (caso seja uma mulher que esteja a ler este texto, neste preciso momento). Allison Weiss tem um marido bem parecido, uma filha adorável, um emprego que adora e uma casa grande nos subúrbios. É a típica mãe trabalhadora que tenta conciliar a família com o trabalho. Tudo parece estar no sítio certo. Mas será que está? O que se esconde por trás daquela vida aparentemente perfeita?

Cris

sábado, 27 de abril de 2019

Na minha caixa de correio

  

  

  

  

  


Oferecidos pelas Editoras parceiras:
- Tubarões Voadores (Bertrand)
- Contador de Histórias (Bertrand)
- Picos (Arte Plural)
- Livro das Horas (Temas e Debates / Círculo Leitores)
- Receitas para um Superintestino (Nascente)
- A Avó que percorreu o mundo de bicicleta (Presença)
- Magalhães (Presença)
- O Céu é para quem não desiste de voar (Manuscrito)

Comprados num alfarrabista:
- O Silêncio das Águas
- Três Desejos
- 28 Livros para te encontrar
- A Mulher que Correu Atrás do Vento
- As Regras da Cortesia
- Tráz-me de Volta
- Talvez para Sempre

Comprado numa livraria:
- Frida Kahlo

sexta-feira, 26 de abril de 2019

A Escolha do Jorge: "As Moscas de Outono”



Tatiana Ivanovna murmurou: «Em nossa casa…», e calou-se. De que servia? Tinha-se acabado há muito tempo… Estava tudo acabado, morto…” (p. 75)
Irène Némirovsky (1903-1942) é uma das mais importantes escritoras do século passado, cujo nome voltou a ser recuperado na sequência da descoberta do manuscrito inacabado de “Suite Francesa” pela sua filha Denise Epstein-Dauplé, em 2004, e que rapidamente se tornou um sucesso tendo sido adaptado ao grande ecrã,em 2015, por ocasião da comemoração dos 70 anos da libertação de Auschwitz.
“David Golder” (1930) foi o primeiro romance de Irène Némirovsky, que se tornou numa das revelações da literatura daquele ano. No ano seguinte, em 1931, a escritora volta a repetir a fórmula de sucesso com a edição de “O Baile” e, em 1932, é publicado “As Moscas de Outono,” que é agora publicado pela primeira vez em Portugal.
De um modo geral, as obras de Irène Némirovsky têm bastante de autobiográfico, tanto as questões familiares e, em particular, a difícil relação com a mãe, como o percurso feito pela sua família de tradição judaica que emigra da Ucrânia para Paris. Estes aspectos são muito frequentes nas suas obras e, no caso específico de “As Moscas de Outono” não é excepção.

Este romance breve tem como personagem principal Tatiana Ivanovna, uma senhora que viveu durante meio século com a família Karine, acompanhando de perto duas gerações desta família ucraniana. Tatiana Ivanovna era a responsável pela educação dos filhos da família que, por sua vez, se tornaram pais, criando também os filhos daqueles. Com fortes ligações à terra e à família que a adoptou depois da perda do marido e do filho, Tatiana Ivanovna vê nesta família a sua família e os filhos como sendo o filho falecido e os demais que não teve.
É Tatiana Ivanovna quem comunica à família a morte de Youri, em 1918, no final da 1ª Guerra Mundial e, a partir daí, acompanha os Karine rumo ao Ocidente, para Paris, onde a família iniciará uma nova vida.
Fascinados pela vida parisiense, os Karine, vibram com a nova realidade, numa época também marcada pelo final da guerra e pelo frenesim de retomar a vida normal, os estudos, as festas, os namoros, os convívios, os “loucos anos 20” a imporem-se aos poucos com aquele desejo imenso de viver intensamente a vida.
Mas Tatiana Ivanovna já se sente velha e cansada e cada vez menos prestável e esta nova vida. Numa cidade distante da sua terra natal em que tudo lhe é estranho, Tatiana Ivanovna deseja pela neve que tarda em chegar e que seria ao menos a única alegria que Paris lhe poderia oferecer. Ligada para todo o sempre à solidão trazida com a morte de Youri, Tatiana Ivanovna ficou presa ao passado e agarrada às memórias. A morte de Youri quebrou algo dentro de Tatiana Ivanovna, a sua vida apagou-se deixando de fazer sentido porque Youri era como que o substituto do seu próprio filho que perdera anos antes.
“As Moscas de Outono” é um romance de amor e perda. Amor incondicional centrado numa mulher que tudo o que perde, dá em amor, por amor aos outros que também a reconhecem como um elemento fundamental no seio da sua família.
“As Moscas de Outono” é melancolia em estado puro. Qualquer um dos romances de Irène Némirovsky tem algo de extraordinário que nos leva a mergulhar nas narrativas e a amar os seus personagens – a detestá-los também, se for caso disso -, mas a essência deste romance alude, em certa medida, para o inolvidável conto de Nicolai Gógol “O Capote” ou “O Chefe de Estação Fallmerayer” e “A Marcha de Radetzky” de Joseph Roth.
Poderíamos afirmar que Irène Némirovsky é uma genuína herdeira daqueles escritores, daquele espírito e de uma cultura que se perderam com a 2ª Guerra Mundial, tendo também a própria escritora sido vítima da perseguição nazi, pela sua ascendência judaica, vindo a falecer em Auschwitz, em 1942.

Excertos:
"O apartamento era pequeno, escuro, abafado; cheirava a poeira, a tecidos velhos; o tecto baixo parecia pesar sobre as cabeças; das janelas via-se o pátio, estreito e profundo, de muros caiados, que reverberavam cruelmente o sol de Julho. Ao despontar da manhã fechavam os postigos e os batentes das janelas, e nessas quatro pequenas divisões escuras, os Karine viviam até à noite, sem sair, estonteados com os ruídos de Paris, respirando com desconforto os fedores das pias de despejo das cozinhas, que subiam do pátio. Eles iam, vinham, de um muro ao outro, silenciosamente, como as moscas de Outono, quando o calor, a luz e o verão aparecem, coam penosamente, exaustas e arreliadas, contra os vidros, arrastando as asas mortas.” (pp. 51-52)

"Quando ficou sozinha, foi sentar-se diante do retrato de Youri. O olhar dela fixava-o, mas outras imagens passavam-lhe igualmente na recordação, mais antigas, e esquecidas por todos. Rostos defuntos, vestidos velhos de meados do século, apartamentos abandonados... Lembrava-se do primeiro gritinho queixoso e estridente de Youri... «Como se soubesse o que o esperava», pensou ela. «Os outros não choraram assim...» Depois sentou-se à janela e começou a remendar as meias." (p. 67)

"- Quando é que o Inverno chega, afinal? - dizia. - Ah, meu Deus, já faz imenso tempo que não vemos nem o frio nem o gelo... O Outono é bem grande, aqui... Em Karinovka, de certeza, já está tudo branco, e o rio congelou... Lembra-se, Nicolas Alexandrovitch, quando tinha três, quatro anos, eu, eu era jovem nessa altura, e a sua falecida mãe dizia: "Tatiana, vê-se bem que és do Norte, minha filha... À primeira neve, perdes o tino." Lembra-se?
- Não - murmurava Nicolas Alexandrovitch com um ar cansado.
- Eu lembro-me, e daqui a pouco - resmungava ela - só vou ficar eu para recordar..."
(p. 70)

Texto da autoria de Jorge Navarro

dos com os ruídos de Paris, respirando com desconforto os fedores das pias de despejo das cozinhas, que subiam do pátio. Eles iam, vinham, de um muro ao outro, silenciosamente, como as moscas de Outono, quando o calor, a luz e o verão aparecem, voam penosamente, exaustas, arreliadas. contra os vidros, arrastando as asas mortas."



quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 de Abril


Quando me pedem que fale sobre essa data e sobre as impressões que essa data me sugere, invariavelmente trago o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen e o quadro «A Poesia está na Rua» de Vieira da Silva. São as sínteses perfeitas, em palavras e em imagens , daquilo que vivemos nessa altura.

Era uma jovem de 23 anos, trabalhando num escritório de uma fábrica metalomecânica como tradutora, quando ocorreu o 25 de Abril.

As imagens mais fortes que tenho desses dias têm a ver com a rua, as vozes das pessoas que falavam umas com as outras mesmo não se conhecendo, nos transportes públicos, nos cafés, em qualquer sítio. Era a explosão da liberdade, dos sentidos, da alegria. Era o rio a transbordar.

A música e os poemas ligados às músicas são as marcas mais fortes que tenho. O Sérgio Godinho, o José Mário Branco, as músicas que ouvíamos e cantávamos até à exaustão. Mais tarde os poemas do GAC, canções revolucionárias que nos diziam tanto. Foi um tempo pouco dado à leitura, à literatura, era difícil estar muito tempo sentada a ler.

Mas lembro-me que houve um tempo em que devorei os três volumes de "Os Subterrâneos da Liberdade" de Jorge Amado. As viagens de comboio ajudavam a encontrar o tempo para a leitura e para apreender a vivência dura da militância em tempos de ditadura.

Foi um tempo memorável. Foi uma felicidade única poder viver esse tempo.

Viva o 25 de Abril.

Almerinda Bento
25 de Abril de 2019

quarta-feira, 24 de abril de 2019

"A Seguir" e "Depois" de Morris Gleitzman

Já tinha lido o primeiro livro desta sequência, "Um Dia", e adorado (podem ver aqui a minha opinião!)
 

Mas estes dois tive de os ler de enfiada. Podem ser lidos sem qualquer ordem mas há toda uma história e sequência que faz todo o sentido levar a eito. Na verdade, percebi ao chegar ao fim que existe um outro livro ("Agora"), o terceiro, que é passado nos dias de hoje e o protagonista já é um senhor idoso. Infelizmente este livro ainda não está traduzido para português! Para mim faz todo o sentido ser lido em último, tanto mais que do 2º para o 4º há uma continuação perfeita de acontecimentos...

São livros juvenis que se leem num dia, uma leitura simples mas tão sentida que às vezes as lágrimas surgem. O narrador é o Felix, uma menino polaco judeu, e estes três livros acompanham a sua vida durante a II Guerra.

As crianças, como acontece em todos os horrores, são as que mais sofrem. Numa guerra o seu mundo é virado do avesso sem que percebam porquê! Há uma mensagem implícita nestas histórias: diferenças de raça e religião, motivos suficientes para os "grandes" começarem uma guerra, não são questões importantes para os mais pequenos. Porque motivarão os "crescidos"?

Felix é obrigado a crescer mais rápido que o suposto e ver o que ninguém deveria ver: a morte de seres humanos infligida por outros seres humanos com a consequente perda de seus familiares e amigos. Considero estes três livros, obras obrigatórias para os nossos jovens, tal os valores que implicitamente são veiculados e tal a veracidade de acontecimentos que é relatada, muito embora a história em si seja ficção.

Recomendadíssimo para pequenos e grandes!

Terminado a 18 e 19 de Abril de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse de "A Seguir"
Felix e Zelda são duas crianças polacas que ficaram órfãs e que estão agora a fugir dos nazis. Mas quanto tempo conseguirão manter-se escondidas e a salvo? Felix define os seus planos: manter-se vivo, proteger a sua melhor amiga Zelda e... encontrar novos pais.

Já cansados de correr pela floresta fora, e desesperados de medo, fome e sede, Felix e Zelda encontram Genia, uma mulher generosa que lhes dá abrigo, mesmo conhecendo o risco que corre ao esconder judeus em sua casa.

Genia, o cão Leopoldo e o porco Trotsky fazem com que estes dois pobres órfãos consigam sentir um pouco da alegria que tinham antes de as suas famílias morrerem às mãos dos nazis. Mas Felix sabe que o facto de ser judeu põe em risco todos os que estiverem consigo. Só lhe resta fugir, para os manter em segurança.

Sinopse de "Depois"
Estamos em 1945 e Felix, um rapaz judeu de 13 anos, vive há dois anos escondido na quinta do seu amigo Gabriek. Até ao dia em que esta é incendiada. Fogem então para a floresta e juntam-se aos resistentes, um grupo armado que luta contra os nazis.

É ali que Felix conhece Yuli, uma jovem determinada e corajosa, com quem faz amizade, e torna-se assistente do doutor Zajak, um cirurgião experiente.

De repente, por todo o lado surgem sinais de que a guerra terminou. Volta a ser tempo de partir. Os acontecimentos precipitam-se e os reencontros sucedem-se. Felix vai ter de optar entre vingar os mortos que amou ou ajudar os vivos que vai conhecendo.

Cris

terça-feira, 23 de abril de 2019

A Convidada Escolhe: "Os Idólatras"


Os Idólatras, Maria Judite de Carvalho, 1969
Sobre “Os Idólatras” escreveu Urbano Tavares Rodrigues numa nota biobibliográfica que esta foi a “sua única e excelente aventura no fantástico e na ficção científica”. Já Baptista Bastos no prefácio de “A Janela Roubada” intiulado «Maria Judite de Carvalho: uma ternura magoada» diz de “Os Idólatras” “lamentavelmente incompreendido por aparentemente inesperado”.
“Os Idólatras” é constituído por 13 contos. Todos eles primorosamente escritos, mas tristes, premonitórios dum futuro assustador, onde as pessoas perderam a qualidade humana e onde a marca da solidão é comum. Logo no primeiro “A Floresta em sua Casa” as pessoas, face à quase inexistência de natureza e ao confinamento dos raros animais que ainda existem em espaços fechados, adquirem quadros a lembrar as pinturas exuberantes de Douanier Rousseau onde se escondem animais perigosos e ameaçadores é o retrato de uma sociedade geradora de loucos.
A fama que rouba a paz e a privacidade aos artistas idolatrados leva-os a esconder-se e a fugir do público sequioso e ávido é o tema do conto que dá o nome à colectânea de contos.
De novo a solidão, no conto “O meu pai era milionário”. Alguém com muito dinheiro que compra a sua “não morte” através da congelação do seu corpo. Cinquenta anos mais tarde, ao ser ressuscitada, enfrenta a solidão absoluta. Ninguém a ouve, ninguém a entende quando conta a sua história que começa por “o meu pai era um milionário”. Com efeito, a sua história não passa de um disco partido.
“Baía Triste” é a história de um astronauta que ficou no espaço. Para a mulher que não conseguiu reaver os despejos do marido, ele passa a ser o brilho de uma luz que se move no espaço.
Em “Casa de Repouso para Intelectuais e Artistas” a palavra “asilo” é proibida. Velhos artistas, outrora famosos, agora esquecidos, entretêm-se a lembrar o passado e a elogiar-se para receberem os elogios que o público já não lhes dá porque os esqueceu. “A velhice era uma coisa triste, mas não tanto como o esquecimento a que tinham sido votados. O escritor murmurava às vezes, de si para consigo: Dantes havia umas coisas chamadas literaturas… havia bibliotecas… havia livros…”
E por aí fora… Neste livro “Os Idólatras” a Terra não é um planeta habitável. Não há animais. Não há livros. Não há obras de arte. Não há gente. Há robots. Tudo está super organizado, desumanizado. As férias são passadas noutros planetas. As pessoas são ilhas. Não se amam. É a premonição dos quotidianos em função dos telemóveis, dos tablets, dos televisores, dos gadgets, da tecnologia. O tempo tem uma dimensão utilitária. Todo o tempo está compartimentado, agendado e não se pode perder e por isso as pessoas não conseguem viver com tempos mortos. Ficam infelizes, querem suicidar-se porque os tempos mortos não fazem sentido para elas. Mas no fim da vida, também há velhos que ainda querem comprar algum tempo para poderem viver aquilo que não viveram em vida…
Para terminar, o belíssimo “A Cidade do Êxito”. A senhora Bruce, que tinha sido uma famosa pintora de flores, é a única pessoa que não tem negócios relacionados com Marte. Vive numa casa que está a “estragar” a paisagem de arranha-céus, no meio de dois grandes edifícios como se fosse uma ilha. A sua casa térrea é um estorvo para os dois proprietários que tudo fazem para negociar com ela para que saia daquela casa e daquele sítio tão apetecivel para que possam expandir os seus negócios. Ela sempre se recusa, o tempo passa e, entretanto, os vizinhos proprietários morrem, ela resiste e vive até aos 115 anos sem que ceda às pressões dos especuladores! Só a morte levará ao derrube e demolição da casa da senhora Bruce pelos funcionários camarários que no meio dos despojos levam quadros de flores como recordação.
Um livro de ficção que vale bem a pena ler. Maravilhosa e lúcida escrita.
Março 2019
Almerinda Bento









segunda-feira, 22 de abril de 2019

"A Ilusão de Merit" de Colleen Hoover

A escrita desta autora é verdadeiramente compulsiva, pelo menos para mim. Este é um romance que classifico como YA (young adult) mas que pode ser lido por todos. 

A protagonista principal, narradora também, é uma jovem de 17 anos. É através da sua perspectiva que vamos conhecendo os membros da sua família: pai, mãe, madrasta, irmãos, que, vivendo todos na mesma casa, funcionam em conjunto com muitos atritos e problemas. Envolvi-me por completo na vida de Merit e nos seus problemas familiares (uma gémea que se apaixona repetidamente por rapazes em fim de vida, um irmão mais velho de que ela foge e com quem não quer estar sozinha devido a um acontecimento passado na sua infãncia, uma mãe a recuperar de um cancro e que vive na cave e não sai de lá, uma madrasta que não suporta, um pai omisso e distante...). Tudo parece um caos! Mas as nossas perspectivas podem não ser as correctas, pois não? 

Um livro envolvente, divertido, que não apetece parar de ler e que aborda diversos problemas alegadamente próprios da juventude mas que se torna uma lição para todos os que possuem mente aberta. Gostei muito.

Terminado a 17 de Abril de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
«Nem todos os erros merecem ser punidos. Por vezes, merecem apenas perdão.»

Merit Voss tem uma vida pouco normal. Vive numa igreja reconvertida com uma família disfuncional e pouco ortodoxa: a mãe, sobrevivente de cancro, ocupa um quarto na cave, o pai é agora casado com a antiga enfermeira da mãe, o meio-irmão mais novo não pode comer nem fazer nada que seja divertido e tanto o irmão mais velho como a sua irmã gémea, Honor, são a imagem absurda da perfeição. E Merit sente que nunca será assim.

Merit coleciona troféus que não ganhou e segredos de família que é obrigada a guardar. Numa visita a um antiquário em busca do próximo troféu, Merit conhece Sagan, que logo a deixa completamente desarmada e com um novo brilho nos olhos ? até ela perceber que ele é inalcançável.

Cansada de se sentir invisível, e cada vez mais mergulhada no abismo, Merit decide acabar com a ilusão da família perfeita e revelar a verdade há tanto tempo escondida. Mas não estará Merit também a esconder a verdade sobre si mesma?

Cris

sábado, 20 de abril de 2019

Na minha caixa de correio

  
 Esta semana foi assim: dois livros ofertados, zero comprados!
- Eu Sou Ioga, Editora Nascente, Grupo 2020.
- Nada Menos Que Um Milagre, Editorial Presença.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A Escolha do Jorge: "Kentukis"


Porque é que as histórias eram tão insignificantes, tão minuciosamente íntimas, mesquinhas e previsíveis? Tão desesperadamente humanas.” (p. 185)

Temos aos poucos vindo a conhecer a obra da escritora argentina Samanta Schweblin (n. 1978), primeiro com a colectânea de contos “Pássaros na Boca”, reeditado no ano passado, que não deixa o leitor indiferente, face ao seu carácter surreal aliado a uma vertente de realismo mágico tão presente na literatura latino-americana. “Distância de Segurança” (2017), o seu primeiro romance foi também bastante reconhecido, tendo sido Finalista do Prémio Internacional Man Booker.
“Kentukis” é o segundo romance de Samanta Schweblin, publicado recentemente em Portugal e volta a confirmar a escritora como um dos nomes das letras que devemos seguir com atenção.
Partindo de uma premissa do conhecimento de todos baseada em redes sociais e reality shows que vieram a revolucionar a sociedade na forma como se estabelecem as relações entre as pessoas, Samanta Schweblin vai mais longe no que concerne à ideia de tornar os espectadores em voyeuristas de sofá, numa lógica em que, à distância, podem participar, manobrar e até condicionar a realidade de terceiros, numa espécie de deuses a manipular as rotinas de perfeitos desconhecidos como se se tratasse de um videogame.
Sem regras, nem legislação que determine o consumo e a utilização generalizados de kentukis – pequenos bonecos de peluche com trinta centímetros de altura sob a forma de animais (corvo, coelho, toupeira e até dragão, este o mais procurado) com uma câmara incorporada, tendo um carregador e ainda uma forma de ligação à distância de modo a promover a interacção entre os dois lados -, assistimos a uma moda que adquire proporções de massificação à escala mundial, permitindo a interacção/comunicação entre duas pessoas de diferentes países e até de continentes diferentes.
Aparentemente inocentes, os kentukis ou “telefone com rodas” (p. 105) ganham a simpatia de pessoas de todas as idades, desde as crianças, por assumirem o papel de brinquedos, mas para os adolescentes e os adultos sempre numa lógica de distracção ou a curiosidade extrema de saber como é a vida dos outros. Que ideia estúpida era essa? O que pretendiam as pessoas todas ao circular no chão de casas alheias, observando a outra metade da humanidade a lavar os dentes?” (p. 185)
Mas esta questão é ainda mais complexa sobretudo quando se pode decidir “ser” ou “ter” um kentuki ou ainda “ser kentuki” e “ser amo” em simultâneo. Uma pessoa pode possuir um kentuki e passar a ter a sua vida observada por um desconhecido ou por e simplesmente adquirir uma ligação/conexão que lhe permitirá observar a vida de terceiros através de um kentuki, num qualquer ponto distante do planeta. A outra fórmula, a terceira, é ser detentor de um kentuki, passando a ser observado, e através de uma ligação/conexão, exerce a função de voyeur, ou seja, observa e é observado.
Seja qual for a condição, há kentukis e ligações/conexões para todos os gostos e sempre numa lógica de um videogame, estando de lado toda a dimensão ética-moral, numa perspectiva de invadir o espaço alheio e o de ver o seu invadido.
Ao longo das várias histórias que se vão desenrolando ao longo da narrativa, vamos percebendo da falta de consciência face ao que poderá estar por detrás destas ligações/conexões, algo duvidosas, que se estabelecem entre desconhecidos.
Por brincadeira, como forma de combater a solidão ou por mera casualidade, nem sempre estes kentukis são utilizados por pessoas cuja finalidade é propriamente o entretenimento. Percebemos no decurso da narrativa que, graças à ausência de legislação aplicada a esta tecnologia, há indivíduos que, num ápice, encaram os kentukis como ferramenta fácil e eficaz para perpetrar algum crime de maior envergadura ainda que apresentado de modo (quase) inocente. Quem resiste à interacção dócil de pequenos animais que requerem tão-somente a nossa atenção sem termos de nos preocupar com comida, água ou de lhes mudar o areão como aos animais domésticos?
A ausência de legislação aplicada aos kentukis, a par da falta de consciência dos seus utilizadores conduz a que muitas pessoas sejam apanhadas numa rede sem precedentes. O vício que, em muitos casos, tem como objectivo o combater a solidão ou o mero entretenimento, leva a que, tantas vezes, as pessoas sejam surpreendidas negativamente, sem terem medido as consequências dos seus actos.
De Zagreb a Tel Aviv, de Antígua à Serra Leoa, de Lima a Hong Kong, os kentukis vão revolucionar o mundo e a forma como a sociedade estabelece relações entre si. Actual, enigmático e electrizante, este novo romance de Samanta Schweblin coloca o dedo na ferida, fazendo o retrato de uma sociedade podre que se desfaz a si própria, em que todos são responsáveis e ninguém sai incólume face a atitudes inconsequentes desmedidas. Em certos momentos da narrativa, “Kentukis” assume o tom de thriller, uma das características presentes na escrita de Samanta Schweblin.
A ilusão de um videogame traz consequências atrozes aos utilizadores dos kentukis, seja quem observa, seja quem é observado e, não raras vezes, com a ânsia de observar o alheio, deparamo-nos com o inesperado, como roubos, raptos, redes de pedofilia e tantos outros crimes também promovidos por este género de tecnologias.
Samanta Schweblin é certeira e desmascara o leitor, deixando-o desconcertado, inquieto e até triste nalguns momentos. “Kentukis” impõe-se como um romance obrigatório que nos leva a questionar e a compreender a sociedade contemporânea, numa época em que a tecnologia adquire um enorme impacto nas vidas das pessoas, tal como os kentukis que só ganham terreno na sequência da deterioração das relações humanas.
Com ecos de “A Ilha de Morel” entre outros contos do argentino Adolfo Bioy Casares, Samanta Schweblin é cada vez mais apontada como uma das seguidoras daquele escritor assim como de Jorge Luis Borges, nomes maiores da literatura latino-americana, em especial, da Argentina.
“Kentukis” pode também ser encarado como uma espécie de distopia, mas sem regras. Há toda uma sociedade que se move através e em função dos kentukis, tentando manobrar e controlar terceiros, controlando todo o mundo, assente, porém, na inquietação, humilhação, vingança e crueldade. Desligada a conexão, resta o vazio.

Excertos:
“«Olá.»
No telefone, a voz dela soava mais severa e adulta.
«A sua coelhinha acaba de me enviar fotografias em que a senhora aparece a falar ao telefone com o meu namorado.
Tratava-a por você.
«Mostrou-nos fotografias da sua casa repleta de fotos de nós os dois. E também fotografias em que surge a senhora. Acho que a sua coelhinha puritana está furiosa.»
Emilia queria compreender o que se estava a passar, mas não era capaz.
«A sua coelhinha parece estar muito desiludida com a ama. E eu quero dizer-lhe uma coisa…»
A voz de Eva ficou mais grave e vagarosa, tão sensual que os pelos da nuca de Emilia se eriçaram. «Emilia» - sabia o seu nome, - «gosto muito, muito, da sua roupa interior de velha.»
Tinham-na visto com as suas cuecas beges? As que lhe chegam quase até às mamas?
«Muito» - disse Eva, olhando para Klaus, - «gostamos muito.»
Emilia deu um salto na cadeira e derramou o chá que tinha a seu lado. Estava de pé, sem saber o que fazer, com o coração a bater perigosamente acelerado. Apercebeu-se de que ainda tinha o telefone encostado ao ouvido.
- Menina… - tentou dizer, e a sua voz débil e rouca recordou-a de quão velha estava.
Não sabia como poderia continuar. Desligou a chamada. Em Erfurt, Eva olhou para o telefone e disse algo a Klaus, que se riu às gargalhadas, agarrou num dos braços de Eva, levantou-a num puxão e começou a despir-lhe os calções de ioga. Emilia desligou o ecrã, furiosa. Depois, voltou a ligá-lo, e nesse instante Eva estava a despir as cuecas de Klaus. Como se desligava aquele pesadelo? Analisou o painel de controlo e encontrou o botão vermelho que lhe tinha passado despercebido tantas vezes.
«Deseja anular a sua conexão?»” (pp. 202-203)
E então compreendeu o que sentia: não queria continuar a ver desconhecidos a comer e a roncar, não queria voltar a presenciar os gritos de terror de um único pintainho enquanto os outros o enervavam ao ponto de o fazerem perder as penas, não queria levar mais nenhuma pessoa de um inferno para outro. Não ficaria à espera de que as abençoadas regulações internacionais, já demasiado atrasadas, surgissem para se ver obrigado a deixar aquele negócio. Iria sair daquilo por decisão própria. Venderia todos os aparelhos que ainda tinha e dedicar-se-ia a outra coisa. Acedeu ao painel de configuração e, sem se preocupar sequer em tirar o kentuki daquela casa, cortou a ligação.” (p. 196)
Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 17 de abril de 2019

"O Rapaz do Gueto de Varsóvia" de Eva Weaver

NY, 2019. Um avô e o seu neto. O primeiro tem uma história para contar, uma história que nunca revelou a ninguém. Só agora está pronto a fazê-lo. O neto de 13 anos escutará, tem a certeza.

Um flachback: Varsóvia, 1938. O avô, Mika, é agora neto de alguém e tem 12 anos. Tem uma ligação especial com o seu avô, que vê como o pai que já não possui. O avô manda fazer uma casaco grosso, especial, porque tem vários bolsos com esconderijos. Vamos seguir a história desse casaco e do que lá foi escondido durante toda esta leitura.

Leitura que prendeu a minha atenção desde o início. Fiquei até ao seu final à espera de ler aquela parte onde é dito que os personagens principais (Mika, por exemplo) existiram mesmo... Porque senti tanto as palavras do autor! Senti-as vivas, sofridas, verdadeiras. Vivi no gueto com as descrições feitas. O tom cinzento e negro de muitas vidas desperdiçadas. Esta primeira parte (Sim, porque há uma segunda parte no livro! Ao dizer isto já estou a desvendar mais do que devia!) é de uma veracidade terrível. O relato é feito na primeira pessoa. Os nossos sentimentos ficam ao rubro, podem crer! O Gueto de Varsóvia retratado com a mestria de quem sabe descrever o Horror.

Depois vem a segunda parte. Desconcertante. Que no princípio instigou em mim sentimentos de raiva e onde disse para mim mesma, muitas vezes, "Bem feito! Mereceste!". Mais não digo porque não vos quero estragar a leitura.

O final deixa o leitor descansar. Talvez se baseie num enredo menos provável que o resto do livro mas gostei mesmo assim. Como referi: respirei fundo, descansei finalmente. 

Uma história ficcionada mas fortemente baseada em muitos factos reais conhecidos por todos nós, que vem sublinhar e dar realce a todos os heróis que lutaram bravamente durante a II Guerra, mais concretamente no Gueto de Varsóvia, e que permanecem desconhecidos até hoje. Uma ode a todos eles. Um livro diferente dos que já li sobre este tema, que nos mostra os dois lados de uma guerra.

Terminado a 15 de Abril de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
Um relato de guerra pelos olhos de uma criança e do seu carrasco. Uma história emocionante sobre coragem e o poder do perdão.

Baseado em factos reais

«Eu tinha 12 anos quando o casaco foi feito. Nathan, o nosso alfaiate e querido amigo, começou a costurá-lo para o meu avô na primeira semana de março de 1938. Esse foi o último ano de liberdade para Varsóvia e para todos nós.»

Quando a Polónia é ocupada pelos nazis, os judeus são escorraçados para um gueto imundo e insalubre, aguardando um destino terrível. Entre eles está o jovem Mika, que, depois da morte do avô, herda o seu casaco, descobrindo nos bolsos secretos um grande tesouro: um fantoche. Apesar de ser apenas um simples fantoche de um príncipe, transforma-se para Mika num símbolo de esperança. Inspirado pelo projeto que o avô começara, o rapaz cria uma trupe de fantoches para animar as crianças do gueto.

Aos poucos, a sua fama espalha-se por entre todos os que procuram um pouco de cor e alegria entre a morte e a cinza. Até que, certo dia, o talento de Mika é descoberto por um oficial alemão, que leva o rapaz para entreter os mesmos soldados que perseguem e matam os seus amigos e familiares. Mas, se quer sobreviver, a única alternativa de Mika será tentar agradar ao seu inimigo.

Um relato dos dois lados de uma guerra cruel e uma viagem épica sobre sobrevivência, que atravessa continentes e gerações, desde Varsóvia até aos gulags da Sibéria.

De que forma se pode alimentar a esperança em tempos tão negros?

Cris

terça-feira, 16 de abril de 2019

"A Casa do Lago" de Ella Carey

Esta é uma leitura que se faz fluída. É uma história contada em dois espaços temporais, 1934 e 2010. Segredos de uma família que vêm à tona e despoletam uma busca por parte de Anna, neta de um alemão já idoso, que desconhecia todo o passado do avô. Max, o avô, pouco lhe conta.

Memórias por descobrir, um caso de amor trágico que envolve a II Guerra, de duas pessoas que estiveram em lados opostos da guerra. Um túmulo que se abateu nesse amor terrível, e Anna vai tentar descobrir o que realmente se passou. 

A autora pegou numa história verídica sobre um apartamento em Paris, recheado de coisas valiosas, que se manteve fechado depois da guerra e foi descoberto muitos anos depois. O enredo desta obra revelou-se, assim, bastante positivo, embora ache que alguns aspectos ficcionados pela autora, pudessem ter tido outros contornos porque quebraram a meu ver alguma veracidade à história. A corroborar o que referi está, por exemplo, o facto de Max ter pedido para a neta ir buscar um objecto para ele muito querido mas não lhe dizer em concreto onde se encontrava... Pequenos factos que achei que podiam ser melhorados.

Pese embora isso, há algo que já tenho lido noutros livros e que é sempre bom recordar. Como em tudo na vida, há sempre dois lados de uma questão e se nem todos os aliados se comportaram da melhor maneira face aos judeus (e restantes perseguidos), também houve alemães que entraram na guerra forçados e contra vontade.

Terminado a 12 de Abril de 2019

Estrelas: 4*

Sinopse
Anna Young está satisfeita com a sua vida bem-sucedida em São Francisco. Mas o seu mundo é virado do avesso quando o seu avô, Max Albrecht, revela um segredo surpreendente: Anna é a herdeira de uma família aristocrática que perdeu tudo durante a Segunda Guerra Mundial. Há mais de setenta anos, Max foi forçado a deixar para trás a sua vida e um precioso objeto na sua propriedade na antiga Prússia. E agora quer que Anna o recupere.

Anna acede ao pedido do avô e viaja para a Alemanha, impaciente por obter respostas: O que poderá ser assim tão importante para o seu avô? E por que razão ocultou a sua história? A busca leva-a a Wil, um homem que pode deter a chave para desvendar o mistério. Juntos descobrem que os segredos da família estão ligados a um apartamento abandonado em Paris… e que esses segredos têm raízes mais profundas do que alguma vez imaginaram.

Cris

segunda-feira, 15 de abril de 2019

"4 Estações, 1000 Combinações" de Margarida Vieira

Há livros que chamam por nós. Ponto. Este foi um deles. 

Já tenho referido aqui, acho eu, que tenho mudado a minha alimentação. Aos poucos, porque quero que seja para sempre e, sobretudo, porque para mim as alterações bruscas não se mantêm muito tempo na minha vida. É preciso criar hábitos e isso demora tempo. As minhas escolhas foram conscientes, apoiada em quem se dedica a estudar estes assuntos (aka Gabriel Mateus/ Eat and Care) e muitos workshops e cursos de culinária (por ex. o Curso Anual de Culinária Macrobiótica do Inst. Macrobiótico de Portugal). E muitos livros, claro. 

Não tenho tido problemas com as escolhas que faço nem tampouco dificuldades maiores porque não sou radical. Se não houver prato vegetariano, escolho um prato de peixe ou, até, carne. Mas durante a maior parte dos dias da semana, opto por pratos onde os legumes, frutas e cereais integrais estão presentes. Levo de casa. É a minha escolha, aquela que faz mais sentido para mim. 

Mas vamos falar sobre este livro. Li rapidamente a Introdução, a 1ª e a 3ª partes. A autora, nutricionista, foca a sua atenção em vários aspectos dos quais retive os que achei mais importantes:

1- A distribuição dos alimentos no prato: 50% de legumes e vegetais. É isso que tenho de passar a fazer. 

2- Verificar se os alimentos têm frituras. Não exceder 2x/ semana. Check!

3- Comer 3 porções de fruta por dia. Check! Às vezes como mais.

4- Dar preferência aos frutos e legumes da época. Check! Devo, no entanto, estar mais atenta a este aspecto.  Sobretudo, priveligiar os produtos biológicos (não li nada sobre isso aqui!)

5- A autora defende que «Não há superalimentos: há combinações poderosas de alimentos". Estou de acordo. Mas creio que a denominação "superalimentos" foi criada para sublinhar alguns alimentos não muito conhecidos (raizes, algas) que possuem propriedades que não devem ser menosprezadas e são uma mais-valia se os introduzirmos na nossa alimentação. Como exemplo refiro a curcuma e a pimenta preta (a piperina e a curcumina são anti-inflamatórias e em conjunto, uma potencia a outra). 

A segunda parte deste livro, é para ser lida com cuidado. Passei os olhos por ela, claro, mas quero sublinhar e fazer uma leitura mais atenta. A autora elaborou uma lista de frutos e vegetais para serem consumidos maioritariamente nas estações respectivas, nas estações do ano onde eles se encontram repletos de sabor. Fala deles detalhadamente, das suas propriedades. Fiquei de olho na alcachofra. Acho que nunca comi...

Este não é um livro de receitas. Como diz Margarida Vieira, e bem, basta ir à net "googlar". É um livro onde se pode aprender a transformar um prato que não é saudável, e combiná-lo para que se transforme numa refeição saudável. Dá o exemplo do Bacalhau à Gomes de Sá, da Pizza e outros. A primeira coisa a fazer é colocar 50% de legumes e vegetais no prato. Faz sentido para vocês? Uma boa forma de moderar os excessos, não?

Um livro importante a acrescentar à minha estante. Recomendo.

Sinopse
O segredo de uma alimentação saudável está na diversidade nutricional.

Este guia dá-lhe a conhecer 50 alimentos imprescindíveis e ensina-o a fazer incontáveis associações entre eles.

Os alimentos não produzem um efeito isolado: agem em conjunto quando ingeridos na mesma refeição. Saber combinar os diferentes tipos de alimentos passa por um princípio básico - nenhum alimento deve ser posto de parte, a menos que haja uma intolerância ou uma alergia alimentar. E tão importante como os alimentos que comemos é a maneira como os combinamos.

O objetivo deste livro é dar a conhecer os alimentos típicos de cada estação, para que os possa incluir, de forma consciente, na sua alimentação diária. Com mais conhecimento, as escolhas que fazemos podem melhorar bastante a forma como vivemos.

A seleção dos 50 frutos e vegetais que este livro apresenta ensinará o leitor a fazer milhares de combinações, mesmo à medida das quatro estações.

«Não há superalimentos: há combinações poderosas de alimentos. Tal como não há super-heróis, mas equipas com estratégias e soluções vencedoras. Esta na hora de escolher a sua equipa, usar a criatividade e experimentar 1000 combinações de alimentos para fazer refeições completas.»

Cris

domingo, 14 de abril de 2019

Passatempo Gradiva: "Um Elevador Chamado Desejo"

Com o simpático apoio da editora Gradiva, o blogue tem para sortear aos seus seguidores um exemplar do livro de Jasmine Guillory, "Um Elevador Chamado Desejo".

Podem concorrer enviando um e-mail para otempoentreosmeuslivros@gmail.com indicando o nome e nick de seguidor do blogue. Em assunto colocar o nome do livro.

O passatempo é válido até dia 28 Abril. O resultado sairá a 29.

Boa sorte!

Cris

sábado, 13 de abril de 2019

Na minha caixa de correio

  

  

  

  

  


Comprados: Maus, O Inverno do Desenhador (o único comprado sem desconto), Homens Bons, Atos Humanos, A Cada Estrela Cadente, O Fim da Solidão, História de uma Família Decente.

Ofertas das Editoras parceiras:
- Uma Gaiola de Ouro, Suma de Letras
- Em Queda Livre e Do Outro Lado do Espelho, Bertrand (O livro Do outro lado do Espelho foi ganho num passatempo da Bertrand)
- De Noite Sonho com a Paz, Porto Editora
- Um Elevador Chamado Desejo, Gradiva
- As Longas Noites de Caxias, Planeta
- 4 Estações 1000 Combinações, Nascente


sexta-feira, 12 de abril de 2019

A Escolha do Jorge: “Em tudo havia beleza”



A vida de um ser humano é a construção de relevos que a morte e o tempo acabarão por alisar.”  (p. 79)
Reconhecido como um dos principais nomes da poesia contemporânea espanhola e com inúmeros prémios recebidos, Manuel Vilas (n. 1962) viu recentemente o seu nome na ribalta com a edição do seu romance “Ordesa” que em Portugal recebe o título “Em tudo havia beleza”, tornando-se num dos livros-sensação do país vizinho ao longo do último ano.
Num registo autobiográfico e profundamente intimista e confessional, Manuel Vilas conquista o leitor a partir da primeira página. Com capítulos curtos e com uma escrita fluida e incisiva, o autor alude a três temas em concreto: a morte dos pais, a pobreza e o alcoolismo.

Numa fase da vida tida habitualmente por meia-idade, é também o tempo de fazer balanços, entre ganhos e perdas de toda uma vida. Recuperando um estilo muito próximo do de Sebald, embarcamos na vida e nas memórias de Manuel Vilas que segue em linha com a história das últimas décadas de Espanha, desde os últimos anos da ditadura à passagem para o regime democrático. Ler “Em tudo havia beleza” é também uma forma de viajarmos pela história da nossa família, pelo menos num trajecto de três a quatro gerações e, tratando-se do país vizinho, com tantos pontos em comum com o nosso país, tanto do ponto de vista político, como no que respeita às vivências, é uma viagem que também diz muito das memórias que coleccionamos do Portugal das últimas décadas.
A morte é uma constante em toda a obra na medida em que os pais do autor, apelidados de Bach e Wagner, estão sempre presentes, como uma ode que lhes presta ao longo desta sua confissão. Não raras vezes criticamos os lugares-comuns e não menos em escritores quase como que algo que lhes é imposto no que concerne a algo relacionado com originalidade. Mas o que tem de original uma vida que tem a morte como seu oposto e como o de mais certo que temos na vida? Em jovens sonhamos com os dias quentes e longos do Verão, metáfora associada a uma quase eterna juventude, mas passados esses anos já nos vemos a fazer balanços e a compreender e a aceitar a nossa passagem pelo mundo dando lugar a outros. “Eram os anos setenta, quando a vida andava mais devagar e era possível vê-la. Os Verões eram eternos, as tardes infinitas, e os rios não estavam poluídos.” (p. 235) “Passamos pelo mundo, e depois vamo-nos embora. Deixamos o mundo a outros, que vêm e fazem o que podem.” (p. 191)
“Em tudo havia beleza” é um livro que pode ser aberto em qualquer capítulo e ler à vontade sem a necessidade de saber o que está para trás. É um livro que rapidamente se transforma em livro de cabeceira fazendo-nos parar e reflectir sobre a nossa vida, sobre os ganhos e as perdas, o que fizemos bem e onde errámos. Fazemos o que podemos e o que conseguimos.
Não é todos os dias que um escritor, em tom confessional, assume as suas fraquezas e as suas dificuldades perante os seus leitores e, neste caso em concreto, perante todo um país que se identifica com as suas palavras e pensamentos.
Uma coisa é um escritor criar uma narrativa com personagens com dadas características, circunstâncias e vivências ainda que contagiem os leitores, mas outra é quando esse contágio é feito com aspectos em concreto da nossa vida e da nossa família dado que a exposição a terceiros nem sempre é fácil de gerir. Mas Manuel Vilas fá-lo com grande mestria graças a uma escrita elegante e deveras visual recorrendo às suas memórias que, afinal, são muito próximas das memórias das pessoas da sua geração.
“Em tudo havia beleza” termina em grande estilo, com dois parágrafos notáveis que fazem a ponte entre os seus pais e ele próprio porque nada há de mais belo do que gerar uma vida por amor.
“Mas essa noite de Novembro de 1961 existiu e continua a existir. Essa noite de amor, esse apartamento moderno, as paredes recém-pintadas, os móveis recém-estreados, as mãos jovens dos esposos, os beijos, o futuro que é só uma ideia esperançosa, o poder dos corpos, tudo isso continua em mim.
Grande noite de 1961, mês de Novembro, tranquilo, benigno, doce. Continuas viva. Noite que continuas viva. Não te vais embora. Danças comigo uma dança de amor.” (p. 367)
Um livro notável e uma grande surpresa no início deste ano.
Texto da autoria de Jorge Navarro