Gosta deste blog? Então siga-me...

Também estamos no Facebook e Twitter

sexta-feira, 12 de março de 2021

"Soldados de Salamina" - Graphic Novel de Javier Cercas

A leitura desta GN foi realmente feita no momento próprio. Tinha acabado de ler "Os Doentes do Dr Garcia" e estava ainda muito presente em mim a História de Espanha, a Guerra Civil, os conflitos entre republicanos e falangistas. 

Gosto da escrita de Javier Cercas se bem que aqui, numa GN, ela não se torna tão marcante e sobressaia mais a história em si e as imagens que dão cor a essa história.

Por falar em cor, aqui, sendo uma história dentro da história, ela é usada para diferenciar as duas narrativas. Em tons cinza, preto e branco é-nos relatada a historia de um dos fundadores da Falange; em tons mais vivos a historia do próprio Javier e as suas peripécias quando resolveu contar essa parte da História espanhola.

Uma leitura que prende a atenção do leitor, divertindo-o e  transmite ensinamentos ao mesmo tempo. 

Com um mistério a decorrer, surpreende o leitor até ao último momento. Gostei muito.

Terminado em 25 de Fevereiro de 2021

Estrelas: 5*

Sinopse

Nos dias finais da guerra civil, perto da fronteira franco-espanhola, deu-se um fuzilamento de prisioneiros franquistas. Um destes escapou com vida, graças a um jovem soldado republicano, e conseguiu refugiar-se no bosque. Era Rafael Sánchez Mazas, poeta, fundador da Falange e futuro ministro de Franco. Sessenta anos mais tarde, um romancista em crise desenterra este episódio bélico e, fascinado por ele, propõe-se investigar e esclarecer as suas circunstâncias.

Soldados de Salamina, romance de Javier Cercas publicado originalmente em 2001, foi aclamado como um clássico moderno da literatura por, entre outros, Kenzaburo Oé, Susan Sontag, George Steiner ou Mario Vargas Llosa. Apresentamos agora uma minuciosa adaptação gráfica pela mão de José Pablo García, um dos autores de banda desenhada espanhóis com maior projeção internacional.

Cris

quinta-feira, 11 de março de 2021

"Os Doentes do Dr. Garcia" de Almudena Grandes

Este "tijolo" foi lido numa leitura conjunta com algumas amigas e feito em prestações. Todos os dias líamos algumas páginas. Se, por um lado, isso ajudou porque é um livro grandote, por outro senti muitas vezes a necessidade de não parar porque há na realidade muitas personagens a quem o leitor deve dar atenção. E apontar num papel para não se perder. Esse foi o meu lapso. Não apontei, ou melhor, fui apontando quando me apercebi que o deveria fazer, mas talvez tenha sido tarde demais. Por isso fica aqui a dica!

Que dizer de uma leitura a que atribuí 6*? Com um personagem chave, o Dr. Garcia, a autora cria uma verdadeira teia de uma história que mescla acontecimentos da História de Espanha e Argentina e que abarca uma época temporal muito lata (desde 1936 a 1976).

A Guerra Civil Espanhola, a II Guerra Mundial e o pós guerra. A ditadura franquista e as relações intimas dos falangistas com os alemães, sobretudo no pós-guerra quando o regime de Franco disponibilizou identidades falsas a criminosos de guerra procurados pelos seus crimes. 

Ficamos logo presos à história do Dr Garcia, filho de republicanos, e do seu amigo Manuel de Benitez. O Dr Garcia, para conseguir salvar a sua pele, vê-se obrigado a tomar uma identidade falsa que o vai acompanhar durante a sua vida e é impedido de praticar a sua profissão. Escondendo o que sentia e aquilo em que acreditava, torna-se espião sem nunca desprezar a sua integridade mesmo quando se vê obrigado a matar um homem. 

Romance muito envolvente, uma verdadeira lição de História, onde se cruzam personagens fictícios e reais. Adorei!

Terminado em 24 de Fevereiro de 2021

Estrelas: 6*

Sinopse

Depois da vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola, o Doutor Guillermo García Medina continua a viver em Madrid sob uma falsa identidade, a mesma que o salvou de ser fuzilado e que foi um presente de Manuel Arroyo Benítez, um diplomata republicano a quem salvara a vida uns anos antes. Julgando que nunca mais o veria, acaba por encontrar-se com Manuel em 1946, deixando-se recrutar para uma missão secreta e muito perigosa: a de se infiltrar na rede clandestina de evasão de criminosos de guerra fugidos do Terceiro Reich para a Argentina, dirigida por Clara Stauffer, uma poderosa mulher de nacionalidade alemã e espanhola, a partir do pacato bairro de Argüelles. Ao mesmo tempo  thriller  e romance de espionagem,  Os Doentes do Doutor García é uma emocionante história que parte de acontecimentos reais pouco conhecidos sobre a Segunda Guerra Mundial e o franquismo para construir personagens que representam e evocam um dos momentos históricos mais difíceis do século passado.

Cris

quarta-feira, 10 de março de 2021

Experiências na Cozinha: "Os Segredos da Fermentação"


Continuamos com o tema dos fermentados com este livro que, como diz na capa, nos ensina a fazer alimentos vivos. 

Os fermentados têm inúmeros micro-organismos vivos que trazem muitos benefícios para a nossa saúde e há muitos fermentados, além dos pickles, que nem pensamos que o são. Assim, temos o iogurte, o queijo, o vinho, a cerveja, o pão (quando feito com fermento natural ou massa mãe), entre outros. 

A receita escolhida é feita com aproveitamentos dessa massa mãe que sempre sobra quando fazemos pão com massa mãe ou massa velha. 

Era assim que antigamente se fazia o pão. Não havia frigoríficos nem dinheiro pra comprar pão para famílias numerosas e havia que fazer pão usando métodos naturais de levedação. Fazia-se um pão apenas com 3 ingredientes - farinha, água e sal - e guardava-se um pouco da massa para fermentar e fazer o pão seguinte. 

Nesta receita aproveitam-se restos de massa mãe e restos de legumes ou qualquer cereal cozinhado que nos sobre de uma refeição 

Mas pode ser perfeitamente adaptada a ingredientes propositadamente usados para o efeito. 

Nesse caso usaremos só farinha normal e legumes cozidos ou crus mas ralados. 

Nesta experiência, além das sobras da massa velha usamos cenoura e nabo ralado e coentros. 

A receita é longa, parece complicada, mas não é. É apenas muito detalhada, para que nada falhe. 

São umas simples panquecas com legumes, uma forma diferente e gostosa de fazer panquecas (que costumam ser sempre doces), e muito boa para uma refeição ligeira ou até refeição principal se acompanhada com uma boa salada.







Palmira e Cris

terça-feira, 9 de março de 2021

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Fevereiro

Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Fevereiro.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Carla Pereira Sousa

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 15, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros (repetimos os livros do mês passado dado que o prémio não foi reclamado):

 

Cris


segunda-feira, 8 de março de 2021

"Em Nome do Amor" de Kristin Hannah

Depois de ter lido "A Grande Solidão" e ter tido uma opinião tão favorável, pegar noutro livro desta autora, significava que as minhas expectativas estariam  muito altas e que não seria fácil que outro livro se lhe igualasse. "O Rouxinhol" também foi um livro de que gostei muito pelo que pegar noutro poderia defraudar a ideia que tenho da autora.

O que aconteceu foi um misto destas sensações. Não considero que este livro esteja ao nível dos anteriores no sentido em que, para mim e para o meu gosto, os que referi foram mais do meu agrado. Por outro lado, a escrita de Kristin Hannah é de tal forma atrativa que as páginas passam sem custo algum e com muita facilidade.

As personagens parecem reais, com os seus vícios e alguns aspectos do seu passado que tentam esquecer ou pelo menos esconder e não lembrar. Como pano de fundo, o Amor. Kristin foca-se nos sentimentos de um casal, nos recantos escondidos e que não são partilhados a dois e que, mais tarde, podem ser facas que se intrometem nesse amor. 

Sentimos que a história deste casal que partilha uma infelicidade que complica seriamente o seu amor, vai terminar bem e isso em vez de nos fazer esmorecer na leitura, sossega-nos. 

Um romance que se lê num ápice. 

Terminado em 22 de Fevereiro de 2021

Estrelas: 4*+

Sinopse

Quando Mikaela Campbell, esposa e mãe amada, entra em coma, cabe ao seu marido, Liam, manter a família unida e cuidar dos filhos desolados e assustados. Os médicos dizem-lhe que não tenha esperança de que ela recupere, mas ele acredita que o amor é capaz de fazer o que a medicina não consegue. Todos os dias, senta-se ao lado dela, conta-lhe histórias da vida preciosa que construíram juntos, na esperança de que ela acorde. Mas depois descobre provas do passado secreto da mulher: um primeiro casamento com a estrela de cinema Julian True. Desesperado por trazer Mikaela de volta a qualquer custo, Liam sabe que tem de pedir ajuda a Julian. Mas irá essa decisão custar-lhe a mulher, a família e tudo o que estima?

Cris

domingo, 7 de março de 2021

Ao Domingo com... Márcia Lima Soares


O meu nome é Márcia Lima Soares, tenho 37 anos, sou professora e vivo em Palmela. Após uma batalha de seis anos, fui mãe, em setembro de 2020, tendo aproveitado os últimos meses de gravidez para editar o livro 'Seis Ruas', com a ilustração da Joana Sesta.


O lançamento desta obra infantojuvenil foi anunciado no extinto programa "A Tarde é Sua", da Fátima Lopes, na TVI, e o evento teve lugar a 12 de dezembro, na Casa da Baía, em Setúbal, com a participação dos atores Miguel Assis e Patrícia Ribeiro, bem como a apresentação musical de Margarida Quítalo. A apresentação do livro foi recatada, devido às normas da DGS, contudo, foi um momento marcado por muitas emoções.
O livro 'Seis Ruas' trata temas delicados, que, por vezes, temos receio de abordar perante os mais novos. Narra a história de um rapaz que viveu uma vida como tantas outras, plena em aventuras e traquinices, no meio de diversos desafios que surgiram ao longo do seu percurso: o nascimento dos irmãos, o divórcio de pai e mãe e o simples facto de mudar de casa.
A ação acontece, maioritariamente, em Setúbal, por intermédio de uma narrativa que pretende cativar as crianças, os jovens, e as suas famílias, por ter sido baseada em factos verídicos. 
Trata-se de um livro breve, que procura atrair leitores/as jovens e pessoas que tenham pouco tempo para ler, numa leitura solta, mas intimista, que promete semear muitos risos. 
Nos tempos difíceis que enfrentamos, 'Seis Ruas' apresenta-nos a morte, para que o tema seja abordado e debatido com os mais novos, para que se façam as pazes com aquela que será a nossa última paragem, de modo a valorizarmos a viagem que fazemos enquanto estamos vivos, aproveitando o tempo que temos com quem mais amamos. 
Deixo-vos o meu coração, plantado nas páginas deste livro.

Mais informações na página:
Márcia Lima Soares, escritora
(Facebook e Instagram)

Márcia Lima Soares

quinta-feira, 4 de março de 2021

Para os Mais Pequeninos: "A Semente da Compaixão"


É de pequenino "que se torce o pepino", não é o que dizem? Pois este livro vem lembrar como é importante começar cedo a ensinar às crianças o que é a compaixão, como o amor pelo outro é fundamental para o nosso bem estar emocional. 

Este livro conta-nos a história do 14º Dalai Lama. De como foi escolhido para ser monge e a importância que a palavra compaixão teve durante a sua vida. Nobel da Paz em 1989, Dalai Lama reconhece que foi o exemplo de sua mãe e o seu amor pelo outro, que fez com que sentisse necessidade de pautar a sua existência por esse sentimento de amor pelo mais desprotegido e necessitado.

Contado de forma simples, com palavras e imagens sugestivas, creio que este livro é um bom ponto de partida para se falar de AMOR aos nossos pequeninos. E não se esqueçam que o nosso exemplo é fundamental!




Cris

quarta-feira, 3 de março de 2021

Novidades Clube do Autor

Em agosto de 1965, Robert Kincaid, de 52 anos, carrega a sua carrinha e parte para Madison County, no interior dos Estados Unidos, onde ficam as sete pontes cobertas que ele tem de fotografar para a revista National Geographic. A existência plácida de Francesca Johnson, casada e com dois filhos, é completamente abalada com a chegada inesperada do fotógrafo.

Neste clássico da literatura contemporânea, James Waller põe em cena o amor profundo entre Robert e Francesca. Inicialmente, nenhum deles espera que este encontro fortuito conduza a uma aventura, porém, a atração que ambos sentem é inegável e dará lugar a um amor profundo e duradouro. A sua história prova ao mundo que o valor das coisas está na intensidade que elas carregam e não no tempo que duram. 

Ao longo da vida, sofremos revezes inesperados, como uma doença grave, a morte de um ser amado, uma rutura sentimental ou a perda de emprego. Estes períodos podem ser solitários e dolorosos. No caso de Katherine May, o marido adoeceu, o filho deixou de ir à escola e os seus problemas de saúde forçaram-na a renunciar ao emprego. Este livro explora a maneira como ela suportou estes momentos difíceis, mas também como aproveitou as oportunidades únicas que eles lhe ofereciam.

Experiências na Cozinha: "O Livro de Cozinha da Marta"


Esta semana a cozinheira Palmira fez uma receita que não é muito habitual nas nossas cozinhas e que devia sê-lo: chucrute, isto é, couve prensada.

É um tipo de  pickles rápidos que tornam a digestão mais leve, ajudam no funcionamento do intestino e devíamos comer em todas as refeições, mas com moderação por ser um alimento salgado. 

Muito fáceis de fazer. Não precisam de grande fermentação e a duração também é curta. Por isso não devemos fazer grande quantidade. 

Na receita usou-se arandos vermelhos em vez de sultanas.

Experimentem fazer!



Palmira e Cris

segunda-feira, 1 de março de 2021

A Convidada escolhe: "Uma bomba a iluminar a noite do Marão"

Uma Bomba a iluminar a Noite do Marão”, Daniela Costa, 2018

Num tempo em que é preciso lutar contra o esquecimento e a erosão da memória, num tempo em que os fantasmas do passado se erguem impantes e sem-vergonha, ganhando os incautos e os deserdados sem esperança e sem perspectivas, é preciso lembrar casos que aconteceram em Portugal. Daniela Costa traz, através deste romance, a memória do assassinato do padre Max e da estudante Maria de Lurdes, faz agora 45 anos. A partir dum facto verdadeiro criou uma série de personagens – Max é Fred, Maria de Lurdes é Paula – trazendo visões, versões, vozes possíveis, traçando uma reconstituição de um crime de ódio à liberdade e à democracia que visou e ceifou as vidas de Max e Maria de Lurdes, na noite de 2 de Abril de 1976, no preciso dia em que foi votada a Constituição da República Portuguesa.

Vila Real anos 70. O peso do isolamento, da pobreza, da Igreja, dos senhores da terra, da ignorância, do analfabetismo e do alcoolismo. Que futuro tinham aqueles/as jovens? A tropa, a guerra colonial, a emigração, o servir, o trabalho sazonal precário e mal pago nas vinhas do Douro. E quando um dia, um homem que falava do Evangelho, lhes começa pela primeira vez a falar em política, lhes abre pela primeira vez horizontes e lhes faz ver que a pobreza pode e deve ser combatida, que os desperta para o seu potencial e para o papel que podem ter para mudar as suas vidas e o mundo, todo o edifício salazarista e atrasado é abanado e posto em causa.

Se a sua missão ultrapassava em muito o seu papel enquanto padre, como professor e mobilizador dos e das jovens, para que se superassem estudando, ajudando outros nos estudos, organizando eventos culturais, o anúncio de que se ia candidatar pelo círculo eleitoral de Vila Real, como independente nas listas da UDP para as legislativas de Abril de 1976, foi o escândalo maior que as forças poderosas da região não mais podiam tolerar. A maledicência, as invejas, os ódios, o moralismo hipócrita já lá estavam a envenenar o ambiente dos que não aceitavam um padre a agitar as consciências e a ganhar estudantes e pessoas das aldeias isoladas, mas a hipótese de uma alteração no quadro político bafiento e retrógrado era insuportável para quem até então tinha tido o monopólio do poder naquela região. As fortes convicções do padre Fred, que no congresso da UDP no Coliseu do Porto tinham ecoado “Nós temos de servir o povo e não servirmo-nos dele” ou as suas palavras “de nada vale falar do bem se não se fizer o bem”, punham em causa os privilégios dos senhores da Casa do Douro, os contra revolucionários acolitados pelo MDLP que manobrava no estrangeiro, que espalhavam o terror incendiando sedes de partidos de esquerda, os dirigentes do CDS e do PPD e a hierarquia da igreja que lhes dava cobertura.

Ciente do perigo que corria, porque as ameaças de morte eram cada vez mais explícitas e insidiosas, tinha a convicção que a escolha que tinha feito em nada colidia com a sua missão como padre. Avisado por amigos para que saísse daquelas terras, que emigrasse para França para junto dos seus pais, Fred desejava que as suas ideias revolucionárias pudessem ser continuadas por quem lá ficasse e daí ter dito a um amigo “Eu amo este povo e quando morrer gostava que espalhassem as minhas cinzas por estas aldeias fora.”

Sem dó nem piedade, na noite de dia 2 de Abril, no regresso das aulas nocturnas no centro cultural, uma bomba assassina fez explodir o carro em que Fred e Paula se deslocavam. Num processo em que cumplicidades com os mandantes do assassinato, instaladas na polícia local e nas autoridades com competência criminal, tudo fizeram para apagar provas e vestígios que permitissem o apuramento da verdade e a descoberta dos criminosos, só 23 anos mais tarde foi provado o crime com motivações políticas. Provada a responsabilidade do MDLP no assassinato, o colectivo de juízes, sem ter provas que pudessem apontar a responsabilidade individual dos arguidos, determinou absolver os réus, com base no princípio de presunção de inocência in dúbio pro reo.

Justiça tardia e incompleta, que permitiu no entretanto espalhar falsidades e enlamear a memória dos mortos. Práticas e expedientes dos que, a coberto da noite, em Portugal, em Espanha e no Brasil, se afadigaram em obstruir a justiça.

No funeral do padre e da jovem estudante, um lençol com as palavras “Não vos mataram, semearam-vos” foi um grito, é um grito que interpela todos quantos amam a liberdade, a democracia e os valores de solidariedade que nortearam as suas vidas.

22 de Fevereiro de 2021

Almerinda Bento



domingo, 28 de fevereiro de 2021

Ao Domingo com... Susana Piedade


Corredores de Saudades

Sabe, Doutor, o que me custa.

Poderá imaginar o que me custa.

Ouvi-lo dizer que está tudo bem, que o medicamento pegou como se fosse um enxerto, quando o meu marido se perdeu num sítio escuro onde não deixa ninguém entrar, porque a determinada altura somos todos estranhos a bater-lhe à porta. Para si é simples pronunciar o alívio, imaginar que o sente como nós, gente de quem daqui a uns tempos mal se lembrará. Quando muito, um registo sucinto no caderninho que traz na pasta; um cumprimento inseguro, se nos cruzarmos na caixa do supermercado e tiver a sensação de que nos conhece de algum lado; a publicação de um caso clínico numa revista da especialidade. Mas as pessoas têm nome, são pais, filhos, irmãos, amigos, conhecidos de alguém; têm gostos e interesses que as definem; sonhos que as motivam; vidas que as preenchem e as tornam invulgares, e isso não quer dizer boas nem más, apenas diferentes umas das outras. Os números dos milhares de cirurgias que vêm nos folhetos publicitários têm nomes por detrás. Talvez os confunda de vez em quando, são tantos que é impossível sabê‑los de cor, convenhamos, sobretudo agora, que os anos vão passando por si e a memória lhe prega rasteiras. Mas compreendo, há que manter o discurso impessoal, defender-se dos avanços da intimidade.

O Doutor, que é um reparador de memórias, deve achar que é fácil esquecer tudo o que sei sobre a doença, a modéstia de resultados, a prudência nas expectativas. E até gostaria de seguir os seus conselhos sábios – na sua armadura branca deve ser fácil dá-los – mas a memória não condescende, não se deixa arrumar como queremos.

Se pudesse, juntava-me aos outros que seguem uma normalidade displicente, com as suas vidas cheias de falhas vulgares e invisíveis. Suturava este buraco que se abriu em mim, não sei se o vê desse lado, a olho nu, por detrás das suas lentes quase impercetíveis. 

Aposto que escolheu neurocirurgia por ser uma área fascinante de que se sabe tão pouco, e o Doutor tem ar de quem aprecia os desafios do conhecimento. Décadas de estudo, de investigação, de prática. O calendário abarrotado de intervenções, implantes de elétrodos para reparar circuitos, tratar perturbações e doenças perversas que esvaziam as pessoas. Milhares de vezes em que entrou e saiu do bloco operatório, procurou os familiares ao fundo do corredor ou nas salas onde fingimos que nos distraímos com a televisão, antecipou as palavras certas sem pigarrear, porque ao fim de tantos anos é natural que as saiba de cor. As pessoas dão tudo por uma nesga de esperança, mas estas coisas mudam de um dia para o outro.

De um dia para o outro somos outros.

E talvez por isso se reserve. Em cima da mesa que nos separa há pouco de si. Uma moldura que resguarda da curiosidade alheia, junto ao computador, a única extravagância emocional a que se permite no trabalho. Um caderno no qual pousa uma esferográfica das mais baratas, a ponta da tampa partida de tanto cair ao chão ou, não sei, vamos supor, das vezes que atirou com ela à parede, nos picos de stresse, e daí os riscos na pintura. Um monte de processos reservados no canto, à espera de que a assistente os venha recolher. Mas não se trata apenas de um móvel, antes a distância de conveniência que se impõe, milhares de vezes em que se calhar a desejou transpor, deixar de lado o atendimento protocolar, despir-se da frieza que o forra da dureza da vida e dos ajustes da profissão, e olhar os seus pacientes nos olhos sem qualquer embaraço, porque vistas de perto as pessoas são únicas.

O Doutor, que é seguramente um especialista nestas coisas da mente, poderá compreender o que é temer pela vida de alguém que é parte de nós, uma espécie de órgão, se quiser transpor para linguagem médica. Viver com o pânico entranhado ao ponto de nos destruir. A dor cortante (calcule o golpe sem anestesia) que é começar por imaginar a perda, traçar‑lhe os contornos até que se afigure uma possibilidade e logo depois uma certeza aterradora. Percorrer corredores de saudades que não desembocam em sítio algum, não trazem nada de volta, e saber que nenhuma porta jamais se abre quando chegamos ao fim. Ficar sem alguém de quem nos apropriamos indevidamente, que olhamos de perto, todos os dias, na sua singularidade insubstituível, sem coragem de lhe dizermos que a sua falta será avassaladora.

Se souber, Doutor, e é natural que me possa ensinar

como se tratam as doenças que nos matam

antes de chegar a morte.

Susana Piedade

fevereiro 2021

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

"O Fim do Alfabeto" de CS Richardson

Quando se vai para uma consulta a pé, pega-se num livro da estante. Qual o critério para seleccionar o livro a levar? Pequeno e leve. E foi este que me saiu na rifa. O que podia ter acontecido? Ter pegado nele e não me ter agradado. O que aconteceu? Li-o metade quando estava à espera e a outra metade depois de ter chegado a casa.

É um misto de sensações o que este livro nos faz sentir. O tema é muito pesado mas a história é-nos contada com uma doçura que nos amolece o coração. Começa e acaba com a mesma frase: "Esta história é improvável.", que no princípio tem um sentido mas que no fim tem outro, completando o ciclo, fechando as pontas.

Ambrose tem os dias contados. Não é velho, mas está sim a meio do que era suposto viver, naquela idade em que se espera, ainda, muito mais do amanhã do que das recordações que se construíram. Mas Ambrose tem um mês de vida. Zipper é o amor da sua vida. De uma vida onde os dois se encaixaram e se foram completando. Quando a vida é encurtada abruptamente, que fazer dos dias que se estendem num futuro que tem fim? Ambrose e Zipper vão viajar, percorrer e encher de recordações o tempo. A primeira cidade começa pela primeira letra do alfabecto.

Escrito com uma delicadeza surpreendente, parecendo que quem escreveu sentiu na pele a certeza e o peso que a morte traz, este livro faz com que o leitor se coloque junto do casal e partilhe os seus sentimentos. Sendo um livro tão pequeno, achei surpreendente como o autor consegue abarcar tanto, com tão pouco. Eis a prova de que, quando as palavras escolhidas são as certas, não é necessário mais. 

Gostei muito. 

Terminado em 18 de Fevereiro de 2021

Estrelas: 5*

Sinopse

Ambrose Zephyr descobre de repente que o tempo se está a esgotar quando o médico anuncia que, devido a uma misteriosa doença, lhe resta um mês de vida. Por isso, ele e a mulher, Zappora Ashkenazi, decidem viajar para todos os sítios de que ele mais gostou ou que mais queria ver, de A a Z, começando por Amesterdão. Em Istambul, porém, Ambrose e Zappora dão ao resto do percurso um rumo inesperado, ao fazerem as pazes com o tempo perdido e as muitas perguntas deixadas para trás O Fim do Alfabeto é uma história mágica, evocativa e inesquecível que nos leva numa viagem espiritual até às profundezas do amor, da perda e da vida.

Cris


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Experiências na Cozinha: "Cozinha Vegetariana - Doces e Sobremesas"


É engraçado como as receitas da Gabriela Oliveira dão sempre certinhas. As que fiz, dos seus muitos livros, resultaram sempre muito bem. São práticas, deliciosas mas com um grave defeito: acabam depressa demais!

Estes scones foram exemplo disso. 

Só coloquei nozes (em vez de todos os frutos secos que constavam na receita) mas este fruto seco com a canela juntaram-se para um resultado fabuloso. Fofos e deliciosos, estes scones vieram para ficar.

Farinha (1chav) com pasta de tamaras (1/2 chav) num triturador, onde se acresce mais 1 chav de farinha, 1 colher chá de canela,  1/2 colh sopa de fermento, 1/2 colh café de bicabornato. Junta-se raspa de laranja e limão, 1 iogurte vegetal, 7 colh de azeite, 4 colh sopa de leite vegetal. É  so misturar e colocar mais farinha se necessário. Bolinhas p o forno e já está!






Palmira e Cris

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

A Convidada escolhe.: "A Peste"

Poderíamos pensar que este seria um livro a evitar neste período de pandemia em que vivemos, no entanto, despertou a minha curiosidade precisamente por tratar desta temática.

Albert Camus conta-nos esta história de uma forma realista que põe a nu a natureza humana perante uma adversidade comum a todos.
Ali, numa perfeitura francesa na costa argelina, uma doença surge propagada pelos ratos, transformando-se numa epidemia terrível e mortífera: a peste.

Primeiro poucos doentes e a sensação de que só acontece aos outros, a negação...  mais pessoas doentes e a preocupação geral, o aumento enorme dos casos, e por fim muitos mortos. 
Impôs-se a cerca sanitária, a impossibilidade de sair ou entrar na cidade, a inevitável separação entre famíliares, amigos, amantes a crescente revolta e os esquemas para contornar a lei. 

As pessoas fecham-se, também elas sobre si próprias no seu egoísmo olhando com desconfiança os vizinhos e os concidadãos.
Mas há também os que no seu altruísmo preserveram na luta para encontrar a cura, tratar os doentes e enterrar os mortos. Os melhores dos melhores, os que fazem a diferença, que se expõem ao perigo pelo bem comum, à custa da sua própria saúde. 

Surgem mutações da doença que se expande através de novas variantes que atacam uma e outra vez a já fragilizada comunidade assolada pelo medo e desespero.

Tantas semelhanças com o que vivemos e sentimos nestes anos terríveis de 2020/21, a natureza humana sempre tão previsível, capaz do melhor e do pior!

Para mim foi uma leitura muito proveitosa de que gostei e que  recomendo.

Marília Gonçalves 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

"O Amigo" de Sigrid Nunez

Não costumo ler muitos livros com animais. Por nenhuma razão em especial porque os que li até gostei.  Também não fico com nenhuma dor especialmente forte no coração quando o protagonista de quatro patas morre porque (acho eu que é por isto) nunca tive nenhum animal e não sei verdadeiramente que laços tão fortes são esses que se estabelecem. Às vezes, acredito que é melhor assim! 

Este livro constituiu uma leitura especial para mim. Não é idêntico a nenhum que tenha lido, porque aqui, o cão não surge, aparentemente, como o protagonista principal. Está lá sim, como pano de fundo, como se a narradora, também escritora, quisesse falar sobre esse amor que se sente pelos animais mas também sobre outros temas que, um bom livrólico, adora ler: sobre o acto de escrever, sobre escritores e seus pensamentos.  Aborda, também, todos os sentimentos que estão relacionados com a amizade, a morte e o luto.

A meio das suas divagações a surpresa, um twist que faz ler esta história de amor de uma escritora com o seu patudo, mais desafogadamente. 

Uma história na história. Gostei muito.

Terminado em 15 de Fevereiro de 2021

Estrelas: 5*

Sinopse

A protagonista desta obra é uma escritora que perde o grande amigo e mentor e se vê forçada a cuidar do seu cão, um enorme Grand Danois. Este livro narra a comovente história de amizade que se cria entre uma mulher solitária e um cão traumatizado pela inesperada perda do dono.

Cris

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

"A Filha do Mentiroso" de Megan Cooley Peterson

Comecei a ler este livro e depressa fiquei envolvida no seu enredo. A trama sucede-se vertigiosamente entre um "antes" e um "depois", em que a protagonista se vê envolvida na sua pequena vida tão cheia de mistérios. Piper tem 17 anos e relata-nos aquilo que pensa estar a acontecer, segundo os critérios e juízos de valor em que foi criada.

O "antes" passa-se num ambiente fechado ao exterior, num terreno isolado. Numa seita, percebe o leitor. No "depois" já ela se encontra fora da seita, afastada dos seus irmãos e pais, numa casa desconhecida. E está perdida e sente- se sozinha.

O engraçado, que achei muito bem conseguido, é o olhar que Piper tem de si mesma e dos outros, do exterior a que ela não tem acesso, todo um conjunto de situações que o leitor percepciona como tendo sido uma "lavagem ao cérebro". E  foi isso que achei cativante, o facto do leitor saber ou intuir mais do que a própria Piper. E a descoberta que ela faz da verdade, dos seus sentimentos perante aqueles que estão à sua volta, a auto-análise que faz a contragosto, a "verdade" que impingiram e a "verdade" que ela se vai forçando a descobrir, tudo está perfeitamente no lugar. Bem escrito, bem pensado.

É um YA que os mais novos vão gostar de certeza. Se por um lado o facto de ter percebido de antemão o que se tinha passado na vida de Piper me agradou bastante, por outro, isso fez-me esperar um twist no final que acabou por não chegar. Mas se pensar que se trata de um livro destinado a "jovens adultos", considero-o perfeito. 

Aconselho!

Terminado em 12 de Fevereiro de 2021

Estrelas: 4*

Sinopse

Nomeado para o prémio YALSA atribuído pela American Library Association

Perturbador. Intenso. Viciante.

Ela cresceu num culto.

O seu pai é o líder… e um mentiroso.

Chama-se Piper, tem 17 anos e é filha de um profeta. Ela obedece e respeita o pai, e por essa razão cuida das irmãs mais novas e prepara-se para o apocalipse. Porque assim foi ensinada e nunca o deve questionar.

Até ao dia em que arrancam Piper da família que sempre conheceu e a levam para o Exterior: esse mundo que lhe foi ocultado desde criança, um mundo desconhecido e longe de Caspian, o rapaz que ela ama.

Nesta nova realidade, tentam convencê-la de que o seu pai é maquiavélico, um fanático. E há uma mulher que diz ser sua mãe. Mas Piper recusa-se a aceitar e só quer fugir para regressar a casa… Afinal, no que deve acreditar? Nas palavras dos seus raptores? Ou na única verdade que conhece?

«Os leitores seguirão Piper num difícil labirinto psicológico enquanto esta tenta descortinar o que é real e imaginação. A luta pela sua saúde mental é genuína e avassaladora.» - School Library Journal

Cris

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Para os mais pequeninos: "À Procura de Ontem"


Vou pedir-vos para serem curiosos e abrirem este livro! Merece! 

O que fazer quando um pequenito quer voltar  para "ontem", para o dia em que foi feliz o tempo inteiro?  Como explicar-lhe que poderá esperar por muitos dias desses no futuro e que por isso deve olhar em frente? E mais: deve procurá-los no "aqui".

Pois foi isso que aconteceu a este pequenito que andava desesperado à procura de uma forma de voltar para trás. E foi ter com o avô...

Com imagens belíssimas que, só por elas podemos acrescentar pormenores à história, este livro é uma delícia para todos os olhos! E a mensagem está lá. O bom mesmo é sermos felizes hoje, aqui. 

Espreitem para as imagens...




Cris

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Experiências na Cozinha: "Tudo o que comemos conta"


Todas as  receitas que fazemos da Geninha são boas e saiem sempre bem. Pouco há a acrescentar!

O cheirinho que ficou no ar destas espetadas muito especiais foi maravilhoso! 

E dizemos que são espetadas especiais porque o ingrediente rei é pouco conhecido, o tempeh.

O tempeh é produzido a partir da fermentação de grãos de soja ou de outros grãos de leguminosas, como ervilha, feijão, ou grão-de-bico.

Há várias marcas e como em tudo , umas melhores que outras. Para nós a preferida é a Sal's Tempeh.

Esperamos que as fotos vos inspirem...





Palmira e Cris