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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

"O Homem dos Sussurros" de Alex North

Primeiro desafio de uma amante de livros (físicos) superado! A viagem destas férias obrigou-me a ler o meu primeiro livro num e-book. Custou? Nem por isso. Este formato possui algumas características que apreciei deveras: o seu peso reduzido, o diccionário incluído, o facto de se poder escrever notas. Há um facto, porém, que terei de "trabalhar" em mim: gosto de "ter" os livros comigo. E assim parece que nada possuo. Mas é o primeiro passo para conseguir viver sem acumular (afirmo isso para mim própria, tentando convencer-me!). Porém posso dar-vos mil razões para lerem um livro em papel... mas todas elas vocês já conhecem, não é?

Mas vamos à opinião. Gostei muitíssimo desta leitura. Bem escrito, conseguindo manter o leitor costantemente intrigado com o que parecem ser aspectos sobrenaturais mas, ao mesmo tempo, fazendo com que procuremos soluções mais credíveis para esses acontecimentos "paranormais". Intenso e perturbador q.b.

A nossa atenção prende-se muito facilmente tanto mais que trata-se de desaparecimentos / mortes envolvendo crianças. Tive pena que, no decorrer do enrredo, xxxxx tivesse morrido (não estavam à espera que fizesse um spoiler, pois não?) mas a história fica mais credível assim porque dá-lhe um aspecto mais real. Mais uma vez, confesso, não depreendi nada do final, se bem que nestas coisas não seja de todo uma perita em resolver mistérios! Começo por desconfiar de todos e depois é-me difícil eliminar suspeitos.

O enredo avança caminhando entre passado e presente. Uma investigação policial surge quando uma criança é raptada. Tudo aponta para um serial killer que, há vinte anos, assassinou outras crianças. O modus operandi é idêntico. No entanto, ele encontra-se preso. Como explicar tantas semelhanças? É chamado o investigador que conseguiu desventar o mistério e capturar o assassino nessa altura.

Paralelamente, somos confrontados com os sentimentos de um pai que, tendo ficado viúvo há pouco tempo, sente que não é tão competente como gostaria de ser para criar o filho. O falecimento da esposa veio agravar o afastamento entre os dois. Sentimentos de culpa, medo de fracassar, amor difícil de transmitir, tudo se mistura nesse pai que ama desmedidamente esse filho mas não sabe lidar com a morte da mulher, que era o elo de ligação. Pai e filho, Tom e Jake, têm pela frente muitos desafios e muitos fantasmas a ultrapassar. E que é que esta família tem a ver com o rapaz raptado e com o serial killer?

Com um misto de terror e momentos sinistros, de aspectos ditos sobrenaturais,  thriller e drama, esta obra tem tudo para ser um sucesso. Eu gostei muito e recomendo, especialmente para quem gosta deste pacote onde tantos géneros literários se misturam! Sim, porque não se esqueçam que "Se deixares a porta entreaberta ouvirás os sussurros na certa"

Terminado em 30 de Agosto de 2019

Estrelas: 5* 

Sinopse
Após a morte da mulher, Tom Kennedy muda-se com o seu filho, Jake, de 7 anos, para uma pacata povoação chamada Featherbank em busca de um recomeço de vida. Mas Featherbank tem um passado sombrio.

Há 20 anos, Frank Carter, um perverso assassino em série, raptou e assassinou cinco rapazes. Ficou conhecido como «o Homem dos Sussurros», pois atraía as suas vítimas à noite sussurrando-lhes da janela. Logo após o seu quinto homicídio, Frank acabou por ser detido.

Estando o assassino atrás de grades, Tom e Jake não deveriam ter motivos de preocupação. Só que agora um novo rapaz desapareceu, e as semelhanças entre este acontecimento e os crimes de há 20 anos são desconcertantes. É então que Jake começa a comportar-se de modo estranho?

Diz escutar sussurros vindos do lado de fora da janela do seu quarto...

Cris

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Experiências na Cozinha: "Vegan Para Todos"

Este livro é para terem na vossa cozinha, quer sejam vegans ou não. Ou então podem seguir o André e a Rita nas redes sociais. Possuem o blogue Cocoon Cooks. Passem por lá. Vão encontrar receitas muito boas e são simples de fazer. Eles têm muito para vos ensinar e vocês, desde que tenham a mente aberta a novas experiências, têm muito a provar. Os seus pratos são deliciosos!

Mas falemos um pouco deste livro. A sua introdução dá-nos uma ideia de como podemos desmistificar o que é ser "vegan", como é fácil adaptar e substituir ingredientes desde que conheçamos as opções que temos à nossa volta. Mostra-nos que ingredientes comprar, que utensílios ter, como usar o livro.

Depois passamos à paparoca!  Sumos, leites vegetais, pequenos almoços, pratos e doces docinhos. Há de tudo um pouco...

Escolhemos, eu e a Palmira, uma sopa que nos pareceu deliciosa. A sopa, para quem é português, é das comidas de que mais temos saudades quando estamos longe de casa. A escolha desta receita foi um pouco o "dois em um" porque, na verdade, trata-se de duas receitas. Fizemos o Caldo de Legumes da pág. 232 (podemos congelá-lo para substituir o caldo de legumes de compra e que faz tão mal!) que serviu de base para a Sopa Aromática de Grão e Curgete, pág 110, que fizemos logo de seguida.

Todas as cobaias aprovaram! Estava simplesmente maravilhosa!

Ficam então as fotos das duas receitas: da sopita e do caldo de legumes!







Cris e Palmira

terça-feira, 10 de setembro de 2019

A Convidada escolhe: "As Sombras de Leonardo da Vinci"


As Sombras de Leonardo Da Vinci, Christian Gálvez, 2014

Não é fácil escrever sobre este livro. Identificado como “romance histórico” “fruto de vários anos de investigação exaustiva sobre a vida de Leonardo da Vinci”, não consegui abstrair-me de um certo preconceito relacionado com jornalistas que se tornaram verdadeiras estrelas pop depois de terem começado a escrever livros apoiados em grandes campanhas de marketing que fazem com que os seus livros passem a figurar durante semanas nas montras das livrarias e no top de vendas! Talvez seja mesmo só preconceito. Sobre o autor, Christian Gálvez, na badana do livro pode-se ler que “Desde 2009, divide-se entre o trabalho em televisão e a investigação sobre Leonardo da Vinci, vivendo entre Madrid e a Toscana. É um dos mais conhecidos especialistas internacionais do artista.” Também na capa, o leitor é alertado para o conteúdo do livro que vai fazer sobressair a faceta do homem, mais do que a do génio.
Quem não sabe que Leonardo da Vinci foi genial? Que imaginou máquinas e inventou engenhos que só vários séculos depois da sua morte foram realizados? Que as suas pinturas são obras de arte que atraem milhões de visitantes de todo o mundo? Que utilizou técnicas pioneiras e que, embora tendo vivido num período de grande incentivo e apoio às artes, se distinguiu de todos os seus pares por ser o maior? A sua genialidade foi objecto de estudo de especialistas e de produção de milhares de obras sobre a sua arte e dimensão multidisciplinar.
Mas a sua figura como pessoa e a interpretação de algumas das suas obras têm sido objecto de imensas teorias e controvérsia. Daí, ter sentido a necessidade de, ao ler “As Sombras de Leonardo da Vinci” de Christian Gálvez, confrontar informação com outros livros sobre Leonardo da Vinci. Reconheço que a parte material e visível da obra é bem mais fácil de ser trabalhada do que a personalidade, os sentimentos e atitudes de um homem que viveu 67 anos e cuja vida foi marcada por traições, desafios e vicissitudes, mas uma energia fora do vulgar que fez dele também um sobrevivente.
O início do livro situa-se em 1519 no dia 2 de Maio, data da sua morte, em França, na região do Loire onde viveu os últimos três anos da sua vida, a convite do rei de França, Francisco I. É a cena da morte, onde está acompanhado do rei e das pessoas que lhe são mais queridas, cena essa a que voltaremos no final do livro. Nascido da relação ocasional do pai, um importante notário de Florença, com Caterina uma jovem escrava, esse nascimento não desejado pelo pai marca-o, ao contrário do amor que a mãe lhe devota, mesmo quando o acompanhamento do seu crescimento e educação lhe são impedidos e o afastamento do filho lhe é imposto.
Os diversos capítulos que constituem o livro e que não surgem por ordem cronológica são cenas da vida de Leonardo da Vinci, em criança, na oficina do mestre Andrea Verrocchio, nos calabouços do Palazzo del Podestá em Florença, na sequência duma acusação anónima de homossexualidade, na sua oficina, em Florença, na Abadia de Montserrat, em Milão, Roma ou em França. A desenhar, a projectar, a planear, a dissecar cadáveres, a inventar, a experimentar, a estudar, a “voar”.
As rivalidades entre as oficinas dos artistas, a Europa em mudança, a Península Itálica dividida, as guerras entre os Médici, a Igreja e os papas, o nepotismo reinante, as teorias e os protagonistas que queriam reformar a Igreja de Roma, os encontros e desencontros, amizades e inimizades com outros artistas da época (Sandro Botticcelii, Michelangelo, Rafael, Maquiavel) tudo isto nos dá este livro do escritor madrileno. Um romance histórico documentado no final do livro com uma listagem exaustiva das personagens do romance, dos papas, dos Médici e dos Sforza que reinaram em Roma, Florença e Milão durante o período de vida de Leonardo da Vinci, assim como os reis de Espanha e de França do mesmo período.
Se Leonardo da Vinci conseguiu salvar Lorenzo de Médici do atentado dos Pazzi, lançando-se da cúpula de Santa Maria del Fiore para a Piazza della Signoria e assim usando pela primeira vez a sua máquina voadora; se Leonardo da Vinci conseguiu escapar da fogueira de Girolamo Savonarola lançando-se ao rio Arno e usando o seu escafandro que o impediu de morrer afogado; se Leonardo da Vinci se vingou dos três torcionários que o torturaram quando ele esteve preso acusado de práticas homossexuais; se Leonardo da Vinci viveu em Barcelona (Abadia de Montserrat) antes de ir para Milão; se a explicação que Francesco Melzi deu ao rei de França sobre o quadro de Mona Lisa corresponde ao pensamento e intenção de Leonardo da Vinci ao pintá-lo é a verdadeira…
Tantos “ses”! As minhas dúvidas.
A minha certeza: Leonardo da Vinci foi um homem genial, o símbolo maior do Renascimento, alguém com uma capacidade muito superior ao comum dos mortais, sempre a querer superar-se.
O difícil consegue-se, o impossível tenta-se.”

29 Agosto, 2019
Almerinda Bento




segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Convite Minotauro: Apresentação de "Voar no Quarto Escuro"


"Voar No Quarto Escuro" de Márcia Balsas

Não me pude impedir de fazer uma leitura mais crítica deste livro. Digo já que o resultado de tal exame foi "passado com distinção"! Passo a explicar...

Conheço a Márcia. Nestas coisas dos livros, conhecemos leitores e alguns aspirantes a escritores. A Márcia e eu pertencemos, já há mais de seis anos, ao mesmo grupo de leitura, a um dos que faço parte. A Márcia é uma pessoa calma, directa, que dá a sua opinião sobre o que lê sem pejo nem medos. Lê em voz alta muito bem, escreve ainda melhor. Já escreveu alguns contos que foram publicados. Os contos em geral não me atraem, não sei porquê. Ou melhor, sei. Acabam depressa demais, só isso. 

Sabia que a Márcia andava a escrever. A sua ausência dos encontros de leitura espelhava isso mesmo. Não sabia que era um romance. Pegar nele fez-me medo. Teria de dar a minha opinião sobre ele. Nem a Márcia esperava outra coisa, nem eu poderia ir contra o que acredito. Mas depois de o terminar as palavras rolaram facilmente. A opinião nasce com facilidade. É bom este livro!

Cada capítulo, um personagem. Eduarda, Alice, Celeste, Catarina, Adelaide, Ema, Beatriz, Célia. Peguei num papel e num lápis, como faço sempre quando o risco de me perder é grande. Quem é quem e o que faz. Depressa deixei de anotar. Elas, essas mulheres, estavam lá na minha cabeça, todas distintas, com personalidades diferentes, com acontecimentos passados e presentes que as distinguiam na perfeição. Gostei. 

E que vos dizer da escrita da Márcia? Algumas palavras sabiamente colocadas juntas umas das outras, um toque de poesia, ligeiro, que não farta mas que nos faz voltar atrás para as apreciar, uma beleza! 

A história? São várias, todas tendo a Mulher como protagonista, que se vão entrelaçando devagarinho. Em todas essas mulheres um elo que urge descortinar. É o amor, o desespero, a infelicidade e a solidão que aqui estão retratados e que as acompanham.

O título? Gosto. Sugere uma caminhada pela vida muito embora esta possa ser agri-doce. Um voar sem asas ou com elas partidas. No fundo é sobre histórias de mulheres de hoje que nos fala este livro. Porque as histórias podem ser macabras, duras e feias. Mas retratam a vida.

É um romance, este livro da Márcia, mas creio que a sua paixão pelos contos está aqui bem retratada. São várias histórias, de várias mulheres, que se entrelaçam. Vale a pena degustar as palavras desta minha amiga! (Olha pra mim tão vaidosa: conheci uma escritora antes de ela o ser, lol).

Recomendo!

Terminado em 25 de Julho de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Sou eu a minha prisão, agora. Até acordar cercada por grades, algures.»

Eduarda apenas sonhara em refazer a sua vida após a morte do marido, que a deixou sozinha no mundo com uma filha adolescente. Não desconfiou que essa nova casa, com um novo companheiro, a conduziria a uma vida de violência, destinada ao esquecimento. Anos de submissão encaminham-na para uma noite de tempestade.


Este é o momento em que as paisagens tão dissonantes da vida de seis mulheres se entrelaçam de uma forma inegável, numa demanda pelo significado da vida. Mães, filhas, amigas, amantes, casas devastadas pela dúvida e pela loucura - todas obrigadas a enfrentar o medo de voar no quarto escuro.

Cris

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Passatempo Mensal "Toca a comentar"

Olá. Cá está de novo o blogue para uma nova "rentrée" depois de umas férias fabulosas! 

E para começar em beleza lembrei-me de premiar os seguidores que participam activamente no blogue comentando os posts e, por outro lado, incentivar também os mais tímidos a fazê-lo. 

Gosto de vos "ouvir", de saber o que pensam sobre os livros, se já os leram ou pretendem ler. No fundo, de interagir com quem tem a "pachorra" de me ler ou de ler as opiniões dos convidados do blogue. 

Assim, mensalmente irei sortear um livro pelos seguidores que expressarem a sua opinião, aqui no blogue, comentando os posts do blogue. Por cada comentário será considerada uma participação para este passatempo mensal. 

O livro a sortear será divulgado no fim do mês mantendo assim a expectativa em alto. Tentarei sempre que possível ter dois livros de modo a que o vencedor escolha o que mais lhe agradar. 

O vencedor será divulgado nos primeiros dias do mês seguinte, através de um post, e terá até dia 15 do mesmo mês para comentar nesse post e enviar a sua morada via mail para
otempoentreosmeuslivros@gmail.com. Caso o não faça, a primeira pessoa que a partir do dia 16 e até ao final do mês, comentar esse mesmo post será o vencedor, podendo escolher um dos dois livros apresentados. Se não houver qualquer comentário, os livros serão de novo sorteados. 

Os livros a sortear poderão ser livros lidos mas em estado novo. 

Estes passatempos mensais ir-se-ão manter até Junho do ano que vem. 

Resta somente desejar boa sorte a todos e que apreciem a leitura dos livros sorteados! 

Cris

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Férias

O blogue vai de férias. Adivinham para onde? 
Em Setembro recomeçamos com alguns novos projectos.







quinta-feira, 22 de agosto de 2019

"A Oeste Nada de Novo" de Erich Maria Remarque

O autor coloca-se na pessoa do protagonista desta história, Paul Bäumer, um jovem soldado alemão de 19 anos, que juntamente com a sua turma, incentivados por um professor, alistou-se para combater na Primeira Guerra. Escrita crua, pormenorizada, descritiva, que impressiona. Encontram-se a 8 km da linha da frente, algures entre a Flandres e o Vosges, e o seu pelotão é chamado a combater com frequência. Um ir e vir à linha da frente que os esgota muitíssimo, tanto mais que a alimentação que lhes dão é insuficiente. Inexperientes, sujeitos a um superior que os amachuca constantemente tanto física como psicologicamente, Paul vê os amigos e colegas de carteira a tombar.

A tensão da espera nos abrigos que os esvazia. As ratazanas esfomeadas. O cheiro intenso, o som atordoador, a escuridão que vira dia com os clarões das bombas. As trincheiras destruídas. Tudo é descrito com cuidado e ao pormenor. O leitor ouve, sente e vê. Na frente de combate a vida a depender do acaso, a sorte em estar vivo. As balas que atingem não se sabe quem, os obuses que matam indiscriminadamente, os estilhaços que ferem com o intuito de ceifar vidas. À espera de uma morte que não se sabe se ou quando virá.

Por outro lado, são-nos descritas situações algo hilariantes como aquela em que Paul e um amigo decidem roubar um ganso para o assar. Depois de algumas peripécias em que estão envolvidos Paul, dois gansos e um cão da raça bullmastiff, os dois amigos encontram-se num barracão onde fazem uma fogueira. Lá fora, o som que uma guerra faz: explosões causadas pelas bombas, o barulho dos aviões, o matraquear das metralhadoras, gritos! Não fora o leitor "ouvir" perfeitamente o barulho e "ver" o cenário descrito, até pareceria uma cena cómica. O horror e o sorriso juntos em quem lê. 

Paul sente que a sua vida e a dos seus companheiros nunca será a mesma. Aliás, acha que foi completamente destruída com esta guerra que, para ele, não faz sentido nenhum. 

Uma obra a ler, sem sombra de dúvida. Um retrato psico-sociológico muito bem elaborado das consequências de uma guerra. Uma crítica social e política que valeu ao autor a sua ida para a Suíça, dado que este livro constituiu, segundo os nazis, um "acto de traição contra os soldados alemães que combateram na frente" (Epílogo). Uma obra ficcionada, mas muito visual, e que terá, muito provavelmente, muitas vivências de Erich Remarque.

Recomento para quem tem um estômago forte. Muito bom mesmo!

Terminado em 17 de Agosto de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
Nas trincheiras, um a um, os rapazes começam a tombar em combate…

Em 1914, um professor chauvinista incentiva uma turma de estudantes alemães — jovens e idealistas — a alistar-se para a “guerra gloriosa”. Todos o fazem, movidos pelo ardor e pelo patriotismo próprios da juventude. Mas o seu desencanto começa logo durante a recruta brutal. Mais tarde, ao embarcarem no comboio que os levará à frente de combate, veem com os próprios olhos as feridas terríveis sofridas sob o impacto das bombas e a metralha implacável. É o seu primeiro vislumbre da realidade da guerra. Não será o último.


Cris

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Experiências na Cozinha: O Menu da Semana

Este é um bom livro para quem pretende mudar a sua alimentação, ou simplesmente alterar a forma de cozinhar, - introduzindo alimentos e combinações de alimentos que fogem à comida tradicional - mas que sente dificuldades quer na sua escolha, quer na organização e planeamento.

Tem muita informação útil sobre a forma como devemos conservar os diversos alimentos, os tempos de preparação e, ainda sugestões de menus semanais, com as respectivas receitas.

Foi difícil escolher uma receita deste livro, para vos mostrar, porque são todas muito apelativas e de fácil execução.

Acabámos por escolher a receita de amaranto com ervilhas e bimis (que substituimos por brócolos) por ser um cereal, ou melhor, ou pseudocereal, ainda relativamente desconhecido, mas que tem muito valor nutricional; é uma excelente fonte de proteína, não tem gluten e é rico em fibras, vitaminas e minerais.

Tal como o blogue "Made by Choices", da mesma autora - a Vânia Ribeiro - de onde retiramos tantas ideias sempre deliciosas, e de que somos seguidoras, este livro também tem um lugar de destaque na nossa biblioteca de gastronomia. 







Palmira e Cristina

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Para os Mais Pequeninos: O Livro dos Ursos

Todos sabemos que as crianças possuem uma predilecção especial pelos animais e, às vezes, aqueles que só podem ter de peluche - como os ursos - são os seus preferidos.

Este livro fala-nos dos ursos, das diferentes espécies que existem, do seus habitats e das suas características particulares que distinguem umas espécies das outras. Não é pois um livro de histórias mas, com tantas imagens sugestivas, podem-se inventar várias dirigidas aos mais pequeninos, que estão sempre prontos a ouvir. Gestos, sons, tudo é permitido para fazer com que essas imagens se tornem reais!

Um livro que dá para algumas horas de leitura/conto muito especiais e onde podemos ensinar (e aprender!) muitas características destes animais de grande porte. Ora vejam algumas imagens:





Cris

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

"A Força do Amor" de Angela Hart

Keeley e Angela. Uma menina de 8 anos e uma mãe de acolhimento. Nunca uma leitura me colocou os nervos tão em franja! Sobretudo por passar a ter a noção de como deve ser difícil cuidar e amar crianças vítimas de abusos.

Angela e Jonathan são uma família de acolhimento e vivem em Inglaterra. Já são um casal experiente nessas andanças pois passaram em sua casa muitas crianças, por períodos mais ou menos longos. Com eles estão dois rapazes adolescentes, quando recebem uma menina com traumas e abusos psicológicos e físicos ainda não determinados. É preciso uma dose de paciência e amor muito grande pois o comportamento de Keeley não é pacífico e consegue fazer desesperar o mais santo dos homens! A mim fez-me pensar sobre estas famílias de acolhimento e a preparação que devem ter de modo a conseguirem ultrapassar a barreira que uma criança que foi abusada cria para se defender e proteger. Não reagir e não confrontar é muito difícil quando, insistentemente, as birras (e não só) surgem do nada e parecem ser infinitas! Como reagir? Como chegar ao coração de uma menina que foi magoada vezes sem conta?

O que mais me impressionou foi o facto de este livro não ser ficção. Esta obra é escrita na primeira pessoa por Angela Hart, a autora, e somos confrontados com a dificuldade do que será dar amor e manter a calma com uma criança que injuria constantemente e é malcriada ao ponto de fazer desesperar todos os que estão à sua volta. Isso juntamente com todas as regras que necessitam cumprir, pois uma criança que foi abusada precisa de atenções e cuidados especiais! Os Hart, tiveram com esta menina uma dificuldade acrescida já que nada parecia resultar. E às vezes parece que nada resulta mesmo. Só mais tarde é que se descobre que algo ficou dessa dádiva de amor.

Este livro é um relato pessoal onde a autora coloca, para além do sucedido com esta colocação, as dúvidas que teve na altura sob a melhor forma de lidar e amar uma criança com tantas dificuldades de adaptação e qual a melhor forma de a fazer revelar os traumas que sofrera. 

Recomendo muito esta leitura. Já há muito tempo que não lia nada sobre esta temática. Li alguns livros de outra autora que abordam temáticas semelhantes e de que gostei muito, Torey Hayden. Conhecem? Também fiquei muito curiosa em ler outro livro de Angela Hart que já foi publicado cá, "Ninguém me ama".

Terminado em 14 de Agosto de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Keeley, de oito anos de idade, parece a menina mais doce do mundo, mas os demónios do passado tornam o seu comportamento longe de angelical.

Ela faz com que Angela, a sua mãe de acolhimento, passe por momentos muito exigentes e difíceis enquanto trava batalhas diárias contra os seus problemas psicológicos profundamente arraigados.

Conseguirá o amor e o cuidado especializado de Angela e do seu marido, Jonathan, ajudar Keeley a triunfar contra todas as probabilidades?


Cris

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A Convidada Escolhe: "Londres"


Londres, Virginia Woolf, 1931,32

Como é a Londres de Virginia Woolf? Quase cem anos depois, que diferenças se encontram entre a visão da escritora que nasceu, amou e viveu durante tantos anos nesta cidade e uma cidadã-turista que visita a cidade e que a dá a conhecer a outras pessoas que a visitam pela primeira vez?

Entre os inúmeros pontos de interesse da cidade tão presente nos seus Diários, Virginia Woolf escolhe como “roteiro” neste The London Scene seis aspectos, correspondentes a seis ensaios escritos na Primavera de 1931 e publicados em Dezembro desse mesmo ano e ao longo de 1932 na revista Good Housekeeping.
Começa pelas docas, pela azáfama do porto, com as entradas constantes de navios vindos da Índia, da Austrália, da América, de todo o mundo, trazendo e levando produtos ao sabor das necessidades e do gosto das populações. A dança dos guindastes é constante e a sujidade e o lixo não são coisas boas de se ver, em contraste com Oxford Street onde se encontram “refinado(s) e transformado(s)” os produtos trazidos e deixados em bruto nas docas de Londres. Mas Virginia Woolf alerta que Oxford Street “não é a rua mais distinta de Londres”, tanto mais que aqui “há demasiadas pechinchas, demasiados saldos” para concluir que “Tendo em conta tudo isto – os leilões, os carrinhos de mão, as pechinchas, o esplendor – não se pode dizer que seja refinado o carácter de Oxford Street.” Nesta maré que é Oxford Street tudo é transitório como os nossos desejos, veloz como as notícias, reflectindo que “o encanto da moderna Londres está em ser feita não para durar, mas para passar.”
Depois da “Maré de Oxford Street” Virginia Woolf leva-nos a visitar as casas do casal escocês Thomas e Jane Carlisle em Chelsea e de Keats em Hampstead. Sem água canalizada, todo o trabalho de aquecimento e transporte de água para os banhos desde a cozinha até ao terceiro andar da casa dos escoceses, em que a Sra. Carlisle e a criada se afadigavam, tornavam esta casa num campo de batalha contra o frio e o pó. Virginia Woolf diz que esta casa é marcada pelo mês de Fevereiro, ao contrário da casa de Keats, uma casa despojada de móveis, com muita luz e em que reina a Primavera.
A Catedral de Saint Paul e a Abadia de Westminster não podiam deixar de ser referidas como locais marcados pela vastidão, pela serenidade e pela presença de grandes estadistas e homens de acção que aqui repousam e onde se encontram os seus nomes e estátuas jazentes. Não menos digno de nota, uma inscrição que leu na parede de uma pequena igreja – St. Mary-le Bow – onde a memória e as qualidades de um homem comum ficaram imortalizadas.
O confronto entre o perene e o transitório que Virginia Woolf faz na referência às estátuas dos homens que ficaram na história e que existem na cidade e o dia-a-dia das pessoas comuns é aprofundado no ensaio sobre a Câmara dos Comuns. Aqui, os deputados são comparados a um “bando de pássaros num campo de terra lavrada.” ”Estes homens pouco se distinguem das pessoas normais” mas são eles que decidem da paz ou da guerra, ou das coisas mais comezinhas como a velocidade a que se pode conduzir em Londres. Virginia Woolf dificilmente os vê transformados em estátuas. “Os dias do indivíduo e do poder pessoal terminaram de vez”. e conclui que a democracia transformou o Parlamento. No entanto, o seu optimismo não é excessivo pois a democracia ainda avança a custo, lentamente e é vigiada por inúmeros polícias…
Finalmente, o último ensaio é o delicioso e pouco lisonjeiro retrato de uma londrina. Chama-lhe Sra. Crowe. É “uma coleccionadora de relações”, recebe um grupo restrito de amigos para o chá das cinco, os quais alimentam com as suas conversas frívolas a bisbilhotice de que são feitas as suas vidas. Afinal de contas para eles e para a Sra. Crowe, Londres não passava de uma aldeia e a bisbilhotice era tudo o que queriam da vida.
A ideia que perpassa da cidade de Londres nestes ensaios escritos em 1931 é de uma cidade trepidante, em que as pessoas se acotovelam, com multidões sempre apressadas, havendo até referência a turistas (pág. 67). “Os únicos sítios tranquilos …são os cemitérios.” A trepidação e o encanto da sua cidade testemunhados por esta ilustre londrina, continuam a atrair milhões de turistas um século depois. Como seria “The London Scene” escrito por Virgínia Woolf em 2019? Numa página do seu Diário de 5 de Maio de 1924 escrevia “Londres fascina, saio e é de imediato um mágico tapete colorido e eis-me transportada para a beleza, sem ter sequer de mexer um dedo.”

Mouriscas, 3 de Agosto de 2019
Almerinda Bento

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

"Entre Nós" de Susan Wiggs

Foi uma leitura simpática esta. Fluída, como uma amiga afirmou. A escrita conquista-nos pela simplicidade e as páginas voam. 

Um pequeno aspecto desagradou-me porque achei desnecessário. A personagem principal utiliza algum calão que achei que ficava a mais. Quase que impróprio para a caracterização dessa mesma personagem. Não sendo púdica, soou-me mal. 

De resto, gostei da história. A autora focou bem os aspectos positivos e negativos da cultura amish comparativamente com a nossa. E, claro, aprende-se sempre, facto que adoro. 

É uma história de amor, boa para esta época de férias e de descanso. O final é previsível como se quer num enredo assim mas é uma leitura muito agradável que recomendo para quem gosta de um romance com alguns contratempos mas que acaba bem.

Terminado a 12 de Agosto de 2019

Estrelas: 4*

Sinopse
No coração pacífico das terras dos amish, uma situação de vida ou de morte destrói os alicerces desse mundo tranquilo. A autora número um em vendas do The New York Times, Susan Wiggs, oferece-nos uma história fascinante que desafiará as nossas crenças mais profundas.

Cris

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Experiências na cozinha: "Pequenos almoços e lanches saudáveis para crianças"

Este é um livro para se ter naquela prateleira da cozinha onde temos os livros que dão jeito ter sempre à mão. É pequeno mas está repleto de pequenos almoços e lanches para miúdos... e graúdos! 

Snacks preciosos para levarmos connosco para que as asneiras sejam minimizadas. Alguns são tão fáceis de fazer que pensamos " porque não me lembrei antes disso?". A época do "bolicao" está a ficar para trás e ainda bem. O açúcar é terrível e os seus malefícios, infelizmente, estão a atacar as nossas crianças.

As dicas de planeamento e organização, que a autora refere nas primeiras páginas, também são preciosas e muito úteis. São a base de uma  alteração nos hábitos alimentares que urge divulgar.

Optámos por fazer a receita da página 44, "Iogurte com bolachas de aveia e fruta da época" mas pode-se fazer a granola caseira (pág 40) e substituir as bolachas de aveia pela granola. Gostámos muito do resultado da receita mas, a Palmira e eu, concordámos: com a granola deve ficar mais crocante e ainda mais delicioso! 

Ora espreitem as fotos e a receita: nada mais fácil, não? Reparem que fizemos também num frasco para vos mostrar como podemos levar esta delícia connosco reutilizando aqueles frascos que todos temos em casa. Bom apetite!




 




Palmira e Cristina

terça-feira, 13 de agosto de 2019

A Convidada Escolhe: "O Grande Bazar Ferroviário"


O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux, 1975
Um livro extraordinário, de que tirei inúmeras notas, fiz imensas anotações e sublinhados, assinalei páginas… Foram cinco semanas de viagem, a acompanhar os quatro meses que Paul Theroux levou desde que partiu em Setembro de 1973 de Londres e a que regressou no início de Janeiro de 1974. Não conseguiu cumprir a promessa de que estaria em casa antes do Natal, apenas tendo conseguido durante a viagem no Transiberiano apanhar um programa da BBC que passava algumas canções de Natal!
A edição da Quetzal abre com um texto de Francisco José Viegas e um belíssimo prefácio que Paul Theroux decidiu fazer ao seu livro em 2008. O mundo tinha mudado muito entre 1973 e 2008 e ele sentiu necessidade de “explicar” o que o levara a escrever aquele livro, o seu primeiro livro que ele não quis rotular de “livro de viagens” por desprezar essa designação que associa a turismo de massas, a interesses comerciais, a luxo e comodidade, tudo aquilo que ele deixou em casa, quando decidiu aceder a um convite de uma editora para escrever sobre uma viagem. A ideia de movimento, da verdade da viagem, de ir sozinho, anónimo e ser autosuficiente agradava-lhe, ele que já viajara antes, já trabalhara em diferentes países, mas nunca escrevera sobre a experiência da viagem, de apanhar comboios, de conhecer passageiros, de ouvir diálogos.
Uma viagem longa a partir da Europa, entrando na Ásia pela Turquia, seguindo pelo Irão, Afeganistão e Paquistão até à Índia e Ceilão, entrando na Birmânia, passando pela Tailândia, Laos, Malásia, Vietname, Japão, Extremo Oriente Soviético, Sibéria, Polónia, Holande e de novo Inglaterra. Foram 30 comboios, alguns com nomes míticos, poucos aviões e barcos, sempre que a ligação de comboio era impossível. Comboios de todo o tipo, todos diferentes e com “personalidades” próprias: Expressos, Locais, Correios, de passageiros, o Expresso de Bombaim que afinal era mais um comboio local que expresso com as paragens constantes dos passageiros que accionavam o alarme para assim se apearem e ficarem mais perto de casa… já sem falar da viagem na carruagem privativa do director dos Caminhos de Ferro Vietnamitas, ou o Super Expresso “Raio de Sol” para Quioto, o comboio de passageiros mais rápido do mundo (pelo menos nessa altura) que fazia os 500 kms entre Tóquio e Quioto em menos de três horas.
A escrita de Theroux é tão vívida, que é impossível não sentir que se viajou com ele, que se conheceram pessoas bizarras, que se descobriu que cada comboio é uma incógnita, pois pode ou não ter carruagem-cama, vagão-restaurante, que nos dois primeiros meses o sol brilhou, que a primeira chuvada foi na Índia e que as monções trouxeram inundações e o risco de colapso de pontes na Tailândia, e que foi na Birmânia que teve a primeira sensação de frio que depois se intensificou drasticamente no Japão onde a neve e a aproximação da viagem gélida através da Sibéria o obrigaram a comprar roupa quente para substituir a roupa fresca e puída que usara até então.
Se teve de ser vegetariano à força na Índia onde teve os primeiros desarranjos intestinais, ou se fingiu que comia pardalinhos na Birmânia, aprendeu que em muitas estações onde paravam havia vendedores de produtos locais que respondiam à inexistência de vagões-restaurante em muitos dos comboios. E se isso era impensável nas estações no Japão, em que a saída de passageiros na estação e a partida do comboio era uma questão de segundos, noutros comboios o drama de perder o comboio não se colocava. E aqui não posso deixar de referir uma personagem bizarra – Duffill – que, na atrapalhação de ir comprar víveres para a viagem com destino à Turquia, perdeu o Expresso do Oriente logo em Itália, o que deu origem ao verbo “duffilar”. Pois em quatro meses de viagem, o autor só ficou “duffilado” em Moscovo onde ficou retido dois dias, não lhe tendo sido permitido embarcar no comboio para a Polónia, por não ter visto de trânsito.
Imaginamos Paul Theroux com o seu cachimbo, óculos, mapa, livros e blocos de apontamentos, aonde vai anotando todos os detalhes e impressões de viagem. Na passagem por Itália estava a ocorrer uma epidemia de cólera; em Istambul soube da morte de Pablo Neruda no Chile que acabara de ser tomado de assalto por Pinochet; a imagem omnipresente de Ataturk parecia que tinha feito congelar a cidade desde 1938, ano em que morreu; no Irão e em Teerão que lhe deixou uma impressão muito negativa, deparou-se com duas realidades distintas com mulheres de saia e blusa e outras totalmente cobertas com véu e com o rosto tapado; a presença dos americanos ligados à extração do petróleo na região; o suborno (bakchich) como prática corrente para se conseguir qualquer coisa; o Balochistão em guerra; o Afeganistão e o Paquistão como zonas de conflito; a péssima impressão deixada por Cabul, ao contrário de Peshawar; os hippies; a droga. A Índia como um grande país, muito diverso e muito dividido, as aldeias, as estações de comboio apinhadas onde os indianos literalmente viviam, o lixo, a degradação, as pessoas mutiladas que mendigavam, a prostituição infantil. Madrasta, que um indiano lhe disse que era onde estava “a verdadeira Índia”, foi onde teve o primeiro susto da viagem com um taxista que lhe colocou o dilema: praia ou rapariga? A estranheza daqueles a quem dizia querer ir ao Ceilão, um país marcado pela fome, pobreza, mendicidade e ociosidade, pois segundo eles no Ceilão “não se passa nada”. Nessa viagem para o Ceilão (Sri Lanka) teve o comboio todo por sua conta e em Columbo fez uma conferência sobre literatura norte-americana, como aliás já tinha feito em Istambul e como faria em Bombaim, Calcutá, Saigão, Hué e Hokkaido.
A foto da capa da autoria de Oleh Slobodeniuk não está referenciada quanto ao local. Quero, no entanto, ver nela a viagem que Paul Theroux fez a Gokteik no norte da Birmânia. Uma viagem, uma verdadeira ousadia, cheia de dificuldades e perigos por os comboios serem alvo de constantes ataques de rebeldes e de ladrões e que, no fim, quando ele pensava que iria parar à cadeia, o aconselharam a não repetir. Birmânia, Laos, Tailândia, Malásia, Singapura, Vietname na época das monções, foram os destinos que marcaram a viagem a caminhar para o fim. No meio de paisagens de uma beleza indescritível, são notórias a indústria do sexo e o caos deixado nos despojos da aventura de guerra dos americanos na península da Indochina: acampamentos acupados por refugiados, hospitais pilhados, crianças louras que falam vietnamita, instabilidade, vulnerabilidade e insegurança. Numa nota de rodapé, o autor refere que em 1975, grande parte das cidades por onde passou dois anos antes, tinham ido pelos ares com muitas centenas de mortes.
No Japão para onde voa, encontra uma sociedade totalmente diferente. Um “povo programado”, disciplinado, mergulhado na parafernália electrónica, onde tudo é veloz e eficiente e angustiante; estranhamente consumindo entretenimentos de erotismo violento em que o sadismo está banalizado em espectáculos para turistas, em bandas desenhadas, em filmes. É exactamente em Hokkaido – “A Terra do Grande Céu” – que o fascina pela beleza natural e que fotografa à exaustão, que Paul Theroux tomou a decisão de escrever este livro. Sente-se que o autor começa a sentir os efeitos do cansaço, o desejo de que a viagem chegue ao fim. Olha para trás, para as semanas que decorreram e para as terras e pessoas que conheceu e sente a necessidade de fazer sínteses, de fazer avaliações. Decide que o título do seu livro será o nome de uma rua na Índia “O Grande Bazar Ferroviário”.
Tal como a viagem de avião de Da Nang para Saigão tinha sido assustadora, a viagem de barco no Mar do Japão que faz a ligação Japão-Rússia não foi menos. A ligação de Khabarovsk – recorda Tchékhov que por lá passou quando em 1890 esteve durante alguns meses em Sacalina – até Moscovo pelo Transiberiano (10 mil kms) é a mais longa viagem de comboio do mundo e vai ser a parte mais penosa da viagem. Não só pela distância, mas pelo cansaço, pela uniformidade da paisagem, pelo frio (34 graus negativos), pela solidão, pelas saudades de casa, pelo sentimento de culpa, pelos pesadelos em que a mulher e o filho aparecem e, embora tente criar uma disciplina que o ajude a sobreviver, a verdade é que o ambiente dentro do comboio não permite. Depois de passarem o Extremo Oriente Soviético seguindo ao longo da Mongólia em que as bétulas e os cedros são a paisagem para além da imensidão da neve, a Sibéria só começa depois de Irkutsk e depois temos a tundra. Perde a noção do tempo, “o desespero faz-me fome” “raramente sabia onde estávamos, nunca sabia as horas correctas e detestava cada vez mais aquelas geleiras que tinha de atravessar para ir para o vagão-restaurante.” e a urgência de chegar é tudo o que tem. A bebida é a companhia dos russos e ele é o único ocidental no comboio, pois lá bem atrás os seus companheiros tinham apanhado o avião para Moscovo, fazendo em 9 horas a viagem que ele precisava de fazer em vários longos dias.
Falta-me falar dos passageiros e dos livros ou das referências literárias que a viagem lhe evocou. Duffill que partira de Londres com ele e que se tinha perdido a meio do caminho antes de chegar a Istambul e Molesworth, companheiros na viagem no Expresso do Oriente; Sadik o turco a caminho da Austrália, “foi boa companhia num troço maçador da viagem”; um indiano que vivera toda a vida em Inglaterra e que se queixava das atitudes racistas dos ingleses, tal como Radia que trabalhara 30 anos na SHELL apelidandos os ingleses de exclusivistas e dominadores; um alemão que fugira de um centro de reabilitação a caminho da Índia e que se alimentava de ópio e água; Vishnu um indiano de Simla que vaticinou que um dia voltariam a encontrar-se no Reino Unido ou nos EUA, o tal que lhe indicara que em Madrasta encontraria ele a verdadeira Índia; em Jaipur, o sr. Goipal, contacto da embaixada e que em princípio seria um facilitador ao nível da comunicação, revelou-se um verdadeiro desastre; um monge budista americano pouco dado a conversas; um jovem inglês aparentemente a fugir da namorada indiana; o sr. Bernard um birmanês que havia sido chefe de cozinha o que lhe permitira conhecer pessoas muito importantes e participar em eventos especiais, convida-o a pernoitar na sua casa onde, num quarto com lareira é brindado com uma refeição principesca como há muito não comia; e ainda dois altos funcionários do Bangladesh responsáveis por planeamento familiar nas áreas rurais e que vinham de uma conferência sobre esse tema.
Da lista de livros que Theroux escolheu e levou e sobre os quais foi escrevendo à medida da sua narrativa, lembro “A Pequena Dorrit” de Charles Dickens, autor que ele evoca em Calcutá, por esta cidade do norte da Índia lhe lembrar a Londres de Dickens. “Ariadne” e outros contos de Tchékhov, a pensar em Sacalina onde se localizava a maior penitenciária russa*. “Autobiografia de um Iogue” de Paramahansa Yogananda, Na passagem por Lahore recorda Kipling que aí viveu e trabalhou, Bombaim a que estão ligados Mark Twain que lhe dedica um capítulo de “Following the Equator” e V. S. Naipaul que relata em “An Area of Darkness”uma situação em que entra em pânico numa estação ferroviária de Bombaim. “Exilados” de James Joyce, poemas de Browning ou “O Canto Estreito” de Somerset Maugham. “Silêncio” de Shusaku Endo, ou “Contos Japoneses de Mistério e Imaginação" de Hirai Taro são outras obras que fui identificando ao longo da leitura de “O Grande Bazar Ferroviário”.
E se as minhas notas já vão longas, revelando alguma incapacidade de síntese, a verdade é que me foi difícil não colocar aqui algumas transcrições. Concluo dizendo que este não é um roteiro turístico, mas tão só uma viagem solitária feita por Paul Theroux, longe das comodidades do turismo de massas. Um registo na primeira pessoa de alguém que possibilita quem o lê a viajar com ele e a deitar abaixo uma visão etnocêntrica da realidade. O mundo é muito mais do que o lugar onde nascemos e vivemos.
Foi muito bom viajar com este autor que ainda não conhecia. E penso que comecei da melhor maneira.
*Em 2018, a Barraca levou à cena no TeatroCinearte a peça “A Volta o Mar, no Meio o Inferno”, sobre a experiência vivida por Tchékov em Sacalina, (21 de Abril a 8 de Dezembro de 1890), onde faz o “recenseamento da população local e um extenso levantamento sociogeográfico da região.” Nota da publicação editada pelo TeatroCinearte
23 de Julho de 2019
Almerinda Bento

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

"O Homem Em Busca De Um Sentido" de Viktor E. Frankl

Este livro tem apenas 159 pág. e, no entanto, tem tanto para nos dar. Creio que a vida e obra deste psicoterapeuta foi baseada nisso mesmo: em dar. Como referiu um seu aluno, "o sentido da sua vida foi ajudar os outros a encontrar um sentido para as suas vidas".

Resumindo, mas não "spoilando": Viktor formou-se em Neurologia e doutorou-se em Psiquiatria. Encontrava-se em Viena quando, ao optar por ficar aí para ajudar a tomar conta dos seus pais em vez de aceitar um visto para a América, foi apanhado pela guerra. Passou por quatro campos de concentração, de entre os quais Auschwitz. Sobreviveu. A sorte esteve, em muitos aspectos e opções que tomou, do seu lado. As decisões arbitrárias de quem mandava deixava muito ao factor sorte a vida de quem era prisioneiro. Mas terá sido só isso? O que o manteve vivo e não o fez desistir? Viu muitos colegas deixarem-se invadir pela morte e desistir da vida. Sem esperança. 

Depois da libertação, os prisioneiros enfrentaram aquilo que já não esperavam: a indiferença de quem esteve cá fora, os seus entes queridos que não regressaram, no fundo a destruição dos sonhos que os mantiveram vivos. Como superar tudo de novo quando pensavam que o pesadelo tinha já terminado?

Este livro tem duas partes distintas. A primeira é duríssima. Contando vários episódios que se passaram com ele e com quem estava junto dele, Viktor dá-nos conta de pequenos e, ao mesmo tempo, profundos e intensos acontecimentos que podiam fazer alguém simplemente desistir.

O que faz uma pessoa aguentar? A que se agarra? Que sentido encontra para se manter à tona apesar de tudo o que vê à sua volta? Antes de ser preso, Viktor já pensava neste assunto e estava a escrever um livro sobre este argumento: a procura de um sentido, seja ele qual for, é a chave para a saúde mental. Depois durante os anos em que esteve nos campos, teve de procurar, para si, o sentido da sua existência.

A segunda parte deste livro é uma explicação mais aprofundada, escrita anos depois, da sua teoria, a Logoterapia (Logos = sentido). Penso que terá muito mais interesse a quem se propõe estudar esta área do saber. 

Surpreendente. Uma obra que será, certamente, editada pelo dobro das vezes que já foi. E não foram poucas, não senhor! Como o próprio autor refere "este livro não se debruça sobre os grandes horrores (...) mas sobre a imensidão de pequenos tormentos". Foi isso que mais me impressionou. 

Terminado em 5 de Agosto de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Nos seus momentos de maior sofrimento, no campo de concentração, o jovem psicoterapeuta Viktor E. Frankl entregava-se à memória da sua mulher - que estava grávida e, tal como ele, condenada a Auschwitz. Conversava com ela, evocava a sua imagem, e assim se mantinha vivo. Quando finalmente foi libertado, no fim da guerra, a mulher estava morta, tal como os pais e o irmão. No entanto, ele alimentara-se de outro sonho enquanto estava preso, e, este sim, viria a realizar-se: projetava-se no futuro, via-se a falar perante um público imaginário, e a explicar o seu método para enfrentar o maior dos horrores. E sobreviver. Viktor E. Frankl sobreviveu. E até morrer, aos 92 anos, divulgou por todo o mundo o método desenvolvido no campo de concentração - a Logoterapia. O psicoterapeuta descobriu que os sobreviventes eram aqueles que criavam para si próprios um objetivo, que encontravam um sentido futuro para a existência - fosse ele, por exemplo, cuidar de um filho ou escrever um livro. Em O Homem em Busca de um Sentido, escrito em 1946, o autor narra na primeira parte a sua dramática luta pela sobrevivência. E na segunda, em breves páginas, sintetiza os mais de 20 volumes ao longo dos quais desenvolveu o seu método - aplicável a qualquer pessoa, em qualquer circunstância da vida.

Cris

"A Mulher Que Escondeu Anne Frank" de Miep Gies

Estou abismada com esta leitura. Não sei sinceramente porque é que esta obra não foi publicada cá antes, se é de 1987. Afirmo, sem medos, que se trata de um dos livros da minha vida. 

Faltam-me as palavras. Queria dizer-vos tanto! A vida de Miep teve, logo desde a sua infância, acontecimentos tão marcantes que por si só bastariam para escrever um livro. Logo desde pequena (11 anos) foi enviada de Viena, cidade onde nasceu, para Amesterdão num programa para ajudar crianças subnutridas. Acabou por ficar mais tempo, tal era o seu estado de saúde. Ficou num país que passou a considerar seu. E mais não conto... Só para vos situar, lembro-vos que Miep foi uma das pessoas que ajudava os Frank a manterem-se no anexo. As suas buscas por comida para tantas pessoas não era tarefa fácil numa época onde a fome era uma constante até para quem não era judeu ou de outra qualquer forma perseguido pelos alemães.

Fiquei de tal forma envolvida na sua história (e na história de Anne Frank, contada por alguém que viveu fora do "anexo", que acompanhou a guerra do lado de quem não era judeu mas que fez de tudo para ajudar porque acreditava que era o correcto, porque os seus amigos não tinham "raça" pois eram amigos do coração), que acreditei que o final poderia ser outro! 

Os perigos porque passou, a fome, a incerteza, a coragem que precisou arranjar, o nunca negar quando lhe foi pedido ajuda, tudo isso foi uma descoberta para mim que me levou a terminar a última página com o coração cheio e a acreditar que o Homem é capaz de feitos maravilhosos! 

Um dos aspectos que me despertou a atenção foi a descrição dos acontecimentos passados no pós guerra. Pensar que finda a guerra todos os problemas ficaram resolvidos é ser ingénuo. Gosto, pois, de conhecer melhor essa época e aqui, Miep descreve bem como era difícil sobreviver tanto pela falta de alimentos como pela angústia de não se saber quem voltaria...

Um livro que recomendo vivamente. E não, não é mais do mesmo! É um livro fabuloso.

Terminado em 3 de Agosto de 2019

Estrelas: 6* - Um dos melhores livros lidos este ano!

Sinopse
Ao longo de mais de dois anos, Miep e o marido ajudaram a esconder judeus numa Holanda tomada pelos nazis. Como milhares de heróis desconhecidos do Holocausto, eles arriscaram diariamente a vida ao levar alimentos, livros, notícias e carinho às vítimas.

Miep trabalhava como assistente de Otto Frank, o pai de Anne Frank, e tornara-se íntima da família. Ao longo de 25 meses, ela e o marido mantiveram a família Frank escondida no anexo de um prédio de Amesterdão até serem traídos por uma denúncia anónima. Quando a Gestapo invadiu o esconderijo, a 4 de agosto de 1944, e prendeu todos os seus ocupantes, deixou para trás o diário de Anne e outros dos seus escritos, em folhas soltas, Miep recolheu esses escritos na esperança de voltar a encontrar Anne e lhos poder entregar.

Neste livro intemporal, Miep relembra esses dias tortuosos e fá-lo com uma clareza e uma emoção vívidas. A narrativa vai da sua própria infância, enquanto refugiada da Primeira Guerra Mundial, até ao momento em que entrega a Otto Frank - o único dos ocupantes do esconderijo a sobreviver ao Holocausto - o pequeno diário axadrezado. Até então, não fora lido por ninguém.

Cris

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Experiências na Cozinha: "Receitas para um Superintestino"

Tratar por dentro para que se reflicta por fora. Creio ser este o lema deste livro e deveria ser o nosso também.

Palavras como microbiota, probióticos, prebióticos, germinados, poderão ser mais ou menos desconhecidas para nós, mas outras como ingestão de água, fibras, exercício físico, açúcar, alimentos processados, já, certamente, nos chegaram aos ouvidos.

Este livro é muito mais do que a soma das receitas que contém. Tem informação importante sobre como ter um intestino saudável. Já ouviram dizer que o intestino é o nosso segundo cérebro?

Seguimos a Mª Inês no Instagram. Há sempre tanta coisa para aprender e melhorar, tanta informação e receitas que às vezes nos perdemos um pouco. Que tal começar por alguma coisa fácil? Uma receita simples, de entre as que há neste livro, foi a escolhida por nós: a chucrute. Claro que tínhamos de alterar alguma coisa mas deixamo-vos aqui a receita original. Comecem por ela, é o nosso conselho! Nós utilizamos a couve roxa em vez da couve lombarda ou repolho e também não nos saímos mal. Ora vejam:






Palmira e Cris