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sexta-feira, 17 de novembro de 2023

"Um Detalhe Menor" de Adania Shibli

Que livro impactante este! Lido, então, nesta época de guerra na Palestina, foi um murro no estômago! 

Basicamente são contadas duas histórias com um espaço temporal de 25 anos entre elas. A primeira, fala-nos de um crime ocorrido em Agosto de 1949 no deserto de Negueve, em Israel que vitimou uma adolescente - "um ano depois de Nakba, a catástrofe que expulsou mais de 700 mil palestinianos das suas terras, e que os israelitas celebram como a Guerra da Independência". 

Numa segunda parte, muitos anos mais tarde, uma jovem, habitante de Ramallah, Cisjordânia, lê uma notícia sobre esse crime, que teve lugar no mesmo dia do seu nascimento. Esse pequeno detalhe leva-a a tentar saber mais sobre ele e, pedindo um passe a uma colega, entra em Israel e tenta deslocar-se ao local onde tudo se passou. 

E depois há o fim! Abrupto, inacreditável e que nos faz refletir e "viver" um pouco do que se passa hoje em dia. Um final que fica connosco. Aconselho muitíssimo.

Terminado em 27 de Outubro de 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

De uma escritora palestiniana um poderoso romance inquietante e sublime sobre a guerra, a violência, a memória e a injustiça. No verão de 1949 – um ano depois da Nakba, a catástrofe que expulsou mais de 700 mil palestinianos das suas terras, e que os israelitas celebram como a Guerra da Independência –,uma unidade de soldados israelitas, ataca um grupo de beduínos no deserto do Negueve, dizimando-o. Entre as vítimas encontra-se uma adolescente que sobrevive ao massacre. É capturada e violada, e depois assassinada e enterrada na areia. É a manhã de 13 de agosto de 1949.
Muitos anos mais tarde, quase na atualidade, uma jovem mulher em Ramallah descobre acidentalmente uma breve menção a esse crime brutal. Obcecada com o assunto, não só devido à natureza macabra do caso, mas também devido ao «detalhe menor» de ter acontecido precisamente vinte e cinco anos antes de ela nascer, irá embarcar numa viagem para tentar desvendar alguns - dos detalhes que envolvem o crime.
Adania Shibli sobrepõe magistralmente estas duas narrativas translúcidas para evocar um presente para sempre assombrado pelo passado. Com uma prosa inquietante e precisa, Um Detalhe Menor evoca a experiência palestiniana do apagamento, da expropriação e da vida sob a ocupação, ao mesmo tempo que revela a complexidade permanente de se juntar as peças de uma narrativa ocultada por fragmentos de linguagem.

Cris


quarta-feira, 15 de novembro de 2023

"Falar Pela Noite Dentro" de Claire Daverley

As cores coloridas da capa atrairam-me e pensei logo num romance leve, o que me apetecia na altura. Muitos são os temas abordados mas a forma como a autora os trata não tornou o livro nem denso nem pesado.

Acompanha um casal de namorados pela vida fora, desde os seus dezasseis anos, e acompanha também e sobretudo os seus desencontros. Com características de personalidades diferentes, Will e Rosie são atraídos um pelo outro de uma forma arrebatadora e, quiçá, permanente. 

Esta história fala-nos, pois, de amores e de desencontros, de decisões que tomamos na vida que nos levam aos mesmos, muitas vezes tomadas para não ferir opiniões alheias. Caminhos que se tomam e que nos afastam das pessoas que nos podem fazer felizes ou infelizes. Como na vida.

A acompanhar este tema central, outros surgem, também eles nada leves: a perda de alguém e o luto que a acompanha, a depressão, o cancro, o suicídio e questões de género. A autora aborda todos estes assuntos de uma forma crua mas pouco aprofundada. Tampouco o poderia fazer dado a quantidade de páginas que não o torna num "tijolo"!

Todos os personagens possuem várias camadas, que vamos descobrindo no decorrer da leitura e que fazem o leitor refletir em muitos dos aspectos falados.

Porém, considero este Falar Pela Noite Dentro um livro prazeroso de se ler, nada pesado. A previsibilidade dele dá-nos segurança para avançar, sem medos de sermos surpreendidos no final, o que pode agradar a uns leitores e não a outros, ou, como foi o caso, lido no momento certo, este livro devora-se!

Terminado em 22 de Outubro de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

A história de amor do ano. Por vezes, as conversas mais importantes da nossa vida só terminam de manhã… O que fazer quando a única pessoa que devíamos esquecer é aquela que não conseguimos largar? Esta é uma história de amor belíssima e convincente entre duas personagens inesquecíveis, que nos vão deixar acordados pela noite dentro… Quando Will e Rosie se cruzam no final da adolescência, reconhecem-se imediatamente como almas gémeas. Rosie é muito focada e tem o futuro cheio de planos, uma rapariga perfeita aos olhos de todos, apesar da mãe controladora. Já Will tem o seu quê de rebelde e preocupa a sua avó, mas não deixa de mostrar uma maturidade muito própria. Apesar de todas as suas diferenças, um e outro são dois opostos que se atraem irresistivelmente. Apaixonam-se por entre olhares cúmplices, longas caminhadas até casa e telefonemas intensos no coração da noite, até ao momento em que uma tragédia que marcará as suas vidas para sempre apaga a possibilidade de ficarem juntos. Mas não consegue apagar a química inegável ou quebrar o sentimento de amor verdadeiro que os une, e Will e Rosie, incapazes de esquecer a história do que podia ter sido, continuam, com o passar dos anos e a partir das vidas que escolheram para si próprios, unidos como que por um fio invisível e infinito. William e Rosie. Rosie e William. Por mais que o tempo passe, esta é uma paixão impossível de conter. Às vezes estamos no sítio certo à hora errada. Esta é uma história sobre os caminhos imperfeitos e complicados pelos quais o amor nos conduz. Uma história de segundas oportunidades, e outras perdidas, das palavras que dizemos e das que ficam por dizer, da vida que se mete no caminho e talvez, quem sabe, da hipótese de corrigir o amor. Aquele amor, o único, que nos faz sempre voltar.  

Cris

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

"Três" de Valérie Perrin

Sabia que, ao ler este livro, o iria comparar com o primeiro desta autora. O "Breve Vida das Flores" apanhou-se de surpresa. Gostei muito da história, da escrita e da caracterização muito humana das personagens. Tal comparação não é justa porque os livros são diferentes mas é natural que um leitor a faça e eu fi-la…

Gostei também desta leitura porque a história flui muito bem e os três personagens principais possuem mistérios e dilemas que vão surpreendendo o leitor ao logo das páginas, não havendo espaços mortos na trama. Os temas: amizade e traição, amor e ódio, luto e culpa, julgamentos e relações familiares complicadas são constantes e não nos deixam ter sossego! ;)

Creio que o facto do meu kobo ter começado a dar problemas fez com que eu demorasse mais a ler e, literalmente, a virar as páginas!!! Estive quase para desistir e pedir emprestado o livro. Tirando esse aparte achei que a escrita é muito sólida, tal como o anterior, e apelativa. A trama é contada com analepses e prolepses mas não fazem com que o leitor se perca. Muito pelo contrário, fica-se mais preso aos acontecimentos.

Se tiverem que escolher uma obra, leiam "A Breve Vida das Flores". De seguida, este.

Terminado em 18 de outubro de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

O regresso da autora de um dos romances mais lidos em Portugal.
Uma história em que a adolescência, a passagem para a vida adulta e as dores de crescimento nos mostram de que matéria é feito um dos mais profundos sentimentos da vida: a amizade.
Adrien, Étienne e Nina têm dez anos quando se conhecem na escola, em 1986. Rapidamente, tornam-se muito próximos, criam um laço fortíssimo e fazem um pacto: vão partir, juntos, para Paris e jamais se separarão.

Muitos anos mais tarde, em 2017, é encontrado um carro no fundo de um lago, no lugar onde os três amigos cresceram. Virginie, uma jornalista com um passado nebuloso, faz a cobertura do caso. Pouco a pouco, ela vai descobrindo o que aproximou aqueles três amigos. Que pessoas são, hoje, Adrien, Étienne e Nina? Qual é a relação entre este estranho acontecimento e a história de amizade que une os três?

Valérie Perrin regressa com um romance tocante em que, uma vez mais, consegue não só imprimir beleza às pequenas coisas da vida, mas revelá-la perante os nossos olhos. É um mergulho nas águas tumultuosas - e tantas vezes turvas - da adolescência e, sobretudo, no tempo que passa e nos separa das pessoas que fomos então.

Cris

 
    

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

“O Terceiro País” de Karina Sainz Borgo

Antes de mais quero alertar-vos para a necessidade (vossa, não minha!) de lerem o primeiro livro desta autora, "Cai a Noite em Caracas", porque é deveras fabuloso e repleto daquela “droga boa” que nos impele a ler sem nunca querer poisar o livro! Eu gostei mesmo muito. Podem ler a minha opinião aqui.

Este é também muito forte, pelo tema tratado, mas o anterior ficou-me no coração pela surpresa inesperada que foi lê-lo.  Este "O Terceiro País" tem como pano de fundo um problema que afeta cada vez mais o mundo em que vivemos, as migrações. Angústias Romero, junto com o seu marido e seus filhos gémeos prematuros, recém nascidos, procura fugir do seu país. O local nunca nos é referido, e esse foi um ponto de que senti falta porque gosto de localizar geograficamente os acontecimentos reais ou ficcionados. Mas se pensarmos bem, não é necessário, pois não? Porque esta história pode decorrer em tanto lado!

Os pequeninos gémeos não resistem à viagem e Angústias procura um sítio seguro, preferencialmente calmo, para os enterrar. Por isso leva-os consigo numa pequena caixa. O ambiente descrito é de guerra, fome e devastação. A escrita de Karina é crua, certeira e dura. Na sua viagem encontra Visitación Salazar, responsável por um cemitério ilegal que as autoridades pretendem destruir. Uma amizade estranha nasce entre estas duas mulheres. Ambas estão sozinhas e juntam forças para combater a corrupção, embora não possuam meios para tal.

Gostava de poder afirmar que este livro é uma distopia. Um mundo inventado. Mas os pormenores relatados fazem-nos acreditar e visualizar toda a violência descrita nesse mundo cruel sem compaixão onde conseguimos, por comparação com os relatos que assistimos hoje em dia, imaginar bem o horror por que passam os migrantes. Que faríamos em situações limite para sobreviver?
 

No entanto, aqui e ali, um toque de esperança.

Capa lindíssima. Recomendo.


Terminado em 30 de Setembro de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

Angustias Romero e o marido fogem da peste, a caminho das montanhas e da ansiada segurança no país vizinho; levam, atados às costas, os dois filhos ainda bebés. À sua volta, apenas miséria, calor e poeira. Os gémeos não sobrevivem à viagem, e Angustias é abandonada pelo marido. Na fronteira, Angustias chega ao Terceiro País, um cemitério ilegal vigiado pela mítica Visitación Salazar. Contra a oposição dos barões da droga e da violência, a coveira garante aos sem-terra um último local de descanso.

É aqui que Angustias encontra finalmente lugar para os filhos. Determinada a ficar sempre perto deles, junta-se a Visitación na sua luta, num lugar onde a lei é ditada por quem empunha as armas, e o tempo é marcado pelas festas e os misteriosos brinquedos que alguém deixa na campa das duas crianças. O perigo e a violência ameaçam implodir a qualquer momento, esbatendo os limites entre a vida e a morte.

N’O terceiro país, história poderosa de fuga e esperança, Karina Sainz Borgo mistura com mestria o mistério e a realidade, a tragédia clássica e a narrativa contemporânea, confirmando a sua pertença à vibrante nova geração literária latino-americana.

Cris

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

"A Bolacha Confiante" de Jory John, ilustrado por Pete Oswald


Como subtítulo este livrinho tem: "Acredita em ti e mostra do que és capaz".

Acho importante, nós pais e educadores, sabermos para o que vamos quando pegamos num livro infantil. Porque muitas vezes a leitura é realizada em conjunto e, com as dicas que um subtítulo contém, podemos ler já com a intenção de sublinhar alguns aspectos focados na história.

Esta frase, embora dirigida a um público mais pequenino, é para os crescidos também. Quantas vezes ao longo da vida tivemos ou tiveram de nos dizer isto? 😀

Mas vamos à história: 

Era uma vez uma bolacha... Ela conta-nos a sua história de como, enquanto criança, era super insegura. Até que a professora uma vez pediu para a turma criar algo e levar no dia seguinte. Depois de algumas tentativas falhadas a criar coisas diferentes, a bolachinha fez um poema. E, no dia seguinte, ficou maravilhada como os seus colegas criaram coisas tão diferentes! E ela conseguiu ler em voz alta o poema para todos! A mensagem da professora no final tornou as coisas ainda mais especiais...

História divertida com claro ensinamento para os mais pequeninos. Eles vão gostar e sentir-se-ão mais confiantes nas suas capacidades!




Cris


segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Setembro

Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Setembro.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Alexandra Guimarães

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 25, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:


Cris


sexta-feira, 13 de outubro de 2023

A Convidada escolhe: Levantado do Chão

Levantado do Chão”, José Saramago, 1980

Este foi dos primeiros livros que li de José Saramago, há bastantes anos e numa altura em que não costumava fazer pequenos textos sobre as minhas leituras. Agora, que estou em vésperas de participar no Roteiro “Levantado do Chão” promovido pela Fundação José Saramago senti necessidade de reler esta obra que, na altura, me provocou uma grande emoção, não só pela forma como o Alentejo é retratado, mas também pelas semelhanças da família Mau-Tempo com a família do meu marido.

Lê-se este livro e é impossível ficar-se indiferente à mestria no manejo da língua, à riqueza vocabular e à análise social e das classes, com o foco no Alentejo ao longo do século passado. Na contracapa da edição (13ª) que tenho, pode ler-se “Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi de poder dizer deste livro, quando o terminasse: «Isto é o Alentejo»”.

A família Mau-Tempo é a protagonista maior. Várias gerações desde Domingos e Sara da Conceição até Maria Adelaide, sem esquecer o avô João Mau-Tempo que viveu a tortura da estátua e o isolamento em Caxias. Todos de olho azul. Da monarquia passou-se à República mas sem mudanças para a vida do povo, até que chegou o 25 de Abril e a Reforma Agrária. A paisagem é o Alentejo, a ceifa das searas, o tirar a cortiça, o trabalho nos arrozais, ou na vinha. Os homens e as mulheres que só dispõem da sua força de trabalho, sujeitos ao poder assente em 3 pilares: o latifúndio (Lamberto, Norberto…) a igreja (o padre Agamedes) e a guarda (sargento Armamento, inspector Paveia…). A luta contra as máquinas, pelos trinta e três escudos, por trabalho, pela jornada das oito horas e quarenta escudos de salário. A luta pela dignidade, contra a fome e prepotência. O povo, as formigas, a canzoada, quando não é tratada como carneirada. E também os milhanos que do céu tudo observam e que, como as formigas, são as testemunhas de tudo o que acontece no latifúndio.

Luta é resistência e sendo este “um livro sobre o Alentejo”, a epígrafe de “Levantado do Chão” dedica-o “À memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.” Germano Santos Vidigal “o homem que caiu e foi levantado irá morrer sem dizer uma palavra que seja.”(p. 169)… “Que pálido está este homem, nem parece o mesmo, a cara inchada, os lábios rebentados, e os olhos, coitados dos olhos, nem se vêem entre os papos, tão diferente de quando chegou…” (p. 173) “Está morto José Adelino dos Santos, apanhou com uma bala na cabeça e primeiro nem acreditou, sacudiu a cabeça como se lhe tivesse mordido um bicho, mas depois compreendeu, Ah malandros que me mataram , e caiu de costas, desamparado, não tinha ali a mulher que o ajudasse, fez-lhe o sangue uma almofada vermelha, muito obrigada.” (p. 314).

A narrativa é densa, o narrador escreve, divaga, reflecte, antecipa acontecimentos futuros, dialoga com o leitor, não poupa nas palavras, ironiza. Como escreve na pág. 310 “São exageros no narrador”. “Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.” (p. 59). “Não foi a conversa por diante, nem já interessava, porquanto pôde o narrador dizer quanto queria, é o seu privilégio…” (p. 279). E vai-nos contando o que se passa lá fora e que vai chegando ao Alentejo: a República, a guerra, o atentado a Salazar, a emigração para a França, o general Delgado e a fraude eleitoral, a fuga de Peniche, o Santa Maria, a índia e o fim do império, a guerra colonial, o assalto ao quartel de Beja e finalmente o 25 de Abril e o primeiro 1º de Maio. Para o povo o trabalho quando o havia, duríssimo e mal pago, a resistência, organização e luta. No terreno, os capatazes e a guarda asseguram que o poder do latifúndio e da ditadura não são beliscados. “O feitor é o chicote que mete na ordem a canzoada. É um cão escolhido entre os cães para morder os cães.” … “uma espécie de mula humana, uma aberração, um judas, o que traiu os seus semelhantes a troco de mais poder e de algum pão de sobra.” (p.72).

A escrita de Saramago não esquece o mau viver das mulheres, o come e cala, “De mulheres nem vale a pena falar, tão constante é o seu fado de parideiras e animais de carga.” (p.125), mas os tempos mudam e elas também querem lutar ao lado dos seus companheiros “Gracinda Mau-Tempo também quis vir, já não há quem segure as mulheres, isto pensam os mais velhos e antigos, mas não dizem nada…” (p.310).

Muito mais e melhor se poderá dizer e escrever sobre este romance extraordinário, uma verdadeira lição de história, de resistência duríssima contra um poder ditatorial em que o Latifúndio, a Igreja e o Governo estavam de braço dado, mas contra o qual o povo lutou para se levantar do chão.

 

8 de Outubro de 2023 ( 25 anos depois do dia em que foi anunciado o prémio Nobel da Literatura de 1998 atribuído a José Saramago)

Almerinda Bento






quarta-feira, 11 de outubro de 2023

"Pequena Coreografia do Adeus" de Aline Bei

Mais uma autora a reter e a ler tudo o que escreve. Sei que tenho ebook do "Peso do Pássaro Morto" e já anotei mentalmente.

Uma forma diferente de apresentar o texto que à primeira vista poderia parecer mais difícil de entrar na leitura e que me surpreendeu muitíssimo porque foi precisamente o contrário. A musicalidade com que esta autora colocou nas palavras e nessa forma de escrita é fantástica e muito original. Ao falar nisso com uma amiga ela referiu que o seu livro do "Pássaro" é escrito também assim. Está visto que tenho de lhe pegar brevemente!

E o conteúdo? Fiquei encantada com esta história. Narrada pela personagem principal que recorda a sua infância conturbada dentro de uma família disfuncional, este livro é para ser lido com sofreguidão! Fala-nos de abandono e de maus tratos de diferentes tipos e perpetrados pelos pais mas com uma subtileza e leveza que intriga e surpreende. Júlia não conhece outra forma de vida, a comparação com as poucas colegas suas amigas fá-la ficar surpreendida. O carinho, o toque amoroso de pais para filhos não fazem parte da sua vida. Bem pelo contrário, as agressões da parte de quem a devia proteger, são frequentes e qualquer motivo é razão para surras valentes. E, no entanto, o despreendimento como ela nos relata isso, magoa o leitor atento, é quase como se isso não fosse importante, a sua vida é assim, nada há a fazer! Da mãe recebe agressões, do pai, ausências de afeto. 

A escrita torna-se o seu refúgio. 

A junção da forma com o conteúdo neste original romance é de mestre!  Tão, mas tão bom! Não há palavras que exprimam a minha surpresa e contentamento. Leio para encontrar obras assim, é o que vos digo!

Terminado em 21 de Setembro de 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

Com o talento capaz de conjugar numa única frase opostos como beleza e feiura, sofrimento e afeto, leveza e violência, Aline Bei conquistou uma legião de fãs com O Peso do Pássaro Morto, surgindo como uma das grandes revelações da literatura brasileira contemporânea. Neste novo romance, a autora consolida o seu estilo único — que explora habilmente ritmo, imagens e forma narrativa — e constrói uma trama inesquecível sobre autodescoberta, amor e trauma. A protagonista é Júlia, uma jovem que chegou à vida adulta tentando juntar os cacos de um relacionamento destroçado: a sua mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto o pai não suporta a ideia de ter sido casado. Ela cresceu sufocada por uma atmosfera de brigas constantes e falta de afeto e, pouco a pouco, tenta desvencilhar-se da bagagem emocional familiar. Entre lembranças da infância e da adolescência — que moldaram quem ela é — e sonhos para o futuro — que podem ajudá-la a tornar-se quem ela quer ser —, Júlia ensaia a sua própria coreografia, numa sequência de movimentos de aproximação e afastamento dos seus pais que lhe traz marcas indeléveis. Ao longo desse processo, ora consolador ora angustiante, ela encontra uma série de personagens que a ajudam a enfrentar a solidão e dar sentido à sua história: uma dona de pensão, um pugilista aposentado, uma proprietária de um café e um misterioso escritor. Com a sensibilidade poética que captura a beleza, até mesmo dos sentimentos mais dolorosos, Pequena Coreografia do Adeus é um romance emocionante que examina o poder devastador das relações humanas — e das possibilidades de encontrar ternura onde menos se espera.

Cris

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

"O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati

Começado a ler para um desafio organizado no Instagram por umas amigas, fui para esta leitura com altas expectativas. As opiniões que li e ouvi eram muito boas e o autor foi uma figura da literatura italiana das mais importantes do séc XX. Este livro é considerado o seu melhor romance.

Perdida não se sabe bem onde, a Fortaleza Bastiane, situa-se num posto fronteiriço. Lugar desértico e incerto, portanto. Um jovem tenente, Giovanni Drogo, é lá colocado e não se sente feliz por isso. Espera poder ficar pouco tempo e acredita que tudo fará para se vir embora para a cidade o mais depressa possível. A sua primeira impressão do lugar é péssima e a sua intenção de regressar aumenta. O comando militar espera uma guerra a todo o momento. Só que a espera dura já há longos anos... Irá Drogo ficar ou ir embora?

O livro é de leitura lenta. Muito lenta. Porque na fortaleza nada se passa de interessante. A espera daqueles homens por uma guerra que não chegava nunca, desesperou-me. Foi-me muito difícil ler as primeiras 150 páginas e só não desisti porque uma amiga me encorajou com as suas palavras. "Gostei muito do final, disse. É um livro simbólico". As suas palavras fizeram-me ficar. Depois, de súbito, a acção como que acorda de um sono meio aborrecido e as ultimas 100 páginas lêem-se num ápice.

Refletindo sobre esta leitura no seu todo, valeu a pena. Faz-nos pensar. Às vezes a vida passa lenta por nós. Até que ponto não somos responsáveis por isso, por nos deixarmos ficar descontentes com o lugar onde estamos, ficando à espera que algo aconteça sem nada fazermos para alterar?

Terminado em 18 de Setembro de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

"O Deserto dos Tártaros" baseia-se na experiência vivida por Dino Buzzati quando serviu no exército, antes da Segunda Guerra Mundial. Este livro vive das ressonâncias que o ligam com alguns dos problemas mais profundos da existência: a segurança como valor contraposto à liberdade, a resignação progressiva perante as oportunidades de realização na vida e a frustração das expectativas de concretizar feitos excepcionais que mudem o sentido da existência.
"O Deserto dos Tártaros" é considerado o melhor romance de Dino Buzzati e uma das obras-primas do século XX.

Cris

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

"Véspera" de Carla Madeira

Está decidido: se esta autora escrever uma lista telefónica vou querer lê-la! 

A junção de dois factores espantosos - o saber escrever muito bem e o saber inventar uma história maravilhosa - fazem deste livro um dos meus preferidos deste ano.

As páginas voam nas nossas mãos embora, ao mesmo tempo, queiramos parar para absorver as palavras delicadas que surgem em catadupa. 

A história prende a atenção mal começa. Duas histórias, quero dizer. Ou melhor, uma história contada em dois espaços temporais diferentes. Já vêem por aqui que não é fácil relatar um pouco da trama deste livro sem fazer spoilers. O melhor mesmo é aconselhar-vos a sua leitura e mergulharem nela sem nada saberem.

Um acontecimento fulcral abala-nos no início e desesperamos para saber o final. Mas Carla Madeira deixa-nos à espera por isso e o melhor é saborearem as suas palavras escritas com mestria!

A maternidade e aquilo que é esperado socialmente, famílias disfuncionais e o quanto elas marcam os seus elementos, acasos da vida que, se deixarmos, marcam e condicionam o futuro.

Façam um favor a vocês mesmos e abracem esta leitura. Não se vão arrepender! Aconselho vivamente!

Terminado em 16 de Setembro de 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

O amor infiltra-se pelas mãos das coisas miúdas. Vedina, uma mulher traumatizada por um casamento destroçado, decide, num momento de descontrolo, abandonar o filho, largá-lo. Assim que o faz, contudo, arrepende-se de pronto, regressando ao local onde deixara o pequeno. Mas já nada encontra no local, nem a criança nem quaisquer vestígios da sua presença. A partir de então, a história prossegue, contada em dois tempos, levando o leitor a um mundo de medos e sombras, de vícios desgraçados e comportamentos controladores, remexendo as entranhas de uma família violenta e perdida, enquanto procura responder a uma dúvida essencial e sempre presente: como se chega ao limite? Depois dos sucessos de Tudo É Rio e A Natureza da Mordida, que fizeram de Carla Madeira a autora a mais lida no Brasil, Véspera vem confirmar-lhe o talento definidor da atual literatura brasileira. Uma obra com personagens de tremenda força emocional, dramáticas, misteriosas. Um labirinto de emoções do qual o leitor, preso na trama, só sairá no fim. Ou talvez nem isso. 

CrisO amor infiltra-se pelas mãos das coisas miúdas. Vedina, uma mulher traumatizada por um casamento destroçado, decide, num momento de descontrolo, abandonar o filho, largá-lo. Assim que o faz, contudo, arrepende-se de pronto, regressando ao local onde deixara o pequeno. Mas já nada encontra no local, nem a criança nem quaisquer vestígios da sua presença. A partir de então, a história prossegue, contada em dois tempos, levando o leitor a um mundo de medos e sombras, de vícios desgraçados e comportamentos controladores, remexendo as entranhas de uma família violenta e perdida, enquanto procura responder a uma dúvida essencial e sempre presente: como se chega ao limite? Depois dos sucessos de Tudo É Rio e A Natureza da Mordida, que fizeram de Carla Madeira a autora a mais lida no Brasil, Véspera vem confirmar-lhe o talento definidor da atual literatura brasileira. Uma obra com personagens de tremenda força emocional, dramáticas, misteriosas. Um labirinto de emoções do qual o leitor, preso na trama, só sairá no fim. Ou talvez nem isso. 

Cris

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

"A Rapariga da Cabana" de Romy Hausmann

Lido por influência de um clube de leitura de thrillers a que pertenço, o "The Killer Book Club", comecei a ler este thriller psicológico. Confesso que não cumpri as etapas que o clube estipulou como orientação... não tinha como. O livro é viciante, prende, a história possui vários twists e o leitor perde-se em hipóteses, várias, que lhe vão surgindo no decorrer da leitura.

O tema é aflitivo, tanto mais que não é nada que não aconteça na vida real e esta similitude faz com que as páginas se virem depressa e o leitor sempre com o coração apertado. Pode acontecer algo idêntico na vida real? Infelizmente sim e as histórias de True Crime andam por aí. É só ver alguns documentários...

Uma rapariga encontra-se no hospital, vítima de um acidente. Junto com ela uma criança, supostamente sua filha. Será a mesma pessoa que desapareceu há 14 anos sem deixar rasto? A cabana onde vivia no meio de uma floresta é vasculhada. Onde está o seu raptor? Outra criança, mais nova, de premeio. Não  conhecem outra realidade senão a vivida na cabana. Como estão psicologicamente? 

Vamo-nos apercebendo, aos poucos, da gravidade da situação mas não descortinamos o mistério na sua totalidade. Como referi, as hipóteses multiplicam-se. 

Intrincado, cheio de suspense, "horrível" de bom! Aconselho muito, caso gostem do género!

Terminado em 10 de Setembro de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

Uma cabana sem janelas no bosque. Uma corrida desesperada para escapar ao terror e encontrar a segurança. Quando uma mulher consegue fugir do cativeiro em que a têm mantido, o final da história é apenas o princípio do seu pesadelo. Diz chamar-se Lena, como a rapariga desaparecida catorze anos antes, e até tem uma cicatriz igual à dela. Porém, o pai de Lena garante que esta mulher não é a sua filha. Com ela, escapou também Hannah – uma menina pequena e frágil –, cujas palavras indiciam que algo muito grave aconteceu numa cabana isolada. Entretanto, o pai de Lena, devastado com toda a situação, procura juntar as peças deste estranho puzzle, mas elas parecem não encaixar. Por sua vez, a mulher que fugiu só quer poder recomeçar a sua vida, no entanto, algo lhe diz que quem a capturou quer de volta aquilo que lhe pertence… Com muito suspense e psicologicamente envolvente, A Rapariga da Cabana, de Romy Hausmann, é um thriller perturbador que não deixará ninguém indiferente. 

Cris

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

"Camila" de Manuel António Araújo

Este livro foi-me emprestado por uma amiga com a indicação de que ia gostar.

Não entrei nele à primeira, embora a fórmula adotada pelo autor me agradasse bastante. Gostei muito do discurso corrido, de como são apresentados os diálogos entre as personagens, das mudanças de interlocutor sem aviso prévio, mas escritas de uma forma clara que permite ao leitor saber quem diz o quê. 

Camila é a personagem e tudo gira à sua volta. O seu discurso sem freios na língua chega a ser cómico, o seu passado é revelado aos poucos e a sua vida está cheia de imprevistos. O amor surge na pessoa de Miguel, um professor universitário, que a surpreende e do qual não se acha digna. Camila é mulher a dias, faz o que lhe aparece e o seu trabalho é precário. 

O final é inesperado. Aposto tudo o que quiserem em como não o vão descobrir! Gostei disso.

Escrita muito sui generis, a trama também. 

Terminado em 4 de Setembro de 2023

Estrelas: 5*

Sinopse

Uma mulher de 40 anos, que ninguém lhos dava, vive cuidando de pessoas velhas com ou sem Alzheimer. Num incêndio florestal insurge-se com Miguel que acha o incêndio lindo. E assim se conheceram.

Caminharam rua abaixo a discutir o incêndio. Comeram orelha de porco e beberam vinho da cor do sangue na única taberna da aldeia. Não mais se largaram.

Camila preferia enrolar cigarros do que os comprar já enrolados.

Também havia um gato e as loucuras dela por causa do gato. Dizia “meu” e “foda-se” por tudo e por nada. Ambos tinham, contudo, um gosto comum. Gostavam de escritores argentinos. Ela de Alejandra Pizarnik, ele de Jorge Luis Borges. Entre os dois uma história improvável de amor acontece.

Finalmente, havia Ana. Antes de Camila.

Antes de Camila havia um lobo mau que se alimentava da dor que infligia a Ana.

Chegou Camila e o lobo mau foi-se tornando no lobinho das estepes. Porque se transformou?

Um psiquiatra, impiedosamente, explicou-lhe a causa da transformação.

Cris

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

"O Inverno do Desenhador" de Paco Roca

Gosto muito das graphic novels de Paco Roca. Gosto das histórias que cria e de como as ilustrações as completam. Já li Rugas, A Casa, O Farol e o Jogo Lúgubre e os dois volumes de Os Trilhos do Acaso. Os dois primeiros foram os meus favoritos e este Inverno do Desenhador foi o que menos me interessou pela história retratada.

Baseou-se numa história verídica sobre uma equipa editorial na Espanha franquista que, muito embora não tenha tido o sucesso esperado, foi significativo pelo esforço e pela luta encetada tendo ficado para a história editorial espanhola. 

Mas como já li mais GN de Paco Roca e posso comparar, posso dizer-vos que as histórias dos meus livros preferidos dele me tocaram mais... De qualquer forma, tenho ouvido maravilhas desta GN e não dou o tempo como perdido.

Terminado em 28 de Agosto de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

Um dos mais premiados autores espanhóis da actualidade, Paco Roca começou a sua carreira na década de 90 nas revistas "El Vibora" e "Kiss Comics", mas a consagração surgiu com o premiado "Rugas", adaptado à animação num filme que mereceu o Prémio Goya e lhe valeu um lugar cimeiro na história da BD espanhola que está na base de "O Inverno do Desenhador".

No Inverno de 1957, cinco dos mais populares desenhadores da editora Bruguera decidem abandonar a editora para criarem a revista "Tío Vivo" e tornarem-se os seus próprios patrões. Uma aventura na edição independente que teria vida curta, mas que lançou as raízes para a actual BD de autor, que Roca relata com grande rigor, nostalgia e sensibilidade.

Cris

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

"O Tesouro" de Selma Lagerlöf

Desde há uns tempos que tenho andado muito curiosa com outro livro desta autora sueca mas decidi começar por este porque para além de ser bem pequeno também me possibilitaria ficar a conhecer a sua escrita.

Num arquipélago na Suécia, mais propriamente em Marstrand, no tempo do rei Frederico II, vivia um homem, Torarin de seu nome, peixeiro pobre que devido a um braço aleijado não conseguia pescar. Ganhava a vida vendendo peixe seco e salgado no continente. Viajava bastante, portanto. Numa dessas viagens sempre acompanhado do seu cão Grim, com quem ia conversando pelo caminho, foi referindo ao seu companheiro que, tendo o mar congelado, os barcos não poderiam passar. Para saberem novidades, iriam fazer um desvio ao presbitério de Solberga.

A trama adensa-se a partir daqui. Uma carnificina terá lugar e ela desperta no leitor alguma surpresa. Mais intrigante este enredo se torna porque alguns elementos sobrenaturais são introduzidos o que vai deixar o leitor mais curioso. Uma personagem feminina vem completar sobremaneira o enredo e espicaçar a imaginação do leitor.

Romance publicado originalmente em 1904, creio que foi uma boa introdução para outros romances das autora. Leitura que gostei de fazer e que se faz rápida.

Terminado em 22 de Agosto de 2023

Estrelas: 4*

Sinopse

Um romance fantasmagórico inovador e moderno que se tornou um clássico da literatura europeia Na pequena cidade costeira de Marstrand, os habitantes perguntam-se o que se passa com a natureza: o mar congelou até ao largo e já não há passagem para barcos e navios, só gelo espesso e rijo por todo o lado. Três soldados, mercenários escoceses, aguardam que a galeaça que os levará de regresso a casa desencalhe para partirem com um misterioso baú.   Publicado originalmente em 1904, pouco antes de A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, com o qual partilha vários elementos do fantástico, O Tesouro, ambientado na Suécia do século XVI, é uma história de fantasmas, de vingança e justiça sobrenatural, um romance inovador e moderno, que subverteu o género gótico, lançando temas precursores à época, como o do feminismo. 

Cris

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

"O Rapaz do Douro" de Jeannine Johnson Maia

Livro que me chamou a atenção pelo título e pela capa. Ficar a conhecer uma história ficcionada, mas num espaço temporal bem definido e com detalhes verídicos da História de Portugal pela escrita e pelo olhar de uma autora estrangeira, pareceu-me bastante interessante. A autora é jornalista e vive na Maia.

Ao fim de algumas páginas, a história já me tinha agarrado. Estamos na segunda metade do século XIX, no tempo do Rei Luís I e da rainha D. Maria Pia. Tempo de pobreza e fome, que habilmente é retratado pela autora. Henrique, um jovem de 17 anos parte para o Porto em busca de melhores condições de vida. À sua espera está um trabalho de aprendiz de ourives, aprendiz de filigrana. Sabe ler, coisa rara nesse tempo. A forma como o aprendeu leva-nos a intuir que o seu desejo de progressão na vida é muito forte e tudo fará para o conseguir! A sua viagem de barco, de Mesão Frio para o Porto, cheia de peripécias, é um começo auspicioso para este romance e que prende de imediato o leitor. 

O detalhado ambiente político e da situação económica desse ano de 1877 e seguintes, as transformações que a cidade do Porto sofreu (sobretudo com a construção da ponte D. Maria Pia), tudo é revelado com a mestria de quem pesquisou e estudou bem o espaço temporal da época. Um romance onde se aprende e apreende os costumes e a vida difícil de quem tinha pouco e queria melhorar.

Gostei muito. Envolvente, cheio de pormenores verídicos que apelam à nossa atenção mas, ao mesmo tempo, sem enfastiar porque ligados com mestria à ficcionada história de uma rapazinho trabalhador e esperto. Pequenos mistérios aqui e ali fazem a trama decorrer rapidamente!

Aconselho!

Terminado em 27 de Agosto de 2023

Estrelas: 6*

Sinopse

Portugal, outono de 1877.

Enquanto o Porto se prepara para inaugurar a magnífica ponte de ferro de Gustave Eiffel sobre o rio Douro, Henrique, de 17 anos, foge das duras condições de vida rio acima, pelas vinhas de uma propriedade onde se produz vinho do Porto. Para trás fica uma traição que ele quer esquecer. À sua frente, a oportunidade única de trabalhar numa ouriversaria.

Determinado a fazer do Porto a sua casa, Henrique explora as ruas sinuosas da cidade, convivendo com cartógrafos e agitadores, e começa a aprender a delicada arte da filigrana. Até que um conhecido do passado aparece, ameaçando a sua nova vida...

Quando descobre uma conspiração contra a ponte de Eiffel, Henrique tem de decidir até onde está disposto a ir para se salvar a si próprio, o ilustre novo marco da sua cidade adotiva e talvez até a própria família real portuguesa.

Situado numa cidade de mercadores e trabalhadores, marinheiros e reis, privilegiados e pobres, O Rapaz do Douro é uma história de resiliência e amizade, de um rapaz à procura de si próprio e daquilo em que se quer tornar.

Cris