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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A Escolha do Jorge: "A Implosão"

Inspirado na manifestação de 15 de Setembro de 2012 que encheu as principais artérias de Lisboa com mais de meio milhão de pessoas, Nuno Júdice escreveu “A Implosão”, uma das primeiras obras de cariz político que foram publicadas no início deste ano como reacção às agressivas medidas de austeridade implementadas pelo Governo ao longo dos últimos dois anos como forma de responder à crise económica e financeira que o país atravessa.

Criando um país indeterminado que poderia perfeitamente ser o nosso, “A Implosão” conta-nos a história de dois indivíduos que se conheciam do tempo da ditadura e que nutriam simultaneamente uma paixão pela mesma mulher (democracia) acabam por se reencontrar décadas mais tarde, precisamente numa manifestação na sequência de o sistema político vigente já não conseguir cumprir as promessas de outrora.

Terminada a manifestação, um dos indivíduos convida o suposto amigo a acompanhá-lo a um intrigante velório. Morta a democracia, há que velá-la ao ponto de fazer implodir a própria igreja como necessidade de recomeçar tudo do zero como forma de alento da sociedade fazendo, dessa forma, renascer a esperança num futuro melhor.

Profundamente metafórico, mordaz e até corrosivo, Nuno Júdice não poupa nas palavras para atirar as bombas ao inimigo contemporâneo que se apresenta de um modo cada vez mais perigoso e não menos subtil. A democracia que nasceu em grande pujança com o fim da ditadura, encontra-se ela própria moribunda deixando tudo e todos à nora sem saber que direção tomar. Algo é preciso fazer! Novos rumos há que trilhar!

“A Implosão” assume-se, deste modo, como uma obra de referência no atual contexto político, económico e social em que vivemos não só à escala nacional, mas também a nível mundial, embora com maior enfoque na Europa colocando muitos valores em causa, assim como a legitimidade dos governos que ditam as regras de funcionamento.

Em jeito de conclusão, são vários os momentos do livro que constituem ecos de “A 25ª Hora” do romeno C. Virgil Gheorghiu que põe em causa a progressiva instrumentalização do cidadão que vai perdendo toda a sua humanidade, o seu poder, entregando-o de mãos beijadas à máquina invisível hedionda tornando-se dessa forma o seu escravo.

Excertos:

“A ditadura hoje é muito mais maquiavélica porque não se apresenta como tal. Vivemos todos convencidos de que somos livres, e todos os dias nos impõem mais uma coisa contra nós, que não sabemos como rejeitar. Não é contra ti nem contra o teu vizinho: é contra todos, e todos são objeto de um roubo que vem de fora, mas que é executado como se fosse uma coisa natural, explicada com argumentos que até parecem lógicos, e que deixam um sabor amargo na vida que não sabes de onde vem.” (p. 33)
“O ser individual, hoje, perdeu o poder. O mundo é dominado pelos que não se importam com o homem. É um produto dispensável. O melhor é correr daqui com as pessoas. Sois inúteis aqui, ide ser inúteis para outro lado, dizem eles. E riem-se, como se estivessem a fazer uma graçola.” (pp. 36-37)
“As bombas de hoje são as palavras que tu andas à procura. Tens de as armadilhar, de preparar o mecanismo que as faz explodir ao retardador. De fixar bem a palavra que servirá para fazer explodir a frase em frente do inimigo, que o irá deixar não tanto aturdido como inconsciente, incapaz de refletir, com o cérebro partido aos bocados depois de apanhar com a palavra na cabeça.” (p. 42)
“Não gostaria de regressar ao passado, de confundir lutas, uma, a de outrora, que acabara por se esvaziar quando chegou a democracia, e outra, a que está a começar quando a democracia parece estar a chegar ao fim.” (p. 53)
“A Europa despertou paixões, mas o que estamos a ver é que nenhuma foi saudável. E depressa a paixão se transforma em ódio.” (p. 60)
Texto da autoria de Jorge Navarro

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