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É o primeiro livro que leio desta autora, embora tenha cá em casa o "Pequenas Coisas Como Estas". Adorei.
Embora gostasse que a história tivesse mais uma centena de páginas (é a minha opinião generalizada sobre contos!), fiquei maravilhada com a envolvência perfeita que a escrita da autora produz em nós, a história simples mas tão cheia de sentido, abordando temas tão duros mas com uma ingenuidade muito própria das crianças!
Sabemos, pois, que a narradora é uma criança pequena. Pequenos detalhes são referidos: família pobre, numerosa, que para aliviar o seu orçamento leva uma das filhas, algures para uma casa rural na Irlanda, para uma família que a acolhe. Temporariamente? A menina não sabe.
E depois há o amor. Amor que vai fazer diferença. E um segredo que descobre e que obriga o leitor a pensar em como o Amor de pessoas de bem pode ser inesgotável mesmo quando a vida, portadora de uma desgraça horrível, lhes bate à porta. Uma lição!
E há o fim que não queria que acontecesse porque queria mais. Muito mais. Mas percebo a autora porque a história é perfeita e está completa tal como é. Acolhedora e profunda.
Capa maravilhosa que completa visualmente esta obra e que induz o leitor para toda a ruralidade relatada.
Recomendo muito. Um caso em que o pouco é muito. Muito e bom!
Terminado em 5 Dezembro de 2023
Estrelas: 6*
Sinopse
Uma menina vai viver com os pais adotivos numa quinta da zona rural da Irlanda, sem saber quando regressará. Numa casa desconhecida, de gente estranha, encontra um calor e uma afeição que não sabia existirem e começa lentamente a florescer. Até que a revelação de um segredo a faz compreender a fragilidade da sua vida.
Cris
Este livro descreve-nos o encontro/luta entre uma antropóloga e um urso na Sibéria em 2015. Desfigurada e quase à morte, a protagonista sobreviveu e conta precisamente esse encontro e os dias/meses que se seguiram. Os dias passados a recuperar nos hospitais russos (e o interrogatório a que foi sujeita por parte das autoridades) e, também, hospitais franceses. Apercebemo-nos da sua vontade de regressar à Sibéria, mais concretamente para Camecháteca, no extremo oriental da Rússia, e aos seus amigos pertencentes ao povo Eveno, onde fazia trabalho de campo. O estilo de vida deste povo, pelo que pude perceber, encontra-se ameaçado pela exploração dos recursos naturais feita na sua terra. Aprendeu a sua língua para melhor comunicar com eles. Para este povo, quem sobrevive a um ataque de um urso polar torna-se uma criatura em que o espírito do urso vive.
Nastassja Martin é antropóloga e esta é a sua histórias, ou pelo menos, parte dela! Quando peguei neste livro não me apercebi desta realidade. Fiquei sempre na dúvida se ela estaria a misturar acontecimentos reais com ficção, o que, percebo agora, enfraqueceu a minha leitura. Acreditei que estaria a ler partes de ficção. Mas a realidade, muitas vezes, supera a ficção! Este é um desses casos.
Terminado em 2 de Dezembro de 2023
Estrelas: 4*+
Acreditar nas Feras (2019) narra o encontro brutal entre uma antropóloga e um urso na Sibéria, em 2015. Ele desfigurou-a, mas poupou-lhe a vida.
Ela sobreviveu para contar este esmagador recontro, esta história «de um colapso e de uma ressurreição». Carregará consigo para sempre a marca da fera, ao tornar-se, segundo os Evenos, uma miedka, uma criatura habitada pelo espírito do animal e que vive entre dois mundos cujas fronteiras se estilhaçaram. Relato construído ao ritmo das estações do ano, do qual não está ausente a dimensão política – a «guerra fria» entre Leste e Ocidente, travada no corpo de uma mulher, em intermináveis cirurgias e pernoitas em hospitais russos e franceses .
Acreditar nas Feras questiona uma humanidade que, no ensejo de tudo normalizar e controlar, esqueceu uma ligação ancestral e a pertença ao mundo natural.
Cris
Se tiverem alguns minutos podem deliciar-se com este livrinho. Pequeno
De qualquer forma, quer nos identifiquemos mais ou menos com estas situações descritas, o que é certo é que um sorriso paira sempre nos nossos lábios. E fica um gostinho bom como quando saboreamos algo docinho!
Toda feita em tons de branco e preto, esta GN possui um personagem feminino louco por livros e por tudo aquilo que eles trazem à sua vida, e com o qual nos identificamos de imediato. Ilustrações supimpas!
Este livro constitui uma boa prendinha para bibliófilos, é o que é!
Terminado a 30 de Novembro 2023
Estrelas: 4*
Cris
Este livro tinha tudo para lhe dar 6 estrelas mas não fiquei satisfeita com o final. Não que não goste de finais em aberto. Gosto. Sobretudo daqueles em que as hipóteses são variadas e o leitor pode escolher aquela para a qual mais se inclina. Este final, achei incompleto. Senti que faltava informação. Que com mais duas ou três páginas poderia ficar um final em aberto mas perfeito.
Posto isso vou-vos falar de uma obra da qual gostei muito, que envolve o leitor logo nas primeiras páginas, com personagens bem construídos, humanos, com detalhes muito reais. Personagens que, tal como as pessoas, possuem características positivas e negativas. É um dos factores que aprecio num livro. Ninguém é totalmente mau ou bom. Os erros de comportamento são uma característica do ser humano. A reacção face aos mesmos é que pode ser diferente.
Uma jovem com 17 anos, inteligente o bastante para ser a primeira da sua família a ter possibilidade de ganhar uma bolsa para a universidade, vê-se numa posição desesperada. Grávida, prevê um futuro cheio de obstáculos que a impedirão de ter a vida com que sonha. A gravidez não está nos seus planos.
Para além disso, ainda carrega nas costas o suicídio da mãe. Que razões a terão levado a agir assim? Há culpados? Será ela é culpada, de alguma forma, dado a mãe a ter tido ainda na sua adolescência? Nadia, Luke, seu namorado, Audrey, sua melhor amiga, crescem com pesos e segredos difíceis de carregar.
E há as "mães", algumas senhoras que frequentam a igreja, narradoras de parte deste livro. "Nós", as mães, que o leitor vagamente sabe quem são. Personagem colectivo numa comunidade fechada afro-americana, a sul da Califórnia.
As páginas voam, a trama adensa-se e prende. Aconselho.
Li desta autora o livro que foi anteriormente publicado em Portugal, "A Outra Metade" (opiniao aqui), embora cronologicamente tenha sido escrito depois deste. Para romance de estreia foi uma boa surpresa.
Terminado em 27 de Novembro de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
O romance de estreia de Brit Bennett, autora do fenomenal A outra metade e herdeira da tradição literária norte-americana firmada por James Baldwin, Toni Morrison e Chimamanda Ngozi Adichie.
Sobre o pano de fundo de uma comunidade afro-americana marcada pela religião, no Sul da Califórnia, As mães conta uma história comovente e perspicaz sobre amor e ambição. Tudo começa com um segredo: «Todos os bons segredos têm um determinado sabor antes de os contarmos, e, se tivéssemos demorado mais algum tempo a degustá-lo, teríamos porventura reparado na acidez típica de um segredo ainda por amadurar, colhido cedo demais, rapinado e propagado antes do tempo certo.»
Nadia Turner está no fim do liceu e é uma adolescente rebelde, angustiada, muito bonita. Imersa no luto após o suicídio da mãe, envolve-se com Luke, um rapaz um pouco mais velho, filho do pastor da comunidade. São miúdos, não é nada sério. Mas desse romance resultará um segredo com um impacto duradouro. Pouco depois, Nadia abandona a terra natal, para forjar uma vida só sua. Os anos passam. Já adultos, Nadia, Luke e Aubrey, a melhor amiga, ainda vivem no rescaldo da escolha que fizeram naquele Verão à beira-mar, enredados num estranho triângulo amoroso e perseguidos pela dúvida: como seria agora, se tivessem, então, feito uma escolha diferente? Numa prosa encantatória e desafiante, As mães revela que as escolhas que seguimos deixam marca até ao fim.
«Agridoce, sensual, moralmente desafiante.» The New York Times Book Review
Cris
Quando li da Catarina o "Coisas de Loucos", fiquei sua fã. Da sua escrita tão pessoal que nos faz aproximar dos personagens reais que descreve, da forma como consegue prender o leitor através de uma investigação que supomos demorada, dos pormenores relatados que nos fazem viajar para a época descrita.
Aqui, o mesmo sucedeu. Pouco mais tenho a dizer sobre a sua forma tão peculiar de tratar um assunto, do seu envolvimento palpável nas linhas que escreve. Escreve com o coração sem deixar que este interfira ou julgue. Descreve a dor, o amor, a razão, a loucura.
Capa soberba, com as características que a Tinta da China já nos foi habituando, e um título fantástico que muito tem a ver com uma das histórias narradas e que acaba por representar todas as outras. Meninos fruto da Guerra Colonial que vieram a um mundo sem que a ele pertencessem. Filhos de soldados portugueses e nativas que nunca foram aceites na terra onde nasceram e foram objecto de discriminação. Filhos de tugas, "filhos do vento", a maior parte deles registados como filhos de "pai desconhecido". Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
É impressionante em como todas estas histórias há um denominador comum: a dor de não saber quem é o pai, a esperança de um (re)encontro, o querer colocar um ponto final numa vida toda ela feita de esperança, incerteza e dor. Estes são apenas alguns nomes a que Catarina conseguiu atribuir um rosto.
Sei que há algumas reportagens sobre este assunto que quero muito ver. Vou tratar disso!
Terminado a 19 de Novembro de 2023
Estrelas: 6*
Sinopse
Chamavam «resto de tuga» a Fernando e ele não percebia porquê, até ao dia em que descobriu que era filho de um português que combatera na Guiné. Procurou o pai pelo nome que achava que ele tinha, o único nome que a sua mãe decorou: furriel. Uma patente militar é pouco, mas Fernando não desiste.
A história de Fernando repete‑se com outros nomes: o de Óscar, sovado todos os dias pelo padrasto, por ter nascido com a pele mais clara; o dos gémeos Celestina e Celestino, que guardam, aos 40 anos, a fotografia desbotada de um jovem militar que não quer conhecê‑los. Não se sabe o número de casos, porque estas contas nunca se fizeram.
Catarina Gomes partiu para África levando na mala um dos maiores tabus entre os militares portugueses: os filhos da guerra, crianças que ficaram para trás (em Angola, Moçambique e na Guiné‑Bissau) quando terminou o conflito e que há anos buscam uma identidade perdida, sem que o próprio Estado português reconheça a dimensão desta realidade. Esta é a primeira vez que se conta a sua história.
Os livros abrem-nos portas para podermos viver outras vidas! Quem lê, sabe isso. Às vezes viajamos no tempo, muitas das vezes para épocas em que o ódio e o desamor imperavam. Ficamos a conhecer detalhes que, se não reais, pelo menos representativos do momento. Aprendemos.
A viagem que este livro nos propõe é diferente. Não entramos numa cápsula do tempo que nos deixa numa época muito anterior à nossa. Mas o tema, duro e profundo, é transversal no tempo. Quantas pessoas não o terão sentido na pele?
Ao marido da autora foi diagnosticado Alzheimer aos sessenta e poucos anos. As mudanças iniciais no seu comportamento foram subtis e passaram despercebidas. Quando confrontado finalmente com a situação, quando o diagnóstico aterrador surgiu, o céu caiu para este casal que estava junto há 12 anos e que esperava ter uma velhice conjunta e feliz.
Ao tomar uma decisão sobre a sua vida, Brian, teve de enfrentar familiares, amigos e a autoridade/leis. Não conseguiria ter levado o seu intuito avante se não tivesse Amy do seu lado. Coragem e amor, tiveram de sobra. Mas muita dor também.
Amor e Perda, um título feliz para um livro impactante, duro e escrito com uma sensibilidade extrema. "Escreve sobre isto", pediu Brian. Amy Bloom assim o fez. Deve ter sido difícil, para ela, voltar atrás e recordar mas, imagino, que se traduziu numa catarse também.
Recomendo.
Terminado em 14 de Novembro de 2023
Estrelas: 6*
Sinopse
Amy Bloom começou a reparar em mudanças no marido, Brian. Reformou-se de um novo emprego de que gostava. Afastou-se das amizades mais próximas.Começou a falar bastante sobre o passado. Subitamente sentiu que existia uma parede de vidro entre eles. As suas longas caminhadas e conversas cessaram. O seu mundo foi lentamente abalado até uma ressonância magnética confirmar o que não podiam mais ignorar:Brian sofria de Alzheimer. Ponderaram o impacto que isso teria no seu futuro como casal. Brian estava determinado a morrer de pé...
Cris
Ainda tenho algumas graphic novels por ler. Como são livros caros, vou aproveitando ocasiões especiais para as adquirir e acabam na estante à espera de vez. Chegou o tempo desta pequena maravilha.
A capa, o título e o sub-título são representativos do conteúdo. Mulheres sem medo que, na sua época, lutaram contra preconceitos instituídos, por uma liberdade que não era atribuída, por direitos a que queriam ter direito, por acesso a escolhas que lhes estavam interditas.
Algumas das suas conquistas são, nos dias de hoje, tidas como adquiridas e não sabemos (ou esquecemos) o quanto foi difícil conseguir alguns desses direitos. Uma vez mais, os livros como fonte de aprendizagem. Alguns nomes eram-me completamente desconhecidos e as vidas destas mulheres corajosas foram, no mínimo, cheias de peripécias. A prisão e a morte estiveram, em muitos dos casos, no fundo do túnel.
Achei que faltava um índice já que esta GN acaba por estar dividida em vários capítulos, direccionados a um tema específico. As cores são usadas para delimitar esses temas: como pano de fundo está o preto e o branco e em cada capitulo uma cor é-lhe adicionada.
Gostei muito. Se quiserem saber mais sobre os combates e lutas de muitas das mulheres, através dos tempos e em contextos geográficos diferentes, esta é uma hipótese muito boa.
Terminado em 31 de Outubro de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
Liberdade, Igualdade, sororidade. Mulheres sem Medo é uma novela gráfica que cobre 150 anos de história do feminismo. São 150 anos de coragem, garra e visão de quem lutou e ainda luta pelos direitos das mulheres à volta do globo. Da luta abolicionista ao movimento #MeToo, passando pela história das sufragistas e do direito ao aborto e à contraceção e pela reivindicação dos direitos LGBTQ e do casamento gay... está (quase) tudo aqui. Atreve-te a ser ouvid@ e a juntar a tua voz às del@s..
Cris
Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.
Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:
Carla Pereira Sousa
Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 22, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:
Cris
“
Caro Professor Germain – Cartas e
Excertos”, Albert Camus, 1945 a 1959
Só recentemente, a 5 de Maio deste ano, no Dia Mundial da Língua Portuguesa, numa conferência promovida pela FENPROF e através da comunicação feita pelo professor António da Nóvoa, tive conhecimento das palavras de Albert Camus dedicadas ao seu professor da primária, quando em 1957 recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Quando em Setembro último a Livros do Brasil editou este “Caro Professor Germain – cartas e excertos”, decidi pela compra do livro, curiosa por conhecer esta outra faceta do escritor argelino, já que dele apenas conhecia “O Estrangeiro” e “A Peste”.
Na primeira carta aqui publicada, Camus tinha 34 anos, vivia em Paris, era casado e pai de um casal de gémeos. O professor, então com 61 anos e de regresso a Argel, mostra o desejo de se encontrar com o querido aluno antes de regressar a casa. A fórmula usada na saudação das cartas denota uma grande ternura e respeito entre os dois: “Meu caro rapaz” e “Caro Professor Germain”. Transcrevo algumas declarações de gratidão e carinho nestas cartas muito pessoais, para alguém que foi órfão de guerra e encontrou no professor dos primeiros anos de escolaridade o pai que nunca conheceu –“… um dos dois ou três homens a quem devo praticamente tudo” (pág. 16), “O senhor foi o melhor dos mestres” (pág. 17), “filho espiritual” (pág. 18). A gratidão de Camus para com o mestre é, não apenas porque sempre o tratou como um filho, mas enquanto professor, pelo conhecimento, pela forma motivadora e inovadora como abria perspectivas aos seus alunos, levando-os a pensar, a reflectir e a fazer escolhas. E sobretudo a gratidão por ter acreditado e investido nas suas capacidades, invertendo a roda do destino que o conduziria, devido à sua condição de pobre, a um futuro sem futuro porque “a miséria é uma fortaleza sem ponte levadiça.” (pág. 60). Daí que não se tenha esquecido de nomear o seu mestre no discurso na Suécia e tenha escrito na carta de 19 de Novembro de 1957 o seguinte: “mas quando soube da notícia, o meu primeiro pensamento, depois da minha mãe, foi para si. Sem o senhor, sem essa mão afetuosa que estendeu à pequena criança pobre que eu era, sem o seu ensinamento e exemplo, nada disto me teria acontecido.” (pág. 34)
As cartas trocadas entre Albert Camus e o professor Louis Germain são ternas trocas de palavras e de sentimentos que unem aluno e mestre e persistiram muito para além do período da escola primária, depois de Camus ter seguido o liceu com outros mestres. São cartas simples, falam sobre a família, os problemas de saúde, as erradas escolhas orçamentais que dão pouco à escola pública e os receios pelos ataques à escola laica, os conselhos do mestre ao antigo aluno para ter cuidado com a vida e não fazer excessos. Na última carta, de Outubro de 1959, Camus mostra o seu desapontamento com o estado do mundo “O mundo atual é um peso difícil de suportar. São homens como o senhor que ajudam a tolerá-lo. E, além disso, é feito de cimento armado.” (pág. 48)
A segunda parte do livro é um excerto de “O Primeiro Homem” um livro autobiográfico, inacabado, ainda em rascunho. O capítulo “A Escola” aqui publicado traz a público esse período decisivo na vida e no futuro de Camus, através das personagens Jacques e Bernard. É recriado o ambiente dos bairros pobres de Argel a cheirar a “especiarias e pobreza” (pág. 53), os cães e os gatos à procura de restos nos caixotes do lixo, os comerciantes árabes que vendem no mercado, o porto, os cais de carvão, a escola na rua Aumerat, as reguadas e os castigos corporais ainda vistos como método, as ofensas e as lutas entre alunos, o empenhamento do professor Bernard (Germain) para que os seus alunos mais desfavorecidos, porque órfãos da guerra, pudessem aceder a bolsas para continuar os seus estudos. É neste excerto que surgem a mãe e avó de Jacques (Camus) com personalidades tão diversas – a primeira uma mulher doce, a segunda dura e decidida – mas ambas familiarizadas com a pobreza, o trabalho e a morte. Sem a intervenção do professor junto à avó “uma velha mula teimosa” (pág. 75) o pequeno Jacques não teria continuado a estudar e ficaria apenas com os estudos básicos.
Apesar da grande evolução da escola e da mudança nos métodos pedagógicos desde a altura em que o livro foi escrito, “Caro Monsieur Germain” é uma homenagem à escola pública, ao professorado e à relação aluno/professor. Para além de local de aprendizagem e de socialização, a escola pode e deve ser um espaço de felicidade e de sonho. A certa altura, no seu romance autobiográfico, Camus parece que se esquece que criou a personagem Bernard e troca o nome pelo nome do seu professor primário: “Nas aulas do senhor Germain, pela primeira vez, eles sentiam que tinham uma existência própria e que eram tidos em grande apreço: eram considerados dignos de descobrir o mundo.” (pág. 61)
Almerinda Bento
22 de Novembro de 2023
Claro que já tinha ouvido falar deste livro mas ainda não o tinha lido. Uma oferta fantástica para o Natal para quem não sabe o que dar a alguém que ronde os 10/12 anos!
Joana tem 13 anos, uma melhor amiga vítima de uma overdose sem que ela tenha desconfiado que ela se metia com substâncias perigosas. Aparentemente os pais da amiga constituíam uma família exemplar, sem problemas de maior, que a apoiavam e ouviam.
Joana escreve a Marta. Pôe no papel o que lhe vai sucedendo no dia a dia, as suas inquietações e o seu desamparo pois tirando a avó, que vive com eles, a sua família sofre de algo muito em voga nos dias de hoje: não tem tempo! É muito boa aluna e gosta de estudar. Mas a sua avó, o seu porto de abrigo, morre e uma torrente de acontecimentos chegam para desestabilizar os dias de Joana.
"Espera aí. Que cara é essa? Sabes perfeitamente que tenho muito que fazer, Joana. Por mim, claro que ia para casa mais cedo, filha. Tomara eu ter tempo para jantar com a família! Não acreditei, mas voltei a sorrir, porque nada tinha para dizer. E percebi que os sorrisos servem para uma data de coisas, como, por exemplo, para tapar buracos que aparecem quando o mar das palavras se transforma em deserto." Pág 34
"De qualquer forma, não me distraiu nada, simplesmente porque não sabe ter qualquer espécie de conversa. Aprendeu a ler e a escrever, mas, como a maior parte das pessoas da minha familia, não aprendeu a falar." Pág 94
A toxicodependência, a depressão, os problemas da adolescência e sobretudo, a falta de comunicação entre gerações, a falta de tempo das famílias, espelhadas num livro que já possui uns bons anos. Foi publicado em 1994 e, infelizmente, continua actual. Recomendo muitíssimo para todas as idades.
Terminado em 31 de Outubro de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
Ao lermos a «A Lua de Joana», não podemos deixar de pensar na forma como, muitas vezes, relegamos para segundo plano aquilo que realmente é importante na vida. Este livro alerta-nos para a importância de estarmos atentos a nós e ao outro, e de sermos capazes de, em conjunto, percorrer um caminho que conduza a uma vida plena…
Foi já há quinze anos que «A Lua de Joana» foi publicada. Com mais de 360 000 exemplares vendidos nas suas inúmeras edições, com traduções em seis países, impôs-se como uma referência incontornável na literatura juvenil portuguesa e mundial.
Cris
Há livros que chamam a nossa atenção e que "precisam" de passar à frente dos outros. Este foi assim.
A capa apela à leitura, pelo título e pelas imagens também. A leitura devora a nossa atenção, começando logo por um assassinato macabro dada a metodologia utilizada pelo assassino na execução do crime. E no final do primeiro capítulo ficamos logo presos à trama.
Depois, os ingredientes interessantes somam-se rapidamente. Um professor de matemática, deposto da sua profissão por agressão a um pai, cria uma livraria direcionada aos livros policiais e tenta sobreviver financeiramente. O seu carácter, meigo com os miúdos mas rezingão com os adultos, não ajuda a conquistar novos clientes. A livraria já teve melhores dias, muito pela ajuda de uma amiga idosa, que criou um grupo de leitura, mas que por motivos de saúde deixou de participar. No entanto, um pequeno grupo mantém-se e reune-se lá. E existem dois gatos pretos, a Miss Marple e o Poiroit, que são a cereja no cimo do bolo!
Final surpreendente, até à última palavra. Nada expectável! Personagens bem caracterizados, com as suas nuances positivas e negativas.
Leitura rápida. Absorvente. Um assassino "diferente" e uns "investigadores" muito sui generis. Gostei muito!
Terminado em 29 de Outubro de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
VENCEDOR DO PRÉMIO GIORGIO SCERBANENCO
Um thriller repleto de suspense e ironia que homenageia os grandes clássicos policiais.
Uma livraria peculiar.
Um livreiro com um passado como professor de matemática.
Uma investigação sobre um assassino implacável que se move nas sombras.
Um grupo de detetives amadores, leitores inveterados, cada um com a sua própria fraqueza.
Um reformado melancólico, um frade vivaço, uma octogenária obcecada com assassinos em série, uma jovem que se veste de preto e sonha matar alguém e um livreiro à beira da falência.
Confiaria nestes detetives para conduzir a investigação de um crime?
Cris
O começo de um livro pode prender ou afastar-nos da sua leitura. O início desta obra é super forte, agarra de imediato. Se quiserem mergulhar nesta leitura sem nada saberem só têm a ganhar mas, aconselho que não leiam a sinopse pois revela um acontecimento descrito logo nas primeiras páginas.
Estamos em Monza, Itália, em 1936. Francesca tem 13 anos e é educada de uma forma rígida, "com as maneiras e propósitos" de uma menina burguesa de então. No entanto, o seu olhar cai sobre outra miúda, apelidada de "Malnascida", de quem todos falam mal e atribuem poderes maléficos, que vê bastantes vezes na rua, junto ao rio Lambro, juntamente com dois rapazitos. A sua curiosidade vence e uma amizade nasce entre as duas. Amizade que tem de esconder a todo o custo, sobretudo da mãe, a quem aprende a mentir para poder sair de casa e ir ter com a amiga.
A autora poder-se-ia ficar pelos relatos das peripécias inocentes que estas amigas vivenciaram se a guerra não estivesse como pano de fundo deste romance numa Itália fascista de Mussolini. A guerra e as mortes, os que são chamados para lutar e os que ficam porque pertencem a famílias "de bem", as atitudes fanáticas que levam à cegueira completa e que descambam numa crueldade e violência sem fim, o luto, a miséria e famílias disfuncionais, e sobretudo a situação da mulher no período fascista, são temas abordados quando deambulamos pelas situações algo caricatas e complicadas em que duas amigas se metem.
Ouvi dizer que vai servir de argumento a filme ou série. Vou querer ver!
Gostei muito da escrita da autora e recomendo.
Terminado em 7 de Novembro de 2023
Estrelas: 5*
Sinopse
Com ecos de autores como Natalia Ginzburg, Alberto Moravia ou Elena Ferrante, eis a estreia fulgurante de uma escritora cuja mestria literária se dedica, neste romance, à procura da origem do mal e dos obstáculos à liberdade individual.
PRÉMIO SCUOLA HOLDEN
Monza, Itália, 1936. Francesca, de 13 anos, está nas margens do rio Lambro, vergada sob o peso de um homem morto que tentou violá-la. Maddalena, amiga de Francesca, sai da água e ajuda-a a livrar-se do corpo: escondem-no no meio de arbustos. Este momento é um marco inolvidável na relação entre as duas raparigas, que começa um ano antes, quando Francesca se deixa fascinar por aquela a quem todos chamam «a Malnascida»: uma rebelde de origens humildes e com estranhos poderes. Contrariando a vontade da sua mãe, obcecada pelas convenções sociais burguesas, e ignorando os rumores que atribuem várias mortes à «Malnascida», Francesca junta-se ao seu bando de amigos «problemáticos», ávida por descobrir um modo de vida em absoluta liberdade. Entre as duas amigas, contudo, imiscui-se a guerra e o fascismo. Francesca e Maddalena terão de fazer uma difícil escolha: aliar-se contra a opressão social e a injustiça, ou deixar que o curso da História as separe para sempre.
Cris