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sábado, 7 de julho de 2018

Na minha caixa de correio

  

  

  

  

  

 



Esta semana foi muitíssimo recheada! Já vão saber porquê...
Ofertados pelas editoras parceiras (muito obrigada!):
- A Mulher Inocente e O Homem Nas Sombras - Planeta;
- Organize a sua Casa - Arte Plural; 
- A Leste do Paraíso - Livros do Brasil;
- Marco Polo, Viagens e O Pecado da Gueixa - Clube do Autor
- Lol - Matéria Prima
- Grandes Clássicos para Jovens Leitores - Minotauro
e um livro infantil muito doce, O Pavão Yoyô e o Tigre Gagá Juntos Fazem Yoga da Oficina do Livro
OS RESTANTES...
Foram comprados numa loja Cash Converter numa promoção " Leve quatro pague dois" e ficaram a 2€! Passei no momento certo à hora certa!

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A Escolha do Jorge: "Minha Ántonia"

Pairava na página diante de mim, qual fotografia, e por baixo lia-se a melancólica frase: 'Optima dies... prima fugit' [Os melhores dias são os primeiros a fugir]." (p. 179)
A edição de “Minha Ántonia” da escritora estadunidense Willa Cather (1873-1947) coincide precisamente com os cem anos em que a mais emblemática das suas obras foi publicada, numa altura em que a Relógio d’Água decidiu retomar a edição das suas obras, primeiro com “O Meu Inimigo Mortal” após uma interrupção de mais de uma década com a edição de “Uma Mulher Perdida”.
Lemos as primeiras páginas desta obra e rapidamente damos conta que mergulhamos no universo da grande literatura e do melhor que o século XX produziu nesta matéria.
A narrativa não nos dá conta com rigor do período em que decorre, sendo que podemos concluir que abrangerá desde o final do século XIX, coincidindo com a imigração em massa de europeus que procuram a sua sorte no país da abundância e dos sonhos, até às vésperas da 1ª Guerra Mundial, ainda que a narrativa, no final, se perceba que passou dos anos 20. Não é que seja um dado importante, contudo, permite-nos o enquadramento histórico até para compreender o desenvolvimento socioeconómico da região onde se desenrola a maior parte da narrativa, em especial, o estado do Nebrasca.
Curiosamente, “Minha Ántonia”, no que concerne a aspectos de natureza socioeconómica tem ecos de “Os Frutos da Terra” do norueguês Knut Hamsun, publicado em 1917, valendo-lhe o Nobel de literatura três anos mais tarde. A ideia de colonizar uma região vazia em que os primeiros colonos se dedicam ao que a terra e os animais lhes dão é o ponto em comum nestas duas obras.
A narrativa inicia com a chegada de uma grande família oriunda da Boémia, os Shimerda, que tentam a sua sorte junto da grande colónia de norugueses já instalada na região, e também de suecos, embora menos expressivo. Os primeiros capítulos dão-nos conta das dificuldades e desafios que esta família de boémios tem na América. São igualmente descritos a ligação da comunidade entre si e o seu empenho no que concerne ao espírito de entreajuda a esta nova família que vive miseravelmente, havendo, pois, o desejo, de que todos possam beneficiar da terra dos sonhos para que todos possam ser felizes.
É curioso que neste romance de Willa Cather não podemos dizer que existem os oponentes, aqueles personagens que dificultam a vida a terceiros, é, pois, um romance que ao lermos os primeiros capítulos nos questionamos qual é o sentido, ou simplesmente que caminho será este. E a resposta é precisamente a vida, a vida que corre ao sabor das estações do ano, as rotinas domésticas e o trabalho do campo, mas também a ligação ou dependência à cidade.
Jim Burden é o narrador deste fulguroso romance de Willa Cather e é o próprio que nos dá conta de todas as alterações que têm lugar em Black Hawk, no Nebrasca, o pequeno lugar onde decorre a narrativa. Jim Burden é uma criança e vive com os avós na sequência de ter perdido os pais.
Jim faz-nos o relato das brincadeiras, das rotinas, das histórias desta nova família de estrangeiros, e claro, de Ántonia, uma menina um pouco mais velha que ele, mas que ambos passam a desenvolver uma enorme amizade que se confunde com amor, prolongando-se pela vida fora.
É através de Jim que percebemos que o pai de Ántonia é o elo de ligação à terra natal através das histórias que conta e da importância da música. A língua checa que nunca deixam de falar entre si ligam-nos fervorosamente como se fosse o único ponto de contacto com a distante Europa e os seus costumes.
A trágica morte do sr. Shimerda aproxima ainda mais Jim e Ántonia e a angústia face à perda referencial leva Ántonia a questionar se alguma vez o espírito do pai alguma vez voltará a encontrar paz e sentir-se feliz.
"- Isto faz-me sentir saudades, Jimmy, esta flor, este cheiro — disse ela calmamente. — Temos muitas flores destas na minha terra. Cresciam imenso no nosso jardim e o meu papá tinha um banco e uma mesa verdes por baixo das copas. No verão, quando estavam em flor, costumava sentar-se com o amigo que tocava trombone. Quando era pequena, ia até lá para os ouvir conversar; conversas bonitas, como nunca ouvi neste país.
- E conversavam sobre o quê? – indaguei.
- Ela suspirou e abanou a cabeça.
- Oh, sei lá! Sobre música, sobre a floresta, e sobre Deus, e também sobre quando eram novos. – Virou-se subitamente para mim e olhou-me nos olhos. – Achas que o espírito do meu pai consegue regressar a esses lugares, Jimmy?” (p. 158)
Os anos da adolescência vão passando e com ela surge o despertar para a sexualidade e tudo o que é diferente face ao que é tido como comum ou paradigma é bastante apelativo. Neste caso, os rapazes da aldeia sentiam-se profundamente enfeitiçados com as raparigas estrangeiras que exercitavam o corpo graças às tarefas domésticas, nos campos e com os animais, em oposição às raparigas locais que não tinham de trabalhar para ajudar as famílias.
Os bailes na cidade começam a ser o ponto de encontro dos jovens das imediações e Ántonia desperta paixões graças à sua rara beleza, mas também pela sua personalidade forte, marcante.
Sempre próximos e numa relação sempre imaculada, Jim Burden e Ántonia Shimerda acabaram por nunca concretizar o afecto que nutriam um pelo outro ainda que reconhecessem que tenham tido a melhor das infâncias e a melhor das amizades ao sabor do vento como parte integrante da natureza.
Anos mais tarde, quando se reencontram, e cada um com uma vida diferente, há um dos mais belos diálogos do romance, que denotam a ideia de amor para sempre e que há pessoas que passaram pela nossa vida que nos marcaram e marcarão até ao fim dos tempos. Aqui poderíamos apelar à ideia de homem e mulher ideais, ou até mesmo de um casamento perfeito e que o leitor vê-se a desejar a cada momento que se concretize e depois a questionar por que razão não se concretiza esta união. É como na vida. Acontece quando tem de acontecer e não acontece porque também não sabemos explicar os mistérios insondáveis da vida ou do destino. Talvez seja isso.
“- Sabes, Ántonia, desde que me fui embora que penso mais em ti do que em qualquer outra pessoa daqui. Tenho pena que não tenhas sido minha namorada, ou esposa, ou mesmo mãe ou irmã; qualquer coisa que uma mulher possa ser para um homem. A ideia de ti faz parte da minha mente; influencias as minhas tendências e aversões, todos os meus gostos, centenas de vezes sem que eu me aperceba disso. És realmente uma parte de mim.
Ela virou os seus olhos luminosos e crédulos na minha direção e estes encheram-se lentamente de lágrimas.
- Como é isso possível, quando conheces tanta gente e fui uma desilusão tão grande para ti? Não é maravilhoso, Jim, o quanto as pessoas podem significar umas para as outras? Fico tão contente por nos termos tido um ao outro durante a infância.” (p. 211)
Doces e ternas são as palavras de Willa Cather transpostas pelos seus personagens, numa contínua reflexão sobre a vida e as relações que travamos, seja de amizade ou de amor, ou até mesmo quando ambos se confundem dando a ideia de amor ideal.
“Minha Ántonia” é um romance marcante e é tido como a obra icónica de Willa Cather ainda que tenha sido com “One of Ours” (1922) a obra que lhe valeu o Prémio Pulitzer, em 1923.
Excerto:
a ouvi neste país.
— E conversavam sobre o quê? — indaguei.
— Oh, sei lá! Sobre música, sobre a floresta, e sobre Deus, e também sobre quando eram novos. — Virou-se subitamente para mim e olhou-me nos olhos. — Achas que o espírito do meu pai consegue regressar a esses lugares, Jimmy?"
Tive o bom senso de regressar ao meu eu e de ter descoberto o pequeno círculo que é a experiência de um homem. Para mim e para a Ántonia, aquela fora a estrada do Destino; conduzira-nos a esses pequenos incidentes do acaso que premeditam tudo o que alguma vez poderemos ser. Agora compreendia que a mesma estrada voltaria a juntar-nos. Não obstante o que perdêramos, ambos possuíamos o passado precioso e incomunicável!” (p. 242)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Para os mais pequeninos: "100 Contas" e "100 Palavras"


Não sei qual destes dois livros gosto mais! Aliás, por se complementarem tão bem é que os acho fantásticos para se oferecer em conjunto...

Talvez a ideia não seja original, o facto de possuirem uma caneta para as crianças poderem escrever e apagar, mas gostei mesmo dessa diferença que os torna mais apelativos e mais didáticos também! Os desenhos são bonitos, alegres e ajudam a corroborar nessa missão que é ensinar os mais pequeninos, com alegria!

Ficam algumas fotos:






Cris

"O Lutador de Sumo Que Não Conseguia Engordar" Eric-Emmanuel Schmitt

Todos os livros que li deste autor são praticamente devorados. São pequenos, é certo, mas são profundos e os ensinamentos perduram muito após a sua leitura.

Um rapaz que vive na rua, sobrevivendo de pequenos biscates e vendas de artigos que, como o próprio diz, "teria vergonha de os comprar", encontra um mestre de Sumo que o incentiva a praticar essa modalidade. Peripécias várias depois, há lições de vida que aprende e que, subtilmente, nos são ensinadas também.

Como aprendeu a vencer os outros mas, sobretudo, como aprendeu a superar-se a si mesmo através da força da sua mente. Como aprendeu a aceitar a sua mãe e a sua doença, doença que a tornava tão peculiar. Como aprendeu a gerir as recordações da sua infância e a aceitá-las. Pequenos nadas que fizeram a diferença na sua vida.

Se não conhecem este autor nem a sua obra está na altura de pegarem num livro seu. Qualquer um. A mensagem vai chegar-vos através da simplicidade das suas palavras.

Terminado a 30 de Junho de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Selvagem e furioso, Jun vagueia com os seus quinze anos pelas ruas de Tóquio, longe de uma família da qual se recusa a falar. O seu encontro com um mestre de sumo que o vê como «gordo» apesar do seu corpo emaciado, envolve-o na prática da mais misteriosa das artes marciais.

Com ele, Jun descobre o desconhecido mundo da força, inteligência e aceitação de si próprio.

Mas como alcançar o zen quando não há nada além de dor e violência? Como tornar-se um lutador de sumo se não se consegue engordar?

Na populosa metrópole japonesa, o ancião Shomintsu guiará o jovem por um caminho iniciático que, misturando infância e espiritualidade, também acompanha o leitor à fonte do budismo.

Do mesmo autor de Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa, neste livro O Lutador de Sumo que Não Conseguia Engordar, Eric-Emmanuel Schimtt, acompanha-nos numa viagem pela cultura budista, sempre de forma simples com humor e humanidade.

Para saber mais sobre este livro, aceda ao site da Editorial Presença aqui.

Cris

quarta-feira, 4 de julho de 2018

"Uma Herança De Amor" de Cristina Campos


Só depois de ter lido opiniões muito positivas sobre este livro é que a minha curiosidade se acendeu. A capa e o título fizeram-me acreditar, erradamente digo-vos já, que seria um chick-lit, um romance levezinho, que não estava com vontade de ler.

As primeiras páginas são duras, pesadas até, e esse facto fez prender a minha atenção num ápice. Marina é uma médica que trabalha para os MSF (Médicos Sem Fronteiras) e tem passado quase toda a sua vida profissional a ajudar onde a fome e as catástrofes têm lugar. Encontra-se na Etiópia, numa região desértica, onde a pobreza, aliada ao clima, faz perigar a vida dos seus habitantes. Juntamente com o seu companheiro, médico também, ajuda a dar à luz uma menina cuja mãe não resiste e morre no parto. A dureza desta situação é aumentada pela descrição de alguns costumes tribais como a infibulação, mutilação dos orgãos genitais das meninas, ainda pequenas.

Mas a acção não decorre somente aqui. Maioritariamente decorre em Maiorca, numa pequena vila denominada Valldemassa. Marina e sua irmã, Maria, herdam uma habitação, um moinho e uma pequena padaria. Não conhecem a sua benemérita. Tal situação é o ponto de partida para um romance onde o mistério e o amor caminham em paralelo. 

Este belíssimo livro consegue fazer-nos visualizar todo o contexto retratado tanto na Etiópia como na pequena vila de Maiorca e até sentir o cheirinho de algumas receitas que a autora incorporou sabiamente nestas páginas. A morte, a perca, a frustação mas também o amor, a cumplicidade e as decisões que a vida nos obriga a tomar, são sentimentos muito bem descritos nestas páginas, que adorei ler. Personagens carismáticos com os quais o leitor sente empatia imediata.

Recomendadíssimo! Para devorar!

Terminado em 30 de Junho de 2018

Estrelas: 6*


Para saber mais sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

Sinopse
Anna e Marina não se veem há muitos, muitos anos. Inseparáveis durante a infância nas praias ensolaradas de Maiorca, afastaram-se cada vez mais.

Anna, a irmã mais velha, loira e delicada, permaneceu na ilha, presa num casamento infeliz; Marina, a maria-rapaz da família, fez do mundo a sua casa e vive onde a leva o seu trabalho na Médicos sem Fronteiras.

Quando descobrem que herdaram um moinho com uma padaria, as duas irmãs mal podem esperar para se livrar dele e continuar com as suas vidas. Mas, no momento da assinatura do contrato de venda do imóvel, Marina volta atrás. As circunstâncias e motivações por detrás da doação são demasiado misteriosas para serem ignoradas: quem era María Dolores? Que tipo de ligação tinha com elas essa mulher?

Graças à padaria e às antigas receitas familiares, Marina, Anna e a sua filha Anita encontrarão força para perdoar os erros do passado e enfrentar o difícil futuro que as aguarda.

Uma Herança de Amor é um romance sobre a amizade feminina, segredos e coragem, na paisagem encantada de Maiorca.

Cris

terça-feira, 3 de julho de 2018

A convidada escolhe: "A Mulher entre Nós"

"A Mulher entre Nós"  é mais um thriller tão em voga hoje em dia.
Ainda assim gosto de um bom thriller no feminino. E este pareceu-me promissor, como alguns que entretanto me ocorreram como "A rapariga no comboio" e "Ao Fechar a Porta". A mesma leitura fácil, com intriga e suspense que nos deixa expectantes.

Duas personagens femininas dramaticamente ligadas ao mesmo homem. A preterida, perturbada e frequentemente alcoolizada e a atual encantada e subjugada. O ponto de viragem dá-se no final do capítulo 16 e aí sim, desmarcou-se dos demais. Mas... mais à frente voltei a recordar outras leituras, como "Pequenas grandes mentiras" e "A Conspiração da Sra Parrish".

Em suma, não tão original como eu pretendia, mas a trama foi bem engrendrada e conseguida, uma vez que me surpreendeu com algumas personagens a que dei menor atenção e não ficaram pontas soltas, mesmo aquelas que eu não tinha registado. Não deixa de ser um bom livro para levar nas férias. No final, A mulher entre nós não é quem poderíamos pensar. A sinopse e a capa sugestionam e convencem.

Bem, gostei menos do esperava mas mais do que pensava. Confuso? Nem tanto, se o lerem.

Vera Sopa

segunda-feira, 2 de julho de 2018

"Os Távoras" de Maria João Fialho Gouveia

De vez em quando gosto de mudar de registo e ler um romance histórico. Admiro quem, pegando em acontecimentos da História dos homens, traz de novo à vida aqueles que viveram no tempo dos reis com as suas regras tão pouco usuais nos nossos dias no que concerne aos casamentos, aos laços familiares que se misturam e se juntam em moldes considerados hoje quase incestuosos. Admiro quem consegue dar vida a esses personagens da História, inventando diálogos e situações, sem fugir aos acontecimentos verídicos que tiveram lugar.

A protagonista desta história, Teresa, pertencia a uma família nobre, prestigiada e rica. Está-se no tempo de D José I. Teresa era bonita, sedutora e tornou-se amante do rei. Não fosse ele casado, nem tampouco ela, e tudo teria corrido às mil maravilhas. Mas a riqueza e a beleza não eram sinónimos de poder permanente e as intrigas palacianas, sobretudo instigadas por Sebastião José de Carvalho e Melo (para quem não sabe, o Marquês de Pombal) fizeram ruir uma das famílias nobres mais poderosas, os Távoras. Os actos bárbaros que se cometeram e a morte pavorosa a que muitos foram sujeitos, lembra bem como a História teve momentos tágicos e de puro horror.

Este não é um livro de leitura rápida, tão pouco fácil, porque está carregado de particularidades históricas que a autora, para situar o leitor, não pôde descurar. Mas, embora lentamente, o enredo vai-se entranhando em quem lê. Confesso que pouco sabia deste periodo da História que nos envergonha bastante, ou pelo menos, as minhas lembranças já eram bastante longínquas pelo que gostei de relembrar de que forma se conseguiu (quase) dizimar uma família através da intriga e da injustiça. Muitos anos volveriam sem que a justiça tivesse lugar...

Um livro para quem gosta de História, para quem, lendo, gosta de viajar pelo tempo. Recomendo!

Terminado 25 de Junho de 2018

Estrelas: 4*+

Sinopse
Entre a Virtude e o Pecado
Esta é a história da nobre família Távora, aqui contada na voz de Dona Mariana Bernarda e Dona Teresa Tomásia, duas senhoras desta ilustre Casa, que viveram em fausto e glória até o futuro marquês de Pombal tentar apagar a sua semente da face da Terra.
Apesar de unidas pelo sangue e pela vaidade da sua estirpe, as duas fidalgas não podiam ser mais diferentes uma da outra. A primeira era uma mulher religiosa e recta; já a segunda - sua tia e cunhada - entregava-se sem pruridos a uma vida de luxúria, vivendo um romance pecaminoso com El-rei de Portugal.

A altivez e o poder dos grandes Távoras muito incomodavam a Sebastião José de Carvalho e Melo, Secretário de Estado. Tanto que, quando D. José I é vítima de um intrigante atentado, Sebastião José, futuro marquês de Pombal, tratou de os inculpar, prendendo-os em masmorras e conventos, sem poupar mulheres nem crianças. O Tribunal da Inconfidência, a que presidiu, torturou os réus e condenou-os a mortes cruéis. Por fim, baniu-lhes o nome, picou-lhes as armas de família, julgou tê-los calado para sempre. Mas tê-lo-á conseguido?

Cris

domingo, 1 de julho de 2018

Passatempo 8º Aniversário / Alma dos Livros

Eis mais uma surpresa para vocês, seguidores do blogue! Em colaboração coma a editora Alma dos Livros temos para sortear o livro A Biblioteca dos Livros Proibidos.



As regras estão aqui por isso corram e vão lá espreitar!

Para mais informações sobre este livro, clique aqui.

Para mais informações sobre o passatempo, clique aqui.

Os que li em Junho, os que quero ler em Julho

Cada vez mais me espalho ao comprido quando programo as minhas leituras! Mas ler é mesmo assim e isso não me stressa nem um pouco... O que quero fazer mesmo é ler o mais possível

Então este mês foi assim:



Destes livros acabei por ler somente A Carruagem dos Orfãos, que gostei muito, e Os Távoras, cuja opinião sairá amanhã, segunda feira. Os restantes mantêm-se para Julho, embora já haja mais alguns que gostava de ler, sobretudo para participar num desafio que corre por aí e que podem seguir no meu instagram, o #bookbingoleiturasaosol2.

Para além desses dois também li em Junho:

 


 



Os que penso ler também são estes:




Com estes livros as categorias que pretendo "preencher" são:

- "Confia" - livro escrito por uma celebridade (já estou a meio)

- "A Musica da Fome" - livro que tenha sido publicado há mais de 10 anos;

- "Um Cântico de Natal" - livro de um autor que tenha as tuas iniciais (Charles Dickens/ Cristina Delgado);

- "A Longa Noite de Um Povo" - livro não ficção;

- "72 Horas", Livro com um número no título;

- "Beloved", Prémio literário estrangeiro;

- "A Campânula de Vidro" - livro que tenha sido lançado no ano em que nascente;

As outras categorias que faltam ficam para depois...

Cris

sábado, 30 de junho de 2018

Na minha caixa de correio

  
  

Comprados em segunda mão:
Quando o Céu Caiu e A cidade dos Aflitos
Oferecido por uma amiga, Antes de Adormeceres.
Oferta da Editorial Presença:
O Lutador de Sumo Que Não Conseguia Engordar e Beloved
ATENÇÂO!Há passatempos no blogue e estes dois livros estão a ser sorteados também!

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Passatempo 8º Aniversário / Gonçalo Dias (autor)



Para mais informações sobre estes livros, clique aqui.

Para mais informações sobre o passatempo, clique aqui.

Passatempo 8º Aniversário / Vieira da Silva


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Para mais informações sobre o passatempo, clique aqui.

Passatempo 8º Aniversário / Arte Plural


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Passatempo 8º Aniversário / Marcador


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Passatempo 8º Aniversário / Presença


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Passatempo 8º Aniversário / Saída de Emergência


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Passatempo 8º Aniversário / Clube do Autor

 

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Passatempo 8º Aniversário / Planeta

 


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Passatempo 8º Aniversário / Bizâncio



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Para mais informações sobre o passatempo, clique aqui.

Passatempo 8º Aniversário - "O Tempo entre os meus Livros"


Mais um ano que passou e mais um mega passatempo aqui n'O Tempo Entre os Meus Livros! Para celebrar mais um aniversário do blogue, com o apoio de algumas editoras parceiras, temos para sortear alguns livros a que corresponderão horas de leitura agradáveis para os vencedores...

Assim, as regras são muito simples:

1) O passatempo decorre até ao dia 15 de Julho;

2) Devem enviar um mail para otempoentreosmeuslivros@gmail.com, tendo como assunto o título do post do passatempo relativo a cada editora para que concorrem. Ex: "Passatempo 8º Aniversário /  Presença"

3) Só podem participar uma vez com um mail por cada post/editora; sendo nove passatempos poderão fazê-lo nove vezes;

4) Devem mencionar o nome, morada e nick do seguidor do blogue;

5) Os vencedores serão contactados via e-mail.

6) O blogue e as editoras não se responsabilizam por qualquer extravio por parte dos CTT aquando do envio dos livros. Como o periodo de férias está próximo os vencedores deverão mencionar, atempadamente e quando forem contactados, caso desejem que o envio seja efetuado mais tarde.

Agradeço em especial às editoras que colaboraram neste mega passatempo, a saber:

Bizâncio, Planeta, Clube do Autor, Saída de Emergência, Presença, Marcador, Arte Plural, Vieira da Silva e ainda o autor Gonçalo Dias.

Os livros a sortear serāo:

Bizâncio
- O Terceiro País de Joan London

Planeta
- Espero por Ti na Próxima Tempestade de Yves Robert
- Todos os Dias são meus de Ana Saragoça

Clube do Autor
- A Ilha dos Segredos de Nadia Marks 
- As Sombras de Leonardo Da Vinci de Christian Galvéz

Saída de Emergência
- Equilíbrio de Mafalda Rodrigues de Almeida

Presença
- Beloved de Toni Morrison

Marcador
- O Lutador de Sumo que não Conseguia Engordar de Eric-Emmanuel Schmitt

Arte Plural
- Praias Escondidas - Lisboa de Robert Butler e Andy Mumford

Vieira da Silva
- Se Vier Vento do Norte, Chove de Fernado Rui da Clara Maria

Gonçalo Dias (autor)
- O Bom Ditador II de Gonçalo Dias

Alma dos Livros
- A Biblioteca dos Livros Proibidos 


BOA SORTE A TODOS!

Cris

terça-feira, 26 de junho de 2018

A escolha do Jorge: "Depois do Divórcio" e "Marianna Sirca"


“As lágrimas toldavam-lhe os olhos: e quem sabe se ela não se comovia mais com a recordação do passado do que com a ideia do futuro eterno?” 
(In “Depois do Divórcio”, p. 138)

“(…)Antes viver na certeza da dor do que na humilhação da incerteza e da esperança vã.” 
(In “Marianna Sirca”, p. 169)

A Sibila Publicações é uma das mais recentes editoras que surgem em 2018 no panorama editorial português, apresentando um catálogo que aposta, atendendo aos títulos já disponíveis nas livrarias, em temas da actualidade, mas com um grande enfoque no papel da mulher na luta pela igualdade de direitos, no contexto do longo caminho que tem sido a emancipação.

Entre os vários títulos publicados, o presente texto abordará as duas obras da italiana, Grazia Deledda (1871-1936), tendo sido a segunda mulher a ser galardoada com o Nobel de Literatura, em 1926, a seguir à sueca Selma Lagerlöf, em 1909.

Grazia Deledda, natural da Sardenha, é ainda uma escritora pouco conhecida dos leitores portugueses e, no entanto, com um contributo enormíssimo, tanto no que concerne ao papel da mulher na sociedade contemporânea, ainda que, no caso específico destas duas obras, se reportem a um microcosmos social com reminiscências ancestrais que aludem a ecos da sociedade homérica, paternalista, filtrada pelo Cristianismo e que avança timidamente rumo à modernidade. A própria insularidade funciona como guardiã desses valores e cultura ancestrais que se reflectem também nos usos e costumes linguísticos, sem dúvida uma das marcas e contributos de Grazia Deledda.
 

“Depois do Divórcio” (1902) e “Marianna Sirca” (1915) podem, em conjunto, apresentar-se como duas faces da mesma moeda, assim como, as personagens principais, Giovanna Ledda e Marianna Sirca, poderiam ser uma e a mesma pessoa, quer pelos valores por que se debatem, pela sua força e energia que transmitem, assim como pela sua atitude perante a ideia grega de destino ao qual ninguém escapará e que a consecução dos actos se traduz na concretização desse mesmo destino.

Nas duas obras, a ideia de destino surge ligada à ideia de amor, à necessidade de que o destino só se concretiza quando existe a possibilidade de consumar o amor.

Do mesmo modo que as duas personagens femininas podem ser apresentadas como uma e a mesma pessoa, também, no caso dos dois amados, Costantino Ledda (marido) em “Depois do Divórcio” e Simone Sole (pretendente) em “Marianna Sirca” surgem em contexto análogo, o primeiro, encarcerado, vítima da acusação injusta sobre a morte de alguém, o segundo, vivendo a monte, como um bandido, acusado igualmente de crimes que não cometeu. Costantino Ledda vê-se privado da sua liberdade; Simone Sole, vive a sua liberdade, mas apartado do tecido social que o persegue.

O amor constitui o laço indiscutível de união e ligação entre estes dois casais que se vêem privados desta partilha, contudo, em “Depois do Divórcio” e “Marianna Sirca”, as duas mulheres sentem-se completamente sozinhas, abandonadas e até asfixiadas face à pressão das famílias e amigos no que respeita à ideia de, no primeiro caso, o casamento ser dissolvido por via do divórcio e, neste caso em particular, trata-se da primeira obra literária em que declaradamente este assunto é abordado, e no segundo caso, a pressão que existe para o fim da relação de modo que não chegue a ser consumada pela via do casamento.

Aparentemente, o leitor poderá ser levado a pensar que tanto Costantino Ledda como Simone Sole são apresentados como homens fracos e que vivem como sombra destas duas mulheres. A questão é que, em ambas as obras, estes dois casais são apresentados como fortemente apaixonados, casais ideais, cuja ligação aconteceu livremente, de forma espontânea, por via do amor. É o amor que está na base de ambos os romances de Grazia Ledda sendo, pois, a fonte viva não só de ambas as relações, mas também a garantia de concretização e consumação do próprio destino, termine ele com um happy end ou de forma trágica. A questão é que em ambos os romances o amor, a chama do amor é vivido e levado às últimas consequências quando todos os personagens à volta destas duas mulheres se apresentam, na verdade, como fortes oponentes e nunca como adjuvantes, o que reforça a ideia clássica de destino que está acima de qualquer ordem divina, mas sempre aliado a uma forte experiência sacrificial.

Em ambas as obras, Giovanna Era e Marianna Sirca são apresentadas, em certa medida, como a Penélope que durante, anos a fio, faz e desfaz o sudário, iludindo os seus pretendentes.

“Depois do Divórcio” e “Marianna Ledda” apresentam-se desta forma aos leitores portugueses dando assim a conhecer uma escritora italiana que é herdeira de uma riquíssima cultura por via dos povos que durante séculos ocuparam a Sardenha, traduzindo-se através do recurso a uma linguagem que também tem ecos de um passado longínquo e que, progressivamente, se tenta impor na contemporaneidade, trazendo valores ancestrais, mas também as lutas e os desafios da sociedade face à emancipação feminina, mas também ao tema da justiça no geral.

Excertos:
"— Uma profunda corrupção rói quase todos os condenados, muitos dos quais são verdadeiros criminosos cheios de vícios. Até o ar é pestilento. O homem que é tirado da sociedade, privado de liberdade, no local do cumprimento da pena enlouquece completamente, perde todo o senso moral, torna-se mentiroso, vil, feroz, corrupto até à inconsciência da corrupção." (In “Depois do Divórcio”, p. 72)

"Uma vez um caçador encontrou lá um veado com chifres de ouro. Disparou e matou-o. Ao morrer, o veado lançou um grito humano e disse: «A penitência acabou.» Julga-se que no corpo dele havia uma alma humana que se encontrava a expiar os seus pecados. Foi então erguida uma cruz." (In “Depois do Divórcio”, p. 112)

“- Marianna, Marianna! Tu falas como uma criança!
- E sou velha, pelo contrário, é o que tu queres dizer! Sim, sei-o bem; é este o meu mal.
- O teu mal tem-lo aqui – disse a criada tocando na testa com um dedo. – E depois tu estás demasiado ociosa. É preciso sermos pobres e sermos forçados ao trabalho para moer bem os dias da vida.
- E tu moeste-los bem? De que maneira? Como o jerico em volta da mó; por conta de outrem. Deixa-me moer os meus por minha conta. Ora bem, é assim que eu gosto – repetiu alto, endireitando-se e batendo com as mãos nos joelhos. – Quero conhecer a desgraça, sim! Sei tudo, não tenho os olhos vendados. Prevejo a ira dos parentes, os mexericos de todo o povo; mas isto não é nada. Ele será talvez condenado: é esta a minha mágoa. E é este o pão amargo que eu ambiciono: contanto que fiquem salvas a minha alma e a sua para a eternidade.” (In “Marianna Sirca”, pp. 109-110)

Texto da autoria de Jorge Navarro

segunda-feira, 25 de junho de 2018

"Tenho de Saber" de Karen Cleveland

Recebi este livro da editora Planeta sem estar à espera e, quando li a sinopse e vi que se tratava de um livro com espiões "à mistura", torci um pouco o nariz porque não sou grande apreciadora deste género literário. Falando bem depressinha, pensei que fosse uma leitura aborrecida... Mas não podia estar mais enganada! 

Posso afirmar que fiquei presa à sua trama logo nas primeiras linhas. Vivian e Matt estão casados há 10 anos e têm 4 filhos. Estão felizes juntos. Viv trabalha para o FBI, investiga "células adormecidas", espiões russos que estão infiltrados por toda a América. Em casa fala muito pouco do seu trabalho. Não o pode fazer: é segredo. Um dia, pesquisando num ficheiro onde conseguiu entrar, decobre a foto de alguém que lhe é muito querido e que é, supostamente, um espião russo infiltrado. 

Todo o livro gira à volta do seu drama, das suas dúvidas sobre se deve ou não comunicar aos seus superiores o que descobriu e sobre as suas desconfianças. O leitor, acompanhando os pensamentos de Vivian (neste caso, euzinha!), tomba para um lado e, no momento seguinte, a sua opinião dá uma volta de 180 graus e passa a ser diametralmente oposta. Gostei deste acreditar/desconfiar contínuo que se prolonga durante todas as páginas deste livro e que faz com que o leitor não saiba em que acreditar... Se não me engano, vai ser isso que vos vai acontecer e irão chegar ao final do livro bastante confusos.

E o final é bastante surpreendente! Espectacular, mesmo! Quase me fez acreditar que preferia rasgar a última folha para, assim, poder sossegar! Mas não o podia fazer mesmo! É essa folha que nos deixa inquietos e que faz valer em dobro esta história!

Muito bom! Recomendo!

Terminado em 20 de Junho de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
Ao perseguir uma célula de agentes russos adormecidos em território americano, uma analista da CIA descobre um terrível segredo. Vivian Miller é uma dedicada analista de contra-espionagem que tem por missão descobrir os chefes das células de agentes adormecidos a operar nos Estados Unidos.

Ao aceder ao computador de um possível operacional russo, Vivian tropeça num ficheiro secreto sobre agentes infiltrados em território americano. Depois de mais alguns cliques, tudo aquilo que para ela é importante - o trabalho, o marido e até os quatro filhos - se encontra ameaçado.

Karen Cleveland, a autora do fenómeno editorial do momento, trabalhou para a CIA como analista durante oito anos, os últimos seis ligados ao contraterrorismo.

Cris

sábado, 23 de junho de 2018

Na minha caixa de correio

  

 

Ofertados pelas editoras parceiras:
- 999+1 Piadas Secas, Manuscrito
- Chama-me Pelo Reu Nome, Clube do Autor,
- Os Crimes Inocentes, Planeta,
- Três Filhas de Eva, Quetzal
- Confia, Matéria Prima

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A Escolha do Jorge: "Fuga Sem Fim"



“Fuga Sem Fim”
Joseph Roth
(Sistema Solar)

“Neste mundo, a pobreza constituía desumanidade, fraqueza, loucura, cobardia e vício” (p. 132)
Uma das alegrias em 2018 é o facto de as obras de Joseph Roth (1894-1939) se encontrarem nas apostas de algumas editoras, tais como “Confissão de um Assassino” (Cavalo de Ferro, em Janeiro), “A Marcha de Radetzky” (Nova Vega, em Abril) e “Fuga Sem Fim” (Sistema Solar, em Maio), obra relativamente à qual tentaremos registar algumas ideias.
Natural da Galícia Oriental, Joseph Roth contou com uma vida curta e sempre a debater-se com as questões relacionadas com o desenraizamento, bem como a influência da cultura judaica na Europa Central e de Leste e também a própria identidade europeia.
O autor ficou conhecido pelos seus contos, novelas, romances e ensaios e em nenhum dos registos se pode dizer que se tratasse de um autor menor, bem pelo contrário. Mergulhar na escrita de Joseph Roth é vivermos o que de melhor a literatura produziu no século XX, não esquecendo o reviver ou o reacender a importância de uma cultura que constituiu parte da identidade europeia.
Herdeiro da tradição e cultura judaicas, as obras de Joseph Roth decorrem num perpétuo limbo entre a realidade e a fantasia, tendo uma forte orientação ético-moral nas suas histórias. Poderíamos até afirmar que algumas das narrativas do autor reflectem em certa medida um carácter profético, não só no rumo que a Europa tomou após a 1ª Grande Guerra (1914-1918), mas também a sua própria vida. Em última instância, algumas das interrogações que colocamos actualmente em matéria de políticas que são levadas a cabo, encontram-se de forma bem visível e até marcante nesta “Fuga Sem Fim”.
Franz Tunda é a figura central de “Fuga Sem Fim”, apresentando-se como um personagem camaleónico atendendo à sua capacidade de sobrevivência numa Europa assolada pela guerra. Primeiro-tenente do exército austríaco, Franz Tunda é feito prisioneiro pelos Russos, em 1916, conseguindo fugir, em 1919, com a ajuda de um polaco, forjando a sua identidade com o nome de Baranowicz.
A partir de então, Franz Tunda, com a ajuda do polaco, consegue infiltrar-se na Rússia que, à data de debatia com a guerra civil, sangrenta, que opunha burgueses (brancos) a bolcheviques (vermelhos), numa época em que a revolução recebia as orientações e o comando de Lenine.
Franz Tunda envolve-se com a facção bolchevique e vê-se a defender uma ideologia como nunca o fizera em Viena antes da guerra. Debate-se pelo proletariado miserável que é continuamente esmagado pelos burgueses. Tunda envolve-se com Natacha, uma mulher que vive a revolução e a guerra civil de uma forma que transpõe os princípios para a relação. “Como Tunda não lhe interessava como marido, era escusado desprezá-lo. Não era outra coisa se não um camarada com igualdade de direitos.” (p. 42) A par desta relação atípica, Tunda deslocou-se para Baku, no Azerbaijão, a fim de exercer funções num instituto científico.
Apesar de os seus discursos serem inflamados e ser detentor de uma capacidade persuasiva, Tunda “possuía mais energia vital do que a revolução necessitava na altura.” (p. 67), talvez, em função disso, tenha acabado por abandonar a Rússia. “No fundo, era um europeu, um «individualista», como dizem as pessoas cultas. Ele necessitava de relações complexas para viver a vida. Ele precisava de uma atmosfera de mentiras intrincadas, de ideais falsos, de saúde aparente, de mofo duradouro, de fantasmas pintados de vermelho, da atmosfera dos cemitérios, que aparentam salões de baile, ou fábricas, ou castelos, ou escolas, ou salões. Ele necessitava da proximidade dos arranha-céus, cujo desmoronamento se adivinha e cuja estabilidade está garantida para durar séculos. Ele era um «homem moderno».” (p. 67)
Tunda regressa à Europa, passando por Viena, Berlim e Paris, numa época de crescimento económico, no pós-guerra, e com uma sociedade que procura viver intensamente o tempo perdido, aproveitando as novas tendências, fomentando, uma vez mais, a sociedade de consumo. É neste intermezzo que Tunda se apercebe do oco que lhe pareceu a ideologia por que se debateu, anteriormente, na Rússia, durante um ano e meio. “Há uns dias, conheci uma mulher. É uma escritora e comunista. Casou-se com um comunista romeno, igualmente um escritor, que me dá a impressão de ser um indivíduo sem talento e estúpido, mas que é suficientemente esperto para esconder a sua estupidez na ideologia comunista e justificar a sua preguiça com a política. Este casal vive de subsídios de um tio capitalista, um banqueiro, e de artigos que escreve para jornais radicais. A mulher usa sapatos de salto baixo e escarnece da sociedade que a alimenta.” (p. 105)
O outro ponto com que Tunda se debate é o facto de não ter trabalho e como tal, tem fracos rendimentos, mas a questão tem mais que ver com a forma com que a sociedade se passou a organizar que nem sempre o dinheiro advém do fruto do trabalho e, então, poderia ser um parasita da sociedade porque poderia auferir uma boa maquia sem ter necessidade de trabalhar em vez de passar a ser encarado como um fantasma da sociedade. A passagem a este respeito é lapidar, mantendo-se actual, à luz da sociedade que evoluiu até aos nossos dias, passado quase um século após a edição do livro. “Além disso, já é altura de eu ganhar alguma coisa. Nesta ordem mundial, não é importante que eu trabalhe, mas é tanto mais necessário que eu ganhe dinheiro. Um homem sem rendimento é como se fosse um homem sem nome ou uma sombra sem corpo. É como se fosse um fantasma. Não é nenhuma contradição ao que eu disse anteriormente. Não tenho nenhum sentimento de culpa da minha inactividade, mas sim do facto de a minha inactividade não me dar dinheiro, enquanto que a inactividade de todos os outros é bem paga. O dinheiro em si concede o direito de existir.” (p. 106)
Mas o absurdo dos absurdos, é quando Tunda se apercebe, em Paris, no seu regresso da Rússia, que ao contrário da ditadura do proletariado que gradualmente se impunha naquela região do mundo, naquela que é a capital do mundo civilizado, assiste-se precisamente ao contrário, perseguem-se os trabalhadores, apercebendo-se que a riqueza se encontra, afinal de contas, mal repartida. “Tunda ainda não conhecia a Europa. Durante um ano e meio lutou por uma grande revolução. Mas só aqui é que se lhe tornou claro que não se faziam revoluções contra uma «bourgeoisie», mas sim contra padeiros, empregados de mesa, contra pequenos comerciantes de hortaliça, minúsculos talhantes e empregados de hotel sem poder.
Nunca temera a pobreza, pois mal a sentira na pele. Mas na capital do mundo europeu, donde emanam os pensamentos da liberdade e os seus cânticos, viu que não se consegue nem sequer uma côdea do pão de borla. Os mendigos têm os seus benfeitores muito bem determinados e de cada coração caridoso a cuja porta batemos vem a resposta que é: Está já ocupado!” (p. 130)
Mas Joseph Roth vai mais longe no que concerne à sua visão ou antevisão daquilo que se tornou a Europa, muito depois da 2ª Guerra Mundial, até aos nossos dias. As ideias existem, muitas até, mas o que é afinal a “cultura europeia” e a “comunidade europeia”? Quais são os valores que subjazem à construção da Europa que, atendendo a “Fuga Sem Fim” se reportaria ao 1º após-guerra? Mas podemos colocar estas mesmas questões depois da experiência da constituição da CEE/UE, no 2º após-guerra? Joseph Roth responde através de Franz Tunda, com as seguintes palavras: “Os senhores querem (…) manter uma comunidade europeia, mas para isso têm primeiro de criá-la. Pois, essa comunidade não existe, caso contrário, ela saberia por si só como manter-se. Parece-me duvidoso que seja possível criar-se o que quer que seja.” (p. 125)
Em jeito de conclusão, Franz Tunda conheceu de perto as duas realidades que se opõem entre si, tendo ficado o mundo dividido política e economicamente durante décadas. Franz Tunda acabou por não se identificar com nenhuma das ideologias. “Não havia ninguém no mundo inteiro que fosse tão supérfluo como ele.” (p. 151)
Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 19 de junho de 2018

A Convidada Escolhe: As Vinhas de La Templanza

Não são muitas as vezes que fico sem palavras com um livro. Um livro que supera todas as minhas mais auspiciosas expectativas numa semana de férias planeada para algumas leituras e dou por mim enredada apenas numa. E completamente envolvida. Rendida a uma personagem que me arrebatou. Um mineiro duro, audaz e temerário. Um aventureiro que procura noutras latitudes recuperar a sua fortuna. "Para o Oriente, as Antípodas, a Terra do Fogo, os mares do Sul." (pag. 483) México, Cuba e Espanha. Locais dispares que deixaram de existir e que foram reconstituidos com precisão e encanto. Uma piscadela de olho ao passado num jogo crucial (de bilhar) de mentiras e verdades, de paixões, derrotas, maquinações e amores frustados, em que intervêm duas mulheres prodigiosas e rivais. Corajosas, arrogantes e descaradas, assim são Carola e Soledad. As personagens ganham vida neste grande romance que lembra os grandes clássicos de outros tempos num tributo aos mineiros e adegueiros.

Muito mais poderia acrescentar sobre os cenários com atmosferas e ambientes que segui ávida ou sobre a movimentada e vigorosa trama que na magistral prosa fluí com graça e sensibilidade, sem quebras, até que no final deixa um vazio na alma. Um romance que me deixa a clamar por mais romances assim, pelo que tenho de procurar ler "O Tempo Entre Costuras".

Posto isto, não deixem de ler!

Vera Sopa

segunda-feira, 18 de junho de 2018

"A Carruagem Dos Orfãos" de Pam Jenoff

Há livros que nos preenchem. A capa, o título e a sinopse deste livro fizeram-me ter a certeza que o leria em breve e com muito gosto, tendo quase a certeza que me encheria o coração, pese embora tenha sentido que o tema não seria fácil. Esta história, mesmo sendo ficcionada, acrescentou algo aos relatos que li anteriormente acerca do Holocausto, o que me muito me apraz sempre. No final da leitura, saber qual ou quais factos inspiraram a autora e os que aconteceram na realidade, constituiu uma surpresa que não quero revelar nem fazer-vos perder, ao contá-la aqui. Foi um factor que me deu a sensação de saciedade ao terminar o livro, o saber que aspectos desta história ficcionada foram, de facto, verdade.

A história aconpanha uma "família" circence na sua luta por caminhar entre a Segunda Guerra, sobreviver e continuar com os espectáculos. Pode parecer que, no meio do caos em que se vivia, o circo não tinha o seu lugar, mas não foi bem assim. O circo servia para distrair, para acreditar que um dia a vida ainda poderia ser possível e também... para esconder pessoas, neste caso judeus.

Um livro que recomendo sem reservas, que me comoveu e preencheu algumas horas com uma leitura absorvente e (não fosse o tema tão pesado) feliz!

Terminado em 13 de Junho de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
A Carruagem dos Órfãos é um romance poderoso sobre a amizade, tendo como pano de fundo um circo durante a Segunda Guerra Mundial.

Duas mulheres extraordinárias e as suas histórias angustiantes, de sacrifício e sobrevivência.

Noa, de 16 anos, fica grávida de um soldado do exército nazi e é forçada a desistir do seu bebé recém-nascido. Vive no piso superior de uma pequena estação ferroviária, a troco de limpezas... Quando descobre dezenas de crianças judias amontoadas num vagão cujo destino é um campo de concentração, ela não consegue deixar de pensar no filho que lhe foi retirado.

E, num momento que mudará a sua vida para sempre, agarra numa das crianças e foge com ela pela noite fora sob um forte nevão.

Acaba por encontrar refúgio num circo alemão, onde tem de aprender números de trapézio para poder passar despercebida, não obstante o azedume de Astrid, a trapezista principal. A princípio rivais, Noa e Astrid em breve criam poderosos laços de afecto entre si. Mas como a fachada que as protege se torna cada vez mais ténue, elas têm de decidir se a amizade entre ambas é suficiente para se salvarem uma à outra - ou se os segredos que guardam deitarão tudo por terra.


Para saber mais sobre este livro, aceda ao site da Editorial Presença aqui.

Cris