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quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Escolha do Jorge: "Quatro Amigos"

"Quatro Amigos" é o terceiro romance do madrileno David Trueba a ser publicado em Portugal através da Alfaguara/Objectiva.
Para quem já conhece as obras anteriores do escritor, certamente irá encontrar alguns dos ingredientes que são já território seguro de David Trueba, como por exemplo a ironia, a crítica, a boa disposição, o sentido de humor sem cair naquele tipo de romances mais leves que nos fazem somente passar algum tempo bem-dispostos. Se por um lado o leitor é levado a esboçar sorrisos ou até mesmo rir com vontade perante as cenas criadas, o leitor é também levado a refletir sobre diversos temas que certamente também lhe dirão respeito sendo, pois, conduzido a fazer algum balanço sobre este ou aquele ponto específico da sua vida.
Se em "Aberto Toda a Noite" o tema central é a família, no novo romance "Quatro Amigos" publicado recentemente, a tónica assenta na amizade e no amor.
David Trueba faz jus ao título da obra na medida em que reúne quatro amigos, agora adultos, que estando já na casa dos trinta anos decidem passar as férias juntos como nos bons velhos tempos de adolescentes tentando, de alguma forma, contrariar a ideia de que em adultos dificilmente conseguem sair do seio das suas famílias e dos seus compromissos para passar alguns dias com os amigos da velha guarda fugindo assim das responsabilidades do dia-a-dia acrescidas com o peso da idade.
É precisamente neste ponto que estes quatro amigos tão diferentes entre si, com mais ou menos reflexão, tentam travar o avanço da idade e dos compromissos inerentes à própria vida, vida esta que de certo modo, já nos trinta anos, pretendem viver em plenitude refletindo de alguma forma a ideia de uma juventude tardia tão característica na forma de pensar do jovens atualmente. "Invejo-vos porque agora a juventude dura muito mais do que antes. (…) Na vossa idade já não éramos jovens. Agora prolonga-se, vivem num perpétuo estado de infantilismo. Foram libertados de responsabilidades." (p. 213)
Este tipo de pensamento ou simplesmente esta forma de estar ou atitude perante a vida gera/condiciona relações afetivas fortemente debilitadas tendendo a centrar-se tendencialmente em cada uma das partes da relação e não nas duas partes vistas como um todo.
É precisamente esta a segunda ideia forte do livro na medida em que estes jovens não conseguem assumir uma relação dado que a encaram como um fardo na sequência das regras impostas pela sociedade, ou seja, se por um lado há a evidência de sentimentos em torno de outra pessoa, por outro são esses mesmos sentimentos, geradores de algo maior que é o amor que vai acabar por condicionar a relação das partes envolvidas. Assim, a ideia de "casal" gera pruridos na cabeça de Solo, o narrador da obra, que tenta ao máximo dissecar a ideia acabando mesmo com a relação em si mesma. Se por um lado se sente bem com o fim da "prisão" como várias vezes refere ao longo da obra relativamente ao fim da relação que mantinha, por outro lado reconhece que entre ter e não ter alguém para amar e ser amado é sempre preferível optar pela primeira na medida em que a "liberdade" novamente recebida também não lhe traz propriamente uma satisfação e felicidade plenas.
Com estes "Quatro Amigos", David Trueba não nos apresenta soluções para a obtenção da felicidade, no entanto, chama-nos a atenção de que por vezes desperdiçamos energia e oportunidades que nalgumas situações contribuiriam certamente para a nossa felicidade.

Excertos:
"Soa a enciclopédia em fascículos, a livro de auto-realização. Define bem a minúscula organização legal, mas não a reunião do amor. Na minha época de pedante petulante costumava convencer Bárbara de que nunca seríamos um casal, seríamos um mais um que se desejam, que querem estar juntos. Nunca um casal e, no entanto, naquele bar estava sentado um casal típico.
(…)
- Continuo convencido de que tu e eu formamos um casal perfeito. Continuo a acreditar que nascemos um para o outro, mas creio que o erro foi que nos encontrámos demasiado cedo… Sei que um dia voltaremos a estar juntos, mas hoje não pode ser, seria uma fraqueza, não podemos enganar-nos.
Somos o casal perfeito, portanto rompamos." (p. 276)

"E de tanto evitar ser um casal acabámos por não ser nada. Bárbara e eu. Bárbara e eu percorremos para trás o nosso amor em dois meses, passámos de casal a dois seres independentes, depois a dois amantes furtivos, a seguir a dois amigos cúmplices, para voltarmos a transformar-nos em dois estranhos. Foi uma história que acabou com o regresso à origem, sem rompimentos bruscos, sem cenas, sem acidentes." (p. 278)

"O que é o amor? É a eterna pergunta. No princípio da Humanidade as pessoas f***am umas com as outras, sem distinções, li isto. Todos com todos. Mas um dia, alguém decidiu guardar o seu par, não o partilhar. «É minha», disse. – Respirei fundo, sem me atrever a olhar em volta. – Aí lixou-se tudo! Isso é o amor. E o amor trouxe o pior: o casamento." (p. 282)
Texto da autoria de Jorge Navarro

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