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terça-feira, 7 de junho de 2016

A Convidada Escolhe: Aparição

Mais um livro que já li há muitos anos, mas que tive curiosidade de reler motivada pelo facto de este ano se estar a comemorar os cem anos do nascimento deste autor português. Achei também curioso o facto de o exemplar que tenho estar cheio de anotações à margem onde reconheci a letra do meu filho e que depois percebi ser uma obra que faz parte do programa de Língua Portuguesa no secundário. Certamente um livro difícil para ele e para muitos dos jovens estudantes face ao tipo de escrita de Vergílio Ferreira, em que o importante não é a história, mas sim uma atitude e escrita carregadas de reflexões e questionamentos.
"Aparição" decorre em Évora, onde o jovem Alberto Soares acabado de terminar a sua formação universitária em Coimbra é colocado a dar aulas na cidade alentejana. Marcado pelo choque da morte recente e repentina do pai, Alberto chega a Évora, descrita como "cidade absurda e reaccionária empanturrada de ignorância e de soberba". E a sua experiência de um ano a viver em Évora, quer no contacto com o dono da primeira pensão onde vai viver, até ao contacto com a família do doutor Moura e de um amigo mais chegado, mostram bem como é difícil entrar e ser aceite, sobretudo quando se quer mudar alguma coisa.
O doutor Moura, ex-colega e amigo do pai, abre-lhe a porta ao convívio com a sua família, sobretudo as três filhas – Ana, Sofia e Cristina – e Alfredo o marido da mais velha. Alberto Soares é um jovem solitário – os irmãos chamavam-lhe "o monge" – em constante questionamento existencial sobre o "eu", totalmente descrente e avesso a qualquer apego à Igreja e aos seus rituais, acaba por ser um elemento estranho dificilmente aceite mesmo por aqueles com quem vai conviver. Amargurado com a morte do pai, mais tarde o suicídio de Bailote, o trabalhador que deixara de "ter mão" para semear, levam-no a ter a ideia da necessidade de pôr as pessoas a pensar fora dos canônes e das ideias feitas, levá-las a "ver", pensando poder ter apoios, quando o que consegue é ser incompreendido e encarado como esquisito.
Também na sua experiência como professor nem tudo é fácil. Experimenta metodologias e abre novas perspectivas aos seus alunos e entusiasma-se sempre que consegue fazer coisas fora da rigidez que a escola impõe, mas também se aborrece quando não consegue entusiasmar os seus alunos que encaram as aulas com enfado. "Os alunos abriam os olhos, fascinados, e eu sentia que eles transpunham o limiar da aparição. Mas havia os recreios e as cadernetas e as notas, o mundo sólido e imediato. Como o havia para mim. Já disse como este mundo é insidioso". O professor e, sobretudo se vem de fora, é muitas vezes encarado como um ente estranho que vem perturbar o status quo. "Esta cidade. É preciso ter cuidado… Essas redacções são curiosas, mas dê outras. As histórias de esmolas são sempre bonitas. E ficam contentes os ricos e os pobres…" aconselha-o o reitor.
O Alentejo, a cidade de Évora, calcorreada por dentro ou vista de fora, as searas que ondulam ao vento, os campos que se estendem para fora da cidade são imagens presentes ao longo do livro e que se transfiguram consoante as diferentes estações do ano, com grande destaque para o Inverno rigoroso e longo e para o Verão ardente e inclemente. A palavra "aparição" que foi o título escolhido para esta obra surge inúmeras vezes e em diferentes contextos e creio que surge pela primeira vez quando Alberto Soares chega à cidade de Évora, mas tem sempre uma conotação de descoberta, de encontro com uma coisa nova.
Há desde o início do livro um tom de melancolia do narrador que é também a personagem principal e sente-se o presságio de tragédia que virá a acontecer com as mortes abruptas que ocorrem naquele ano em que o jovem professor passa por Évora, antes de ser colocado em Faro no ano seguinte. "Aparição" foi escrito em 1959 quando Vergílio Ferreira já deixara de ser professor em Évora, mas os críticos referem que Alberto Soares é um alter-ego de Vergílio Ferreira que neste romance não apenas reflecte sobre algumas das suas preocupações e reflexões existenciais, mas também a sua experiência pessoal enquanto professor onde leccionou em várias cidades, entre as quais Évora e Faro, para além de Lisboa.

Almerinda Bento

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