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quinta-feira, 29 de maio de 2014

A Escolha do Jorge: "Holocausto Brasileiro"

“Holocausto Brasileiro” da jornalista brasileira Daniela Arbex foi um dos livros que já aqui teve lugar de destaque através da Cristina Delgado, promotora do presente blog “O Tempo entre os meus Livros”, tratando-se efetivamente de um livro marcante para quem o lê, constituindo uma forma de trazer à tona muitos episódios que se passaram no hospício de Colônia, em Barbacena (Minas Gerais), no Brasil ao longo do século XX.


Criado em 1903 com a finalidade de acolher doentes do foro psiquiátrico, o hospício de Colônia acabou por receber à força pessoas que na verdade não apresentavam qualquer diagnóstico de perturbação. De acordo com os dados da instituição estatal, 70% das pessoas que foram internadas eram alcoólicos, homossexuais, prostitutas, jovens que foram engravidadas e abandonadas pelos patrões, mulheres abandonadas pelos maridos, indivíduos que de alguma forma se opunham ao governo, em suma, pessoas que de uma forma ou de outra eram consideradas pessoas indesejadas pela sociedade ou por uma minoria que tentava impor a todo o custo uma dada linha de pensamento sobretudo sobre aqueles mais fracos e desprotegidos.

O hospício que foi criado com uma capacidade de 200 pessoas, rapidamente chegou a ultrapassar os limites do insuportável atingindo mesmo os 5000 internados.

Tudo o que de alguma forma ouvimos falar sobre o que se passou nos campos de concentração nazis durante a 2ª Guerra Mundial, em Colônia, essas práticas associadas às más condições de higiene, alimentação e comodidade foram perpetrados com bastante rigor, intensidade e de modo propositado com uma única finalidade, o extermínio destas pessoas.

Foram mais de 60000 as pessoas que passaram no hospício de Colônia e que acabaram por morrer, muitas delas na sequência das más condições acima indicadas a que estavam sujeitas e outras foram mesmo assassinadas como se fosse a coisa mais natural do mundo e sem que se viesse a ter conhecimento do paradeiro dos corpos. Ao longo de várias décadas, muitos dos corpos foram facultados às faculdades de medicina com o objetivo de serem utilizados nas aulas de anatomia e com a conivência tanto das autoridades policiais, como das universidades sem que se questionasse quaisquer atos de natureza criminosa que estivessem por trás dos corpos em questão.

Neste sentido, a expressão “holocausto” tão comummente associada aos judeus durante a 2ª Guerra Mundial é também, neste contexto, aplicada do mesmo modo atendendo ao modo como tudo se processava em Colôniatendo sempre em mente um mesmo objetivo: o extermínio destas pessoas que 
acabaram mesmo por morrer.

Daniela Arbex baseou-se no relato e experiências dos quase 200 sobreviventes do hospício sendo acompanhadas por inúmeras fotografias ao longo da obra, muitas delas chocantes mesmo para olhos menos preparados e estômagos mais sensíveis.

Escrito num estilo iminentemente jornalístico com tendência para causar algum furor junto dos leitores, a autora não deixa de salientar os aspetos mais importantes daquilo que verdadeiramente se passava dentro dos muros do hospício, do mesmo modo que o leitor atento também terá a capacidade de pôr de lado toda a informação que se apresente tendencialmente no registo do espetáculo exacerbando de algum modo as questões de caráter mais sentimental.

Sem prejuízo da metodologia utilizada, Daniela Arbex faz diversas vezes um apelo à História no intuito de que não podemos de maneira nenhuma esquecer ou simplesmente apagar este tipo de episódios que tiveram lugar no país porque são parte integrante da História do mesmo, demonstrando, deste modo, a forma como os sucessivos governos, a medicina e a sociedade em geral encaravam/encaram os doentes com perturbações mentais (e não só) não esquecendo que as leis promulgadas são o reflexo da mentalidade de uma dada sociedade num dado momento da sua História, não esquecendo que essas mesmas leis espelham em certa medida os preconceitos que a sociedade em geral manifesta sobre certos temas, controversos ou não.

Excertos:

“(…) A inteligência é uma arma muito poderosa. Com ela, você pode salvar o mundo ou destruir pessoas (…).” (p. 152)
“O que acontece no Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu, comer bosta, mas é proibido o protesto qualquer que seja a sua forma.” (p. 200)
“Como a sociedade permite que as famílias e a medicina despejem pessoas neste depósito de lixo humano? (…) O cheiro deste lugar é indescritível. É o cheiro de suor, de fezes, de sofrimento, de gente amontoada, de falta de higiene.” (p. 216)
O fato é que a história do Colônia é a nossa história. Ela representa a vergonha da omissão coletiva que faz mais e mais vítimas no Brasil. Os campos de concentração vão além de Barbacena. Estão de volta nos hospitais públicos lotados que continuam a funcionar precariamente em muitas outras cidades brasileiras. Multiplicam-se nas prisões, nos centros de socioeducação para adolescentes em conflito com a lei, nas comunidades à mercê do tráfico. O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final.” (p. 255)

Texto da autoria de Jorge Navarro



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