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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"O Arquiteto de Paris" de Charles Belfoure

De leitura muito rápida, sobretudo pela história e enredos bem contados, este livro depressa caminhou pelos meus dedos e era com prazer que via as suas folhas correrem pelas minhas mãos.

O tema, o meu preferido, foi introduzido com suavidade. Quero com isto dizer que não somos confrontados directamente com os horrores passados pelos judeus na Segunda Guerra. O personagem principal, Lucien, não é de raça judia nem tão pouco seu defensor. Criado numa família que vivia tiranizada pelo pai, "aprendeu" que os judeus ou eram ladrões ou burlistas pelo que a sua simpatia não era direccionada para o sofrimento deste povo, sofrimento que se ouvia vagamente falar: os judeus iam para alguns campos de trabalho e, sim, quem se recusasse a ir ou os ajudasse a fugir era punido com a morte.

O local, Paris, em plena invasão alemã. 1942, portanto. Tempo de escassez, de senhas de racionamento, de recolher obrigatório e de, para alguém com a profissão de arquitecto, um tempo onde os projectos profissionais escasseavam.

Contactado por alguém que pretende encomendar um esconderijo para um judeu em fuga, dentro de uma casa, o pagamento de uma grande importãncia e a promessa de uma outra obra de alta visibilidade, Lucien fica dividido entre o dinheiro a receber e o risco de morte por ajudar um judeu, caso descoberta a patranha (leia-se, o esconderijo).

Estão lançados os dados para uma história com um suspense muito sui generis, que nos deixa preso à escrita fluente do autor e a pormenores deliciosos, onde a imaginação deste arquitecto vai de encontro com a profissão do autor, também arquitecto por sinal.

A intensidade da narrativa encaminha-se a passos largos para um final feliz mas, sinceramente, teria preferido algo diferente, talvez um final que nos deixasse a refletir sobre essa guerra. Isso seria possível se tivesse ficado mais em aberto, talvez. No entanto, com isso não quero dizer que não gostei desta leitura. Antes pelo contrário. Ficamos todo o livro à espera que o inesperado aconteça, sempre com uma ligeira angústia que só termina nas últimas páginas.
Para quem gostar do tema e de sentir um friozinho no estômago, aconselho.

Terminado em 5 de Novembro de 2015

Estrelas: 5*

Sinopse



1942, Paris está ocupada pelas tropas alemãs. Lucien Bernard é um talentoso arquiteto, sem trabalho devido à guerra. Acaba de receber uma proposta que lhe pode proporcionar uma avultada quantia em dinheiro ou talvez levá-lo à morte. Tudo o que tem a fazer é projetar um esconderijo secreto para um judeu abastado. Um espaço tão invisível que nem o mais astuto oficial alemão seja capaz de descobrir. Lucien necessita urgentemente de dinheiro, e tentar enganar os Nazis que ocupam a sua cidade é um desafio a que ele se sente incapaz de resistir. Mas apercebe-se do perigo que isso representa. Valerá a pena arriscar a vida em troca de dinheiro para salvar alguém que ele afinal nem conhece? Uma narrativa cheia de ironia, intriga e emoção.

domingo, 8 de novembro de 2015

Ao Domingo com... André Sousa

Comecei o meu percurso literário em 2010 com o lançamento do meu blogue "Pedacinhos de Mim para Ti", que hoje conta com cerca de 300 mil visitas (http://pedacinhosdemimparati.blogspot.pt/). Inicialmente, escrevia pequenas prosas, no entanto depois apaixonei-me pela poesia e foi com ela que realmente quis lançar-me no mercado.
Em 2014, decidi criar a minha página oficial no Facebook e sinto que foi a partir daí que tudo começou - estou prestes a atingir os 15 mil fãs (http://www.facebook.com/andresousapaginaoficial). Não esperava tanta recetividade da parte do público, admito, e o resto foi acontecendo: fiquei em 1º lugar no Geração Arte, iniciativa do Correio da Manhã, em maio, participei em 3 antologias poéticas e lancei o meu primeiro livro em agosto, "Juro Amar-te", pela Chiado Editora.

Este livro é basicamente um diário de tudo o que eu vivi de 2010 a 2015. É o que eu digo no resumo do mesmo: "A história começa sempre aqui, num coração que sente, que ama muito para além da morte. Num homem que erra, num homem que chora, num amante que ama." Todos os poemas escritos são sinceros e reais, escrevo com verdade. E, com isso, tento transmitir que sou apenas um homem que ama e que luta amando.

Por agora, estou concentrado em chegar aos corações de mais pessoas e nos lançamentos que tenho previstos - 14 de novembro, em Silves, e no dia 20 de dezembro, em Lisboa. No entanto, já ando a pensar num segundo livro, que será diferente deste mas que continua a falar daquilo de que eu mais gosto de escrever: o amor.

Para mais informações, contactar: 
andresousaescritor@gmail.com
geral@chiadoeditora.com

André Sousa

sábado, 7 de novembro de 2015

Na minha caixa de correio

  

  


  


 


Duas pequenas maravilhas oferecidas pela Elsinore e pela Vogais: O QueVemos Quando Lemos e Sete Mares. Qualquer deles lindo de morrer! Géneros diferentes onde as gravuras, o desenho, têm um papel primordial. Adorei!
Ofertado pela Asa, De Amor e Sangue. Será a minha próxima leitura.
Do Clube do Autor chegaram Irène e O Outro Lado da Ilha.
Faz-te Homem chegou pelas mãos da Objetiva e foi logo para o quarto do M, meu filho do meio. Tens este, mãe? Pode ser para mim?
A Menina Que Fazia Nevar comprei com 50% de desconto no Continente..
Da Planeta veio O Misterioso Senhor G e A Mão Esquerda de Deus.
Um Caminha Exemplar foi oferta da Esfera dos Livros.
Na Fnac comprei A Contadora de Histórias, com um vale de oferta.
O meu sincero obrigado a todas as editoras mencionadas por estas fantásticas ofertas que fizeram com que tivesse, nesta semana, momentos muito especiais!

Novidades Planeta

A Mão Esquerda de Deus
de Pedro Almeida Vieira
Este livro é baseado na fábula, por muitos aceite como verdade histórica, do falsário andaluz Alonso Pérez de Saavedra, que através de bulas forjadas terá passado por núncio apostólico e instituído em 1539, durante o reinado de D. João III, o Tribunal da Santa Inquisição em Portugal. 
Finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes d'Escritas, 
A Mão Esquerda de Deus é um romance poderoso e inesquecível sobre a verdade e a mentira, uma história de amor e culpa e uma viagem intemporal ao mais fundo da natureza humana, numa época em que impera a intolerância e a desumanidade.


O Misterioso Senhor G
de Daniel Sánchez Pardos
Outubro de 1874, Gabriel Camarasa regressa com a família a Barcelona após vários anos de exílio em Londres. No primeiro dia de aulas na Escuela de Arquitectura de la Lonja, conhece um jovem do segundo ano: Antoni Gaudí. Este é um enigma para Camarasa, pois possui conhecimentos de arquitectura muito superiores para um estudante da sua idade. 
Interessam-lhe os assuntos esotéricos, botânica oculta e fotografia, além de manter vários contactos no submundo de Barcelona, onde leva a cabo uma lucrativa e misteriosa actividade. Gaudí é também, ou acredita sê-lo, uma mente dedutiva de primeira ordem. 
Quando a aprazível vida de ambos os estudantes se altera devido a um assassínio e a uma obscura conspiração de consequências imprevisíveis, todas as capacidades do jovem Gaudí são postas à prova.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Novidade Saída de Emergência

Assim se Pariu o Brasil
de Pedro Almeida Vieira 
Há mais de 500 anos houve um pequeno povo, oriundo de um minúsculo pedaço da Europa, que descobriu um pedaço da costa sul-americana. E depois mandou para lá mais naus. E mais gentes. Por lá atacou índios e foi atacado por eles, procriou com índias, trouxe negros de África, procriou com negras, mandou jesuítas pregarem terra adentro, meteu-se em cultivos e garimpos, explorou o sertão, navegou por rios parecidos com o mar. Ainda lidou com a cobiça de outros países europeus sedentos em filar o seu quinhão. Tudo isso só poderia resultar em sangue e crueldade, porém bem misturado com coragem e sagacidade.

Numa prosa culta mas cheia de humor, Pedro Almeida Vieira mostra como um rato (Portugal), pariu uma montanha (o Brasil). Com ilustrações de Enio Squeff, a obra relata 25 episódios fundamentais da História do Brasil quando este era a mais rica colónia portuguesa.

Novidade Elsinor


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A Escolha do Jorge: "Até Para o Ano em Jerusalém"

"Até para o ano em Jerusalém" é o mais recente romance de Maria da Conceição Caleiro publicado pela Companhia das Ilhas cuja narrativa se desenrola ao longo do eixo Gdansk/Danzig (Polónia), Lisboa, S. Miguel (Açores) e Rio de Janeiro (Brasil).
Maria da Conceição Caleiro apresenta-nos um livro pejado de emoções que percorre meio século de História contribuindo para o (re)encontro de várias gerações de uma mesma família. Certas contingências do ponto de vista político contribuem em certa medida para o desenrolar de alguns acontecimentos nas vidas das pessoas como forma de contornar as dificuldades vigentes. É precisamente o que acontece em "Até para o ano em Jerusalém" em que algo que não estava propriamente previsto altera por completo a vida de algumas pessoas e até de toda uma família.
À medida que lemos este livro, percebemos a forma como a autora domina as várias formas da língua portuguesa, o português falado no Brasil em oposição ao português falado em Portugal, não esquecendo a vertente regional, no caso específico da ilha de S. Miguel, em que a autora emprega corretamente todo um conjunto de termos e expressões típicas do falar dos micaelenses e que só alguém que conhece tão bem a ilha o consegue fazer de forma exímia como assim acontece ao longo da obra.
Com esta amálgama ou profusão de formas de falar português, concluímos o quão plástica e rica é a língua portuguesa. Este é sem dúvida um livro que presta um bom serviço à língua e cultura portuguesas mostrando igualmente a versatilidade da escritora no domínio da língua materna demonstrando em tantos momentos a capacidade em brincar com as palavras como se de um jogo linguístico se tratasse.
A autora não poupa o leitor na abordagem de alguns assuntos tendencialmente mais controversos, contribuindo para derrubar eventuais preconceitos graças à forma crua e direta sem qualquer pudor, encarando os temas de frente, com objetividade.
"Até para o ano em Jerusalém" conta a história de Vicente, um português, professor universitário no Rio de Janeiro, em passagem por Lisboa para finalizar o seu livro, apaixona-se por Maria Luís, a artista plástica, seropositiva, que assina com o estranho nome de Kowalevsky, nome que encontrou em antigas cartas que tinha em casa.
Será possível Maria Luís ultrapassar a condenação que sente face à negação do amor perante pesada herança herdada fruto do relacionamento anterior? Ultrapassará Vicente os preconceitos instalados na sociedade vencendo o amor entre estes dois seres humanos? Há uma aproximação efectiva, porém a prazo dado que Vicente terá de regressar ao Brasil, ao seu trabalho e… ao seu relacionamento que já se encontrava em banho-maria antes da sua viagem para Lisboa.
Já no Brasil, Vicente ouve o nome Kowalevsky ser pronunciado entre os seus colegas e a partir daí a narrativa evolui numa espiral sucessiva de acontecimentos, surpresas e que vidas vividas cujas histórias se cruzam e entrecruzam com alguns dos principais acontecimentos da História da segunda metade do século XX.
Vicente conhece Iossef e Ioshua, avô e tio de David vindos de Danzig (ou Gdansk), na Polónia, (cidade-enclave que gozava de estatuto especial desde o final do século XIX) e que, em 1939, assistiram ao desmantelamento e destruição da grande sinagoga da cidade e encaminhamento dos judeus para o gueto de Gombin e posteriormente para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau na sequência da das medidas tomadas por Hitler com vista a alcançar a "solução final".
Sobrevivendo à fome e às doenças, os irmãos Iossef e Ioshua conseguiram sobreviver ao campo de concentração manifestando grande desejo de viajar para o Brasil onde tinham à data alguns familiares e amigos que os receberiam.
É neste ponto de recuperação e de reencontro com a sua própria humanidade que Iossef parte da Inglaterra para S. Miguel (Açores) como forma de trampolim para chegar ao Brasil. Na ilha de S. Miguel acabará por se ficar algum tempo na sequência de se ter apaixonado por uma jovem local cujo amor o levou quase à loucura.
Vicente a dada altura, já tão envolvido e em permanente contacto com Maria Luís, cada um de um dos lados do Atlântico, dirá "Se não fiquei com Maria Luís, fiz tudo a partir de um acaso, para lhe devolver um passado de que ela não fazia a mínima ideia." (p. 196)
É esta questão do acaso que constitui todo o motor da narrativa de "Até para o ano em Jerusalém" reconstituindo-se um dos períodos mais negros da História do século passado, mas também o reconhecimento das nossas raízes e a necessidade de escavarmos o passado na tentativa de nos encontrarmos a nós próprios, trazendo à tona pessoas de carne e osso que também se amaram e que graças a elas chegámos nós também.
Maria Luís viaja com amigos e familiares para a ilha de S. Miguel na tentativa de reunir as várias peças do puzzle, na ânsia de reconstituição do passado familiar contribuindo igualmente para a reunião da família dos dois lados do Atlântico.
David Kowalevsky e Maria Luís conhecem-se entretanto passando a nutrir sentimentos que a certo ponto poderá ser encarado como algo de incestuoso. Mas conseguirá esta ligação ou união de sangue, entre o sangue contaminado de Maria Luís que herdou também sangue judeu perseguido no passado dar frutos com a relação com David? Maria Luís e David apaixonam-se e voltam a reencontrar-se em Jerusalém. Propositadamente em Jerusalém. Daí para a frente, só o tempo o dirá… Não é por acaso que a última exposição de Maria Luís é alusiva ao tema "Sobre-viventes – Formas de Resistência e Transgressão" (p. 192)
Maria da Conceição Caleiro traz-nos desta forma uma história original, muito ritmada, levantando várias questões que se devem manter vivas na consciência de todos nós e, no fundo, da própria História.

Excertos:
"Danzig, metrópole livre. Enclave. Enclave e livre, paradoxo mas era assim mesmo. Cidade soberba, cônscia da sua posição flexível, aberta, uma clareira, acessível por mar, mar do norte bem batido, às chegas e partidas permanentes, free port, manejável por uns e outros, extorquida indevidamente aos alemães. (…) Uma judiaria especial, judeus alemães, poloneses, russos, ambiguidade profícua, ora sob a lei germânica, ora eslava com ocasionais acintes prussianos, mas seria uma comunidades especial, cidade livre, paredes meias com a Alemanha, os que eram alemães, judeus alemães controlavam, traficavam benesses, mesmo depois da subida do Grande Cão ao poder, em 33. Como se nada parecesse vir a ser.
Cidade com consciência da sua posição dual como outport da cultura alemã dos limites da Europa eslava e com um mercado livre para os produtos da Polónia interior." (p. 90)

"E ele passou por S. Miguel, e por lá ficou agitado à espera, algum tempo abrigado ou foragido. Foi ajudado por um outro, judeu sefardita, homem rico, negociante do alto comércio que tinha ligações em Inglaterra. Bonds de Guerra, e não só. Barcos, marinha mercante. Por isso lá estaria, por isso transpôs o chamado corredor de Danzig onde se amontoavam judeus e mais judeus de partida, famílias inteiras de partida, ou partidas, que se apinhavam à espera. Foi-se de lá, para trás os seus. Mais tarde, seria fretado por gente de S. Miguel um navio que rumaria até ao sul do Brasil, depois logo se via, carregado de ilhéus migrantes, para onde mais açorianos já se tinham lançado, era a vida. Era a Pátria, partir. Ele foi junto. Depois assentou finalmente no Rio. Mas entre a chegada à ilha e a partida para o Brasil, algo se passou. Algo o reteve, algo o fez balançar. Presságios? Algo o altercou. Qualquer coisa o teria desorientado e conduzido ao rés-vés da loucura. Endoidou. Esgotaram-se-lhe os nervos com o que viu? O quê?" (p. 168)

"- Mas não era judeu? – perguntei.
- Era, era… e o doutor também. E quem o trouxe também.
- Mas o doutor ficou por cá e ele foi-se embora.
- E havia mais, ainda há. Têm para ali a igreja deles, os senhores já lá foram? Ali na rua do Brum. Ninguém diria, passa-se pela frente e ninguém diria. É como os escritórios dos outros, ricos e recatados. Tem de ser.
- E a rapariga…
- O quê da rapariga?
- Foi-se consolando…
Percebeu que tinha falado demais.
- No fim deu-lhe para endoudecer.
- A quem?
- A ele. Ela iria mais tarde para Lisboa. Teve lá a criança e por lá ficou, casou-se, parece.
- Não se casou nada. Isso é o que dizem.
- A história foi muito falada, faziam-se apostas, tomavam partido." (p. 173)

"O que é isto? – estranhou Maria Luís. Íamos ter um abalo. Ao contrário de alamedas frondosas e de fontes, regatos de água imaculada, esperava-nos um ermo em pó de areia vulcânica fendido por ravinas fundas e crateras. Gargantas de Inferno a céu aberto. Impressionava de facto. Devíamos ter esperado o dia. Mas foi a noite que o fez pressentir. Bocas que largam espirais de vapor, sufocante. Pareciam os respiráculos de inúmeras baleias a expelir aquilo que nem sei a não sei quantos metros. Vapor que era exalado pelas águas fervilhando nas caldeiras. Até o chão estava quente, até ele parecia borbulhar, querer movimentar-se sozinho. Deslumbrante e ameaçador. O cenário reduzia-nos." (pp. 180-181)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

"A Morte de um Apicultor" de Lars Gustafsson

Não posso dizer que este livro me manteve num registo constante e numa leitura apaixonada em todas as suas páginas mas posso afirmar que teve em mim um efeito devastador. Por isso gostei e não gostei ao mesmo tempo.

Perdi-me nalgumas situações. Houve um capítulo que não fez sentido para mim. Deveria relê-lo certamente. Ao livro todo, quero dizer. É pequeno, bastam duas horas mais ou menos.
A parte que gostei? Aquela que me senti mais devastada. Tolhida, apertada, com o coração apertado. Lars Westin está a morrer. De cancro. No entanto, quando recebe uma carta do hospital, certamente com o diagnóstico, decide não a abrir...

O narrador apresenta-nos a história, os cadernos que Lars escreveu e que foram encontrados e despede-se: já não precisa de estar nela. Achei original este começo. A história é contada pelo próprio Lars, num registo entre o que sente, a sua dor e as suas vivências do seu passado.

E pronto. O fim é o que se espera mas não deixa de ser abrupto. Como a morte.

Terminado em 30 de Outubro de 2015

Estrelas: 4*+

Sinopse

Lars Westin está a morrer; embora se recuse a ler a carta enviada pelo hospital, que confirma o seu diagnóstico, ele sabe que tem cancro e que não irá viver até ao final da primavera seguinte.
Não aceita, porém, entregar o tempo que lhe resta ao espaço impessoal de um hospital, preferindo tomar o controlo do seu próprio destino e prosseguir com a sua vida solitária e reflexiva. Abandona a carreira de professor e inicia uma nova vida como apicultor. Prescindindo de qualquer tratamento médico, Lars continua a sua vida simples e recolhida, na sua casa de campo, em pleno cenário rural sueco.
Esta é uma história sobre a vida, em particular a vida que antecede a morte. É sobre como, com a linguagem, se esconde a verdade. É sobre a forma como a dor pode revelar o nosso verdadeiro eu.
A Morte de Um Apicultor é uma obra-prima da literatura mundial de um dos mais consagrados escritores vivos.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A Convidada Escolhe: Terra Sonâmbula

"Terra Sonâmbula" é o primeiro romance de Mia Couto. É um livro belo, difícil, singular. A linguagem poética característica dos livros de Mia Couto é surpreendente e recria o português com a singularidade da oralidade moçambicana. Um romance carregado de poesia. Dá vontade de fazer um glossário com palavras e expressões que nos surpreendem a cada linha.
É um livro difícil, sobre a guerra civil e sobre as consequências devastadoras na terra e nas gentes. As diversas personagens andam à deriva, em círculos, procuram mas não encontram, são náufragos, deslocados em fuga à procura de poiso seguro para viver. O medo é para muitos a única coisa que possuem. Farida, filha-gémea, facto já de si sinal de grande desgraça segundo as tradições locais, pergunta a dado momento: "Essa guerra algum dia há-de acabar?" Siqueleto, outra personagem diz que não está triste, apenas cansado da guerra.
O velho Tuahir e o pequeno Muidinga, este sem memória do passado e aquele sem perspectiva de futuro, encontram um velho machimbombo calcinado que se torna num precário, mas único refúgio-casa para se protegerem dos bandos e das feras. Junto ao autocarro encontram uma mala perdida e uns cadernos-diário de uma personagem: Kindzu. Estes cadernos que Muidinga vai lendo para si e para o seu companheiro Tuahir são um tesouro que agarra Muidinga àquele refúgio inóspito. As histórias que vai lendo ajudam-nos a viver para além do pesadelo da guerra, da solidão, do desespero. " – Problema é deixar este escuro entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir. " As histórias nos cadernos de Kindzu estão carregadas de magia, de crendices, de fantasia e alternam com a história de Muidinga e Tuahir sobrevivendo no machimbombo e nos percursos que os levam a lado nenhum. O que é sonho? O que é realidade? Quando são a mesma coisa, se fundem e nos intrigam?
Apesar do efeito regenerador que a magia dos cadernos de Kindzu despertava, Kindzu era "um sonhador de lembranças, um inventor de verdades. Um sonâmbulo passeando entre o fogo. Um sonâmbulo como a terra em que nascera." para Muidinga não havia passado nem se vislumbra futuro.
" - Tio, eu me sinto tão pequeno…
- É que você está só. Foi o que fez essa guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos. Agora já não há país."
Mia Couto quis neste livro trazer-nos a dor do seu povo que após dez anos de luta anti-colonial se viu logo de seguida envolvido numa longa guerra civil cujos efeitos perduram muito para além do fim oficial da guerra.

Almerinda Bento

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

"Estamos Todos Completamente Fora de Nós" de Karen Joy Fowler

Sentir um livro como verdadeiro, embora a história seja ficcionada, é, a bem da verdade, o melhor elogio que alguém poderia fazer-me caso eu fosse a sua autora. Terminei esta leitura com essa forte impressão, a de que a história narrada era real, verídica. Mesmo sabendo que não, essa sensação permanece. Talvez porque, embora pouco frequente, ela poderia ter acontecido mesmo.

A narradora, personagem principal, Rosemary, saltitando entre passado e presente, conta-nos a história da sua família. Nada de extraordinário, não pertencesse ela a uma família singular, muito especial e diferente. Não vos posso falar disso, dessa diferença, porque foi um aspecto que, ao ser revelado no livro, constituiu para mim um forte murro no estômago e não vos quero revelar nada que impeça essa revelação. E quando essa revelação feita, pensei muito sinceramente que este livro seria muito estranho, de uma ficção não esperada, que me afastaria da sua leitura. Mas continuei, curiosa, e fiquei realmente agarrada ao mistério que levou à separação de uma família.

Pai, mãe, irmão, "irmã" e Rosemary - são estes os cinco elementos que constituem este núcleo familiar. Muitas questões pertinentes foram sendo introduzidas com o virar das páginas. Que acontecimentos relevantes da nossa infãncia esquecemos propositadamente para que não interfiram no nosso presente e futuro? Como conseguimos afastá-los para que não nos incomodem? Porque arrumamos e fechamos "sem darmos conta", num canto do nosso cérebro, aquilo que não nos agradou e que poderia explicar alguns comportamentos e atitudes?
Um livro cheio de mistérios que nos vão sendo revelados aos poucos, quando Rosy, no decorrer do seu crescimento, os vai esclarecendo também para si própria. Um alerta tanto para os defensores dos animais como para aqueles que, indiferentemente, ignoram como os animais são usados em testes e estudos biomédicos e comportamentais: este livro é para vocês! Leiam-no.

Terminado em 1 de Novembro de 2015

Estrelas: 5*

Sinopse

Aplaudido pela crítica e pelos leitores, Estamos todos completamente fora de nós é um romance sobre pessoas afetuosas, mas humanas, cujas boas intenções desencadeiam consequências devastadoras para aqueles que mais amam.
Quando tinha cinco anos, Rosemary foi passar o verão a casa dos avós. Ao regressar para junto da família, descobre que a irmã desapareceu e, mais inquietante ainda, esse é um assunto de que não se fala. Os anos passam e ela permanece filha única apesar de em tempos ter tido uma irmã da sua idade e um irmão mais velho. Ambos desapareceram. Lowell é um fugitivo, procurado pelo FBI. Mas onde está Fern, a sua cúmplice, a sua alma gémea?

sábado, 31 de outubro de 2015

Na minha caixa de correio

  

  

 


Da Editorial Presença chegou a minha próxima leitura: O Arquiteto de Paris.
500 Erros Mais Comuns da Língua Portuguesa recebi da Esfera dos Livros.
Sem esperar recebi um livro juvenil e Caderno de Actividades ...
Ofertado pela Planeta recebi Saudade.
Comprado numa superficie comercial, A Flor de Lótus, o primeiro de uma trilogia.
Da Marcador recebi, A Morte de um Apicultor (que comecei hoje e espero ainda terminar antes do final do dia) e A Ilha das Mil Fontes.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Novidade Manuscrito

O Livro do Pão
de Ângela Silva
Ângela Silva é uma apaixonada por fazer pão. Depois de uma carreira em Publicidade, decidiu seguir a sua paixão e fundar a padaria Miolo, onde todos os dias fabrica pão biológico. Neste livro, a autora partilha o seu saber, truques e dicas para que também você possa fazer o seu próprio pão de forma simples, saudável e prática. 
Desde os pães básicos como o pão de espelta, centeio ou kamut, até aos enriquecidos, como o de cevada e girassol, passando pelos pães para pequeno-almoço e lanche, como o de granola, Ângela Silva ensina-lhe ainda a fazer pão para dietas alternativas, sem glúten ou sem sal, e pães a pensar nas crianças, como o pão mármore ou o pão de banana. Encontra ainda receitas deliciosas de gressinos e massa de piza. Tudo sem aditivos, e excluindo fermentos industriais e o trigo comum. 
Neste livro, a autora explica-lhe também os benefícios das farinhas biológicas e da fermentação natural e ensina, passo a passo, como fazer o seu fermento natural, como misturar, amassar e cozer o seu próprio pão no forno ou na máquina.
O pão produzido industrialmente não tem qualquer interesse nutricional. Basta olhar para os rótulos para ver que estão carregados de vitaminas, enzimas e aditivos criados artificialmente, além de quantidades excessivas de fermentos químicos, responsáveis por problemas digestivos e intolerâncias alimentares. 
Com este livro, pode fazer pão para toda a família. Delicioso. Biológico. Caseiro. 
Saudável. Vamos pôr as mãos na massa?

Novidade Topseller


Novidade Marcador

Kaya África
de Adelaide Passos
Quando, no princípio do século XX, Sara abandona uma pequena aldeia no Norte de Portugal para se juntar ao marido, José, em Moçambique, inicia-se também a epopeia de uma família ao longo de três gerações, uma aventura que espelha a história do país através da vida daqueles que arriscavam tudo num território tão generoso quanto cruel. Kaya África é um romance ambicioso e de fôlego, histórico e familiar, sobre a vida dos portugueses em África.

Novidade Planeta

Eu fui a Espia que amou o Comandante
de Marita Lorenz
São poucas as pessoas que podem dizer que viram passar uma parte importante da história do século XX ante os seus próprios olhos. Não como meros espectadores, mas quase que a devorando. 
Marita Lorenz é uma delas. 
Nasceu na Alemanha em 1939, nas vésperas da invasão da Polónia. O seu pai, alemão, era capitão de barcos; a sua mãe, americana, tinha sido actriz. 
Em criança, foi enviada para um campo de concentração – Bergen-Belsen. Pouco depois de terminar a guerra, aos sete anos, foi vítima de violação.
Embarcou com o pai várias vezes nos anos seguintes. Em 1959, a bordo do Berlin, aportou numa Havana revolucionária. Um grupo de barbudos, encabeçado por Fidel Castro, subiu a bordo. 
Foi amor à primeira vista. Uma semana depois, el Comandante mandava buscá-la a Nova Iorque e fazia dela sua amante. Tinha dezanove anos. Logo descobriu que estava grávida, mas submeteram-na a uma intervenção cirúrgica e o bebé não chegou a nascer... ou pelo menos foi o que lhe contaram.
A CIA convenceu Marita de que Fidel era o responsável pelo sucedido e enviaram-na de volta a Havana com a missão de o assassinar, mas ela não foi capaz de o fazer: continuava apaixonada por ele.
Tudo isto pode parecer suficiente para preencher duas vidas, mas há mais. De regresso a Miami, conheceu o ex-ditador venezuelano Marcos Pérez Jiménez e teve uma filha com ele.
Em Novembro de 1963 viajou de Miami a Dallas numa comitiva que integrava Frank Sturgis, um dos detidos no Watergate, e um tal de Ozzie, ou seja, Lee Harvey Oswald. 
Mais tarde foi party girl da máfia nova-iorquina e informante da polícia. Casou-se e teve um filho com um homem que espiava diplomatas soviéticos para o FBI.
A história de Marita teve luzes e sombras.
Mas é sobretudo uma história de amor e de perigo. 
A de uma espia que acima de tudo e apesar de si própria, amou el Comandante.

Novidade Booksmile


Novidade Vogais

Sete Mares
de Johanna Basford


Sete Mares é uma aventura deliciosa pelos oceanos, repleta de ilustrações encantadoras às quais deve dar cor e vida. Há muito por descobrir, desde delicadas tranças de algas marinhas até jardins de coral e magníficos navios naufragados! Ao longo deste livro irá encontrar muitos seres que aguardam pela sua imaginação e criatividade: sereias encantadas, peixes exóticos, caranguejos, polvos e búzios. Não existe aventura sem tesouro, claro: por isso, se pesquisar com cuidado poderá encontrar, espalhados pelas páginas, arcas de tesouros e artefactos preciosos. Sete Mares Inclui um poster destacável.

Novidade Presença

O Arquiteto de Paris
de Charles Belfoure
1942, Paris está ocupada pelas tropas alemãs. Lucien Bernard é um talentoso arquiteto, sem trabalho devido à guerra. Acaba de receber uma proposta que lhe pode proporcionar uma avultada quantia em dinheiro ou talvez levá-lo à morte. Tudo o que tem a fazer é projetar um esconderijo secreto para um 
judeu abastado. Um espaço tão invisível que nem o mais astuto oficial alemão seja capaz de descobrir. Lucien necessita urgentemente de dinheiro, e tentar enganar os Nazis que ocupam a sua cidade é um desafio a que ele se sente incapaz de resistir. Mas apercebe-se do perigo que isso representa. 
Valerá a pena arriscar a vida em troca de dinheiro para salvar alguém que ele afinal nem conhece? Uma narrativa cheia de ironia, intriga e emoção.

Para mais informações sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

Novidade ASA

Condenada à Morte
de Antonella Napoli
Por sua causa, o mundo susteve a respiração. Por sua causa, o mundo mobilizou-se. Quem é esta mulher que juntou num coro de protestos e indignação o Papa Francisco, Michelle Obama e milhões de pessoas anónimas nos cinco continentes? Chama-se Meriam Ibrahim e nasceu no Sudão em 1987. A sua história deu origem a “Condenada à Morte”, escrita pela jornalista e escritora italiana Antonella Napoli, que criou o movimento #SaveMeriam para dar a conhecer o caso.
Abandonada pelo pai muçulmano, Meriam foi criada no seio da fé cristã da sua mãe. Licenciou-se em Medicina e, mais tarde, casou com Daniel, também ele cristão. Meriam nunca se considerou muçulmana. Mas, em 2013, um parente não pensou da mesma maneira e acusou-a de adultério com o argumento de que a lei islâmica não reconhece o casamento entre mulheres muçulmanas e homens cristãos.
Grávida e com um filho pequeno nos braços, Meriam foi presa e chicoteada cem vezes. Nem mesmo a sua condição impediu que os maus-tratos continuassem e, no oitavo mês da gravidez, deu à luz acorrentada. Entre as paredes da prisão e em condições desumanas, nasceu Maya, a sua linda filha. Seria de esperar que tamanha crueldade quebrasse o espírito de Meriam. Mas ela não cedeu. Não renunciou à sua fé. Como castigo, os seus carrascos condenaram-na à morte.
A indignação do mundo fez-se ouvir como nunca antes. De tal forma que Meriam foi libertada em 2014. Atualmente vive nos Estados Unidos com o marido e os dois filhos. “Condenada à Morte” é a sua história, contada pela jornalista e escritora italiana que criou o movimento #SaveMeriam (http://savemeriam.org), onde o seu caso foi divulgado ao Mundo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A Escolhado Jorge: Terra Fria

"Terra Fria" é a mais recente reedição das obras de Ferreira de Castro (1898-1974) que desde 2013 a Cavalo de Ferro tem trazido novamente ao público depois de "Emigrantes", "A Missão", "A Experiência" e "A Selva".
Publicada inicialmente em 1934, "Terra Fria" constitui uma das obras mais emblemáticas de Ferreira de Castro apresentando, no entanto, algumas características que diferem um pouco da maioria das suas obras canónicas.
A narrativa desenrola-se maioritariamente na aldeia de Padornelos, concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, Trás-os-Montes profundo, já muito próximo da fronteira espanhola. Não esquecendo as duras condições de vida dos trabalhadores da região que se dedicavam de um modo geral à agricultura e à pastorícia, Ferreira de Castro transpõe com rigor a cadência dessas atividades ao longo das estações do ano permitindo ao leitor compreender não só a forma de subsistência de uma das regiões mais isoladas do país, como também o funcionamento de uma das comunidades mais ancestrais com as suas tradições que lhe são próprias com vista à sobrevivência do grupo face às inúmeras dificuldades por que passavam os seus habitantes, obrigando, em certas situações, à partilha e entreajuda não só entre elementos da mesma aldeia e/ou das aldeias circundantes.
A proximidade com o país vizinho torna o contrabando uma prática recorrente dos indivíduos mais afoitos como forma de ganhar mais algum que sirva de complemento ao magro salário que mal dá para a alimentação e manter o pequeno casinhoto com más condições de habitabilidade. Embora os riscos que os contrabandistas corram com a atividade ilícita, o leitor é levado a compreender que as muitas dificuldades económicas por que passava o país e a região em particular levava as pessoas a sobreviverem de todas as formas não olhando aos perigos que envolviam o transporte de mercadorias de um país para o outro de forma ilegal.
É neste cenário de terras transmontanas com o inverno excessivamente frio e o verão muito quente que "Terra Fria" se desenvolve, culminando em tragédia. Não tanto uma tragédia de acordo com o modelo grego em que há o cumprimento de algo trágico previamente estabelecido pelo destino ("moira funesta") que nem os deuses podem alterar o curso da ação dos homens que estão presos ao seu próprio destino. Na "Terra Fria", a narrativa vai evoluindo entre o trio amoroso (Leonardo-Ermelinda-Santiago) que de certa forma se antevê no início da obra, prevendo-se um triste desfecho, trágico no mínimo. E assim acontecerá.
A estrutura da narrativa é análoga a tantas outras histórias em que Leonardo casa com Ermelinda. Leonardo trabalha no curtume de peles e Ermelinda vai trabalhar na casa de Santiago, «o americano», que regressou da América e que decidiu investir na sua aldeia natal. Se por um lado, Santiago é visto como novidade pelo facto de ter regressado à terra, o mais apetecível para a comunidade é mesmo o dinheiro que acumulou no estrangeiro durante anos de exílio, podendo de alguma forma beneficiar dos dólares ganhos por terras estrangeiras.
Se Ermelinda beneficia de um trabalho pago acima da média, há também o retorno que se traduz nos jogos de alcova entre Santiago e Ermelinda que rapidamente é seduzida não só pela graciosidade da maneira de estar diferente do seu patrão-amante em comparação com Leonardo, o seu marido que é um homem rude, mas trabalhador.
Ermelinda rapidamente se envolve emocionalmente com o patrão que também tudo faz para a seduzir à semelhança do que fazia com outras jovens das aldeias limítrofes sendo, pois, essa a sua fama que corria em Padornelos.
As estações do ano vão passando e Ermelinda continua a ir de manhã para casa de Santiago, regressando ao final do dia para o seu marido Leonardo até que algo na história toma lugar alterando o curso da narrativa e, consequentemente, a vida de cada um dos personagens, culminando então em tragédia.
A tragédia no romance "Terra Fria" não é atribuída aos caprichos do destino na medida em que o leitor sabendo que poderá acontecer algo funesto, vai acompanhando o desenrolar da história na sequência de um conjunto de decisões tomadas pelos principais personagens. Aqui a morte é o resultado de um ressentimento que se acumula transformando-se em ódio. O ressentimento nietzschiano transforma-se em loucura incapaz de encarar a realidade com sentido e lucidez, acabando num ato atroz, ignominioso.
Enquanto que nas tragédias gregas o espetador sabe de antemão o desenlace da história, mas ainda assim fica estarrecido com a representação dos personagens e com o cenário envolvente, em "Terra Fria" o leitor tem sempre a perceção dos factos, sabe sempre onde está a verdade à medida que os acontecimentos vão tendo lugar, ficando, pois, a faltar o desenlace final que é poder provocar (ou não) o efeito surpresa.
Em "Terra Fria", cada vizinho julga ser o detentor da verdade, andando de boca em boca correspondendo em primeira instância ao zum-zum transmitido entredentes, ao diz-que-diz que rapidamente se transforma no mexerico que alimenta toda a aldeia. A pequena comunidade julga saber a verdade e é em nome dessa mesma verdade que se pretende que se cumpra a justiça.
Para estas pequenas comunidades, o cumprimento da justiça é tantas vezes associado ao "cá se faz, cá se paga", pois para pessoas com menos estudos e cultura, por vezes a necessidade de justiça urge, daí que tantas vezes se oiça em justiça pelas próprias mãos.
De forma a evitar situações que tragam desconforto e até a própria injustiça, "Terra Fria" apresenta também o antídoto face ao acima exposto, de que toda a comunidade é em parte co-responsável por certos acontecimentos, pois na medida em que os vizinhos se julgam dotados de verdade e justiça, apenas a consciência de um dos personagens é capaz de conduzir ao volte-face final da história. Assim, graças à consciência para encarar a dura verdade e as suas consequências, a justiça é cumprida e os ânimos acalmam. Também o leitor fica tranquilo porque tudo acaba em bem.

Excertos:
"- E o que vais fazer? – perguntou, com palavras macias, húmidas de uma ternura que ele próprio ignorava.
- Ainda não sei bem. Parece que é para tratar da casa, das roupas e do gado. Não sei! Mas seja lá o que for, o que é preciso é ir para a frente...
Ele não pôde dominar-se mais. Largou o sacho e, avançando para a mulher, abraçou-a, comovido como nunca se sentira depois que tinha casado.
- Ainda havemos de ser muito felizes! Ainda havemos de ser muito felizes, vais ver!... "

"Gentes que viviam ainda sob remotas tradições, muitos habitantes de Barroso acreditavam no poder incontestável da ponte de Misarela sobre os ventres infecundos ou que não sustinham o fruto, desde que as mulheres implorantes se submetessem às práticas que os antigos aconselhavam. Essa crença estendera-se a muitas léguas de distância e até de Cabeceiras de Basto e de Braga acorriam ali candidatas a mães, na esperança de que a semente do homem germinasse. Se, apesar de tudo, útero estéril continuava, à ponte não se atribuía a culpa e sim a quem ela viera e não soubera manter as usanças necessárias para que a fecundação prosperasse. Teria sido por isso, teria sido por aquilo, os logrados e si próprios responsabilizavam pela derrota do seu intento."

"Linguareira, a «tia» Augusta semeara a novidade e logo, sob a sensação imprevista, que a todos perturbou, as gentes vieram postar-se à margem do caminho que a pecadora devia fazer. Estavam as velhas e os velhos de cara de pau, lábios repuxados para dentro, como se boca desdentada os quisesse devorar; estavam os de meia idade: elas, esguedelhadas, ludras, mas tão fiéis aos maridos que nem a miséria quotidiana lhes era tão fiel; eles, enjorcados, remendos por toda a parte, faces negras de barba e um cigarrito chupado em silêncio. E estava também a canalha miúda, atraída pela pasmaceira dos adultos e teimosa em deixar-se ficar, por muito que os pais, não querendo ruído, ordenassem a sua retirada."

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

"Vamos Pintar Juntos" de Buster Books




Desta feita usei lápis de colorir.

Não sei propriamente a razão, mas voltei à minha infância, quando passava horas a pintar e lembrei-me de muitas brincadeiras e acontecimentos que tive num país sem guerra, ainda, e onde Portugal mais não era que um ponto longínquo no mapa. O meu pensamento vagueou para bem longe e amigas da primária surgiram nos meus pensamentos. Talvez porque há poucos anos tivemos a felicidade de nos reunirmos após 40 anos sem sabermos nada umas das outras. A isso devo ao Sr. Mark Zuckerberg que, apesar dos defeitos que lhe apontam, teve o condão de juntar uma amizade há muito separada mas não esquecida.

E, se é isto que apontam como anti-stress, ao esquecermos tudo à nossa volta quando pegamos num livro assim, então o objectivo foi atingido e superado até. Os minutos passaram e, quando terminei a pintura, regressei de um lugar mágico para um lugar onde a magia acontece todos os dias, o meu lar, a minha família.

E mais folhas existem para mais viagens fazer...




O meu obrigada à Planeta pela oferta deste livro.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

"Vai e Põe Uma Sentinela" de Harper Lee

Tal como muitos leitores, gostei muito de "Por Favor Não Matem a Cotovia". Estava, por essa razão, muito curiosa com esta obra. Curiosa e apreensiva, sobretudo porque um livro que ficou escrito e guardado tantos anos poderia não ter a mesma força narrativa que o primeiro. O primeiro que foi publicado, entenda-se, mas que na realidade foi escrito depois deste, "Vai e Põe Uma Sentinela". Assim, em termos de escrita, este livro como primeira tentativa da autora poderia não possuir a força que tem "Por favor, não Matem...". Não foi o caso, felizmente.

Não fiz esta leitura ao sabor de comparações entre os dois livros. Já não o conseguiria fazer, mesmo se quisesse, porque não me recordo da história com todos os pormenores. São histórias que a meu ver se completam. O "Por favor..." é-nos contado por uma criança, Scout, e aos olhos de uma criança, o pai, Atticus, é um herói. Na realidade, ele comporta-se como tal e defende contra tudo e todos um indivíduo negro numa época em que brancos e negros se confrontam e onde o racismo tem uma alta manifestação de violência.

Em "Vai e Põe Uma Sentinela", Scout é já uma jovem adulta e, numa vinda a casa para passar férias, descobre que o pai não é o tal modelo que imagina. Reage com violência e toda ela entra em convulção. Defende o que lhe foi incutido em criança. Os seus sonhos caem por terra mas crescer é isso mesmo. Saber dar a volta, verificar que as pessoas não possuem só duas cores, preto e branco, e que por vezes mudam. Quem não se lembra de, em criança, achar que os pais sabem sempre tudo e nunca erram? Crescer é admitir que as pessoas são isso mesmo. Pessoas! Que erram e que alteram as suas crenças, para o melhor e para o pior. Scout cresce interiormente com essa descoberta...

Esta personagem, com todo o seu fulgor, contestação e pureza, mantém-se, nos seus traços gerais, idêntica à descrita no Por Favor Não Matem A Cotovia. Sendo a personagem central é a que está mais desenvolvida e à qual o leitor sente uma empatia directa, instantânea, quase física. No entanto, Harper Lee revela-se uma contadora de histórias em todos os sentidos já que é com paixão que os restantes personagens são apresentados por Scout, no desenrolar da história.

A narrativa prende, apaixona o leitor.

Gostei muito deste livro e recomendo-o por isso.

Terminado em 23 de Outubro de 2015

Estrelas 5*

Sinopse

Jean Louise Finch - Scout - a inesquecível heroína de Matar a Cotovia, regressa de Nova Iorque a Maycomb, a sua cidade natal no Alabama, para visitar o pai, Atticus. Decorre o turbulento período de meados de 1950, numa nação dividida em torno das dramáticas questões raciais. É com este pano de fundo que Jean Louise descobre verdades perturbadoras acerca da sua família, da cidade e das pessoas de quem mais gosta, o que a leva a interrogar-se sobre os seus valores e princípios, e a confrontar-se com complexos problemas de ordem pessoal e política.

Vai E Põe Uma Sentinela, romance inédito de Harper Lee, cujo manuscrito se havia perdido mas descoberto em 2014, foi escrito antes de Matar A Cotovia e apresenta-nos muitos dos personagens dessa mítica obra, agora vinte anos mais velhos. Um livro magnífico, comovente e de grande fascínio de um dos maiores vultos da ficção contemporânea.

Harper Lee nasceu em 1926 em Monroeville, no Alabama. Frequentou o Huntingdon College e estudou Direito na Universidade do Alabama. É a autora de Matar a Cotovia, eleito o Melhor Romance do Século pelo Library Journal, em 1999, do qual já foram vendidos mais de 30 milhões de exemplares em todo o mundo. Harper Lee foi distinguida com inúmeros galardões, incluindo o Prémio Pulitzer, em 1961, e a Medalha Presidencial para a Liberdade, em 1999, pelo seu contributo prestado à literatura.

Trailer: https://youtu.be/4vNSVI9sc-g
Para mais informações ver Editorial Presença aqui.

domingo, 25 de outubro de 2015

"Um Momento Meu" de Paulo Caiado



A convite da editora Marcador tive um convite especial para participar num pequeno almoço no Altis Belém Hotel & Spa e numa conversa com Paulo Caiado, autor de Um Momento Meu, juntamente com outras bloguers, alguns membros da editora e Paula Guedes do BSpa by Karin Herzog.

Uma manhã de sábado que se revelou cheia de surpresas e um "bate-papo" muito agradável com Paulo Caiado: como surgiu o livro, as suas dificuldades, momentos marcantes do antes e depois da publicação. Confirmei a ideia com que fiquei ao lê-lo, tudo o que lá está é autobiográfico ou biográfico. Sente-se isso na leitura, tal como referi aqui no meu comentário.

 

E, quando olhámos para a mesa e vimos a oferta que o autor, muito simpaticamente, tinha preparado para cada uma de nós, ficámos maravilhadas: uma capa livro personalizada com o nosso nome bordado, uma belíssima obra de Catarina Sábio (cchandmade.withlove@gmail.com), que mereceu uma foto especial.




O evento terminou com uma rápida visita ao Spa e terraço, uma simpática oferta de um voucher para uma massagem e algumas amostras dos produtos de Karin Herzog. Um hotel que gostei muito de conhecer. Está tão bem integrado no ambiente que parece pertencer ao rio que está ali mesmo ao pé.










Obrigada Marcador, Paulo Caiado e a Paula Guedes pelos belos momentos passados! Foi um óptimo momento meu, não tenho dúvidas!